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sábado, dezembro 07, 2019

O rasgão



Causa-me perplexidade ver a facilidade com que nos estamos a habituar à ideia de que nos é legítimo destruir os nossos só porque são nossos. Uns, de facto, outros, de direito.
De facto…
É inacreditável como se vêm avolumando as notícias de que as relações que deveriam ser de amor estão envolvidas em violência. Porquê?
É inacreditável como abandonamos e rejeitamos os mais frágeis de entre nós, seja na fase do berço, seja já adultos, fazendo desta uma sociedade que se satisfaz em proclamar princípios, mas que os contradiz, a cada instante.
Mas não deixa de ser igualmente inquietante ver como deixámos que se tornasse legítimo destruir os nossos, no plano do direito.
De direito…
Deixámos que se instalasse, de direito, a violência de uma mãe sobre o seu filho ainda não nascido. Deixámos, legitimando, aplaudindo e chegando a rejeitar os que ousam retomar a inquietude que nunca nos deveria ter abandonado.
Como podemos, depois de legitimar tal violência, ficar surpreendidos que haja outros sinais de violência quando permitimos e acolhemos como boa a violência naquele que é o último porto seguro da nossa existência: o do colo da mãe?
E, agora, depois de termos legitimado tal violência, propomo-nos dar mais um passo.
Já não nos bastava ter legitimado a violência da mãe sobre o filho. Faltava-nos legitimar a violência do filho sobre a mãe.
O Parlamento prepara-se para a legitimar, legalizando a eutanásia. De mansinho, bem certo. Já assim fora, em 1984 e nos referendos de 1998 e 2007. Os mais de 185 mil abortos entretanto realizados demonstram que a exceção se tornou banalidade.
Como, depois, poderemos ficar surpreendidos que se agudizem os sinais da violência numa sociedade que a assume como um direito?
E muitos defendem tal direito em nome de um suposto avanço. Como se não tivéssemos, ao longo da história, já percorrido tais caminhos que a vitória da civilização e da humanidade sobre a incivilização e a desumanidade tinha deixado para trás. (Não posso deixar de recordar, neste contexto, o que já repetidas vezes fui recuperando, em alguns dos meus textos: o Tribunal Europeu dos Direitos humanos deliberou, sem possibilidade de recurso, em 16 de dezembro de 2010, com 11 votos a favor e 6 contra, que o aborto não é um direito humano e, por isso, é legítimo que os Estados o penalizem.)
O que fazemos, agora, não é andar para diante: é regressar a lugares onde pensávamos já não querer voltar.
Também os gregos já abandonaram os seus idosos e abortaram e rejeitaram os seus débeis (Hipócrates, que viveu entre 460 e 370 a.C., afirmava, no seu célebre juramento: ‘não darei a nenhuma mulher uma substância abortiva’, o que permite concluir ser uma prática então existente que Hipócrates repudia); o mesmo se passava entre os povos do centro da Europa que venceram os romanos ou no Oriente longínquo e em tantas e tantas tribos daqui e dali. Mas a civilização marcadamente personalista e humanizada foi vencendo tais práticas e realizando o ideal do respeito inviolável pela pessoa humana.
O que se está, portanto, a pretender, não é avançar, mas retroceder. E se fosse um passo em frente seria semelhante ao de alguém que, vestindo um especial fato domingueiro, se apercebesse de que este ficara preso a um pequeno prego. Se der um passo adiante, tal significará abrir um rasgão provavelmente irreparável. Constatando tal obstáculo, melhor será dar um passo atrás que assegure que se desprendem as vestes de tal entrave. Avançar significará consolidar o rasgão e decretar o fim da tão amada veste.
Estamos aqui! O rasgão está a abrir-se, de forma cada vez mais profunda. Haveria que dar o passo atrás (que, como vimos, seria o verdadeiro progresso rumo à humanização da sociedade, contrariando o que muitos pretendem dizer, ao rotular de posição conservadora ou passadista!) para garantir que não se rompe, em definitivo, a solidez do nosso tecido (social). Mas insiste-se na indiferença para com o risco associado ao prego a que se prendeu o nosso fato.
Até quando continuará a abrir-se o rasgão? Até quando resistirá o tecido tão penosamente elaborado em demorado tear?


domingo, outubro 27, 2013

O poder de quem perdoa

Na lógica de poder em que parece assentar a nossa sociedade, quem é forte e exerce sobre os mais frágeis a sua violência julga-se vigoroso e possuidor do maior poder. Contudo, um olhar mais atento constatará que, após o exercício da violência, quem detém o poder é o agredido. Não apenas num plano moral ou religioso. Se olharmos com cuidado, o agredido tem o poder mais vigoroso de permitir a reconciliação do agressor com a sua própria consciência. Se o agredido não perdoar, de nada valerá o desejo da reconciliação.

Ilustro esta minha constatação com uma história real, que ouvi contar ao coordenador nacional da pastoral penitenciária, Pe. João Gonçalves, que a terá ouvido de um membro da pastoral penitenciária brasileira. Em certo Estado brasileiro, ocorreu um assassinato de que resultou a detenção e punição do assassino. A mãe da vítima, feito o luto da morte do filho, convenceu-se de que o seu sofrimento de mãe não era o único sofrimento materno que aquele assassínio provocara. De algum modo, também a mãe do assassino do seu filho sofreria violentamente, pois – afirmava a mãe da vítima - nenhuma mãe cria um filho para o tornar um assassino. Firme na sua convicção, encontrou-se com a mãe do assassino do seu filho, a quem manifestou que, no seu íntimo, lhe tinha perdoado e, por isso, partilhava com a outra mãe a tranquilidade que aquele perdão gerava em si mesma. O perdão gerou laços entre as duas famílias que, após descobrirem partilhar a mesma fé, se encontraram, na prisão, por altura da Páscoa de um desses anos.

Sem o perdão, nenhuma daquelas mães encontraria descanso, sossego e tranquilidade de alma, pois a ofensa, quando não perdoada, encarrega-se de devorar o ofensor e o ofendido, destruindo o seu íntimo.

O desafio cristão de perdoar setenta vezes sete, expressão semítica com que se pretende referir o sem-limite, é, para além de um enorme repto de teor religioso, em si mesmo uma manifestação de profunda leitura do íntimo humano. Quando há ofensa e não ocorre o perdão, todos perdem e jamais se encontra a paz.

Desta certeza se dá nota num dos mais belos filmes da história do cinema, a «Lista de Schindler», num densíssimo diálogo entre o bondoso Schindler e o demoníaco Amon, chefe de um dos mais tristemente célebres campos de concentração, o de Płaszów. Vale a pena recordar o diálogo.

Diz Amon, já ébrio, a Schindler- «Sabes? Olho para ti. Observo. Nunca estás bêbado. Isso é verdadeiro controlo. Controlo é poder. Isso é poder.»

Faz-se silêncio. Um silêncio denso, de quem está a procurar a verdade.

Schindler quebra o silêncio com uma pergunta.

- «É por isso que nos temem?» - Referia-se aos que padeciam as atrocidades dos nazis, nos campos de concentração.

 Amon responde, com crueldade: - «Temos o poder de matar. É por isso que nos temem.»

Schindler riposta, usando, primeiramente, a linguagem que Amon entende, para, depois, o levar onde pretende.

- «Temem-nos porque temos o poder de matar arbitrariamente.

Um homem comete um crime. Não o deveria ter feito. Mandamo-lo matar, e sentimo-nos muito bem por isso. Ou matamo-lo com as nossas próprias mãos e sentimo-nos melhor. (Schindler refere-se, aqui, à crueldade do próprio Amon e não a si mesmo) Contudo, isso não é poder. É justiça. É diferente de poder. Poder é quando temos todas as justificações para matar… e não o fazemos.»

Amon, surpreendido e desarmado, pergunta: - «Achas que isso é poder?»

Schindler responde-lhe com a linguagem que Amon entende: - «Era o que os imperadores tinham. Um homem roubava uma coisa, era levado perante o imperador… Atirava-se ao chão, implorava misericórdia. Sabe que vai morrer. E o imperador perdoa-lhe.»

 Amon já não entende nada: - «Acho que estás bêbado.»

 Schindler remata: - «Isso é poder, Amon. É poder.»
Na verdade, estou convencido de que este é, de facto, o maior poder que possuímos. É o poder de dar nova vida a quem sente que não merece desculpa, mas encontra, no perdão do outro, uma nova oportunidade. E a vida rejuvenesce.

Quão diferente seria o mundo se o poder que vigorasse fosse esse e não a ilusão do domínio do outro! Há ofensas difíceis de suportar, bem certo, como ilustra a história verdadeira acima contada, mas não aceitar perdoá-las duplica a sua agressividade, pois destrói, no íntimo, o humano que há em nós. Perdoar é uma força que permite olhar, de frente, o mal e destruir-lhe o seu poder demolidor. Já assisti à reconciliação de uma família desavinda há trinta anos porque o ofendido aceitou o pedido de perdão de quem ofendera… e todo o tempo de não perdão ficou com tons de tempo perdido. É por isso que vale a pena ousar exercer este poder de perdoar… Para ganhar o tempo. Para ganhar tempo!

sábado, agosto 24, 2013

Sobre a deficiência - «o silêncio dos inocentes»


Se, para nós, for claro e evidente o caráter sagrado da dignidade humana, há comportamentos que jamais nos admitiremos por nos sabermos interiormente obrigados ao dever de respeito inviolável pela outra pessoa. Mas tal não diminui a dureza nem atenua o desafio que tal decisão comporta. Um pai ou uma mãe, que se deparam com a notícia da possibilidade de o seu filho, que se gera no ventre materno, ser portador de uma malformação grave, vivem uma dor solitária sobre a qual vale a pena refletir. Uma dor com que convivi, no período de gestação dos meus dois filhos. Em relação a ambos recaiu, desde as primeiras semanas de gestação, a probabilidade forte de serem portadores de Trissomia 21, uma doença vulgarmente conhecida como «mongolismo» e que debilita fortemente a autonomia da pessoa, além do preconceito social que sobre esta doença recai. A decisão de não proceder a amniocentese, pelas possibilidades acrescidas de aborto espontâneo e pela inutilidade prática da intervenção - pois desde sempre nos entendemos devedores à vida e interiormente decididos a respeitar cada filho nascituro - favoreceu a ansiedade até ao momento do nascimento. Mas tal fez-nos viver a experiência densa do desafio que a deficiência comporta, pessoal e coletivamente.

A deficiência é marca definidora da condição humana. Mas ganha particular notoriedade em alguns de entre nós. É, porém, pela sua singularidade, nesses de entre nós em quem é mais visível a condição a que todos pertencemos, que julgo dever-se olhar atentamente para o seu significado. Não sou dos que entendem que seria ideal uma sociedade sem deficientes. Repugna-me, até, imaginar como se chegaria aí. Foi a intenção de tantos ao longo da história, cuja lição deverá continuar muito viva nas nossas memórias. O erro desses e de tantos de hoje está, precisamente, em presumir que a deficiência seja uma condição de inutilidade. Nada mais enganador. Na verdade, estou certo de que a deficiência mais visível de alguns é sinal para todos da nossa comum fragilidade, da nossa comum vulnerabilidade. Uma sociedade que já não é capaz de se reconhecer nos seus mais frágeis e que os abandona, abandonando, com eles, os seus cuidadores, é uma sociedade que tem tudo para se desumanizar, esquecendo que a condição humana é a da fragilidade, não a da invulnerabilidade. Expresso, neste momento da minha reflexão, uma sentida homenagem aos muitos cuidadores silenciosos que conferem amor à condição deficiente, aos muitos que, desde a minha juventude, pude ir conhecendo em experiências de voluntariado que fiz, na Vagueira e Figueira da Foz, em colónias de férias desenvolvidas pela ASBIHP e pelo Hospital de Alcoitão, e na mais próxima e longa relação com a inexcedível comunidade dos membros da APCDI que, no concelho de Sever do Vouga, vem contribuindo para se transformar a imagem da deficiência. Não tenho dúvidas de que é o trabalho discreto, mas paciente e frutuoso, destes muitos cuidadores, que vem contribuindo para que se modifique a imagem ainda tão encravada na mente de muitos de que a deficiência seja uma maldição ou um castigo. Ela é, sim, um desafio a que nos humanizemos todos.

Diante disto, o repto é claro e foi-me particularmente pungente nestes meses que antecederam o nascimento do meu segundo filho, uma menina. Não se pode viver, sozinho, a deficiência de um filho. É um dever de sociedade acolher os seus mais frágeis e assegurar as melhores condições para que sejam humanamente felizes, qualquer que seja a sua condição. É, ainda mais, um dever de Estado. Para que serve, afinal, um Estado, se abandona os seus mais débeis cidadãos e os entrega, unicamente, à singularidade de uma decisão sobre matar ou deixar viver, como se nessa irrevogável decisão se garantisse a liberdade suficiente para se poder considerar um Estado de consciência tranquila? É, por fim, uma voz que deve incomodar a própria comunidade dos crentes. Nas horas que antecederam o nascimento da minha filha, muitas vezes me interroguei sobre a resposta de Igreja para os pais a quem é dada a notícia de uma deficiência grave e permanente nos filhos. Uma matéria sobre a qual valerá a pena refletir. Onde está, nessa hora, a presença solícita com a palavra de salvação e de esperança? É um momento denso que se constitui como desafio, como interpelação à incomodidade. Esses pais que, diante de tal notícia, se agigantam como reais heróis, necessitam da capa da proximidade, do elixir da certeza de que não caminharão sozinhos, pois a comunidade a que pertencem, por serem destinatários da salvação que veio para todos pois para todos veio o Salvador, estará ao seu lado e não os deixará sucumbir ao desespero. É uma hora densa que necessita do fragor de um abraço cuja intensidade não diminua com o passar do tempo.

Sei que as palavras não diminuem a dor dos que, em cada dia, rotina após rotina, sem aparentes retornos, se dedicam a um filho cujo amanhã parece ser continuar a sofrer, mas não posso deixar de recorrer à força que as palavras ainda têm para inquietar, para incomodar, para contribuir para unir corações. A verdadeira compaixão é, na sua origem, a unidade íntima no sofrimento, é sofrer com o outro. Para isso deverão servir as minhas palavras: para despertar os que possam andar mais distraídos. Temos, entre nós, verdadeiros heróis, que, no seu silêncio, constroem a sociedade mais humana que desejamos, mas que, quando chega a hora de a tornar real, queremos perfeita como não são os humanos. Porque os humanos são, por definição, imperfeitos. Disso nos dão consciência vívida os portadores de deficiências: eles falam-nos da verdadeira humanidade. Não da que andamos sempre a idealizar, mas da real, que é feita de pequenas superações. Se a deficiência fizesse mais parte do nosso quotidiano, as pequenas conquistas teriam maior reconhecimento.

O rasgão

Causa-me perplexidade ver a facilidade com que nos estamos a habituar à ideia de que nos é legítimo destruir os nossos só porque são nos...