Terminado o oitavário pela unidade dos cristãos, parece que se fecham as tendas de uma feira em que se expuseram boas intenções, aguardando pela mudança do calendário, como se mais nada ocorresse, entretanto. No entanto, esta é apenas uma ilusão. Na verdade, de há muito que ocorre, semana após semana, em cada ano, em cada escola deste país, pública ou particular, um discreto e pouco badalado momento permanente de ecumenismo e diálogo inter-religioso.
A surpresa desta notícia é, seguramente, para muitos, tão grande como a expectativa sobre o facto a que estarei a referir-me. Tanto maior quanto o desconhecimento sobre o precioso trabalho que a este mesmo facto se deve na causa da defesa dos mais nobres valores, dos mais sólidos alicerces de uma sociedade que se pretende plural, respeitadora, mas também capaz de assegurar o conhecimento e reconhecimento das identidades e das particularidades.
Em cada semana, mais de cinquenta por cento dos alunos de todo o ensino básico nacional fazem parte deste delicado, longo e sólido trabalho de ecumenismo que envolve, não só alunos católicos, mas também ortodoxos e protestantes dos mais diversos ramos. Descobrem o que causou as ruturas, bem certo, mas entendem, também, que, como me dizia, há dias, um aluno, essa é só a primeira parte de uma narrativa que, na disciplina de História, só lhe contam ser de conflito. Ele acabava de descobrir que, afinal, essa história era, de há mais de cem anos, uma outra história de aproximação e encontros. Nunca ouvira falar da palavra «ecumenismo», que confundia com «comunismo» e «economia», como tantas outras pessoas a quem pedi que, com os seus colegas, entrevistasse.
Esse acontecimento diário, que ocorre em todas as escolas deste país é, ao contrário do que muitos querem continuar a fazer crer, parte da solução e não do problema ecuménico em Portugal. Esse acontecimento diário, que se faz com mais de metade de todos os alunos que frequentam as nossas escolas, chama-se «educação moral e religiosa católica». Uma disciplina que, mesmo os próprios cristãos, parecem continuar a desconhecer, desconsiderando-a como menor. Uma disciplina em que se descobre a fraternidade das três religiões do Livro (7º ano), ou a unidade e diversidade do cristianismo (8º ano) ou, ainda, o que possam ter a ensinar o ateísmo e o agnosticismo, assim como as religiões orientais (9º ano). Uma disciplina que, a partir de um lugar identificado, o da matriz cristã católica, se dispõe a dialogar. Um diálogo que não acontece, apenas, enquanto desejo. Nela se realiza, de facto, o que pretende. Assim me acontece, em concreto, pois, entre os meus alunos contam-se não apenas católicos, mas também de outras confissões (mais numerosos são os ortodoxos) e, mesmo, descrentes que se sentem em busca, realidade plural que sei acontecer com tantos outros professores deste país.
Mas, nesta nação em que se cultiva o adiamento da esperança, muitos teimam em não querer reconhecer que ali, naquela disciplina dita menor, está a acontecer história.
Como dizia D. António Couto, num debate organizado pela Diocese, em Estarreja, esta é uma geração nova, mais disponível para o ecumenismo e o diálogo inter-religioso. E não duvido de que muito tem feito por isso a EMRC. Assim se queira reconhecer.
Luís Silva
quinta-feira, janeiro 24, 2013
quarta-feira, janeiro 16, 2013
A ousadia de não desanimar
Os tempos de urgência podem distrair do que é
importante. É um dilema sempre difícil de solucionar. O de saber se se deve
acudir à emergência de um momento, se continuar a manter o olhar largo e longo
para o horizonte.
É uma tensão que o Cristianismo desafia a que não
se diminua, quer por se adormecer no sonho de um mundo melhor (que não faria de
nós senão puros utópicos, distraídos do hoje), quer por se atolar na lama do
agora. A tensão tem de se manter. Continuar de mãos enfarinhadas na história,
mas com a certeza de se estar a construir algo melhor.
Vêm estas palavras a propósito das dificuldades por
que passam os portugueses, nesta hora, em que a necessidade de garantir a
correspondência às imposições que nos estabelecem os credores faz, em cada dia,
mais vítimas, quer pelo desemprego, quer pela impossibilidade de corresponder
aos compromissos pessoais assumidos ao longo de vidas.
Julgo que a tensão acima enunciada deve definir a
resposta, nesta hora.
Por um lado, criando respostas que permitam suprir
as necessidades imediatas. Um desafio a que as comunidades cristãs não podem
virar a face. Urge a mobilização de todas as estruturas de fraternidade que
permitam assegurar que nenhuma família soçobre à crise porque ninguém deu mão.
Como dizia Churchill, numa célebre carta de 1901 a um deputado compatriota,
«não há grande glória num Império que consegue dominar os mares e não consegue
tratar os seus esgotos». A Portugal nem o domínio dos mares resta, hoje. Mas,
de que valerá corresponder aos seus compromissos se os seus filhos sucumbirem?
Contudo, a urgência da resposta não pode distrair
de uma leitura em profundidade que a todos deve interrogar. A crise que vivemos
é, antes de mais, uma crise de insolidariedade. A muitos pareceu, ao longo de
décadas (talvez séculos, até!) que o que era de todos era para o maior
benefício dos que disso se sabiam aproveitar. Quando, na verdade, o que é de
todos a todos deve servir e por todos deve ser tratado com carinho e dedicação.
Sejam bens, sejam lugares de poder ou serviço, sejam, ainda, os devidos
impostos. O próprio nome de «imposto» deveria, em definitivo ser banido e
substituído pela ideia de «tributo», mais consentânea com a ideia de repartir,
dividir, porque o bem de que beneficiamos resulta do contributo (com+tributo)
de todos. A riqueza que se possui não é um bem absoluto, mas um empréstimo,
quer dos que nos precederam, quer dos nossos contemporâneos, quer, ainda, dos
vindouros. A doutrina social da Igreja sempre afirmou que o direito à posse era
um bem, contudo subsidiário do princípio do destino universal dos bens.
Possuir, de forma injusta, desproporcionada em relação à pobreza envolvente é inumano
e deve ser problematizado e gerido, de modo a assegurar a mais ajustada
distribuição.
Ora, para o Estado poder gerir esta distribuição da
riqueza deve fazê-lo de modo a gerar confiança. Deve criar mecanismos que não
traiam a confiança dos cidadãos que querem e devem querer participar da
construção de uma sociedade mais justa. Na verdade, a interrogação que a todos
assalta, nesta hora em que a todos se pede que participem no reequilíbrio das
contas públicas (que a todos devem dizer respeito), é a de saber se, após a
participação num tal desiderato nacional, o que a todos diz respeito não beneficiará
a apenas alguns. Uma dúvida que o Estado tudo deve fazer para que se extinga.
Uma exigência que se configura, em Portugal, no apelo a que o sistema judicial
seja, de facto, cego por não ser de primeira ou de segunda, de acordo com o
nível económico ou social; uma exigência que se estrutura no apelo a que os
decisores políticos também participem no esforço de todos, para o que muito
ajudaria que a legislação sobre os cargos políticos fosse feita por uma
estrutura (um senado? tribunais especiais para tal criados?) diversa da
assembleia da república, de modo a eliminar a sombra de que quem legisla sobre
si mesmo tenderá a beneficiar-se nas decisões.
Mas outros desafios se colocam, ao fazer-se a
leitura das causas desta crise. Quantos portugueses continuam a olhar para o
Estado como uma entidade estranha, alheia à sua vida, confundindo-o com o
governo? Uma confusão que gera o desabafo de que não se pretende pagar mais
impostos por se estar farto desta ou daquela governação. A causa do desabafo
não é contudo, exclusivamente causada pela incapacidade de distinguir. Também
os próprios decisores políticos têm favorecido, ao longo dos tempos, a
convicção de que governar é governar-se. Urge, assim, uma nova atitude:
- de quem elege, compreendendo que o Estado é formado
por todos e a todos diz respeito, pedindo-se, por isso, maior responsabilidade,
no momento de escolher quem deve dirigir os destinos dos bens que a todos dizem
respeito;
- de quem é escolhido, colocando no centro da ação
política o bem comum, que deve centrar-se na pessoa humana. Os bens acumulados
devem servir esta e não servir-se dela.
Se crise é, como a etimologia pretende dizer, um
momento de purificação, mesmo que doloroso como o do ouro que se purifica no
crisol, esta pode ser uma hora de desafio e crescimento. Se para trás não
deixarmos ninguém e a todos soubermos incluir na abertura de um horizonte de
melhor futuro. É a hora da ética e da moral. A hora dos valores que respeitam a
dignidade dos mais frágeis. Se não for assim, de que serve existir Estado?
Luís Silva
domingo, dezembro 02, 2012
Jesus, presente de Deus
Se é verdade - como diz Pessoa, o
poeta que tão genialmente soube fazer da alteridade a condição para se dizer a
si mesmo - que a língua portuguesa é nossa pátria, valha-nos, nesta hora de
tantas crises, a riqueza do idioma para compensar outras pobrezas. Na
realidade, em nenhuma outra língua das que se nos disponibilizam se conseguiria
exprimir com tal força a densidade que pretendemos reunir no título que serve
de pretexto a este texto. Se o quiséssemos dizer em francês, em inglês, em
espanhol ou uma outra das que se nos acercam, não saberíamos se dizer
«présent», «presente», «present» (para exprimir a dimensão temporal) ou se
cadeau, regalo ou gift (para repercutir a dimensão de «dom» e «oferta»). Mas,
na nossa pátria, é impossível fazer-se a oferta sem se lhe associar a nossa
presença, que é tempo e lugar de acontecimento.
Tal densidade linguística parece
conferir à nossa língua o estatuto de idioma teológico, por tão resolutamente
reunir a densidade do acontecer salvífico.
O acontecer, na história, da
doação de Deus enquanto oferta não devida, mas de vida, expressa o desejo de Deus de pretender tornar-se
contemporâneo do homem, não apenas rebaixando-se, mas, mais ainda, elevando o
homem. É na glorificação do homem que se manifesta a divindade e não pela sua
aniquilação. Apesar de tantas vezes negada pela prática de muitos cristãos, que
se convenceram de que a afirmação de Deus teria de operar-se pela negação do
humano (incorrendo num adopcionismo latente), esta é uma verdade que faz parte
do núcleo cristão que, desde a primeira hora, reconheceu no homem Jesus a
presença e manifestação do Cristo divino. Assim, o acontecer da encarnação não
expressa a anulação do que há de humano para o substituir a fim de que aconteça
o divino, mas antes a afirmação em cinzel de que a «glória de Deus é o homem
vivo» (Santo Ireneu).
O acontecer da encarnação se é,
por isso, uma autêntica manifestação de quem é Deus, enquanto ser que se
relaciona (que é marcado pela pessoalidade, que se define como ser de relação,
como amor, como trindade), é ainda mais acontecimento que revela a enorme
dignidade do humano, repto para tempos que pretendem fundir no indiferente e na
mera individualidade não relacional.
Assim o expressa, de forma inigualável
Andrés Torres Queiruga, num seu texto sobre a ressurreição, recolhido no livro
‘Quem é/quem foi Jesus Cristo?’, recentemente publicado: «Entre as categorias
de que dispõe o pensamento humano, só as pessoais podem ajudar a compreender –
ainda que de bem longe – esse mistério pelo qual a máxima comunhão com Deus não
conduz à dissolução do indivíduo, mas à sua máxima afirmação. Trata-se dessa
única e maravilhosa dialéctica do amor que tão bem exprimiu Hegel, ao afirmar que
consiste numa relação estranha, na qual «ser no outro» constitui a verdadeira
forma de estar consigo mesmo; que diferencia e afirma na mesma medida em que
une; que faz com que quanto mais se dá mais se tem. E o mesmo tinha dito, com
mais intensidade, se possível São João da Cruz, falando ousadamente de uma
reciprocidade tão absoluta entre Deus e a criatura que, assim como a pessoa
humana se recebe de Deus, também Deus se recebe dela.»
O presente temporal de Deus dá
pelo nome de bem-aventurança eterna, sendo «graça» o nome com que se reconhece
o presente oferecido por Deus. Termos que desmontam toda a tentação de
sustentar este encontro no dever ou na obrigação. A sua matriz é, antes, o
amor, que só o é se for graça – tão gratuito
como pleno de humor, pois tal nos
permite descortinar a nossa pátria Língua! O humor da felicidade definitiva!
Luís Manuel Pereira da Silva
quarta-feira, novembro 21, 2012
Perguntas de antropologia teológica 1
O homem tem corpo e alma?
A pergunta é feita por muitos e
ganha pertinência, nestes tempos que parecem oscilar num balancé que nos leva
do extremo da fusão na matéria à fusão no espírito. Mas a resposta não é tão
óbvia como um olhar distraído possa fazer crer.
Para responder, comecemos por dar
conta de que se se «tem» alguma coisa é porque existe um sujeito bem definido
que exerce essa propriedade. Logo, esse algo que se tem é exterior ao mesmo
sujeito.
Com este pressuposto, é fácil
concluir que se o homem possuir «corpo» ou possuir «alma», ao falar do Homem estaremos
a falar de algo diverso desse alguém que possui. O que nos obriga a fazer uma
escolha de entre duas opções: ou manter a linguagem e então andaremos em busca
do referido alguém que possui esse corpo e essa alma ou, então, corrigir a
linguagem.
E a opção da antropologia cristã
vai, sem margem para dúvidas, para a segunda opção. O homem não «tem» corpo e
não «tem» alma, mas sim «é» corpo e «é» alma.
Na verdade, num processo que se
foi consolidando lentamente ao longo da história, a visão cristã sobre o que
seja o homem sempre se opôs a dois tipos de conceções opostas: a monista e a
dualista. A conceção monista fundia o homem no corpo (reduzindo-o a pura
manifestação da matéria, fora da qual nada há) ou no espírito, (transformando o
homem numa espécie de anjo caído). A conceção dualista afirmava que corpo e
alma eram, em si mesmos, duas substâncias independentes, que se uniam para a
vida na terra e se separavam na morte. Esta segunda conceção considerava que a
alma, enquanto substância em si, era a origem do bem, enquanto o corpo, como
substância distinta, era causa do mal.
Tais conceções foram
reiteradamente recusadas pela teologia cristã, ainda que a tentação de lhes
ceder seja frequente.
No equilíbrio entre estas duas
conceções opostas, o cristianismo sempre sustentou que corpo e alma não são
substâncias distintas, mas princípios de ser que não se podem conceber
distintos e separados um do outro. O homem é corpo – é relação com os outros,
com o mundo, definido na sua identidade, contra todas as conceções que
pretendem fundir o homem com uma espécie de energia cósmica. É a corporeidade
que suporta a identidade relacional; o homem é alma, enquanto interioridade e
abertura ao transcendente.
Neste quadro, o corpo sai revalorizado,
contra todas as tentações de lhe atribuir a origem do mal. Já a própria
antropologia paulina reconhece que não é o corpo a origem do mal, mas o coração
do homem, isto é, o homem todo, nas suas escolhas e decisões.
E também a alma sai reforçada
enquanto dimensão do homem que o torna distinto dos demais seres, em particular
num tempo que pretende fundir a dignidade humana com a natureza animal, nada
mais vendo do que uma pequena diferença na quantidade de genes que o tornam um
entre iguais.
quarta-feira, outubro 24, 2012
Ano da fé – tempo oportuno ou adiado? (A fé cristã está sob suspeita?)
A suspeita que os célebres mestres, Nietzsche, Freud e Marx, lançaram sobre a fé já se desvaneceu? E porque foi tão profunda que, mesmo decorrido mais de um século sobre a sua descida, qual neblina silenciosa, ainda não resplandece o céu azul sobre a fé cristã? Ou, até, em muitos momentos, parece, mesmo, que se projectou sobre a neblina uma qualquer imagem holográfica que ilude estar-se perante um céu verdadeiro? Porque continua a temer-se o encontro com os que perguntam pelas razões da nossa fé? Porque continua a sentir-se a impressão de que há medo de perguntar pelos desafios efectivos que o encontro com a cultura contemporânea coloca à fé cristã?
Não é esta a atitude que preconiza Bento XVI e que lhe assistirá, seguramente, à convocação para um ano da fé. Provam-no os seus escritos, ao longo de mais de cinquenta anos de reflexão (é, no mínimo surpreendente, por exemplo, o alcance do seu pensamento, na sua recuperada «Introdução ao Cristianismo», onde não se teme, por exemplo, integrar as implicações de uma adequada compreensão evolucionista na própria reflexão sobre o homem e o seu encaminhamento para Deus).
Julgando, por isso, fazer justiça a este desiderato profundo de renovar, em cada momento, sem medo, - tão frequente é o «não temais» nos evangelhos! – as razões para a fé, é, seguramente, oportuno ouvir, de novo, as mais acutilantes críticas que a suspeita (a Paul Ricoeur se deve o cognome de «mestres da suspeita») tem lançado sobre a fé e que urge saber ouvir e perceber o alcance nela escondido. Não para colocar a fé em atitude de apologia, regressando a um tipo de discurso que favoreceu a emergência da suspeita, por se fechar num círculo auto-justificativo, mas sim para distinguir o que é essencial e acidental nessa crítica. Em muitos casos, a crítica enuncia-se sobre aspectos periféricos, que contribuem para ridicularizar o «depósito da fé», seja adequada, seja inadequadamente. A distinção entre o essencial e o acessório, critério tão claramente definido na Unitatis Redintegratio como condição para a realização do ecumenismo, continua a ser assumido de forma titubeante.
Mas regressemos ao ponto em que nos propúnhamos recolher as mais acutilantes críticas formuladas à fé cristã.
O século XIX, envolvido no seu optimismo antropológico e científico, que confiava num progresso ilimitado e, mesmo, infinito, olhou para a fé como o resultado de uma projecção do desejo humano. No dizer de Feuerbach, a teologia deveria ser reduzida a antropologia, pois o que se dizia de Deus mais não era do que a expressão do que se desejava que o homem fosse. Este ponto de partida foi assumindo diversas configurações e matizes. Formulou-se como afirmação de que a fé contribuía para a alienação do homem – o homem transferia para Deus a sua própria natureza – ou a fé religiosa mais não era do que o ópio do povo, contribuindo para o distrair dos reais problemas que uma sociedade intrinsecamente mal estruturada favorecia.
A pertinência desta crítica continua hoje a merecer atenção. Deve continuar-se, ainda hoje, a perguntar se a fé é um mero sossego dos espíritos, o que, a sê-lo, trairá a própria natureza da fé, que deve contribuir para a inquietação perante a perdição humana. Só perante o Santo, que é Deus, é possível ver quanto ainda o homem deve progredir. Mais do que um olhar para trás, a fé só pode responder a esta crítica afirmando-se como um olhar para diante, não para fugir do presente, mas para o fermentar. O erro esteve em perder-se esta tensão: em esgotar o homem, ou no futuro, ou no passado. Hoje, esgota-se o ser humano no presente. E a fé pode impedir, curiosamente, que o homem sofra uma nova «vaga» de alienação, abrindo-o à memória e à esperança.
Uma segunda crítica é a que qualifica a fé como obscurantista. Curiosamente, na nossa sociedade portuguesa esta é uma crítica que vem, muitas vezes, dos que pertencem a sociedades secretas, pouco propensas à exposição e clareza de procedimentos. Convenhamos, porém, que a fé cristã deu, muitas vezes, o flanco, ao não ter sabido afirmar que a sua crítica a certos modos de fazer ciência não era uma revolta contra a ciência, mas contra a construção da ciência feita negando o homem (ciência sem ética) ou contra a ciência absolutizada (que esquece que a ciência é competente a conhecer os seus objectos de investigação e segundo os seus métodos, mas incapaz de se estruturar como uma explicação última para o sentido do mundo, do homem, da história…). A história, apesar de casos mal contados como o de Galileu, demonstrará, a quem estiver disposto a estudá-la sem preconceito, que é impossível fazer uma história da ciência sem contar com o contributo da fé cristã. Leia-se, a título de sugestão, a obra «o que a civilização ocidental deve à Igreja Católica», de Thomas Woods, Jr.
Uma terceira crítica, decorrente da anterior, atribui à fé a causa do fundamentalismo e do fanatismo.
Mais uma vez, a primeira responsável pela pertinência da crítica estará na própria forma de vivência da fé que parece enclausurar-se em circuitos explicativos redundantes, receosos da crítica. Contudo, esta não será, de todo justa se esquecer que não lhe é específico o comportamento fanático ou fundamentalista. Ele emerge sempre que alguém se sente inseguro e incapaz de explicar aos demais os motivos das suas escolhas. Assim acontece na política, no futebol, nas manifestações nacionalistas, etc. A religião e a fé não são, de facto, a origem do fanatismo, antes um seu instrumento por parte dos menos esclarecidos. Não é a religião que é fanática, mas sim alguns fanáticos que se apropriam da religião para fortalecer as suas opções de poder. Assim, importa tomar consciência de que, em vez de ser a origem do fundamentalismo e do fanatismo, pelo contrário, a fé religiosa pode ser o seu maior antídoto. Na verdade, só pode combater-se o fundamentalismo e o fanatismo revelando que tudo na vida terrena é relativo perante o único absoluto que é Deus e que nunca é conquistado pelo homem de forma definitiva. Esta consciência só é possível com a fé. De outro modo, a história torna-se absoluta e perverte-se.
Uma quarta crítica teve em Nietzsche o seu grande patrono. Filho de pastor pietista, o poeta alemão julgou ver na fé cristã a causa de uma moral de fracos que, não conseguindo vencer aos vencedores de outro modo, lhes impõem a moral como forma de os controlarem. Esta moral configurava-se, para o autor da «Gaia ciência», como uma negação da vitalidade do corpo, da pujança da vida, tornando o homem amorfo, como se fosse necessário dispensar o corpo para crer. Ora, uma tal crítica ainda hoje pode ser oportuna e desafiadora. Quantos modelos de santidade mais parecem negação do que afirmação de humanidade! A própria arte popular deu um contributo para a validade desta crítica ao representar santos como se não possuíssem vontade própria. Importa, por isso, compreender que a antropologia cristã recuperou o corpo para a salvação. É o homem todo, não uma parte de si, que se salva. Mas a crítica deve continuar no horizonte, para que a moral social e pessoal não se estruturem sobre uma ideia de fuga do mundo, mas antes de assunção do que este tem de processo de caminho para Deus.
Ainda que possivelmente datadas pela época de optimismo que definiu o século XIX, estas críticas continuam a servir de suporte a outras que mais não são do que manifestações destas mais profundas. Tal continuará a exigir a coragem de perguntar se as nossas escolhas e as nossas razões dadas da fé continuam a permitir responder afirmativamente à pergunta: «quando o Filho do Homem voltar, encontrará a fé sobre a terra?» (Lc 18, 8)
Luís Silva
quarta-feira, setembro 12, 2012
Manifesto por uma humanocracia cristã
A história está
convencida de que chegou ao seu termo. Dizem! Aliás, os próprios que o disseram
já não estão tão certos disso, mas a ideia continua a fazer escola. Na verdade,
depois de Fukuyama, autor de um célebre livro que recebeu como título «o fim da
história», muitos são os que defendem que atingimos o modelo último de
organização da sociedade política e da economia. Esta ideia resulta de
convicção de que, após a queda das ideologias e dos regimes totalitários, já
não restará senão a democracia e o capitalismo.
Não estou certo
disto. A história fez-se e define-se pela efemeridade dos sistemas que, ou se
desenvolvem ou são substituídos por outros sistemas. E este não tem razão para
ser diferente. Sucumbirá como os demais e verá surgirem dos seus escombros novas
respostas e modelos de organização Resta saber se será fazendo dos escombros
peças a contemplar ou poeira a ocultar.
Ora, sente-se
no ar a emergência de novos modelos, pois os sinais vertiginosos de que o
modelo vigente possa começar a sucumbir podem passar despercebidos, mas deixam
o seu perfume espalhar-se. Na verdade, não são de hoje as palavras de João
Paulo II que alertava, na sua encíclica de 1991, «Centesimus Annus», para os
riscos da absolutização do modelo capitalista, sendo que sucumbira, com a queda
do Muro de Berlim, aquele que se pensava ser o único modelo rival.
Muitos são os
indícios que parecem dar razão a este alerta do Papa polaco e que nos fazem
sentir a impressão de um certo retorno às tentações vigentes por altura dos
primeiros documentos eclesiais sobre matérias sociais. Na realidade, em finais
do século XIX, a concentração da riqueza nas mãos de poucos, a desvalorização
da pessoa no contexto da economia, o silenciamento das histórias pessoais
propiciaram a emergência de respostas que configuraram modelos alternativos.
Neste contexto,
o cristianismo procurou envolver-se e não ficar alheio aos desafios que se
afiguravam diante de si.
Ontem, como
hoje, o Cristianismo é chamado a encontrar respostas e a não bastar-se com
modelos sempre efémeros, erroneamente tomados como certos e definitivos.
Em verdade, se
não o souber fazer, será mesmo ultrapassado pela história. Importa, porém,
sublinhar que nenhum modelo será, também ele, capaz de configurar, de forma
definitiva, o que seja o pensamento do cristianismo sobre as sociedades. A sua
leitura escapa sempre às tentativas de aprisionamento. Aliás, o pressuposto de
todo o modelo que se pretenda devedor das intuições cristãs não poderá senão
ter este dado como premissa paradoxalmente absoluta: a sua efemeridade, pois a
história não é a eternidade.
Neste quadro, exige-se,
antes de mais, uma resposta que saiba ultrapassar as soluções para um suposto dilema
entre Estado e Indivíduo, como se não restasse outra hipótese. Na verdade, o
pressuposto deste dilema esquece o ponto de partida de toda a resposta cristã:
o fim de toda a actividade política e económica não pode ser senão a pessoa e o
fim da pessoa é a eternidade. Este terá de ser o lema da «humanocracia cristã» do
qual decorrem consequências enormes. A maior delas é a certeza de que Estado,
instituições, bens, etc., são sempre meios e, por isso, nunca fins em si
mesmos. Tal postura coloca uma política de matriz crista numa lógica de
«humanocracia». Não é o povo, anónimo e desconhecido, reduzido à condição de
eleitor ou mero cidadão, quem (parece que) governa, mas sim a pessoa humana,
definida pela sua identidade e pela sua história. Ela é memória e projecto. O
registo deverá ser sempre o da protecção da pessoa, em todas as suas dimensões,
sabendo sempre que as instituições da sociedade (empresas, organizações não
governamentais, partidos, etc.) e o Estado não são fins em si. O seu papel é o
serviço da pessoa humana. Não uma entidade abstracta, sem raízes, nem história.
Este dado, aparentemente teórico, neutro e inócuo, exige uma posição de
compreensão de que o que a pessoa é, nas suas buscas mais autênticas e
verdadeiras, deve ser respeitado. Também aqui se redefine o modo de fazer a
política que tenha em conta as vivências públicas e pessoais, colectivas e
individuais, inaugurando uma justa laicidade, que não é esquecimento das
religiões, mas são convivência e aliança para um contributo comum. Que tenha,
também, em linha de respeito, a construção lenta, demorada do modelo de
família, de reconhecimento da dignidade da vida humana, seja na fragilidade do
seu início, seja na debilidade do seu fim, e que não force abruptamente a
transformação dos modelos, em nome de ideologias da razão abstracta, incapaz de
integrar o que lhe diz a razão histórica que é sempre situada e protectora da
vida. A razão abstracta, que idealiza o homem no vazio, convenceu muitos, por
exemplo, de que «ser mãe» é o mesmo que um homem «fazer de mãe». À razão histórica
não é preciso muito para concluir quão imenso é o abismo entre o «ser» e o
«parecer que é». A mesma razão abstracta idealizou um homem sem dimensão
religiosa e espiritual, dimensão que a razão histórica conclui ser impossível dissociar
da construção colectiva do humano.
Porque nem
todos têm a mesma capacidade de crescer e progredir, de alcançar o sucesso e de
o conservar, a opção deverá sempre recair sobre os mais desfavorecidos, seja
económica, seja socialmente, não em nome do Estado e contra quem quer que seja,
mas em favor de todos, pois o pressuposto da matriz cristã não é o conflito,
pressupondo uma liberdade que acaba onde começa a do outro, mas sim uma
liberdade que aumenta com o aumento da liberdade do outro. O alicerce
principial que deverá sempre estruturar esta relação é o da subsidiariedade: o
que pode fazer uma estrutura ou entidade mais próxima das pessoas não deverá
ser assumido pelas entidades superiores. Tal pressuposto combaterá todos os
monopólios, sejam de Estado sejam empresariais, e acentuará, contra todo o
anonimato, a organização de políticas de proximidade.
Uma tal matriz
não pode sustentar-se sobre a injustiça, sobre a mentira, sobre a afirmação que
tem a duração da expectativa de atingir o poder. Seja nas relações internas a
uma nação, seja na relação entre nações. A mentira, a falta de verdade mina a
estrutura política, as sociedades, as relações interpessoais e conduz,
progressivamente, a sistemas de poder que têm de perpetuar-se pela violência e
pela lei da força. Para consubstanciar tal pressuposto, a «humanocracia cristã»
deverá sustentar-se no pressuposto de que o poder tende a corromper, pelo que
deverá existir a disponibilidade permanente para abandonar o seu exercício se
tal for a resposta mais justa e mais verdadeira.
Deverão tais
linhas de configuração de um outro modo de agir político e económico originar
movimentos concretos e estruturados, paralelos aos existentes? A tentação de
responder afirmativamente não é pequena. Na verdade, ao configurarem-se em
partidos, as matrizes dos sistemas enunciados deixam sempre de fora algo de
importante. Bem certo que a política é a arte dos possíveis. Mas, serão os
possíveis tão pouco? Não é verdade que, ou temos partidos que são capazes de
assegurar o respeito pela autoridade, pelo rigor, pela exigência, mas que
tendem a proteger os mais fortes, esquecendo a opção pelos mais pobres, ou,
então, temos partidos que, pretendendo-se protectores dos mais frágeis,
idolatram o Estado como se ele fosse um fim em si mesmo e que sempre se
pretendem numa dinâmica de revolução que afoga os modelos historicamente
conquistados? Não é verdade que ou temos partidos que falam de um
desenvolvimento económico a longo prazo, e que esquecem a justiça imediata para
com os mais débeis, ou, então, temos partidos que esgotam no imediato o crédito
de que dispõem, impondo, num segundo momento, ditaduras que tentem perpetuar-se
por fracasso do modelo?
Se a história
demonstrar que tais linhas cumprem a sua função enquanto horizontes de ideal,
configurá-las em movimentos é traí-las; mas se o grito dos mais débeis o
exigir, os braços não podem abandonar o arado.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
A propósito do azul masculino e do rosa feminino… | Igualdade de género ou igualdade entre os sexos?
Começo este artigo com uma nota de ordem cultural. Conta-nos Homero, na Odisseia, que Ulisses, na viagem de regresso a Ítaca, pediu aos ...
-
O Parlamento recusou, por curta margem, a legalização da eutanásia. Como muitos já deram a entender, trata-se, apenas, de um «até já». Não...
-
A interrogação parece distante e teórica. Para muitos, parecerá, mesmo, uma recuperação da redondez da pergunta sobre o ovo ou a galinha. Co...
-
O homem tem corpo e alma? A pergunta é feita por muitos e ganha pertinência, nestes tempos que parecem oscilar num balancé que nos ...