Na lógica de poder em que parece assentar a nossa sociedade, quem é forte e exerce sobre os mais frágeis a sua violência julga-se vigoroso e possuidor do maior poder. Contudo, um olhar mais atento constatará que, após o exercício da violência, quem detém o poder é o agredido. Não apenas num plano moral ou religioso. Se olharmos com cuidado, o agredido tem o poder mais vigoroso de permitir a reconciliação do agressor com a sua própria consciência. Se o agredido não perdoar, de nada valerá o desejo da reconciliação.
Ilustro esta minha constatação com uma história real, que ouvi contar ao coordenador nacional da pastoral penitenciária, Pe. João Gonçalves, que a terá ouvido de um membro da pastoral penitenciária brasileira. Em certo Estado brasileiro, ocorreu um assassinato de que resultou a detenção e punição do assassino. A mãe da vítima, feito o luto da morte do filho, convenceu-se de que o seu sofrimento de mãe não era o único sofrimento materno que aquele assassínio provocara. De algum modo, também a mãe do assassino do seu filho sofreria violentamente, pois – afirmava a mãe da vítima - nenhuma mãe cria um filho para o tornar um assassino. Firme na sua convicção, encontrou-se com a mãe do assassino do seu filho, a quem manifestou que, no seu íntimo, lhe tinha perdoado e, por isso, partilhava com a outra mãe a tranquilidade que aquele perdão gerava em si mesma. O perdão gerou laços entre as duas famílias que, após descobrirem partilhar a mesma fé, se encontraram, na prisão, por altura da Páscoa de um desses anos.
Sem o perdão, nenhuma daquelas mães encontraria descanso, sossego e tranquilidade de alma, pois a ofensa, quando não perdoada, encarrega-se de devorar o ofensor e o ofendido, destruindo o seu íntimo.
O desafio cristão de perdoar setenta vezes sete, expressão semítica com que se pretende referir o sem-limite, é, para além de um enorme repto de teor religioso, em si mesmo uma manifestação de profunda leitura do íntimo humano. Quando há ofensa e não ocorre o perdão, todos perdem e jamais se encontra a paz.
Desta certeza se dá nota num dos mais belos filmes da história do cinema, a «Lista de Schindler», num densíssimo diálogo entre o bondoso Schindler e o demoníaco Amon, chefe de um dos mais tristemente célebres campos de concentração, o de Płaszów. Vale a pena recordar o diálogo.
Diz Amon, já ébrio, a Schindler- «Sabes? Olho para ti. Observo. Nunca estás bêbado. Isso é verdadeiro controlo. Controlo é poder. Isso é poder.»
Faz-se silêncio. Um silêncio denso, de quem está a procurar a verdade.
Schindler quebra o silêncio com uma pergunta.
- «É por isso que nos temem?» - Referia-se aos que padeciam as atrocidades dos nazis, nos campos de concentração.
Amon responde, com crueldade: - «Temos o poder de matar. É por isso que nos temem.»
Schindler riposta, usando, primeiramente, a linguagem que Amon entende, para, depois, o levar onde pretende.
- «Temem-nos porque temos o poder de matar arbitrariamente.
Um homem comete um crime. Não o deveria ter feito. Mandamo-lo matar, e sentimo-nos muito bem por isso. Ou matamo-lo com as nossas próprias mãos e sentimo-nos melhor. (Schindler refere-se, aqui, à crueldade do próprio Amon e não a si mesmo) Contudo, isso não é poder. É justiça. É diferente de poder. Poder é quando temos todas as justificações para matar… e não o fazemos.»
Amon, surpreendido e desarmado, pergunta: - «Achas que isso é poder?»
Schindler responde-lhe com a linguagem que Amon entende: - «Era o que os imperadores tinham. Um homem roubava uma coisa, era levado perante o imperador… Atirava-se ao chão, implorava misericórdia. Sabe que vai morrer. E o imperador perdoa-lhe.»
Amon já não entende nada: - «Acho que estás bêbado.»
Schindler remata: - «Isso é poder, Amon. É poder.»
Na verdade, estou convencido de que este é, de facto, o maior poder que possuímos. É o poder de dar nova vida a quem sente que não merece desculpa, mas encontra, no perdão do outro, uma nova oportunidade. E a vida rejuvenesce.
Quão diferente seria o mundo se o poder que vigorasse fosse esse e não a ilusão do domínio do outro! Há ofensas difíceis de suportar, bem certo, como ilustra a história verdadeira acima contada, mas não aceitar perdoá-las duplica a sua agressividade, pois destrói, no íntimo, o humano que há em nós. Perdoar é uma força que permite olhar, de frente, o mal e destruir-lhe o seu poder demolidor. Já assisti à reconciliação de uma família desavinda há trinta anos porque o ofendido aceitou o pedido de perdão de quem ofendera… e todo o tempo de não perdão ficou com tons de tempo perdido. É por isso que vale a pena ousar exercer este poder de perdoar… Para ganhar o tempo. Para ganhar tempo!
domingo, outubro 27, 2013
quinta-feira, outubro 10, 2013
«Anda lá, anda lá»
«A partida definitiva de pessoas que amo ou admiro, bem como daquelas que não se vê quem as possa substituir, deixa-me sempre bloqueado e a ruminar a dor que me vai dentro. Por vezes, sinto vontade de escrever, de dizer, de gritar. Mas tenho medo das palavras, de tal modo elas descoram os sentimentos e atraiçoam o que dizemos na dor.»
Recolho de «a vida também se lê» palavras que tomo como minhas para prestar ao seu autor, D. António Marcelino, a minha homenagem de quem sente a unidade infinita de corações.
Para os que o conheciam, é sabida a sua impaciência perante a acomodação e o quietismo. «Anda lá, anda lá», eram as suas palavras de irrequietude contagiante. Com a sua passagem, nada podia continuar como dantes... Com a sua passagem pela nossa diocese de Aveiro, nada poderá continuar como dantes. Ainda não soubemos honrar, definitivamente, o dom que foi termos um Bispo que soube ser pioneiro: o sínodo geral e parcial (de jovens), o incentivo aos ministérios laicais, ao diaconado permanente, à formação, através do Iscra, a coragem de estar e permanecer onde outros não ousavam sujar os pés, a sinceridade de quem desarma. O tempo fará justiça por, talvez, em vida, ela não ter sido a devida. E a justiça passará por sabermos amar os nossos pastores e, neles, toda a Igreja, a começar pelos seus mais frágeis.
Muito ficou por falar, D. António, mas, agora, une-nos a comunhão dos santos.
Recolho de «a vida também se lê» palavras que tomo como minhas para prestar ao seu autor, D. António Marcelino, a minha homenagem de quem sente a unidade infinita de corações.
Para os que o conheciam, é sabida a sua impaciência perante a acomodação e o quietismo. «Anda lá, anda lá», eram as suas palavras de irrequietude contagiante. Com a sua passagem, nada podia continuar como dantes... Com a sua passagem pela nossa diocese de Aveiro, nada poderá continuar como dantes. Ainda não soubemos honrar, definitivamente, o dom que foi termos um Bispo que soube ser pioneiro: o sínodo geral e parcial (de jovens), o incentivo aos ministérios laicais, ao diaconado permanente, à formação, através do Iscra, a coragem de estar e permanecer onde outros não ousavam sujar os pés, a sinceridade de quem desarma. O tempo fará justiça por, talvez, em vida, ela não ter sido a devida. E a justiça passará por sabermos amar os nossos pastores e, neles, toda a Igreja, a começar pelos seus mais frágeis.
Muito ficou por falar, D. António, mas, agora, une-nos a comunhão dos santos.
quarta-feira, outubro 02, 2013
«l’État» somos nós
O momento de eleições é sempre um excelente
pretexto e contexto para refletirmos sobre como nos vemos enquanto sociedade.
Se como mera soma de indivíduos ou se como uma autêntica comunidade, se como
uma mera convergência de interesses ou se como uma comum unidade de história e
cultura, em dinâmica de construção coletiva para um futuro melhor.
Tendo sempre para o segundo fator de cada um destes
binómios, mas reconheço-me, muitas vezes, quase ultrapassado pela realidade,
que parece teimar em impor-me que já não há lugar para esperanças e ideais.
Mas, como me apraz repetir, posso não mudar o mundo, mas espero morrer com a
consciência tranquila de que tentei fazer a minha parte.
A frase que serve de título a esta reflexão
partilha autorias. No seu original, atribuído ao Rei-Sol, Luís XIV,
pronunciada, muito provavelmente, em 1655, a frase dizia «l’État c’est moi» (O
Estado sou eu) como manifestação do despotismo iluminado, que encontrou a sua
expressão máxima, entre nós, em D. João V, em D. José e no seu ministro,
Sebastião José de Carvalho e Melo, que ficou para a história como Marquês de
Pombal. O Estado parecia confundir-se com uma pessoa, o que o tornou uma
entidade distante e pouco geradora de simpatias e cumplicidades.
O tempo passou, mas as marcas dessa visão do Estado
permanecem. O Estado continua, para muitos, a ser uma entidade longínqua e
distante, algo abstrata. Tal visão, acrescida da carga totalitária mais recente
com que determinados movimentos quiseram conotá-la, tem favorecido a perda
daquele que deveria ser o sentido genuíno e ético do Estado moderno, que
pretendo consubstanciar na nova formulação da afirmação: o Estado somos nós. E
temos a particular sorte de estarmos num momento em que já se distanciam no
tempo as conotações ideológicas e revolucionárias que poderiam trazer carga
pejorativa à afirmação quase panfletária. Esta frase, dita, há cinquenta ou
sessenta anos, poderia conotar-se com os ideais totalitários de algumas
revoluções marcadamente ideológicas e pouco disponíveis para uma reflexão
tranquila e serena como a que nos propomos fazer, agora. Conceção nada
coincidente com a nossa visão do que deva ser o Estado e de como deva
relacionar-se com a sociedade civil. Sou devedor, pelo contrário, da perspetiva
cristã que sustenta que esta relação entre Estado e sociedade deve reger-se
pelo princípio da subsidiariedade, que defende, desde Pio XI, na sua encíclica
«Quadragesimo Anno», que, se uma estrutura mais próxima das pessoas pode
garantir as respostas justas, não deve ser uma instância superior a fazê-lo.
Neste registo, o Estado deve ser o garante de que a sociedade funciona e se
baseia em valores estruturantes, sem, porém, ocupar todo o espaço que cabe à
mesma sociedade. De outro modo, seria um Estado totalitário.
Concluir que o Estado somos nós é, neste momento,
um repto fortíssimo, pois, se o Estado somos nós, de facto, o que a todos diz
respeito por todos deve ser tratado com cuidado e especial dedicação. Tal
afirmação exige uma outra atitude da parte de todos. Uma atitude que comece por
compreender que dizer «Estado» não é o mesmo que dizer «governo», pois deste se
espera que faça a boa gestão daquele, ainda que aquele o transcenda. Feita esta
aclaração, decorre daqui uma exigência sempre nova: a de que cada um compreenda
que o que é de todos a todos deve pertencer e por todos deve ser bem tratado.
Uma exigência que é, primeiramente, ética, moral. A de cada um contribuir com o
que é devido para que, na hora de beneficiar, receba o que é de direito.
Verifica-se, porém, que, como se fosse reminiscência daquela visão distante do
Estado, cada cidadão parece mais apto a exigir o que é de direito do que a
cumprir o que é devido. Tal posição desequilibra a balança da relação,
pervertendo-a.
Se se pretende maior lisura da parte dos políticos
ela deve verificar-se, também, entre os cidadãos. Aliás, é importante notar que
a política não é um exercício de alguns, mas, originalmente, a condição de quem
vive em sociedade, na cidade (em grego, pólis). A cidadania é, aliás, uma outra
forma de dizer esta mesma condição (em latim, civitatem, de que vem
«cidadania», quer dizer «cidade»). Como podem pretender reivindicar mais
moralidade entre os «políticos» aqueles que fogem à sua obrigação de pagar os
impostos devidos, com mentiras sobre a sua real condição, agindo
fraudulentamente para com todos, muitas vezes com o argumento de que sobre a
sua vida privada nada têm a ver os outros? Como vivemos em sociedade, todos os
nossos atos têm repercussões coletivas, pelo que devem ser bem refletidos.
A este propósito, Camões dizia que «o rei fraco torna
fraca a forte gente», porém, o contrário também é verdade. Se «a gente» está na
mentira, pactua mais facilmente com a mentira de quem gere a coisa pública.
Merecem reflexão, neste contexto, os números recentemente publicados por um
estudo feito pela faculdade de economia do Porto que referem que existirá uma
economia paralela correspondente a cerca de 26% do PIB, perfazendo um volume de
mais de 44 mil milhões de euros. Números que devem fazer refletir. Se o Estado
somos nós, como podemos estar-nos a fazer isto?
É certo que os incentivos vão em sentido contrário.
Parece ser mais compensador dizer-se a inverdade de que não se está casado
quando até se está, como se tal pudesse ser uma legítima estratégia de gestão fiscal,
sendo, afinal, um modo imoral de escapar ao dever de pagar impostos. Casar
parece ser, em termos fiscais, mais penalizador do que não se estar, matéria em
que o Estado dá, ele mesmo, um sinal perigoso para a sua própria
sustentabilidade futura. Ou afirmar que se tem um rendimento inferior pois -
diz-se - o dinheiro dos nossos impostos «vai sempre para os mesmos». Ou tantas
outras estratégias dissimuladas usadas para abafar a consciência.
Se não ousarmos combater esta ideia tão enraizada
de que o Estado seja um alvo longínquo a abater, em vez de o entendermos como a
organização necessária da sociedade, será difícil que o próprio Estado não
avolume a sua desconfiança em relação aos próprios cidadãos, sinal que vem,
também, sendo dado e motivador de particular preocupação. É esta confiança que
serve de base à ideia da presunção da inocência até prova em contrário. Tal
princípio não se pressupõe nas ditaduras. Se os cidadãos não fizerem tudo para
manter essa confiança, poderão estar a reunir as condições para que regimes
desconfiados tomem conta dos seus destinos. Vale a pena o sacrifício, para que
possamos continuar a dizer que «l’État» somos nós.
sábado, agosto 24, 2013
Sobre a deficiência - «o silêncio dos inocentes»
Se,
para nós, for claro e evidente o caráter sagrado da dignidade humana, há
comportamentos que jamais nos admitiremos por nos sabermos interiormente
obrigados ao dever de respeito inviolável pela outra pessoa. Mas tal não
diminui a dureza nem atenua o desafio que tal decisão comporta. Um pai ou uma
mãe, que se deparam com a notícia da possibilidade de o seu filho, que se gera
no ventre materno, ser portador de uma malformação grave, vivem uma dor
solitária sobre a qual vale a pena refletir. Uma dor com que convivi, no
período de gestação dos meus dois filhos. Em relação a ambos recaiu, desde as
primeiras semanas de gestação, a probabilidade forte de serem portadores de Trissomia
21, uma doença vulgarmente conhecida como «mongolismo» e que debilita
fortemente a autonomia da pessoa, além do preconceito social que sobre esta
doença recai. A decisão de não proceder a amniocentese, pelas possibilidades
acrescidas de aborto espontâneo e pela inutilidade prática da intervenção -
pois desde sempre nos entendemos devedores à vida e interiormente decididos a
respeitar cada filho nascituro - favoreceu a ansiedade até ao momento do
nascimento. Mas tal fez-nos viver a experiência densa do desafio que a
deficiência comporta, pessoal e coletivamente.
A
deficiência é marca definidora da condição humana. Mas ganha particular
notoriedade em alguns de entre nós. É, porém, pela sua singularidade, nesses de
entre nós em quem é mais visível a condição a que todos pertencemos, que julgo
dever-se olhar atentamente para o seu significado. Não sou dos que entendem que
seria ideal uma sociedade sem deficientes. Repugna-me, até, imaginar como se
chegaria aí. Foi a intenção de tantos ao longo da história, cuja lição deverá
continuar muito viva nas nossas memórias. O erro desses e de tantos de hoje
está, precisamente, em presumir que a deficiência seja uma condição de
inutilidade. Nada mais enganador. Na verdade, estou certo de que a deficiência
mais visível de alguns é sinal para todos da nossa comum fragilidade, da nossa
comum vulnerabilidade. Uma sociedade que já não é capaz de se reconhecer nos
seus mais frágeis e que os abandona, abandonando, com eles, os seus cuidadores,
é uma sociedade que tem tudo para se desumanizar, esquecendo que a condição
humana é a da fragilidade, não a da invulnerabilidade. Expresso, neste momento
da minha reflexão, uma sentida homenagem aos muitos cuidadores silenciosos que
conferem amor à condição deficiente, aos muitos que, desde a minha juventude,
pude ir conhecendo em experiências de voluntariado que fiz, na Vagueira e
Figueira da Foz, em colónias de férias desenvolvidas pela ASBIHP e pelo
Hospital de Alcoitão, e na mais próxima e longa relação com a inexcedível
comunidade dos membros da APCDI que, no concelho de Sever do Vouga, vem
contribuindo para se transformar a imagem da deficiência. Não tenho dúvidas de
que é o trabalho discreto, mas paciente e frutuoso, destes muitos cuidadores,
que vem contribuindo para que se modifique a imagem ainda tão encravada na
mente de muitos de que a deficiência seja uma maldição ou um castigo. Ela é,
sim, um desafio a que nos humanizemos todos.
Diante
disto, o repto é claro e foi-me particularmente pungente nestes meses que
antecederam o nascimento do meu segundo filho, uma menina. Não se pode viver,
sozinho, a deficiência de um filho. É um dever de sociedade acolher os seus
mais frágeis e assegurar as melhores condições para que sejam humanamente
felizes, qualquer que seja a sua condição. É, ainda mais, um dever de Estado.
Para que serve, afinal, um Estado, se abandona os seus mais débeis cidadãos e
os entrega, unicamente, à singularidade de uma decisão sobre matar ou deixar
viver, como se nessa irrevogável decisão se garantisse a liberdade suficiente
para se poder considerar um Estado de consciência tranquila? É, por fim, uma
voz que deve incomodar a própria comunidade dos crentes. Nas horas que
antecederam o nascimento da minha filha, muitas vezes me interroguei sobre a
resposta de Igreja para os pais a quem é dada a notícia de uma deficiência
grave e permanente nos filhos. Uma matéria sobre a qual valerá a pena refletir.
Onde está, nessa hora, a presença solícita com a palavra de salvação e de
esperança? É um momento denso que se constitui como desafio, como interpelação
à incomodidade. Esses pais que, diante de tal notícia, se agigantam como reais
heróis, necessitam da capa da proximidade, do elixir da certeza de que não
caminharão sozinhos, pois a comunidade a que pertencem, por serem destinatários
da salvação que veio para todos pois para todos veio o Salvador, estará ao seu
lado e não os deixará sucumbir ao desespero. É uma hora densa que necessita do
fragor de um abraço cuja intensidade não diminua com o passar do tempo.
Sei
que as palavras não diminuem a dor dos que, em cada dia, rotina após rotina,
sem aparentes retornos, se dedicam a um filho cujo amanhã parece ser continuar
a sofrer, mas não posso deixar de recorrer à força que as palavras ainda têm
para inquietar, para incomodar, para contribuir para unir corações. A
verdadeira compaixão é, na sua origem, a unidade íntima no sofrimento, é sofrer
com o outro. Para isso deverão servir as minhas palavras: para despertar os que
possam andar mais distraídos. Temos, entre nós, verdadeiros heróis, que, no seu
silêncio, constroem a sociedade mais humana que desejamos, mas que, quando
chega a hora de a tornar real, queremos perfeita como não são os humanos.
Porque os humanos são, por definição, imperfeitos. Disso nos dão consciência
vívida os portadores de deficiências: eles falam-nos da verdadeira humanidade.
Não da que andamos sempre a idealizar, mas da real, que é feita de pequenas
superações. Se a deficiência fizesse mais parte do nosso quotidiano, as
pequenas conquistas teriam maior reconhecimento.
segunda-feira, julho 29, 2013
O desafio de Francisco
É
sabido que, na escolha do seu nome, cada Papa (Pai) afirma como que um programa para o seu pontificado. Assim
ficou claro com os antecessores do Cardeal Bergoglio que, enquanto Bento, João,
Paulo ou João Paulo, pretenderam situar-se na senda dos que ostentaram cada um
destes nomes. Ao escolher o nome de «Francisco», o cardeal que foi trazido
quase do fim do mundo definiu as marcas que se tem provado pretenderem, desde a
primeira hora, marcar o código genético do Pontificado. Na verdade, é difícil
encontrar nome de santo que suscite, no imediato, tanto apreço e cumplicidade junto
de todos e cada cristão. Nele se reconhecem a coragem, o humor, o
desprendimento, a coragem, o desejo de reformar a Igreja de Jesus. Um desejo que,
nas ruínas da destruída igreja de S. Damião, em Assis, se expressou através de
uma voz em que Francesco Bernardone reconheceu o desafio de Jesus Cristo:
«Francisco, não vês que a minha casa está em ruínas? Vai reconstruí-la.»
A
densidade deste nome é tal que os próprios brasileiros decidiram atribuí-lo
àquele que é conhecido, entre eles, como o rio da unidade nacional: S.
Francisco. Quando o ouvi anunciado, na tarde de 13 de março de 2013, a surpresa
que o seu significado fazia emergir e o desconhecimento sobre quem seria o
cardeal eleito fizeram-me duvidar se outros não seriam os Franciscos aludidos:
Francisco de Sales? Francisco Marto? Francisco Xavier? Quereria dar um sinal
sobre a importância da educação (São Francisco de Sales é o patrono dos
salesianos), sobre o seu sentido mariano (Francisco Marto) ou sobre a nova
evangelização da Ásia (S. Francisco Xavier é considerado o «apóstolo do
oriente»)?
Mas
o sentido era o que a primeira surpresa parecia denunciar. A hora era de
reforma, de reconstrução da igreja. Uma reforma que começa por fazer-se pela
capacidade de surpreender, quer pelo humor, quer pela simplicidade e humildade.
Aliás, não será sem sentido ver proximidade etimológica entre «humor» e
«humildade». Só se ri de si quem tem a capacidade de se reconhecer no seu
limite. Recordo, a pretexto disto, uma cena de humor que é contada pelo grande
Chesterton (um inglês de inícios do século XX, convertido ao catolicismo cuja
leitura devia ser obrigatória, tal a sua genialidade) na biografia que ele
publicou sobre «S. Francisco de Assis e que retrata belissimamente muito do
comportamento cristão necessitado de reforma. Conta Chesterton que
um certo bispo se queixava de que um não-conformista [reformador dentro da
Igreja Anglicana nos séculos XVI-XVIII] chamava “Paulo” ao Apóstolo em vez de o
tratar por “São Paulo”. E acrescentava o bispo: “Podia ao menos tratá-lo por
Sr. Paulo”.
Esta é a
familiaridade que Francisco, o Papa, parece pretender trazer para o seio da
Igreja. Uma familiaridade e humildade que temo que muitos estejam a pretender
confinar à cúria romana, necessitada, seguramente, de uma «eminentíssima
reforma» (para usar palavras do nosso Frei Bartolomeu dos Mártires, que João
Paulo II elevou aos altares, fazendo-o beato). Na verdade, muitos parecem
continuar a não reconhecer que quando dizemos que a Igreja necessita de reforma
é a toda a Igreja que tal se refere. Toda inclui todos e cada um dos cristãos.
O estado de permanente renovação e conversão é condição cristã. Estamos sempre
na tensão do «já» e «ainda não», essa dinâmica que, sendo marca da escatologia
cristã, face às outras escatologias, expressa o ADN do ser-se cristão. Não é só
Roma que necessita de reforma. Quantas comunidades continuam presas a supostas
tradições que impedem que se renovem os caminhos? Quantos cristãos ameaçam
bater com a porta só porque não é feita a sua vontade? Quantos de nós
continuamos a pretender uma Igreja à nossa medida, como se fôssemos nós mesmos
sacerdotes autoinstituídos? A Igreja necessita daquela verdadeira reforma em
que se reconhece, toda ela, não o fim para onde todos devem caminhar, mas, como
diz a oração publicada em 1916 e designada como oração de S. Francisco, «o
instrumento da paz» de Jesus Cristo. É este o desafio de Francisco: devolver o
centro àquele que o deve ocupar.
terça-feira, junho 25, 2013
Do «terrível fado» à responsabilidade…
O mundo da educação, aquele onde fermenta a minha
vida quotidiana, está, muitas vezes, marcado por uma espécie de fatalismo que,
frequentemente, me provoca a interrogação sobre onde ficará a liberdade e a
responsabilidade pessoal. São tantas as razões invocadas para justificar o
insucesso e a tibieza que parece ficar sumida a pessoa numa tempestade
invencível de causas, de tal modo que o ser humano sobre quem recai o olhar se
torna uma mera vítima, onde a condição de pessoa é uma miragem. Não posso
deixar de sublinhar que revejo, neste fatalismo, uma espécie de reminiscência
do destino trágico que definia o enredo do teatro grego, onde o herói mais não
era do que uma vítima da moira, do fatum (de que vem o nosso «fado»), essa
força incontrolável, que o encaminhava, sem contradição, para o fim previamente
definido. Contemporaneamente, o grande Gabriel Garcia Márquez, escritor
colombiano de renome mundial e vencedor do Nobel da literatura em 1982,
recuperou a mesma ideia na sua «crónica de uma morte anunciada», uma espécie de
versão sul-americana do «processo» de Kafka. O homem, em todos estes palcos,
não é livre, não tem capacidade de romper com um destino predeterminado que ele
apenas cumpre.
Ora, tal não é, nem poderá ser, a visão católica
sobre a vida humana. É sabido que o protestantismo, em virtude da forte
influência nominalista que recebeu, via Guilherme d’Ockham, não dispensou esta
visão, que é mais vincada, porém, no calvinismo do que no luteranismo. E
compreende-se porquê. A intenção de reconhecer apenas a Deus a origem da
salvação humana (também o Catolicismo afirma a iniciativa de Deus, contudo)
assegurava-se sumindo o papel do homem. Restava, então, atribuir a uma
libérrima e inacessível vontade divina o conhecimento sobre o destino de cada
um. O contributo efectivo da pessoa humana ficava, assim, silenciado. (Uma
atitude genuinamente ecuménica não poderá, contudo, deixar de ter a sabedoria
de colher, do protestantismo, esta condição de acolhimento gratuito dos dons de
Deus e, do catolicismo, este movimento não fatalista, em vez de se fixar nos
limites e extremos de uma e outra opção).
Não deverá, insisto, ser essa a leitura católica.
Mesmo que as circunstâncias façam crer que se é vítima de um destino
pré-traçado, a que nada pode opor-se, importa confiar que não é assim e que o
homem é aquele com quem Deus fala «como a amigo», como refere a Dei Verbum 2.
Ilustro estas afirmações com uma história
verdadeira, contada por Tim Harford, no seu recente livro de título sugestivo: «adapte-se:
o sucesso começa sempre pelo fracasso».
É a história de um rapaz, nascido em 1937, em
Verona, na Itália, de nome Mario Capecchi (lê-se «Mário Capéqui»). Uma história
que tinha tudo para o enredo de uma tragédia de Sófocles. Ou quase tudo… Com
pouco mais de 3 anos, Mario vê a sua mãe ser-lhe tirada, às mãos de soldados
nazis que a levam para um campo de concentração, ficando com o seu pai, um
homem violento, de quem não guarda memória de sinais de amor. Durante cerca de
um ano, a vida de Mário divide-se entre a agressividade do pai e as fugas de casa,
oportunidade para se refugiar na rua, onde pretendia sumir-se à violência
paterna. Como recorda Tim Harford, citando o próprio Mario, «por entre os
horrores da guerra, talvez a coisa que, enquanto criança, me tenha sido mais
difícil de aceitar fosse ter um pai que era violento comigo». Por volta dos
seus quatro anos e meio, perde o pai, vítima de um ataque aéreo, iniciando-se,
aqui, um período de cinco anos em que a sua vida se faz de orfanato em
orfanato, cujas condições eram terríveis: «não havia cobertores nem lençóis, as
camas eram postas lado a lado, e não havia nada para comer excepto uma côdea de
pão e uma chávena de chicória.». Aos nove anos, reaparece a mãe,
irreconhecível, após cinco anos passados num campo de concentração. Leva-o para
a América… Em 2007, Mario Capecchi recebe o prémio Nobel da medicina, por
investigações na área da genética.
Num registo fatalista, a vida de Mário Capecchi
teria redundado numa história de marginalidade e tristeza. Um outro registo,
feito de responsabilidade pessoal, de reconhecimento de que a história se realiza
no encontro entre Deus e o Homem, e não como mero cumprimento de um destino
pré-traçado, permite vislumbrar sentido e conferir sentido ao que parece ser antecâmara
para o abismo.
Quantas mensagens e desafios se ocultam nesta
história real, nestes tempos em que a tentação de invocar o «terrível fado»
parece aquietar e acomodar, como que esperando que a resposta surja
espontaneamente! O Cristianismo é, porém, desafio de encarnação, isto é, de
assunção de que se não se encarnar a condição humana, algo ficará por fazer…
Por paradoxal que pareça, a acção de Deus não se fará sem a resposta
comprometida dos humanos. Deus é espírito, sopro, não «furacão».
sexta-feira, maio 24, 2013
Sobre a coadoção de crianças por «casais» do mesmo sexo - Todos os desejos são direitos legítimos?
Muitos estão convencidos de que o que muda o mundo é a ação. E não estarão totalmente errados, desde que não seja esquecido o facto de que o homem, enquanto animal racional, age movido por ideias. A ação é como que a planta que germina porque se adubou, previamente, a terra. O adubo são as ideias, a terra fértil, durante muito tempo silenciosa e discreta, à espera do momento oportuno.
Vem isto a propósito das decisões que se vêm tomando sobre matérias concernentes à família. Muitos estão convencidos de que elas são espontâneas e imparáveis. Mas a verdade é mais profunda do que esta superficial e imediata conclusão. Terá de se procurar entre as ideias preconizadas em livros que repousam sob a capa de séculos de pó. Ideias que alguns, poucos, leram, mas que muitos repetem até à exaustão e que vão fazendo «cultura». Vale a pena recordar, aliás, que «cultura» é um particípio futuro latino que quer dizer, precisamente, «as coisas que serão cultivadas e colhidas». As ideias germinarão no futuro. É isso a cultura.
Ora, estou convencido de que teremos de recuar até meados do século XVII para encontrar a terra adubada em que germinaram as condições necessárias para que, tantos séculos decorridos, se achasse legítimo o que, em verdade, não o será mas tem todo o aspeto de o ser.
Thomas Hobbes defende, no seu livro «leviatã», publicado em 1651, que «todos os homens têm direito a tudo». Esta é a obra que tornou tristemente célebre a afirmação de que «o homem é lobo do homem», fazendo assentar a sociedade, não sobre o respeito de uns para com os outros, mas sobre o conflito. Para a nossa análise interessa mais, porém, recordar o alcance da ideia de que todos têm direito a tudo. A base do direito, para Hobbes, não terá de se encontrar na dignidade da pessoa, mas no seu desejo. O que se deseja é um direito.
Tal identificação pareceria, num primeiro momento, encantadora porque encantatória, mas não passa, numa segunda análise, de uma pura falácia, pois, se é certo que os direitos correspondem a desejos legítimos profundos, nem todos os desejos podem, contudo, configurar-se como direitos.
Veja-se, a título ilustrativo, a atual discussão sobre o direito à adoção, reivindicado pelos pares homossexuais. A interrogação peca, no imediato, por escolher como ponto de partida para a discussão uma referência que não é a ajustada. Na verdade, em rigor, não são os pais que têm direito a ter filhos, mas os filhos que têm direito a um pai e a uma mãe, entendido como superior interesse da criança, como estabelece a convenção dos direitos da criança (1989). Para além disto, o facto de se ter desejo a ser pai ou ser mãe não se configura, no imediato, como direito absoluto, pois é sabido que muitas são as circunstâncias em que o Estado, no exercício legítimo dos seus deveres, pode suspender o exercício da tutela paternal e maternal, na defesa dos direitos dos filhos.
Mais ainda, restará saber se pode considerar-se que uma determinada estrutura jurídica que não reúne os elementos formais e materiais de uma outra figura jurídica pode assumir as funções desta última. Sendo mais claro. Será que o casamento, enquanto estrutura essencialmente heterossexual, na qual se deposita a legítima expectativa de poder assegurar o nascimento de descendentes, pode ser assumida, nas suas funções, por uma outra estrutura não heterossexual? A resposta é evidente, ainda que não se queira ver.
Acrescente-se, por fim, que são muitos os que invocam o direito positivo registado na declaração universal dos direitos humanos para legitimar o reconhecimento dos eventuais direitos dos homossexuais a adotar crianças. Também aqui as falácias e suposições de que estará escrito o que, de facto, não está, são muitas. Na verdade, a declaração preconiza um modelo de família claro. Veja-se o que diz o artigo 16º: «1. A partir da idade núbil, o homem e a mulher têm o direito de casar e de constituir família, sem restrição alguma de raça, nacionalidade ou religião.» Muitos poderão dizer: mas, em rigor, não se estabelece aqui a reciprocidade entre homem e mulher que seria definidora da ideia de uma estrutura heterossexual! Contudo, no mesmo ponto 1, diz-se, ainda: «Durante o casamento e na altura da sua dissolução, ambos têm direitos iguais.» Este «ambos» define uma reciprocidade que não deixa margem para dúvidas.
A esta luz, só de forma artificial e ideológica, assente na ideia hobbesiana de que o que se deseja é um direito, é que se poderá continuar a sustentar a legitimidade da adoção pelos pares do mesmo sexo. Bem certo que a lei da adoção apresenta uma fragilidade que parece não ser compaginável com o superior interesse da criança: a possibilidade de adoção por uma só pessoa. É estranha esta possibilidade que, agora, é utilizada como forma de entreabrir possibilidades para a co-adoção.
Neste quadro, valerá a pena deixar a pergunta sobre os motivos pelos quais se preconiza o direito dos homossexuais a adotarem e não se refere o mesmo aos bissexuais, por exemplo. É certo: lá chegaremos, mas pretende-se que o percurso se faça de forma indolor. A sociedade vai sendo insensibilizada, de forma progressiva. Admitir esse direito para os bissexuais seria abrir a porta para a poligamia, à qual a sociedade não está ainda recetiva. Mas os tempos tornar-se-ão propícios, pois assim se tornaram, também, para outras matérias.
Importa perceber que esta posição não visa preconizar qualquer tipo de discriminação. Na verdade, discriminar é impedir o acesso a algo legítimo. Seria ilegítimo, por exemplo, o acesso a um lugar de emprego, a uma tarefa concreta, com base na interrogação sobre este tipo de matérias. Não será, porém, discriminar não reconhecer a um desejo a condição de um direito pelo simples facto de que esse desejo não é compaginável com a natureza da estrutura jurídica a que se quer fazer corresponder o desejo. O facto de eu desejar um bem que é de outro não confere a esse desejo a condição de direito, isto é, por eu desejar o que é de outro não me torno seu proprietário. Mas para muitos é mesmo assim!
quarta-feira, abril 17, 2013
Religiosidade em tempos de crise
Não há como ocultar. Quando a crise toma conta das
nossas vidas, a religiosidade assume uma visibilidade que parece ofuscar-se nos
momentos de opulência e fortuna. A coincidência tem dado a muitos argumento
para defenderem que, sendo assim, a religião (que é identificada, de forma
simplista, com estas manifestações) não é mais do que uma resposta à
necessidade humana de sossego e aquietação, contribuindo para a distração em
relação ao que é a sua identidade, gerando, assim, aquilo a que chamaram
«alienação». Por esta caraterística, defendia-se então que a religião
distanciava o Homem da sua própria identidade e essência, alheando-o do que ele
próprio era. Foi o que entenderam muitos (Feuerbach, Freud, e tantos outros) no
século XIX e continuam a defender tantos outros ainda nos nossos tempos.
Contudo, não há que ceder, tão facilmente, a esta tentadora argumentação.
Em primeiro lugar, importa separar os conceitos
que, sem precisão utilizámos no primeiro parágrafo: os de «religiosidade» e de
«religião». Por religiosidade, deveremos entender todas as manifestações, de
origem popular, que, sem preocupação de rigor e coerência, expressam as
vivências de um determinado povo acerca do sublime e do inominado; são
expressões mais ou menos espontâneas acerca daquilo a que Rudolf Otto chamava o
«santo», e que desperta na humanidade «atitude de temor e tremor». A religião,
por seu turno, sendo uma resposta à interpelação do divino, configura-se de modo
coerente e estruturado, em constante dinamismo de autocorreção. Poderíamos, sem
mais cuidado, dizer que entre a religiosidade e a religião existe uma relação
semelhante à que existe entre o diamante bruto e o polido.
Ora, sendo certo que tal definição nos ajuda a
distinguir, desde já, âmbitos diversos, mantém, porém, a validade da
interrogação inicial. Em situações de crise, não é apenas a religiosidade que
se torna mais «exuberante». Também a religião avoluma a sua presença coletiva.
Tais factos devolvem-nos a pergunta. A que se deve tal fenómeno?
Sou dos que não partilham da resposta que dera o
século XIX e o próprio século XX. A relação entre o crescimento pessoal e
sociológico da religião e as crises não se deve à natureza alienante da
religião, mas pelo contrário, na minha perspetiva, devido ao facto oposto. A
opulência, a fortuna são, sim, a causa da verdadeira alienação humana. A
natureza do homem é intrinsecamente frágil. A fragilidade é um traço definidor
do que é a humanidade. Aliás, «humano» vem de «húmus», terra, tal como «adão»
provém de «adamah» (terra vermelha, fértil), constatações etimológicas que
denunciam a natureza do objeto definido. Quando o ser humano perde esta
consciência é que pensa ser o que não é. Ora, em nosso entender, os momentos de
crise são momentos de devolução de consciência. Na sua etimologia, a crise quer
dizer, precisamente, purificação, tal como o «ouro no crisol».
Bem, mas esta constatação, por si só, não é
suficiente para se depreenderem todas as implicações decorrentes da verificação
do laço existente entre crise e crescimento da religiosidade e da manifestação
religiosa. Importa compreender como, também, num plano pastoral, se observam,
aqui, desafios a ter em conta.
Desafios pastorais
Ao longo da história, a relação entre a «religião
cristã» e a «religiosidade popular» nem sempre foi pacífica. Pelo seu caráter
espontâneo, a religiosidade popular tende a absorver, acriticamente, expressões
estranhas, exóticas e, por vezes, pouco conformadas com o quadro conceptual cristão.
E diante disto, duas atitudes se foram configurando: a da rejeição, pura e
simples; a da «cristianização». Como em tantos âmbitos, a justeza está no
equilíbrio. No caso em estudo, o equilíbrio passa, não apenas por, como sugeria
o Papa Gregório Magno, «ser necessário evitar destruir os templos dos ídolos;
basta eliminar os ídolos e, depois, com água benta, aspergir os templos,
construir altares e colocar relíquias» (ap. Enciclopédia Christos), mas, seguramente, por um trabalho mais lento e dedicado
de formação e criação de tradições capazes de suplantar as marcas idolátricas.
Na verdade, julgo que nem tudo é suscetível de «cristianização», necessitando,
mesmo de ser suplantado. Os sinais de reemergência dos ídolos clássicos
cartomânticos, astrológicos, etc., obrigam a uma reflexão cuidadosa, que
desperte a criatividade cristã e a torne capaz de gerar novos símbolos que unam
a fé cristã à vida real das pessoas do século XXI. Nesta última afirmação,
formulo um programa que tem um pressuposto teológico. A fé cristã estrutura-se
em torno do eixo que é a fé na encarnação que, em termos de conteúdo afirma a
realidade da presença do divino na finitude da história, o que se constitui,
também, como um princípio formal: a fé cristã deve expressar-se em manifestações
concretas. Quando tal não acontece, a religiosidade espontânea, muitas vezes de
origem pagã, ocupa o lugar de uma resposta que resulta da natureza frágil e
incompleta da humanidade, expressão última de uma sede que fala, por si só, que
existe «água», mesmo que não se queira reconhecer. A sede não é, regressando ao
início do nosso texto, uma alienação, mas a manifestação de que há uma nascente
da qual se provém e que, se ausente, deixa um vazio. A religiosidade e a
religião, em tempos de crise mais não são, afinal, do que a afirmação da
natureza intrínseca da humanidade. Estar em crise será, então, a oportunidade
brilhante para o homem se «re-humanizar»!
Luís Silva
sexta-feira, março 22, 2013
«Firmes nos princípios, tolerantes com as pessoas»
O cristianismo é verdade, é lei, é rito, é tradição, é património, é história, é razão, é sentido, é… É, é tudo isto, mas tudo isto não é, ainda, o cristianismo. Já S. Paulo o exprimia com a clarividência de quem parecia ter vivido os dois mil anos que, entretanto, já percorremos: ainda que saibamos falar a língua dos homens, se não tivermos amor, de nada vale isso. Porque, antes de tudo, o cristianismo é encontro. E, por sê-lo, como diz Tolentino de Mendonça, no seu livro sobre a amizade, «nenhum caminho será longo». O encontro tornará curtas as longas peregrinações de dor e sofrimento, porque o encontro lhes conferirá sentido e rumo.
Mas nós, cristãos, parecemos levar muito tempo a descobrir a essência do que nos diferencia. Como recordava Bento XVI, na sua programática primeira encíclica, «Deus é amor», «no início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo». E será isto que fascinará, que seduzirá, que, como dizia D. José Policarpo, nas vésperas da eleição do Papa Francisco, transformará a igreja num lugar onde se quer regressar. A tentação tem sido, porém, outra. Carregados por fardos pesados, em vez de seduzidos por tesouros eternos, desejamos impor aos outros a carga que nos esmaga por ainda não termos sido tomados por dentro pela beleza que inebria.
Significará, porém, isto a cedência ao relativismo que tudo aceita e a tudo confere legitimidade?
A beleza do cristianismo advém-lhe de não ceder à tentação de tudo reduzir ao branco e preto que tornaria tão fácil dividir o mundo em bons e maus. Mas esse não é o caminho cristão. Foi, aliás, recusado com a rejeição do maniqueísmo dos primeiros tempos.
Mas como, então, conciliar o amor com a verdade?
A resposta foi sendo burilada com o tempo, mas aprecio de forma particular o senso de Inácio de Loyola, fundador dos jesuítas, que fez da companhia de Jesus uma fraternidade assente no acolhimento das pessoas e da verdade, sem qualquer contradição. Para ele, havia que ser firme nos princípios, mas tolerantes com as pessoas.
Uma conciliação que pode encontrar a sua nascente na forma como Jesus Cristo se situou diante da mulher adúltera.
A resposta dos mais distraídos parece acabar na afirmação de Jesus que sublinha que, tal como ninguém a condenara, também ele não a condenava. Contudo, o evangelho não acaba aí. «Vai e não tornes a pecar» é a chancela do episódio. O centro não está na regra, nem na lei, nem na moral. Elas não são o ponto de partida, contrariamente ao que poderiam pretender os farisaísmos. Mas elas são o traço de confirmação, contrariamente ao que poderiam pretender os relativistas. Não é a moral o que seduz em Jesus, mas da sedução e do encontro nasce uma nova forma de conduzir a vida.
A nova evangelização, de que se ecoa a necessidade permanente, claudica quando um destes momentos falha: o encontro, por gigantismo da moral; a moral, por cedência ao relativismo. O equilíbrio só poderá encontrar-se no dinamismo jesuíta que reconhecia que o cristão deve ser «firme nos princípios e tolerante com as pessoas». Não a tolerância de quem se julga superior, mas de quem se reconhece irmão na fragilidade, consciente, porém, de que a fragilidade não deve obscurecer o horizonte para que se caminha.
Explicitemos estas ideias.
A moral cristã não é o início da vida cristã. O batizado não é envolvido, pela água, num rolo de leis, mas acolhido no regaço de Cristo. A moral é como que um segundo momento, em resultado deste encontro. Assim deve ocorrer, também, no processo de evangelização. Primeiro, o encontro, pois a partir dele, cada um, ao sentir-se recebido, compreenderá que e como deve mudar a sua vida. Assim ocorreu em tantos e tantos encontros reais relatados nos evangelhos. A novidade do encontro suscita a conversão, como ocorreu com Zaqueu: «Senhor, vou dar metade dos meus bens aos pobres e, se defraudei alguém em qualquer coisa, vou restituir-lhe quatro vezes mais» (lc 19,9).
Mas os caminhos estão demasiado longos, hoje. Parece não haver tempo. Somos como que consumidos, como diziam os gregos clássicos, pelo deus «crónos» que devora os filhos. Vivemos a nostalgia do futuro que nos atrai como abismo vertiginoso, e não permitimos o encontro. E, como o nosso Deus se fez pequeno e precisa da mediação, sendo que os «mediadores» não permitem que ele se torne presente nas vidas, os nossos contemporâneos sofrem a ausência de Deus. É grande a nossa responsabilidade: a de permitir que se torne possível o encontro. Talvez isto também explique porque parecem andar sumidos os valores maiores. Quem não encontrou o absoluto, deriva num mar sem ventos favoráveis.
Luís Silva
Mas nós, cristãos, parecemos levar muito tempo a descobrir a essência do que nos diferencia. Como recordava Bento XVI, na sua programática primeira encíclica, «Deus é amor», «no início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo». E será isto que fascinará, que seduzirá, que, como dizia D. José Policarpo, nas vésperas da eleição do Papa Francisco, transformará a igreja num lugar onde se quer regressar. A tentação tem sido, porém, outra. Carregados por fardos pesados, em vez de seduzidos por tesouros eternos, desejamos impor aos outros a carga que nos esmaga por ainda não termos sido tomados por dentro pela beleza que inebria.
Significará, porém, isto a cedência ao relativismo que tudo aceita e a tudo confere legitimidade?
A beleza do cristianismo advém-lhe de não ceder à tentação de tudo reduzir ao branco e preto que tornaria tão fácil dividir o mundo em bons e maus. Mas esse não é o caminho cristão. Foi, aliás, recusado com a rejeição do maniqueísmo dos primeiros tempos.
Mas como, então, conciliar o amor com a verdade?
A resposta foi sendo burilada com o tempo, mas aprecio de forma particular o senso de Inácio de Loyola, fundador dos jesuítas, que fez da companhia de Jesus uma fraternidade assente no acolhimento das pessoas e da verdade, sem qualquer contradição. Para ele, havia que ser firme nos princípios, mas tolerantes com as pessoas.
Uma conciliação que pode encontrar a sua nascente na forma como Jesus Cristo se situou diante da mulher adúltera.
A resposta dos mais distraídos parece acabar na afirmação de Jesus que sublinha que, tal como ninguém a condenara, também ele não a condenava. Contudo, o evangelho não acaba aí. «Vai e não tornes a pecar» é a chancela do episódio. O centro não está na regra, nem na lei, nem na moral. Elas não são o ponto de partida, contrariamente ao que poderiam pretender os farisaísmos. Mas elas são o traço de confirmação, contrariamente ao que poderiam pretender os relativistas. Não é a moral o que seduz em Jesus, mas da sedução e do encontro nasce uma nova forma de conduzir a vida.
A nova evangelização, de que se ecoa a necessidade permanente, claudica quando um destes momentos falha: o encontro, por gigantismo da moral; a moral, por cedência ao relativismo. O equilíbrio só poderá encontrar-se no dinamismo jesuíta que reconhecia que o cristão deve ser «firme nos princípios e tolerante com as pessoas». Não a tolerância de quem se julga superior, mas de quem se reconhece irmão na fragilidade, consciente, porém, de que a fragilidade não deve obscurecer o horizonte para que se caminha.
Explicitemos estas ideias.
A moral cristã não é o início da vida cristã. O batizado não é envolvido, pela água, num rolo de leis, mas acolhido no regaço de Cristo. A moral é como que um segundo momento, em resultado deste encontro. Assim deve ocorrer, também, no processo de evangelização. Primeiro, o encontro, pois a partir dele, cada um, ao sentir-se recebido, compreenderá que e como deve mudar a sua vida. Assim ocorreu em tantos e tantos encontros reais relatados nos evangelhos. A novidade do encontro suscita a conversão, como ocorreu com Zaqueu: «Senhor, vou dar metade dos meus bens aos pobres e, se defraudei alguém em qualquer coisa, vou restituir-lhe quatro vezes mais» (lc 19,9).
Mas os caminhos estão demasiado longos, hoje. Parece não haver tempo. Somos como que consumidos, como diziam os gregos clássicos, pelo deus «crónos» que devora os filhos. Vivemos a nostalgia do futuro que nos atrai como abismo vertiginoso, e não permitimos o encontro. E, como o nosso Deus se fez pequeno e precisa da mediação, sendo que os «mediadores» não permitem que ele se torne presente nas vidas, os nossos contemporâneos sofrem a ausência de Deus. É grande a nossa responsabilidade: a de permitir que se torne possível o encontro. Talvez isto também explique porque parecem andar sumidos os valores maiores. Quem não encontrou o absoluto, deriva num mar sem ventos favoráveis.
Luís Silva
quinta-feira, janeiro 24, 2013
O acontecimento ecuménico de todas as semanas
Terminado o oitavário pela unidade dos cristãos, parece que se fecham as tendas de uma feira em que se expuseram boas intenções, aguardando pela mudança do calendário, como se mais nada ocorresse, entretanto. No entanto, esta é apenas uma ilusão. Na verdade, de há muito que ocorre, semana após semana, em cada ano, em cada escola deste país, pública ou particular, um discreto e pouco badalado momento permanente de ecumenismo e diálogo inter-religioso.
A surpresa desta notícia é, seguramente, para muitos, tão grande como a expectativa sobre o facto a que estarei a referir-me. Tanto maior quanto o desconhecimento sobre o precioso trabalho que a este mesmo facto se deve na causa da defesa dos mais nobres valores, dos mais sólidos alicerces de uma sociedade que se pretende plural, respeitadora, mas também capaz de assegurar o conhecimento e reconhecimento das identidades e das particularidades.
Em cada semana, mais de cinquenta por cento dos alunos de todo o ensino básico nacional fazem parte deste delicado, longo e sólido trabalho de ecumenismo que envolve, não só alunos católicos, mas também ortodoxos e protestantes dos mais diversos ramos. Descobrem o que causou as ruturas, bem certo, mas entendem, também, que, como me dizia, há dias, um aluno, essa é só a primeira parte de uma narrativa que, na disciplina de História, só lhe contam ser de conflito. Ele acabava de descobrir que, afinal, essa história era, de há mais de cem anos, uma outra história de aproximação e encontros. Nunca ouvira falar da palavra «ecumenismo», que confundia com «comunismo» e «economia», como tantas outras pessoas a quem pedi que, com os seus colegas, entrevistasse.
Esse acontecimento diário, que ocorre em todas as escolas deste país é, ao contrário do que muitos querem continuar a fazer crer, parte da solução e não do problema ecuménico em Portugal. Esse acontecimento diário, que se faz com mais de metade de todos os alunos que frequentam as nossas escolas, chama-se «educação moral e religiosa católica». Uma disciplina que, mesmo os próprios cristãos, parecem continuar a desconhecer, desconsiderando-a como menor. Uma disciplina em que se descobre a fraternidade das três religiões do Livro (7º ano), ou a unidade e diversidade do cristianismo (8º ano) ou, ainda, o que possam ter a ensinar o ateísmo e o agnosticismo, assim como as religiões orientais (9º ano). Uma disciplina que, a partir de um lugar identificado, o da matriz cristã católica, se dispõe a dialogar. Um diálogo que não acontece, apenas, enquanto desejo. Nela se realiza, de facto, o que pretende. Assim me acontece, em concreto, pois, entre os meus alunos contam-se não apenas católicos, mas também de outras confissões (mais numerosos são os ortodoxos) e, mesmo, descrentes que se sentem em busca, realidade plural que sei acontecer com tantos outros professores deste país.
Mas, nesta nação em que se cultiva o adiamento da esperança, muitos teimam em não querer reconhecer que ali, naquela disciplina dita menor, está a acontecer história.
Como dizia D. António Couto, num debate organizado pela Diocese, em Estarreja, esta é uma geração nova, mais disponível para o ecumenismo e o diálogo inter-religioso. E não duvido de que muito tem feito por isso a EMRC. Assim se queira reconhecer.
Luís Silva
A surpresa desta notícia é, seguramente, para muitos, tão grande como a expectativa sobre o facto a que estarei a referir-me. Tanto maior quanto o desconhecimento sobre o precioso trabalho que a este mesmo facto se deve na causa da defesa dos mais nobres valores, dos mais sólidos alicerces de uma sociedade que se pretende plural, respeitadora, mas também capaz de assegurar o conhecimento e reconhecimento das identidades e das particularidades.
Em cada semana, mais de cinquenta por cento dos alunos de todo o ensino básico nacional fazem parte deste delicado, longo e sólido trabalho de ecumenismo que envolve, não só alunos católicos, mas também ortodoxos e protestantes dos mais diversos ramos. Descobrem o que causou as ruturas, bem certo, mas entendem, também, que, como me dizia, há dias, um aluno, essa é só a primeira parte de uma narrativa que, na disciplina de História, só lhe contam ser de conflito. Ele acabava de descobrir que, afinal, essa história era, de há mais de cem anos, uma outra história de aproximação e encontros. Nunca ouvira falar da palavra «ecumenismo», que confundia com «comunismo» e «economia», como tantas outras pessoas a quem pedi que, com os seus colegas, entrevistasse.
Esse acontecimento diário, que ocorre em todas as escolas deste país é, ao contrário do que muitos querem continuar a fazer crer, parte da solução e não do problema ecuménico em Portugal. Esse acontecimento diário, que se faz com mais de metade de todos os alunos que frequentam as nossas escolas, chama-se «educação moral e religiosa católica». Uma disciplina que, mesmo os próprios cristãos, parecem continuar a desconhecer, desconsiderando-a como menor. Uma disciplina em que se descobre a fraternidade das três religiões do Livro (7º ano), ou a unidade e diversidade do cristianismo (8º ano) ou, ainda, o que possam ter a ensinar o ateísmo e o agnosticismo, assim como as religiões orientais (9º ano). Uma disciplina que, a partir de um lugar identificado, o da matriz cristã católica, se dispõe a dialogar. Um diálogo que não acontece, apenas, enquanto desejo. Nela se realiza, de facto, o que pretende. Assim me acontece, em concreto, pois, entre os meus alunos contam-se não apenas católicos, mas também de outras confissões (mais numerosos são os ortodoxos) e, mesmo, descrentes que se sentem em busca, realidade plural que sei acontecer com tantos outros professores deste país.
Mas, nesta nação em que se cultiva o adiamento da esperança, muitos teimam em não querer reconhecer que ali, naquela disciplina dita menor, está a acontecer história.
Como dizia D. António Couto, num debate organizado pela Diocese, em Estarreja, esta é uma geração nova, mais disponível para o ecumenismo e o diálogo inter-religioso. E não duvido de que muito tem feito por isso a EMRC. Assim se queira reconhecer.
Luís Silva
quarta-feira, janeiro 16, 2013
A ousadia de não desanimar
Os tempos de urgência podem distrair do que é
importante. É um dilema sempre difícil de solucionar. O de saber se se deve
acudir à emergência de um momento, se continuar a manter o olhar largo e longo
para o horizonte.
É uma tensão que o Cristianismo desafia a que não
se diminua, quer por se adormecer no sonho de um mundo melhor (que não faria de
nós senão puros utópicos, distraídos do hoje), quer por se atolar na lama do
agora. A tensão tem de se manter. Continuar de mãos enfarinhadas na história,
mas com a certeza de se estar a construir algo melhor.
Vêm estas palavras a propósito das dificuldades por
que passam os portugueses, nesta hora, em que a necessidade de garantir a
correspondência às imposições que nos estabelecem os credores faz, em cada dia,
mais vítimas, quer pelo desemprego, quer pela impossibilidade de corresponder
aos compromissos pessoais assumidos ao longo de vidas.
Julgo que a tensão acima enunciada deve definir a
resposta, nesta hora.
Por um lado, criando respostas que permitam suprir
as necessidades imediatas. Um desafio a que as comunidades cristãs não podem
virar a face. Urge a mobilização de todas as estruturas de fraternidade que
permitam assegurar que nenhuma família soçobre à crise porque ninguém deu mão.
Como dizia Churchill, numa célebre carta de 1901 a um deputado compatriota,
«não há grande glória num Império que consegue dominar os mares e não consegue
tratar os seus esgotos». A Portugal nem o domínio dos mares resta, hoje. Mas,
de que valerá corresponder aos seus compromissos se os seus filhos sucumbirem?
Contudo, a urgência da resposta não pode distrair
de uma leitura em profundidade que a todos deve interrogar. A crise que vivemos
é, antes de mais, uma crise de insolidariedade. A muitos pareceu, ao longo de
décadas (talvez séculos, até!) que o que era de todos era para o maior
benefício dos que disso se sabiam aproveitar. Quando, na verdade, o que é de
todos a todos deve servir e por todos deve ser tratado com carinho e dedicação.
Sejam bens, sejam lugares de poder ou serviço, sejam, ainda, os devidos
impostos. O próprio nome de «imposto» deveria, em definitivo ser banido e
substituído pela ideia de «tributo», mais consentânea com a ideia de repartir,
dividir, porque o bem de que beneficiamos resulta do contributo (com+tributo)
de todos. A riqueza que se possui não é um bem absoluto, mas um empréstimo,
quer dos que nos precederam, quer dos nossos contemporâneos, quer, ainda, dos
vindouros. A doutrina social da Igreja sempre afirmou que o direito à posse era
um bem, contudo subsidiário do princípio do destino universal dos bens.
Possuir, de forma injusta, desproporcionada em relação à pobreza envolvente é inumano
e deve ser problematizado e gerido, de modo a assegurar a mais ajustada
distribuição.
Ora, para o Estado poder gerir esta distribuição da
riqueza deve fazê-lo de modo a gerar confiança. Deve criar mecanismos que não
traiam a confiança dos cidadãos que querem e devem querer participar da
construção de uma sociedade mais justa. Na verdade, a interrogação que a todos
assalta, nesta hora em que a todos se pede que participem no reequilíbrio das
contas públicas (que a todos devem dizer respeito), é a de saber se, após a
participação num tal desiderato nacional, o que a todos diz respeito não beneficiará
a apenas alguns. Uma dúvida que o Estado tudo deve fazer para que se extinga.
Uma exigência que se configura, em Portugal, no apelo a que o sistema judicial
seja, de facto, cego por não ser de primeira ou de segunda, de acordo com o
nível económico ou social; uma exigência que se estrutura no apelo a que os
decisores políticos também participem no esforço de todos, para o que muito
ajudaria que a legislação sobre os cargos políticos fosse feita por uma
estrutura (um senado? tribunais especiais para tal criados?) diversa da
assembleia da república, de modo a eliminar a sombra de que quem legisla sobre
si mesmo tenderá a beneficiar-se nas decisões.
Mas outros desafios se colocam, ao fazer-se a
leitura das causas desta crise. Quantos portugueses continuam a olhar para o
Estado como uma entidade estranha, alheia à sua vida, confundindo-o com o
governo? Uma confusão que gera o desabafo de que não se pretende pagar mais
impostos por se estar farto desta ou daquela governação. A causa do desabafo
não é contudo, exclusivamente causada pela incapacidade de distinguir. Também
os próprios decisores políticos têm favorecido, ao longo dos tempos, a
convicção de que governar é governar-se. Urge, assim, uma nova atitude:
- de quem elege, compreendendo que o Estado é formado
por todos e a todos diz respeito, pedindo-se, por isso, maior responsabilidade,
no momento de escolher quem deve dirigir os destinos dos bens que a todos dizem
respeito;
- de quem é escolhido, colocando no centro da ação
política o bem comum, que deve centrar-se na pessoa humana. Os bens acumulados
devem servir esta e não servir-se dela.
Se crise é, como a etimologia pretende dizer, um
momento de purificação, mesmo que doloroso como o do ouro que se purifica no
crisol, esta pode ser uma hora de desafio e crescimento. Se para trás não
deixarmos ninguém e a todos soubermos incluir na abertura de um horizonte de
melhor futuro. É a hora da ética e da moral. A hora dos valores que respeitam a
dignidade dos mais frágeis. Se não for assim, de que serve existir Estado?
Luís Silva
domingo, dezembro 02, 2012
Jesus, presente de Deus
Se é verdade - como diz Pessoa, o
poeta que tão genialmente soube fazer da alteridade a condição para se dizer a
si mesmo - que a língua portuguesa é nossa pátria, valha-nos, nesta hora de
tantas crises, a riqueza do idioma para compensar outras pobrezas. Na
realidade, em nenhuma outra língua das que se nos disponibilizam se conseguiria
exprimir com tal força a densidade que pretendemos reunir no título que serve
de pretexto a este texto. Se o quiséssemos dizer em francês, em inglês, em
espanhol ou uma outra das que se nos acercam, não saberíamos se dizer
«présent», «presente», «present» (para exprimir a dimensão temporal) ou se
cadeau, regalo ou gift (para repercutir a dimensão de «dom» e «oferta»). Mas,
na nossa pátria, é impossível fazer-se a oferta sem se lhe associar a nossa
presença, que é tempo e lugar de acontecimento.
Tal densidade linguística parece
conferir à nossa língua o estatuto de idioma teológico, por tão resolutamente
reunir a densidade do acontecer salvífico.
O acontecer, na história, da
doação de Deus enquanto oferta não devida, mas de vida, expressa o desejo de Deus de pretender tornar-se
contemporâneo do homem, não apenas rebaixando-se, mas, mais ainda, elevando o
homem. É na glorificação do homem que se manifesta a divindade e não pela sua
aniquilação. Apesar de tantas vezes negada pela prática de muitos cristãos, que
se convenceram de que a afirmação de Deus teria de operar-se pela negação do
humano (incorrendo num adopcionismo latente), esta é uma verdade que faz parte
do núcleo cristão que, desde a primeira hora, reconheceu no homem Jesus a
presença e manifestação do Cristo divino. Assim, o acontecer da encarnação não
expressa a anulação do que há de humano para o substituir a fim de que aconteça
o divino, mas antes a afirmação em cinzel de que a «glória de Deus é o homem
vivo» (Santo Ireneu).
O acontecer da encarnação se é,
por isso, uma autêntica manifestação de quem é Deus, enquanto ser que se
relaciona (que é marcado pela pessoalidade, que se define como ser de relação,
como amor, como trindade), é ainda mais acontecimento que revela a enorme
dignidade do humano, repto para tempos que pretendem fundir no indiferente e na
mera individualidade não relacional.
Assim o expressa, de forma inigualável
Andrés Torres Queiruga, num seu texto sobre a ressurreição, recolhido no livro
‘Quem é/quem foi Jesus Cristo?’, recentemente publicado: «Entre as categorias
de que dispõe o pensamento humano, só as pessoais podem ajudar a compreender –
ainda que de bem longe – esse mistério pelo qual a máxima comunhão com Deus não
conduz à dissolução do indivíduo, mas à sua máxima afirmação. Trata-se dessa
única e maravilhosa dialéctica do amor que tão bem exprimiu Hegel, ao afirmar que
consiste numa relação estranha, na qual «ser no outro» constitui a verdadeira
forma de estar consigo mesmo; que diferencia e afirma na mesma medida em que
une; que faz com que quanto mais se dá mais se tem. E o mesmo tinha dito, com
mais intensidade, se possível São João da Cruz, falando ousadamente de uma
reciprocidade tão absoluta entre Deus e a criatura que, assim como a pessoa
humana se recebe de Deus, também Deus se recebe dela.»
O presente temporal de Deus dá
pelo nome de bem-aventurança eterna, sendo «graça» o nome com que se reconhece
o presente oferecido por Deus. Termos que desmontam toda a tentação de
sustentar este encontro no dever ou na obrigação. A sua matriz é, antes, o
amor, que só o é se for graça – tão gratuito
como pleno de humor, pois tal nos
permite descortinar a nossa pátria Língua! O humor da felicidade definitiva!
Luís Manuel Pereira da Silva
Subscrever:
Mensagens (Atom)
A propósito do azul masculino e do rosa feminino… | Igualdade de género ou igualdade entre os sexos?
Começo este artigo com uma nota de ordem cultural. Conta-nos Homero, na Odisseia, que Ulisses, na viagem de regresso a Ítaca, pediu aos ...
-
O Parlamento recusou, por curta margem, a legalização da eutanásia. Como muitos já deram a entender, trata-se, apenas, de um «até já». Não...
-
A interrogação parece distante e teórica. Para muitos, parecerá, mesmo, uma recuperação da redondez da pergunta sobre o ovo ou a galinha. Co...
-
O homem tem corpo e alma? A pergunta é feita por muitos e ganha pertinência, nestes tempos que parecem oscilar num balancé que nos ...