A vida humana é protagonista deste livro de contos
A ADAV-Aveiro lançou, no dia 4 de julho, um livro de contos. O título é 'A vida conta... branco no preto' e tem a chancela da editora Tempo Novo.
São dez curtos contos dedicados a temas relacionados com a dignidade da vida humana, nas mais diversas situações de fragilidade: aborto, deficiência, velhice, doença, internamento hospitalar, consumo e tráfico de droga, etc.
O livro, para além da valia literária, poderá ser um recurso útil para aulas, para a promoção de debates, ou, simplesmente, para a boa e construtiva leitura.
Os autores são personalidades de renome nacional e reconhecidos escritores da lusofonia: Maria Teresa Maia Gonzalez (autora da A Lua de Joana), Maria João Veiga, Gaspar Albino, Daniel Serrão, Walter Osswald, Nuno Higino, Fernando de Castro Branco, Inácio Gomes Júnior, Jorge Paulo e João César das Neves. Cada conto é ilustrado pelo artista aveirense Francisco Cunha.
O livro pode ser adquirido, nesta fase, na livraria Santa Joana ou na própria ADAV-Aveiro.
O custo é de 10 euros, revertendo a receita para a ADAV-Aveiro.
A divulgação do lançamento do livro está em https://www.facebook.com/events/1434722386849574/
Endereços:
Livraria Santa Joana
Rua Batalhão Caçadores 10 81
Aveiro
3810-064 AVEIRO
Contacto telefónico Telefone: 234 421 570 Fax: 234 421 570
ADAV - AVEIRO
Associação de Defesa e Apoio da Vida
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Mercado de Santiago Sala AH, Apartado 420
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sexta-feira, julho 24, 2015
quarta-feira, julho 01, 2015
Sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo - Distinguir para não confundir
Casamento: a
que nos referimos?
Antes de exprimir qualquer outra ideia, e correndo
o risco de perder potenciais leitores antes mesmo de o serem, começo por
afirmar o ponto de partida da minha reflexão: falar de casamento, no quadro da
matriz civilizacional em que nos encontramos, é falar da união entre um homem e
uma mulher, estável e protegida pela lei e pela sociedade, porque sobre ela a
mesma sociedade deposita expectativas de futuro que carecem de proteção e
confiança.
Eis uma matéria em que perdemos a liberdade para
pensar, para refletir e para emitir a nossa opinião. Este é um novo tabu das
sociedades modernas. De tal modo que, para alguns que se ficaram por estas
primeiras linhas ou, simplesmente, pelo título, mesmo antes de eu exprimir as
razões que justificam a minha reflexão, este será um texto classificado como
homofóbico. Uma tal conclusão, por precipitada, evidencia a emotividade em que
se enreda esta discussão, má conselheira do bom discernimento.
Distinguir
não é o mesmo que discriminar
É bom, desde já, clarificar que falar de
discriminação refere-se ao impedimento do acesso a um legítimo direito, à
criação de dificuldades de usufruto de um bem que é devido. Tal obriga, assim,
a explicitar, neste passo, que considero, efetivamente, que há discriminação
quando se impede, por exemplo, o acesso a uma atividade, a um tipo de trabalho,
a uma função de liderança ou outra, justificando tal impedimento com motivações
que concernem, por exemplo, às vivências sexuais do indivíduo. Não se pergunta,
por exemplo, a um candidato a gestor se é adúltero ou algo semelhante. Seria
invocar um fator estranho à tarefa como critério para impedir o seu acesso.
Neste quadro, em que não se invocam razões de mérito ou de capacidade de
cumprimento da função para impedir a atribuição da função, estaremos,
claramente, perante um comportamento discriminatório.
Vale a pena, feito este esclarecimento, verificar
se tal se aplica à recusa de que a união entre pessoas do mesmo sexo seja um
casamento.
Invoquemos a
declaração universal dos direitos humanos...
Analisando, com atenção, o conteúdo do artigo 16º
deste documento fundante, que serve de ponto de referência para a elaboração
das constituições que se pretende que estruturem um Estado de direito e não um
Estado discricionário, verificamos, talvez com surpresa, a clareza na definição
do conceito de casamento que ali aparece. Diz-se, no ponto 1 do referido
artigo: «a partir da idade núbil, o homem e a mulher têm o direito de casar e
de constituir família, sem restrição alguma de raça, nacionalidade ou
religião.» Muitos poderão dizer que homem e mulher são aqui referidos em
abstrato, não se presumindo ser «um com o outro».
Tal interpretação não colhe, porém, pois o mesmo
número diz, de seguida: «durante o casamento e na altura da sua dissolução,
ambos têm direitos iguais». Este «ambos» não pode ser mais claro. O modelo de
casamento aqui apresentado não é outro senão o da união entre um homem e uma
mulher.
Acresce a este primeiro reconhecimento, que abala
muita da argumentação dos que pretendem estar do lado da defesa dos direitos
humanos, a constatação de que, se se tratasse de discriminação o não
reconhecimento do estatuto de casamento à união entre duas pessoas do mesmo
sexo, por se considerar que se deve respeitar a orientação sexual e legitimá-la,
então, valeria a pena perguntar por que razão não se legitimam outras
orientações. Por exemplo, porque se deverá discriminar quem é bissexual? Ou
quem é adúltero e vive uma situação de duplicidade? Não é difícil constatar que
a mudança introduzida com a admissão de que a união entre pessoas do mesmo sexo
seja um casamento criou um plano inclinado que desce sem que se saiba até onde.
Talvez seja, aliás, essa a intenção, tal a clareza com que se relativiza a
condição fundamental da família, esvaziando o seu conteúdo original. De que se
falará ao dizer «família» se não for claro o ponto de referência? Tudo parecerá
caber sob a capa de «família». «Família» correrá o risco de ser um termo sem
conceito correspondente, um «flatus vocis», como diziam os escolásticos, um
mero som a que não se sabe o que corresponde.
É fácil verificar que, se se «desblinda» o critério
definido na declaração universal dos direitos humanos, então, tudo se torna
arbitrário e dependente da vontade discricionária das maiorias. E é porque tal
não tem capacidade de sustentar um Estado de direito, se se tornar vulnerável,
nas suas bases, à vontade maioritária, que tantos continuam a dizer, e entre
eles me situo eu próprio, que a aceitação de que a união entre duas pessoas do
mesmo sexo seja um casamento é a modificação da matriz civilizacional em que nos
enquadramos. Por muito humor e sátira que possam fazer alguns sobre este
reconhecimento, tal não retira a validade ao que está a ser denunciado.
Distinguir
para não confundir
Como afirmava, repetidamente, um dos meus
professores de filosofia, quem não distingue confunde. E é de confusão que se
trata, quando falamos do assunto aqui em análise.
Confusão entre «não discriminar» e «não distinguir
o que é diferente». Confusão entre «desejar» e «ter direito a». Confusão entre
«compadecer-se» e «legitimar». Distinguir não é discriminar. E é preciso
reconhecer que o círculo não é um quadrado. Chamar casamento ao que não o é
redunda numa quadratura do círculo. O casamento não é uma mera relação de
afetos, é uma instituição, reconhecida juridicamente, porque nela se depositam
expectativas de futuro. A segurança dos dois, mas também a possibilidade dos
filhos, são bens indissociáveis. Os filhos são um horizonte legitimamente
esperado. O que se verifica ser manifestamente impossível na união homossexual.
A estabilidade da estrutura «casamento» é necessária em razão dos dois motivos,
indissociavelmente.
O fim da
ingenuidade: estas mudanças não são espontâneas; respondem a uma estratégia
A matéria aqui em análise está envolvida em
inúmeras sombras e faltas de esclarecimento. É intencional que não se conclua
se a orientação sexual é uma determinação genética ou se uma deliberação
pessoal. E é fácil perceber por que motivos não se pretende retirar conclusões
claras: se for uma determinação genética, então, rapidamente se concluiria pelo
caráter patológico; se for apenas uma deliberação pessoal, então, cairia por
terra o argumento de que se deveria respeitar o caráter «natural» da condição
homossexual. Por isso, é útil a ambiguidade.
Mas esclareço que, pessoalmente, não creio num
qualquer determinismo genético, pois todo o determinismo é o oposto da
afirmação da liberdade humana. Sempre restará a última palavra do ser humano
livre. Sendo assim, é ainda mais claro que esta discussão manifesta a cedência
para o individualismo que recusa que possa haver valores que transcendam a mera
determinação individual. De facto, contra esta visão, sublinho que, com efeito,
não é o sujeito que cria os valores. Eles são-lhe anteriores. E é isso que não
aceitam os defensores do casamento homossexual: que possa haver valores a que o
sujeito deva submeter-se. Pelo contrário, para eles, é o sujeito que os cria.
Mas, se isto for verdade, o que ficará da sociedade? A sociedade não passará de
soma de indivíduos, nunca se configurando como comunidade de pessoas.
É bom, aliás, que se tenha em conta que esta
matéria não aparece de forma espontânea, nas nossas sociedades ocidentais. Como
recorda Michael Medved (em artigo publicado no site www.aceprensa.com), um
analista e crítico de cinema norte-americano, estão definidas, desde 1984, as
linhas de atuação da causa gay no cinema. Desde então, ficou definido que
seriam adotadas três linhas de atuação: insensibilizar o público, gerando a
impressão de que a homossexualidade é uma normalidade muito difundida; vitimizar
os homossexuais, gerando a convicção de que são perseguidos; diabolizar os que
se opõem à causa, tendo para tal dado um especial contributo a designação de
que são homofóbicos. A descoberta da definição desta estratégia permite
ultrapassar a ingenuidade de que as mudanças em curso são espontâneas e
correspondem a uma transformação inelutável. É bom, na posse destes dados,
manter uma atitude de sã clarividência que permita distinguir entre a recusa
das mudanças que se propõem introduzir na matriz ocidental os defensores da
causa «gay» e o acolhimento da pessoa concreta que viva em si mesma a
dificuldade em gerir as manifestações da sua afetividade. São dois planos
distintos. E confundi-los é o que pretendem os que se afirmam defensores da
equiparação da união entre duas pessoas do mesmo sexo ao casamento.
Muito mais do que uma questão entre direita e
esquerda, entre conservadores e progressistas, entre crentes e não crentes,
esta é uma questão de lógica. É preciso distinguir para não confundir!
sexta-feira, maio 01, 2015
Recensão de FLEW, Antony– Deus não existe: como o mais célebre filósofo ateu mudou de convicção
Flew, Antony– Deus não existe: como o mais célebre
filósofo ateu mudou de convicção. Lisboa: Alêtheia Editores, 2010, 187 pp.
Será difícil encontrarmos um livro mais surpreendente do que este. Surpreendente, porque escrito num tempo em que tudo parece conduzir à convicção de que, mais cedo ou mais tarde, concretizando uma espécie de profecia de Auguste Comte, as ciências virão a substituir a necessidade de Deus e a negar a possibilidade da Sua existência.
Surpreendente, porque escrito numa época em que se orquestram, pelo mundo fora, estratégias de silenciamento da manifestação das marcas do mistério ou do divino no espaço público.
Surpreendente, enfim, porque escrito por alguém – Antony Flew – que, durante 50 anos, se auto-denominou como ateu, pretendendo, neste livro, explicar as razões pelas quais, após cinco décadas de combate contra a possibilidade da existência de Deus, conclui que Deus tem de existir.
Ora, a tese que o autor sustenta, neste livro, é tão surpreendente por toda esta conjuntura, como útil para tempos como estes em que ainda parecem persistir resquícios de dilemas que há muito deveriam ter sido superados. Na verdade, uma das mais resistentes razões em que têm suportado os ateus a sua defesa da inexistência de Deus vem sendo a de que tal possibilidade colidirá, frontalmente, com as descobertas das ciências. Tal motivo é, aliás, muitas vezes, apontado como o elemento diferenciador da modernidade: a revolta contra o divino a favor da razão científica. Como se afirmar a existência de Deus significasse, sem margem para dúvidas, a rejeição, pura e simples, da legitimidade do saber científico; ou, pelo inverso, como se o acolhimento das descobertas deste âmbito do saber significasse a anulação da legitimidade da procura do divino. Tal dilema tem sido, ainda, vincado e reforçado, até à exaustão, com a reprodução ostensiva dos tristemente célebres casos de Galileu, Darwin, e outros, elevados ao estatuto de paradigmas da incompatibilidade da relação entre estes dois âmbitos da leitura do mundo.
Ora, Antony Flew encontra na superação deste falso dilema a resposta por que procurou, ao longo dos cinquenta anos em que se considerou ateu. Na verdade, de acordo com as conclusões que foi forjando, em virtude dos dados que lhe facultaram as ciências, Flew regista, neste livro, que quanto mais as ciências investigam e recolhem sobre o que seja o mundo, mais o pensamento se terá de render à convicção de que Deus deva existir. Bem certo que o deus de que fala Flew não é, ainda, o Deus da religião, mas tal facto não o inibe de admitir que a antecâmara em que, neste livro, se coloca, o disponha a abrir-se ao Deus revelado, em particular ao Deus revelado no Cristianismo. Poderíamos considerar, criando uma metáfora com as limitações próprias deste recurso estilístico, que Flew abriu um receituário, mas ainda não pôde saborear dos manjares que nele se propõem. Com o seu pensamento, Flew percebe a existência de Deus, mas ainda não a consegue retratar ou reconhecer-se como envolvido pessoal e existencialmente nela.
Tal deve-se ao próprio teor da descoberta que ele mesmo fez e aqui reproduz. Na verdade, o autor considera a fortíssima possibilidade da existência de Deus como condição de compreensão para a ordem e organização do universo que as ciências pressupõem, na medida em que a sua natureza de ciências se sustenta na ideia de que é possível haver leis que sejam percebidas pelo homem. Ora, esta condição de possibilidade da existência das ciências (só podem formular-se leis científicas, mesmo que reversíveis e revisíveis, porque há ordem e organização no universo) exige, por si só, a admissão de uma inteligência e de uma inteligibilidade no universo. Entregar ao acaso a força e o poder de explicar a ordem e organização do mundo é, para Flew, uma escolha anti-científica, pois a ciência sempre se sustentou nas opções mais simples. E admitir uma Inteligência Divina que justifique por que razão é possível fazer-se ciência é mais lógico, mais óbvio, mais evidente e, por isso, mais inteligente, para Flew, do que sustentar que o universo se organizou como fruto de sucessivos acasos. Si non è vero, è ben trovato!
Acresce à força deste argumento o poder de outros pensadores de que Flew se faz acompanhar, ao longo do livro, para sustentar a sua tese: Einstein, Newton, Heisenberg, Hawking, Schrödinger, etc., isto é, alguns dos mais brilhantes representantes da mente humana, atestando, assim, que, contrariamente à força de muita propaganda que vem conduzindo a Europa e o nosso país à convicção de que esta matéria é reserva de mentes débeis e limitadas, a afirmação da possibilidade da existência de Deus continua a ser a garantia da salvaguarda de uma leitura interpretativa e coerente do mundo. De outro modo, sobra o absurdo e o sem-sentido, que só artificialmente se poderá compaginar com a busca racional e inteligente da coerência do mundo.
Luís Manuel Pereira da Silva
quinta-feira, abril 23, 2015
Educação Moral e Religiosa Católica - A laicidade positiva em ação
A Educação Moral e Religiosa Católica é, de acordo
com o decreto-lei n.º 70/2013, «uma componente do currículo nacional integrando
todas as matrizes curriculares, de
oferta obrigatória por parte dos estabelecimentos de ensino e de frequência facultativa». No mesmo
diploma, esclarece-se que «o Estado garante as condições necessárias para
assegurar o ensino da disciplina de EMRC nos estabelecimentos públicos dos
ensinos básico e secundário, no âmbito do dever
de cooperação com os pais na educação dos filhos.». No primeiro artigo do
mesmo diploma, sublinhava-se que «o presente decreto-lei estabelece o regime
jurídico da lecionação e da organização da disciplina de Educação Moral e
Religiosa Católicas (EMRC), nos estabelecimentos públicos dos ensinos básico e
secundário, nos termos da Concordata celebrada entre a República Portuguesa e a
Santa Sé, assinada em 18 de maio de 2004, na Cidade do Vaticano, e aprovada,
por ratificação, pela Resolução da Assembleia da República n.º 74/2004, de 16
de novembro.». À luz destes conteúdos, ficam sublinhados dois pressupostos que
suportam a existência desta disciplina, no quadro do ensino público: o acordo
(concordata) entre Estados - República Portuguesa e Santa Sé -, mas também o
direito constitucional, salvaguardado no artigo 68º, de cooperação do Estado em
relação aos pais para a educação dos filhos, o que supõe que é aos pais que
cabe o dever de escolher o modelo de educação que pretendem para os seus descendentes.
Sendo claros os pressupostos, contudo, ciclicamente
aparecem dúvidas sobre se estes não colocam em causa o princípio da laicidade
do Estado.
1. «Laico» e
«laicidade» não aparecem na Constituição
Importa, antes de mais, esclarecer que os termos
«laico» e «laicidade» não são referidos, nenhuma vez, na constituição da
República Portuguesa. O que se afirma, sim, é, no artigo 41º, que «as igrejas e
outras comunidades religiosas estão separadas do Estado e são livres na sua
organização e no exercício das suas funções e do culto», o que coloca o
conceito de laicidade situado num registo de respeito pela liberdade religiosa,
em vez de numa perspetiva de silenciamento da manifestação pública das
religiões. Na verdade, sendo assim, podemos assegurar que a constituição da
república portuguesa se situa no registo da dita laicidade positiva, que
encontra no modelo norte-americano um dos seus exemplos mais significativos.
2. Duas
formas de pensar a laicidade - a história demonstra que a conflitualidade
significa perdas sem fundamento
Como
recordava, no século XIX, Alexis de Tocqueville, a diferença entre a laicidade
francesa e a americana está em que aquela concebia que os Estados deveriam ser
indiferentes às religiões, sumindo-as no âmbito privado, enquanto a americana,
compreendendo a sua relevância e papel agregador, concebia que o Estado deveria
respeitá-las e relacionar-se com elas, sem se lhes submeter, mas também sem as
submeter. É este o registo português.
Não é, contudo, o de muitos que, em nome da referida
laicidade de matriz francesa (que redunda num laicismo), entendem que o Estado
deveria fazer de conta que as religiões não existem, em vez de compreender a
oportunidade que estas podem representar.
3. EMRC tem correspondido à confiança do Estado
no seu serviço
Superada esta visão negativa, importa compreender
que, com efeito, a disciplina de EMRC tem vindo a corresponder à confiança que
o Estado e a sociedade têm depositado neste serviço que é prestado através dos
professores de EMRC aos alunos que a escolhem. Na realidade, a disciplina supre
duas necessidades que muitos têm vindo a reconhecer: a de formar para a
compreensão do fenómeno religioso e para a dimensão ética. Esta é uma
disciplina que, de algum modo, corresponde, até, a uma espécie de «economia» de
recursos, pois, como poderá observar-se pela leitura do programa da disciplina,
a disciplina forma naqueles dois âmbitos, o que se pode constatar através da
leitura das metas que se pretende atingir ao lecionar os seus conteúdos, metas
que são agregadas em três domínios: «religião e experiência religiosa», «ética
e moral» e «cultura cristã e visão cristã da vida». Para os que pensam que esta
disciplina é uma decorrência da catequese, visão já pouco consentânea com o
papel de uma e outra, basta constatar que os dois primeiros domínios
correspondem à maioria das metas para perceber que esta convicção não está
correta.
4. A
confessionalidade da disciplina é uma mais-valia e não um prejuízo
Um outro argumento repetidamente referido diz
respeito à confessionalidade que configura esta disciplina, como se tal
significasse um prejuízo ou uma menos-valia.
Salvaguardado o facto de a disciplina ser de
frequência facultativa, condição que decorre da imposição constitucional que
afirma, no artigo 43º, que «o Estado não pode programar a educação e a cultura
segundo quaisquer diretrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou
religiosas», compreende-se, neste quadro, que a sua confessionalidade
constitui, antes, uma mais-valia, se se tiver em conta que se trata de uma
disciplina que pretende promover a «educação moral» e «religiosa», isto é, que
pretende, não só instruir, mas formar pessoas e cidadãos. Com este registo, e
compreendendo-se que nenhuma ética é abstrata e incondicionada, saber-se o quadro
conceptual da disciplina confere-lhe força e dinamismo e aumenta a sua
eficácia. A título de exemplo, vale a pena recordar que, no âmbito da linguagem
se verifica um fenómeno semelhante. Nenhum ser humano adquire linguagem no
abstrato. Todo o acesso à linguagem se faz a partir de uma língua, um idioma
concreto, à luz do qual se desenvolve o acesso a outros idiomas. Na ética, na
moral, algo de semelhante se verifica. O acesso crítico aos valores
ético-morais não se faz no vazio, no neutro: faz-se a partir de uma determinada
matriz. A matriz católica desta disciplina não é um limite, mas uma condição de
possibilidade de acesso à compreensão do mundo religioso e do mundo
ético-moral. Isto a distingue, também, da catequese. Na catequese, a matriz é
um fim em si mesma. Na EMRC, a matriz é o registo de compreensão das demais
abordagens e perspetivas.
5. EMRC é um
serviço à sociedade - o Estado serve a sociedade e remunera os seus servidores
Um outro motivo de discussão, ainda, diz respeito a
quem deveria pagar aos professores que lecionam esta disciplina. Muitos dos
opositores da disciplina defendem que deveria ser a Igreja a suportar estes
vencimentos. Tal argumento apresenta várias falácias. A primeira é a que
respeita à ideia de Estado que lhe subjaz: o Estado não é um fim em si mesmo,
mas sim a organização estruturada da sociedade, sendo, por isso, serviço. O
Estado, numa visão democrática e não totalitária, existe para servir a
sociedade, criando-lhe condições para esta se organizar e garantir, num contexto
de justiça e equidade. Para além disto, é bom constatar que, numa perspetiva
subsidiária, o Estado socorre-se do apoio da Igreja para prestar este serviço
aos pais, chamado Educação Moral e Religiosa que, neste caso, corresponde à
matriz católica, sendo de sublinhar que a legislação assegura condições
semelhantes para outras confissões. Ainda mais. Se o argumento fosse válido,
valeria sempre a pena perguntar se quem deve pagar aos professores de línguas
devem ser os ministérios da educação dos países que as falam ou se os
professores de matemática deveriam ser pagos pela sociedade portuguesa de
matemática e assim por diante. Não colhe, também, o argumento de que deveria
ser a Igreja a pagar por ser quem reconhece a idoneidade a estes professores.
Na realidade, a situação destes professores não é muito distinta da que
acontece com os profissionais que pertencem a ordens (dos médicos, dos
engenheiros, dos arquitetos, etc.): podem ser portadores de currículos
excelentes, mas, se as ordens lhes retirarem o «placet», não poderão exercer.
No caso dos docentes de EMRC, algo semelhante se apresenta sendo que, no caso
anterior, ninguém pede às Ordens que assegurem os salários dos seus
profissionais. Também alguns defendem que, por ser uma disciplina de frequência
facultativa, aos pais que a escolhem deveria caber pagá-la. Mais uma vez, o
argumento perde a sua eficácia quando se tenta universalizá-lo. Assim seria com
todas as disciplinas opcionais? O serviço que a disciplina presta não é,
apenas, aos diretos beneficiários, mas, através deles, a toda a sociedade. A
base da refutação do argumento é o princípio de solidariedade que esperamos que
continue a estruturar o nosso modelo de sociedade. Vale a pena verificar que
esta é a lógica, por exemplo, do financiamento pelo serviço nacional de saúde à
investigação em doenças raras. A solidariedade é o pressuposto, mesmo que o
benefício possa não ser para muitos.
6. Uma certa
ideia de Estado - o Estado não é fim em si mesmo
O que está, aqui, em causa é, claramente, uma certa
ideia de Estado e da sua relação com a sociedade. Neste quadro, a disciplina de
EMRC é um excelente exemplo, quase único, de uma boa relação entre Estado e
sociedade, em que aquele se socorre da sociedade para corresponder aos direitos
da sociedade (dos pais a assegurarem o modelo de educação dos seus filhos) e
sem substituir a sociedade (socorrendo-se, antes, dos bons serviços que a
sociedade pode garantir).
7. Um
desafio: conhecer o programa da disciplina de EMRC e deixar-se surpreender com o
trabalho feito
Acrescente-se, ainda, para os que possam considerar
que esta abordagem se confina a uma leitura a partir do programa (o que já não
seria pouco, pois trata-se de um renovado programa que surpreenderá muitos dos
que ainda pensam a disciplina à luz da que frequentaram, há muitos anos!) que o
trabalho real desenvolvido por professores e alunos tem contribuído,
visivelmente, para a transformação humanizadora das comunidades escolares. Tenham-se
em conta, a título ilustrativo, as inúmeras campanhas solidárias, as iniciativas
ambientais, os recursos didáticos criados com o contributo dos alunos, os
debates inter-religiosos e ecuménicos, os debates sobre matérias de
ética/bioética, as iniciativas interdisciplinares, etc. Se, um dia, se fizerem
recolhas estatísticas sobre o contributo real da disciplina, no sentido das
maiores necessidades constatadas pelos mais atentos, seja no âmbito da formação
moral e ética, seja no âmbito da compreensão do fenómeno religioso, tal
permitirá concluir que não só não tem cabimento pôr em causa a sua presença no
ensino público, como se deverá, mesmo, acarinhar e compreender como uma
resposta oportuna e necessária. Através desta disciplina, muito se tem
prevenido quanto à emergência de fundamentalismos e radicalismos. Com temas
como «ciência e religião», «ética e economia», «política, ética e religião»,
etc., a disciplina define-se como uma plataforma de encontro. Um encontro que
não é só teórico, pois muitos são os alunos de outras confissões e religiões
que procuram a resposta que esta disciplina proporciona. O encontro é real e
efetivo. Esta disciplina e a forma como, hoje, está situada no currículo
nacional podem, mesmo, ser compreendidas como um caso de estudo: nela e com ela
concretiza-se um modelo de realização da laicidade positiva.
sábado, março 28, 2015
De indivíduos a pessoas - A dívida que o Cristianismo nunca cobrou
A dívida do Ocidente ao Cristianismo ultrapassa,
largamente, o âmbito das enumerações de todos os nomes que contribuíram para a
cultura, para a ciência, para as artes, para os temas de literatura ou muitos outros
âmbitos que possam enumerar-se. Provavelmente, entre os maiores contributos que
se devem ao Cristianismo está, tão simplesmente, um conceito, uma ideia. A
ideia de Pessoa. Os gregos não a tinham. Os gregos fundiam os indivíduos ou na
ordem da natureza, da essência, ou no âmbito da sua atuação enquanto cidadãos.
Não tinham, nem por sombras, a ideia de pessoa que veio a forjar-se no contexto
polémico das discussões sobre a Trindade, que quase dividiram em duas a Igreja cristã,
em pleno século IV.
Na verdade, a ideia de «pessoa» só se concebe
quando, perante a constatação cristã de que Deus não podia senão ser um só, mas
que se revelara como Pai, Filho e Espírito Santo, se verifica que era preciso
encontrar uma noção capaz de dizer a diversidade em Deus, sem nessa afirmação
se perder a unidade.
Mais ainda, havia que superar um limite que a filosofia
(a metafísica, para ser mais preciso) de Aristóteles impunha: na tábua das
categorias aristotélicas, a «relação» era compreendida como um acidente, isto
é, como um acrescento que se adicionava à substância, àquilo que era subjacente
a determinado ente e que definia a sua natureza própria. O dilema estava em
encontrar o equilíbrio entre afirmar a unidade, sem esconder a diversidade num
qualquer modalismo (como fazia Sabélio e outros) ou afirmar a diversidade de
tal modo que, para não se cair no triteísmo (três deuses), se acabava por
diminuir a «divindade» do Filho e do Espírito Santo, caindo no adocionismo de
tipo arianista.
A resposta a este duro dilema deu-se porque os
cristãos dos primeiros séculos souberam perceber que os dogmas não são verdades
fechadas, mas desafios que interpelam a superar as barreiras dos limites
conceptuais. Sempre assim foi, ao longo da história, apesar da ideia errada de
que os dogmas da Igreja são manifestação de um pensamento «dogmático», no
sentido de a-crítico. Tal não é, de facto, verdade, e, pelo contrário,
constituiu-se como repto a descobrirem-se formas de dizer o que parecia
indizível.
Assim aconteceu com o problema da unidade e
diversidade de e em Deus. Tal só foi possível organizar-se em pensamento
compreensível através da criação do conceito de pessoa. Na verdade, só se
compreende a fecundidade deste conceito se nos dermos conta de que ele não se
confunde com o de indivíduo. Com efeito, se a ideia de pessoa coincidisse com a
de indivíduo, numa perspetiva de algo fechado em si mesmo e quantificável, o
risco de afirmação de três deuses seria enorme. Havia, por isso, que encontrar
outro conceito que, em si mesmo, integrasse, contrariamente aos limites
aristotélicos, a ideia de relação.
Talvez o maior contributo para esta superação nos
venha de Santo Agostinho, na sua obra De
Trinitate, escrita ao longo de vinte anos. Ao centrar a sua reflexão na
ideia do amor, tomando a definição da essência feita por S. João, o bispo de
Hipona retira a relacionalidade do âmbito dos acidentes conferindo-lhe o
caráter essencial que pode, então, ser reconhecido em Deus. Deus é, então, três
pessoas enquanto em si mesmo é relação ativa, é um uno que se faz da
diversidade que se interrelaciona. Ser pessoa é isto: mais do que o que
entendia Boécio, que dizia que pessoa é «substância individual de natureza
racional», ser pessoa é relação consciente e subsistente. É um não poder ser
sem ser em relação. E isto é uma grande dívida que temos para com o Cristianismo:
a afirmação de que, por sermos criados à imagem de Deus que é, em si mesmo,
relação, não podemos senão ser relacionais. A individualização que a
modernidade nos trouxe trai a nossa condição. Nós não somos, primeiramente,
indivíduos, como se pudéssemos entender-nos sem os outros ou, mesmo, apesar dos
outros. Não! Nós não nos podemos entender sem, primeiramente, nos reconhecermos
nascidos dos outros e para os outros. Nesta definição, é fácil verificar que
aqui radica o «pecado original» das sociedades modernas. Ao afirmarem,
primeiramente, que somos «indivíduos», antes de sermos «pessoas», consideram a
relação um acidente, um apêndice não necessário e não essencial. E isso
desumaniza-nos porque, enquanto humanos, enquanto criados como seres que
refletem, radicalmente, a natureza de Deus, somos seres para a relação, seres
de relação. Muitos dizem, aliás, que a «minha liberdade onde acaba a do outro».
Nada mais falso. Se assim fosse, os outros seriam um estorvo e o aumento da
nossa liberdade dependeria da sua eliminação. Ora, os outros são um estorvo numa
visão de sociedade assente na ideia de que somos indivíduos. Mas, para uma
sociedade de pessoas (sociedade diz «comunidade de amigos» [«socius», em latim,
quer dizer «amigo»]), a minha liberdade não pode senão aumentar, na medida em
que fizer aumentar a do outro, e diminuir, na medida em que diminuir a dos
outros.
A dívida, de facto, ao Cristianismo, não para de
aumentar quanto mais vemos o abismo para onde caminha uma sociedade de
indivíduos. Urge, por isso, recuperar a noção central de «pessoa» enquanto
intrinsecamente definidora de que somos, por natureza, seres de relação. A
relação com os outros não é um acidente, um apêndice, mas condição da nossa
definição como humanos.
domingo, março 22, 2015
Do homem caído ao bom samaritano - Quem é, afinal, o próximo?
Se
alguém perguntasse, num inquérito de rua, a quem é que Jesus reconhece a
condição de próximo, seriam muito poucos os que não diriam que o próximo é o
mais frágil, o homem caído, o homem que é vítima. Contudo, curiosamente, apesar
da frequência com que lemos, distraidamente, a parábola onde Jesus reflete a
sua visão sobre este problema - a parábola do bom samaritano (Lc 10,29-37) - raramente
nos teremos apercebido de que a resposta que Jesus dá à pergunta não é aquela
que costumamos concluir.
Na
verdade, para nos situarmos, a pergunta que é feita a Jesus por um doutor da
lei era armadilhada: se Jesus confirmasse o que já dizia a lei judaica, nada
teria de novo, sendo que a lei judaica nada mais fazia do que reconhecer como
próximo aquele que pertence à religião ou à comunidade judaica. Aos que não
eram da condição judaica, era difícil reconhecer-se essa condição de
proximidade. Na verdade, em Lv 19,18, que o doutor da Lei recorda, dizia-se,
textualmente, que «não te vingarás e não guardarás rancor contra os filhos do
teu povo. Amarás o teu próximo como a ti mesmo.» Ficava, assim, sancionado, que
o próximo era o que pertencia ao povo.
Já
se Jesus ousasse afirmar algo que divergisse da lei judaica, incorreria em blasfémia,
colocando-se em situação de ser perseguido. A pergunta não era, por isso,
formulada sem escolhos.
A
inteligência da resposta de Jesus está em encontrar a via que responde à
pergunta sem incorrer em nenhum dos dois erros esperados: nem substitui a lei,
nem se fica pela sua mera repetição formal. Antes, desloca a condição de
próximo para um outro sujeito.
Na
realidade, a história que Jesus conta, e que confere o protagonismo a uma
inesperada personagem depreciada pelos judeus (o estatuto de um samaritano era,
entre os judeus, não superior ao que, infelizmente, a sociedade portuguesa
atribui, por exemplo, a um cigano. O samaritano da história poderia ser, hoje,
um cigano. Mas, também hoje, um cigano poderia, certamente, ser um bom
samaritano!) não nos diz que o próximo é «o homem que caiu no meio de
salteadores, sendo despojado e espancado». Antes, Jesus inverte a condição de
próximo, retirando-lhe este estatuto de quem beneficia da ajuda para a atribuir
a quem ajuda. Na verdade, quando termina a parábola, a pergunta que Jesus faz
não é «quem foi o próximo do bom samaritano, a quem ele ajudou», mas sim «quem
foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos salteadores?». Esta deslocação não
só escapa à crítica, mas introduz uma novidade que importa ter em conta. Ser
próximo já não é uma condição passiva, de quem aguarda a comiseração dos
outros. Antes, é a condição ativa dos que se deixam compadecer. Com efeito, a
compaixão e a simpatia, no seu sentido etimológico original, são palavras
sinónimas: a primeira, de origem latina; a segunda, de origem grega. As duas
querem dizer o mesmo: «sofrer com o outro» («passio» e «pathos» deram origem,
em português a «paixão» e «patológico»,
por exemplo). O próximo não é o que recebe a compaixão, mas o que se dispõe a
compadecer-se. Por isso, nem o sacerdote nem o levita da parábola foram
próximos daquele homem.
Esta
inversão do sujeito da proximidade tem consequências enormes. Nela se funda a
ética cristã. Ela não é, apenas, a constatação de que alguém necessita de
ajuda, de que alguém está aí, diante de nós, a necessitar de auxílio. Antes, só
quando aquele que necessita de auxílio vê a sua condição assumida por outro é
que se gerou a proximidade. Ser próximo não é, assim, um estatuto passivo, mas
uma condição ativa. E deixa de ter barreiras de qualquer tipo sejam religiosas,
políticas, de nacionalidade ou outras.
A
força desta parábola é tal que devemos reconhecer, como já fizera, em 2004, o
então presidente da República Federal Alemã, Horst
Köhler, que as próprias leis humanistas europeias nascem da cultura gerada por
esta narrativa de Jesus. Este importante líder político dizia, em 1 de dezembro
desse ano, na universidade de Tubinga, que «quando hoje consideramos a «recusa
de ajuda» como um facto punível, isso é também uma longínqua consequência da
parábola do bom samaritano. Esta prática do amor ao próximo, na qual não
pergunto qual o grau de proximidade tem o outro para comigo, faz parte do firme
património da Europa, apesar de todos os incumprimentos nos quais se incorre em
relação a este mandamento.»
O
desafio continua válido. Tantos, diante de nós, necessitados de ajuda, mas
ainda não nos decidimos a ser próximos deles. Eles estão aí, mas a evidência da
sua presença parece não gerar proximidade. Falta, na verdade, que se dê lugar à
ética que suplante os simples factos sociológicos. Se não for assim, os
necessitados podem nunca deixar de ser transparentes, invisíveis e nunca
beneficiarão da condição de proximidade dos que se deveriam deixar inquietar. É
que, como bem lembrava Bento XVI, na encíclica Caritas in veritate, «A sociedade cada vez mais globalizada torna-nos vizinhos, mas
não nos faz irmãos.» (CV 19) Só o olhar de bom samaritano gera proximidade.
quinta-feira, janeiro 29, 2015
Caricaturas
Um inimigo nunca é bonito, nem
bondoso e muito menos honesto. Sempre assim foi, ao longo da história, como
retrata, de forma genial, Umberto Eco, no seu livro «construir o inimigo». Como
se o inimigo fosse a personificação do demónio. Na verdade, a crónica dos
conflitos da humanidade poderia ser definida como a história da construção de
caricaturas mentais de cada um dos dois lados de cada barricada em relação ao
adversário. E todas as guerras se encerraram quando a máscara do inimigo, entretanto
criada na mente, caiu perante a constatação de que o outro, afinal, poderia ser
belo, honesto e até bom e, por isso, bem diferente da demonização construída.
Já nos primeiros tempos do
cristianismo, a religião emergente teve de se confrontar com caricaturas sobre
si que serviram para justificar as reiteradas perseguições que lhe infligiram
os vários imperadores, até que, em 313, Constantino, por édito de Milão,
aceitou tolerar a nova religião. Tais caricaturas sempre a acompanharam,
infelizmente, nestes dois mil anos de história. Dos primeiros séculos
chegam-nos, por via indireta através de Orígenes, as palavras caricaturais
proferidas por um romano, sobre quem pouco mais se sabe do que o nome, Celso, de
quem sobrevivem, hoje, apenas sete décimos do seu «Contra os cristãos». Dizia ele
sobre os cristãos que estes se comparam «a um bando de morcegos, a formigas
saídas do seu buraco, a sapos reunidos em conselho em torno de um charco, a
vermes em assembleia num canto do atoleiro, discutindo juntos quem dentre eles
são os maiores pecadores.» Hoje, a linguagem poderá não ser tão plástica e
depreciativa, mas as caricaturas do que seja o cristianismo não deixam de se
espalhar com igual carga negativa. E os seus efeitos são enormes e difíceis de
sanar. Na verdade, quem já não sentiu que uma determinada imagem de alguém,
construída à força de tanto se dizer mal, impediu encontros possíveis e
frutíferos, revelando-se, ao fim de tempo demorado, injusta e responsável por
tantas perdas!? Se assim é no plano das relações quanto mais não o será no
âmbito mais alargado das comunidades!
Ainda hoje, o retrato que fazem
do cristianismo - e, de forma para nós mais sensível, do catolicismo – tantos
que sobre ele falam nos meios de comunicação de maior impacto, muito contribui para
a dificuldade da sua ação na humanização da sociedade, gerando dores difíceis
de apagar.
Recordo,
a título ilustrativo, duas situações constatadas recentemente.
Quem
não recordou, na imagem repetida pelo Papa Francisco, no decurso da viagem
apostólica à Ásia, segundo a qual «creem alguns que, para ser bons católicos, devem ser como
coelhos»
a caricatura tantas vezes ouvida a muitos que falam do que supostamente dirá o
cristianismo sobre a sexualidade, quando, na verdade, mais não fazem do que
enunciar os seus próprios preconceitos?
Esta é uma caricatura
reiteradamente pintada na mente
dos mais imprudentes, esvaziando a densidade da mensagem a uma feia imagem que tudo
se fará para afastar. Li, por altura das afirmações do Papa Francisco, o que se
dizia num blogue que mereceu destaque de alguma imprensa digital. Dizia-se,
naquele blogue, intitulado «delito de opinião», que «não fosse o ditame
"crescei e multiplicai-vos" e a sexualidade jamais seria tolerada
pela moral cristã. Mas como para povoar a Terra é absolutamente necessário
ceder aos prazeres da carne, não há outro remédio senão abençoar o ato,
mediante certas condições, como se sabe. Uma é o casamento, outra é a cópula
espiritualmente assistida, ou seja, estritamente orientada para a procriação.
Tudo o mais é luxúria, egoísmo, concubinato.»
Estas palavras que, pelo simplismo, mais não são do que uma efetiva caricatura
do que seja a abordagem cristã sobre a sexualidade, eram encimadas por um
título igualmente esclarecedor: «fazer filhos por dever é triste». Sê-lo-á,
certamente, mas duvido que algum cristão esclarecido e que não viva uma
caricatura do cristianismo «tenha» filhos por dever. Antes, acolhe-os como dom.
E isso faz toda a diferença, capaz de devolver a condição humana a filhos que,
de outro modo, correm o risco de se tornar um bem disponível.
Junto
a esta caricatura sobre matéria tão sensível uma outra, relevante no contexto
da discussão ecuménica (diálogo entre os cristãos de confissão protestante,
católica e ortodoxa). Dei-me conta dela num documentário sobre o Papa Bento
XVI, em que se entrevistava a diretora de uma faculdade luterana de teologia,
durante a qual a mesma diretora afirmava que os protestantes se alegravam por
verificar que o Papa decidira dedicar três volumes ao estudo da figura de Jesus
de Nazaré, revelando que, afinal, os católicos também leem a Bíblia. A surpresa
desta diretora de uma faculdade de teologia protestante não pode senão suscitar
surpresa: surpresa que gera surpresa. Tal afirmação é reveladora de que temos
de nos sentar à mesa do ecumenismo e dialogar, para, enfim, constatarmos,
provavelmente, que estamos «zangados» porque pensamos que os outros estão
«zangados» connosco. E a caricatura que construímos na nossa mente cairá porque
não tem suporte na realidade. Este será, provavelmente, o grande desafio do
ecumenismo, hoje. Dizermos o que pensamos sobre os outros cristãos e ouvirmos o
que dizem de nós para cruzarmos as caricaturas mentais com o que, de facto, a
realidade revela.
Confesso,
aliás, um secreto desejo: o de assistir, em vida, à unidade dos cristãos, em
particular, com os Ortodoxos, em relação a quem a proximidade teológica e
eclesiológica é maior. Mas, para isso, será necessário insistir em olhar para
além das caricaturas e ver a verdadeira realidade. Porque a verdade libertará.
terça-feira, janeiro 06, 2015
Quanto pode Deus perante o mal?
Li, há dias, num insuspeito jornal de economia, a
afirmação de um destacado líder político nacional que dizia que acreditara em
Deus até ao dia em que lhe morrera o irmão.
Não pude ficar indiferente a esta afirmação, como
terá ocorrido com tantos outros que se depararam com esta surpreendente declaração.
O primeiro sentimento que tal declaração suscita
não pode ser senão a da solidariedade na dor da perda de um irmão. Poucas
expressões de sofrimento serão maiores do que essa. Talvez só a da perda de um
filho.
Contudo, num segundo passo, não resisti ao esforço
de interpretar o significado destas palavras, já distantes, no tempo, das
razões existenciais que as motivam.
Na realidade, estas palavras, ditas na primeira
pessoa, ecoam a densa discussão sobre o que pode Deus diante do mal. Pergunta
que emerge quando o mal ocorre com aparência de quase absurdo, seja pelas
vítimas que faz, seja pela dureza a que se associa. Assim aconteceu, quando em
2004, a onda gigante, cujo nome era até então apenas reconhecido por
especialistas, fez identificar tsunami com morte e terror. Então, como já
ocorrera em 1755, quando, em 1 de novembro, a periférica cidade de Lisboa fez
ressoar pela Europa fora a interrogação sobre onde estava Deus e a que se devia
o mal, a pergunta não deixa ninguém indiferente. Nomes como Rousseau, Voltaire,
ou o grande Kant, participaram em acesas discussões que pareciam ter
dificuldade em sair de um círculo vicioso que continua bem fresco: ou Deus pode
e não quer acabar com o mal; ou quer e não pode.
Antes de procurarmos uma resposta, gostaria de
adiantar, desde já, que valerá a pena constatar o seguinte: a afirmação segundo
a qual se deixou de acreditar em Deus porque um nosso irmão nos morreu resulta
de não nos darmos conta de que, nessa hora, abandonámos aquilo que,
precisamente nesse momento, tinha a oportunidade de mostrar a sua valia. Como
se alguém despejasse o copo de água na hora em que sentia sede, suspeitando de
que era por ver a água que se lhe despertava a sede. Dito de outro modo: face à
morte, não deveríamos perguntar-nos sobre onde está Deus, mas constatar, antes,
que a Deus devemos a possibilidade de dar sentido à morte, ao mal, pois, de
outro modo, já nada restará e o mal e a morte terão a última palavra.
Na verdade, muitas têm sido as tentativas de
conciliar a existência de Deus e a existência do mal, mas dificilmente se
consegue essa conciliação se situarmos Deus no mesmo nível das nossas
possibilidades de conhecimento. O primeiro erro está, precisamente, em
considerar Deus como uma causa entre outras, agindo à maneira das forças de que
dispomos. Na realidade, podemos dispor das fontes de energia, das forças
motrizes que fazem mover determinados objetos, etc., contudo, a causa das
causas está além das nossas disponibilidades. Neste pressuposto, continuaremos,
contudo, a sentir a crueza da presença do mal que nos aflige e nos leva a
perguntar, sempre de modo renovado, sobre onde está Deus.
Uns quiseram reduzir o mal à simples ausência do
bem e eliminá-lo como se de nada se tratasse; outros pretenderam atribuir o
sofrimento do mal a pecados merecedores de pena adequada, à maneira de uma
retribuição a que Deus condenaria a humanidade, tese rejeitada pelo próprio
Jesus, quando lhe apresentam um cego de nascença (Cfr Jo 9, 1-41); outros,
ainda, quiseram sossegar a interrogação bastando-se em considerar que este era,
afinal, o melhor dos mundos e que saber isso seria suficiente; outros, por fim,
quiseram colocar o mal ao serviço de um bem maior, não escapando à crítica de
que se tal fosse verdade, muita seria a crueldade de Alguém que faria um mundo
em que uns seriam cilindrados para benefício de outros.
Confesso-me muito próximo do que pensa, sobre esta
matéria, um teólogo de Santiago de Compostela, Andrés Torres Queiruga, para
quem Deus é a origem permanente do bem, mas que cria o mundo em liberdade,
porque a liberdade é a condição do amor. Ao criar o mundo, Deus «depara-se» com
uma de duas possibilidades: ou criar o mundo, sabendo que ele terá de ser
imperfeito, pois não é possível fazê-lo perfeito, dado que assim, seria, não
mundo, mas Deus; ou, então, simplesmente não criar, pois não haveria uma
terceira possibilidade. A escolha de Deus é a de criar, sendo o próprio ato
criador um ato de salvação do nada. Mas essa é a condição do mundo: sendo
livre, ser também limitado e por isso marcado pela fragilidade e pelo mal.
Assim, o mal não tem origem em Deus, mas na condição de fragilidade e limite
que é inerente à criatura, à criação. Criado o mundo, Deus continua, em cada
momento, a chamá-lo ao bem e à plena realização. Quando o chamamento de Deus é
correspondido pela resposta livre da criatura, emerge o bem; quando o
chamamento de Deus não é correspondido e a criatura se desvia dessa plenitude
de perfeição, emerge o mal.
Ora, sendo esta uma resposta abstrata e
aparentemente teórica, não é suficiente sem constatar que, na pessoa de Jesus
Cristo, esse encontro de total coincidência entre o chamamento de Deus e a
resposta humana é absoluta. E nesse encontro verifica-se que a resposta de Deus
não é a da indiferença perante o mal, mas antes a da sua assunção total.
Poderíamos dizer que, sendo Jesus o inocente por excelência, aceita a morte,
ainda que não a deseje, como bem demonstram as afirmações repetidas, nos
momentos que a antecedem. E aceita-a, não como demonstração de força, nem
porque nele a morte seja uma aparência, como pretendiam algumas heresias dos
primeiros séculos (o caso mais claro é o do docetismo), mas sim, primeiro, por
fidelidade à verdade, não recuando perante as consequências de lhe permanecer
vinculado, e, segundo, porque a certeza de que Deus vencerá a morte o faz
olhá-la de frente. A resposta definitiva à morte e ao mal está nesta
solidariedade de Deus, na pessoa de Jesus Cristo, que evidencia, na
ressurreição, que a morte não tem a última palavra e, nela, toda a expressão do
mal.
Neste quadro, a encarnação de Deus, celebrada no
Natal, é já a primeira expressão da tremenda solidariedade de Deus para com a
criação. Na resposta coincidente entre o humano e o divino, na pessoa de Jesus,
está expressa a certeza de que a fragilidade, o mal, a finitude, não são a
condição final e definitiva, mas a primeira condição em que se antecipa a
definitiva. Haverá que ver nos sinais de emergência do bem a marca forte de que
o mal só emerge quando a resposta da criatura diverge do permanente chamamento
à plena realização. Deus não só não abandona, como sempre pretende a resposta
que eleve a criatura à perfeição. Mas o amor não se impõe, realiza-se em
liberdade. E poder não se realizar é uma possibilidade que Deus não quer e tudo
faz para impedir, na medida do amor que não obriga (antes respeita a resposta livre).
Num irmão que morre, Deus desce com ele à morte
para o elevar à vida.
terça-feira, novembro 25, 2014
Sobre a corrupção: não há nada a fazer porque sempre existirá?
O
país ainda está atónito com a sucessão de notícias de corrupção que envolve
altas figuras do Estado. A presunção da inocência de cada um deve ser
pressuposto para qualquer reflexão. A frequência e vertigem com que as notícias
se sucedem devem, porém, ser pensadas como uma oportunidade para uma análise
que não se satisfaça com a identificação de uns quantos que possam sossegar as
consciências adormecidas, como se neles se encarnasse o papel de bodes
expiatórios. Esta é uma oportunidade para a reflexão. Para a reflexão sobre o
que deva ser a política e sobre como se criam as condições para, no seu
exercício, se gerar a corrupção.
Coincido
com os que pensam que não se chega à grande corrupção começando por aí.
Partilho, aliás, do que, no início do ano, já afirmara o presidente do Tribunal
de Contas, Doutor Guilherme d’Oliveira Martins, na revista Visão: «A cunha, o
pequeno favor, feitos por amizade, são o primeiro passo da corrupção».
Tipologias de corrupção
Na
realidade, como reconhecem muitos que se vêm dedicando ao estudo deste
fenómeno, entre os quais se destaca, em Portugal, a associação «Transparência e
Integridade, a corrupção pode tipificar-se em quatro perfis, numa espiral
progressiva que se alimenta dos perfis anteriores: a corrupção esporádica ou fragmentada, a corrupção estrutural ou cultural, a corrupção sistemática ou política, de alta frequência e de elevados
recursos e a corrupção
metassistemática ou de ‘colarinho branco’, envolvendo quantias avultadas,
mecanismo de troca sofisticados e tendencialmente transnacionais e uma
permeabilidade entre política e mercado. Esta tipificação pode encontrar-se no
precioso ensaio do presidente da referida associação, Luís de Sousa, intitulado
«Corrupção» e editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.
Quem
não é no pequeno não é no grande
Estas duas referências, quer ao presidente do
Tribunal de contas, quer a esta arrumação formulada pelo presidente da «Transparência
e Integridade», obrigam-nos a assumir que a corrupção se combate, não apenas
detendo os corruptos e corruptores, mas também transformando a cultura, o caldo
em que estes fenómenos encontram terreno favorável. Na verdade, considero que,
parafraseando Camões e adaptando a sua ideia, «o rei fraco convém à fraca
gente», isto é, a tolerância da sociedade perante a corrupção ocorre porque a
própria sociedade beneficia dessa aceitação dos comportamentos pouco
verdadeiros e honestos.
Paulo Morais, vice-presidente da associação acima
referida contava, há tempos, numa conferência promovida em Aveiro, pelo Iscra,
que, em Itália, só foi possível o combate eficaz contra a Máfia quando a
sociedade deu sinais de que se tinha tornado intolerante perante as práticas
mafiosas.
Só quando, como o Papa Francisco reconhece num
artigo escrito em 1991, com o título «Corrupção e pecado», se entender a
gravidade do que representa esta atitude corrupta é que se criarão as condições
para o seu combate e a construção de uma outra sociedade.
«Poderíamos dizer que o pecado se perdoa, mas a
corrupção não pode ser perdoada. Simplesmente porque na base de toda a atitude
corrupta há um cansaço de transcendência: perante o Deus que não se cansa de
perdoar, o corrupto ergue-se como suficiente na expressão da sua saúde:
cansa-se de pedir perdão. (p.27)» É difícil ser mais veemente e acutilante.
Importa perceber que a dureza destas palavras se deve ao facto de a corrupção
gerar em quem participa nela uma atitude de progressiva aceitação e
autojustificação, como diz, mais adiante, o Papa Francisco, no mesmo artigo: «A
corrupção leva a perder o pudor que custodia a verdade, aquilo que torna
possível a veracidade da verdade. O pudor que custodia, além da verdade, a
bondade, a beleza e a unidade do ser. […] Talvez se compreenda melhor com
algumas comparações. Roubar uma carteira a uma senhora é pecado e o ladrão é
levado para a esquadra. A senhora conta o sucedido às suas amigas e todas
concordam em como o mundo está cada vez pior, que as autoridades deveriam tomar
medidas, que já não se pode sair à rua, etc. A senhora em questão, a assaltada
pelo ladrão, não pensa no modo como o seu marido, nos negócios, burla o Estado
não pagando os impostos, como despede os funcionários de três em três meses
para evitar passá-los a contrato sem termo, etc. O marido, e talvez ela também,
faz gala publicamente destas manhas empresariais e comerciais – a isto chamo
desfaçatez pudica.» (pp.39-40)
A
corrupção alimenta-se a si mesma e abomina os incorruptos
O Papa alerta aqui para a facilidade com que o
corrupto, aquele que adotou uma cultura de falta de verdade, se autojustifica e
se considera acima de qualquer suspeita, pretendendo legitimar a sua visão e
prática. O Papa é ainda mais claro, quanto a este aspeto: «Para alguém volátil,
uma pessoa que procura conhecer bem os limites morais e que não os negoceia é
um fundamentalista, um antiquado, um tacanho, uma pessoa que não está à altura
dos tempos. E aqui aparece outro traço típico do corrupto: a maneira como se
justifica.» (p.34) Quem nunca sentiu que a busca de conferir honestidade e
verdade aos negócios esbarrava com a prática instituída de ser desonesto:
«todos fazem assim!» é a frase mais ouvida.
É bom constatar que a desonestidade dos que
desempenham funções públicas seria rapidamente denunciada e repreendida se os
cidadãos assumissem esta como uma causa sua.
Enquanto, porém, aos cidadãos convier a
desonestidade e a mentira, dificilmente as leis serão eficazes, no combate a
esta chaga que corrói a sociedade e mina a confiança no Estado. Ilustra bem
quão difundida está esta falta de verdade uma pequena história, infelizmente
semelhante a outra ocorrida em Portugal, bem recentemente. Esta história é
contada por Steven Levitt e Stephen Dubner, em «Freakonomics, o estranho mundo
da economia»: «em 1987, num dia de Primavera, à meia-noite, sete milhões de
crianças americanas desapareceram de repente. A pior onda de raptos da
história? Não. Foi na noite de 15 de abril, e os serviços de finanças acabavam
de mudar uma norma. Em vez de muito simplesmente declarar o número de filhos
dependentes, passou a ser exigido aos contribuintes que dessem o número de
Segurança Social de cada filho. Dum momento para o outro, sete milhões de
crianças – crianças que só tinham existido como deduções fantasmas nos antigos
impressos de declaração de rendimentos – desapareceram, representando dez por
cento de todas as crianças dependentes nos Estados Unidos.» Recentemente, em
Portugal, quando se impôs a obrigatoriedade de registar os filhos nos vários
serviços do Estado, recorrendo ao número de contribuinte, também então
«desapareceram» algumas centenas de crianças. Desapareceram porque nunca
existiram. Apenas na mentira dos seus inventores.
Como
combatê-la?
Uma cultura deste teor, em que cada um quer crescer
a qualquer custo, em que ser político é oportunidade para se servir e não uma
missão de serviço, em que a verdade não é condimento pressuposto das relações
económicas, sociais, é uma cultura corrupta, em que as detenções de uns quantos
são sempre apenas a ponta do iceberg.
O segredo passará, assim, por cada cidadão escolher
estar do lado da verdade, por um lado, mas também, por criar mecanismos que
protejam os que pretendem ser honestos. Concretizo esta alusão, com recurso a
duas sugestões que venho preconizando, desde há algum tempo:
- criarem-se mecanismos de anonimato, nas
instâncias em que são aprovados projetos que envolvem dinheiros públicos. Para
ser mais claro. A sugestão que aqui formulo toma por referência o que ocorre
nos exames nacionais do ensino básico e secundário. Ao exame de cada aluno é
atribuído, por uma equipa independente, um código que permite ocultar a
identidade do autor do exame. A partir desta fase, mais ninguém sabe a quem
pertence o referido exame, sendo, por isso, corrigido sem que se saiba a quem
pertence. Só no final de todo o processo, já com classificação atribuída, é que
a folha de identificação e o código são cruzados, de modo a saber-se a quem
pertence. Nas autarquias, nos ministérios ou em outras instâncias em que se
decide a quem atribuir determinada obra de avultado valor, poderia praticar-se
um modelo semelhante. A possibilidade de corrupção diminuiria
consideravelmente.
- criar-se uma instância independente da assembleia
da República que legisle sobre matérias que concernem aos legisladores e aos
políticos. Sabendo-se, como refere Paulo Morais, em diversas intervenções e no
seu livro «da corrupção à crise», da promiscuidade entre a assembleia da
república e os interesses económicos, só separando, efetivamente, os poderes,
sendo coerente com este princípio que já nos vem desde Montesquieu e está
chancelado pela Constituição, é que se poderá efetivar um combate bem-sucedido
a este fenómeno tão enraizado.
Mas, acima de tudo, é necessário que se deseje,
efetivamente, que este combate seja travado e que tudo não fique por discursos
periódicos, surgidos à medida da emergência das notícias.
Para que seja o rei forte a tornar forte a fraca
gente e não o rei fraco a convir à fraca gente.
segunda-feira, outubro 27, 2014
DOS DESAFIOS DO SÍNODO SOBRE A FAMÍLIA ÀS PERIFERIAS DO LUTO
Dos desafios do Sínodo sobre a família às
periferias do luto
1. Vivemos,
na Igreja universal e na diocese, tempos de reflexão, de reconfiguração do agir
cristão, tempos de redefinição do que devemos ser, enquanto Igreja, neste novo
tempo. Novo tempo! É novo pela novidade própria de cada hora, mas também é novo
porque aceitámos colocar-nos em atitude de descoberta do novo. Esse deverá ser,
aliás, o porto seguro da leitura do trabalho desenvolvido no Sínodo
extraordinário dos bispos, que decorreu entre 5 e 19 de outubro. Dificilmente
se poderá compreender o que aconteceu, naqueles dias, se a leitura for feita
num registo belicista como o que se verificou entre muita abordagem feita pela
comunicação social. Não se tratou de um combate ou de uma luta, não houve
vencedores nem vencidos, não houve uma batalha, mas sim um processo de
recentração no que é fundamental. O que esteve em discussão não foi, nem
poderia ser, a redefinição da doutrina cristã sobre a família e o matrimónio,
pois nem o Sínodo estava dotado desse objetivo, dado que se estruturara como um
tempo de redefinição pastoral, nem tal corresponderia ao pensamento e desejo do
próprio Papa. Será difícil uma leitura ajustada se não se tiver em linha de
conta o que o Papa Francisco já afirmara na exortação apostólica, Evangelii Gaudium, no n.º 36:
«Todas as verdades reveladas
procedem da mesma fonte divina e são acreditadas com a mesma fé, mas algumas
delas são mais importantes por exprimir mais diretamente o coração do
Evangelho. Neste núcleo fundamental, o que sobressai é a beleza do amor salvífico de Deus
manifestado em Jesus Cristo morto e ressuscitado.
Neste sentido, o Concílio Vaticano II afirmou que «existe uma ordem ou
“hierarquia” das verdades da doutrina católica, já que o nexo delas com o
fundamento da fé cristã é diferente». Isto é válido tanto para os dogmas
da fé como para o conjunto dos ensinamentos da Igreja, incluindo a doutrina
moral.»
Esta referência à hierarquia das verdades, que corresponde
ao pensamento conciliar pronunciado no decreto sobre o ecumenismo, Unitatis Redintegratio, compromete com o
dever de anunciar, em primeiro lugar, o que é prioritário. E, com efeito, a
doutrina moral decorre do anúncio da salvação e não o contrário. É após o
encontro, é após o sentir-se acolhido da parte de cada um daqueles com quem
Jesus se encontra, que acontece a conversão e não ao contrário. Jesus não
coloca a pureza moral como condição para o encontro com Ele.
Ora, é este
recentrar que resulta dos desafios colocados pelo Sínodo dos Bispos. Em
primeiro lugar, a proposta de salvação, a proposta de que a Misericórdia divina
antecede o pecado, é ela que tem a primazia e não o pecado. Aliás, a própria
teologia tem consciência de que, particularmente após a abordagem de S. Anselmo
de Cantuária (século XI-XII), a reflexão e ação cristãs sentiram fortes
tentações hamartiocêntricas, propensão para se centrarem no pecado, em vez de
darem a primazia e a iniciativa à graça.
É particularmente
relevante, neste contexto, para a formulação do que deva ser uma leitura
ajustada do Sínodo, refletir, atentamente, sobre o relato do encontro de Jesus
com a mulher adúltera, em Jo 8,1-11. Ali, Jesus revela, por um lado, acolher,
não condenar a mulher, recebê-la na sua dignidade que o pecado não faz perder,
mas também revela condenar o pecado. A palavra final «Vai e de agora em diante não tornes a pecar» deixa clara a
separação entre o acolhimento da mulher e a condenação do pecado. Talvez esta
distinção seja das mais desafiantes que o Sínodo obriga a recuperar. Muitos,
por um lado, querem fazer crer que, ao acolher, se aceita a bondade do que era
mal; muitos, por outro lado, em nome da denúncia do mal, parecem esquecer que,
em primeiro lugar, está o acolhimento da dignidade de cada um. Como dizem,
muitas vezes, os jesuítas, o equilíbrio reslta de «ser firmes nos princípios e
tolerantes com as pessoas». Distinção jesuítica mas, seguramente, também
jesuína.
2. As periferias do luto
Na exortação
apostólica Evangelii Gaudium, o Papa Francisco refere, por 9 vezes [EG 20, 30,
46, 53, 59, 63, 191, 197, 288 (oração final)], o termo «periferia»,
conferindo-lhe o caráter de âmbito da existência necessitada da iluminação
evangélica. Caberão, nesta oportuna definição categórica, muitos terrenos
inexplorados, sedentos da luz do evangelho. Muitos, bem definidos, em termos
geográficos, físicos, identificados mesmo com pessoas, com classes, com modos
de vida. Aqueles onde a dignidade humana parece tão sumida que os humanos ali
presentes estão reduzidos a farrapos, sem que alguém lhes sussurre ao ouvido
que ainda são amados por Deus.
Mas outras
periferias estão aí, diante de nós, perpassando as nossas sociedades sem que
lhes demos a atenção merecida, por não as vermos como tal, tão perto estão de
todos nós. Entre estas contam-se as que poderemos designar como «periferias
existenciais», aquelas periferias humanas nascentes de situações-limite que
atravessam todas as classes, as idades, as geografias. Fazem-se da dor da
perda. Da dor de se ter de encontrar o sentido quando a morte toma um filho
menor, quando se fica viúvo, quando sobrevém a notícia terrível de que um dos
nossos soçobrou à tentação da droga, quando a tragédia de um acidente que
provocámos causou mortes que ninguém quis, quando recebemos o diagnóstico de
que o nosso filho em gestação será portador de doença grave, quando um nosso
filho se torna um criminoso ou quando nos morre, muito cedo, o pai ou a mãe.
Muitas vezes
recordo uma cena do filme «a última caminhada», onde o pai de uma das vítimas
do assassino que vai a executar lembrava que cerca de 80% dos casais que perdem
um filho se divorciam, dado, aliás, confirmado por um estudo de Katherine Gold,
da Universidade de Michigan, publicado no Pediatrics,
jornal oficial da Academia norte-americana de Pediatria.
Para estas
periferias do luto, em que se morre antes mesmo de a morte sobrevir, que
respostas de Igreja estamos capazes de dar? Quem é arrastado para as periferias
existenciais sente que o mundo desaba sobre si, radicalmente só, nesta solidão individual
da morte: onde pode falar, onde pode encontrar quem tenha vivência semelhante,
a quem pode contar e falar e chorar a dor que não se apaga?
Onde pode encontrar
espaços de partilha e encontro que possam ajudar a reconfigurar sentido aquela família
onde sobreveio o primeiro divórcio? Sabe-se que, numa família onde ocorre um
primeiro divórcio, aumenta consideravelmente a probabilidade de outros
sobrevirem. O que fazemos, como Igreja, para prevenir a sua ocorrência? Que
acolhimento damos a quem é vítima do abandono conjugal e fica só, muitas vezes
com filhos que pedem a serenidade que, entretanto, se esfuma?
Quem anuncia, nas
periferias existenciais, que o Amor tudo vence e que essa vitória começa, já,
no acolhimento que se encontra, nessa hora que deixa no coração a dor de uma
ausência sempre presente?
Os primeiros
cristãos tinham um cuidado especial por estes a quem o luto colocava em periferia.
Eles eram o alvo da preferência das primeiras comunidades. Importa recuperar o
que permanece dessa genuinidade cristã.
Há um tempo para decidir e um tempo para ser fiel às decisões
Vivemos em tempo de crise de compromisso. A palavra
dada, hoje, não é certeza, amanhã. Assim nas pequenas como nas mais decisivas
escolhas: seja no negócio feito seja no amor celebrado e anunciado
publicamente. E o mais estranho é que tal já parece não causar estranheza, o
que torna mais penosa a situação. Há como que uma acomodação geral que parece gerar
rendição, como se a situação conviesse, pois, mais cedo ou mais tarde, se
espera beneficiar dela. Valerá a pena, porém, refletir sobre o que está aqui em
causa, não apenas nas suas consequências, que são sabidas e evidentes, mas nas
suas causas. Na verdade, o diagnóstico desta situação revela uma imagem do ser
humano que não podemos subscrever.
Muitos são os que classificam a nossa época como o
tempo em que a dimensão do ser humana mais valorizada é a do afeto e mais do
que o afeto, os afetos. Chamam-lhe era «pós-moderna» (por oposição à moderna,
em que a dimensão mais valorizada era a inteligência, a razão), ou
«hipermoderna» (marcada pela deceção) ou, ainda, «sobremoderna» (em que os
tempos e lugares da vida deixaram de ser significantes, de ter carga simbólica
e força de presença existencial. Vivemos aquilo a que um antropólogo francês,
Marc Augé, chamava os «não-lugares». Passamos pela vida mas ela não nos deixa
marcas significativas e nós, também, não deixamos nela marcas, porque os tempos
e os lugares já nada dizem: são, apenas, sítios e sequências de tempo ‘onde’
temos de transitar.
Esta condição humana só pode levar-nos a um abismo
de tristeza e angústia, que nos exige redescobrir aquilo que lhe confere
sentido e significado. Tal é a resposta que deverá caber às religiões, e, em
particular, ao cristianismo, de que se espera que ouse sair da rotina das
repetições para «revelar» os significados que, por detrás da linguagem
religiosa, se desvendam. Tal papel ganha especial pertinência no caso que
estamos a analisar. Só pode comprometer-se, só pode dar a palavra e ser-lhe
fiel quem discerniu, à luz de um sentido último, o valor de cada pequena
decisão. Com efeito, estou convencido de que a crise do compromisso é uma crise
de sentido, por um lado, mas também uma crise de humanidade, por outro, ainda
que ambas andem estreitamente unidas. Explico-me.
Se não sabemos para onde vamos, como dizia o grande
estoico latino, Séneca, nada nos será útil. Ele dizia-o de um modo mais
metafórico: «não há ventos favoráveis para barco sem destino». Quem não sabe
para onde vai, não vai para lado nenhum. Se não nos sabemos feitos para algo
maior, eterno, definitivo, nada é senão reduzido ao já. Esta é a primeira
dimensão da resposta: a crise religiosa começada no século XIX e de que ainda
se recolhem os estilhaços, faz mossa, e criou a fragilização do sentido do
próprio agir humano.
Mas há outra dimensão, que já deixávamos
transparecer no início.
O ser humano é, certamente, também afeto, dimensão
sensitiva. O ser humano sente o que acontece ao seu redor e nada lhe é
indiferente. Porém, por ser feito de vontade e inteligência, ele não pode
reduzir-se à afetividade. Amar, por exemplo, não pode ser só «sentir» ou «um
sentimento». Se o fosse seria muito pouco. Ele tem de ser uma decisão do ser
humano enquanto todo. O ser humano define-se enquanto ser capaz de discernir,
escolher. E, após escolher, a sua vontade, sempre iluminada pela razão, pela
inteligência, deve ser mobilizada para permanecer fiel ao que, por discernimento
feito, decidiu escolher. E aqui é notório um quadro de falhas no processo de
escolha, nos nossos tempos. Em primeiro lugar, a vertigem em que vivemos, faz
com que pouco ou nenhum tempo nos reste para poder discernir e escolher e, em
segundo lugar, muitas vezes, não escolhemos em plena presença de tudo o que
somos, mas determinados apenas pelo que sentimos. E isso é muito pouco. Somos
muito mais do que sentimos. Somos a síntese inteligente e decidida do que
fazemos com o que sentimos. O ser humano «pós-moderno» deixou-se reduzir a
sensações e isso põe em crise, parafraseando Giovanni Sartori, «o próprio homo
sapiens», isto é, quem somos como seres distintos dos demais animais e entes. É
urgente redescobrir o tempo para discernir, para escolher e, feita a escolha,
decidirmo-nos, em cada dia, a ser fiel à decisão. Quanta implicação daqui
resultaria para a vivência do amor, da liberdade, para a construção da própria
felicidade!
Luís Silva
quarta-feira, agosto 27, 2014
Como o fundamentalismo perverte e trai a religião
O
conceito de fundamentalismo tem, no contexto dos estudos fenomenológicos sobre
a religião, uma especificidade que não será a que teremos aqui. Com efeito, na
fenomenologia da religião, o termo aparece associado aos movimentos de matriz
protestante, surgidos em reação às tendências liberais de interpretação da
bíblia, que encontraram resposta defensiva na conferência de Niagara Falls, em
1895.
Não
é ao conceito preciso aqui implícito que nos pretendemos confinar, agora.
Fundamentalismo será, aqui, o sinónimo da atitude de quem considera a
formulação que possui como sendo a única forma de expressão da verdade,
considerando, por isso, essa formulação como definitiva, não admitindo outras
vias de resposta, e restando-lhe, por isso, a imposição forçada aos demais.
Vem
esta reflexão a propósito dos preocupantes sinais, a que vamos assistindo, de
emergência de movimentos que, assentes nesta visão aqui designada como
fundamentalista, se propõem impor a verdade que possuem pela via da força,
socorrendo-se, inclusive, se necessário, da violência e do terror. Tal leitura,
que vem encontrando, nos movimentos jihadistas (que vão buscar a sua raiz
última ao wahhabismo, corrente fundada por Muhammad Abd’ al-Wahhab no século
XVIII), um terreno fértil de proliferação, não é, infelizmente, um exclusivo
desta manifestação religiosa. De algum modo, também encontramos tristes
réplicas na intolerância inquisitorial católica ou nos movimentos ortodoxos e
ultraortodoxos judaicos, no fundamentalismo hindu (consolidado a partir de final
do século XIX) ou, ainda, no de matriz sikh (cujas raízes remontam já ao século
XVII).
É
relevante, para a nossa reflexão, tomar consciência, desde já, de que o
fenómeno, tendo forte expressão no contexto religioso, não é um exclusivo seu.
De facto, o que se expressa no fundamentalismo religioso é a tentação comum de
impor aos demais a verdade que se possui, seja ela de foro político,
desportivo, nacionalista ou outro.
É
perante esta constatação que importa verificar que, sendo frequente a
instrumentalização da religião para este fim, poderá, curiosamente,
encontrar-se na própria religião o antídoto contra este terrível veneno. Na
verdade, o que acontece no fundamentalismo é a consideração de que uma
determinada forma de olhar a realidade seja a última, definitiva e insuperável,
conferindo-se-lhe um caráter absoluto e inultrapassável.
Formulado
deste modo, podemos constatar que o que acontece no fundamentalismo contradiz o
conteúdo mais básico de qualquer das três religiões proféticas – Judaísmo,
Cristianismo e Islamismo. Na verdade, cada uma delas defende que um é o Criador
e outra a criação. O absoluto está fora da história, cabendo à história a
condição de caminho em direção ao absoluto, ainda que nunca conseguindo
atingi-lo de modo definitivo. Poderá, à luz desta constatação, verificar-se que
nenhuma outra experiência humana para além da religiosa está em tão
privilegiada condição para combater as tentações de absolutização da verdade
como definitiva como o está a religião, em particular as proféticas. Disto tem
particular consciência o Papa Francisco que, na sua encíclica Lumen Fidei, recordou, no número 34, que
“a fé não é intransigente, mas cresce na convivência que respeita o outro. O
crente não é arrogante; pelo contrário, a verdade torna-o humilde, sabendo que,
mais do que possuirmo-la nós, é ela que nos abraça e possui. Longe de nos
endurecer, a segurança da fé põe-nos a caminho e torna possível o testemunho e
o diálogo com todos.”
Esta
formulação feliz do Papa Francisco (nesta encíclica escrita a quatro mãos com o
Papa emérito Bento XVI) permite consciencializar que, ao discutirem-se os
problemas que nos coloca o fundamentalismo, a opção não é entre o
fundamentalismo e o relativismo (como se, então, tudo valesse o mesmo!), mas
sim entre estas duas opções e a convicção fundamentada e dialogante. O crente,
que se sabe a caminho, sabe ter descoberto um tesouro, que, como tal, pretende
partilhar com os demais, mas que jamais lhes deve impor. Porque não se impõe um
tesouro a ninguém.
Para
tal, exige-se que o crente se disponha a conhecer as razões da sua fé, sabendo
que o modo de Deus se lhe apresentar não esgota a totalidade da riqueza de
Deus, pois, como bem recordava, já no século II, São Justino, há outros
caminhos onde se manifestam as «sementes do verbo» (“Semina Verbi”), ideia
central tantas vezes repercutida no pensamento de alguns dos maiores teólogos
cristãos, merecendo aqui destaque o de Karl Rahner, que a tinha, seguramente,
como fundamento da sua convicção de que a verdade poderia estar, também,
naqueles que ele designava como “cristãos anónimos”, não por uma qualquer visão
arrogante e presunçosa perante os outros, mas como atitude de reconhecimento da
fraternidade que une em Deus a todos os que buscam a verdade. Desta leitura
fazem eco, no Vaticano II, quer Nostra
Aetate, quer Dignitatis Humanae,
dois documentos fundamentais para a compreensão do pensamento católico sobre
esta problemática.
Exige-se,
ainda, perceber que o mistério de Deus que se repercute nas palavras ditas em
cada tempo e lugar não pode confinar-se à concretude das formulações e das
designações. Ele transcende-as, ainda que nelas subsista a verdade que as torna
válidas e seguras. Na realidade, a tentação de deter a verdade não é de agora.
Os próprios discípulos a sentiram, mas a resposta de Jesus Cristo foi clara: “Disse-lhe João: «Mestre, vimos alguém expulsar
demónios em teu nome, alguém que não nos segue, e quisemos impedi-lo porque não
nos segue.» Jesus
disse-lhes: «Não o impeçais, porque não há ninguém que faça um milagre em meu
nome e vá logo dizer mal de mim. Quem não é contra nós é por nós.” (Lc
9, 38-40). E o que dizer do critério último para
a salvação, como no-lo apresenta Mateus, na sua plástica imagem sobre o juízo
final, apresentada em 25, 30-46? O critério será a transformação da
verdade revelada em realidade humanizada.
Importa,
por isto tudo, entender que o fundamentalismo é uma tentação que perverte e
trai a religião, na medida em que confunde a criação (o finito) com o Criador
(o absoluto), pretendendo no finito o que só se atingirá no absoluto. Importa,
também, compreender que, perante o fundamentalismo, a opção que resta não é o
relativismo, mas a convicção fundamentada e dialogante, disposta a partilhar e
aprender. Condições que devolverão, seguramente, às religiões o seu papel de
fundadoras de uma sociedade mais humanizada e, por isso, mais capaz de
encaminhar o homem para o seu destino definitivo, ao mesmo tempo que promoverão
o encontro com outros tipos de leitura da realidade, como a abordagem
científica, filosófica, etc. Muito terá o nosso tempo a ganhar se se processar
a libertação de toda uma série de preconceitos de uns para com outros, e se se
cultivar a convicção de que todos estamos a caminho. Às religiões poderá caber
mostrar para onde se dirige esse caminho. Assim saibam elas fazer-se ao caminho
com os homens.
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