Esta
reflexão decorre da minha condição de cidadão português e europeu e de cristão
de matriz católica. Não vincula, por isso, qualquer das instituições a que
pertenço. Entendo, como pressuposto a esta análise, que a catolicidade tem como
traço marcante a busca de não deixar ninguém de fora: perante as tentações de
confinar a uma leitura particularista, a catolicidade define-se pela
universalidade. ‘Nada do que é humano [nos] é estranho’.
Eugenismo Bioética Educação Teologia Ecumenismo Ciência e Religião Bem-nascido... Mal-nascido...
quinta-feira, julho 11, 2019
O estranho caso do inexistente apelo ao voto
Estabelecido
este pressuposto, importa orientar a nossa atenção para o assunto que aqui
discutiremos.
Uma
imprensa que serve a verdade e não agendas obscuras
Em meados
de maio, um jornal de tiragem nacional publicava que o ‘Patriarcado partilhou
apelo ao voto no Basta’.
Quando vi a
notícia, e vendo-a no específico jornal em que tal ocorreu, fiz a pergunta que
sempre faço quando leio uma manchete: a quem serve esta notícia? [O leitor pode
aplicar o critério a este próprio artigo: sirvo a causa dos mais frágeis (desde
a conceção à morte natural) e faço-o por entender que nenhum humano vale mais
nem menos do que qualquer outro. Ninguém tem legitimidade para matar ninguém!
Ninguém! Sou, por isso, contra todo e qualquer atentado contra a vida humana!
Aborto, tortura, pena de morte, eutanásia, eugenismo, violência sobre quem é
mais frágil, etc., são faces diversas do mesmo desrespeito pela inviolabilidade
da vida humana!].
Antes de
mais desenvolvimentos, detenho-me no motivo da interrogação acima referida.
Há muito
que defendo que os meios de comunicação social deveriam fazer declaração de
interesses. Assim é, por exemplo, na imprensa que pertence às dioceses. É
conhecida de todos a sua matriz, mas, ainda assim, esta imprensa diocesana é
obrigada a explicitar o seu estatuto editorial e as suas conceções
estruturantes. O mesmo preconizo para a imprensa nacional.
Defendo,
aliás, que os grandes jornais deveriam explicitar as suas motivações e não, sob
a capa de neutralidade, veicularem agendas que um olhar atento facilmente
descortina, mas que se teima em pretender ocultar, de forma obscura, acusando,
aliás, de obscurantismo aqueles que, afinal, têm as suas matrizes mais
explícitas.
Feito este
excurso, regressemos ao ponto que justificou a interrogação.
Quando,
logo pela manhã, vi a manchete, sabendo da posição oficial da Conferência
Episcopal sobre não assumir posição partidária, mas sem se inibir de denunciar
o desrespeito por valores que considera estruturantes para a vida em sociedade,
facilmente concluí que alguém pretendia matar à nascença um assunto que se
presumia ser incómodo.
Não
precisei de muito para que tal se tornasse evidente.
A forma
como a notícia era dada, para além de ser falsa (o ‘Basta’ não era o único
partido que correspondia ao suposto ‘apelo’, sendo que os católicos não votam
num certo sentido porque se lhes diz que é neste ou naquele partido que deve
votar-se. Muitos querem continuar a cultivar essa ideia de menoridade quando o
voto da maioria dos católicos não subscreve as suas opções!), desrespeitava as
mais básicas regras do jornalismo, uma vez que não assegurara o contraditório,
pois a entidade envolvida no post (não o Patriarcado, mas sim a Federação
Portuguesa pela Vida) nunca foi interrogada nem entrevistada por quem fez a
notícia.
Porquê
tanta pressa em denunciar um post de facebook?
Porquê,
então, esta prontidão em denunciar um post de facebook?
Porque não
havia tempo a perder. Importava matar à nascença (abortar, mais uma vez!) uma
criatura que se vislumbrava ser incómoda. Os autores da manchete sabiam que o
quadro feito pela Federação Portuguesa pela Vida não era uma fake new (‘falsa notícia’)! Explicitava
o que cada partido pensava sobre as matérias que, para a referida Federação,
têm sido motivo das suas principais preocupações, desde a sua fundação. E, em
tempos como estes, clarificar ajuda o eleitorado a posicionar-se, o que vai ao
arrepio do que se pretende em tempo de campanha eleitoral (!).
Constatemos
que a mesma imprensa não se insurgiu contra a Igreja quando, supostamente,
apelou ao voto, em relação a outras matérias, o que evidencia que a intenção da
associação República e Laicidade de acusar o Patriarcado é estratégia de moreia
que sai da sua cavidade para lançar o alarme, para, de seguida, recolher ao
mesmo lugar.
Vejam-se, a
título de exemplo, algumas manchetes, anteriores à data em que rebentou o
escândalo da Igreja defender que a política não deve apoiar o aborto, a
eutanásia, a legalização da prostituição ou outras matérias do âmbito da defesa
da vida humana mais frágil.
Em 12 de
maio, ‘o Cardeal D. António Marto critica «ideologias populistas e nacionalistas
de intolerância e exclusão’. Em 2 de maio, ‘Papa alerta para «ressurgimento» de
nacionalismos que podem comprometer projeto europeu’. Em 27 de abril, ‘D. José
Cordeiro pede «políticas geradoras de emprego» para o interior do país.’ Em 21
de abril, na homilia de Domingo de Páscoa, o Bispo do Porto afirmava que ‘a
abertura dos supermercados e dos centros comerciais ao Domingo [é] expressão de
um certo subdesenvolvimento humano e mesmo económico.’
Sublinhemos,
para que não restem dúvidas. A Igreja tem direito, e, para além de tudo, dever
de denunciar quando a política não serve a dignidade da pessoa humana. Sempre!
Sem medo e sem esquizofrenia.
Uma
patologia grave da política
O que
esteve em causa, neste escândalo do suposto apelo ao voto, foi uma questão que
denuncia uma esquizofrenia na política. Os pronunciamentos da Igreja parecem
bem-vindos se não se meterem em matéria de família e defesa da vida humana. Mas
também em relação a matérias de moral social há assuntos em que não se lhe quer
permitir que se intrometa, como veremos, de seguida.
O que parece
estar em causa, de facto, é a proteção da vida humana! Sim, parece que não é
tanto a matéria de doutrina social da Igreja, pois essa pensa-se que recolhe consensos.
Valerá a pena, porém, recordar que a mesma Doutrina Social da Igreja defende o
princípio da subsidiariedade, enunciado, pela primeira vez, em 1931, e que
afirma que, quando a sociedade é capaz de, de forma justa, encontrar respostas
para problemas nela existentes, não devem ser as instâncias superiores a
supri-las, sob pena de agirem de forma injusta. É a esta luz que é justo que
haja colégios da sociedade e que o ensino público não se reduza às escolas de
iniciativa estatal ou que não deva permitir-se a criação de monopólios de
qualquer tipo (privado ou estatal) que impeçam que a sociedade continue a
procurar as melhores soluções para os problemas. Bem certo que esta página da
doutrina social da Igreja é incómoda e deve ser rasgada!
Também a
página que defende o legítimo direito à posse de bens, desde que em articulação
com o destino universal dos bens, é incómoda, quando se defende o fim da
propriedade privada ou quando, pelo contrário, se pretende defender um direito
ilimitado à posse. É um princípio incómodo para todos – direita e esquerda –
mas é assim a DSI. Não é coutada de ninguém, mas desafio para todos. Ninguém
fica excluído. É isso que importa dizer. Ninguém fica excluído, segundo a DSI:
nem os imigrantes, nem os ainda não nascidos; nem os que são marginalizados
pelos seus comportamentos, nem os que estão em situação de limite de vida; nem
os que cometeram graves crimes ou os mais inocentes de todos. Para a DSI, todos
são dignos. E é isso que torna ridícula uma certa forma de fazer política. Só
alguns parecem merecer respeito e reconhecimento. Os outros ficam ao abrigo da
arbitrariedade ou da vontade de poder.
Lições
e desafios de uma decisão
A pergunta
que muitos fizeram, perante a clareza de que não tinha havido um apelo ao voto
(apenas a replicação de um quadro que esclarecia sobre o posicionamento dos
partidos que tinham respondido ao questionário da Federação Portuguesa pela
Vida) e que, em rigor, se se tratasse de um apelo ao voto, tal não seria num só
partido, era: porquê, então, o ‘recuo’ do Patriarcado?
Num tempo
tão dado a polémicas gratuitas, o ‘recuo’ do Patriarcado extinguiu a chama que
ameaçava distrair do que era importante. Manter um post que a imprensa já tinha
obrigado a pensar que constituía um apelo ao voto num partido xenófobo era
alimentar uma discussão inútil e que desvirtuava a intenção que assistira à sua
publicação: informar.
Mas o recuo
também obriga a refletir. A estratégia adotada pelo jornal que se apressou a
dizer como devia ser interpretada a intenção do Patriarcado é suficientemente
profissional para se perceber que regressará sempre que for possível e
necessário. E essa é uma interrogação que deverá colocar-se com honestidade e
transparência, nos areópagos onde se problematizam as fake news: devemos continuar a acreditar na imprensa que critica os
que criam fake news quando ela mesma
se socorre de igual estratégia para chegar aos seus objetivos?
E deverá,
em definitivo, considerar-se que a defesa da intrínseca dignidade da vida
humana ficará confinada ao âmbito dos partidos populistas ou de extrema?
A
defesa da vida humana devia ser causa de todos
A memória
obriga a reconhecer os riscos que tal comporta. Norberto Bobbio, autor que já
recordei diversas vezes, definia-se como descrente e socialista, mas não
ocultava que lhe causava estranheza que a defesa da vida humana ficasse
entregue apenas aos crentes (e, hoje, poderia acrescentar: ‘e, entre estes, já
só alguns!’). Hoje, tal é cada vez mais inquietante: o que está em causa diz
respeito a todos; a dignidade humana, mesmo quando escondida, recôndita, é
intrínseca a cada ser humano; esteja ele onde estiver, tenha ele a idade que
tiver, esteja ele na condição em que estiver. A dignidade de cada um torna uma
ofensa a cada um um problema de todos. Não pode deixar de gerar perplexidade,
por isso, que não se reconheça o dever de proteção ao ser humano e que ele
possa ficar disponível à vontade de alguns, quando, por oposição, se chega ao
ponto de fechar um campo de futebol porque uma ave protegida decidiu iniciar a
construção do seu ninho. (Nada contra, desde que não se fosse contraditório na
abordagem jurídica. Bem sabe o legislador que é preciso proteger desde o
início, mas parece esquecê-lo quando se refere aos humanos!). Refiro-me a um
caso acontecido nos Estados Unidos (Nova Jérsia) envolvendo o borrelho-de-dupla-coleira.
O que está
em causa é a coerência. E sabemos que, quando os regimes se entregam ao
discricionário, ao arbitrário, favorecem a emergência de ditadores para quem as
leis não devem respeitar princípios comuns a todos e inatacáveis, mas
dependentes da vontade de quem tem poder. E, hoje, esse poder está em quem tem
as armas para agitar as massas, para as levar a pensar o que quer que pensem.
Como o sabe fazer uma certa imprensa em Portugal! Não é isso, afinal, o
populismo?
sexta-feira, junho 14, 2019
A síndroma da identidade esquecida
A Europa vive em crise. A Europa está doente. Ninguém
duvida. Ninguém sequer o esconde. E melhor será que assim seja. Nada há pior
para a cura de uma doença do que fazer de conta que não se é padecente.
Reconhecer a condição é o primeiro passo para adotar um adequado tratamento.
Mas não é, ainda, condição suficiente para a cura.
E o problema da Europa tem residido, precisamente,
nas opções por que tem enveredado para encontrar a cura.
Há um mito, neste continente, estranho a todos os
demais continentes. A ideia de que para se poder conviver é exigível o fim das
identidades. A ideia de que a tolerância e o respeito significam sumir a
identidade, como se esta ofendesse só pelo facto de ser, de existir e de se
expressar.
Paradoxalmente, porém, não e preciso fazer grande
reflexão para concluir que o contrário é que é válido!
Como poderá haver diálogo e encontro se não houver
identidades distintas que possam encontrar-se e partilhar visões diferentes?
E este tem sido o ‘mito fundador’ de um certo modo
de construir a Europa, nas últimas décadas. A Europa parece estar a
construir-se como uma espécie de novo Rio Letes, rio onde não há memória e onde
tudo é esquecido.
É bom recordar que, segundo a mitologia grega, o
lugar desse rio Letes era o Hades, o mundo inferior, o lugar onde não há
memória. E não será de somenos importância acrescentar, ainda, que um dos
termos com o qual os gregos designavam a ‘verdade’ era a palavra ‘alêtheia’, a
qual, muito curiosamente, queria dizer ‘ não-esquecimento’, pois ‘lethos’
significa «esquecimento», sendo ‘a’ um prefixo de negação.
Quererá a Europa ser o lugar da perda da
identidade, o lugar onde a condição para se estar e viver é não se possuir uma
marca identitária? Quererá, por isso, a Europa ser o lugar da ‘não-verdade’, o
lugar da ‘não-identidade’?
Porque tem a Europa medo de si e da sua história?
Não há que esconder que a identidade se construiu
também com erros, violências, imposições, mas esse reconhecimento não deve
adotar-se para gerar vergonha de si mesmo, porque a mesma história fez-se de
perdão e encontros, de caminhos cruzados e partilhados, de misericórdia e
acolhimento, de hospitalidade e reconhecimento.
Os sinais desta tentativa de silenciamento da
identidade europeia já não são de hoje. Atingiram o seu cume aquando da
discussão sobre uma eventual Constituição europeia em que a linha laicista saiu
vencedora. De então para cá, os movimentos que propõem o silenciamento da marca
religiosa, particularmente a cristã, vêm melhorando as suas estratégias,
passando pela omissão pura e simples quando a justiça impunha que se dissesse a
verdade.
Tal está a verificar-se na tentativa de apagar, por
exemplo, a marca cristã associada à tragicamente destruída Catedral de
Notre-Dame, em Paris, propondo-se a transformação do monumento num espaço
inter-religioso e não cristão, mas outros exemplos poderão somar-se.
George Weigel discorre sobre esta perturbante
tentativa de silenciamento do papel da religião, no seu livro «O Cubo e a
Catedral» em que, curiosamente, a catedral referida no título é, precisamente,
a de Notre-Dame. O cubo é um gigante edifício geométrico mandado construir, no
tempo de François Mitterrand, na zona de La Défense, à maneira de um sinal com
poder simbólico com que se pretendia afirmar que a Catedral perdia o seu papel
de mais elevado edifício de Paris…
Veio-me à memória a linha reflexiva de Weigel
quando ouvi, recentemente, uma série de programas, numa emissora de rádio de
impacto nacional, em que se fazia um percurso pela importância da cultura na
construção da identidade de um povo, em que se falava de solidariedade, em que
se afirmava a importância das razões para a mobilização dos povos em torno da
resposta a tragédias, etc… A autora conseguiu realizar toda a sua reflexão sem
reconhecer, em momento algum, a importância das motivações religiosas na
construção de simbologias comuns, na construção da cultura, na fundamentação
das motivações para agir em prol dos outros. O exemplo mais claro evidenciou-se
quando a sua narrativa incidiu sobre a história recente de um polícia francês
que decidiu entregar-se a um sequestrador no lugar de uma mulher feita refém,
tendo acabado por morrer em vez daquela mulher. A história verdadeira mostra
que este polícia se convertera, recentemente, ao cristianismo e nele encontrara
as razões para esta decisão. Mas a autora do programa decidira buscar tal
motivação num vago e incipiente sentido de dever de um cidadão em nome da
República.
Dará alguém a vida por uma vaga ideia, por uma
ideia abstrata?
Por um irmão, sim! E essa convicção só nas
religiões poderá encontrar-se.
Alain de Botton reconhece-o, no seu livro «religião
para ateus», apesar de se afirmar, desde a primeira página, um convicto ateu.
Demonstra, com uma clarividência e honestidade raras que a humanidade nunca
conseguiu, até hoje, encontrar mais sólidos fundamentos para a ação moral, para
a solidariedade, para a construção de identidades culturais, para a
estruturação de consciências estéticas, do que na religião.
Não será descabido, neste contexto, recordar aos
que tantas vezes invocam a cultura grega como se só nela se fundamentasse a
ideia de Europa, as dramáticas palavras de Eurípides, colocadas na boca do deus
Poséidon, no final de as Troianas, na
versão recolhida por Maria da Helena da Rocha Pereira, em artigo de 1997:
«Louco entre os mortais é aquele que arrasar cidades, templos e túmulos,
lugares consagrados dos que já partiram. Quem os devastar, mais tarde há-de
perecer por sua vez.» Na Europa, os que a conduzem não operam esta devastação
através de máquinas de guerra. A omissão e o silenciamento é o novo nome destas
máquinas de guerra. Mas constroem uma civilização sobre o esquecimento e a
‘não-verdade’.
Valerá a pena, por isso, recuperar a pergunta:
Europa, porque tens medo da força da religião?
Porque a religião é suscetível de manipulação? Não haverá que temer esse risco
se a religião se alicerçar na misericórdia e nascer de uma convicção de que
Deus é amor. Mas é esse modo de viver a religião que a Europa mais parece
temer?
Talvez porque o que se pretende é o que se
propuseram os revolucionários de 1789 e os seus sequazes: construir uma
religião do Estado, uma religião que o Estado manipula a seu bel-prazer. É esse
o rumo que se propõe seguir a Europa? Esse será, realmente, o rumo que nos fará
beber das águas do Letes. Mas essas águas não saciam a sede mais profunda que
se oculta no coração humano.
sexta-feira, março 29, 2019
A propósito do azul masculino e do rosa feminino… | Igualdade de género ou igualdade entre os sexos?
Começo este
artigo com uma nota de ordem cultural.
Conta-nos
Homero, na Odisseia, que Ulisses, na viagem de regresso a Ítaca, pediu aos seus
companheiros de viagem que o prendessem ao mastro do seu barco, pois sabia que
teria dificuldade em passar junto às sereias que conseguiam, com os seus
melodiosos cantos, seduzir até os mais resistentes. Aos companheiros mandou que
tapassem os seus ouvidos com cera, para que eles próprios não as ouvissem.
Ulisses mostra, nesta cena, a sabedoria dos homens visionários que, mesmo
diante de discursos melodiosos e inebriantes, pedem para que os prendam ao
mastro do navio a fim de que não sucumbam. Uma sabedoria que, hoje, rareia.
Muitos são os que se deixaram seduzir pelo discurso melodioso de uma ideologia
que nos propomos, neste artigo, denunciar, com a agravante de a cera ter
derretido e já não parecer haver companheiros de viagem.
Ulisses vive,
hoje, provavelmente, o drama de uma outra figura da mitologia clássica,
Cassandra, que tinha o poder de prever o futuro, mas era vítima de uma
maldição: ninguém acreditava nela.
Hoje, os que
ousam pensar por si e denunciar que ‘o rei vai nu’ parecem levar o barco de
Ulisses sem companhia e denunciar uma verdade em que já ninguém parece querer
acreditar.
Feitas estas
notas preambulares, analisemos o assunto chamado a título.
Azul para menino e rosa para menina: o que está em
causa?
Têm sido
frequentes as notícias de gente que se insurge e censura artigos ou livros em
que se referem distinções entre meninos e meninas, considerando-as
ultrapassadas e destituídas de sentido.
O mais recente
caso prendeu-se com um livro em que se recordava o hábito de associar o azul
aos rapazes e o cor-de-rosa às meninas.
Não me
interessa, aqui, entrar no detalhe da discussão sobre a relevância ou não de
associar o azul aos meninos e o cor-de-rosa às meninas, mas à agressividade e à
minúcia com que se está a orquestrar toda uma estratégia que se propõe, não
apenas, nem primeiramente, a igualdade entre os sexos, mas sim a igualdade entre os géneros.
Não temos aqui
espaço para grandes desenvolvimentos, mas importa, no imediato, sublinhar,
primeiramente, que se assiste a um movimento internacional que, como bem
recorda a Carta Pastoral ‘a propósito da ideologia de género’ (14 de novembro
de 2013), tem em curso um processo que vai da modificação da linguagem à defesa
de uma certa ideologia.
Clarifiquemos,
antes de mais, que, em nome da dignidade humana, é legítimo, justo, necessário
e nunca totalmente concretizado, o desejo de assegurar a igualdade entre o
homem e a mulher. Não é disto que falamos, agora. A igualdade entre homem e
mulher não poderá, nunca, porém, consistir em não os distinguir, na sua identidade,
mas em não discriminar naquilo em que ambos desempenham funções iguais. Feita
esta ressalva, regressemos ao que está aqui em causa.
Uma ideologia que começa na linguagem
Como acima se
referia, a estratégia da ideologia de género começa na linguagem. Repare-se que
não se fala de ‘sexos’, mas de ‘géneros’, sendo que, se se consultarem autores
que analisaram esta matéria com detalhe (Aristide Fumagalli, Xavier Lacroix,
etc.), poderemos concluir que a mudança linguística veicula uma intenção: falar
de ‘sexo’ vincula ao aspeto natural e biológico, enquanto ao falar de ‘género’
(tradução pouco ajustada do termo inglês ‘gender’) se está a referir uma
construção mental e cultural. O que se pretende, dizendo-o de modo simples, é
desvincular a identidade (neste caso, sexual) da dimensão herdada que é o
corpo, a natureza fisicamente observável. Parecendo puro jogo de palavras, a
realidade demonstra que não é só isso. Basta ver que são de considerar dois
sexos – masculino e feminino -, enquanto a ideologia de género vem aumentando o
número de géneros identificados, referindo, já, 92 géneros (!). Não será
difícil concluir que, se a lógica vingar, atendendo a que o género é do âmbito
da construção mental, poderemos sempre continuar a aumentar o número destes
géneros até ao limite do número de humanos sobre a Terra.
As
consequências disto são muitas, mas poderemos sublinhar, fundamentalmente,
três:
- o ser humano
fica reduzido à sua condição individualista (sou eu que me faço e nada devo aos
outros ou a algo ou alguém anterior a mim);
- a humanidade
é apenas a sua dimensão de pensamento e não a sua história;
- nada devemos
à família (somos apenas o indivíduo).
«Quem não distingue
confunde!»
Tive um
professor de Filosofia no ISET (Coimbra), José de Oliveira Branco, autor de ‘O brotar da criação’, ‘o Deus que não
temos’, ‘a pergunta de Job’, ‘O humanismo crítico de António Sérgio’, etc. que recordava, frequentemente, que
‘quem não distingue confunde’. Há, na defesa da indistinção entre o sexo
masculino e o sexo feminino, de facto, uma intenção de não distinguir para
gerar a confusão. Uma confusão que ganha a muitos, principalmente aos que,
desde sempre, quiseram promover os ‘ideais’ do anarquismo e que pretenderam
eliminar toda a influência do Cristianismo na matriz ocidental.
Essa
eliminação passa, no nosso entendimento, pelas três dimensões que acima referíamos:
- Reduzir o
ser humano à sua mera individualidade, contra a visão personalista e relacional
com que o cristianismo sempre definiu a condição humana;
- Eliminar da
identidade pessoal a influência do corpo, como se o ser humano fosse, apenas, o
seu pensamento. É muito curioso verificar que esta perspetiva recupera a lógica
do gnosticismo, um dos primeiros adversários com que o cristianismo se depara e
que pretendia, inclusive, logo nos primeiros séculos, defender que Jesus Cristo
não tinha encarnado, pois isso era indigno de Deus. Hoje, estamos de novo aí.
Reduzir o homem ao seu pensamento, à sua alma, e negar que a corporeidade faz
parte da sua identidade é cair num novo platonismo, visão que tem origem no
pensador grego, Platão, e que contribuiu para que alguns movimentos defendessem
que o mundo, a matéria, eram a causa do mal, e não boa criação, como se pode
depreender da leitura do livro do Génesis.
- Tornar
irrelevante a missão e função da família na construção da identidade pessoal.
Neste passo, não resisto a reproduzir aquilo que nos conta Orlando Figes, no
seu livro Sussurros, publicado pela
Alêtheia, que nos descreve o que pretendia a revolução russa (onde se inspiram
muitos destes movimentos que estamos, aqui, a denunciar): ‘Os bolcheviques
estavam convencidos de que, obrigando as pessoas a partilhar o espaço vital,
conseguiriam torná-las mais comunistas no modo de pensar e nos comportamentos.
Os espaços privados e a propriedade privada acabariam por desaparecer, a vida
familiar seria substituída pela fraternidade e organização comunista, e a vida
privada do indivíduo seria submetida à vigilância mútua e ao controlo da
comunidade.’ E porque é que a visão revolucionária atua deste modo? Por causa
da visão que tem sobre a família monogâmica. Uma visão pessimista que serve de
base à ação da revolução. Nada melhor do que pôr a falar os próprios
revolucionários. Diz A. F. Shishkin, autor de ética marxista: «O primeiro
antagonismo de classes que surge na história coincide com o desenvolvimento do
antagonismo entre homem e mulher na monogamia; e a primeira opressão de
classes, a do sexo feminino pelo sexo masculino.»
Uma tal visão
das coisas terá de resultar, naturalmente, na decisão de que é urgente combater
aquela que é considerada a causa de tal opressão: a família.
Muitas
tentativas efetivas foram feitas para concretizar este objetivo, mas, até hoje,
o grau de eficácia tem sido diminuto. A família pareceu resistir, com
segurança. Mas a ideologia de género conseguiu atingir o âmago do problema e
está a revelar-se mais eficaz do que qualquer outra estratégia. Passou por
legitimar que a construção da identidade não passa por cada um se reconhecer
num contexto concreto e situado, em que a família representava o lastro em que
cada um se constrói, mas por cada um ser o criador da sua própria identidade.
Muitos recordam que a ideia que subjaz à ideologia de género se cunhou na
expressão de Simone de Beauvoir que defendia que «ninguém nasce mulher; faz-se
mulher».
A pergunta que
cabe fazer é se o futuro da realidade poderá compaginar-se com este
individualismo extremo. Imagine-se o que seria cada um construir o seu próprio
idioma, ou definir as leis à sua medida, ou estabelecer o que lhe caberá dar à
sociedade, etc.
O que está em
causa é, por isso, muito mais do que a cor de identificação de menino ou menina,
mas se ainda poderemos continuar a pensar-nos de acordo com a nossa
corporeidade. Não temos, apenas, um corpo; somos corpo! Negá-lo significa
construir uma humanidade desencarnada. Mas talvez esse seja o objetivo dos que
estão tão eficazmente a levar por diante a ideologia de género. Enquanto os
restantes se deixam embalar pelas vozes de sereias…
sábado, fevereiro 16, 2019
‘Ai dos que escandalizam um só destes pequeninos’ (Lc 17,2) | Como foi possível?
Toda a história da Igreja é uma narrativa de
fidelidade e infidelidade. Já São Paulo, numa carta escrita em finais do ano de
56, dirigida à comunidade de Corinto, abria a sua alma para confessar que «foi,
pois, em grande aflição e com o coração despedaçado, que vos escrevi entre
muitas lágrimas» (2Cor 2, 4).
Não nos podem, porém, servir de atenuante ou
analgésico estas palavras e este reconhecimento, numa hora da história cristã tão
marcada por trevas e escuridão. Seria terrível que assim fosse, dada a
gravidade do que vamos descobrindo sobre práticas e comportamentos que se
permitiram e consentiram, durante tempos prolongados. Necessitamos, como
comunidades cristãs, de refletir, de pedir e fazer tudo para que se cumpra a
justiça, de consolar os que foram doridos e permanecem inconsoláveis na chaga
que lhes atinge a alma e, acima de tudo, de criar as condições para que tal
nunca mais se repita. A Igreja tem de ser porto seguro! A luz para o ser não
tem de o buscar fora da verdade que Jesus Cristo lhe confiou. Mas tem de lhe
permanecer fiel; não procurar nesse tesouro um qualquer pretexto para se
considerar invulnerável: porque a mensagem e o tesouro é singular, mas é de
barro o vaso em que se transmite às gerações futuras e aos que ainda não
participam deles.
É preciso ter-se consciência de que, por detrás de
práticas, há sempre uma teoria, o que torna ainda mais dolorosa a interrogação
sobre como foi possível. Que visão e conceção legitimaram tais práticas? Como
foi possível que não nos inquietasse a palavra do Mestre que anatematizava
aqueles que escandalizam os mais pequenos (Cfr. Lc 17, 1-2)? Como foi possível
que não nos incomodasse mais a dor das vítimas do que o receio de denunciar os
agressores? Como foi possível que as nossas comunidades considerassem
intocáveis e impecáveis alguns só porque investidos de ministérios e missões,
ainda que definitivos, mas participantes na missão maior que a todos toca: a de
anunciar o verdadeiro amor de Deus que respeita a pessoa e a protege, na sua
dignidade? Como foi possível? Como pudemos distrair-nos de sinais que nos
mostravam que alguém pudesse tomar os ministérios na Igreja não como serviço
mas como pretexto para meras realizações individuais? Como pudemos (e podemos
continuar a) alhear-nos perante a tristeza do irmão? Como pudemos deixar que as
nossas comunidades fossem mera geografia de funções e não verdadeira comunhão
de irmãos?
Foi possível, bem certo, porque a Igreja é santa e
pecadora, depositada, na história, pelo Mestre que é o Santo, mas feita de
caminho, a caminho e no pó do caminho.
Mas isso não pode servir de pretexto para nos
sossegar.
Pelo contrário, não pode ser senão motivo acrescido
para que nos mantenhamos atentos. Hoje e sempre. Como deveria ter sido, ontem.
Importa ter, contudo, consciência viva de que a
Igreja é maior do que o seu pecado. Não por mérito seu, mas pela ação gratuita
de Deus que, mesmo em contextos de especial gravidade, concede luzeiros que
permitem manter viva a esperança de que possa haver, pelo menos, um justo a
cujo amor se deva que não seja destruída a mais ignominiosa cidade (Gn 18,
16-33). Importa, nesta hora de trevas, aprender, acolher, pedir perdão e
renovar as razões da fé. Há tanto bem a ser feito! Há tanta esperança a ser
renovada! Há tanto verdadeiro amor a gerar-se! Há tanta gente a reconciliar-se
consigo, com os outros, com o mundo e com Deus, por ação da Igreja! As trevas
não sairão vencedoras. O livro do Apocalipse no-lo assegura: «Depois, na visão,
quando o Cordeiro abriu o primeiro dos sete selos, ouvi um dos quatro seres
viventes que dizia com voz de trovão: «Vem!» E vi que apareceu um cavalo
branco; o cavaleiro levava um arco e foi-lhe dada uma coroa. Depois, partiu vencedor para novas vitórias.» (Ap 6,
1-2)
Os critérios para uma sempre renovada fidelidade ao
melhor da humanidade não precisamos de os procurar fora. Temo-los em grau de
pureza que basta que lhes sejamos fiéis. Se o formos, cada vez com maior
densidade, cumpriremos a missão de respeitar a dignidade de cada um, mas,
infelizmente, chega a parecer que tiveram de nos pressionar de outros
quadrantes para que despertássemos para aquilo que um olhar cristão honesto
deveria ter descoberto e ter-se escandalizado. Que nesta e noutras matérias
nunca percamos a coragem de procurar a verdade, de lhe sermos fiéis, sendo
consequentes com o que a fé nos mostra corresponder ao desígnio de elevar o
humano à estatura de Deus. Porque, afinal, será pelo que fizemos aos irmãos
mais pequeninos que seremos julgados (Cfr. ‘Em verdade vos digo: Sempre que
fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes.’
(Mt 25, 31-46).
quarta-feira, janeiro 30, 2019
Associação ateísta adota discurso de ódio e catolicofóbico
Portugal recebeu, no dia 27 de janeiro de 2019, a
notícia de que seria o palco das jornadas mundiais da juventude, a ocorrer em
2022. Mesmo tratando-se de uma iniciativa promovida pela Igreja Católica e
primeiramente dirigida a jovens católicos, a alegria com que tal notícia foi recebida,
nos mais diversos quadrantes da sociedade, evidencia o reconhecimento de que é
um evento que ultrapassa as ‘fronteiras’ do catolicismo, quer por se tratar de
um acontecimento multitudinário, com forte impacto na relação entre povos
(impacto económico, cultural, sociológico, político, etc.), quer pela natureza
promotora de encontro com a diversidade que define a própria iniciativa.
Logo, porém, se ergueram vozes contrárias a uma
qualquer associação do Estado à iniciativa, com críticas à presença do Chefe de
Estado ou de outros políticos nas próprias Jornadas realizadas no Panamá.
Bem certo que toda a presença em qualquer evento,
por parte dos representantes políticos é suscetível de escrutínio, dado que em
causa pode estar a utilização de dinheiros públicos. O que está, porém, em
causa nestas manifestações prontas de ofensa é a sempre repetida questão da
laicidade.
A associação ateísta, a associação ‘República e
Laicidade’ são, habitualmente, as vozes de uma interpretação que já era hora de
se dizer que é minoritária e vencida, quer pela história, quer pela própria
jurisprudência. Expliquemo-nos…
Importa, antes de mais, ser muito claro quanto a
uma afirmação tantas vezes repetida que se assume como verdadeira.
Não é verdade que a nossa constituição utilize os
termos ‘laico’, ‘laica’ ou ‘laicidade’ para definir a natureza da relação entre
Igreja e Estado, em Portugal. Essas palavras aparecem, de facto, mas na
Constituição da República Francesa, pelo que não deve importar-se para o âmbito
português aquilo que é de outro âmbito.
Mais…
O artigo da constituição que define as condições
da relação entre Estados e Igrejas é o 41º, cuja redação é particularmente
interessante, pois coloca o acento na liberdade religiosa e não na neutralidade
do Estado. Aliás, as intervenções do Tribunal Constitucional (ver os acórdãos
n.os 423/87 e 174/93) evidenciam que não existe qualquer incompatibilidade
entre a Constituição da República Portuguesa e a sua relação cooperante com as
religiões, em geral, e com o Catolicismo, em particular.
Valerá a pena somar mais uma constatação.
Há, de facto, um princípio da relação entre
Estado e religiões identificado como ‘laicidade’ que a define como uma justa
separação entre ambos. Daqui, porém, decorrem duas leituras antagónicas. Uma é
designada como laicidade positiva ou, simplesmente, ‘laicidade’ que muitos
sustentam nascer da afirmação de Jesus Cristo de que ‘deve dar-se a César o que
é de César e a Deus o que é de Deus’. Tal posição entende que, cada um na sua
ordem, Estado e Religiões, são autónomos, mas cooperando um com o outro. Outra
interpretação, definida como ‘laicidade negativa’ ou, simplesmente, ‘laicismo’,
entende que o Estado deve fazer de conta que as religiões não existem, ter para
com elas uma atitude de desconfiança, e, no limite, persegui-las. Na melhor das
hipóteses, o Estado tolera a sua existência, desde que fiquem no âmbito
privado. É a posição da associação ateísta e da República e Laicidade.
A História da Revolução Francesa (e o seu período
do terror), os regimes coletivistas de Leste, a primeira República Portuguesa e
tantos outros momentos da história, demonstram, à saciedade, que essa é uma
visão errada, porque, para além de tudo, desrespeita o direito à liberdade
religiosa que não é, simplesmente, um direito privado, mas um direito à
manifestação pública, desde que não seja exclusivista e desrespeitadora das
demais.
A história do mundo e a história da República
Portuguesa evidencia que já era hora de se ter aprendido a lição de que não
está no silenciamento da religião o segredo de um país e de um povo, mas no
reconhecimento do seu sentir e na valorização positiva do mesmo.
Acrescente-se, ainda… A atitude da associação
ateísta, contrariamente ao que quer fazer crer, representa uma visão
minoritária mas muito poderosa junto da imprensa (basta reparar como os jornais
I e Sol logo publicaram, como se tivessem uma só redação (terão?), uma
reportagem fazendo crer que teria havido uma espécie de insurreição coletiva,
quando se percebe que nem há quem fale em nome da referida associação).
E o que diz não é argumentativo ou discursivo. O
que diz utiliza a estratégia dos discursos do ódio e, neste caso, um ódio
dirigido, de matriz catolicofóbica, bem visível nesta frase com que se termina
a referida reportagem: «O país não é um bando de beatos e não merece tal
ofensa.»
Os católicos não são, eles próprios, ‘um bando de
beatos’. Tal abordagem evidencia um preconceito que já deveria ter ficado nos
longínquos anais do século XIX, em que ciência e religião pareciam não se
entender. Hoje, Lemaître, David Jou, Polkinghorne, Macgrath, Peacoke, John
Haught, Teilhard de Chardin e tantos outros evidenciam que não faz qualquer
sentido uma lógica de conflitualidade.
O que continuam a pretender os que, teimosamente,
recuperam tal visão passadista? E o que querem os que lhes dão o palco que não
dão a quem quer demonstrar, há muito tempo, que ganharemos todos se o diálogo
entre religião e ciência, entre Estado e religião for efetivo?
quinta-feira, janeiro 24, 2019
Legislação sobre o aborto | 172 mil abortos depois, não será chegada a hora de mudar a lei?
Esse é, porém, um aspeto de ordem
formal. O importante é o que está em causa.
E o que está em causa é, antes de
mais, um sinal grave que a sociedade interpretou como se previa. Já então
muitos foram os que alertaram para o risco de uma lei que legitimasse o
abortamento voluntário contribuir para o agravamento do desprezo pela vida
humana. As taxas de fecundidade como as que Portugal apresenta (em 2017, foi de
1,37 filhos por mulher em idade fértil; deveria ser, no mínimo de 2,1 para
permitir reposição da população) e os saldos naturais negativos (relação entre
total de mortes e de nascimentos, em cada ano) vêm comprovar a pertinência
desses alertas. Portugal começa a apresentar saldos naturais negativos em 2007,
antes da crise a que muitos querem atribuir a responsabilidade por Portugal ter
uma crise de nascimentos. A crise tem uma data (15 de setembro de 2008, momento
da falência do Lehman Brothers, cujas ondas de choque não chegam logo a
Portugal). A crise demográfica é anterior a essa data, pelo que não é honesto
atribuir à posterior crise económica uma causalidade preveniente. Bem certo que
as mudanças na lei do aborto, em 1984, em 1997 (mudanças de prazos legais para
a sua prática, dentro das condições definidas em 1984) e em 2007, terão de se
somar a outros fatores, mas o seu efeito de desblindagem do reconhecimento da
inviolabilidade da vida humana e na insensibilidade perante a beleza da geração
de novas vidas é inquestionável.
Some-se a esta preocupação com o
efeito na sensibilidade perante a importância de gerar a vida um outro efeito
poucas vezes referido. Como pode esperar um combate eficaz à violência uma
sociedade que aceita, pacífica e pacatamente, a violência naquela que é a
relação primordial e mais simbólica de todas, a relação entre mãe e filho? Uma
sociedade que se insensibiliza perante a violência de uma mãe contra o seu
próprio filho ainda indefeso já está predisposta para aceitar toda e qualquer
outra violência. E todos esses sinais e temores têm saído confirmados, ao longo
dos doze anos que nos separam da decisão de aceitar que, até às 10 semanas de
gestação, uma mãe possa impedir o seu filho de viver e desenvolver-se.
A pergunta é, seguramente, a
seguinte: a pretexto de quê?
Da liberdade? Mas, pode alguém
ser livre contra outro? E pode a liberdade ser entendida como mero exercício de
vontade? Onde fica, na decisão livre, o discernimento e o reconhecimento da
verdade daquilo que a vontade pode destruir? E se a liberdade for exercício de
vontade apenas, porquê, então, não deixar à vontade de cada um todas as demais
decisões da vida? Porque não há-de respeitar-se a vontade de cada um quando tal
respeita a outras tantas matérias da vida em sociedade? Porque, bem certo, a
liberdade não é puro exercício de vontade, como é sabido, mas sim capacidade de
discernir e escolher o melhor. O resto é arbitrariedade. E é por isso que é
legítimo submeter a vontade ao que a inteligência considera o melhor. É essa a
opção de um Estado de direito em tantas, tantas matérias. Mas não foi assim, em
relação à vida humana.
Dizem alguns: ‘Foi uma questão de
respeito pelo direito da mulher a decidir, pois tal será um direito humano’.
Tal convicção caiu por terra,
quando o Tribunal Europeu dos Direitos humanos deliberou, sem possibilidade de
recurso, em 16 de dezembro de 2010, com 11 votos a favor e 6 contra, que o
aborto não é um direito humano e, por isso, é legítimo que os Estados o
penalizem. E por um motivo simples. O filho que se desenvolve no útero materno
é já alguém, é uma identidade única, merecedora de proteção, pelo que atentar
contra esse alguém exige explicação sobre os motivos de tal ação. Não é
qualquer ideologia que o afirma; são os dados da genética que evidenciam a
unicidade de cada um, desde a primeira hora. O filho em desenvolvimento não é
uma ‘coisa’, como afirmaram muitos, no período que antecedeu os referendos,
recuperando uma estratégia de ‘desumanização’ dos filhos humanos em gestação.
Estratégia antiga tão bem conhecida. Os que queremos eliminar não podem ser um
de nós; se o fossem, não os eliminaríamos!
Sobrou, então, que era uma
decisão que devia ser entregue às mulheres, pois é um direito destas.
Curiosamente, também a esta convicção restou pouco caminho para andar. A
realidade vem demonstrando que, por causa de algumas mulheres que queriam
abortar, ficaram desprotegidas todas as que querem gerar a vida. Muitas são as
que vão dizendo, de forma discreta, que ocultaram dos seus patrões ou
companheiros a sua gravidez, até às dez semanas, para que não se vissem
coagidas a abortar. Uma lei que se defendeu a pretexto de proteger as mulheres
voltou-se, afinal, contra elas próprias. Nada que não se adivinhasse, pois o
erro está no ponto de partida. Como pode defender-se que as leis protegem bens
e valores se, na hora mais grave em que o devem fazer, as leis os desprotegem?
E, neste caso, está desprotegido o bem que é irreversível quando desrespeitado:
a vida frágil e totalmente dependente de alguém.
Acrescentou-se, ainda, que era
necessário fazer uma lei que repercutisse o facto de ser a mulher a gerar o
filho. É por esse motivo que, durante as dez semanas, só a mulher pode decidir.
O pai que contribuiu para gerar a vida nada pode fazer e não tem qualquer
direito, nesse período. A pergunta que, naturalmente, deveriam fazer os
juristas mais avisados só poderia ser esta: como pode exigir-se, a partir das
dez semanas, que tenha deveres alguém que, durante as primeiras dez semanas,
não teve quaisquer direitos? O pai não gera às dez semanas; gera no início. O
Direito (jus) está suspenso, durante dez semanas?
Tal situação demonstra a incoerência
da lei; não só a incoerência material, pois desprotege bens essenciais em
benefício absoluto de outros bens que se quis colocar em conflito (a liberdade
(?) em prejuízo da vida), mas também a formal: é uma lei que, por ser
arbitrária e discricionária sobre quem escolhe para reconhecer direitos e quem
exclui deles, gera condições para posteriores problemas de conflitualidade
gratuita. E isso tem pouco de lógica e coerência esperadas no sistema jurídico
de um Estado de direito.
Outras convicções poderíamos
invocar para, perante o fracasso a que as veio a expor a realidade posterior,
evidenciar que esta é uma lei que urge modificar.
Mas, acima de todos os motivos,
importa olhar, com coragem, os dados que a todos nos deveriam envergonhar.
Desde 2007, ano em que se realizou o segundo referendo e se operou a alteração
mais grave na lei sobre o abortamento voluntário (em 1984, já tinham sido
admitidas as situações de violação, malformação e perigo para a saúde física ou
psíquica da mulher; a partir de 2007, passa a ser legítimo abortar até às 10
semanas sem dar quaisquer razões), já se realizaram mais de 172 mil abortos
(dados até 2016; o relatório referente a 2017 ainda não foi publicado),
correspondendo a mais de 15 mil em cada ano (só em 2007 é que se ficou pelos
7213, dado que a regulamentação só entrou em vigor em julho desse ano). Acresce
a isto que cerca de 27% são abortos repetidos (a mesma mulher realizou mais do
que um), sendo que, do total de abortos realizados em cada ano, apenas 3% a 4%
são pelos motivos previstos na lei de 1984 (malformação, violação ou perigo
para a saúde física ou psíquica da mulher); os restantes 96% a 97% dos casos
são sem razão apresentada pela mulher. E não serve nem colhe o argumento de que
se conseguiu saber, com esta lei, quantos abortos se realizam (a estatística
vale mais do que a vida humana?) ou que se está a diminuir o número de abortos,
ano após ano. É bem sabido como é que tal está a operar-se: basta saber como
andam os números da pílula dita ‘do dia seguinte’, também ela, em muitos casos,
abortiva, e que contribui, com custos sérios para a saúde da mulher, para
antecipar o abortamento posterior.
Não nos merece isto uma profunda
reflexão e inquietação? Vale assim tão pouco a vida de cada um de nós? Quanto
vale, afinal, para nós, a dignidade da vida humana?
segunda-feira, dezembro 17, 2018
Natal, o elogio da fragilidade
O Natal comporta uma mensagem que, 2000 anos
volvidos, continuamos a ler de modo nunca completo. Assim são, de qualquer
modo, os mistérios, na sua própria definição e leitura cristã: realidades tão densas
de significação que só, de forma balbuciante, vamos captando. Vamo-nos
acercando do seu significado, mas sempre conscientes de muito nos continuar a
escapar, natureza que torna distinto o entendimento do mistério em relação ao que, habitualmente, consideramos ser um enigma. O mistério, para o cristianismo,
não é um enigma: o que se sublinha não é o seu caráter oculto ou desconhecido,
mas a sua densidade que confere significado para a existência humana. Como não
olhar, então, para o sinal sempre mais e mais iluminador que nos vem do
presépio? E de que nos fala o presépio?
Num magnífico quadro de 1828, em que retrata a
adoração dos magos, Domingos Sequeira, um nosso pintor singular, situado na
transição entre o neoclassicismo e o romantismo, apresenta-nos uma cena plena
de gente que, provinda dos mais diversos recantos, se encanta com Aquele
Menino, no qual se concentra a luz que ilumina toda a cena. E o que vemos? Nada
mais do que um menino ao colo da mãe, destacando-se a sua simplicidade, perante
a multiplicidade de adornos com que se ilustram os muitos visitantes. A
simplicidade do centro perante o luxo dos restantes. Com um pormenor, porém,
que não poderá escapar: em redor, há escombros! Como se a dizer que Aquela
fragilidade ali feita Menino é expressão de que só da simplicidade se poderá
esperar a salvação: o resto, por muito que se nos afigure como certo, passará e
será superado.
Logo no segundo século se quis anular esta mensagem
plena de significado: quis-se dizer que a encarnação e a dor que o Verbo
sofrera não passaram de aparência (do grego ‘dokéô’), sendo que apenas a sua
dimensão divina importava sublinhar. A tentação do docetismo não se ficou por
esses tempos, contudo! Hoje, continua muito viva. Os mitos do transumanismo e
pós-humanismo que se propõem eliminar a condição corpórea do homem e reduzi-lo
ao pensamento, numa revisitação do mito gnóstico, recuperam a sedução de sereia
que o discurso doceta tentara introduzir, no pensamento cristão.
Já Leão Magno alerta para isso, no século V, no seu
sétimo sermão do Natal do Senhor, ao lembrar-nos: '[...] que o Verbo se tenha
feito carne não significa que a natureza de Deus se tenha mudado em carne, mas
que a carne foi tomada pelo Verbo para ser assumida na unidade da pessoa: e por
este nome «carne» há-de entender-se o homem todo, com o qual, dentro do seio da
Virgem Maria [...] tão inseparavelmente se uniu o Filho de Deus que aquele que
tinha sido gerado da essência do Pai fora do tempo, esse mesmo no tempo nasceu
do seio da Virgem.’ S. Leão Magno - Sétimo Sermão do Natal do Senhor, n.2
A carne, enquanto manifestação física da
corporeidade, é parte da identidade do homem. É desta identidade que nos fala o
Natal. Aquele Menino não é uma mera alusão ao divino: n’Ele revela-se o divino,
reconhecendo-se, assim, a dignidade da condição integral do homem, enquanto
‘espírito encarnado’. O homem não é, apenas, a sua interioridade encarcerada no
corpo. Ele é história, ele é narrativa, ele é fragilidade sempre a superar-se,
mas nunca definitivamente ultrapassada. A debilidade, a fragilidade é parte
identificadora da humanidade. Como, aliás, se expressa, na própria palavra
‘humano’. O humano é aquele que é
‘feito de húmus’, feito de
fragilidade, feito de ‘terra e pó’. Negar a debilidade, negar a fragilidade é
negar a humanidade. E tantos são os que o querem fazer, hoje. E isso é o que o
Natal, celebrado ano após ano, se recusa a aceitar. No Natal, renascem para a
condição humana, no débil e frágil Menino, todos aqueles que os perfeitos querem rejeitar.
Santo e Feliz Natal para todos… os humanos!
terça-feira, dezembro 04, 2018
O direito irrenunciável à vida e a missão ética da ADAV-Aveiro
1. O direito à vida é o mais vulnerável de todos os
direitos. Vulnerável por natureza, mas também pela conjuntura concreta das
nossas sociedades abertas. Este é um direito sempre em risco. Em risco por
causa da segurança (por causa do terrorismo ou quando, em nome da segurança dos
Estados, se volta a pedir a pena de morte), mas também em risco por causa de um
modo de vida que insensibiliza perante o limite (generalizando a perceção de
serem aceitáveis o aborto, o eugenismo ou a eutanásia). Urge, então,
ultrapassar as ideologias e preconceitos e olhar para o que, de facto, está em
causa.
2. Deixámos que esta parecesse ser a causa de
apenas alguns, cada vez mais acantonados como extremistas. E isso pareceu
sossegar as consciências. ‘Se a defesa da vida é, afinal, causa de uns quantos
fundamentalistas, então, não me quero enquadrar em tal grupo’ – parece
ouvir-se, em surdina, quando a matéria é ‘defesa da vida’. Na década de 80, porém,
mais precisamente em 1981, numa entrevista ao Corriere della Sera, Norberto
Bobbio, , afirmava que lhe causava admiração enquanto descrente e de esquerda que
os «laicos entregassem aos crentes o privilégio e a honra de afirmar que não se
deve matar». Consequente com esta crítica, o Tribunal Europeu dos Direitos
humanos deliberou, sem possibilidade de recurso, em 16 de dezembro de 2010, com
11 votos a favor e 6 contra, que o aborto não é um direito humano sendo, por
isso, legítimo que os Estados o penalizem. O seu ponto de era a declaração
universal dos direitos humanos e não qualquer outro documento de natureza
discutível.
3. O direito à vida apresenta três características
que fazem dele único: não é suscetível de gradação (ou é respeitado ou não o
é); a vítima fica definitivamente excluída da possibilidade de se proteger ou
reclamar perante a violação do direito atingido; é condição necessária para os
demais direitos. No caso português, o assunto ganha particular acuidade, na
medida em que a Constituição afirma, no artigo 24º, que «a vida humana é
inviolável». Esta formulação é forte, pois não afirma, por exemplo, que «todo o
cidadão tem direito à vida». Isso seria colocar a condição de cidadão antes da
de indivíduo vivo. Tal formulação sublinha a anterioridade da vida.
4. Ao longo da história, sempre que se quis
legitimar a violência sobre os humanos incómodos ou a sua eliminação, a
estratégia passou por retirar-lhes a condição de ‘humanos’.
Hoje, a estratégia é semelhante. O outro, cuja
eliminação se quer legitimar, é ‘ainda não humano’, ‘o doente cuja vida já não
é humana’, ‘o agressor que já não merece viver’, etc. Importa denunciar estas
estratégias que debilitam a consciência ética e que facilitam o desrespeito
para com a vida humana.
5. Esse tem sido o trabalho da ADAV-Aveiro, para
quem todo o humano é digno, seja qual for a sua condição, origem, idade ou fase
em que se encontra do seu processo de realização como humano. É, desde que se
tornou único na sua identidade, a partir da conceção, um humano cuja existência
exige reconhecimento e respeito. Desde 2000, esta tem sido a missão da
Adav-Aveiro: sensibilizar para o valor singular de cada vida humana e para o
dever de encontrar soluções para que esta se desenvolva, mesmo nas
circunstâncias mais difíceis. Certos de que, quando o direito à vida é violado,
as vítimas já não têm voz e só têm a voz dos que as representam.
O sábio tempo do Advento
Diz-se que o Barroco é a época da história marcada
pelo horror ao vazio. Assim na música, em que há um pleno preenchimento do
‘espaço’ do som com os baixos contínuos, na pintura, em que o movimento das
vestes cria volume e gera sensação de que não há passividade ou quietude, na
arquitetura, em que as talhas douradas não deixam lugar a espaços por
preencher. Tudo porque a riqueza e a ostentação da época deveriam distrair do
vazio e das inquietações da vida.
Corremos o risco de viver uma época com novos traços
barrocos. Como em plenos séculos XVII e XVIII, temos o horror ao silêncio e ao
que nos possa levar ao confronto com a vida.
Mas essa é, exatamente, a sabedoria que se descobre
quando decidimos perceber os tempos com que se faz o ano litúrgico.
O ritmo que se faz de espera e acolhimento,
expectativa e redenção, está ao arrepio da ansiedade e incapacidade de esperar
que definem os tempos de hoje. E, talvez, por se ter abandonado, com desdém,
tal opção de marcar o tempo com uma sabedoria conquistada lentamente, tanta
depressão e angústia se escondam na voracidade com que vivemos as nossas vidas.
Este tempo que a liturgia propõe a quem quer
preparar o Natal, faz-se de espera, porque o seu próprio nome – Advento – nos
fala de aproximação e do que ainda não chegou, mas se abeira de nós. Como se de
uma gravidez cuidada e amadurecida com ternura se tratasse. E é, de algum modo,
mesmo, uma gravidez. Já não a primeira que inspira este tempo, mas uma nova: a
gravidez da eternidade e do sentido!
Como bem recorda Bento XVI, em homilias que
proferiu, ainda professor em Münster, entre 13 e 15 de dezembro de 1964, o
advento de que ‘fala’ a liturgia recorda-nos a todos que ainda estamos, nesta
vida, em Advento. A salvação já está a acontecer e antecipou-se, definitivamente,
em Jesus Cristo, mas este é o tempo em que ainda não está tudo realizado, de
modo permanente. As nossas vidas são tempo de advento. Esquecê-lo é criar
ilusão. E talvez por isso tanto façamos para antecipar o Natal sem passar pelo
Advento. Como se fosse possível fazer de conta que o mundo já não precisa de
que se opere, nele, a redenção antecipada, de uma vez por todas, mas que carece
das nossas mãos para se tornar efetiva, na vida dos homens.
O advento da liturgia é expressão de um outro
advento que não podemos iludir.
Desta simbologia nos fala Ratzinger: «O advento (e
ao contrário do que talvez pudesse ser afirmado em tempos mais longínquos) não
é um jogo sagrado da liturgia, através do qual, por assim dizer, ela nos volta
a conduzir pelos caminhos do passado, e nos volta a mostrar, de forma nítida, o
que se passou noutros tempos, para que nos regozijemos e nos alegremos ainda
mais com a redenção que hoje temos. Na verdade, somos forçados a reconhecer que
o Advento é muito mais do que simplesmente recordar e reviver o passado; ele é
o nosso presente, a nossa realidade. A Igreja não está a reviver um passado;
ela está a mostrar-nos uma realidade que também é a realidade da nossa
existência cristã. É através do significado do tempo do Advento no calendário
litúrgico que a Igreja volta a despertar as nossas consciências. Um significado
que nos deve fazer enfrentar os factos, que nos deve forçar a admitir a
dimensão da condenação que, longe de ter existido num mundo em tempos idos, ou
de existir ainda talvez algures, continua a ser uma realidade para nós próprios
e para a própria Igreja.» (Joseph Ratzinger – Do sentido do ser cristão.
Principia, 16)
A vertigem com que tudo, ao nosso redor, nos apela
a esquecer que, para nascer, há que dar tempo à lenta gestação, distrai-nos e
inebria-nos ao sabor da cadência das luzes e da melodia das vozes… Belas, bem
certo, mas ainda antes do tempo! Não deve, por isso, alienar-nos da vida e do
reconhecimento da inquietude que, no aguardado presépio, encontra a sua
satisfação definitiva. De outro modo, este não passará de um tempo de ilusão,
quando deveria ser de expectativa da redenção. Valerá, com efeito, perguntar
porque temem os homens de hoje o tempo da espera; ou se já desistiram de
esperar por terem deixado de acreditar que há Algo a esperar.
Do Advento vem-nos a certeza de que esperar é
preciso e justificado, porque se aproxima o tempo em que tudo se realizará.
Pode celebrar-se o nascer sem se passar pelo tempo
de o preparar?
sábado, novembro 03, 2018
O adeus à racionalidade na Educação?
A liberdade é condição que decorre da racionalidade
humana e não, primeiramente, da vontade, sendo, por isso, muito mais uma
matéria de inteligência do que do desejo. Uma certa linha de pensamento
contemporâneo tem, porém, invertido esta constatação, estando tal inversão a
chegar, de forma paulatina, ao direito e à educação. Na verdade, ao longo dos
últimos dois milénios e meio, educar sempre foi o esforço por conduzir o
indivíduo à submissão da vontade aos ditames da razão, da inteligência. Os
esforços dos iluministas faziam crer, também, que essa dinâmica saísse
confirmada, mas a exaltação do indivíduo a que se associou o esforço iluminista
fez prevalecer o desejo do indivíduo sobre a exaltação da razão e, nesta prevalência,
poderá encontrar-se o motivo de um erro que é urgente corrigir.
A inversão que, como acima se apontava, fez
deslocar a noção de liberdade de uma matéria da razão para uma matéria da
vontade está a manifestar-se, nas últimas décadas, no âmbito do direito como
uma confusão entre o que se deseja e aquilo a que, de facto, se tem direito.
Por absurdo, pode ilustrar-se esta verificação afirmando que não é por desejar
muito um bem de alguém que determinado indivíduo se constitui como proprietário
desse mesmo bem. Mas este curto-circuito está a acontecer, em muitos assuntos
de direito e de política. «Desejar» parece significar «ter direito».
Também no âmbito da educação esta inversão está a
ter os seus custos. Os desejos da vontade nunca foram o ponto de referência
para educar, desde que os pedagogos gregos se propuseram a «educação da
criança» à luz do «logos» e na busca da verdade. Pelo contrário, moldar a
vontade à luz da iluminação da inteligência era, sim, o horizonte que definia a
ação educativa.
Muito longe se está destas referências quando se
preconiza, para a novíssima disciplina de cidadania e desenvolvimento, a
desistência perante a preocupação em moldar a vontade à verdade sobre a
condição humana, atendendo ao que a inteligência evidencia sobre a importância
da corporeidade para a definição da identidade pessoal e a substitui por uma
ideologia que defende que é a vontade e o desejo o que define o significado da
corporeidade.
Denota esta deslocação de conceção a definição que
é proposta em guiões disponibilizados para a educação pré-escolar: «O termo
sexo é usado para distinguir os indivíduos com base na sua pertença a uma das
categorias biológicas: sexo feminino e sexo masculino. O termo género é usado
para descrever inferências e significações atribuídas aos indivíduos a partir
do conhecimento da sua categoria sexual de pertença. Trata-se, neste caso, da
construção de categorias sociais decorrentes das diferenças anatómicas e
fisiológicas.» (Guiões de Educação Género e Cidadania – pré-escolar – in
http://www.dge.mec.pt)
E explicam os mesmos guiões que «assim, o termo
sexo pertence ao domínio da biologia e o conceito de género inscreve-se no
domínio da cultura e remete para a construção de significados sociais.»
Só por si, tal enunciação parece inócua, o que se
desvanece quando verificamos que um dos domínios que se pretende obrigatório em
todos os ciclos é a ‘igualdade de género’ que, pela definição, percebemos que
já não é a discussão sobre a desigualdade de oportunidades entre o sexo
masculino e o feminino, mas uma outra coisa que só uma leitura minuciosa fará
perceber. Sob a capa de ‘igualdade de género’ oculta-se
a igualdade entre ‘todos os géneros’.
Soma-se a este aspeto de ordem programática um
outro que concerne às temáticas a abordar na referida disciplina.
Como se explica, no documento de estratégia
nacional de educação para a cidadania, «os diferentes domínios da Educação para
a Cidadania estão organizados em três grupos com implicações diferenciadas: o
primeiro, obrigatório para todos os níveis e ciclos de escolaridade (porque se
trata de áreas transversais e longitudinais), o segundo, pelo menos em dois
ciclos do ensino básico, o terceiro com aplicação opcional em qualquer ano de
escolaridade.»
Entre os temas considerados obrigatórios em, pelo
menos, dois ciclos do ensino básico, está «Sexualidade (diversidade, direitos,
saúde sexual e reprodutiva)».
Não se propõe, já, uma discussão sobre o que será a
sexualidade e que lugar é que ela pode desempenhar, na realização humana (o que
obrigaria a um envolvimento ativo dos pais e encarregados de educação e a uma
definição precisa da matriz antropológica em que tal deveria enquadrar-se,
necessariamente e por respeito ao direito constitucional dos pais à escolha do
modelo educativo para os filhos), mas preconiza-se, apenas, uma problematização
de ordem fenomenológica que facilmente redundará na pura legitimação dos
comportamentos. O papel de moldagem da vontade à inteligência está,
notoriamente, ausente, presumindo-se, aliás, a ideia de que o que a vontade
individual desejar, nesta matéria, deverá ser reconhecido como direito a
descrever e subscrever.
A surpresa manifestada por alguns a propósito de um
inquérito realizado em escola do Porto em que se interrogavam alunos do segundo
ciclo sobre se se sentiam atraídos por homens, por mulheres ou por ambos, não
poderá, de modo algum, nascer do conhecimento do que se preconiza para a
disciplina em cujo contexto se realizou. Atendendo a que se obriga a abordagem da
temática em, pelo menos, dois ciclos do ensino básico, e ao facto de aquele
inquérito se ter aplicado no segundo ciclo, só restará supor que se defende que
a proposta recaísse em turmas dos ciclos restantes, a saber, do terceiro e do
primeiro ciclos (!), cabendo, ainda, perguntar como é que o Ministério da
Educação pensaria que se poderia concretizar aquilo que o mesmo pede que se
faça.
Mas a pergunta mais profunda que deverá colocar-se,
perante a gravidade do problema, terá mesmo de ser: o que se pretende com a
educação? O que é, afinal, educar? Legitimar os comportamentos existentes ou,
ainda, desenvolver atitude crítica sobre o comportamento humano, procurando
adequá-lo ao que a razão ilumina? Ou já deixaram as escolas de ser lugar da
razão e inteligência, não passando de redutos em que se somam vontades
aleatórias, egocêntricas e impossíveis de moldar? Que liberdade pretende
defender-se na educação: um puro voluntarismo (arbitrário e solipsista) ou
liberdade verdadeiramente humana, entendida como a possibilidade de escolher o
que a razão evidencia como melhor?
sábado, setembro 29, 2018
Dois modos (quase) contraditórios de fundamentar a ecologia
Albert Einstein afirma, num texto escrito no
período entre 1939 e 1941, e coligido no seu livro ‘Como vejo a ciência, a
religião e o mundo’, editado pela Relógio d’água, que a «ciência pode apenas
indagar aquilo que é, mas não o que devia ser, e fora do seu domínio permanece
toda a esfera dos juízos de valor, cuja necessidade ninguém discute.» (p. 275)
Hoje, continuam a ser válidas estas palavras, ainda
que alguns problematizem, de modo implícito ou, em alguns casos, mesmo
explícito, a última parte: «cuja necessidade ninguém discute».
Alain de Botton reconhece esta problematização ao
afirmar, (com muita graça, aliás!), no seu livro ‘Religião para ateus’, editado
pelas publicações Dom Quixote, que «a diferença entre a educação cristã e a
educação secular [aquela que nos é proposta nas escolas, hoje em dia! –
acrescento meu] revela-se com especial clareza nos seus respetivos modos
característicos de instrução: a educação secular faz palestras, o cristianismo sermões,
Em termos de objetivos, poderíamos dizer que uma está preocupada em transmitir
informações e a outra em mudar as nossas vidas.» (p. 115)
Vem esta introdução a propósito de uma polémica
muito significativa sobre um congresso realizado na universidade do Porto e em
que se problematizava a influência humana nas alterações climáticas.
Não me prende, aqui, a discussão técnica, para a
qual, aliás, reconheço não dever intrometer-me, mas sim os pressupostos desta
discussão.
Inquieta-me, antes de mais, verificar a atitude
inquisitorial com que se abordou a questão, como se não fosse legítimo
continuar a procurar as motivações que explicam o estado em que nos
encontramos, em matéria de clima. (É evidente que não sou indiferente à
constatação de que muitos temeram que o congresso pudesse servir interesses
políticos menos claros, na linha da postura arbitrária e inconsistente com que
a atual administração americana aborda esta matéria. Não me pareceu, porém, que
esse fosse o registo do referido congresso, pelo que adotei uma outra via de
interpretação que deve merecer atenção.)
A posição com se encarou o referido congresso
denuncia uma atitude ético-moral altamente inquietante e que não é consequente
com as palavras do eminente físico com que abrimos este artigo.
O pressuposto dos ‘revoltosos’ contra o referido
congresso é o de que, se se concluísse que as alterações climáticas não são
devidas à ação humana, então daí resultaria que não seriam adotadas atitudes
ecológicas adequadas e devidas.
O problema deste raciocínio é duplo.
Por um lado, pressupõe, ao arrepio do que diz
Einstein, que a ciência tenha capacidade de fundamentar uma ética.
Por outro, faz derivar o dever moral não de
motivações positivas (cuidar, proteger, administrar bem a natureza/criação),
mas sim de uma motivação negativa: só protegemos o planeta por medo. Ora, este
é o problema de uma certa abordagem ético-ecológica que, infelizmente, em muito
é a que se ‘serve’ nas nossas escolas. Não se protege o ambiente por motivos
positivos, mas por medo. É o que, tecnicamente, poderemos designar como uma ética
heteronómica. Não fazemos por reconhecer o valor em causa, mas sim porque
outros (neste caso, através do medo) no-lo impõem. De que resulta,
necessariamente, que, se a causa do medo desaparecer, também daí redunda o fim
do comportamento ético.
É o que evidencia esta atitude dos que se
insurgiram contra o referido congresso.
Reitero que não estou situado no âmbito dos aspetos
técnicos que um congresso científico deve manter como sempre revisíveis (esta
nota sobre epistemologia continua válida!), mas sim ao nível da abordagem
ético-moral que tal atitude denuncia.
Na realidade, as sociedades seculares vivem um
dilema tremendo que situações como esta denunciam com clareza. O desejo da
neutralidade total, a impossibilidade de invocar motivações que sempre foram
comuns às comunidades, sob pretexto de que tal exclui, redunda na perda da
força da ética, só restando impô-la, seja pela via da força seja pela via do
medo, quando não pelas duas vias em sobreposição.
Haverá que saber invocar as motivações positivas que
definem a cultura (os valores estruturantes) das comunidades para encontrar
outros modos de legitimação da ação ética.
Neste sentido, é particularmente densa de conteúdo
a encíclica papal sobre a ecologia que, no capítulo VI, fala de ‘educação e
espiritualidade ecológicas’. Ali, recorda-se que «a educação ambiental deveria
predispor-nos para dar este salto para o Mistério, do qual uma ética ecológica
recebe o seu sentido mais profundo.» (n.º210), sendo que, «às vezes, porém,
esta educação, chamada a criar uma ‘cidadania ecológica’, limita-se a informar
e não consegue fazer maturar hábitos.» (n.º 211).
O combate a esta mera informação coloca o problema
ao nível da interrogação sobre o que deva ser a educação e como poderá fazer-se
respeitar, em Portugal, o direito constitucional à escolha do modelo de
educação, por parte dos pais, em articulação com o dever de gerar uma atitude
ética bem consolidada, sem ser assente no medo ou na mera força da lei
positiva. Tal só pode conceber-se, com eficácia, se se recuperar uma sã relação
com as religiões e o seu insubstituível papel educador. Mas isso não poderá, de
modo algum, significar que toda a educação fique entregue a um Estado neutro e
indiferente às identidades ou, sequer, que instrumentaliza as religiões ao seu
serviço. Ambos, Religiões e Estados estão ao serviço da Pessoa. Há que superar
o mito da educação neutra e ter a coragem de integrar, na educação, as
identidades. Portugal já tem bons exemplos. O caso da existência da disciplina
de Educação Moral e Religiosa é caso de estudo, em relação a esta matéria. Ela
salvaguarda, por um lado, o legitimíssimo direito à escolha do modelo de
educação para os filhos (a disciplina é de frequência facultativa), mas sabendo
que é portadora de uma matriz capaz de fortalecer os motivos positivos para
proteger: a vida – toda a vida – é um dom gratuito e generoso do Transcendente.
Onde pode encontrar-se fundamento igualmente sólido
e eficaz? Não se pense que este é um reconhecimento que apenas os crentes lhe
devotam. Basta ler, com atenção e sentido de responsabilidade, o já recordado
livro de Alain de Botton, ‘Religião para ateus’: «as religiões merecem a nossa
atenção devido à sua pura ambição conceptual; por mudarem o mundo de uma forma
que poucas instituições seculares alguma vez fizeram. Elas conseguiram combinar
teorias sobre ética e metafísica com um envolvimento prático em educação, moda,
política, viagens, hospedarias, cerimónias de iniciação, edição, arte e
arquitetura – uma gama de interesses que envergonha o âmbito de realizações até
dos maiores e mais influentes movimentos seculares e individuais da história.
Para aqueles que se interessam pela disseminação e pelo impacto de ideias, é
difícil não ficarem mesmerizados com exemplos dos movimentos educativos e
intelectuais mais bem-sucedidos que o planeta jamais testemunhou.» (p. 20).
O medo não pode ser o fundamento da ética. Esse
fundamento tem de estar n’Outro lugar!
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