Rubrica ‘Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página’** | Marca de água de livros que deixam marcas profundas
Parceria: Federação Portuguesa pela Vida e Comissão Diocesana da Cultura
Luís Manuel Pereira da Silva*
O(s) autor(es) e a obra
DICASTÉRIO PARA A DOUTRINA DA FÉ E DICASTÉRIO PARA A CULTURA E A EDUCAÇÃO, Antiqua et Nova: Nota sobre a relação entre a inteligência artificial e a inteligência humana, Apelação, Paulus Editora, 2025..
Em 5 de junho de 2022, através constituição apostólica Praedicate Evangelium, o Papa Francisco fez uma reforma da Cúria romana de que se deu especial destaque à possibilidade aberta a todos os cristãos batizados de exercerem funções de governação na Cúria. Com esta reforma, constituiu o Dicastério para a Doutrina da Fé e o Dicastério para a Cultura e a Educação (que resulta da fusão entre a Congregação para a Educação Católica e o Conselho Pontifício para a Cultura), que assinam a nota que analisamos, agora.
São Prefeitos destes dois dicastérios o Cardeal Victor Manuel Fernández, que muitos consideram o ‘teólogo do Papa Francisco’, por serem notórias, nos escritos do pontífice argentino, as marcas do pensamento e estilo de escrita deste antigo reitor da Universidade Pontifícia da Argentina e arcebispo de La Plata, e o nosso Cardeal José Tolentino de Mendonça.
Num registo subjetivo, ouso evidenciar o significado da confluência dos esforços destes dois dicastérios para o documento aqui em análise.
Sendo evidente as implicações culturais e educativas da ‘inteligência artificial’, poderia suscitar interrogação o envolvimento da ‘doutrina da fé’ nesta matéria.
Uma leitura do artigo 69.º da Constituição apostólica Praedicate Evangelium aguçará o gume da interrogação que, porém, com a leitura da nota ‘antiqua et nova’, se tornará menos cortante. Percebe-se, por esta leitura, que o alcance antropológico da ‘inteligência artificial’ lhe confere o papel de catalisadora de um processo a que Francisco ousou designar como de ‘mudança de época’ (n.º4). Um tal alcance justifica o envolvimento do Dicastério da Doutrina da Fé numa reflexão desta natureza, dado que a sua missão é ‘[…] é ajudar o Romano Pontífice e os Bispos no anúncio do Evangelho em todo o mundo, promovendo e tutelando a integridade da doutrina católica sobre a fé e a moral, como a recebe do depósito da fé e resulta de um entendimento cada vez mais profundo do mesmo face às novas questões.’ (Praedicate Evangelium, n.º 69).
É, por isso, digna de registo esta capacidade de antecipação, revelada pela Igreja Católica com a publicação deste documento. Contrariando o preconceito de ter uma atitude reativa, a equilibrada abordagem evidenciada neste documento confere uma natureza ‘profética’ (utilizando a terminologia teológica tantas vezes sublinhada, após o concílio Vaticano II, repercutindo o lastro veterotestamentário desta consideração) à proposta aqui sustentada.
Convenço-me, aliás, de que este documento será revisitado, vezes sucessivas, por quem pretende olhar com objetividade para as oportunidades e desafios colocados pela Inteligência Artificial, evitando Cila e Caríbdis.
Marcas de água (o que fica depois de se deixar o livro)
Os discursos sobre a ‘Inteligência Artificial’ andam entre o medo (que a demoniza) e o fascínio (que a idolatra). ‘Antiqua et Nova’ encaminha o barco do pensamento entre as ciladas de ambos os promontórios.
Desde logo, ousando questionar a própria designação, que considera equívoca e ‘falaciosa’ (n.º 35), situando no devido registo o potencial que este recurso nos proporciona. O documento é inequívoco no reconhecimento de que a ‘inteligência’, por não ser, apenas, uma potencialidade técnica e operativa, é um exclusivo humano (e divino, bem certo!), devendo-se apenas por analogia referir que o que se opera, pela ‘IA’, seja, de facto, ‘inteligência’.
Um tal reconhecimento coloca, no devido âmbito, o que seja a ‘inteligência artificial’: um meio. Um meio carregado de potencialidades, mas um meio.
Esta leitura permite recuperar o reconhecimento da centralidade do critério ético que atribui apenas ao ser humano a condição de fim, devendo ser, sempre, tratado como meio aquilo que o é: os instrumentos de que dispomos para melhor conhecer o ‘mundo’.
A este reconhecimento associa-se, naturalmente, a interrogação sobre a dimensão da responsabilidade, matéria excruciante na abordagem sobre a inteligência artificial: sendo a IA um instrumento jamais se lhe poderá atribuir a condição de ‘entidade responsável’ pelas ações que ela opere.
Desta constatação advêm as múltiplas consequências nos diversos âmbitos do agir humano em sociedade pelos quais circula este documento: as relações laborais, a saúde, a educação, a desinformação, a proteção da casa comum, a guerra e a própria relação do humano consigo mesmo e com Deus. Em todos estes âmbitos se coloca a questão fundamental de saber se a IA nos auxilia ou nos substitui, nos humaniza ou nos desumaniza.
Em todas estas circunstâncias, a posse de conhecimento deverá encaminhar-se para além de si mesmo, em direção à verdade, que implica, sempre, uma inteligência capaz de discernir entre o erro e a coerência, possibilidade reservada ao humano, criado como ser autónomo, livre e, por isso, capaz de responder pelas suas decisões (é isso a ‘responsabilidade’).
‘Antiqua et Nova’ contribuirá, certamente, para uma leitura mediocrática (não do ‘medíocre', mas sim ‘do justo equilíbrio’) do mundo que a IA abre diante de nós: entre a Cila da idolatria e a Caríbdis da demonização. E contribuirá, também, para que se compreenda que da Igreja Católica se pode esperar ser a sábia jangada com que cruzaremos os mares que banham os promontórios da História.
Na mesma página que o autor (citações)
‘A tradição cristã considera o dom da inteligência um aspeto essencial da criação do ser humano «à imagem de Deus» (Gn 1,27). Partindo de uma visão integral da pessoa e da valorização do chamamento a «cultivar» e «cuidar» a terra (cf. Gn 2, 15), a Igreja sublinha que este dom deveria encontrar expressão através de um uso responsável da racionalidade e da capacidade técnica ao serviço do mundo criado.’ (n.º1)
‘As capacidades e a criatividade do ser humano vêm d’Ele e, quando usadas corretamente, dão glória a Deus, enquanto reflexo da sua sabedoria e bondade.’ (n.º2)
‘[…] existe um amplo consenso de que a IA marca uma nova e significativa fase na relação da Humanidade com a tecnologia, colocando-se no centro daquilo que o Papa Francisco descreveu como uma «mudança de época». […] Uma vez que a IA continua a avançar rapidamente para patamares cada vez maiores, é extremamente importante considerar as suas implicações antropológicas e éticas. Isto passa não só por mitigar riscos e a prevenção dos danos, mas também a garantia de que as suas aplicações são direcionadas à promoção do progresso humano e do bem comum.’ (n.º4)
‘[Neste documento], pretende-se, em primeiro lugar, distinguir o conceito de “inteligência” em referência à IA e aos seres humanos. Em segundo lugar, considera-se a perspetiva cristã sobre a inteligência humana, oferecendo um quadro geral de reflexão baseado na tradição filosófica e teológica da Igreja. De seguida, propõem-se algumas linhas orientadoras com o objetivo de assegurar que o desenvolvimento e a utilização da IA respeitam a dignidade humana e promovem o desenvolvimento integral do indivíduo e da sociedade.’ (n.º6)
‘Embora cada aplicação da IA ‘estreita’ esteja calibrada para uma tarefa específica, muitos investigadores esperam chegar à chamada “inteligência artificial geral” (AGI),ou seja, a um único sistema o qual, operando em todos os domínios cognitivos, seria capaz de realizar qualquer tarefa ao alcance da mente humana. Alguns defendem que tal IA poderá um dia atingir o estádio de “superinteligência”, ultrapassando a capacidade intelectual humana, ou contribuir para a “superlongevidade” graças aos avanços na biotecnologia. Outros receiam que estas possibilidades, por mais hipotéticas que sejam, venham um dia a ofuscar a própria pessoa humana, enquanto outros acolhem com agrado esta possível transformação.’ (n.º9)
‘No que diz respeito ao ser humano, a inteligência é, de facto, uma faculdade relativa à pessoa como um todo, enquanto, contexto da IA, é entendida num sentido funcional, assumindo frequentemente que as atividades características da mente humana podem ser decompostas em etapas digitalizadas, de modo a que as máquinas também as possam replicar.’ (n.º10)
‘[…] no caso da IA, a “inteligência” de um sistema é avaliada de forma metodológica, mas também reducionista, com base na sua capacidade de produzir respostas adequadas, ou seja, aquelas que estão associadas ao intelecto humano, independentemente da forma como essas respostas são geradas.’ (N.º11)
‘Para o efeito, convém recordar que a riqueza da tradição filosófica e da teologia cristã oferece uma visão mais profunda e abrangente da inteligência, que, por sua vez, é central no ensinamento da Igreja sobre a natureza, a dignidade e a vocação da pessoa humana.’ (n.º12)
‘Desde os primórdios da reflexão da humanidade sobre si própria, a mente tem desempenhado um papel central na compreensão do que significa ser “humano”. Aristóteles observou que «todos os seres humanos tendem, por natureza, para o conhecimento». Este conhecimento humano, com a sua capacidade de abstração que apreende a natureza e o significado das coisas, distingue-os do mundo animal. A natureza exata da inteligência tem sido objeto de investigação por parte de filósofos, teólogos e psicólogos, que se debruçaram também sobre o modo como o ser humano compreende o mundo e faz parte dele, ocupando neles um lugar peculiar. Através destas pesquisas, a tradição cristã chegou a compreender a pessoa como um ser constituído por corpo e alma, ambos profundamente ligados a este mundo e, ao mesmo tempo, indo para além dele.’ (n.º13)
‘Na tradição clássica, o conceito de inteligência é frequentemente declinado nos termos complementares de “razão” (ratio) e “intelecto” (intellectus). Não se trata de faculdades separadas, mas, como explica São Tomás de Aquino, de dois modos de atuação da mesma inteligência: «o termo intelecto deriva da íntima penetração da verdade; enquanto razão deriva da busca e do processo discursivo». Esta descrição concisa permite-nos destacar as duas prerrogativas fundamentais e complementares da inteligência humana: intellectus refere-se à intuição da verdade, ou seja, à sua apreensão com os “olhos” da mente, que precede e funda a própria argumentação, enquanto a ratio diz respeito ao raciocínio propriamente dito, ou seja, ao processo discursivo e analítico que conduz ao juízo. Juntos, intelecto e razão constituem as duas faces do único ato de intelligere, «a operação do homem enquanto homem».’ (n.º14)
‘Apresentar o ser humano como um ser “racional” não significa reduzi-lo a um modo específico de pensamento; significa antes reconhecer que a capacidade de compreensão intelectual da realidade molda e permeia todas as suas atividades, constituindo, além disso, exercitada para o bem e para o mal, um aspeto intrínseco da natureza humana.’ (n.º15)
‘O pensamento cristão considera as faculdades intelectuais no quadro de uma antropologia integral que concebe o ser humano como um ser essencialmente corpóreo. Na pessoa humana, o espírito e a matéria «não são duas naturezas unidas, mas a sua união forma uma única natureza». Por outras palavras, a alma não é a “parte” imaterial da pessoa contida num corpo, assim como este não é o invólucro exterior de um “núcleo” subtil e intangível, mas é o ser humano inteiro que é, ao mesmo tempo, material e espiritual.’ (n.º16)
‘[…] o espírito humano não realiza o seu modo normal de conhecimento sem o corpo. Deste modo, as capacidades intelectuais do ser humano são parte integrante de uma antropologia que reconhece que ele é uma «unidade de alma e corpo».’ (n.º17)
‘(…) a inteligência humana não é uma faculdade isolada, mas exerce-se nas relações, encontrando a sua plena expressão no diálogo, na colaboração e na solidariedade. Aprendemos com os outros, aprendemos através dos outros.’ (n.º18)
‘Mais sublime ainda do que saber muitas coisas é o compromisso de cuidar uns dos outros, porque mesmo que «eu conhecesse todos os mistérios e tivesse toda a ciência […] se não tivesse caridade, nada seria» (1Cor 13,2).’ (n.20)
‘A inteligência humana é, em última análise, um «dom de Deus feito para colher a verdade». No duplo sentido de intellectus-ratio, ela permite à pessoa penetrar nas realidades que ultrapassam a mera experiência sensorial ou a utilidade, porque o «desejo da verdade pertence à própria natureza do homem. Interrogar-se sobre o porquê das coisas é uma propriedade natural da sua razão». (N.º21)
‘Como observa o Papa Francisco, «na era da inteligência artificial, não podemos esquecer que a poesia e o amor são necessários para salvar o humano».’ (n.º 27)
‘Segundo o seu desígnio, a inteligência, entendida em sentido pleno, inclui também a possibilidade de saborear o verdadeiro, o bom e o belo, pelo que se pode dizer, segundo as palavras do poeta francês do século XX, Paul Claudel, que a «inteligência não é nada sem deleite». Também Dante Alighieri, quando alcança o mais alto dos céus, no Paraíso, pode testemunhar que o ponto culminantes deste prazer intelectual se encontra na «Luz intelectual, cheia de amor; / amor do verdadeiro bem, cheia de alegria; /alegria que transcende toda a tristeza».’ (n.º28)
‘[…] uma correta conceção da inteligência humana não pode reduzir-se à mera aquisição de factos ou à capacidade de realizar certas tarefas específicas; pelo contrário, implica a aberta da pessoa às questões últimas da vida e reflete uma orientação para o Verdadeiro e o Bem. […] A verdadeira intelligentia é plasmada pelo amor divino, que «foi derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo» (Rm 5,5). Daqui se deduz que a inteligência humana possui uma dimensão contemplativa essencial, ou seja, uma abertura desinteressada ao que é Verdadeiro, Bom e Belo para além de qualquer utilidade particular.’ (n.º29)
‘[…] embora a IA processe e simule certas expressões de inteligência, esta permanece fundamentalmente confinada a um domínio lógico-matemático, o que lhe impõe certas limitações inerentes. Enquanto a inteligência humana se desenvolve continuamente de forma orgânica no decurso do crescimento físico e psicológico de uma pessoa e é moldada por uma miríade de experiências vividas no corpo, a IA não tem capacidade para evoluir neste sentido. Embora os sistemas avançados possam “aprender através de processos como a aprendizagem automática, este tipo de formação é essencialmente diferente do desenvolvimento do crescimento da inteligência humana, uma vez que esta é moldada pelas suas experiências corporais: estímulos sensoriais, respostas emocionais, interações sociais e o contexto único que caracteriza cada momento. Estes elementos moldam e formam o indivíduo na história pessoal. Em contrapartida, a IA, que não tem um corpo físico, baseia-se no raciocínio e na aprendizagem computacionais sobre vastos conjuntos de dados que incluem experiências e conhecimentos recolhidos pelos seres humanos.’ (n.º31)
‘[…] embora a IA possa simular alguns aspetos do raciocínio humano e realizar certas tarefas com uma rapidez e eficiência incríveis, as suas capacidade computacionais representam apenas uma fração das possibilidades mais vastas da mente humana.’ (n.º32)
‘Ao estabelecer uma equivalência demasiado forte entre a inteligência humana e a IA, corre-se o risco de sucumbir a uma visão funcionalista, segundo a qual as pessoas são valorizadas em função das tarefas que podem realizar.’ (n.º34)
‘À luz de tudo isto, como observa o Papa Francisco, «o próprio uso da palavra “inteligência”» para se referir à IA «é falacioso» e corre o risco de fazer esquecer o que há de mais precioso na pessoa humana. Nesta perspetiva, a IA não deve ser vista como uma forma artificial de inteligência, mas como um dos seus produtos.’ (n.º35)
‘Podemos reconhecer com gratidão que a tecnologia «deu remédio a inúmeros males, que afligiam e limitavam o ser humano», e todos nos podemos regozijar com este facto. Todavia, nem todas as inovações tecnológicas representam, por si mesmas, um verdadeiro progresso. Por isso, a Igreja opõe-se de modo particular às aplicações que ameaçam a santidade da vida ou a dignidade da pessoa. Como qualquer outra atividade humana, o desenvolvimento tecnológico deve ser orientado para o serviço da pessoa e contribuir para a realização de «mais justiça, mais fraternidade mais ampla e uma organização mais humana das relações sociais» que têm «mais valor que os progressos no domínio técnico». As preocupações com as implicações éticas do desenvolvimento tecnológico são partilhadas não só pela Igreja, mas também pelos cientistas, pelos estudiosos da tecnologia e pelas associações profissionais, que apelam cada vez mais a uma reflexão ética para orientar responsavelmente este progresso.’ (n.º40)
‘Para responder a estes desafios, é necessário chamar a atenção para a importância da responsabilidade moral baseada na dignidade e na vocação da pessoa. […] Entre uma máquina e um ser humano, só este último é verdadeiramente um agente moral, ou seja, um sujeito moralmente responsável que exerce a sua liberdade nas suas decisões e aceita as consequências;[…]’ (n.º39)
‘Como qualquer produto do engenho humano, também a IA pode ser orientada para fins positivos ou negativos. […] Onde a liberdade do homem permite a possibilidade de escolher o que é mau, a avaliação moral desta tecnologia depende da forma como é endereçada e utilizada.’ (n.º40)
‘[…] tanto os fins como os meios utilizados numa determinada aplicação da IA, bem como a visão geral que ela encarna, devem ser avaliados para garantir que respeitam a dignidade humana e promovem o bem comum.’ (n.º42)
‘O compromisso de garantir que a IA defenda e promova o valor supremo da dignidade de cada ser humano e a plenitude da sua vocação é um critério de discernimento […].’ (n.º43)
‘A análise das implicações deste princípio pode, portanto, começar por considerar a importância da responsabilidade moral. Uma vez que a causalidade moral em sentido pleno só pertence aos agentes pessoais, e não aos artificiais, é da máxima importância poder identificar e definir quem é responsável pelos processos de IA, especialmente aqueles que incluem possibilidades de aprendizagem, correção e reprogramação. […] Para resolver este problema, há que ter em atenção a natureza dos processos de atribuição de responsabilidade (accountability) em contextos complexos e com elevada automatização, em que os resultados são, muitas vezes, apenas observáveis a médio-longo prazo. Por conseguinte, é importante que a pessoa que toma decisões com base na IA seja responsabilizada pelas mesmas e que seja possível prestar contas da utilização da IA em todas as fases do processo de decisão.’ (n.º44)
‘Além da determinação das responsabilidades, é necessário estabelecer quais são os objetivos atribuídos aos sistemas de IA. […] Coloca-se assim o problema crítico de como garantir que os sistemas de IA sejam ordenados ao bem das pessoas e não contra elas.’ (n.º45)
‘[…] o conceito de “responsabilidade” deveria ser entendido não apenas no seu sentido mais restrito, mas como «cuidar do outro, e não apenas […] prestar contas do que se fez».’ (n.º47)
‘O Papa Francisco advertiu que «os dados obtidos até agora parecem sugerir que as tecnologias digitais tenham servido para aumentar as desigualdades no mundo. Não só diferenças na riqueza material, que são importantes, mas também diferenças no acesso à influência política e social». Neste sentido, a IA poderia ser utilizada para prolongar situações de marginalização e discriminação, criar novas formas de pobreza, alargar o “fosso digital” e agravar as desigualdades sociais.’ (n.º52)
‘[…] o facto de a maior parte do poder sobre as principais aplicações de IA estar, atualmente, concentrado nas mãos de algumas empresas poderosas levanta preocupações éticas significativas. A agravar este problema está também a natureza intrínseca dos sistemas de IA, em que nenhum indivíduo consegue fazer uma supervisão completa dos vastos e complexo conjuntos de dados utilizados para o cálculo.’ (n.º53)
‘Além disso, existe o risco de a IA ser utilizada para promover aquilo a que o Papa Francisco chamou de «paradigma tecnocrático», que pretende resolver todos os problemas do mundo apenas com meios tecnológicos. […] a IA deve ser posta «ao serviço de um outro tipo de progresso, mais saudável, mais humano, mais social e mais integral.’ (n.º54)
‘Para alcançar tal objetivo, é necessária uma reflexão mais profunda sobre a relação entre autonomia e responsabilidade, porque uma maior autonomia implica uma maior responsabilidade de cada pessoa nos vários aspetos da vida em comum. Para os cristãos, o fundamento desta responsabilidade é o reconhecimento de que todas as capacidades humanas, incluindo a autonomia da pessoa, provêm de Deus e têm por objetivo ser postas ao serviço dos outros.’ (n.º55)
‘[…] Embora a IA “generativa” seja capaz de produzir textos, discursos, imagens e outros outputs avançados que são, normalmente, ações de seres humanos, deve ser entendida pelo que é: uma ferramenta, não uma pessoa.’ (n.º59)
‘[…] deve ser sempre evitada a representação errónea da IA como uma pessoa, e fazê-lo para fins fraudulentos constitui uma grave infração ética que pode corroer a confiança social.’ (n.º62)
‘Num mundo cada vez mais individualista, há quem se tenha voltado para a IA em busca de relações humanas profundas, de simples companheirismo ou mesmo de laços afetivos. No entanto, embora reconhecendo que os seres humanos são feitos para viver relações genuínas, deve ser reiterado que a IA só as pode simular.’ (n.º63)
‘[…] ao contrário dos benefícios anunciados, as atuais abordagens tecnológicas podem, paradoxalmente, desqualificar os trabalhadores, sujeitá-los a uma vigilância automatizada e relega-los para tarefas rígidas e repetitivas.’ (n.º67)
‘[…] Se for utilizada para substituir os trabalhadores humanos em vez de os acompanhar, existe um «risco substancial de uma vantagem desproporcionada para alguns à custa do empobrecimento de muitos».’ (n.º68)
‘[…] é bom ter sempre presente que «a ordem das coisas deve estar subordinada à ordem das pessoas e não ao contrário».’ (n.º69)
‘[…] a IA deve ajudar, e não substituir, o discernimento humano, assim como nunca deve degradas a criatividade ou reduzir os trabalhadores a meras «engrenagens de uma máquina».’ (n.º70)
‘«Temos de romper com o imaginário da educação, segundo o qual educar consiste em encher a cabeça de ideias. Desta forma, educamos autómatos, macrocéfalos, não pessoas. Educar é correr riscos na tensão entre cabeça, coração e mãos.»’ (n.º78)
‘A presença física do professor cria uma dinâmica relacional que a IA não pode reproduzir, uma dinâmica que aprofunda o compromisso e alimenta o desenvolvimento integral do estudante.’ (n.º79)
‘[…] a vasta utilização da IA na educação poderia levar a uma maior dependência dos estudantes em relação à tecnologia, afetando a sua capacidade de desenvolver determinadas atividades de forma autónoma e agravando a sua dependência dos ecrãs.’ (n.º81)
‘Em vez de formar os jovens para acumularem informação e darem respostas rápidas, a educação deveria «envolver a tarefa de promover liberdade responsáveis, que, nas encruzilhadas, saibam optar com sensatez e inteligência».’ (n.º82)
‘[…] a utilização da IA deve ser sempre transparente e nunca ambígua.’ (n.º84)
‘[…] À medida que deepfakes induzem as pessoas a questionar tudo, num panorama em que prolifera o conteúdo falso gerado pela IA, corrói-se a confiança no que é visto e ouvido, e a polarização e o conflito só aumentarão. Um engano assim generalizado não é um problema menor: atinge o coração da Humanidade, demolindo a confiança fundamental sobre a qual as sociedades se regem.’ (n.º88)
‘Combater as falsificações alimentadas pela IA não é apenas um trabalho dos especialistas do setor, mas exige os esforços de todas as pessoas de boa vontade.’ (n.º89)
‘O risco de vigilância excessiva deve ser monitorizado por organismos de controlo adequados, de modo a garantir a transparência e a responsabilidade pública.’ (n.º93)
‘Embora as capacidades analíticas da IA possam ser utilizadas para ajudar as nações a procurar a paz e a garantir a segurança, a «utilização bélica da inteligência artificial» pode ser altamente problemática.’ (n.º99)
‘As atrocidades já cometidas a longo da história da Humanidade são suficientes para suscitar profundas preocupações quanto ao potencial abuso da IA.’ (n.º102)
‘[…] a presunção de substituir Deus por uma obra das próprias mãos é idolatria, contra a qual a Sagrada Escritura adverte (por exemplo, Ex 20,4M 32,1-5; 34,17). Além disso, a IA pode ser ainda mais sedutora do que os ídolos tradicionais: ao contrário destes últimos, que «têm boca e não falam, têm olhos e não vêem, têm ouvidos e não ouvem» (Sl 115,5-6), a IA pode “falar” ou, pelo menos, dar a ilusão de o fazer (cf. Ap 13,15). É preciso não esquecer que a IA não passa de um pálido reflexo da Humanidade, produzida por mentes humanas, treinada a partir de material produzido por seres humanos, predisposta a estímulos humanos e sustentada por trabalho humano. […] Em última análise, não é a IA que é deificada e adorada, mas o ser humano, que se torna, assim, escravo da sua própria obra.’ (n.º105)
‘«quanto mais cresce o poder do ser humano, mais se estende e alarga a sua responsabilidade».’ (n.º108)
‘Só a pessoa humana pode ser considerada moralmente responsável, e os desafios da sociedade tecnológica dizem respeito, em última análise, ao se espírito. Por isso, enfrentar estes desafios «exige um revigoramento da sensibilidade espiritual».’ (n.º111)
