domingo, setembro 17, 2017

Dom António Francisco - Um santo no meio de nós

As palavras deste texto, apesar de postas por escrito, não saíram sem que tivesse de me recompor diversas vezes. Elas saem-me do fundo da alma. Parei muitas vezes para as escrever. As lágrimas tomam-me e embargam-me a escrita, por ainda me ser difícil encontrar consolo. Vale-me a esperança de que, no hoje da eternidade, a bondade do D. António Francisco vela por nós junto de Deus-Amor.
D. António Francisco criou, em cada um dos que com que ele se cruzaram, a certeza de haver alguém que era, no agora da história, presença do Amor, sinal de que se era amado de modo singular. A todos espantava a importância com que ouvia o que se lhe dizia, o afeto com que olhava e, sempre, a surpresa de verificar que, muito tempo decorrido desde o primeiro encontro, sabia tudo o que lhe tínhamos contado.
Um dia, após uma conferência aos professores de EMRC, no Porto, e depois de dezenas de encontros onde todas as pessoas tinham um nome e uma vida que o senhor dom António tinha como sua e parecia conhecer com detalhes de quem está atento a todos como seus muito chegados, não resisti a dizer-lhe, em tom de graça: ‘um dia, escreverão sobre si: «à incrível memória do sr. D. António Francisco»’.
Uma fecunda memória que uma das suas histórias de vida ilustra na perfeição. Quando, na década de 70, se fazia uma história da diocese de Lamego, o autor ter-se-á socorrido da sua ímpar capacidade de memorizar e, convidando-o para percorrer as sepulturas do cemitério da cidade, guardar recordação dos conteúdos das lápides das figuras a referir no livro. Ao chegarem ao Seminário, o autor ter-lhe-á dito: ‘agora, António, diz-me que datas estavam nas lápides’.
Esta é uma história cujos contornos não consigo precisar com mais detalhe, mas que me foi contada por ocasião da referida conferência, em 17 de setembro de 2016, há precisamente um ano. Se corresponde, em absoluto, ao ocorrido, não consigo estar certo, mas ninguém duvidará de que nunca esquecia uma pessoa, a família a que pertencia, o sítio onde vivia, o drama em que se via ou estivera envolvida. Como quando visitou Fermelã, em 2007. Nessa ocasião, soube da morte de um colaborador paroquial, cuja filha se encontrava no final da gravidez. Para surpresa de todos, deslocou-se a casa destes para confortar e dar esperança. Anos mais tarde, ao reencontrar aquela mãe, logo a reconheceu assim como a sua bebé, recordando, com clareza, o contexto em que se tinham encontrado, pela primeira vez. Este reencontro ficou perpetuado em fotografia ainda hoje guardada com carinho por aquela família.
A surpresa e o espanto de se saber que aquele homem sempre atento e cuidadoso, verdadeiro pastor com «o odor das suas ovelhas», acolhia no seu coração cada palavra e dor transmitidas deixavam a certeza de que o eterno se tornava presente no efémero.
Espantou-me, sempre, saber que toda esta dedicação era a de alguém que sabe que o tempo é finito e que, por isso, o esticava até que ele se tornasse eterno. Mas não era a dedicação de quem pretende, com ela, encontrar justificação para não agir. Dom António Francisco foi, também, um homem de ação muito eficaz, sensata e inteligente.
Quanta dívida têm para com ele os diocesanos de Aveiro que, em 2013, assistiram ao vento de mudança e renovação que foi a missão jubilar! Os diocesanos de Aveiro terão sentido comoção ao ver as palavras que foram recolhidas na pagela oferecida nas exéquias de Dom António Francisco, reproduzindo a homilia feita na peregrinação da Diocese do Porto a Fátima, no dia 9 de setembro, dois dias antes da sua morte: «Igreja do Porto: vive esta hora!».
Aveiro era diocese amada como o foram, seguramente, também a do Porto e a de Braga. O coração do Dom António não se dividia: dilatava-se para todos caberem. A sua própria morte é símbolo da sua vida. Quem tanto amou, foi pelo coração que chegou à eternidade!
Muitos outros poderão atestar esta ação eficaz do Dom António Francisco. Que o digam, também, os professores de EMRC que nele encontraram um dedicado membro da comissão episcopal da educação cristã que conseguiu negociar alterações legislativas que contribuíram para um reforço da credibilidade da disciplina de Educação Moral e Religiosa Católica, junto dos que pretendiam fazer dela uma disciplina menor. D. António Francisco foi, sempre, neste domínio, um insistente defensor de que os professores de EMRC deveriam exigir de si mesmos o melhor. Ouvi-lhe, diversas vezes, comentar, com delicadeza, que determinados amadorismos na atuação eram de evitar e não poderiam continuar a alimentar-se. Os alunos (que tanto amava; via-se, no brilho com que falava do seu tempo de professor!) mereciam o melhor.
Confirma-o, também, o impulso que conferiu aos processos de canonização da venerável Sílvia Cardoso Ferreira da Silva e do Bispo D. António Barroso.
A sua vida foi dedicação e amor. Um profundo amor a Deus, de quem falava com o coração, de forma simples, autêntica, sem artificialismos. Deus era o seu respirar. E dessa fonte brotava todo o sentido das suas decisões.
Tinha sempre tempo para dar. Sempre!
Não esquecerei que, por ocasião da operação da minha filha, em 2015, em pleno período pascal, passados os dias mais absorventes, o senhor D. António telefonou, dizendo-me que estava a sair do Paço Episcopal para nos visitar no Hospital de S. João. A convalescença tinha sido rápida e estávamos, precisamente, a regressar a casa. Ficou feliz com a notícia do regresso e disse-me que nos tinha tido presentes, de modo especial, naquela Páscoa. Também nós tínhamos vivido um calvário de que, agora, se vislumbravam os sinais da Páscoa da Esperança.
Foi o primeiro a compreender o total alcance de termos escolhido o nome de «Maria Marta». Quando lho dissemos, os seus olhos brilharam e repetiu: «Maria»… «Marta»… A contemplação e a ação! Conseguia ver para além do que para outros não passava de curiosidade. Por ocasião do dia de Santa Marta, enviava mensagem, lembrando a nossa filha e perguntando como estava a menina, associando, sempre, um abraço ao João. Sabia o nome de ambos e tinha-os como seus muito queridos.
Não o fazia por um qualquer privilégio nosso. Fazia assim com todos os que lhe tinham manifestado algum sinal de dor e sofrimento. Compadecia-se de imediato e fazia sua a dor do outro. Os que me leem e o conheceram saberão que são palavras autênticas. O dom António Francisco sabia que, por si, Deus agia na história dos que com ele se cruzavam. Um legado que cabe honrar a todos os que fomos brindados com a ventura de fazer parte de algum tempo do seu tempo eterno.

O amor com que se nos dedicou, Dom António Francisco, é o amor que por si temos, certos de que, na eternidade do regaço de Deus, escutará com o sentir da alma a verdade do que lhe dizemos.

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