terça-feira, janeiro 20, 2026

'Os Sete Dias da Criação' |7| Luís M. P. Silva - Ainda o primeiro dia: ‘No princípio criou Deus…’ – Deus Criador; não um demiurgo!

 

(‘Os Sete Dias da Criação’ | Rubrica dedicada ao diálogo entre ciência e religião)
Artigo originalmente publicado na revista 'Mundo Rural'

Luís Manuel Pereira da Silva*

A densidade de Gn 1,1 dá-nos pretexto para que regressemos, as vezes necessárias, a este versículo.

Faz-nos regressar a ele, destarte, a compreensão do alcance da ideia de ‘criação’. Apesar do paralelismo com que a nossa linguagem pretende aproximar este termo da ação do artista (quando, efetivamente, o movimento deveria ser o contrário: a ação do artista é que ‘se inspira’ na do Criador), fazendo supor a ideia de uma ação sobre matéria previamente dada, o texto de Génesis é inequívoco. Como lembra Gerhard von Rad, no seu clássico ‘o livro do Génesis’, o termo utilizado pelo autor bíblico, para se referir à ação criadora de Deus [é] ‘um criar carente por completo de analogias. Com razão se diz que o verbo bara’, ‘criar’ contém por um lado a noção de uma total ausência de esforço e por outro a ideia de uma creatio ex nihilo, pois nunca foi ligado à menção da matéria.’ (p. 58). Esta abordagem pode ser confirmada pela leitura da entrada «bara’» no dicionário de Luis Alonso Schökel que, após enunciar os diversos significados do termo (‘criar, dar o ser, tirar do nada, fazer, produzir, fundar, formar, plasmar’), acrescenta ‘o sujeito é Deus’ (p. 116).

A visão bíblica sobre a criação exclui, por isso, a conceção de um deus demiúrgico, tão aprazível aos gregos e aos mesopotâmicos, um ‘deus menor’ a quem cabia apenas moldar uma matéria pré-existente.

A visão sedutora de um deus demiúrgico, que erra na interpretação do texto bíblico que é inequívoco, fez ‘escola’ e encontrou, ao longo dos tempos, novos seguidores. Santo Agostinho, nos séculos IV e V, enfrenta uma das ‘cabeças da Hidra’ «demiúrgica» nos maniqueus, aos quais ele mesmo tinha pertencido até à sua conversão ao cristianismo, tendo, após essa ‘revolução espiritual’, dedicado particular atenção à destruição dessa abordagem sedutora, da qual, porém, ainda hoje se manifestam alguns lampejos na própria leitura de alguns cristãos.

Na verdade, à abordagem demiúrgica, que pensava Deus como um ‘criador de segunda ordem’, por apenas lhe caber moldar uma matéria pré-existente, associava-se a convicção inerente de que a Deus caberia atribuir a causa do bem, mas também do mal.

Santo Agostinho, na obra que sugiro, abaixo, enfrenta esta questão, afirmando que o mal é a ausência de bem[1], tal como as trevas são a ausência da luz e o silêncio a ausência do som. Reportando-se ao que é dito no versículo 4 (‘separou a luz das trevas’), o bispo de Hipona comenta que ‘não se diz neste passo «Deus fez as trevas» pois estas […] mais não são que a ausência da luz e, portanto, simplesmente procedeu à separação entre ambas. De igual modo nós, gritando, produzimos a voz; e estando calados, produzimos o silêncio, porque a cessação da voz é o próprio silêncio: e todavia, num certo sentido, distinguimos a voz do silêncio e a uma coisa chamamos voz e a outra chamamos silêncio.’ (p. 67)

Ora, uma ausência não carece de criador. Mas sim ‘algo’, o ‘ser’, carece de criador.

É toda uma outra visão da realidade.

Um deus demiúrgico molda, confusamente, o cosmos e o caos.

O Deus criador cria, do nada, algo. Esse algo é, em si mesmo, como dirá o autor bíblico, no mesmo versículo 4, ‘bom’. (Veremos, em outros momentos da nossa reflexão, o alcance total deste reconhecimento das realidades criadas como ‘boas’. Para já, enunciemos, apenas essa constatação.)

Ora, é de ‘criação’ que nos fala o autor bíblico. E, para o sublinhar, o autor deste primeiro relato da criação, autor que a análise exegética designa como ‘sacerdotal’ e identifica com a letra ‘P’ (de ‘Priester’) estrutura uma narrativa que, como bem constata D. António Couto, começa e acaba com a ideia de ‘criação’.

Na verdade, a primeira narrativa da criação compõe-se como uma unidade observável entre Gn 1,1 e Gn 2,4a. E, olhando com atenção, verificamos que esta estrutura literária começa com ‘no princípio, Deus criou?’ e termina, em Gn 2,4a, com ‘esta é a origem da criação dos céus e da terra’. (A tradução proposta por D. António Couto é ainda mais significativa: ‘No princípio CRIOU Deus os céus e a terra; […] Esta é a história dos céus e da terra quando foram CRIADOS’).

Não se está a falar de outra coisa, neste texto: apenas e só da ‘criação’.

E sublinhemos, para o objetivo que nos leva a formular estas reflexões [o encontro entre a ciência e a religião cristã], que o foco da reflexão não está no ‘modo como’ Deus cria, mas sim, na afirmação de que ‘Deus cria’, pelo que, ‘o que Deus cria’ tem o sinal de provir dele: a bondade intrínseca. Esta leitura da radical bondade originária contrasta, de forma surpreendente (‘inspirada’, diremos, enquanto religiosos), com as cosmologias circundantes ao povo hebreu: grega, babilónica, fenícia e egípcia (cfr. D. António Couto, p. 19). Nestas, o bem e o mal convivem e combatem-se, em plano de igualdade ou, até, no limite, dando a precedência ao mal em relação ao bem (o bem nasce do caos e fica em permanente ‘conivência’ (p. 18) com ele), não permitindo esperar uma salvação. A tal se deve a condição trágica das mitologias envolventes à leitura bíblica. E daí, também, ser de sublinhar a ‘novidade’ que esta traz.

Ainda que possa haver reminiscências das mitologias circundantes, nos termos originais hebraicos (a referência ao ‘abismo’ é uma delas, sendo que o termo hebraico «tehôm» (abismo) pode evocar a ideia de ‘Tiamat’, o monstro vencido na luta com Marduk, na mitologia mesopotâmica, com cuja carcaça se faz o céu), toda a narrativa toma essas ‘alusões’ e reminiscências para as reconfigurar num novo relato em que não há margem para ambiguidades: há um só Criador, que cria, pela sua vontade, a partir do nada, originando, do que é espiritual (bom em si mesmo), o que é material. Fica, assim, de um só ‘trago’, devorado todo o dualismo que opõe matéria a espírito, bem a mal, como se de duas naturezas antagónicas se tratasse. Com Santo Agostinho, poderemos concluir que o mal fica reduzido ao que é: um nada que é ausência!


Sugestões bibliográficas

Luis Alonso Schökel, Dicionário Bíblico Hebraico-Português, São Paulo, Paulus, 20146.

  1. António Couto, O livro do Génesis, Leça da Palmeira, Letras e Coiras-livros, 2013.

Santo Agostinho, Da interpretação do Génesis: dois livros contra os maniqueus, Prior Velho, Paulinas, 2021.

Gerhard von Rad, El libro del genesis, Salamanca, Ediciones Sígueme, 19887.


[1] Suportado na visão agostiniana, venho defendendo que o mal deveria pensar-se, antes, como a ‘insuficiência’ do bem, permitindo compreender, de forma mais compassiva, a destrutiva ação do mal moral, voluntariamente determinado ou consentido.

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