segunda-feira, julho 29, 2013

O desafio de Francisco

É sabido que, na escolha do seu nome, cada Papa (Pai) afirma como que um programa para o seu pontificado. Assim ficou claro com os antecessores do Cardeal Bergoglio que, enquanto Bento, João, Paulo ou João Paulo, pretenderam situar-se na senda dos que ostentaram cada um destes nomes. Ao escolher o nome de «Francisco», o cardeal que foi trazido quase do fim do mundo definiu as marcas que se tem provado pretenderem, desde a primeira hora, marcar o código genético do Pontificado. Na verdade, é difícil encontrar nome de santo que suscite, no imediato, tanto apreço e cumplicidade junto de todos e cada cristão. Nele se reconhecem a coragem, o humor, o desprendimento, a coragem, o desejo de reformar a Igreja de Jesus. Um desejo que, nas ruínas da destruída igreja de S. Damião, em Assis, se expressou através de uma voz em que Francesco Bernardone reconheceu o desafio de Jesus Cristo: «Francisco, não vês que a minha casa está em ruínas? Vai reconstruí-la.»
A densidade deste nome é tal que os próprios brasileiros decidiram atribuí-lo àquele que é conhecido, entre eles, como o rio da unidade nacional: S. Francisco. Quando o ouvi anunciado, na tarde de 13 de março de 2013, a surpresa que o seu significado fazia emergir e o desconhecimento sobre quem seria o cardeal eleito fizeram-me duvidar se outros não seriam os Franciscos aludidos: Francisco de Sales? Francisco Marto? Francisco Xavier? Quereria dar um sinal sobre a importância da educação (São Francisco de Sales é o patrono dos salesianos), sobre o seu sentido mariano (Francisco Marto) ou sobre a nova evangelização da Ásia (S. Francisco Xavier é considerado o «apóstolo do oriente»)?
Mas o sentido era o que a primeira surpresa parecia denunciar. A hora era de reforma, de reconstrução da igreja. Uma reforma que começa por fazer-se pela capacidade de surpreender, quer pelo humor, quer pela simplicidade e humildade. Aliás, não será sem sentido ver proximidade etimológica entre «humor» e «humildade». Só se ri de si quem tem a capacidade de se reconhecer no seu limite. Recordo, a pretexto disto, uma cena de humor que é contada pelo grande Chesterton (um inglês de inícios do século XX, convertido ao catolicismo cuja leitura devia ser obrigatória, tal a sua genialidade) na biografia que ele publicou sobre «S. Francisco de Assis e que retrata belissimamente muito do comportamento cristão necessitado de reforma. Conta Chesterton que um certo bispo se queixava de que um não-conformista [reformador dentro da Igreja Anglicana nos séculos XVI-XVIII] chamava “Paulo” ao Apóstolo em vez de o tratar por “São Paulo”. E acrescentava o bispo: “Podia ao menos tratá-lo por Sr. Paulo”.
Esta é a familiaridade que Francisco, o Papa, parece pretender trazer para o seio da Igreja. Uma familiaridade e humildade que temo que muitos estejam a pretender confinar à cúria romana, necessitada, seguramente, de uma «eminentíssima reforma» (para usar palavras do nosso Frei Bartolomeu dos Mártires, que João Paulo II elevou aos altares, fazendo-o beato). Na verdade, muitos parecem continuar a não reconhecer que quando dizemos que a Igreja necessita de reforma é a toda a Igreja que tal se refere. Toda inclui todos e cada um dos cristãos. O estado de permanente renovação e conversão é condição cristã. Estamos sempre na tensão do «já» e «ainda não», essa dinâmica que, sendo marca da escatologia cristã, face às outras escatologias, expressa o ADN do ser-se cristão. Não é só Roma que necessita de reforma. Quantas comunidades continuam presas a supostas tradições que impedem que se renovem os caminhos? Quantos cristãos ameaçam bater com a porta só porque não é feita a sua vontade? Quantos de nós continuamos a pretender uma Igreja à nossa medida, como se fôssemos nós mesmos sacerdotes autoinstituídos? A Igreja necessita daquela verdadeira reforma em que se reconhece, toda ela, não o fim para onde todos devem caminhar, mas, como diz a oração publicada em 1916 e designada como oração de S. Francisco, «o instrumento da paz» de Jesus Cristo. É este o desafio de Francisco: devolver o centro àquele que o deve ocupar.

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