sexta-feira, maio 01, 2015

Recensão de FLEW, Antony– Deus não existe: como o mais célebre filósofo ateu mudou de convicção

Flew, Antony– Deus não existe: como o mais célebre filósofo ateu mudou de convicção. Lisboa: Alêtheia Editores, 2010, 187 pp.

Será difícil encontrarmos um livro mais surpreendente do que este. Surpreendente, porque escrito num tempo em que tudo parece conduzir à convicção de que, mais cedo ou mais tarde, concretizando uma espécie de profecia de Auguste Comte, as ciências virão a substituir a necessidade de Deus e a negar a possibilidade da Sua existência. 
Surpreendente, porque escrito numa época em que se orquestram, pelo mundo fora, estratégias de silenciamento da manifestação das marcas do mistério ou do divino no espaço público. 
Surpreendente, enfim, porque escrito por alguém – Antony Flew – que, durante 50 anos, se auto-denominou como ateu, pretendendo, neste livro, explicar as razões pelas quais, após cinco décadas de combate contra a possibilidade da existência de Deus, conclui que Deus tem de existir.
Ora, a tese que o autor sustenta, neste livro, é tão surpreendente por toda esta conjuntura, como útil para tempos como estes em que ainda parecem persistir resquícios de dilemas que há muito deveriam ter sido superados. Na verdade, uma das mais resistentes razões em que têm suportado os ateus a sua defesa da inexistência de Deus vem sendo a de que tal possibilidade colidirá, frontalmente, com as descobertas das ciências. Tal motivo é, aliás, muitas vezes, apontado como o elemento diferenciador da modernidade: a revolta contra o divino a favor da razão científica. Como se afirmar a existência de Deus significasse, sem margem para dúvidas, a rejeição, pura e simples, da legitimidade do saber científico; ou, pelo inverso, como se o acolhimento das descobertas deste âmbito do saber significasse a anulação da legitimidade da procura do divino. Tal dilema tem sido, ainda, vincado e reforçado, até à exaustão, com a reprodução ostensiva dos tristemente célebres casos de Galileu, Darwin, e outros, elevados ao estatuto de paradigmas da incompatibilidade da relação entre estes dois âmbitos da leitura do mundo.
Ora, Antony Flew encontra na superação deste falso dilema a resposta por que procurou, ao longo dos cinquenta anos em que se considerou ateu. Na verdade, de acordo com as conclusões que foi forjando, em virtude dos dados que lhe facultaram as ciências, Flew regista, neste livro, que quanto mais as ciências investigam e recolhem sobre o que seja o mundo, mais o pensamento se terá de render à convicção de que Deus deva existir. Bem certo que o deus de que fala Flew não é, ainda, o Deus da religião, mas tal facto não o inibe de admitir que a antecâmara em que, neste livro, se coloca, o disponha a abrir-se ao Deus revelado, em particular ao Deus revelado no Cristianismo. Poderíamos considerar, criando uma metáfora com as limitações próprias deste recurso estilístico, que Flew abriu um receituário, mas ainda não pôde saborear dos manjares que nele se propõem. Com o seu pensamento, Flew percebe a existência de Deus, mas ainda não a consegue retratar ou reconhecer-se como envolvido pessoal e existencialmente nela. 
Tal deve-se ao próprio teor da descoberta que ele mesmo fez e aqui reproduz. Na verdade, o autor considera a fortíssima possibilidade da existência de Deus como condição de compreensão para a ordem e organização do universo que as ciências pressupõem, na medida em que a sua natureza de ciências se sustenta na ideia de que é possível haver leis que sejam percebidas pelo homem. Ora, esta condição de possibilidade da existência das ciências (só podem formular-se leis científicas, mesmo que reversíveis e revisíveis, porque há ordem e organização no universo) exige, por si só, a admissão de uma inteligência e de uma inteligibilidade no universo. Entregar ao acaso a força e o poder de explicar a ordem e organização do mundo é, para Flew, uma escolha anti-científica, pois a ciência sempre se sustentou nas opções mais simples. E admitir uma Inteligência Divina que justifique por que razão é possível fazer-se ciência é mais lógico, mais óbvio, mais evidente e, por isso, mais inteligente, para Flew, do que sustentar que o universo se organizou como fruto de sucessivos acasos. Si non è vero, è bene trovato!
Acresce à força deste argumento o poder de outros pensadores de que Flew se faz acompanhar, ao longo do livro, para sustentar a sua tese: Einstein, Newton, Heisenberg, Hawking, Schrödinger, etc., isto é, alguns dos mais brilhantes representantes da mente humana, atestando, assim, que, contrariamente à força de muita propaganda que vem conduzindo a Europa e o nosso país à convicção de que esta matéria é reserva de mentes débeis e limitadas, a afirmação da possibilidade da existência de Deus continua a ser a garantia da salvaguarda de uma leitura interpretativa e coerente do mundo. De outro modo, sobra o absurdo e o sem-sentido, que só artificialmente se poderá compaginar com a busca racional e inteligente da coerência do mundo.

Luís Manuel Pereira da Silva

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