Mystérios lusitanos | A vinte e três (23) de cada mês, habitamos o mundo pelo imaginário de Alberto Ferreyra...
(Nos ramos da escrita, repousam, vezes sem conta, as gralhas da distração, ocultas, sob múltiplos disfarces, até que alguém as enxote. Alberto Ferreyra contou com o fino olhar da sua amiga Teresa Correia, detentora do segredo da sua identidade, para afastar ou caçar o grasnar das gralhas. Está-lhe, por isso, muito grato...)
Alberto Ferreyra*
Uma suave brisa de outono desprendia, firme, as derradeiras folhas fragilmente presas às árvores. Do interior da Igreja parecia ouvir-se a doce melodia de um ‘requiem à minha mãe’, com a languidez de um murmúrio amargurado por perda precoce.
J. e M. desciam a rua que parecia cindir a esperança da Igreja do temor desesperado da derradeira morada do último adormecer.
Enrolados em quentes cachecóis, pois que o pedia aquele frio…
- Um cemitério, com as suas sepulturas em forma de cama… Um autêntico dormitório! Aqui se dorme, afinal! Para sempre? – J. lançava para o ar os pensamentos que assomavam ao mais íntimo de si. M. seguia, ao seu lado, sem dar conta do que lhe dizia o irmão. Contava, baixinho.
Assim foram até ao lugar das langorinhas, o vértice do mundo. A esquina para que confluem as vertiginosas descidas do tempo. Ficava encravada entre duas encostas: a de Sóligo e a do Cruzeiro. Uma convergência densamente humana.
J. ainda ousara quebrar aquele discreto sussurrar da irmã que continuava a contar.
- Nestas terras, há lendas por cumprir. Por estas montanhas se escondeu, outrora, um pastor que assistiu, no tempo dos mouros, ao abandono de uma moura esposa pelo seu marido violento. Em lugar incerto, mas não longe daqui, deixara-a, sozinha, transformada em pedra até ao dia em que florissem as beldroegas. O oculto pastor procurou quebrar tamanho feitiço, buscando saber o que seriam aquelas benfazejas verduras que, descobrindo-as, ele mesmo plantou, esperando voltar a ver encarnada aquela petrificada moura. Recuperada à carne, com ela casou .
M. nada ouvia. Contava, apenas.
Chegados às Langorinhas, detiveram-se. J. não resistia a comentar o significado que lhe parecia esconder-se sob aquele nome.
M. suspendeu as suas contagens, ainda que fixando onde ia.
- M., lembras-te de vir aqui, quando éramos pequenos? E de como sempre nos ficava a dúvida sobre se esta era a terra das langorinhas, se das longurinhas?
- Ou das ‘longarinas’? – Atalhou M., entusiasmada com a memória recuperada pelo irmão.
- Pode dever-se o nome ao facto de ser uma longa terra. Teria sentido ser ‘longurinha’.
- Mas também poderia ser por nela haver uma longa viga que prendesse as ramadas de outrora. Uma longarina. – Acrescentou M., participando no divertimento.
- Agrada-me mais ‘langorinhas’. A ideia da demora, da languidez…
M. meneou a cabeça, como se assentisse, e retomou a contagem. Saltou por cima de um pequeno rego de água e prosseguiu. Encaminhou-se para os degraus que levavam à leira sobranceira à terra que servia de margem ao maior dos regatos de água daquele lugar. Quatro, no total: um, maior, ao longo de toda a terra; um, a encimar a leira, e dois, a ladear todo aquele lugar.
- 483 passos até aqui. – Rematou M. E continuou, enquanto se preparava para colocar o pé no primeiro do sete degraus que levavam até à leira. – 484! 485! 486! 487! 488!489!
Ao chegar ao sexto degrau, M. parou. O sétimo degrau era o maior de todos. Uma espécie de patim sobre o qual se podia descansar, antes de avançar. M. deteve-se, longamente, a olhar para o último degrau e para a leira.
Ao centro, havia uma macieira. Sem folhas; estavam todas no chão. De cores diferentes, umas envelhecidas, outras mais novas. Nem uma folha havia nos ramos que, porém, apresentavam uma forma perfeita. Como se um jardineiro da maior mestria as houvesse podado. Vista de todos os ângulos, a forma daquela macieira parecia uma interrogação; um enorme e bem feito ponto de interrogação.
M. percorria, com o olhar, a singularidade daquele lugar. Nos ramos, deliciosas maçãs, apetitosas ao olhar; sedutoras!
J. aguardava, no primeiro dos degraus. O tempo parecia ter-se detido. Sem que se avistassem aves, sentiam-se os seus trinados. A forma daquela leira era perfeita, mas apenas ocupada por uma ímpar macieira.
M. decidiu não subir para o sétimo degrau. Desceu!
J. aguardava-a, sem pressas.
Encaminharam-se para os salgueiros ao fundo da terra, abeirando-se do ribeiro.
Pelas escadas, descia, entretanto, uma pequena serpente que M. não vira. Ter-se-ia assustado, ainda que o frio do outono fizesse adivinhar já não dever vir dali grande perigo.
Mas, ainda assim, ter-lhe-ia valido um susto.
- Nestas águas, apanhámos rãs. Era tão giro, M. Enquanto a avó tratava das cabras que tinha, num curral aqui perto.
- Falas como se eu não soubesse. Como se te dirigisses a alguém que nos estivesse a ouvir. Mas só aqui estamos nós…
Riram-se…
Mas o seu riso foi interrompido por passos.
- Parece-me que alguém se está a encaminhar para a leira.
Voltaram-se.
Reconheceram, ainda que envolvida nas vestes negras com que sempre se cobria depois da morte do marido e do filho único, a dona Micas. Uma mulher sofrida, cujo tempo se fizera de dores.
Perdera, em curto tempo, o marido, muito amado, e o filho único.
Nos seus olhos de mulher solitária, tinham secado as lágrimas. Dizia-se que passara a viver das dores dos outros. Procuravam-na, para nela encontrarem esperança, os mais desgraçados das redondezas. Não se percebia, porém, donde lhe vinha a força. Nunca se lhe ouvira um lamento.
Agora, estava ali.
M. pousara a mão no braço de J. e apertava-o, temendo que falasse.
Aguardava.
A dona Micas parara, com o pé direito pousado no primeiro degrau.
Elevara o olhar para a macieira, ao centro da leira.
Depois de um breve esperar, começara a subir. Sempre com o olhar elevado.
Chegada ao último e sétimo degrau, começara a soluçar.
Chorou, demoradamente.
Enrolou-se sobre si mesma. Era um choro só.
Depois, como se tomada por uma força sobre-humana, ergueu-se e dirigiu-se, vociferando, para a árvore.
Ao longe, M. e J. assistiam. Só viam o movimento dos braços daquela pobre mulher. Mas nada ouviam.
Dona Micas tinha o rosto hirto. Gritava. Barafustava. Desalinhava a roupa.
Subitamente, parecendo tomada de fúria, esticou a mão direita e prendeu uma das maçãs. Puxou-a, ligeiramente para si, como se a fosse arrancar.
Os seus olhos pareciam vermelhos de revolta.
O momento alongou-se…
A macieira, ao centro, despida de folhas; carregada de frutos.
Ao lado, sem fazer qualquer sombra no chão, aquela mulher; de pé, de negro, destemida!
Na sua mão, um dos frutos maduros daquela árvore solitária na perfeita leira ladeada por murmurantes regatos de água. Prendia-o à árvore apenas um já frágil pedúnculo, prestes a romper-se. O olhar daquela mulher parecia uma ameaça.
M. reparava, enquanto esta cena se detinha no tempo, como que eternizada, numa serpente que subia pelos degraus. Desejou avisar a mulher, mas a sua voz não se soltou.
Antes de se poder arrepender, aquela mulher largou o fruto e voltou a aligeirar os movimentos.
Voltou a alinhar a roupa, curvou-se sobre o chão. Tomou uma das folhas que guardou no bolso e desceu, pisando a cabeça da serpente, em rápida corrida.
Da árvore totalmente despida caiu uma folha, já seca.
Acordados daquele cristalizado momento, J. e M. seguiram no encalce daquela alíbera e viúva mulher, até à entrada da igreja, mas não mais a viram.
No cemitério ao lado, sobre a campa do mais novo adormecido, repousava uma pequena folha de macieira.