(‘Os Sete Dias da Criação’ | Rubrica dedicada ao diálogo entre ciência e religião)
Artigo originalmente publicado na revista 'Mundo Rural'
Luís Manuel Pereira da Silva*
Neste passo da nossa reflexão sobre ‘os sete dias da criação’, gostaria de enfrentar três aspetos que nos é possível observar deste densíssimo versículo 3 de Gn 1: o vínculo indissociável entre ‘a’ Palavra e Deus; a bondade da criação e, por fim, a dificuldade da receção do texto perante das descobertas científicas.
Enfrentemos o primeiro destas três observações.
É, para nós leitores do século XXI, já imbuídos da ‘resolução’ da controvérsia trinitária, óbvia a relação entre a ‘Palavra’ de Deus e o próprio Deus. A ‘Palavra’ não é um ‘suplemento de Deus, mas a Sua ação pessoal criadora, indissociável da Sua própria natureza. A Palavra é Deus, como Deus é, também, o princípio. É princípio pela Sua Palavra e é pela Palavra que dá início a tudo.
Para nós, isto é, hoje, claro.
Mas, se recuarmos ao século IV, ao contexto das controvérsias que deram pretexto para o primeiro Concílio ecuménico (universal, de toda a ‘terra habitada’) do Cristianismo, perceberemos que esta constatação não era, então, assim tão clara. Para Ario, o presbítero de Alexandria cujas teses Atanásio, ainda diácono do Bispo de Alexandria (de nome ‘Alexandre), teve de enfrentar e refutar, em Niceia, em 325, a Palavra era a primeira das criaturas de Deus. Não coincidia, não era da mesma substância (consubstancial, como dizemos no credo – que é ‘nicenoconstantinopolitano’) de Deus. Havia um hiato entre Deus (princípio absoluto, solitário, ‘fechado em si’) e a Sua Palavra. Ora, Génesis torna clara esta unidade indissociável entre ‘Deus’ e ‘Palavra’, mostrando que a ação de Deus se opera na e pela Palavra. A Palavra é o ‘nome’, a ‘pessoa’ (condição de diversidade em Deus) pela qual Deus todo (trinitário) cria. E isso é notório na preocupação com que o autor bíblico nos descreve os atos criadores. Diz que ‘Deus disse’ e ‘aconteceu’. A Palavra de Deus é eficaz.
Em segundo lugar, recuperemos uma constatação já insinuada em anteriores etapas deste nosso percurso reflexivo: a criação, na perspetiva bíblica, é bondosa. No pensamento, no desejo de Deus, toda a sua criatura, toda a sua criação é boa, contrariando aquilo que os vários maniqueísmos (o nome nasce de Manes, um nobre persa que viveu no século III d.C., no contexto da religião zoroastrista, na Pérsia, que defendia que, na sua origem, a criação tem dois princípios antagónicos: o do bem e o do mal. Esta tese sedutora exerceu muita influência, chegando, inclusive, a muitos cristãos. Recordemos, a título ilustrativo que o próprio Santo Agostinho, no século IV-V, sofreu, numa fase anterior à sua conversão ao cristianismo, influência desta perspetiva.) da história, repetidamente foram sustentando. Na visão bíblica, a criação é, originariamente boa. Deus não é um criador do mal; é um criador do bem. O mal é a corrupção, a degradação, a não correspondência ao que Deus pretende e à natureza própria da criação.
Em terceiro lugar, enfrentemos uma interrogação que tem servido de lastro a toda a reflexão que temos vindo a desenvolver – no confronto entre o texto bíblico, literalmente analisado, e as conclusões que a ciência exata e experimental foi retirando, à medida que foi apurando o seu método, verificaram-se, em alguns momentos, dissonâncias, divergências.
Guardemos, para já, essa constatação.
Repitamo-lo: do confronto entre o texto bíblico, lido em registo literalista, e as descobertas científicas, ocorreram, em muitos momentos, desencontros.
É importante que a tenhamos em conta, pois o caminho que nos propomos é o de, enfrentando essa constatação, procurar uma via de encontro e convergência que nos permita evitar repetir erros que a história já nos evidenciou.
Entre as tentativas de permitir atenuar a ‘dureza’ da constatação dessas dissonâncias encontra-se a chamada ‘interpretação acomodatícia’, que fez longa escola. Na verdade, como recorda Agustín Udías Vallina, no seu muito interessante ‘Ciencia y fe cristiana en la historia’, ‘esta interpretação já tinha sido utilizada com os textos que falam da Terra plana, sendo aceite a sua forma esférica já por autores como Beda, o Venerável e ao longo da Idade Média.’ (p. 88) Recordemos que Beda, o venerável, viveu nos séculos VII e VIII e que, como já vimos, em etapa anterior, toda a Idade Média pressupunha que a Terra era esférica, contrariamente ao preconceito repetidamente referido de que a Idade Média acreditava numa Terra plana.
Ora, a pergunta a fazer é, precisamente, sobre como conciliaram os leitores atentos da bíblia as suas múltiplas referências à terra como plana com a tese ‘científica’ de que a Terra era esférica.
A interpretação acomodatícia foi, durante muitos séculos, uma das que vingaram, ao lado das abordagens alegoristas, podendo definir-se como a ideia de que os autores bíblicos acomodaram (por isso ‘acomodatícia’) a sua escrita às conceções próprias dos seus tempos. Vallina diz que ‘interpretação acomodatícia significa que os textos estão acomodados ao sentir da época em que foram escritos.’ (p. 88)
É uma abordagem confortável e que serenou, durante muito tempo, os ‘espíritos’ de controvérsia, mas valerá a pena conservar uma interrogação: será uma abordagem suficiente? O literalismo para que procura ser resposta é o modo exclusivo ou, sequer, o que deverá adotar-se, na abordagem ao texto bíblico?
Vê-lo-emos, ao longo da nossa posterior reflexão.
Sugestões bibliográficas
Agustín Udías Vallina, Ciencia y fe cristiana en la historia, Maliaño, Editorial Sal Terrae, 2021.
Isidro Lamelas (coord.), O primeiro concílio ecuménico – Niceia 325: memória e herança, Apelação, Paulus editora, 2025.
D. António Couto, O livro do Génesis, Leça da Palmeira, Letras e Coiras-livros, 2013.
Santo Agostinho, Da interpretação do Génesis: dois livros contra os maniqueus, Prior Velho, Paulinas, 2021.
Gerhard von Rad, El libro del genesis, Salamanca, Ediciones Sígueme, 19887.
*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano', 'Ensaios de liberdade' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'