quarta-feira, agosto 26, 2026

A propósito do aumento da criminalidade. Transformar o medo que bloqueia em energia que encoraja


As notícias parecem retratar um aumento da criminalidade violenta. Correspondam ou não a um aumento estatisticamente verificável, importa tomar consciência de dados que esta perceção pode catalisar, ao ponto de, deles, resultar uma mudança da própria realidade.

O medo é um dos mais poderosos sentimentos humanos. Fernando Savater não lhe atribui poder pequeno quando afirma que ‘a cultura nasce do medo da morte’. O medo; a cultura: o que há de mais humano!

Nele, concentram-se realidade e perceção, em equilíbrio que dificilmente nos permite discernir quanto há de objetivo e quanto sobra de subjetivo.

Importa, por isso, tomar consciência do seu poder. Poder de que sabem, aliás, sobejamente, os ditadores. É com ele que constroem os pilares dos seus regimes.

Baltazar Garzón, no seu luminoso livro ‘Um mundo sem medo’, recorda como é que a máfia criava, no sul da Itália, a sua teia de influências. Quando alguém decidia começar vida, cedo se tornava notado um dos seus correligionários que se encarregava de recordar ao recém-chegado quão volátil é o gás, por aqueles lugares. Para resistir a tal volatilidade, havia que pedir a proteção dos que sabiam acalmar o instável temperamento do gás.

Mas recorda, também, o ex-juiz espanhol como se começou a combater o poder dos que criavam e mobilizavam o medo. Por pequenos sinais (atirando pequenas moedas pretas para o chão), o povo foi identificando os mafiosos e, assim, dando a saber, aos políticos e ao sistema judicial, que era hora de agir. O sinal do povo e a vontade dos homens justos deu origem à operação ‘mãos limpas’ que, entre muitas vítimas, permitiu alguma ‘purificação’ do sistema italiano.

Somemos a esta constatação uma outra.

Recolhemo-la do livro ‘Freakonomics: o estranho mundo da economia’. Levitt e Dubner contam-nos que não foi sem alguma perplexidade que muitos estudiosos perceberam que a diferença entre estados com crimes hediondos e outros em que este tipo de atos era menos frequente poderia não estar na gravidade das penas. Aliás, tudo apontava para que a ameaça com penas mais graves fosse relativamente ineficaz. Uma outra era a linha a prosseguir. A leitura atenta permitiu concluir que era na eficácia da punibilidade nos delitos menos graves e a perceção de se ser punido o fator mais inibidor da sua prática. Estar sob a ameaça de penas pesadas, mas sem a convicção de se ser apanhado ou, sequer, punido, tornava ineficazes as leis.

Significativa constatação e extremamente útil para a reflexão que estamos a desenvolver.

Os sinais (objetivos ou subjetivamente recolhidos) de um recrudescer da violência (quase todas as semanas ouvimos notícias de assassínios, nas ruas de Lisboa, em pleno dia, e em ruas movimentadas) exige uma abordagem pronta e imediata, exigindo maior celeridade de atuação, combatendo qualquer sentimento de impunidade que possa conduzir a que, após ‘partir-se’ a vidraça, impunemente, se possa concluir ‘ser legítimo incendiar todo o edifício’.

Sabem disso os que promovem a violência e a querem ver replicada, pois assim o fizeram em outros contextos (o Brasil não foi sempre violento; o México não foi sempre violento; a Colômbia não foi sempre violenta…). Bem sabem que a violência lhes dá poder, pois os que temem pelas suas vidas e pelas dos seus buscarão refúgio e segurança junto de quem lhes assegura que a garantirá.

Para que não possam vencer estes que promovem a violência para se arvorarem como os autores da paz, é preciso estar atento, travar os primeiros sinais de agressividade e violência, e assegurar que não haverá impunidade para quem a promove. Para que as nossas ruas não se tornem lugar de uma ‘mexicanização’ (que me perdoem o termo, pois é bela e significativa a história do México…) que não saberemos, jamais, quando se estagnará e extinguirá.

Em tempos, recordei que as polémicas e os intensos debates têm uma linha vermelha que jamais deveremos transpor: a do derramamento de sangue. Pois, após ter-se derramado sangue, nada permanecerá como dantes: exigir-se-á ser a favor ou contra porque a indiferença será tomada como cumplicidade.

Ainda estamos a tempo. A realidade nacional ainda é tranquila e pode garantir-nos que o futuro é respirável. Mas, se nos tornarmos indiferentes aos sinais, alguns ‘capitalizarão’ o medo para se tornarem os garantes da paz, difundindo o medo contra o outro, e promovendo a blindagem das relações por temor dos demais.

Essa é uma ideia de sociedade que não queremos.

Para isso, sem titubear, devem ser claros os sinais de que a violência e o medo não encontrarão chão onde morar. Pois, onde há medo, não há liberdade, assim como onde há liberdade, não há dependência de quem nos prometa a paz por nos ter, invisivelmente, imposto a violência.

Se necessário, como fizera o povo, em Itália, lançaremos, sobre o chão que pisamos, as pequenas moedas pretas da nossa indignação contra os violentos.

A propósito do aumento da criminalidade. Transformar o medo que bloqueia em energia que encoraja

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