Há uma sabedoria profunda, verdadeiramente divina, no ato de inumar o ‘corpo’ morto, de o devolver ao regaço adâmico de que proveio. Mas uma onda vertiginosa está a fazer-nos regressar aos fornos crematórios.
Inquietante…
Bem sei que a longa tradição oriental, particularmente a de origem hindu, encerra a vida terrena no ato de cremar. Mas há uma conceção que a justifica, sustentada numa visão escatológica (sobre o pós-vida) muito distinta da judaico-cristã: nesta, a vida de cada um permanecerá uma identidade, depois da vida terrena; na visão oriental, todos nos fundiremos num uno, no cosmos.
Hoje, porém, a raiz dessa justificação está ausente dos motivos que assistem ao avolumar de números de pedidos de cremação, no contexto ocidental, em particular, no europeu.
Este texto nasce da confluência de três experiências: uma visita de estudo a Cracóvia e aos campos de concentração de Auschwitz-Birkenau; peregrinação a Santiago de Compostela e a leitura de um livro.
Na visita de estudo que realizei a Auschwitz-Birkenau, tomei consciência (essa consciência que arregala os olhos de pestanas queimadas por longas leituras, a que resulta de se ser surpreendido pelo óbvio que os livros nunca deixaram transparecer) de que a crueldade nazi para com os judeus não se bastara em humilhar, em vida, cada uma das suas vítimas. A ação nazi ia desde o despir integral, desonrando, pela nudez, cada um dos que chegavam aos campos de concentração, passando pela despersonalização reduzida ao número tatuado no corpo (deixava-se, para sempre, o nome com que se adquire uma identidade única) e pelas mortes arbitrárias (porquê este ou porquê aquele eram questões vazias. Morria-se porque assim o determinava a vontade de poder, a vontade dos que tinham o poder…). Os nazis reservavam para o fim a suprema humilhação: um judeu quer voltar à terra de que proveio, a terra que dá o nome à condição adâmica. Somos ‘adam’ porque somos feitos de ‘adamah’; como poderíamos constatar ser ‘humanos’ por nos fazermos do ‘húmus’. Reduzir a cinzas é a negação final da identidade, o culminar de uma ‘solução final’ que se faz do desejo malvado de apagar da história todo um povo e, com ele, cada um dos seus. Para o judeu (como, aliás, para o cristão), o corpo deve regressar à terra que clama por ele. Inumar o cadáver, devolvê-lo ao berço de origem, é respeitar a história que se enlaçou com o suporte corporal da identidade de cada um. O corpo não é apêndice; é parte visível de uma densa identidade que penetra na interioridade invisível. Reduzir a cinzas o que é visível é propiciar a destruição da identidade ali visibilizada.
É isto que torna inquietante o incremento de uma cultura da cremação.
Uma cultura feita de ‘sem-nomes’, de pessoas que, no seu viver ‘funcional’ e ‘útil’, querem fazer-se perder para sempre, sem lugar nem memória.
Senti isto, na peregrinação a Santiago, ao aproximar-me de Padrón, pela madrugada.
No percurso, passei pelo grande crematório/tanatório. Senti, ao ver aquele edifício soturno, anonimizado, o rigor frio da morte. Aquele crematório faz parte de um grande complexo associado ao morrer. Para quem faz o caminho em direção a Padrón, o primeiro que vê é, precisamente, o crematório/tanatório. Após o silencioso e anónimo edifício, segue-se um grande cemitério.
A diferença não podia ser maior. Ao anonimato do crematório - um lugar sem nomes, sem memórias-, segue-se o terreno dos nomes: o cemitério, com as suas cruzes e lápides cheias de nomes e memórias.
No silêncio do meu caminhar, lembrei-me do que faziam os nazis, nos seus campos, cuja porta de saída eram os fornos crematórios: reduzir a nada a vida de cada um dos que faziam parte da ‘solução final’.
E somei outras constatações: tatuámo-nos com imagens sem conteúdo, ocultando, sob tintas já sem narrativas, a cor das nossas peles, como se quiséssemos deixar de nos ser; queremos apagar a memória do que somos e fomos, mudando o nosso género e, com ele, a nossa identidade que pretendemos substituir pelo que a nossa vontade de poder entender determinar.
Iludimo-nos na busca da felicidade, como se ela fosse a meta e não a consequência de amarmos, verdadeiramente. Vivemos gravitando em torno de nós mesmos, desistindo de querer ser como Deus nos pretende para nos determinarmos, ficando em becos sem saída e sem rumo, por nos descobrirmos (talvez sós e sem ninguém que nos acompanhe) que, afinal, a quem sempre buscámos foi a nós mesmos. Por tudo isso, sobra reduzirmo-nos ao ‘sem-nome’, porque só Deus poderia garantir que permanecêssemos nós mesmos. Mas se já nada quisemos com Deus!?… O que poderia sobrar, então?
Nem nós mesmos, obviamente.
A história do pensamento já o adivinhara: se Deus morre, o sujeito humano extingue-se, também.
Mas parecemos gostar da ideia.
Vivemos numa condição assética, sem luta sem superações reais. Não vamos para lado nenhum, pois não nos sabemos ‘chamados’ porque recusamos que Alguém pudesse, sequer, chamar.
Resulta daqui, como bem recorda, Bourgninaud, no seu livro ‘Contra a aversão do homem pelo homem’, um estranho e absurdo movimento de repulsa do Homem para consigo próprio. Quando gravitamos em torno de nós mesmos, à inicial força centrípeta (de sedutora atração por si mesmo) segue-se um movimento oposto, gerador de uma força centrífuga. Voltámo-nos tão intensamente para nós mesmos que nos cansámos de nós. Byung Chul-Han constata, por isso, estarmos a construir uma sociedade do cansaço, na linha, aliás, do que também Lipovetsky identifica como sendo a ‘hipermodernidade’: uma cultura da deceção.
Regressar à terra, à fragilidade que somos, que nos identifica como únicos, como imperfeitos e, por isso, perfetíveis, é, assim, condição necessária e urgente para que possa sobreviver a humanidade. Haverá que pedir que se afixe, nas portas das casas que habitamos, o convite a um novo humanismo. E que voltemos a desejar regressar à terra da qual provimos, para que sobre ela possam caminhar, seguros, os nossos passos de humanos imperfeitos.