quarta-feira, maio 15, 2024

Regresso a Ítaca no sonho do Éden | Do mito de Psiquê à redenção cristã do rosto

 

Artigo originalmente publicado na revista 'Mundo Rural'


‘Regresso a Ítaca no sonho do Éden’ leva-nos a um mito que tem merecido numerosas representações artísticas (da ópera, com Lully, à escultura, com a célebre representação feita por António Canova, passando pela pintura por inúmeros estudos do âmbito da psicologia, que visam explorar a sua densidade e dela retirar leituras sobre a condição humana): a história de Psiquê e o Amor (Eros).

Este é um conto que nos chegou pela mão de Apuleio, autor latino do século II d.C., cujas Metamorfoses foram a única obra da literatura latina do género romanesco a chegar-nos integralmente preservada. (Os leitores interessados poderão encontrá-la aqui: https://www.gutenberg.org/ebooks/1666). O nosso guia será, ao longo deste ensaio, a versão do mito recolhida por Pierre Grimal, no seu dicionário da mitologia grega e romana[1].

Psiquê (a tradução portuguesa deste dicionário grafa a palavra sem o acento ‘pique’, mas parece-nos mais adequado manter a acentuação original de ‘psiquê’) é uma de três filhas de um rei, todas belas, mas especialmente Psiquê. De tão bela, não consegue encontrar marido, pois todos os pretendentes temem o fulgor daquela beleza.

Como tantas vezes ocorre nos mitos gregos já anteriormente analisados, os pais decidem socorrer-se dos oráculos, que lhes comunicam que deverão prepará-la para as núpcias, e levá-la ao cimo de uma montanha que lhes é indicada, onde a espera um monstro horrível que a tomará como esposa.

Os pais, ainda que temerosos, assim como Psiquê, cumprem o definido pelo oráculo.

Já na montanha, Psiquê é erguida pelos ventos que a transportam para o fundo de um vale de ervas suaves e macias, onde, após intensa emoção e felicidade, Psiquê adormece, acordando diante de um palácio ricamente decorado. Aí viverá um dia particularmente feliz até que, ao final da jornada, prestes a adormecer, sente a presença do seu prometido que a proíbe de o ver, condição para que ele permaneça junto de si. Se o vir, desaparecerá.

Como é fácil concluir, tal acabará por ocorrer, quando, ao regressar da família, que visitara por sentir saudades, é instada por esta a tentar descobrir como é o seu amado.

Sentindo-o adormecido, acende uma vela com que ilumina o seu rosto, descobrindo-o jovem e belo. Uma gota de cera quente acorda-o, porém, seguindo-se o seu imediato desaparecimento (definitivo).

Só, Psiquê erra pelo mundo e pelo submundo, sempre perseguida por Afrodite que inveja a sua beleza. Do submundo, trará um frasco de água recolhida da fonte da juventude que lhe fora dada por Perséfone, com a condição de não o abrir. No regresso, Psiquê parte o frasco, adormecendo profundamente. É nesta condição que a encontra Eros que pede a Zeus que os liberte das maldições que impendem sobre ambos, isto é a de não poder vê-lo e a de ele não a poder desposar.

Libertos das maldições, podem, finalmente, casar-se.

Este mito é denso de significados, mas para o nosso labor de estabelecimento de pontes entre a cultura clássica e a cristã, importa-nos reter como é trágica na visão clássica a relação entre o amor e a condição humana, simbolizada na impossibilidade de se ver o rosto, o lugar do enrugar do tempo sobre a pele.

Numa primeira leitura, é possível perceber alguma proximidade com a recusa de ver a Deus, face a face. Há, porém, que constatar que essa recusa é temporária, pois toda a história da salvação assenta na esperança do encontro definitivo que nos há de permitir ver a Deus tal como ele é.

Há, por isso, aqui, um coincidir para prontamente se distinguir. A cultura cristã redime o rosto, pois são inúmeros os momentos em que é o encontro, o ver, o olhar que abre ao amor…

Estar longe da face é, inclusive, sinal de maldição (por oposição à maldição de ver, implícita no mito de ‘eros e psiquê’): assim acontece com Caim que, ‘longe da face de Deus’, tem de errar… (Cfr. Gn 4,14).

Confirmando esta constatação, por oposição, ‘ver’ é fundamental e o lugar em que o amor se expressa (e não se some ou abandona, como no mito): os pastores querem ver o Menino (Lc 2,15), João Batista anuncia o Cordeiro de Deus, ao vê-lo (Jo 1,29), o leproso cai por terra ao ver Jesus (Lc 5,12), o Pai de misericórdia comove-se ao ver, ao longe, o filho pródigo (Lc 15,20), Zaqueu esquiva-se à multidão para ver Jesus (Lc 19,4), o centurião desperta para a fé ao ver o modo como Jesus morre (Lc 23,47). ‘Ver’, ‘ver’, ‘ver’…

O rosto, na cultura judaico-cristã, não é o lugar da perdição e da maldição, mas o primeiro despertador do amor. Não é, por isso, fortuito que uma das mais fecundas ‘éticas’ – a que tem em E. Levinas[2], um judeu, o seu principal pensador - contemporâneas funde no rosto o seu principal axioma: o de que o rosto é expressão da indigência que nos comove e insta a partir ao encontro do outro.

‘Psiquê e Eros’ é um mito perturbador, inquietante (não restará ao ser humano senão a trágica condição de nunca poder amar a beleza?), mas transfigurável pela visão cristã redentora do rosto, do olhar, do ver. A esperança cristã funda-se, aliás, na promessa de que veremos a Deus tal como Ele é…

Ver e amar não se excluem, na visão cristã: germinam um no outro!



[1] Pierre Grimal, Dicionário da mitologia grega e romana, Lisboa, Antígona Editores, 2020.

[2] Entre as suas obras, merecem especial destaque ‘Totalidade e Infinito’, ‘Ética e Infinito’, ‘Entre nós: ensaios sobre a alteridade’.

terça-feira, maio 07, 2024

Sabes, leitor... | 5 | Marca de água do livro de Viktor Frankl, 'Dizer sim à vida apesar de tudo'

 

Rubrica ‘Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página’** | Marca de água de livros que deixam marcas profundas
Parceria: Federação Portuguesa pela Vida e Comissão Diocesana da Cultura
O autor e a obra
Viktor Frankl, Dizer sim à vida apesar de tudo, Lisboa, Editora Pergaminho, 2021

‘Dizer sim à vida apesar de tudo’ é o título de um livro que reúne três conferências proferidas por Viktor Frankl [1902-1994], em março de 1946, poucos meses depois da sua libertação de quatro sucessivos campos de concentração nazis. Fora libertado em março de 1945. Estas conferências, feitas numa universidade operária, em Viena, sua cidade natal, são proferidas no rescaldo de uma densa e dramática experiência a que se somou a notícia de que a guerra o deixara só no mundo, pois perdera a mulher, a mãe e o irmão, vítimas do genocídio dos judeus, perpetrado pelos nazis. As circunstâncias densificam a importância deste livro.

Ler este livro humaniza quem o lê, na medida em que à autoridade científica resultante de se tratar de um autor a que muitos reconhecem a autoria da chamada ‘terceira escola de psicoterapia vienense’ (tendo em conta que as duas outras eram a psicanálise de Freud e a psicologia individual de Adler) se soma a autoridade de quem viveu experiências em que a sua visão da existência se confirmou como oportuna e útil enquanto ‘terapia em ação’.

Viktor Frankl é um autor de leitura obrigatória para quem não desistiu de reconhecer que têm sentido a existência humana e a ação moral humanizante.

O título da edição portuguesa, que retoma o que, originalmente, tinha escolhido o próprio Frankl, mas que muitas edições deixaram de adotar, reproduz o verso de uma canção de esperança, cantada pelos prisioneiros de Buchenwald, e que, completo, ainda diz ‘Ah, Buchenwald, nem uma voz será ouvida, sem lamentos aceitamos o que virá, apesar de tudo, dizemos sim à vida, seremos livres: o dia chegará!’.

O título explicita a ideia fundamental sustentada no livro: toda a vida tem sentido; todo o sofrimento tem sentido; toda a doença tem sentido; toda a morte, se a morrermos como a nossa morte, tem sentido.

A capa da edição portuguesa é, também ela, merecedora de referência. A autora da capa, Marta Teixeira, transfigura o arame farpado cortado em leves e livres aves ondulantes ao vento… O design prepara para a leitura!

Marcas de água (o que fica depois de se deixar o livro)

‘Dizer sim à vida apesar de tudo’ é uma ode à vida, ao sentido da vida, à decisão de se tomar nas mãos a existência que é reconhecida como dom recebido e acolhido e apreciado e amado.

Viktor Frankl parte da sua própria experiência existencial (ela perpassa por cada linha escrita, mas é particularmente visível na terceira e última conferência, em que ele começa, precisamente, por recordar a sua vivência, no campo de concentração de Kaurering), mas, também como terapeuta, fazendo das suas conferências, não apenas reflexões bem argumentadas, mas também existencialmente muito fundamentadas.

A sua ideia fundamental é a de que a vida vale a pena ser vivida, mesmo quando as circunstâncias são muito adversas, sendo que, perante o destino que cabe a cada um viver, restam duas formas de abordar: ‘mudar, desde que seja possível, ou aceitar de boa vontade, desde que seja necessário.’

Frankl constata que, como referia Nietzsche, ‘quem tiver um porquê para viver, suporta quase qualquer como’, o que confere à existência a condição de uma responsabilidade que projeta o sujeito humano para diante. Assumir a vida como uma responsabilidade significa, na perspetiva de Frankl, que o sujeito humano tem um ‘alguém’ ou ‘uma instância’ diante do/da qual responde pela sua vida. Isso lança-o para diante, para o futuro, fazendo emergir um sentido que, na linha da constatação que ele mesmo fez, ao criar a logoterapia, é condição para se sobreviver às maiores adversidades.

Coerente com estes pressupostos, Frankl defende que é insustentável a posição dos que entendem que há vidas indignas, pois, na sua perspetiva, toda a vida humana tem sentido, toda a doença tem sentido e toda a morte, quando é vivida como morrer assumido pelo sujeito, tem sentido. O sentido é anterior ao sujeito a quem cabe descobri-lo. Ele não é o seu criador; descobre-o! A vida define-se, para Frankl, como um interrogar o sujeito humano que, pelo viver, corresponde, ‘respondendo’. Viver é responder. O sentido está em responder, no próprio ato de viver que é, sempre, um encaminhar-se para diante e um responder perante alguém.

Afigura-se, assim, coerente a sua posição de que a eutanásia seria um reconhecimento de que haveria ‘vidas indignas de serem vividas’, contrariando as constatações a que a sua reflexão nos levara. Numa clara e lúdica argumentação, Frankl leva o leitor à constatação de como a aceitação desta significaria a perda da confiança inabalável no sentido da vida, assim como a aceitação de que ao médico competiria o poder de determinar o destino de alguém (negando que o destino é exterior aos sujeitos, perante o qual todos se posicionam) redundando numa alteração da própria missão do médico.

A razão última para a sua recusa desta, assim como da legitimidade do suicídio, está no reconhecimento da intrínseca dignidade de toda a vida humana, assumida como responsabilidade pessoal e insuscetível de qualquer redução ao critério da ‘utilidade’. O sentido da vida humana está acima e para além de toda a qualificação resultante da sua utilidade.

Interpelam estas conclusões, não apenas pela sua atualidade, mas principalmente pela sua intemporalidade, sustentada em experiência real em que a certeza do sentido conferiu a ‘força’ para a superação dos maiores limites algum dia vividos.

Na mesma página que o autor (citações)

‘Frankl conseguiu sobreviver ao tifo, que quase o levou à morte, e resistiu à fome, ao frio e à doença, graças a uma objetivação da dor, ou seja, à capacidade de se autodistanciar daquele mundo que o circundava, enveredando pela «autotranscendência», compreendida como «orientação da existência humana para além de si, orientada para algo ou para alguém».’ (Prefácio de D. Nuno Almeida, pp. 14-15)

‘A reconciliação com a vida […], segundo Frankl, acontece mediante a busca e a ativação do sentido para a existência pessoal e coletiva. Para que isto se realize, há que desenvolver a capacidade pessoal de entrega, de saída de si mesmo, e percorrer as vias da autotranscendência.’ (Prefácio de D. Nuno Almeida, p. 16)

‘Encontra-se em Frankl não somente um honesto e rigoroso estudioso da alma humana, mas sobretudo alguém que, com assertividade, proclama a dignidade inalienável de cada ser humano. Apesar do sofrimento, da culpa e da transitoriedade da vida, é possível renascer, recomeçar sempre.’ (Prefácio de D. Nuno Almeida, p. 17)

‘O homem e a mulher, pela sua dimensão espiritual, podem distanciar-se tanto de disposições internas como de posições externas. Por isso, o ser humano é um ser essencialmente livre, podendo decidir livremente sobre a sua vida, graças a uma capacidade não possuída por nenhum outro ser, uma faculdade especificamente humana: o autodistanciamento, ou seja, a capacidade que o ser humano tem de se distanciar não só do mundo, mas também de si mesmo. O importante não é a nossa disposição nem a nossa situação exterior, mas sim a atitude que se adota, a qual é sempre escolhida livremente por cada um de nós.

As circunstâncias biológicas, psicológicas, sociais podem condicionar, mas não determinar, o desenvolvimento da existência humana.[…]

A liberdade humana, não sendo omnipotência, pois o ser humano não pode fazer tudo o que quer realizar, nem é tão pouco arbitrariedade, pois há de responder perante a sua decisão, possibilita que a pessoa possa ser responsável.’ (Prefácio de D. Nuno Almeida, p. 18)

‘Para a logoterapia, o impulso primário da pessoa não é, como pensou Freud, a vontade de prazer; também não é a vontade de poder, como preconiza Adler, mas a vontade de sentido. Este sentido não se inventa, mas descobre-se: numa obra, num amor, numa tarefa a realizar. No fundo, cada um tem de perguntar: o que é que a vida quer de mim? Em última instância, viver significa assumir a responsabilidade de encontrar a resposta correta para os problemas que a vida coloca e cumprir as tarefas que ela continuamente aponta a cada pessoa.’ (Prefácio de D. Nuno Almeida, p. 19)

 

‘[…] a felicidade não deve, não pode nem consegue nunca ser um objetivo, mas apenas um resultado; resultado precisamente do cumprimento (Erfüllung) daquilo que no poema de Tagore se chama dever e que nós, mais à frente, iremos esforçar-nos por definir melhor. De qualquer forma, toda a busca da felicidade da pessoa humana está condenada a falhar na medida em que a felicidade só lhe pode cair no colo, deixando-se jamais «caçar». Foi Kierkgaard que expressou a sábia parábola: a porta para a felicidade abre «para fora», isto é, ela fecha-se justamente para aquele que, por assim dizer, a tenta forçar para dentro.’ (Pp. 33-34)

‘[…] impunha-se efetuar aquilo a que, com Kant, se poderia chamar uma viragem «copernicana», uma viragem de pensamento de 180 graus, de acordo com a qual a pergunta não pode ser: «O que posso eu ainda esperar da vida?», mas sim: «O que espera a vida de mim?» Que tarefa na vida espera por mim?’ (P. 34)

‘Viver em si nada mais é do que ser interrogado (Befragt-sein), todo o nosso ser nada mais é do que uma resposta – uma assunção da responsabilidade da vida.’ (P. 34)

‘[] costumo habitualmente contar a história que apareceu numa breve notícia de jornal: um negro condenado à prisão perpétua foi deportado para a Ilha do Diabo. Quando o navio, o Leviatã, se encontrava no alto mar deflagrou um incêndio. Naquela emergência, o prisioneiro foi libertado das suas correntes, tendo participado na operação de salvamento. Este senhor salvou a vida de 10 pessoas. Mais tarde, em consequência disso, o prisioneiro foi amnistiado. Eu pergunto: se se tivesse, antes do embarque, isto é, no cais de Marselha, perguntado a este prisioneiro se a sua vida futura poderia ainda ter algum sentido – ele teria obviamente abanado a cabeça: havia alguma coisa que estivesse ainda à espera dele? Mas nenhum de nós sabe o que está ainda à nossa espera, que grande momento, que oportunidade única para um ato sem igual está ainda à sua espera – tal como o salvamento de 10 pessoas estava à espera desse negro do navio Leviatã.’ (p. 35)

‘Damos sentido à vida através de ações, mas também através do amor – e finalmente através do sofrimento. Pois é a forma como uma pessoa lida com a limitação das suas possibilidades de vida, enquanto elas afetam o seu agir e a sua capacidade de amar, a forma como se comporta com esta limitação – a forma como assume o seu sofrimento sob tal limitação, em tudo isto ela é ainda capaz de realizar valores.

Portanto, é na forma como lidamos com as dificuldades que se vê quem somos, e é também isso que nos torna capazes de viver uma vida plena de sentido.’ (Pp. 39-40)

‘O destino, portanto, aquilo que nos acontece, pode, […], de qualquer forma, ser modelado – duma ou doutra maneira. «Não existe nenhuma situação que se não deixe enobrecer, seja através da realização seja através da resiliência», diz Goethe. Ou nós alteramos o destino – se for possível – ou então aceitamo-lo de boa vontade – se for necessário. Interiormente, em ambos os casos podemos crescer através da infelicidade. E agora compreendemos também o que o poeta alemão Hölderlin quer dizer quando escreve: «Se eu piso a minha infelicidade, fico mais alto.».’ (p. 40)

‘[Esta é] a grande realidade fundamental do que é pessoa humana – a pessoa humana não é outra coisa senão: ser consciente (Bewusst-Sein) e ser responsável (Verantwortlich-Sein)!

Mas se a vida, tendo em conta a possibilidade, tem sempre sentido, se, portanto, depende unicamente de nós quanto à vida ser cumprida a cada momento com este possível sentido – que está em permanente mudança -, se é da nossa inteira responsabilidade e depende da nossa decisão a concretização deste sentido, então sabemos também com certeza o seguinte: há uma coisa seguramente sem sentido, que não tem sentido nenhum, que é deitar fora a vida. O suicídio não é, por conseguinte, de forma alguma uma resposta a uma qualquer pergunta; o suicídio nunca será capaz de resolver algum problema.’ (Pp. 42-43)

‘[…] o suicida infringe as regras do jogo da vida; estas regras do jogo não exigem de nós que vençamos a todo o custo – porém, elas exigem de nós que em nenhum caso desistamos da luta.’ (p. 44)

‘[…] o facto e apenas o facto de sermos mortais, de a nossa vida ter fim, de o nosso tempo ser limitado e as nossas possibilidades serem limitadas, faz com que pareça ter sentido realizar qualquer coisa, aproveitar uma possibilidade e concretizá-la, realizá-la, aproveitar o tempo e preenchê-lo. A morte representa aqui uma compulsão. É justamente sobre o pano de fundo da morte que o nosso ser constitui, pois, um ser responsável.’ (p. 44)

‘A unicidade só pode ter valor quando ela não constitui uma unicidade para si mesma, mas sim uma unicidade para a comunidade humana. O simples facto de que todo o indivíduo possui impressões digitais «únicas» nas polpas dos dedos tem quando muito relevância para os criminologistas, para a investigação criminal ou para descobrir um criminoso; mas esta «individualidade» de cada indivíduo não faz dele, sem mais nem menos, uma «personalidade», isto é, uma pessoa humana que na sua unicidade tem valor para a comunidade.’ (p. 49)

‘[…] a vida em si significa ser interrogada, significa responder – cada um responsabilizar-se pela sua existência. A vida assim já não surge como uma realidade (Gegebenheit), mas sim uma realidade incumbida (Aufgegebenheit) – é em cada momento uma tarefa.’ (p. 50)

‘O ponto de vista que se nos oferece pode expressar-se acertadamente com as palavras de Hebbel: «A vida não é alguma coisa – ela é uma oportunidade para alguma coisa!».’ (p. 51)

‘Uma das conclusões a que quisemos chegar na nossa primeira conversa é a seguinte: se a vida tem sentido – então o sofrimento também tem de ter sentido.’ (p. 55)

‘A doença faz parte do sofrimento. Dizemos «faz parte»; pois «o sofrimento» e a «doença» não são a mesma coisa. A pessoa humana pode sofrer sem estar doente; e pode estar doente sem sofrer. O sofrimento é de tal forma um assunto humano, pertencendo-lhe de certo modo como tal, que, em determinadas circunstâncias, justamente o não sofrer pode ser uma doença. Vemos isso sobretudo no caso das doenças que qualificamos de doenças mentais que são nada menos que doenças ligadas à mente.’ (p. 55)

‘[…] a realização de sentido é possível em três direções principais: a pessoa humana é capaz de atribuir sentido à sua existência, em primeiro lugar, fazendo algo, agindo, criando algo – concretizando uma obra; em segundo lugar, experienciando algo – a natureza, a arte, amando pessoas; e, em terceiro lugar, finalmente, pode atribuir sentido à vida, encontrar sentido nela também onde nem na primeira nem na segunda direção lhe é dada essa possibilidade – a saber, justamente quanto toma posição sobre a limitação inalterável, fatídica, inescapável e inevitável das suas possibilidades, a forma como lida com ela, como se comporta com ela, como aceita este destino. No decurso do tempo, a pessoa tem de estar preparada para alterar sempre a direção desta realização de sentido, muitas vezes abruptamente, tendo em conta as «exigências específicas da hora».’ (Pp. 60-61)

‘[Um designer gráfico publicitário, com doença oncológica em fase terminal] sabia perfeitamente que os seus dias, em última análise, as suas horas, estavam contados. Lembro-me nitidamente da visita que tive de fazer como médico de serviço naquele hospital na última tarde da sua vida. Quando passei pela cama dele, fez-me sinal para eu me aproximar. Falando com esforço, deu-me a entender que, durante a visita do chefe de serviço, tinha percebido que o Prof. G dera ordens para, nas derradeiras horas, lhe ser administrada uma injeção de morfina a fim de aliviar os estertores da morte iminentes. Continuou dizendo que, como tinha motivos para acreditar que na noite seguinte «chegaria a sua hora», me pedia que lhe desse a injeção já, durante a visita – de modo que a enfermeira do turno da noite não tivesse de incomodar o meu sono de propósito por causa dele… Nas últimas horas da sua vida, este homem estava ainda preocupado em poupar os outros, em vez de os «incomodar»! […] Hão de me compreender se eu agora afirmar: nenhum cartaz de publicidade esplêndido nem o melhor e mais belo do mundo que este nosso doente tivesse conseguido fazer ainda durante a plena atividade profissional equivaleria como realização a esta singela realização humana que se viu no comportamento descrito relativo às suas últimas horas.’ (Pp. 62-63)

‘[…] Rilke exige de toda a pessoa humana ou desejou para toda a pessoa humana: «poder morrer a sua morte!» Dito doutra forma, integrar também a morte com sentido no todo da vida, mais ainda, realizar o sentido da vida até na própria morte.’ (Pp. 64-65)

‘Se após tudo isso se comprovou que até a vida com doença, ou melhor, a vida condenada à morte não representa de modo algum uma vida sem sentido, então agora temos de nos virar para a questão de saber com que direito se pôde alguma vez afirmar que o homem doente ou um homem que sofre de doença terminal era um homem sem valor, sendo a sua vida «uma vida indigna de ser vivida». Queremos aqui pôr de lado todo o tipo de valor no sentido de «utilidade», que até as vidas de pessoas doentes, aliás precisamente as suas vidas, poderiam ter, na medida em que podem contribuir para a descoberta de novas doenças ou o desenvolvimento de novos tratamentos; […]

Se, portanto, se levanta a questão do simples valor utilitário da vida doente para a sociedade humana e para o progresso científico, então esta questão revela já um ponto de vista inumano (un-menschlich) e, por conseguinte, também um ponto de vista não médico (un-ärtslich), um ponto de vista de um radical coisificação e degradação do ser humano, que recusamos adotar por uma questão de princípio. Nem sequer o doente psíquico «é» para nós uma doença, mas sim em primeiro lugar uma pessoa humana, que «tem» uma doença. E como esta pessoa humana pode ser humana, ainda que esteja tão doente, como pode ser humana não apenas apesar da e na sua doença, mas também na sua atitude face à doença.’ (Pp. 70-71)

‘Temos de nos questionar sobre o seguinte: suponhamos que de facto éramos de tal forma omniscientes, como seria aliás necessário, ao ponto de podermos falar com absoluta segurança da incurabilidade não apenas momentânea, mas também duradoura: quem, mesmo nesse caso, dá ao médico o direito de matar? Estará alguma vez o médico como tal designado para isso pela sociedade humana? Não terá ele antes a tarefa de salvar, onde puder, ajudar, onde puder, e tratar quando não for já possível curar? […] O médico enquanto médico não é com certeza um juiz sobre o ser e o não ser dos doentes que lhe são confiados ou mesmo dos que confiam nele. Por isso, não lhe assiste de antemão o direito de – e jamais deve arrogar-se possuir esse direito – formar um juízo sobre o suposto valor da vida, ou a falta dele, de doentes supostamente ou de facto incuráveis.

Imagine-se onde iríamos parar se a este «direito» (que não tem de facto) se desse força de lei (ainda que fosse apenas uma lei não escrita). Digo-lhes o seguinte: a confiança dos doentes e dos seus familiares na classe médica ficaria destruída duma vez por todas! Pois ninguém saberia ao certo se o médico se aproxima dele como alguém que presta cuidados e alguém que cura – ou já como juiz ou algoz.’ (Pp. 74-75)

‘[Há quem interrogue] se o Estado não teria o dever de conceder ao médico o direito de aniquilar indivíduos supérfluos e inúteis. […]

Pois bem, quanto ao «consumo» de bens como os géneros alimentícios, as camas dos hospitais, o trabalho realizado pelos médicos e enfermeiros, etc., qualquer discussão deste argumento torna-se supérflua se tivermos em conta o seguinte: um Estado que economicamente está numa situação tão miserável que tem necessidade de eliminar uma percentagem relativamente reduzida dos seus doentes incuráveis para assim poupar nos gastos referidos acima – um Estado destes não tem hipóteses nenhumas em termos económicos!

No que diz respeito ao outro lado da questão, isto é, o facto de que os doentes incuráveis já não são úteis para a comunidade humana, de que a assistência para eles é uma assistência «improdutiva», seria necessário lembrar que a utilidade para a comunidade não é nunca o único padrão que temos o direito de aplicar a um ser humano.’ (Pp. 75-76)

‘Quando nós, na nossa primeira conferência, falávamos de que a unicidade e a singularidade de toda a pessoa humana constituía o valor da sua pessoa, que este valor tinha de estar relacionado com uma comunidade, «para a qual» esta unicidade tinha uma importância valiosa, então estávamos todos a pensar especialmente em termos de serviço prestado à comunidade; mas agora verifica-se que existe ainda um segundo caminho em que a pessoa humana como um ser único e singular se realça nesta sua unicidade, em que, portanto, o valor da sua personalidade se concretiza e, nessa medida, o seu sentido da vida pessoal e concreto se realiza: é o caminho do amor – ou melhor, de ser amado. […] No caminho do amor é concedido à pessoa humana, «pela via da graça», aquilo por que doutra forma tem de se esforçar, que tem de obter através da ação: a realização tanto da sua unicidade como da sua singularidade. Pois, a essência do amor consiste em fazer com que a pessoa amada se nos torne visível justamente na sua unicidade e singularidade.’ (Pp. 76-77)

‘[…] defendo o ponto de vista de que no caso duma tentativa de suicídio, o médico tem não só o direito como a obrigação de intervir medicamente, e isto significa: a obrigação de salvar e de ajudar, tanto quanto lhe for possível. […] o que eu contrapus aos críticos morais do meu método […] foi o seguinte: não sou eu quem pretende desempenhar o papel do destino, mas sim é o médico que tenta desempenhar o papel do destino, que deixa o suicida entregue ao seu destino, que deixa o destino «em roda livre» e, onde talvez pudesse intervir, ajudando, cruza dos braços. […] uma vez que foi colocado nas mãos do médico, então este deve agir como médico e não cair nos braços deste destino, deste destino «misericordioso».’ (Pp. 80-81)

‘Espero agora, através da discussão de todos os argumentos aparentes que poderiam falar em favor da eutanásia, ter-lhes mostrado como é incondicional o sentido da existência e, consequentemente, como deve ser também inabalável a nossa crença no sentido da vida.

[…] Relembrando, grosso modo, o nosso resultado principal, fizemos a constatação básica de que a vida em si significa que a questionemos e que, deste modo, não de pode, justificadamente, perguntar pelo seu sentido, pois este sentido consiste em dar uma resposta. As respostas, como dizíamos, que temos de dar às perguntas concretas da vida já não podem ser dadas em palavras, mas sim em atos, mais ainda: na nossa vivência, em todo o nosso ser! As questões «da» vida só podem ser respondidas, queríamos nós dizer, sendo «cada um de nós» responsável pela própria vida.’ (p. 81)

‘[…] o deixar-se cair psiquicamente por falta de suporte espiritual, sobretudo pela perda de um suporte no futuro, conduz também à decadência física.’ (p. 97)

‘Recordando-me das palavras de Nietzsche, que uma vez disse: «Quem tiver um porquê para viver, suporta quase qualquer como».’ (P. 97)

‘Era necessário morrermos a nossa morte – e não, por exemplo, a morte que as SS nos tinham imposto! Somo responsáveis tanto por esta tarefa como pela tarefa de viver. Responsáveis – perante quem, perante que instância? Pois então, quem poderia responder a esta pergunta pelo outro? Não terá cada um de nós de decidir por si próprio sobre essa questão? Que importa se, por exemplo, uma pessoa na barraca se sentia responsável perante a sua consciência e uma outra perante Deus e uma terceira perante uma pessoa humana, que estava naquele momento distante? Em todo o caso, cada um deles sabia que existia, de alguma forma, algures, alguém que olhava, invisível, por ele, alguém que exigia dele «que ele se mostrasse digno do seu sofrimento» - como Dostoiévski disse uma vez – e que esperava dele que ele «morresse a sua morte».’ (Pp. 98-99)

‘[…] em cada momento sou responsável pelo próximo; […] cada decisão, a mais pequena como a maior, é uma decisão «para a eternidade»; […] em cada momento realizo uma possibilidade, a possibilidade de um momento, ou perco-a. Cada momento alberga milhares de possibilidades – e eu posso escolher apenas uma para a realizar; ao tê-la, por assim dizer condenei todas as outras ao nunca-ser – e também isto; «para toda a eternidade»! Mas é maravilhoso: saber que o futuro, o meu próprio futuro e, conjuntamente com ele, o futuro das coisas, das pessoas à minha volta – dependente em cada momento da minha decisão. O que eu realizo através dela, o que eu «coloco no mundo», como dissemos – salvo-o para dentro da realidade e assim protejo-o da transitoriedade.’ (p. 107)

‘O problema é que em média as pessoas são demasiado indolentes para assumir a sua responsabilidade. E é aqui que começa a educação para a responsabilidade: a carga é pesada; é difícil não só reconhecer a responsabilidade como ser partidário dela. Dizer-lhe sim a ela e à vida.’ (p. 107)

‘Dizer sim à vida tem não só sentido sob qualquer circunstância – a própria vida tem-no -, mas sim, é possível sob qualquer circunstância.’ (p. 107)

**(Título retirado de Daniel Faria, Dos líquidos, Porto, Edição Fundação Manuel Leão, 2000, p. 137)

*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Ensaios de liberdade', 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'

domingo, abril 07, 2024

Caminhada pela vida | Contra rótulos e preconceitos, os factos. Simplesmente, os factos


 Artigo originalmente publicado em https://diocese-aveiro.pt/cultura/

No dia 6 de abril, sábado, o país mobilizou-se para afirmar que a vida humana é portadora de uma dignidade (inerente) que a torna merecedora de proteção.

Com honrosas exceções, em que merecem destaque a Sic, a Renascença, a Ecclesia e a imprensa de âmbito regional (sempre atenta à autêntica realidade e não preocupada em ficcionar sobre ela…), esta manifestação, que reuniu alguns milhares de pessoas em doze cidades do país (que inclui ilhas!), foi brindada com o silêncio da imprensa de âmbito nacional.

Como tem ocorrido, aliás, ao longo dos tempos.

Infelizmente, a causa da vida parece não ter ‘boa imprensa’. Nunca a teve, mas estou certo de que terá bom tempo, o bom tempo do lugar certo da história da humanização.

E quando merece algum lugar de referência, é, com frequência, como forma de se lhe atirar com os habituais epítetos preconceituosos que sossegam os ânimos dos potencialmente mobilizáveis e pretendem isolar os mobilizados.

Entre esses epítetos e preconceitos, contam-se, como mais frequentes, os de que são os crentes que estão a tentar impor a sua vontade aos demais ou que se trata de movimentos que visam assegurar um retrocesso em ‘conquistas’.

Antes de avançar para os factos, gostaria de enfrentar estes dois ‘brindes’ com que costumamos ser rotulados.

Como crente que sou, agradeço o reconhecimento de que a opção crente está do lado dos que protegem a vida humana, em particular quando se encontra mais frágil e mais dependente, mas o meu agradecimento tem de ser honesto. Como bem reconhecia Norberto Bobbio, um laico, socialista e descrente, reconhecido político e pensador italiano, ‘não se pode (nem deve) entregar aos crentes o monopólio da defesa da vida humana.’ Ele mesmo sabia que esta não era uma questão de natureza religiosa, mas de ordem humana, humanitária. De qualquer modo, como crente, não posso senão sentir-me honrado com aquela que pensam ser uma ‘acusação’ ofensiva. Agradeço-a, mas a honestidade obriga-me a colocá-la onde deve estar. As motivações religiosas somam motivos, mas não precisamos da fé para reconhecer que temos o dever de cuidar uns dos outros. É a base de uma sociedade solidária…

O outro epíteto é o de que a defesa da vida humana contra as arbitrariedades da liberdade individualista seja um retrocesso.

Lamento defraudar os que se consideram progressistas por defenderem o aborto, o infanticídio, a eutanásia, etc. Daí já vimos e não queremos lá voltar. Ao longo da história, a tentação de desvalorizar a criança, o filho no útero, o doente, o idoso, foi omnipresente, mas as conquistas de humanidade levaram-nos a reconhecer que não era andar para a frente a sua legitimação, mas um autêntico regredir ao tempo em que nos abandonávamos, por sermos um empecilho no nomadismo. Hoje, já não estamos aí.

Como recordava o Cardeal Tolentino de Mendonça, no seu discurso de 10 de junho de 2020, e invocando ideia defendida pela antropóloga Margaret Mead, o primeiro sinal de humanidade foi um ‘fémur cicatrizado’, o primeiro sinal de que não abandonámos à sua sorte ou, melhor, à morte, aquele que partiu uma perna e não podia acompanhar-nos. Ficámos ao seu lado e ajudámo-lo a erguer-se…

Defender que é legítimo matar (um filho ainda precariamente desenvolvido ou um pai idoso e doente) não é um avanço. É um enorme retrocesso. Um enorme retrocesso!

Mas porquê?

 

Os factos

 

Facto 1

A morte é irreversível. As circunstâncias que envolvem a vida e o seu desenvolver-se são, por sua vez, reversíveis. É pouco lógico e pouco consistente legitimar um ato irreversível por circunstâncias que poderíamos mudar, porque são reversíveis. Poderemos ser mais ricos ou mais pobres, mais livres ou menos livres, mais dependentes ou mais autónomos, mais belos ou esteticamente menos dotados, mais robustos ou mais frágeis, mais sofredores ou mais saudáveis… Tudo isso é móvel e volúvel. A morte é que é irreversível. Ora, é por isto que os constituintes perceberam que a vida teria de ser inviolável. Não se lhe deveria poder tocar com a legitimação do seu abrupto e voluntário fim. Porque nenhuma circunstância é mais valiosa do que a vida aberta ao amanhã.

 

Facto 2

Um filho, desde o início, desde a fusão de um espermatozoide com um óvulo, passa a ser o fruto de dois: um pai e uma mãe. Deste modo, sabendo que, pela natureza das coisas, o filho só pode desenvolver-se no útero de um, esse filho não é posse desse que lhe permite desenvolver-se, não só pela dignidade inerente ao filho (é um ser irrepetível e único), mas também porque, enquanto gerado por dois, não pode ser direito de um só. A mãe é a primeira cuidadora, não a possuidora do filho, tal como o pai não é, nunca, o seu possuidor, mas o seu outro protetor e cuidador. Ao pressuposto destas considerações dá-se o nome de dignidade. Dignidade não é uma mera perceção de se ser digno; é anterior à própria perceção. É essa condição que deve despertar a perceção.

 

Facto 3

O filho é distinto da mãe, pelo que é um sofisma motivador de reprovação em qualquer cadeira de lógica de primeiro ano pretender confundir o filho com o corpo da mãe, o que é facilmente demonstrável, por exemplo, nos casos em que o tipo de sangue do filho é distinto do tipo de sangue da mãe. O sofisma é ainda assente num outro erro de lógica que é presumir que, se fosse corpo da mãe, então poderia fazer-se o que se entendesse, conclusão que a simples obrigação, por exemplo, de utilizar cinto de segurança deita por terra. O legislador sabe bem que a obrigação de utilização do cinto é estabelecida, não para proteger outros, mas a si próprio, pelo que se demonstra que há um pressuposto, no ordenamento jurídico, de que temos o dever de cuidar de nós mesmos, não sendo legítimo o absoluto princípio de que a minha autonomia poderá legitimar tudo o que eu pretenda fazer-me a mim mesmo.

 

Facto 4

A eutanásia não é um meio de acabar com o sofrimento.

Para isso, existem as terapêuticas várias, entre as quais merecerão destaque os cuidados paliativos.

A eutanásia mata o sofredor, sem incidir sobre o sofrimento. Mata quem sofre, acabando, entre outras coisas, com o seu sofrimento, mas também com o seu futuro e levando consigo todos os que o rodeiam. Como testemunhava um filho de um suicida, em estudo recolhido por Alexandrina Meleiro, na Revista Brasileira de Medicina (Set 2013), ‘quando uma pessoa se mata, não se mata só a si mesma. Mata todos ao seu redor. Mata todos os que a amam.’ A eutanásia não é um suicídio, antes um ato realizado por outrem sobre alguém a pretexto de estar em fim de vida ou em sofrimento, mas é, muitas vezes, pretensamente legitimada como se de um suicídio se tratasse.

Não o é e comporta custos para a confiança nas relações, mas mesmo que fosse um suicídio, seria contraditório que a sociedade defendesse que o suicídio é um mal a combater e, em total contradição, legitimasse a prática da eutanásia.

 

Facto 5

A compaixão não legitima as práticas de morte. Utilizá-la para legitimar o aborto ou a eutanásia é cobardia e um sofisma a denunciar.

A compaixão que pretende suportar a eutanásia e o aborto é um modo fácil de abandono e de deixar de se preocupar com o outro. É um modo assético de encarar o fim da vida, com os seus desafios e exigências. Devemos cuidar. É isso que faz uma sociedade humanizada.

Eutanasiar é próprio das sociedades distópicas como as que Aldous Huxley descreve no seu ‘Admirável mundo novo’, um mundo de humanos robotizados, amorfos e incapazes de enfrentar a condição frágil, próprio de se ser humano.

 

Facto 6

Os que pretendem legalizar estas práticas que tornam vulnerável o ser humano nas suas fases de maior dependência utilizam argumentos que manipulam a realidade e a contorcem até que diga o que querem que ela diga. Invocam, inclusive, os chamados valores europeus, como se a Europa tivesse como único e absoluto valor uma certa ideia de liberdade identificada com um ‘fazer tudo o que se quer’. A Europa tem na liberdade, bem certo, um valor fundamental, mas não absoluto. Anterior ao valor da liberdade está a inviolabilidade da dignidade humana que, como afirma a Declaração Universal dos Direitos do Homem, no seu preâmbulo, fundamenta a liberdade. Sem o reconhecimento da dignidade inerente a todos os humanos (todos, mesmo!), não há liberdade, mas pura arbitrariedade dos mais fortes sobre os mais fracos. E isso não é um valor europeu…

 

Diante destes factos, para onde caminha o futuro?

Sabes, leitor... | 4 | Marca de água do livro de George Orwell, '1984'

 

Rubrica ‘Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página’** | Marca de água de livros que deixam marcas profundas
Parceria: Federação Portuguesa pela Vida e Comissão Diocesana da Cultura
O autor e a obra
George Orwell, 1984, Lisboa, Relógio D’Água, 2021.

George Orwell é o pseudónimo de Eric Blair, nascido em junho de 1903, na Índia Britânica. ‘1984’ representa, com ‘o triunfo dos porcos’, o seu principal legado para a história da literatura, ainda que não seja de descurar o seu contributo enquanto ensaísta. Nos seus ensaios, reflete-se a sua visão crítica da sociedade, sempre bem documentada e sustentada em experiência vivida. Preparava-se, com a diligência de um jornalista comprometido, para cada texto, como ocorreu com o seu ‘como morrem os pobres’, que nasce da sua experiência de internamento hospitalar, por motivo de pneumonia. Assim também o seu ‘na penúria em Paris e em Londres’, publicado em 1933, sob o pseudónimo que o eternizou, emergiu do seu conhecimento profundo da realidade dos pobres e vagabundos.

Lutou na guerra civil de Espanha, ao lado dos republicanos, vertendo essa sua experiência para Homenagem à Catalunha (1938).

Tendo uma visão socialista da realidade, não deixou de se distanciar das experiências do socialismo real, opondo-se, através das suas mais conhecidas obras, ‘Triunfo dos porcos’ (1945) e ‘1984’ (1948), à tentação totalitarista.

É dos mais finos críticos das ditaduras totalitárias.

Marcas de água  (o que fica depois de se deixar o livro)

George Orwell mostra, neste livro, uma dupla liberdade: não só a que se revela no que diz, mas principalmente a que se revela por dizê-lo. Vale a pena lembrar que Orwell (Eric Blair, aliás…) escreve esta obra em 1948. A Rússia saíra vencedora da Guerra e a Europa tornara-se russófila. Ela tinha, afinal, derrotado o inimigo comum, que era o nazismo! Ter a coragem de pôr em causa um regime de que pouco se sabia e que, afinal, derrotara o inimigo que ensombrara o mundo, era ‘virtude’ que lhe custaria sérias adversidades.

‘1984’ é um livro inquietante. Pelo que diz e pelo que deixa subentendido. E, se o que anuncia se tem confirmado, esperemos, vividamente, que não se confirme o que nos reserva a última linha do livro: a entrada em vigor da novilíngua foi agendada pelo Partido para 2050…

Ao livro ‘1984’, cujo protagonista (e vítima) é Winston, devemos algumas das expressões que se incrustaram, como lapas, na linguagem crítica das tentações totalitárias. Ideias e termos como ‘polícia do pensamento’, ‘ministério da verdade’, ‘big brother’, ‘novilíngua’, ‘duplipensar’, ‘patofalar’, ‘pensacrime’ (crime do pensamento), ou o reconhecimento de que ‘quem controla o passado controla o futuro’ perpassam esta obra, surpreendendo a incisividade com que se retrata uma realidade feita, toda ela, de ilusão e manipulação.

Lemos, hoje, ‘1984’ com uma surpresa inédita, pois descobrimos, em cada página, já não o retrato de uma realidade política que julgávamos ultrapassada, mas com a perplexidade de quem vislumbra, ao espelho, as manchas do próprio rosto. Num tempo da cultura woke, manipuladora, revisionista e negadora da liberdade de pensar, a leitura de ‘1984’ faz doer a alma. As personagens de 1984 poderiam ser substituídas pelos nomes de todas as vítimas contemporâneas da ousadia de pensar por si, vítimas de processos de ‘remissão da verdade’, transformadas em ‘impessoas’, desaparecidas para sempre do convívio dos vivos, por terem ousado pensar por si.

‘1984’ é um livro de génio e de um génio que alertou e continua a alertar para a vulnerabilidade da verdade e para como, manipulando as massas, através da criação de inimigos (virtuais e inexistentes, mas omnipresentes), e promovendo uma cultura do medo, se pode perpetuar a posse do poder, distraindo e alienando.

A verdade, como nos leva a concluir, é um fruto vulnerável, nunca imunizado à manipulação de quem comanda as leituras do passado.

1984 é um alerta e devia ser obra de leitura obrigatória, antecedida da de ‘o triunfo dos porcos’. 1984 podia bem ser ‘2023’ ou ‘2024’ ou qualquer outra data de hoje em que se pretende sumir a verdade às manipulações da leitura da verdade, que chegam a fundir, na impessoalidade, indivíduos que, por se pretender esquecer e a obra que deixaram, se considera nunca terem existido. Nunca existiram, mesmo, diria o ‘Grande Irmão’.

Medo, omnivisão do grande irmão, manipulação são os condimentos da ditadura. E que maior ditadura do que a que se faz de poderes cuja sede é impossível determinar?

Na mesma página que o autor (citações)

‘As pessoas tinham de viver – e viviam, por um hábito tornado instinto – no pressuposto de que todos os seus ruídos eram escutados e, exceto às escuras, todos os seus movimentos eram escrutinados.’ (p. 18)

‘Escrever ABAIXO O GRANDE IRMÃO ou abster-se de o escrever não fazia qualquer diferença. Prosseguir com o diário ou não prosseguir, não fazia qualquer diferença. A Polícia do Pensamento iria apanhá-lo na mesma. Havia cometido – e tê-lo-ia feito mesmo que não escrevesse nada no papel – o delito fundamental, que continha em si todos os outros. O pensacrime, como lhe chamavam.’ (p. 32)

‘A pessoa simplesmente desaparecia, sempre durante a noite. O seu nome era eliminado dos registos, tudo o que essa pessoa alguma vez fizera era apagado, toda a sua existência era negada e depois esquecida. A pessoa era abolida, aniquilada: o ermo mais usado era vaporizada.’ (p. 32)

‘Era quase normal as pessoas com mais de trinta anos terem medo dos seus filhos. E com bons motivos, pois rara era a semana em que o Times não trouxesse a descrição de como um pequeno delator – ‘herói infantil’ era a expressão normalmente usada – ouvira às escondidas uma observação comprometedora e denunciara os pais à Polícia do Pensamento.’ (p. 37)

‘”Atenção. A vossa atenção, por favor! Acaba de nos chegar uma notícia sobre a frente do Malabar. As nossas forças no Sul da Índia alcançaram uma vitória gloriosa. Estou autorizado a dizer que a ação militar que estamos a noticiar pode ter contribuído para tornar mais próximo o final da guerra. Segue-se o flash informativo…”

Vêm aí más notícias, pensou Winston. E, de facto, após uma vívida descrição da aniquilação dum exército eurasiático, com prodigiosos números relativos a inimigos mortos e capturados, veio o anúncio de que a partir da semana seguinte a ração de chocolate seria reduzida de trinta para vinte gramas.’ (p. 38)

‘Em baixo, na rua, o vento sacudia dum lado para o outro o cartaz rasgado, com o que a palavra SOCING ia aparecendo e desaparecendo. Socing. Os princípios sagrados do Socing, Novilíngua, duplipensar, a alterabilidade do passado. Winston sentiu como se caminhasse nas florestas do fundo do mar, perdido num mundo monstruoso onde o monstro era ele próprio. Estava sozinho. O passado estava morto, o futuro era inimaginável. Que certeza tinha de ter do seu lado um único ser humano? E como podia saber se o domínio do Partido não iria durar para sempre?’ (p. 38)

‘[…] se toda a gente aceitava a mentira que o Partido impunha – uma vez que todos os registos a repetiam -, então a mentira passava à história e tornava-se verdade. “Quem controla o passado”, dizia o lema do Partido, “controla o futuro; quem controla o presente controla o passado.”’ (p. 46)

‘Esta era a grande subtileza: induzir conscientemente a inconsciência […]’ (p. 46)

‘Toda a história era um palimpsesto, raspado e reescrito tantas vezes quantas fosse necessário.’ (p. 51)

‘O camarada Ogilvy, que há uma hora não existia, era agora um facto. Winston pensou em como era curioso que se pudesse criar homens mortos, mas não vivos. O camarada Ogilvy, que nunca existira no presente, existia agora no passado, e, quando este ato de contrafação fosse esquecido, a existência dele seria tão autêntica, e documentalmente tão fundamentada, como as de Carlos Magno ou de Júlio César.’ (p. 58)

‘”Não percebes que todo o propósito da novilíngua é encurtar o alcance do pensamento? No final vamos tornar o pensacrime literalmente impossível, porque não haverá palavras para o exprimir.’ (p. 62)

‘A filosofia do Partido negava não só a validade da experiência, mas a própria existência da realidade externa. A maior heresia era o senso comum. […] O Partido dizia às pessoas para recusarem as evidências que lhes entravam pelos olhos e pelos ouvidos.’ (p. 89)

‘Muitas vezes estava disposta a aceitar os mitos oficiais simplesmente porque a diferença entre verdade e mentira não lhe parecia importante.’ (p. 157)

‘Um membro do Partido vive do nascimento até à morte sob o olhar da Polícia do Pensamento.’ (p. 210)

‘Pára-crime significa a faculdade de interromper abruptamente, como por instinto, qualquer início de pensamento perigoso.’ (p. 211)

‘A palavra-chave aqui é pretobranco. Tal como muitas palavras de novilíngua, esta encerra dois significados mutuamente contraditórios. Aplicada a um adversário, significa o insolente costume de afirmar que o preto é branco, contrariando a evidência dos factos. Aplicada a um membro do Partido, significa a leal disposição para dizer que o preto é branco quando assim o exige a disciplina partidária. Mas também significa a capacidade de acreditar que o preto é branco, e, mais até, de saber que o preto é branco e de esquecer que alguma vez se acreditou no contrário. Isso exige uma alteração permanente do passado, tornada possível pelo sistema de pensamento, que realmente abrange tudo o resto, conhecido em novilíngua como duplipensar.’ (p. 211)

‘O Ministério da Paz ocupa-se da guerra, o da Verdade ocupa-se da mentira, o do Amor encarrega-se da tortura, e o da Fartura lida com a fome.’ (p. 215)

‘O que quer que o Partido considere ser a verdade é a verdade.’ (p. 248)

‘Cortámos as ligações entre pais e filhos, e entre um homem e outro, e entre os homens e as mulheres. Já ninguém se atreve a confiar na sua mulher, nos seus filhos, nos seus amigos. Mas no futuro não haverá esposas nem amigos. As crianças serão tiradas às mães à nascença, tal como se tiram os ovos às galinhas.’ (p. 265)

‘Fora principalmente para dar tempo a esse trabalho preliminar de tradução que a adoção definitiva da novilíngua fora fixada para uma data tão longínqua como 2050.’ (p. 307 – última frase do livro).

**(Título retirado de Daniel Faria, Dos líquidos, Porto, Edição Fundação Manuel Leão, 2000, p. 137)

*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Ensaios de liberdade', 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'
 

sexta-feira, março 15, 2024

'Regresso a Ítaca no sonho do Éden' | De Ícaro a Pelágio: asas de cera que elevam o orgulho humano

                   Rubrica 'Regresso a Ítaca no sonho do Éden’

(Artigos publicados na revista Mundo Rural - Acção Católica Rural)

 

‘Regresso a Ítaca no sonho do Éden’ tem-nos levado, pela mão de Ulisses que regressa a casa, em Ítaca, depois de dez anos da guerra de Troia, a estabelecer pontes ou identificar abismos entre aqueles que são dois dos mais robustos pilares da cultura ocidental: a antiguidade grega e romana e a cultura de matriz cristã.

Gregos e cristãos unem-se no reconhecimento dos riscos e perigos do orgulho humano, ainda que a apreciação desse vício não coincida totalmente entre as duas matrizes.

Voemos com Ícaro, para a leitura da apreciação grega, e comparemo-la com o que nos chega da história de Pelágio e do seu polémico confronto com Agostinho de Hipona (o grande S. Agostinho).

Conta-nos Pierre Grimal, no seu ‘dicionário da mitologia grega e romana’[1], que Ícaro é filho de Dédalo (aliás, o mito é sempre contado como sendo de ‘Dédalo e Ícaro’) e de Náucrate. Pai e filho foram encarcerados, por Minos, por vingança, no mesmo labirinto do qual tinham ensinado Ariadne a sair (‘seguir o fio de Ariadne’ é expressão que vem deste mito) e permitido que Teseu entrasse e saísse, matando o Minotauro. Ali presos, mas dados os muitos engenhos de Dédalo, criaram umas asas de cera com que se tornou possível escaparem. Antes, porém, de se elevarem nos céus, Dédalo recomendou ao filho, Ícaro, que se mantivesse num justo equilíbrio: nem demasiado afastado nem demasiado próximo do sol. O orgulho e a arrogância de Ícaro fizeram-no, porém, entusiasmar-se, aproximando-se demasiado do sol. Derreteram as asas e Ícaro despenhou-se, desamparado, no mar que circunda a ilha de Samos. (O mito será, provavelmente, uma etiologia para o nome desse mar, Icário, género também frequente nos próprios textos bíblicos que, pela via de uma história, nos ‘explicam’ a origem de um facto, de um nome, de um modo de ser…)

Demos um salto no tempo em relação à época que entregou à humanidade esta história. Avancemos para finais do século IV e inícios do século V depois de Cristo, ao tempo de Santo Agostinho. Por essa altura, um monge nascido, em 354, na Grã-Bretanha, Pelágio, via difundirem-se, com grande projeção, as suas ideias. (O nome ‘Pelágio’ cria uma simbólica coincidência com o mito de Dédalo e Ícaro, pois ‘pélagos’, em grego, significa ‘mar alto’, ‘um mar determinado’, mas, também, figurativamente, ‘perigo’[2]). A sua ideia fundamental era a de que a natureza humana não era tocada pelo pecado original, sendo capaz, por si própria, de evitar o pecado, pelo que, ‘sem necessidade de nenhum auxílio sobrenatural, evitar todos os pecados e praticar todas as obras boas’[3], não sendo, por isso, necessária a salvação oferecida por Deus, através de Jesus Cristo.

A heresia pelagiana difundiu-se com grande rapidez, dado o seu poder sedutor (ainda hoje, o tique pelagianista continua a atrair, afirmando-se como um otimismo antropológico que parece pensar o ser humano como isento de mácula e atribuindo à sua liberdade a fonte de toda a moralidade…), tendo, mesmo, atraído, num primeiro momento, a adesão do Papa Zózimo que, porém, por intervenção de S. Agostinho, vem a rever a sua posição, na célebre carta Tractoria (418). As teses pelagianas são sucessivamente condenadas no sínodo de Cartago (411), no de Diáspole (415), por Inocêncio I (em 417) e, como dissemos, pelo Papa Zózimo, na carta Tractoria. A condenação definitiva das teses pelagianas ocorre em abril de 418, em Jerusalém. O que ficava em causa, com o pelagianismo, saltava à vista. Se o homem, por si só, consegue obter a sua salvação, que lugar caberia a Deus? E onde ficaria a missão de Jesus Cristo: não seria mais do que um exemplo, escapando-lhe o poder redentor?

A tese fundamental de Pelágio expressava-se de forma particularmente acutilante neste aforismo recolhido de uma das suas cartas: ‘Está em meu pode fazer o bem, sou eu a gerir a minha liberdade.’ (Epist. 216,5)

Ao lê-la, os nossos ouvidos parecem reconhecer os ditames do paradigma contemporâneo. O sol nunca será demasiado próximo para os Ícaros de hoje.

Dédalo continua, porém, a sussurrar-lhe que não ouse elevar-se demasiado, porque são de cera as suas asas.

Mas o homem continua a elevar-se até não ser mais do que um ponto negro no horizonte… Mas convencido de que só a si cabe salvar-se.

O cristianismo, porém, continua a recordar-lhe que a condição humana, na história, está marcada pela debilidade e pela fragilidade, enquanto criatura, debilidade a que Paul Ricoeur, no seu ‘o homem falível’[4], chama ‘falha existencial’. A perda desta consciência é e tem sido causa de arrogância que faz do Homem ‘homini lupus’[5] (homem lobo do homem).

Os voos com asas de cera são, assim, muito mais do que metáforas de um desejo: são a tentação permanente de se arvorar em Deus, abandonando a condição de criatura.

Distingue a leitura grega da cristã a definição da ‘missão’ de Deus perante esta arrogância. Os gregos projetavam nos próprios deuses o orgulho que assomava à alma dos humanos, eternizando a arrogância; o cristianismo liberta o homem, confinando ao ‘território’ da história o poder do orgulho. Na morte de Jesus Cristo, o Humilde por antonomásia, o orgulho é derrotado e fica o reconhecimento da condição ‘indigente’ de quem ama: quem ama não é orgulhoso, não é arrogante – é todo ele abertura ao outro; é todo ele acolhimento do outro.

Mesmo sendo altamente sedutora a tese pelagiana, ela não pode vencer: a afirmação do ‘pecado original’, clarificada com a polémica entre Agostinho e Pelágio, permanece urgente como garante do reconhecimento do limite intrínseco à condição criatural, não porque seja desejada por Deus (que, pelo contrário, dela a redime), mas porque, como reconhece Andrés Torres Queiruga, não poderia ser de outro modo, dado que, na história, o limite é intrínseco[6]. Negar o limite, presumindo-se a ‘ilimitude’ de cada criatura, é fonte de males que vitimizam o próprio humano, desumanizando-o…

Regressa, Ícaro, ao chão de que nasceste, porque és Adão![7]



[1] Sigo a edição portuguesa da Antígona Editores, publicada em 2020.

[2] Isidro Pereira, Dicionário de grego-português e português-grego, Braga, Livraria A.I., 19908.

[3] Cfr. Roque Frangiotti, História das heresias: conflitos ideológicos dentro do cristianismo, São Paulo, Paulus, 1995, p. 114.

[4] Paul Ricoeur, o homem falível, Lisboa, Edições 70, 2019.

[5] Thomas Hobbes, Leviatã.

[6] Andrés Torres Queiruga, Recuperar a salvação: por uma interpretação libertadora da experiência cristã, São Paulo, Paulus, 1999, pp. 97 ss.

[7] ‘O pecado de Adão torna-se ao mesmo tempo a figura do drama humano na sua generalidade e a sua representação simbólica do acontecimento original que é seu ponto de partida.’ (Bernard Sesboüé, História dos dogmas, Tomo 2, O homem e sua salvação, S. Paulo, Edições Loyola, 2003, p. 227)

quinta-feira, março 07, 2024

Sabes, leitor... | 3 | Marca de água do livro de Viktor Frankl, 'A voz que grita por um sentido'

 

Rubrica ‘Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página’** | Marca de água de livros que deixam marcas profundas
Parceria: Federação Portuguesa pela Vida e Comissão Diocesana da Cultura
O autor e a obra
Viktor Frankl, A voz que grita por um sentido: como redescobrir a dimensão humanista da psicoterapia, Alfragide, Lua de papel, 2021.

Sou um admirador de Viktor Frankl (1905-1997 – neurologista nascido na Áustria) desde os meus tempos de faculdade, altura em que um amigo missionário de Barcelona, Francisco Xavier, me falou do seu pensamento e das suas intuições fundamentais. Estávamos em 1992. Durante 7 anos, procurei, em vão, uma tradução de algum dos seus livros até que, em 1999, encontrei, na livraria Victor Jara, em Salamanca, o seu ‘o homem em busca de sentido’.

(Uns amigos enviaram-me de Curitiba, pouco tempo depois, outra edição da mesma obra, desta feita, brasileira… É assim a vida de quem se deleita com a leitura: ‘contamina’ quem o envolve…).

Ler Viktor Frankl alterou o meu modo de compreender porque adoecíamos, mentalmente, interiormente. A sua intuição fundamental, que apresentarei nas ‘marcas de água’, começou a assomar-lhe ao pensamento ainda na década de 30, em que as taxas de suicídio cresciam entre os jovens universitários vienenses. O que fora uma intuição, nessa década, vem a confirmar-se, na década seguinte, quando a guerra e a perseguição nazi o levaram a passar por quatro campos de concentração, como ele mesmo refere neste livro que, agora, nos faz estar na mesma página, caríssimo leitor.

Viktor Frankl é autor de outros livros como ‘O homem em busca de sentido’, ‘Um sentido para a vida’, ‘Dizer sim à vida, apesar de tudo’ e é considerado o criador da terceira escola psicologia de Viena, após a psicanálise de Freud e a psicologia individual de Adler.

Marcas de água (o que fica, depois de se deixar o livro)

A intuição fundamental de Viktor Frankl parte da constatação de que as abordagens psicoterapêuticas conhecidas até então enfermavam de reducionismo que pressupõe que o ser humano ‘não é mais do que’, confinando-o à sua dimensão biológica. Frankl propõe-se superar este erro dos reducionismos e pressupõe que o ser humano é, fundamentalmente, um ser em busca de sentido, criando, por isso, a logoterapia que, como ele mesmo define, consiste na ‘terapia através do sentido’ (p. 17). Uma das observações que ele fizera, nos campos de concentração em que estivera preso, é que as pessoas que sobreviviam não eram necessariamente mais fortes, em termos físicos, mas sim em termos do sentido das suas existências. Ter um sentido conferia-lhes maior capacidade de resistência física.

Soma-se a esta intuição fundamental uma visão antropológica que não exclui nenhuma dimensão do ser humano, numa articulação sistémica que o faz enfrentar todas as grandes questões do ser humano a que se associam perturbações e distúrbios: do alimentar ao sexual, do laboral ao familiar, etc.

Frankl faculta-nos, ainda, neste livro, para além de dados para perceber a utilidade da logoterapia, ferramentas para compreender a insuficiência de algumas psicoterapias que se bastam em identificar a etiologia dos problemas de ordem psicológica mas sem conseguirem tratar o círculo vicioso de que se alimentam as doenças desse foro.

Neste livro, o autor descreve algumas das técnicas desenvolvidas pela logoterapia, recolhendo testemunhos de pessoas tratadas com recurso a elas, detalhando, entre outras, a técnica da intenção paradoxal que propõe ao paciente enfrentar aquilo que outras técnicas propunham evitar a todo o custo. Frankl, não só descreve os efeitos esperados com esta técnica, mas também como é que ela mesma atua, ficando evidenciada fundamentação teórica de uma prática que a leitura atenta põe ao dispor do próprio leitor.

Como refere, citando um terapeuta de nome Agras, ‘a intenção paradoxal expõe efetivamente o paciente à situação que ele receia, para tentar provocar as consequências temidas do seu comportamento, em vez de evitar as situações. Assim, uma mulher com agorafobia e que tem medo de desmaiar se passear sozinha é orientada para fazer isso deliberadamente e desmaiar. Quando descobre que não é capaz, isso permite-lhe enfrentar a sua condição fóbica.’ (p. 129)

Os casos de recuperação com recurso a esta técnica são inúmeros e descritos, com detalhe e humor, ao longo do livro que apresenta ideias de enorme atualidade, seja no que concerne à leitura da pessoa, na sua individualidade, seja no que respeita à vida em sociedade. Destaquemos, a este propósito, a referência ao facto de que a felicidade deve ser uma consequência e não um objetivo (p. 78), constatação particularmente oportuna, nestes tempos tão obsessivamente concentrados na ideia da busca da felicidade como meta, esquecendo que, como ele mesmo refere, a sobrevivência depende de um ‘para quê’ e um ‘para quem’ que, esses sim, geram a autêntica felicidade (p. 35). Em matéria de análise de sociedade, sublinhemos a sua afirmação de que existe uma tríade da neurose de massas: a depressão, a agressão e a dependência (p. 25) que ele considera sintomas do ‘vácuo existencial’.

Na mesma página que o autor (citações)

‘[…] pilares principais em que assenta o sistema da logoterapia: a vontade de sentido, o sentido da vida e a liberdade da vontade.’ (p. 11)

‘[…] o reducionismo é o exato oposto do humanismo. O reducionismo, diria eu, é sub-humanismo. […] o homem revelasse como um ser em busca de um sentido – uma busca que, feita em vão, explica muitos dos males da nossa era.’ (p. 15)

‘Uma tradução literal do termo “logoterapia” é “terapia através do sentido”, do logos. Claro que também podia ser traduzida por “cura através do sentido” embora isto introduzisse uma sugestão religiosa que não está necessariamente presente na logoterapia. Em qualquer dos casos, a logoterapia é uma (psico)terapia centrada no sentido.’ (p. 17)

‘A sensação de falta de sentido, o vácuo existencial, aumenta e alastra a um ponto tal que pode, na verdade, ser designado como uma neurose de massas.’ (p. 23)

‘[…] foi estabelecida , para além de qualquer dúvida razoável, uma relação significativa entre o consumo de drogas e um propósito na vida.’ (p. 25)

‘[…] a busca de um sentido é uma características exclusiva do ser humano.’ (p. 28)

‘O argumento de que não se deve pensar no homem de uma forma demasiado elevada parte do princípio de que é perigoso sobrevalorizá-lo. Mas é muito mais perigoso subvalorizá-lo, como observou Goethe. O ser humano, em especial a geração mais jovem, pode ser corrompido se for subvalorizado. Pelo contrário, se reconhecermos as aspirações mais elevadas do homem – com a sua vontade de sentido – então também seremos capazes de as incentivar e mobilizar.’ (p. 30)

‘Claro que um logoterapeuta não consegue dizer a um doente o que é o sentido, mas pelo menos pode mostrar-lhe que há um sentido na vida, que está ao alcance de todos e que, mais do que isso, a vida guarda o seu sentido sob todas as circunstâncias. Mantém-se literalmente plena de sentido até ao derradeiro momento, até ao último suspiro.’ (p. 41)

‘A liberdade humana é uma liberdade finita. O homem não está livre de condições. Mas é livre para assumir uma atitude perante elas. As condições não o determinam por completo. Dentro de certos limites, depende dele sucumbir ou render-se às condições.’ (p. 48)

‘É a coisificação que abre a porta à manipulação. E vice-versa. Para manipular seres humanos e preciso em primeiro lugar coisificá-los e, para isso, doutriná-los segundo as linhas do pandeterminismo.’ (p. 54)

‘O niilismo de ontem ensinava o “nada”. O reducionismo de hoje prega o “não é mais do que”. (p. 57)

‘A liberdade pode degenerar em mera arbitrariedade, a menos que seja vivida com responsabilidade. É por isso que eu recomendaria que a Estátua da Liberdade na Costa Leste fosse complementada por uma Estátua da Responsabilidade na Costa Oeste.’ (p. 62)

‘O homem não deixará de odiar enquanto lhe for ensinado que são os impulsos e os mecanismos que o fazem odiar. É ele que odeia!’ (p. 74)

‘No clima impessoal da sociedade industrial, cada vez mais pessoas sofrem obviamente com um sentimento de solidão – a solidão da “multidão solitária”.’ (p. 75)

‘A sexualidade humana é sempre mais do que simples sexo, e é mais do que sexo na medida em que serve como expressão física de qualquer coisa metassexual: é a expressão física do amor. Só na medida em que o sexo cumpra esta função será uma experiência verdadeiramente recompensadora.’ (p. 83)

‘Os jovens […] não devem deixar-se contaminar pelo desprezo universal com o qual uma sociedade orientada para a juventude considera os velhos. De outro modo, se tiverem a sorte de envelhecerem, verão como o seu desprezo pelos velhos se transforma em desprezo por si mesmos.’ (p. 110)

‘Responder à vida significa sermos responsáveis pelas nossas vidas.’ (p. 116)

‘O medo […] tende a provocar precisamente aquilo que é receado e, por isso, a ansiedade antecipatória pode desencadear, e provavelmente fá-lo-á, aquilo que o paciente tanto teme. Assim se estabelece um círculo vicioso que se autoalimenta: o sintoma evoca a fobia; a fobia provoca o sintoma; e a recorrência do sintoma reforça a fobia.’ (p. 121)

‘Como é possível quebrar um mecanismo de retorno deste género? […] Bem, é precisamente isto que se propõe a intenção paradoxal, que pode ser definida como um processo pelo qual o doente é encorajado a fazer, ou a desejar que aconteça, exatamente aquilo de que tem medo (o primeiro caso aplica-se ao doente fóbico, o segundo ao obsessivo-compulsivo). Assim, o doente fóbico deixa de fugir dos seus medos e o obsessivo-compulsivo deixa de lutar com as suas obsessões e compulsões. De qualquer modo, o medo patogénico é substituído por um desejo paradoxal. Quebra-se assim o círculo vicioso de ansiedade antecipatória.’ (p. 123)


**Título retirado de Daniel Faria, Dos líquidos, Porto, Edição Fundação Manuel Leão, 2000, p. 137

*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Ensaios de liberdade', 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'

 

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