terça-feira, dezembro 23, 2025

Alberto Ferreyra | Mystérios lusitanos [contos - texto e locução] | 19 | Mistério na noite de Natal

 

Mystérios lusitanos | A vinte e três (23) de cada mês, habitamos o mundo pelo imaginário de Alberto Ferreyra...

(Nos ramos da escrita, repousam, vezes sem conta, as gralhas da distração, ocultas, sob múltiplos disfarces, até que alguém as enxote. Alberto Ferreyra contou com o fino olhar da sua amiga Teresa Correia, detentora do segredo da sua identidade, para afastar ou caçar o grasnar das gralhas. Está-lhe, por isso, muito grato...)

Alberto Ferreyra*


- As noites de outrora eram escuras; as noites de agora são longas… - M. meditava na vida. Parecia distante, mas dificilmente poderia supor-se mais presente à vida.
E continuou, como se J., o seu irmão, não estivesse ali, mesmo ao pé de si.
- Quando a noite é assim, escura como o breu, dou-me conta do sentido profundo das palavras bíblicas ‘o povo que andava nas trevas viu uma grande luz’. Como se anseia a luz quando o mais pequeno cascalho nos serve de escândalo, como gigante pedra de tropeço! Sabes, J.? Se Mateus decidiu voltar a pôr o profeta Isaías a repetir, séculos volvidos, as palavras que a esperança fervilhante do seu coração inspirava, para as ver confirmadas no nascimento de um pobre Menino, é, provavelmente, porque nelas se diz muito que ainda não conseguimos ver.
Franziu o sobrolho e rematou:
- Bem. É o que vou tentar descobrir.
- Vem aí fantasia! – Rematou o irmão, correndo atrás de M., que saltara do pequeno muro da ponte chamada ‘da Senhora da Saúde’, repousada sobre o pequeno ribeiro molengão que atravessava as terras do Vouga. Correra para um lugar simbolicamente denominado ‘chão de além’. Correra como quem confia, porque a noite era densa. Uma leve neblina elevava-se, com frescura.
Percorridas algumas centenas de metros, M. estacara. Sentara-se e olhava, ao longe, a luz da lua enamorada dos montes da margem esquerda do rio.
Olhava, de novo perdida nas suas meditações.
J. reconhecia aquele olhar. Sabia-o denunciador de uma viagem longínqua.
- Vês aqueles caminhos? Por eles andou, há muito tempo, o nosso bisavô. Lembro-me de o contar o nosso pai. Numa das vezes em que fora visitar a mulher para quem falava (assim chamavam ao namoro…), a noite escura fez renascer todos os fantasmas que habitam as noites do pensamento. Só a lua o acompanhava. Mas, sob as ramadas, nem a lua servia de candeeiro. À medida que andava, parecia acompanhá-lo o caminhar de alguém. Parava e dizia, balbuciando: ‘Quem estiver aí que se mostre!’ Mas o ‘fantasma’ não só não se revelava como se silenciava.
E o bisavô acelerava o passo, compassado com o medo que se abatia no coração. Após várias tentativas de convencer o tenebroso companheiro da noite, decidiu-se. Voltou-se. No momento em que o fez, deu conta de que o tacão da sua bota estava solto, provocando o ‘caminhar’ que o acompanhava. Não mais se deitou com o medo. Passaram a dormir em camas diversas.
- Grande Bisa’! – Gritou J., efusivo.
- Mas as noites de muitos continuam a ser o berço de inúmeros fantasmas. E os dias de alguns, noites constantes.
Interrompeu-se para voltar a deliciar-se com a paisagem escura, apenas iluminada pela lua e como que edulcorada pela neblina.
- Sabes o que me lembra esta colina?
E fez um curto silêncio, como que a reavivar a memória para dizer, com certeza, o que o irmão esperava ouvir.
- Aquela que criou o cenário em que São Francisco emoldurou o primeiro presépio da história depois do original; a bela colina de Greccio. De então para cá, a imaginação não mais se limitou e encheu de figuras o modesto presépio do início.
- Mas, se da condição humana se adornou o próprio Deus?!
- Que belo o que dizes, J.! Penso exatamente assim. S. Francisco bem o sabia. Toda a condição do humano pode fazer sua morada naquele modesto lugar de Belém. E eu, habitada pela imaginação franciscana, sinto-me enlevada e com perguntas que abrem novas portas à fantasia. Sempre me intrigou aquele momento.
- Adivinho história…
- Nunca te inquietou que só Mateus e Lucas tenham dedicado letras dos evangelhos a este momento da História do Jesus de quem Marcos e João só nos falam adulto?
- O curioso é que tão tardiamente a própria história cristã tenha voltado a sua atenção para este quadro.
- J., os tempos de perseguição exigiam, bem certo, um ir ao essencial, deixando, para depois da paz, a apreciação dos arcos mais distantes da espiral da fé. Celebrar o ressuscitado era o centro. O ressuscitado de quem um jovem que os primeiros discípulos não ouviram chegar falou como tendo resistido à força e ao poder da morte.
- Não ouviram chegar! Que intrigante…
- Sabes o que te digo? A minha imaginação diz-me que esse seu silêncio pode ter muito a dizer-nos sobre o primeiro momento. Os seus passos são como os de um Primeiro Jardineiro que, no tempo da inocência, também não ouvíamos, mas passámos a ouvir depois de termos desejado ser como deuses. O chão da eternidade não faz barulho.
- Estou curioso, M. Explica-te. Não estou a perceber nada.
- Porque escaparam os Magos do Oriente ao poderoso Herodes?
- Não seguiram por outro caminho, M.? Não é assim que diz o evangelho?
- Mas, com os seus esbirros, o grande Herodes teria sabido bem como segui-los. E não foram os sábios do Oriente guiados por uma estrela que poisou sobre a gruta onde estaria o Menino? Que melhor forma de localização?
- Densificas a história com as tuas perguntas, M. Explica-te lá.
- Tenho uma hipótese. O evangelho não o diz. Não tinha de nos dizer tudo. Mas deixa-nos sinais. ‘O povo que andava nas trevas viu uma grande luz.’ A estrela que poisou sobre o lugar da manjedoura era, ainda, sóbria. Sinal simples para os que dela precisavam. Localizada, porém, a morada onde decidira habitar connosco o Eterno, essa luz elevou-se e toda aquela noite se tornou um só dia. A Judeia ficou iluminada como se o sol tivesse madrugado. Os Herodes de então ficaram sem bússola. Toda a terra de Judá era, neste momento, uma noite luminosa. Entretanto, entravam naquela modesta morada os sábios que a tradição posterior identificou como sendo três – pois se três eram os presentes! –, e a quem Beda, o venerável, associou, para sempre, nomes que haveriam de dar rosto e aspeto a cada um deles. Certamente, diante daquele Menino, haveriam de descalçar o que lhes cobria os pés. Bem sabiam estar perante Deus humanado! Curvaram-se e depositaram, talvez aos pés da mãe ou, até, nas mãos do emudecido pai adotivo, aquele que unia, por gerações contínuas, ao grande rei David, as prendas com que simbolizavam a condição de rei, de sacerdote e de Homem com que se revestia aquele Menino.
- Descalçaram-se? Está boa. Nunca tinha pensado em tal coisa.
- Pois se Deus estava, ali, presente naquele Menino, aquele que haveria de ir ao Egito, como outrora o fora o povo submetido ao Faraó, conquistando a liberdade pela mão de Moisés, após este viver, descalço, a presença do Eterno, no Monte Sinai!? O Menino vai ao Egito… O primogénito que sobreviverá à praga que matara, séculos antes, os primogénitos súbditos do Faraó. Uma praga, já não realizada pela natureza, mas pela mão humana. A praga de um fragelante Herodes… E do Egito regressará para libertar, de vez, o povo. Já não um povo único, mas o povo que é a humanidade.
- Lindo o que dizes! Jesus é o novo Moisés. Mas, M., mesmo que a estrela tenha iluminado toda a noite, os passos de um sábio do oriente são inconfundíveis. Herodes e os seus capatazes haveriam de descobrir, no chão do pó da Judeia os seus traços. O calçado de um sábio do Oriente identifica-se com facilidade.
- Não há natal sem presentes. O Menino não haveria de deixar de mãos vazias os que o receberam antes de todos.
- Bem. Tinha a salvação para lhes oferecer.
- Certamente! Mas, ali, a salvação tinha um nome mais próximo: sobreviver ao desejo de Herodes. Os sábios já não saíram dali com o mesmo caminhar. Nos seus pés, levavam as sandálias do jardineiro inicial, as que transfiguram o chão de pó em chão do além, o chão que não guarda marca e é percorrido como passo silencioso.
- Que fantasia habita a tua mente, M.
- E estou certa, J…. Aos pés da cruz, trinta e três volvidos, três pares de sandálias foram depositados e entregues aos discípulos no regresso de Emaús. As mesmas sandálias que terá calçado o jovem jardineiro que lhes anunciaria que a morte tinha sido vencida. Talvez por isso depositamos na lareira do natal as sandálias que cobrem os nossos pés. Mas essas ainda se fazem do pó do chão de aquém. Calçá-las-emos, um dia… Quando o nosso for o definitivo chão do Além.


Imagem de Tumisu por Pixabay


*Alberto Ferreyra diz que as suas letras habitam a mente e saem da mão de alguém nascido em terras gaulesas, ainda que afirme, em sussurro, que o seu real nascimento ocorreu nas margens do Antuã, em abril de 2024. É, por isso, um prematuro autor literário, germinado da inspiração que a realidade proporciona quando se tem a companhia, nos livros, de génios como Jorge Luis Borges, Miguel Torga, Gabriel García Marquez ou personagens como Poirot ou Padre Brown.
 
Na sua escrita, cruzam-se o real e o imaginado, o fictício e o histórico, numa embrenhada teia em que o leitor continua a ler, mesmo já depois de fechado o conto. O real continua a fecundar histórias na mente de quem lê Ferreyra. Cada conto, feito dos mistérios desvelados, aproxima o tempo e distancia o espaço, esticando-o até ao eterno e ao infinito. Ao ler Ferreyra, faz-se 'silêncio' ('mystério' alude à etimologia grega da palavra, que remete para o 'fazer silêncio', 'emudecer-se'...) para que possam ecoar as palavras, para que possa desenovelar-se o enredo sucintamente desvelado.
 
J. e M., protagonistas de cada um dos contos, acompanhados, em alguns deles, pelo seu periquito 'branquinho', fazem emergir, do real em que se enredam, histórias que, nascendo da imaginação de Ferreyra, permanecem como realidades possíveis, deixando a suspeita de terem mesmo ocorrido.
Se não foi real, Ferreyra o criará, inspirado numa cosmovisão que tanto deve àquela religião que fez do encarnado a condição fundamental do existir.
 
A vinte e três (23) de cada mês, habitaremos o mundo pelo imaginário de Alberto Ferreyra...

sexta-feira, dezembro 19, 2025

Aborto | Manifesto ‘para que todos os catraios possam nascer’

 

Vamos imaginar.

Imagine-se que um dos 43 milhões de abortados, neste ano, em todo o mundo (números do worldmeters.info) conseguia quebrar a ‘interrupção’ a que o entregaram e falava ao nosso ouvido. Pedir-nos-ia, certamente, que lhe devolvêssemos a vida e que lhe permitíssemos que fosse à vida, acabada a gravidez de que a sua mãe o queria, antecipadamente, fazer sair.

Se é certo que tal só é possível por um exercício de imaginação, há, porém, que reconhecer que este exercício é o que suporta a ideia de que àqueles que são portadores de dignidade humana cabe reconhecer que, mesmo quando não têm voz, é como se a tivessem e a ouvíssemos, sempre, e sem desfalecer.

Ora, no caso do aborto, os que o legalizam e o querem tornar ‘lei blindada’ querem sumir a voz dos abortados.

É, por isso, humanamente exigível que se lhes dê voz.

Regressemos à constatação óbvia.

Num aborto, um filho é impedido de se desenvolver e de vir a nascer.

Num aborto, um pai é impedido de continuar a sê-lo.

Num aborto, uma mulher que era mãe deixa de o ser.

Num aborto, há muitos interesses em jogo.

Num aborto, há, por vezes, razões que levam a achar que o filho se tornou um problema e só eliminando-o o problema deixa de existir. Colide, porém, o desejo de que deixe de ser um problema com o reconhecimento de que um ser humano, portador de dignidade humana, é alguém, um alguém a quem ainda não soubemos que nome dar, mas que já é um ser participante da natureza humana e, por isso, merecedor de que o pensemos como um ‘tu’ a olhar para nós e a pedir-nos que o acolhamos. Abortá-lo é silenciá-lo.

É inquietante que o torpor coletivo que vem tomando conta do Ocidente esteja a apagar de diante de nós a voz dos que, no silêncio do ventre das suas mães, clamam por vida, clamam pelo futuro.

Quase não há semana em que não tenhamos notícias sobre o aborto. Ora da França, ora de cá, ora da Europa, ora daqui, ora dali.

No dia 18 de dezembro de 2025, a França anunciou ter aprovado lei que reabilita mulheres condenadas pelas leis anteriores a 1973.

A estratégia é impedir de falar o filho.

Aparentemente, em todo este processo, parece só haver uma vítima: a mulher que aborta.

Sejamos, porém, honestos. Se já temos abortos repetidos em perto de 30% do casos, se 96% dos casos de aborto são praticados sem razões explícitas (só cerca de 4% são por malformação, conflito entre a vida da mãe e do filho, violação, etc.), se há toda uma estrutura mundialmente organizada de clínicas que se dedicam, exclusivamente, a este ‘negócio’, podemos afirmar, com, honestidade, que o aborto se deve sempre a razões justificáveis?

Mas ‘o aborto diz só respeito a quem o faz’, dirão alguns, verdadeiramente convencidos disso.

Se um filho é um ser distinto do pai e da mãe, o assunto ‘aborto’ já não respeita só a quem o faz. Diz respeito, principalmente, a quem o sofre, o filho, e pela proteção que todo o filho humano nos merece, então, o assunto diz respeito a todos.

E se diz respeito a todos, porque quando se mata um humano, mata-se a humanidade nele presente, então as perguntas, perante o aborto, deveriam ser outras. Não ‘como ajudar a eliminar um filho?’, mas sim ‘como podemos ajudar quem sente que o filho em gestação é um problema?’

A estratégia em curso é, porém, clara. O aborto está encapsulado no preconceito de que é um direito da mulher e, por isso, beliscar este hipotético ‘direito’ é ser contra a mulher, considerada, sempre, em situação de miséria (os números não o demonstram!), sendo, então, de concluir que quem se opõe à legalização não o faça por bons motivos, mas porque é incompassivo, sem misericórdia.

Como opositor à legalização do aborto, olho para esta conclusão como uma ofensa.

Oponho-me, à legalização do aborto e ao seu reconhecimento como um direito, por causa da mãe; oponho-me por causa do filho; oponho-me por causa do pai; oponho-me porque recuso uma sociedade individualista em que cada um fica com o seu problema e os outros oferecem a morte porque, após ela, fica o silêncio que já não incomoda.

Oponho-me por sincera compaixão para com as mulheres que querem os seus filhos, mas que, por pressão social, são arrastadas para o aborto legalizado (quando era ilegal, jamais o fariam!); oponho-me porque a dignidade humana não pode ser um chavão que se utiliza quando dá votos, mas é, de facto, o fundamento da inviolabilidade de toda a vida humana, em particular quando, sendo frágil, ela mais incomoda e apetece rejeitá-la; oponho-me porque um filho não é gerado por um só e, por isso, é ilógico que um só possa decidir por um bem que é gerado por dois; oponho-me porque a vida humana não é um bem disponível; oponho-me porque não é apenas o ato da mulher que aborta que é legalizado: é todo o negócio e todos os interesses envolvidos; oponho-me porque a vida é de baixa probabilidade e, quando ela consegue contornar as improbabilidades, temos de lhe dar oportunidade de se abrir ao futuro; oponho-me porque não é dividindo a mãe contra o filho, o filho contra a mãe, a mãe contra o pai, o pai contra a mãe e todos contra todos que se constrói uma sociedade livre.

Como podemos admirar-nos com a violência que grassa nas nossas sociedades ocidentais quando o ato de violência da mãe sobre o seu filho em si protegido é reconhecida como um direito? O fim legitimado da gravidez parece nascer da ideia de que a gravidez é um peso lançado sobre a mulher. Como homem, e com uma inconfessável inveja, grito que a gravidez é um privilégio. Como podem perverter este reconhecimento os movimentos que estão paulatinamente a minar as consciências e a gerar a convicção de que o aborto seja um direito?

Bem sei que os interesses em jogo, que abanam as bandeiras dos ‘direitos conquistados’ ou da ‘compaixão para com quem é «atirado» para o aborto clandestino’, detêm condições de manipulação mediática e (outras) que só me permitem sonhar com uma outra sociedade para tempos não imediatos.

Mas a história mostra-nos que não devemos perder a esperança.

Recupero a história do eugenismo de que venho falando, em diversos estudos já publicados.

Entre 1883 e a Segunda Guerra Mundial, o mundo viveu uma vertigem semelhante à abortista que vem tomando conta do Ocidente, desde a década de 60, mas em particular, desde 1973 (caso Roe vs Wade).

A vertigem eugenística começou por suportar-se na ideia de que era preciso aproveitar as conquistas da ciência para limitar o nascimento dos que eram débeis, replicando, na sociedade, o que Darwin observara na natureza (por uma seleção artificial que replicava a seleção natural). O fascínio pela ideia foi-se avolumando. Criaram-se sociedades eugenísticas um pouco por todo o mundo. Legalizou-se o casamento eugénico, limitou-se o acesso ao casamento das comunidades tidas como ‘debilitadas’, etc. O torpor coletivo foi sendo cada vez mais avassalador.

Só uns raros países, de influência católica continuaram a resistir, em nome do reconhecimento de que a dignidade humana exigia o reconhecimento de que todos mereciam viver.

O que acordou deste torpor foi a II Guerra Mundial e a ‘superlativização’ do eugenismo por parte de Hitler.

O mundo despertou do longo sono.

Estou convencido de que o mundo acordará para o sono em que está.

A erosão do direito, grande responsável por esta onda abortista (pois, se o direito continuasse a travar a sua aceitação, a sua prática diminuiria e a vida sairia respeitada e protegida…), está a permitir que a onda continue a agigantar-se. O medo dos que se opõem a esta prática e a estas leis de serem tomados por incompassivos, por insensíveis, tem favorecido que, como a água de um tsunami, as lógicas abortistas, individualistas, tomem conta de tudo.

Mas permaneço confiante.

A dignidade humana vencerá, como venceu, após outras vertigens.

Atónitos, diremos, então: ‘como nos permitimos chegar aqui?’

Até lá, porém, é o tempo de escutar os silenciosos…

Deixemos os catraios nascer!

domingo, dezembro 07, 2025

Sabes, leitor... | 24 | Marca de água do livro de Simone Troisi e Cristiana Paccini, 'Nascemos e jamais morreremos: vida de Chiara Corbella Petrillo'

 

Rubrica ‘Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página’** | Marca de água de livros que deixam marcas profundas
Parceria: Federação Portuguesa pela Vida e Comissão Diocesana da Cultura




Luís Manuel Pereira da Silva*

 

O autor e a obra e as Marcas de água 

(o que fica depois de se deixar o livro: a verdadeira autora deste livro é Chiara Petrillo. Simone e Cristiana, os autores que encimam a capa, são os amigos de todas as horas, diante de quem se desenrolou a história que decidiram verter para as letras repousadas sobre as folhas…)

Simone Troisi e Cristiana Paccini, Nascemos e jamais morreremos: vida de Chiara Corbella Petrillo, Braga, Editorial A.O., 20236.

Começo esta nota com uma confissão. Demorei a decidir-me a fazer a recensão deste livro. Não porque nada tenha a dizer; antes, pelo grandeza do que nele se conta, pela dimensão do que há a dizer. Temo pela ineficácia das minhas palavras.

Por isso, começo por onde deveria terminar: leia, caríssimo leitor, este livro e deixe-se tomar pelo que nele se conta. Melhor, deixe-se habitar pela vida que nele fulge.

E prepare-se! Este livro incomoda, inquieta, avassala-nos.

Não pela especial verve literária, mas pela força das decisões de Chiara Petrillo, a biografada. Sim, este livro é uma biografia.

Ou, melhor. Este livro é vida! Não apenas ‘palavras sobre uma vida’, é, antes, vida que se socorre de palavras para poder continuar a contar-se.

A história de Chiara Petrillo é impressionante, como impressionam as vidas dos que, nas decisões quotidianas, se revelam heróis.

Verdadeiramente, Chiara levou até às últimas consequências a consciência de que ‘ser mãe’, ‘ser pai’ é, não só dar vida, mas, principalmente, quando tal se exige, ‘dar a vida’.

E isso desconcerta.

Se desconcerta!..

Apesar de o mundo da ‘defesa da vida’ ser a minha vida desde há muito, terei de revisitar a história de Gianna Molla para reencontrar uma tão densa narrativa de vida como esta que encontrei neste livro que, em boa hora, uma amiga do ‘mundo da defesa da vida’ partilhou comigo. Confesso que, em muitos momentos, me comovi, parei, limpei lágrimas para poder prosseguir com a leitura.

Chiara Petrillo e o seu marido, Enrico, são luzeiros de esperança, confiança e fé na vida que não se acaba.

Casaram em 2008, tendo-lhes nascido, pouco mais de um ano depois, a sua primeira filha: Maria Grazia Letizia. Os nomes são significativos. ‘Maria da Graça Alegria’!

O precoce diagnóstico de anencefalia logo foi fonte de pressões para que abortasse.

Mas a vida de um filho não é uma posse: é um convite ao amor e a ser amado. Por isso, a gravidez desenvolveu-se e o parto, contrariamente ao previsto, foi natural e Maria Grazia Letizia nasceu para, poucas horas depois, e já batizada, morrer nos braços dos seus amados pais.

Loucura?

Muitos di-lo-ão, uns em surdina, outros explicitamente.

Mas, se a vida é dom, como poderia ser de outro modo senão permitir-se que nasça e se deixe a natureza humana decidir? Seremos nós, pais, os senhores dos nossos filhos?

A situação vem a repetir-se, já não por anencefalia, mas por malformações singulares, ainda não designadas pela medicina.

Nova gravidez com sobressalto, mas levada até ao final. Nasce Davide Giovanni, ‘David João’.

‘David’, como o rei israelita que venceu Golias.

O Golias dos nossos medos e resistências.

Nasceu, foi acolhido e batizado. Os funerais destes filhos foram lugares de fé, esperança, confiança e alegria. A alegria de quem reconhece que a vida que se recebe não se possui, pois, o ‘contrário do amor não é o ódio, mas a posse’, como tantas vezes repete Chiara.

Terceira gravidez.

Desta feita, Francesco, o filho que se aguarda, não apresenta nenhuma malformação.

O pai, Enrico, sempre envolvendo o amor com o humor, perguntava o que faltaria a este terceiro filho.

Desta vez, a surpresa era outra.

Muito cedo, na gravidez, Chiara descobre que tem um tumor maligno a que ela chama ‘um dragão’.

Faz uma intervenção cirúrgica que não interfere com o desenvolvimento do seu filho. Propõem-lhe uma outra, mais invasiva, mas que pode colocar em risco a vida do filho.

Decide-se pela vida do seu filho e adia, o mais que pode, e só para depois do parto, essa segunda intervenção.

Francesco nasce… As intervenções sucedem-se, mas o que mais desconcerta é o amor e a confiança nunca perdida. Não a confiança numa cura, mas a certeza de o amor vencer. O amor que não possui, mas que acolhe a vida, com os seus fulgores e dores.

Com cerca de um ano de Francesco, Chiara morre, entre os seus inúmeros amigos, dando a todos confiança, segurança, esperança, conforto, quando a mais necessitada era, afinal, ela mesma. Os outros eram, sempre, em cada passo da sua história, o centro. Pois, como diz em carta que dedicou ao seu filho, para que a lesse quando maiorzinho, ‘’no pouco que percebi neste anos, apenas te posso dizer que o Amor é o centro da nossa vida, porque nascemos de um ato de amor, vivemos para amar e para ser amados, e morreremos para conhecer o amor verdadeiro de Deus.

O objetivo da nossa vida é amar e estar sempre prontos para aprender a amar os outros como só Deus te pode ensinar.

O amor consome-te, mas é tão bonito morrer consumidos, exatamente como uma vela que se apaga quando atinge o seu objetivo.

Não importa o que farás, mas o que quer que venhas a fazer só terá sentido se o fizeres em função da vida eterna.

Se estiveres realmente a amar, aperceber-te-ás disso pelo facto de que nada te pertence realmente, porque tudo é um dom.

Como diz S. Francisco: o contrário do amor é a posse!’

Não é por acaso que, tendo falecido em junho de 2012, com apenas 28 anos, Chiara Petrillo seja já invocada, pela Igreja Católica, desde 21 de setembro de 2018, como ‘serva de Deus’ e esteja em andamento o seu processo de beatificação.

Esta não é uma história de um culto do sacrifício, de um culto da dor mórbida. Pelo contrário, é a história da não desistência da vida e do amor por ela, apesar das dores e sacrifícios que amá-la possa comportar. Porque a verdadeira natureza do sacrifício está, precisamente, em ‘tornar sagrado’ o que, sem esse acolhimento amoroso, seria meramente ‘profano’ e sem sentido. Sacrifício diz, mesmo, ‘tornar sagrado’.

Chiara amou, acolheu a vida sem reservas. E isso desarma-nos. Este livro faz-nos deixar cair todas as armas defensivas com que recusamos receber o dom da vida, a vida que é um dom.

Neste livro, colocam-se, frente a frente, duas visões sobre a vida: a dos que a consideram uma posse e sobre ela tudo se admitem fazer por se entenderem seus donos; e a de quem se reconhece um grato recetor de um dom e tudo faz por merecer o dom recebido.

Fechado o livro, o silêncio toma conta de nós e pergunta-nos, sussurrando, ao ouvido: de que lado estás?

 

Na mesma página que o autor (citações)

‘Amar não é possuir. É querer o bem do outro’ (Luísa Viterbo, prefácio à edição portuguesa, p. 6)

‘Uma pessoa morre como viveu. Chiara morreu de uma maneira incrível, sorrindo diante da morte. Muito mais do que serena: feliz. Estar a seu lado foi ver o viver e o morrer de um filho de Deus’. (p. 17)

‘Nascemos e jamais morreremos. Essa frase está ligada à imagem de Chiara, mas Chiara nunca a pronunciou, ainda que seja perfeita para ela. Pronunciou-a Enrico. É uma frase que ouviu a um responsável da comunidade ‘Gesù Risorto’, doente terminal de cancro nos ossos. Enrico tinha cerca de 15 anos e ficou muito impressionado. Repetiu-a muitas vezes, e nós sabíamos que ele a queria escrever numa t-shirt, porque achava que era uma boa notícia para dar a todos.’ (p. 22)

‘Chiara passou da convicção de que tinha direito ao Enrico à compreensão de que o outro é um dom de Deus e, portanto, é necessário primeiro aceitar perdê-lo para depois o encontrar.’ (p. 32)

‘O que mais assusta Chiara é ela e Enrico estarem casados há poucos meses e não saber como poderá ele reagir à notícia de que a sua filha não está bem (era portadora de anencefalia) e morrerá logo após o nascimento. Tem medo de descobrir o que Enrico pode ter no coração, teme que possa deixar de a amar. Pensa: «Esta cruz, o meu marido vai pegar nela comigo ou terei de carrega-la sozinha? Ele vai entender-me ou…?»

[…] Quando Enrico fala, Chiara ouve as palavras que tanto tinha desejado ouvir: «Não te preocupes. É nossa filha: acompanhá-la-emos até onde pudermos». Também ele não pensa nem por um momento em rejeitar este dom. Para Chiara este não é só um momento inesquecível. É «o primeiro milagre».’ (pp. 42.44)

‘Para muitos médicos, o aborto é, neste caso, uma escolha evidente. Infelizmente, também o é para muitos dos que se dizem católicos. Poucos são os cristãos que apoiam Chiara e Enrico. O facto de Maria Grazia Letizia crescer sem cérebro faz com que muitos ponham em questão que a sua seja , de facto, vida; e alguns põem em questão se interromper uma gravidez destas é, na verdade, um aborto, como se a bebé nem sequer existisse. E este é, para Chiara e Enrico, o maior sofrimento: o peso do julgamento daqueles que os rodeiam, os conselhos daqueles que até àquele momento lhes eram próximos.’ (p. 45)

‘Tendo decidido levar a gravidez até ao fim, na verdade, Chiara e Enrico levaram para a frente uma ideia acerca da vida que muitos consideram incómoda. Mas é precisamente aquela defendida pela Igreja. A ideia de uma vida que vale por si mesma, prescindindo da inteligência, da capacidade de raciocínio e da beleza. Uma ideia de vida que rejeita todos os critérios do mundo que sugerem se uma pessoa deve sair para a rua ou ficar em casa, se deve levantar a mão para falar ou não, ou levantar-se da cama de manhã ou ficar a dormir.

É ainda uma ideia de vida segundo a qual o outro não vem para nos roubar nada, mas enriquece-nos com a sua presença.’ (p. 46)

‘Todas as mães geram filhos que não lhes pertencem. Ser pais significa exatamente isto. Mas para Chiara a consciência disto é maior. A sua missão e a de Enrico é a de acompanhar imediatamente esta menina ao encontro com Deus, e ela quer estar preparada o melhor possível para que isto aconteça, para que tudo se realize segundo o seu desígnio.’ (p. 52)

‘Chiara e Enrico estão verdadeiramente felizes. Tinham-se preparado para o pior, não para tanta beleza. «O momento em que a vimos foi um momento que nunca esquecerei: percebi que estávamos ligadas para toda a vida. Não pensava no facto de que estaria pouco tempo connosco. Foi uma meia hora inesquecível.

Se tivesse feito um aborto, não creio que poderia recordar o dia do aborto como um dia de festa, um dia em que me teria libertado de alguma coisa. Teria sido um momento que procuraria esquecer, um momento de grande sofrimento.’ (p. 55)

‘Aquilo que quero dizer às mães que perderam filhos é isto: nós fomos mães, recebemos este dom. Não importa o tempo: um mês, dois meses, poucas horas… o que conta é termos recebido este dom… e não é uma coisa que se possa esquecer.’ (p. 56)

‘[…] o contrário do amor não é o ódio, mas o possuir […]’ (p. 61)

‘Fazer um aborto é rejeitar um dom.’ (p. 65)

‘[…] o objetivo mais importante da vida é ser amados. O importante não é fazer coisas, mas nascer e deixar-se amar’. (p. 81)

‘«No pouco que percebi nestes anos, apenas te posso dizer que o Amor é o centro da nossa vida, porque nascemos de um ato de amor, vivemos para amar e para ser amados, e morremos para o conhecer o amor verdadeiro de Deus.

O objetivo da nossa vida é amar e estar sempre prontos para aprender a amar os outros como só Deus te pode ensinar.

O amor consome-te, mas é tão bonito morrer consumidos, exatamente como uma vela que se apaga quando atinge o seu objetivo.

Não importa o que farás, mas o que quer que venhas a fazer só terá sentido se o fizeres em função da vida eterna.

Se estiveres realmente a amar, aperceber-te-ás disso pelo facto de que nada te pertence realmente, porque tudo é dom.

Como diz São Francisco: o contrário do amor é a posse!»’ (p. 164 – da carta escrita por Chiara ao seu filhinho Francesco)


**(Título retirado de Daniel Faria, Dos líquidos, Porto, Edição Fundação Manuel Leão, 2000, p. 137)

*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Ensaios de liberdade', 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'

Foto recolhida do site da Editora Paulinas

domingo, novembro 23, 2025

Alberto Ferreyra | Mystérios lusitanos [contos - texto e locução] | 18 | Mistério na casa da Mata

 

Mystérios lusitanos | A vinte e três (23) de cada mês, habitamos o mundo pelo imaginário de Alberto Ferreyra...

(Nos ramos da escrita, repousam, vezes sem conta, as gralhas da distração, ocultas, sob múltiplos disfarces, até que alguém as enxote. Alberto Ferreyra contou com o fino olhar da sua amiga Teresa Correia, detentora do segredo da sua identidade, para afastar ou caçar o grasnar das gralhas. Está-lhe, por isso, muito grato...)

Alberto Ferreyra*



- São mesmo estreitos estes degraus! Não admira que o pai aqui tenha caído, segundo nos conta, nas vésperas da sua primeira comunhão.
- Outros tempos! Se fosse hoje, teríamos memórias fotográficas das inúmeras mazelas com que terá ficado. – Atalhou M. – Mas, desses tempos, só nos ficaram as palavras contadas.
J. e M. percorriam o passado, visitando-o do cimo das estreitas escadas que levam até à primeira leira da casa da Mata, uma humilde casa de aldeia, da cor do salmão, com rés-do-chão e primeiro andar. Como em todas estas simples moradias de camponeses, no andar térreo, havia um modesto lagar, onde, segundo recordavam as memórias repetidas vezes narradas, se chegara a dormir de tanto cansaço.
Uma exterior escada de pedra levava à parte nova da casa, onde se acrescentaram pequenos quartos para visitas, cujo chão era de soalho. Tudo rangia. Como o tempo entre as articulações de um homem.
A água, sempre farta, corria, sem se deter, no pequeno tanque repousado sobre um eternizado lamaçal. Lugar perfeito para um robusto tapete de marias-moles, deleite desejado dos galináceos que por ali cirandavam.
Ao fundo, percorridas algumas leiras e atravessada a estrada, o rio! Lento e demoradamente atento. O rio de todas as memórias, de hoje, do passado e do futuro. Um rio é sempre um reservatório de memórias. Se não das vetustas, das vindouras. Pois não há nascente que não apele a uma foz. Disso se faz um rio.
Do cimo das escadas, ouvia-se, por isso, o som do rio. Não agreste, pois aquele não é o lugar de um leito rápido. Antes o de uma prolongada estadia. O Vouga gosta daquela margem de Pessegueiro e ali se deleita… Era, por isso, um lugar de espera e de misteriosos aconteceres.
O Rio demorava-se e fazia-se sentir como serena voz das esperas. De todas as esperas. As que se viam, mas, principalmente, as que ouviam, sem que as vissem os olhos.
Um tal esperar-se o tempo que se alonga não podia senão ecoar no modo de ser. O modo próprio do ser da Mata.
- Como dizia, tantas vezes, a avó, duas pessoas da Mata podiam sair para a missa sem partilharem, até aos ‘Santos’, uma palavra que fosse. – Gracejou J. – Mas confiavam umas nas outras, como cegos firmes na mão que os leva.
E silenciou-se, enquanto colhia pequenas violetas nascidas na sempre humedecida terra que repousava sobre o muro em que se encostavam aqueles degraus que davam para um pequeno curral.
- Não era ali que estavam os coelhinhos que o pai nos disse que o levara a querer descer, apressadamente, estas estreitas escadas, quando pequeno? – Recordou M., apontando para a porta velha e mal fechada que deixava adivinhar uma longa história de sucessivas ninhadas de láparos.
Uma luz, atravessando as já pronunciadas frestas daquela enrugada porta, fez parar a narrativa de M.
J. continuava distraído, de olhos abertos, a apanhar violetas.
Erguendo-se, como que seduzida por uma voz misteriosa, M. encaminhou-se para o fundo dos degraus.
A medo, de olhos arregalados e cheios de mistério, abriu, pouco decidida, a porta que resistiu à sua parca força.
Nada!
A luz apagou-se.
Regressou ao lugar donde saíra.
- O que te mordeu? – Perguntou, com um certo tom de malícia, J. – Havia coelhos em ninhada?
E voltou a dirigir os olhos para o que estava a fazer.
M. ficou, porém, incomodada. Estava certa de ter visto uma luz. A reação do irmão deixara-a com a certeza da sua incompreensão. Decidiu, por isso, dispensar-se de lhe contar.
Estava, porém, entre estes pensamentos quando voltou a parecer-lhe que algo luminoso parecia emergir do interior daquele sombrio curral.
- J., estás a ver o mesmo que eu?
J. ergueu os seus olhos das violetas e tentou perceber o que M. via.
Era ele, agora, que estava atónito.
De um salto, pôs-se junto à porta, de olhos assombrados. Abriu-a e, tal como acontecera com M., a luz extinguiu-se.
Sem jeito, com mãos e pés trocados, subiu os degraus até junto da irmã.
O seu respirar era tão trôpego como o seu andar.
- Porque se apaga a luz quando abrimos a porta? Assusta-me isto.
Encostaram-se um ao outro, à espera de que mais alguma coisa acontecesse.
Nisto, nova luz emergiu.
M., mais corajosa, decidiu-se a enfrentar aquele mistério.
Compassadamente, aproximou-se da porta. A luz continuava intensa. Abriu, com cuidado, a porta. À medida que a abria, a luz ia diminuindo de intensidade.
Decidiu voltar a fechá-la.
A luz voltou a robustecer-se.
Percebeu que, se abrisse a porta, não conseguiria que a luz se mantivesse acesa.
Fechou, por momentos, os olhos para pensar, voltando costas à porta, a que se encostou.
Sem se aperceber, de olhos cerrados, uma ligeira brisa abriu, vagarosamente, a porta.
A luz mantinha-se acesa. Para J., porém, a luz extinguia-se.
Só para M. se mantinha a luz acesa, que se voltou para o interior do curral.
De olhos fechados, via que a luz iluminava aquele modesto espaço, que ganhava vida.
Um vulto estava sentado a um canto, num pequeno mocho, de queixo repousado sobre um velho cajado.
M. conservava os olhos fechados. Via, assim, toda aquela cena. Do cimo das escadas, J., confundido, nada percebia daqueles eventos. Aquele recanto era, para ele, apenas breu.
O homem, sentado no mocho e de queixo pousado sobre o velho cajado, sussurrou ao ouvido de M.:
- Só de olhos fechados se pode ver a verdade de um homem.
M. abriu os olhos e tudo foi devolvido à escuridão.
Subiu as escadas, até junto do irmão.
M. brilhava. Todo o seu rosto, o seu corpo era luz.
Abraçou o irmão, deu-lhe um suave beijo no rosto e pediu-lhe:
- Olha para mim… Não! De olhos fechados!...


Imagem de Tumisu por Pixabay


*Alberto Ferreyra diz que as suas letras habitam a mente e saem da mão de alguém nascido em terras gaulesas, ainda que afirme, em sussurro, que o seu real nascimento ocorreu nas margens do Antuã, em abril de 2024. É, por isso, um prematuro autor literário, germinado da inspiração que a realidade proporciona quando se tem a companhia, nos livros, de génios como Jorge Luis Borges, Miguel Torga, Gabriel García Marquez ou personagens como Poirot ou Padre Brown.
 
Na sua escrita, cruzam-se o real e o imaginado, o fictício e o histórico, numa embrenhada teia em que o leitor continua a ler, mesmo já depois de fechado o conto. O real continua a fecundar histórias na mente de quem lê Ferreyra. Cada conto, feito dos mistérios desvelados, aproxima o tempo e distancia o espaço, esticando-o até ao eterno e ao infinito. Ao ler Ferreyra, faz-se 'silêncio' ('mystério' alude à etimologia grega da palavra, que remete para o 'fazer silêncio', 'emudecer-se'...) para que possam ecoar as palavras, para que possa desenovelar-se o enredo sucintamente desvelado.
 
J. e M., protagonistas de cada um dos contos, acompanhados, em alguns deles, pelo seu periquito 'branquinho', fazem emergir, do real em que se enredam, histórias que, nascendo da imaginação de Ferreyra, permanecem como realidades possíveis, deixando a suspeita de terem mesmo ocorrido.
Se não foi real, Ferreyra o criará, inspirado numa cosmovisão que tanto deve àquela religião que fez do encarnado a condição fundamental do existir.
 
A vinte e três (23) de cada mês, habitaremos o mundo pelo imaginário de Alberto Ferreyra...

quinta-feira, novembro 20, 2025

'Os Sete Dias da Criação' |6| Luís M. P. Silva Ainda o primeiro dia: ‘No princípio criou Deus o Céu e a Terra’ – espaço e tempo unidos.

 

(‘Os Sete Dias da Criação’ | Rubrica dedicada ao diálogo entre ciência e religião)
Artigo originalmente publicado na revista 'Mundo Rural'

Luís Manuel Pereira da Silva*

Regressemos ao primeiro versículo da Bíblia, a Gn 1,1.

O texto diz, literalmente, ‘no princípio, criou Deus o Céu e a Terra, e a Terra estava caótica e vazia…’.

Habitualmente, as traduções têm optado por ‘no princípio, quando Deus criou o Céu e a Terra, a Terra estava caótica e vazia...’[1], favorecendo o risco de uma ‘receção’ do texto que faz crer a anterioridade da Terra, o que suscita reservas quanto à coincidência com a pretensão do autor bíblico de se demarcar das narrativas contemporâneas do texto bíblico.

(Para melhor compreender esta última ideia, tenha-se em conta que a perícope de Gn 1,1-2,4a terá sido redigida no período exílico e pós-exílico [que ocorreu entre 587 e 537 a.C., sob o domínio do império babilónico], tendo o povo bíblico contactado com as narrativas míticas dos povos mesopotâmicos. Nestes textos, é pressuposta a anterioridade de uma matéria à ação criadora. Tal não será a visão bíblica. Deus é o Criador de tudo. Não apenas o ‘modelador’ de matéria incriada.)

Constatemos que o texto utiliza termos que nos falam de ‘tempo’ [no princípio] e de ‘espaço’ [céu e terra].

Uma tal constatação permite-nos estabelecer mais uma ponte interessante entre ciência e religião. Vejamos…

Intuitivamente, tendemos a separar o tempo do espaço e o espaço do tempo. Movemo-nos no espaço, para a frente e para trás, para os lados, o que nos parece, de todo, impossível, em termos de tempo. O tempo é, como nos diz a nossa intuição, uma linha reta. ‘Envelhecemos’ e não ‘rejuvenescemos’ ou ‘reinfantilizamos’.

Estas constatações fazem-nos dissociar, sem qualquer nexo ou ligação, espaço e tempo. Não nos parece que tenham nada a ver um com o outro.

O texto bíblico, de forma quase contraintuitiva, obriga-nos, porém, a ser mais atentos.

Logo na primeira afirmação, tempo (‘no princípio’) e espaço (‘Céu e Terra’) ficam unidos. Deus é o criador de ambos. Não, apenas, do espaço, como, tantas vezes, tendemos a ler.

O tempo e o espaço d’Ele dependem e não existem senão como criaturas suas.

Ora, esta intuição bíblica antecipa, curiosamente, uma das descobertas mais fascinantes da física contemporânea, possível a partir das teorias da relatividade de Albert Einstein.

As suas conclusões permitem constatar que, se nos deslocássemos, no espaço, a velocidades próximas da velocidade máxima que existe no universo (sim, no universo não há velocidades absolutas. Todas têm um limite máximo: a da luz, que é de cerca de 300 mil Kms por segundo), alteraríamos o tempo e poderíamos viajar neste, atrasá-lo. Se alguém se deslocasse (não se preocupe, caro leitor; as construções de tais meios estão atrasadas…) a tal velocidade e regressasse à terra, aqui, o tempo teria levado centenas ou milhares de anos, enquanto no interior dessa máquina o tempo teria decorrido mais lentamente.

Colin Stuart, um autor prolífico de livros sobre estas matérias, e em cuja homenagem já foi atribuído o nome a um asteroide, conta, no seu ‘Tempo: 10 coisas que deve saber’, ‘digamos que viajamos através da galáxia numa grande volta a 99,9999 por cento da velocidade da luz […] durante 10 anos. Regressa uma década mais velho, mas terão passado sete mil anos na Terra enquanto esteve fora.’[2]

Para melhor se perceber a ideia, faça-se um exercício simples que permite dar conta de como as noções de espaço e tempo dependem do ‘mundo’ em que se está e pode haver mudanças distintas, de acordo com esses ‘mundos’.

Imagine-se alguém dentro de um comboio, a velocidade constante. Se essa pessoa deixar cair uma bola de ténis, ela cairá na vertical.

Mas, se algum observador com visão larga, acompanhar o percurso do comboio, e este for totalmente transparente, o movimento da bola formará uma linha diagonal desde a mão até ao chão.

‘Vertical’, se vista dentro do comboio; ‘diagonal’, se vista de fora.

Assim, também, com o tempo. O tempo não é vivido todo de modo igual. Há um nexo estreito com o espaço.

Ora, tal intuição é já vislumbrável no texto de génesis que une ‘tempo’ (‘no princípio’) e espaço (‘céu e terra’).

Curioso…


Sugestões bibliográficas:

Colin Stuart, Tempo: 10 coisas que deve saber, Lisboa, Vogais, 2024.

  1. Tomás de Aquino, Suma de Teología, Madrid, Biblioteca de Autores Cristianos, 2017.

Michel-Yves Bolloré e Olivier Bonnassies, Deus, a ciência, as provas: alvorada de uma revolução, Alfragide, Publicações Dom Quixote, 20242.

Luis Alonso Schökel, Dicionário Bíblico Hebraico-Português, São Paulo, Paulus, 20146.


[1] Reproduzo a tradução proposta a discussão em 1 de junho de 2025 pela equipa de tradutores da Bíblia, sob a coordenação da CEP.

[2] Colin Stuart, Tempo: 10 coisas que deve saber, p. 72.


*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano', 'Ensaios de liberdade' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'

Imagem de Gerd Altmann por Pixabay

 

 

 

quarta-feira, novembro 12, 2025

Ecos do Jubileu do mundo educativo [30 de outubro a 2 de novembro de 2025]

 

Artigo publicado no Correio do Vouga

Luís Manuel Pereira da Silva*

 

Fomos convocados. Não para um jogo na seleção, mas para celebrar. Francisco convocou-nos e Leão XIV renovou o convite para um ano jubilar, na já sete vezes centenária tradição católica dos jubileus (o primeiro foi convocado por Bonifácio VIII, em 1300) e enraizada na ainda mais profunda tradição bíblica de celebrar os jubileus do perdão, ao som do ‘jobel’, um chifre de carneiro que entoava, pelas serranias, que era hora de perdoar, libertar da servidão e dar descanso aos campos (cfr. Lv 25, 1-28).

‘Peregrinos da esperança’ é a tradução portuguesa do lema latino deste ano jubilar, ‘peregrinantes in spem’. É denso o seu significado original, que se perde na tradução lusitana. O original diz-nos que somos ‘peregrinos na esperança’, bem certo, mas também diz que somos peregrino ‘para a esperança’ (o ‘in spem’ latino, registado numa preposição ‘in’ seguida de ‘acusativo’, tem implícita a ideia de um ‘movimento em direção a…’). A esperança é, não só, uma realidade do presente, que nos habita, aqui e agora, mas é, também, o horizonte para onde vamos.

O cristão sabe que a esperança tem um rosto e um nome: Jesus Cristo. É Ele e a certeza que, com ele, nos vem, de que a morte foi vencida, de que o dia venceu a noite, de que as sombras foram iluminadas pela luz, a autêntica fonte da esperança.

A esperança é, aliás, distinta da utopia que nasce do sujeito humano, como sinal de um desejo profundo, mas que pode não ter consistência real. Assim não é com a esperança. Ela habita o desejo, mas é-lhe transcendente, vem de fora, vem do amanhã para o hoje e assoma à janela do nosso existir como luz de um sol que está bem alto. Não somos os autores da esperança; somos os seus ‘contadores’, os seus narradores, porque com ela construímos a narrativa que podemos ler e dar a ler.

Desta esperança se fez o jubileu do mundo educativo, em que me foi dada a honra e o privilégio de participar, entre os dias 30 de outubro de 2 de novembro, integrado num grupo de 45 peregrinos de todas as dioceses do país, sob o título de ‘constelação SNEC’ (Constelação dos educadores do secretariado nacional da educação cristã).

A metáfora da constelação acompanhou a vivência deste grupo de quem muito se espera, por ser constituído por professores, dirigentes de escolas católicas, autores de manuais e recursos didáticos, etc.

Em torno da ideia de ‘constelação’, criaram-se simbologias que gostaria de sublinhar como síntese da vivência acontecida.

Uma metáfora da e para a educação: a ‘constelação’

A constelação remete, bem certo, para uma primeira ideia que este jubileu sublinhou, de múltiplos modos: a educação é lugar de cultivo do respeito pelo outro, na sua singularidade e diversidade (entre os diversos contextos deste jubileu do mundo educativo, concretizou-se a ‘aldeia educativa’, espaço de apresentação de experiências educativas). Essa diversidade repercute-se na pluralidade de respostas educativas, visíveis na multiplicidade de movimentos e congregações que, ao longo destes 2000 anos, o cristianismo foi fazendo germinar, como resposta aos desafios de cada tempo, lugar e existência pessoal.

A constelação alude, também, à ideia da perenidade e permanência. O céu que hoje vemos é o mesmo céu que viram os homens e mulheres do ano mil, ou do ano de quinhentos, ou do tempo de Jesus Cristo, ou do tempo de Platão ou, mesmo de Hammurabi… O céu permanece, diante da efemeridade do tempo terreno. Em épocas de mudança de época como a que vivemos, falar de ‘constelação’, em contexto educativo, é recordar que da educação se espera que aponte para o que permanece, que ajude a superar os acidentes das conjunturas, promovendo, assim, a autêntica esperança. A educação deve promover o que não caduca, o que permanece, falando, ‘a linguagem do coração’, na terminologia do Papa Francisco, lembrada pelo Dicastério para a Cultura e Educação que promoveu este jubileu.

A ‘constelação’ fala, ainda, da firmeza dos valores. Vemos e precisamos de nos guiar pelas estrelas principais das constelações (por exemplo, pela ‘estrela polar’ que nos aponta o norte) quando é noite. Em pleno dia, dispensamo-las. Nem sequer as vemos, pois uma luz comum (o sol) guia-nos a todos, em simultâneo. Mas, na noite dos nossos dias, precisamos de procurar sinais que nos orientem. Fala disto a ideia de ‘constelação’: na noite dos tempos, precisamos de nos nortear. De outro modo, a noite dará lugar ao relativismo: cada luz quererá impor-se às outras e abafar as mais frágeis. Ou, ainda pior, sobrará a pequena centelha de cada um, frágil lusco-fusco sem capacidade de orientar.

A ideia de ‘constelação’ comporta, igualmente, a ideia de uma unidade que se concretiza por meio de algo que não vemos, não dominamos; alude à ideia de que o que somos se deve mover pelo que não se reduz à ordem material. As forças que agregam as estrelas, compondo-as como ‘constelação’, não as vemos nem as podemos manipular: escapam-nos. O mundo da educação decai e degrada-se, se não aponta para a dimensão espiritual e para a tensão para o transcendente, que habita o Homem. Educação que abafa o grito que ecoa no coração humano deverá inquietar-se e interrogar-se sobre os seus fins, pois longe estará da sua autêntica meta.

Leão XIV aponta quatro pontos cardeais para a educação

Com estes horizontes se realizou o Jubileu do mundo educativo, do qual as palavras de Leão XIV continuam a ressoar, sulcando na pedra que toda a autêntica educação deve realizar-se em torno de quatro pontos cardeais: ‘interioridade, unidade, amor e alegria’.

Palavras proferidas no dia 31 de outubro, pelo Papa Leão XIV, perante os milhares de educadores que enchiam a Praça de S. Pedro. A meu lado, uma irmã dominicana, provinda de Detroit. Americana como o Papa Leão XIV. Feliz por ser americano o Papa.

Leão XIV recordou, com estas palavras, que não há educação sem o apelo ao que permanece (interioridade), sem a busca da verdade (para que converge a ideia de ‘unidade’), sem o ‘coração’ (o ‘coração’, a marca agostiniana no pontificado de Leão) e, bem certo, sem a alegria, esse sinal de que nos encaminhamos para o que Deus pretende.

No dia 1 de novembro, associou-se, à celebração de todos os Santos, a proclamação de S. John Henry Newman como doutor da Igreja. Entre os doutores da Igreja, só se conta um português: Santo António, proclamado doutor por Pio XII, em 1946.

A proclamação de S. John Henry Newman como Doutor da Igreja merece reflexão, pela enorme oportunidade. Antes de mais, pelo sinal histórico: na celebração, estavam presentes representantes da Igreja de Inglaterra. Um importante sinal ecuménico, dado que S. Henry Newman é, ele mesmo, um anglicano convertido ao catolicismo.

Mas importa guardar, também, uma outra constatação de enorme significado para a atualidade, marcada por clivagens e polarizações.

Newman tem, entre as suas mais importantes contribuições para a teologia, a ideia do ‘desenvolvimento do dogma’, ideia que me parece de particular relevância, por, por um lado, sublinhar que a nuclearidade do dogma permanece, perante os riscos de relativismo que, hoje, assomam ao nosso viver, mas também observa que este se desenvolve, tornando-se mais significativo e compreensivo para os diversos tempos, perante os riscos de um fundamentalismo que petrifica a verdade, com o risco de interpretar o dogma como formulações sem vida, formulações sem significado. Dogma que não se torne iluminador do existir humano não cumpre a sua função. Dito de outro modo. A leitura do pensamento de Henry Newman torna-se mais compreensível se articulada com o princípio formulado no Vaticano II, no documento Unitatis Redintegratio, de que há uma ‘hierarquia das verdades’. Nem todas as verdade são igualmente importantes, para a fé cristã, devendo, por isso, fazer-se uma hermenêutica que secundarize o que é secundário e priorize o que é prioritário, sem inverter estas ordens.

A Newman devemos um importante contributo para este caminho.

Num contexto como o do jubileu educativo, esta proclamação de S. Henry Newman como doutor da Igreja é, por isso, densamente relevante. Os tempos precisam desta inteligência da fé, como ‘luz tenra, suave, no meio da noite’ (hino de completas da autoria de S. John Henry Newman).

De errantes a peregrinos…

Fui a Roma, como educador, mas, principalmente, como peregrino. Muitas vezes me recordei do que diz a Nota Pastoral da Conferência Episcopal para a semana nacional da educação cristã de 2024: ‘um peregrino não é um errante’. Um peregrino é, diferentemente do errante, alguém que, mesmo que erre, não fica eternamente no erro, tornando-se um errante. Errar não tem de nos tornar errantes. Um peregrino cai e, com mão na mão que o levanta, continua o caminho.

Um peregrino sabe para onde vai e despoja-se do que o aprisiona, para poder, livremente, caminhar mais ligeiro. Quão significativo é, para a educação, este símbolo que é o ‘ser peregrino’. Ele não é um ‘sem-abrigo’ (quantos vi, na cidade de Roma! E com que incómodo passei por eles, sem saber o que fazer!...), pois é habitado pelo futuro (sob a forma de ‘esperança’) e habita esse mesmo futuro, porque sabe que o que o espera é a Casa do Amor que Deus é.

Como peregrino, atravessei a Portas Santa, essoutro símbolo de que, do lado de dentro, Alguém nos abre a porta e nos espera. Comovi-me, partilhei, esperei e recebi. Essa é a realidade do peregrino. E, como educador, levei no meu coração a história dos inúmeros alunos com quem a minha vida se cruzou, ao longo destes 25 anos (um jubileu, também!) que tenho, enquanto docente. Com eles, as suas dores e angústias, as suas alegrias e esperanças, caminhei, pelas ruas de Roma, e celebrei, na Praça de São Pedro, nos dias 31 e 1, e, na Igreja de Santo António dos Portugueses, a fé que agrega, de todos os cantos do mundo, as diversidades unidas por uma só certeza: errar, na vida, não tem de nos tornar uns errantes, se de Deus aceitarmos o perdão. É esse o sentido profundo da celebração de um Jubileu de denso significado para a educação. Os que, um dia, erraram, não têm de permanecer, para sempre, no erro.


*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano', 'Ensaios de liberdade' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'

sexta-feira, novembro 07, 2025

Sabes, leitor... | 23 | Marca de água do livro de Grégor Puppinck, 'A família, os Direitos do Homem e a Vida Eterna'

 


Rubrica ‘Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página’** | Marca de água de livros que deixam marcas profundas
Parceria: Federação Portuguesa pela Vida e Comissão Diocesana da Cultura

Luís Manuel Pereira da Silva*

O(s) autor(es) e a obra
Grégor Puppinck, A família, os Direitos do Homem e a Vida Eterna, Cascais, Princípia, 2018.

Este já é o terceiro livro de Grégor Puppinck que aqui analiso, depois de ‘Os direitos do homem desnaturado’ (número 22 desta rubrica) e ‘Objeção de consciência e direitos humanos’ (número 19 desta rubrica), todos publicados, em boa hora, pela Editora Principia, com a parceria da Fundação ‘A junção do bem’. A sua lucidez é admirável… Dar eco do seu legado torna-se, por isso, um dever para quem o lê: pela clarividência da sua reflexão, pela honestidade do seu discurso, pela coerência entre a sua escrita e a sua ação. A nossa dívida para com Puppinck, mesmo que desconhecida da maioria, é enorme. Como recorda António Pedro Barbas Homem, o autor do prefácio do livro que, agora, analiso, muito devemos a este doutor em direito e diretor do European Centre for Law and Justice, membro do painel de peritos da OCDE e do Conselho da Europa sobre Liberdade Religiosa, destacando-se o seu contributo para o processo chegado ao Tribunal Europeu dos Direitos do Homem interposto contra o Estado Italiano, em relação à presença de crucifixos nas salas de aula. Graças ao contributo singular de Puppinck, não saiu vencedora uma leitura laicista que teria terraplanado séculos de história e contribuído para um aprofundar do afastamento entre o território público dos Estados e a vida real dos seus povos. Este processo ficou conhecido como ‘Lautsi v. Itália, sendo um de muitos em que o contributo deste eminente jurista impediu decisões nefastas para a vida coletiva…
Mas, como bem recorda nos seus vários livros, o ‘bom combate’ continua…
Este livro poderia ter sido o primeiro dos de Puppinck a merecer análise, aqui. Curiosamente, porém, segui uma ordem que não é a da edição, mas a da descoberta. Cheguei a Puppinck pela mão de Gabriele Kuby. As circunstâncias da discussão nacional (e mesmo internacional) sobre os limites à objeção de consciência levaram-me ao seu livro dedicado a esta matéria. Logo ali percebi e fiquei assombrado com o seu brilhantismo. Parti, por isso, à descoberta do segundo, ‘os direitos do homem desnaturado’, ficando com o desejo de ler este que, agora, analiso, um livro, aliás, premiado.Da leitura dos três livros emerge a consciência de uma desarmante coerência de pensamento que, neste terceiro livro recebe, pela circunstância em que ele surgiu, um ‘plus’ a referir.
Dado tratar-se de uma obra nascida de uma circunstância muito precisa – nasceu como texto de uma intervenção num colóquio sobre família e a Igreja, organizado pela Conferência Episcopal da Eslováquia, no contexto mais amplo do sínodo sobre os «desafios pastorais da família no contexto da evangelização’, - neste livro o autor permite-se explicitar traços que só implicitamente estão presentes nos outros livros.
Na verdade, aqui, Puppinck evidencia o papel ímpar, insubstituível do cristianismo católico para a ‘reparação’ de erros que estão a ser cometidos a coberto de uma leitura individualista dos direitos humanos.
Para tal, Puppinck descreve, com clareza, a génese dos erros que estão diante de todos (a emergência e estabelecimento de uma leitura voluntarista e individualista do ser humano; ao arrepio da leitura humanista e personalista), denunciando as suas consequências e implicações (mesmo as ainda não totalmente visíveis), mas vai mais longe, explicitando o papel que cabe ao catolicismo como garante de que o resvalar individualista não esfrangalhe definitivamente a sociedade.

Marcas de água 

(o que fica depois de se deixar o livro)

No posfácio, da autoria de Mons. Aldo Giordano, enuncia-se o esboço de uma metáfora que nos serve, perfeitamente, para resumir o alcance da abordagem defendida neste livro: a metáfora da noite e do dia.
A natureza do dia poderia definir-se como a de um tempo em que todos se regem, movem, orientam, por uma luz comum. E isso une todos os ‘ensolarados’ em torno de algo que é comum. As dúvidas de uns podem ser esclarecidas por uma ‘fonte’ que é comum a todos. E isso garante a unidade da leitura, a convergência das leituras, mesmo que diversas nos detalhes.
A natureza da noite poderia definir-se, pelo contrário, por ser um tempo em que, pela ausência de uma luz comum, cada um gera ou recolhe a sua própria luz, ofuscando as luzes mais fortes a luz dos mais frágeis… Pela ausência de uma ‘fonte’ de luz comum, as possibilidades de choques, conflitos, imposições, aumentam.
Os direitos humanos foram vertidos, na década de 1940, para um documento que pressupunha uma ‘fonte’ comum: a natureza humana, objetivamente considerada e anterior à vontade de cada um. A participação de todos nessa natureza universalizou os direitos humanos e permitiu reconhecê-los como ‘iguais e inalienáveis’. Como tantas vezes venho recordando, fez deles ‘direitos’, mas, também, ‘deveres’ para todos e cada um.
Progressivamente, porém, foi-se impondo uma leitura duvidosa sobre a dignidade (que se considerava como pressuposta, para uma outra noção que a faz depender da perceção de cada um), assente em axiomas individualistas e voluntaristas: é o sujeito individual que passa a ser a ‘medida de todas as coisas’.
Uma tal ‘revolução’ está a conduzir a uma abordagem dos direitos humanos que os vai afastando, mais e mais, da natureza humana. Como o próprio Puppinck sintetiza, ‘Do ponto de vista individualista, quanto mais antinatural – isto é, contrário à natureza humana – for um direito, mais será visto como uma elevada manifestação da liberdade humana, e mais alto se encontrará na nova hierarquia dos direitos.’(pp. 42-43)
E a família, nisto tudo?
Com o brilhantismo que lhe conhecemos, Puppinck regista que a leitura individualista dos direitos humanos deslocou a abordagem sobre a família daquilo que ela é, uma união que não depende de um só e que carece de proteção pelos bens que ela comporta (entre os quais merecem particular destaque os filhos), para uma outra linha que coloca o centro no indivíduo. Como se ‘alguém pudesse casar sozinho’… Neste novo registo, o centro passaram a ser os direitos dos adultos, deixando em segundo plano os direitos das próprias crianças, dependentes de serem desejadas pelos adultos (assim no aborto, nas barrigas de aluguer, na procriação medicamente assistida, etc…).
È neste contexto que ganha particular premência o papel do catolicismo que, de acordo com o autor, deve resistir à tentação de ‘laicizar’ e neutralizar o discurso explicitamente religioso, evidenciando, pelo contrário, que é a certeza da ‘vida eterna’ (essa nascente comum da luz que a todos iluminará, simultaneamente) que pode fazer regressar a humanidade à realidade, acordando-a das ilusões de autossuficiência que a pós-modernidade (que o autor referencia diversas vezes como sendo um tempo de ilusão da dispensabilidade de Deus). O autor lança, por isso, o desafio a que os cristãos percebam que a estranheza que lhes suscitam as leituras individualistas dos direitos humanos são um convite a que se envolvam na defesa de uma leitura coerente com a originalmente pretendida: a que assenta e pressupõe a realidade, a natureza humana objetiva e prévia, fazendo da liberdade, não um fim em si mesma, mas uma condição para a autêntica libertação das ilusões.
Este não é, porém, um livro escrito exclusivamente para cristãos. É um livro que, honestamente, explicita como o contributo cristão para a autêntica defesa dos direitos humanos pode agregar e reunir, de forma singular e insubstituível, todos os que se reveem numa leitura que respeita o autêntico espírito que assistiu ao renascer da vida depois dos escombros que a II Guerra Mundial deixou. De outro modo, restarão sujeitos fechados sobre si mesmos, sem memória, sem lastro real, sem corpo, puros espíritos monádicos, isolados e, como explicita Puppinck, infelizes apesar da ilusão da felicidade.

 

Na mesma página que o autor (citações)

‘Como sublinha o Autor, «o humanismo ateu levou a sociedade a colocar a sua esperança em si própria; o cristianismo parece, por vezes, ter seguido o mesmo caminho», tendo que pagar o preço das esperanças não realizadas».’ António Pedro Barbas Homem, prefácio, p. 12.

‘Dar testemunho voltou a ser essencial, como no cristianismo primitivo. E é isso que Grégor Puppinck vem fazer e só podemos felicitá-lo, a ele, pela escrita, e a nós, por o podermos ler.’ António Pedro Barbas Homem, prefácio, p. 13

‘Do ponto de vista humano, a situação na Europa é muito má. Encontramo-nos num período de charneira marcado pelo esgotamento da sociedade nascida na década de 1960: esgotamento demográfico, esgotamento económico e esgotamento político, mas também esgotamento espiritual e até ecológico. O projeto político europeu está a ser fortemente posto em causa, incluindo os direitos do homem; o sonho humanista moderno que promoveu este projeto degenerou numa pós-modernidade individualista e niilista.’ (Introdução, p. 17)

‘Nesta situação, em que o indivíduo liberto de si mesmo se encontra perante o seu próprio nada e o absurdo da vida, a Igreja tem um papel profético. E esse papel não consiste em ir ao encontro do mundo na escuridão da pós-modernidade, mas, pelo contrário, em puxar o mundo para cima, revelando-lhe o Céu, a vida eterna.’ (Introdução, p. 18)

‘Na grande Europa do Conselho da Europa (incluindo a Rússia), mais de um terço das gravidezes termina em aborto (num total de 4,5 milhões de abortos por ano, face a 8,5 milhões de nascimentos). Em França, uma gravidez em cada cinco termina em aborto (o correspondente a um total de 220 000 abortos por ano). No futuro próximo, vários Estados assistirão ao declínio da sua população, em consequência da fraca taxa de natalidade.’ (Introdução, p.19)

‘Os dados estatísticos que acabamos de enunciar revelam uma derrocada do casamento e da família, derrocada essa que tem causas múltiplas e complexas; uma das mais importantes poderá ser designada por «revolução individualista». Uma análise do direito, em particular dos direitos do homem, revela a evolução que ocorreu na nossa sociedade; com efeito, os direitos do homem são uma expressão da antropologia dominante no seio de uma sociedade, porque pressupõem uma certa conceção do Homem.’ (p. 21)

‘Os direitos do homem, tal como foram enunciados após a Segunda Guerra Mundial, eram a expressão de uma antropologia fundada na natureza humana, tal como a descrevia a filosofia humanista e personalista. A universalidade desta antropologia natural estava, aliás, na origem da universalidade dos direitos do homem.’ (p. 22)

‘[…] se o direito ao casamento não é um direito subjetivo que pertence à pessoa enquanto indivíduo, como são as liberdades, é porque pertence antes de mais ao casal; ninguém pode casar-se sozinho.’ (p. 23)

‘[…] o direito ao casamento alcança três protagonistas: o homem, a mulher e a sociedade; e visa um bem que é comum aos três; a família e, através dela, a transmissão da vida e do património material e imaterial. Este bem comum é realizado pelos filhos que, consequentemente, ocupam um lugar central da mesma família, sendo protegidos, em particular, por meio do casamento.’ (p. 23)

‘Com a revolução individualista ocidental, a família deixou de ser a célula fundamental da sociedade, posição em que foi substituída pelo indivíduo. […] O indivíduo é distinto da pessoa; o indivíduo é uma pessoa cuja humanidade consiste em definir-se a si mesmo, enquanto a pessoa é um indivíduo cuja humanidade procede da natureza humana. Assim, a pessoa reconhece que é dependente, enquanto indivíduo pretende ser autónomo.’ (p. 25)

‘Se os direitos do homem protegem o que distingue o Homem do animal, os direitos pós-modernos do indivíduo asseguram a prevalência da liberdade do indivíduo em si mesma, abstraindo-se das suas relações com outros indivíduos.’ (p. 29)

‘A separação do biológico (ou natural) do social levou o tribunal Europeu a separar, nomeadamente, o casamento da família, a família da alteridade sexual, a filiação da biologia, a orientação sexual do sexo, a «qualidade de vida» da vida, e ainda a pessoa do ser humano.’ (p. 30)

‘A unidade entre individualismo, subjetivismo e relativismo torna-se então manifesta: os três conspiram para a negação do primado da realidade; é que o primado da realidade é visto como a negação da liberdade individual.’ (p. 35)

‘Atualmente, o respeito pela liberdade individual sobrepõe-se a todos os outros valores, incluindo a vida, o que abre caminho, por exemplo, ao direito ao suicídio assistido.
A atenção central que é concedida à afirmação de si é relevante para a interpretação da noção de dignidade. De facto, se, na Declaração Universal dos Direitos do Homem, esta última era descrita como inerente à pessoa humana, atualmente é vista mais como reflexiva, ou seja, individual e subjetiva. Passámos, pois, de uma conceção da dignidade fundada na natureza humana- uma dignidade que está presente em cada homem pelo facto de ser homem, e que é exterior ao agir individual – para uma conceção relativa da dignidade, que é determinada pela perceção que cada indivíduo tem de si próprio.’ (pp. 38-39)

‘Cada pessoa é, pois, o juiz da sua dignidade individual, a qual deixa de ser inerente e absoluta, tornando-se subjetiva e relativa, estreitamente relacionada com a «qualidade de vida»; e a sociedade está obrigada a respeitá-la, como estava obrigada a respeitar a antiga dignidade ontológica inerente à pessoa humana.’ (p. 39)

‘Do ponto de vista individualista, quanto mais antinatural – isto é, contrário à natureza humana – for um direito, mais será visto como uma elevada manifestação da liberdade humana, e mais alto se encontrará na nova hierarquia dos direitos. Assim, o direito às uniões entre pessoas do mesmo sexo, o direito ao aborto, o direito ao suicídio assistido e à eutanásia, embora se oponham à Convenção, têm o potencial de se tornar «sobredireitos», dado que são direitos sobre-humanos que exaltam o indivíduo e a sua capacidade de dominar a natureza; na verdade, estes direitos transformaram-se em dogmas.’ (pp. 42-43)

‘O individualismo atomiza a sociedade; visto como uma situação que promove a liberdade, a verdade é que é também uma causa de sofrimento, de pobreza e de isolamento, a ponto de esta liberdade ser, as mais das vezes, um logro. Quantas pessoas se divorciam para serem libres e acabam pobres e solitárias! O individualismo libertário não torna as pessoas felizes e as suas mais recentes conquistas culturais são mórbidas: eutanásia, aborto, direito aos filhos (gestação de substituição), eugenismo, divórcio. Ao distanciar as pessoas dos seus prolongamentos naturais (família, comunidades diversas), e sobrenaturais (religião), este individualismo esvazia as existências, tornando-as absurdas.’ (p. 44)

‘A secularização não afetou apenas as obras sociais católicas (escolas, hospitais, obras de caridade), mas também a sua atitude política. Com efeito, no campo político e moral, o discurso da Igreja foi laicizado, quis ser fundado na razão e na moral natural, com exclusão, a maioria das vezes, de qualquer referência religiosa, quer se tratasse de defender os imigrantes ou de condenar o aborto. A Igreja tentou convencer o mundo sendo mais humanista ou mais racional que ele; deste modo, o conjunto dos católicos passou a evitar dar testemunho explícito da fé, como se tivesse integrado o argumento laico da inadmissibilidade dos argumentos religiosos no debate público.’ (p. 51)

‘A aceitação do Criador leva, necessariamente à aceitação da realidade, voltando a situar o Homem na medida e na perspetiva do seu Criador. Assim sendo, anunciar o Criador, dar a conhecer a ternura do amor que nasce da sua contemplação permite-nos aceder a uma delicada humildade relativamente à sua criação.’ (p. 53)

‘O humanismo ateu levou a sociedade a colocar a sua esperança em si própria; o cristianismo parece, por vezes, ter seguido o mesmo caminho. E tanto o humanismo como o cristianismo pagam o preço das suas esperanças não realizadas. Porque, tal como o cristianismo, também o humanismo é posto em causa pelo individualismo e o relativismo.’ (p. 56)

‘[…] dado que a sociedade ocidental sofre de um excesso de individualismo […] é necessário antes de mais […] voltar a desenvolver as dimensões sobrenaturais e sociais de cada existência individual, dimensões que foram atrofiadas no homem ocidental.’ (p. 56)

‘Sem a perspetiva da vida eterna, uma vida boa consiste na satisfação das próprias pulsões, na realização pessoal, mas sem possibilidade real de conhecimento próprio. Assim, há muitas pessoas que desejam divorciar-se para serem felizes, pessoas para quem permanecer ao lado do cônjuge até à morte equivale a um fracasso, porque, a partir do momento em que a vida conjugal deixa de corresponder às suas expectativas, o esforço de a manter é vão; o divórcio permite-lhes, pois, retomarem a posse de si próprias. É a ausência de perspetiva de vida eterna que torna absurdo o esforço de toda uma vida e justifica a separação dos cônjuges.’ (p. 57)

‘Sem a luz de Deus, o mundo não passa de um conjunto de fenómenos, de um fechamento na escuridão inferior, e a vida mais não é que ilusão fugaz, uma consciência dolorosa no nada.’ (p. 58)

‘O ensino da verdade é a maior das caridades com que a Igreja tem o dever de servir o mundo, a exposição da verdade em toda a sua luz, a fim de que os indivíduos possam sair do impasse escuro da pós-modernidade.’ (p. 59)

‘É o medo de que não haja nada para além de nós que nos faz querer existir desesperadamente; e é o absurdo de tal existência que torna absoluta a nossa vontade individual. Só ela plana sobre as águas.
Mas ver o Céu permite-nos conhecer algo que é maior do que nós – a ordem do universo -, que se deduz do todo e não se constrói a partir de nós. Amar o Céu pelo próprio Céu, preferi-lo a nós por amor à perfeição, reordena-nos para o bem universal e faz-nos participar desse bem, abandonando as outras liberdades à sua vacuidade mentirosa.’ (p. 71)

‘Ser livre para nada é simplesmente desesperante. […] A liberdade não tem condição para se autossalvar. A salvação só pode vir de um Outro. Decidir confiar num Outro, no Pai, que tem a capacidade de realizar a aspiração do divino, ao eterno, à beleza, à verdade, ao amor, é o grande ato de inteligência da liberdade.’ Mons. Aldo Giordano, Posfácio, pp. 76.77)


**(Título retirado de Daniel Faria, Dos líquidos, Porto, Edição Fundação Manuel Leão, 2000, p. 137)

*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Ensaios de liberdade', 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'

Foto recolhida do site editora Princípia

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