segunda-feira, agosto 09, 2021

A hora de Antígona

 

(Artigo publicado em Mundo Rural)

Continuemos o nosso ‘regresso a Ítaca no sonho do éden’….

Já em texto anterior refletimos sobre como a visão grega, tão carregada de tragicidade, precisa de ser condimentada (e superada) pela esperança cristã. De outro modo, sobrará o medo, o desespero, a desilusão. E é bom que tenhamos consciência de que, nas nossas sociedades ocidentais, mesmo sem essa consciência explícita, estas duas visões estão sempre em dinamismo de ‘encontro’ e ‘desencontro’. À esperança cristã, que nos propõe olharmos a vida como dom gratuito a respeitar e acolher, contrapõe-se, tantas vezes, a visão dominadora de que a vida é uma posse absoluta de que dispomos até nos cansarmos dela. Uma visão que rapidamente se torna decadente… Não a vemos já, diante dos nossos olhos?...

Condimentemos, então, a história que se segue, para que não tome conta de nós a visão trágica, mas não sem, antes, perceber a densidade de leitura que ela nos pode trazer.

Antígona…

Antígona é a protagonista (muitos discutem se o protagonismo deverá ser partilhado com o rei Creonte…) de uma muito célebre tragédia escrita por Sófocles, em período compreendido entre 442 e 440 a.C.[1]

Nesta obra, Sófocles retrata o ocorrido após a decisão do rei Creonte: impedir o sepultamento de Polinices. Antígona, irmã deste, opõe-se à ordem do rei e sepulta-o, sendo alvo da ira régia que ordena o seu emparedamento. Emparedada, Antígona lamenta a sua miséria, que, por força do destino (os gregos atribuíam a este um poder superior ao dos próprios deuses), se abateu sobre a sua família.

Recordemos a densidade trágica desta família, a dos Labdácidas.

O pai de Antígona, Édipo, matara o seu próprio pai, casara com a mãe, de quem tivera quatro filhos, cegando-se quando descobriu que cometera incesto e parricídio, mas já sem nada poder fazer para alterar o rumo da história. Como se não bastasse, dois dos seus filhos – Etéocles e Polinices – matam-se um ao outro no contexto do cerco à cidade de Tebas, liderado por este último. A este, o rei Creonte, que assume o poder da cidade, proíbe que seja concedida a honra de ser sepultado, o que contrariava a lei religiosa e moral que obrigava a esse enterramento, como condição para poder ter serenidade na vida depois da morte. É neste passo que entronca a narrativa de ‘Antígona’.

Mas a densidade trágica não acaba aqui.

Após Creonte ser instado pelo seu próprio filho, Hémon, noivo de Antígona, a alterar a sua ordem, persuadido pelo adivinho Tirésias e pelo Coro dos anciãos de Tebas, o rei muda, por fim, a sua decisão, mas não segue a ordem que lhe propusera o coro. Este dissera-lhe que, primeiro, comunicasse a Antígona a sua decisão e, por fim, enterrasse Polinices.

O rei Creonte, em mais uma decisão arbitrária, entende enterrar Polinices e, só depois, comunicar a Antígona que a libertou da pena que ela já cumpria. Quando chega, porém, a decisão à cela desta, ela jaz morta (pusera termo à sua vida), assim como o próprio filho do rei, Hémon, que se suicidara perante a sua amada. A tragédia não finda aqui e é, por fim, a própria rainha, mulher de Creonte, Eurídice, que põe termo à sua própria vida.

É difícil reunir mais tragédia numa só história…

Ou talvez não.

A história está a fazer-se de tragédias reais. Esta é uma tragédia lendária!

Vivemos a Hora de Antígona.

Também hoje emergem reis Creontes que nos pretendem impor, pela força do seu poder despótico, leis (nómoi, como lhes chamavam os gregos) que contrariam as normas de sempre, as normas que emergem da condição humana, da condição própria da nossa natureza.

Sobre eles caem as palavras duras do filho de Creonte, perante a pergunta deste[2]:

«Creonte – Acaso não se deve entender que o Estado é de quem manda?

Hémon – Mandarias muito bem sozinho numa terra que fosse deserta.»

E como com Antígona, o risco de emparedamento é real. O emparedamento da acusação irada, do silenciamento mediático, do preconceito de se ser extremista ou obtuso.

Mas como poderemos aceitar que se nos imponha como norma, como direito reconhecido como humano (as novas normas de Creonte), que matar um filho seja um bem quando jamais deixou de ser reconhecido como um mal? Recentemente, no parlamento europeu, Creonte lançou o seu manto trágico, sob a capa de um relatório designado com o nome do seu proponente, Matic. Ali, defendeu-se o reconhecimento do estatuto de direito humano (novo ‘nomos’) ao abortamento voluntário. Já não se trata de formular o pedido de que não se punisse (a coberto do qual se cometeram, só neste ano, até 20 de julho de 2021 - data da consulta ao site https://www.worldometers.info/, 23 milhões de abortos em todo o mundo), mas inverte-se a apreciação do ato, conferindo-lhe uma bondade inusitada e inacreditável.

Nem Creonte ousara ir tão longe.

E quão trágicos foram os tempos que se lhe seguiram!

Só um olhar de esperança sobre cada vítima do braço estendido de Creonte pode superar tamanha tragédia…

Quem ousa ouvir o grito de Antígona entre as paredes em que a emparedam sucessivamente?



[1] Remetemos essa discussão para Maria Helena da Rocha Pereira in Sófocles – Antígona. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 20088, introdução.

[2] Seguimos tradução de Maria Helena da Rocha Pereira in Obra citada, vv. 738-739.

segunda-feira, julho 12, 2021

Não estamos no fim da História… nem no seu princípio!

 

As diversas épocas da história têm os seus mitos. E cultivam-nos, deles retirando dividendos.

Um dos nossos mais frequentes e badalados mitos é o de que estamos no final da história, isto é, o de que, finalmente, graças aos nossos méritos, foi concretizado o modelo de organização das sociedades que, de acordo com os seus preconizadores, resta difundir pelo mundo (a bem ou a mal, como está fácil de ver).

O grande defensor desta tese – que revisitava ideias que germinaram no pensamento de Hegel, sustentando que estamos no fim da história, mas, agora, com o modelo das democracias e economias liberais – foi Francis Fukuyama que pretendia dizer, em 1989, que o derrube dos regimes coletivistas deixava a descoberto que o respetivo modelo tinha caducado, nada mais restando do que o seu adversário vencedor.

O autor da teoria considera que não pretendeu dizer o que se lhe atribui, matéria que não é o conteúdo da nossa análise, agora, sendo certo, porém, que escritos posteriores vieram rever a leitura otimista que defendera em 1989. (Basta ler, com atenção, o seu mais recente ‘As origens da ordem política’ para se perceber como há uma matização do otimismo da visão liberal, reconhecendo a condição comunitária da pessoa humana.) Interessa-nos, porém, não tanto a discussão sobre o conteúdo da tese, mas sim o seu elemento formal: a convicção de se ter chegado a um modelo definitivo e perfeito que, a partir de então, há que difundir como o absoluto.

Nesta visão, o futuro é desnecessário. O que havia a percorrer está percorrido e o resto é repetição. Como se o Homem não fosse um ser imperfeito e a fazer-se (vale a pena relembrar a fecunda ideia de Gabriel Marcel de que somos ‘homo viator’, homem que caminha).

Muitos se insurgiram e continuam a insurgir contra a perspetiva de Fukuyama. E com razão.

Há, porém, que estar consciente de que a resposta alternativa não tem sido melhor.

Na verdade, a tese denunciada parecia negar o papel do futuro. Tudo estava já conseguido!

Substituiu-a uma nova visão. Aquela que, hoje, parece pulular nas nossas sociedades e na cultura vigente: ‘afinal, não só não atingimos o modelo perfeito com o que fomos forjando ao longo da história como, por oposição, o que é verdadeiro é o que está a vir e por vir. Nada do que fizemos era bom. Há que rejeitar o passado porque a história começou agora, começou connosco.’

Há, segundo esta tese, que abandonar o que percorremos, apagar a história, resultando disto que nada aprendemos com o que fizemos porque nada há a aprender, mas simplesmente a silenciar.

Tal visão constata-se de uma forma particularmente expressiva na designada ‘cancel culture’, que, porém, não tem o exclusivo de tal perspetiva.

Percebamos o que pretendemos denunciar, recorrendo a uma metáfora.

Imagine-se o tempo como dois elásticos em tensão, presos a um ponto estável que se desloca, equidistante. Esse ponto estável que se desloca, equidistante, é o presente. Ele ‘prende’ os dois elementos da tensão: o elástico do passado e o elástico do futuro.

Ora, o que ocorre quando se ‘corta’ um dos elásticos é que o ponto estável se instabiliza, puxado pela força tensional da parte que continuou presa. Fica, não só em risco a dimensão do elástico cortada, mas o próprio presente que parece sumir-se na vertigem da tensão que se absolutiza para uma das dimensões que garantiam a estabilidade da tensão.

Uma tal metáfora deixa uma interpelação.

Há que perceber o ser humano como intrinsecamente feito de memória e projeto, sendo impossível percebê-lo à luz de uma só das duas dimensões. Esquecer uma das duas dimensões é tornar impossível o reconhecimento da densidade do presente. Aliás, este reconhecimento é verificável na própria etimologia dos termos ‘passado’ (‘o que foi caminhado, o que se caminhou’) e ‘futuro’ (particípio futuro do verbo ser – ‘essere’ em latim – ‘as coisas que hão de ser’). Uma e outra etimologia expressam a ideia de uma continuidade que as duas visões aqui denunciadas omitem e cilindram: quem caminha dirige-se para algures (passado); as coisas que hão-de ser não nascem do nada mas estavam em potência no presente que é o passado do futuro (futuro).

Se tomarmos em conta o que aqui se refletiu, perceberemos que muito do que, hoje, é apresentado como novo mais não é do que revisitação de tantas coisas já vividas. Como temos referido em outros momentos, muitas das decisões defendidas como sinais de modernidade (a diluição dos conceitos de família, a prática do infanticídio, do aborto, da eutanásia, o abandono dos idosos, o regresso da pena de morte e tantas outras ‘novidades’) mais não são do que a recuperação do já ‘caminhado’. Retomado por quem acha que, agora, é que começa a história!

Grandes ilusões são fonte de não menores desilusões.

 (Artigo originalmente publicado no Mundo Rural)

terça-feira, junho 22, 2021

Creio num só Deus… que é Trindade!

 

Domingo após domingo, os cristãos professam ‘credo in unum Deum’.

Víamos, em anteriores reflexões, que a formulação ‘in unum Deum’ repercute a ideia de uma adesão que é mais do que assentimento intelectual, mas caminho em direção a Deus, orientação do coração para a realidade fundante de toda a existência.

Importa, agora, refletir sobre a natureza própria d’Aquele «unum Deum» a Quem adere o coração que se abre à fé.

Para tal, socorramo-nos do que nos vão dizendo os melhores de entre os melhores teólogos.

Tomemos por referência, para a nossa reflexão, duas ideias estruturantes.

 

Porque o homem é imagem de Deus, o que dizemos de Deus repercute-se no que entenderemos ser o Homem

A primeira recolhemo-la de Romano Guardini (1885-1968), um dos grandes teólogos do século XX, de ascendência e nascimento italianos, mas cujo percurso teológico desenvolveu na Alemanha, tendo sido, inclusive, perseguido e silenciado pelo regime nazi. Este teólogo escolhe, para título de uma das suas luminosas obras, a seguinte afirmação ‘quem sabe de Deus conhece o homem’. Tal decorre de uma noção estruturante (uma espécie de axioma teológico): o homem é ser criado à imagem de Deus, pelo que o que soubermos de Deus repercutir-se-á no entendimento sobre o próprio Homem.

 

Da presença de Deus na história chegamos à própria natureza de Deus

A esta primeira ideia associemos uma segunda, desta feita, recolhida de Karl Rahner (1904-1984), também teólogo do contexto alemão, que nos diz que chegamos ao conhecimento da natureza de Deus a partir do que o próprio Deus revela de si. De modo ‘técnico’, Rahner diz que se chega à ‘Trindade imanente’ (quem é Deus em si mesmo) a partir da ‘Trindade económica’ (quem é Deus para a humanidade, isto é, no seu processo de revelar-se – a palavra ‘economia’, no contexto teológico, tem este significado: ‘desenvolve-se no contexto histórico, nas circunstâncias próprias da história’).

 Dizendo de modo mais simples: sabemos de Deus aquilo que Deus revelou de Si mesmo, através de palavras e acontecimentos em que se manifestou a Sua própria ação e, por ela, podemos chegar ao que é o mesmo Deus.

Ora, conjugando estas duas ideias – a de que a revelação de Deus ocorre a partir do modo como Deus se mostra e a de que o que se disser de Deus se repercute no que se deverá pensar sobre o Homem – é possível constatar, desde já, que a conceção de Deus proposta pelo cristianismo é algo estruturante para toda a restante reflexão cristã e, com ela, para a compreensão sobre o Homem, o mundo, as suas relações e o seu próprio fim.

 

Mas perguntemo-nos, então, como se revela Deus, quem diz Deus que é.

Tenhamos consciência, desde já, de que a reflexão bíblica não é teoria, não é abstração; parte da experiência. Assim foi com a revelação de Deus como sendo Criador. O povo hebreu toma consciência da natureza criadora de Deus a partir da sua experiência de Deus que liberta. Aquele que liberta do mal histórico é, também, Aquele que liberta da inexistência, do nada de não existir.

Do mesmo modo, e num processo contínuo e coerente, o novo testamento é caminho que parte da experiência de Deus que se apresenta, simultaneamente, como fonte inacessível e palavra que se revela, origem e força que queima por dentro, presença verbalizada e ‘ausência’ que seduz e conduz. É na diversidade da revelação que o povo cristão desvenda o revelar-se de Deus que se define, no dizer de S. João (1 Jo 4,8), como amor. Repare-se que a expressão utilizada por S. João não é ‘Deus tem amor’. Em grego, ‘João afirma «o theós agápê estín | o qeos agaph estin » (Deus é amor).

Deus define-se, no entender de S. João (de acordo com a interpretação de Ricardo de S. Victor [ca. 1110-1173] que aqui seguimos), como relação, o que contraria a lógica que toda a história da filosofia teve (e continua a sustentar). Na verdade, na tabela das categorias de Aristóteles, a relação era considerada um acidente, isto é, não definia a essência de algo; era-lhe acrescentada.

 

Quem sabe da natureza trinitária de Deus sabe o que realiza a humanidade

A conceção trinitária de Deus introduz essa novidade que é extremamente fecunda e que, como temos vindo a defender em diversos contextos de reflexão, está na origem de uma das maiores dívidas da humanidade ao cristianismo: a ideia de que a relação define a própria condição humana, a condição de pessoa, conceito fundamental para se compreender quem é Deus e, por isso, também, quem é o Homem.

Na verdade, ao afirmar que «credo in unum Deum» que é «Pai todo-poderoso», que é «Unum dominum Iesum Christum» e «Spiritum Sanctum», rejeitando-se qualquer possibilidade de triteísmo, só restava ao cristianismo sustentar que a relação era definidora da própria natureza das coisas porque essa era a sua marca desde a sua criação, na medida em que a relação faz parte dAquele que é a sua fonte. A ideia de pessoa é isso que, no fundamental, afirma. Muito mais do que a individuação, a ideia de pessoa vinca a relação como condição de possibilidade do próprio existir. Existe-se em relação, na relação e da relação. É por isso que de Deus podemos afirmar que é três pessoas, mas não três ‘indivíduos’.

Como temos vindo a sustentar, com outra terminologia, poderemos afirmar que para haver relação impõem-se duas condições, simultaneamente presentes em Deus: a identidade e a alteridade. Só é possível relação se estas duas condições se verificarem.

Se não houver alteridade, não há relação por excesso de coincidência; se não houver identidade, não haverá relação por excesso de ‘distância’.

A Trindade não será, então, à luz deste conjunto de constatações, um mistério incompreensível e inacessível, mas sim, como defende a teologia contemporânea, uma realidade que ilumina as restantes realidades (assim deve entender-se o que seja ‘mistério’, na perspetiva cristã), torna-se uma realidade que, pela densidade do seu significado, podemos vislumbrar, mas sempre escapando-nos a toda a delimitação definitiva. Mistério diz de algo que é tão profundo na sua significação que tateamos a sua natureza mas muito continua a esquivar-se ao nosso domínio.

Diante destas noções, não poderemos senão concluir da natureza intrinsecamente relacional da condição humana que podemos conhecer ao sabermos quem é Deus.

E se Deus é amor, que outra coisa poderá realizar o que é ser Homem senão amar?

 

(Aos leitores interessados, deixamos a seguinte sugestão de leitura: Alexandre Palma – A Trindade é um mistério. Mas podemos falar disso. Prior Velho: Paulinas Editora, 2014.)

sexta-feira, junho 18, 2021

UMA VIAGEM PELA HISTÓRIA PARA REGRESSAR AO PONTO DE QUE PARTIMOS…

 (Artigo publicado na revista 'Mundo Rural')

Prosseguimos a nossa viagem de ‘Regresso a Ítaca no sonho do Éden’…

Como em fases anteriores da nossa viagem, cruzaremos a cultura clássica com a bíblica, procurando que, com o contributo recíproco, possamos iluminar o nosso caminhar contemporâneo.

A nossa etapa de hoje pretende perceber as características do paradigma que define as decisões e o modo de pensar deste tempo. Para tal, precisamos de olhar, em contraste, para a história. Para a história dos últimos séculos.

Socorro-me, para isso, do contributo de dois livros.

Revisito o livro ‘ideias e crenças do homem atual’, da autoria de Luís Gonzalez Carvajal (regresso a este livro muitas vezes… Foi um marco no meu modo de olhar para o mundo!) e aproprio-me de uma ideia que encontrei numa leitura recente: ‘O infinito num junco’, da autoria de Irene Vallejo Moreu, um livro extraordinário.

Mas encetemos, então, a nossa viagem de hoje.

A ideia de olhar para a história em ciclos, como se esta fosse o desembrulhar de um novelo em espiral, é já longínqua. Há autores que a pensaram em ciclos sucessivos de melhoria, em etapas tripartidas, sendo, de entre eles, o mais célebre, provavelmente, Joaquin de Fiore (1135-1202), que alguns consideram ter inspirado a versão secularizada de Auguste Comte (1798-1857).

Não me proponho fazer essa leitura, mas antes, olhar para a história e ver como, nas etapas seguintes, se exagerou um determinado aspeto da anterior ou, então, se exagerou um aspeto que se considerou estar omitido na precedente, como forma de compensar as insuficiências prévias. De qualquer modo, a leitura que irei propor ajudar-nos-á a olhar para os limites da atualidade, lançando o desafio de recuperarmos o que nas anteriores havia de mais interessante.

Partamos, então…

 

O paradigma da Idade Média: Abraão

Comecemos por assentar ideias no seguinte: para percebermos o nosso tempo, teremos de alongar o nosso olhar para o passado, indo, eventualmente, até à Idade Média.

Ao fazer esse esforço, perceberemos que a poderemos pensar como o tempo em que o centro da ação era a fé. Poderíamos tomar como paradigma dessa fase a figura de Abraão: nele concentra-se a atitude crente, de alguém que não teme decidir se tal se lhe afigura como desejo de Deus.

Sucede-se à Idade Média a Idade Moderna, cuja origem podemos fazer coincidir com o século XVI.

 

Sísifo e Prometeu: uma autonomia revoltada com a teonomia

É a era de um otimismo antropológico, da emergência da autonomia (se necessário, contra o próprio Deus), sustentada na convicção cada vez mais consolidada de um imparável progresso.

O paradigma desta fase é, como bem retrata Carvajal, configurado nas personagens da mitologia clássica Sísifo e Prometeu. Une ambas estas personagens a condição de se terem oposto aos deuses e, como castigo, terem sido amaldiçoados com uma condição de eterna repetição de um mal: no caso de Sísifo, terá de arrastar, sem nunca conseguir o seu objetivo, uma pedra pelo monte acima, sendo que, quando próximo do cimo, ela volta a rolar pelo monte abaixo; por seu turno, Prometeu verá as suas entranhas serem devoradas, repetidamente… Em ambos os casos, há a atitude de revolta contra o divino e a ideia de um castigo. (Como cristão, não reconheço nesta a visão genuína que quer propor-nos a fé em Jesus Cristo – o que salva é a graça e a misericórdia divina – mas este retrato repercute a visão que o Homem Moderno foi vincando em si mesmo de que ‘ou Deus, ou o Homem’, visão que, em Jesus Cristo é ultrapassada pelo ‘Deus com o Homem’…).

O tempo avançou e, com as duas grandes Guerras Mundiais, o Homem deparou-se com a constatação de que, afinal, o progresso humano poderia não ser infinito.

Gerou-se uma desilusão que levou à deceção (como refere Lipovetsky) e, com ela, à recusa das fases anteriores: a modernidade já tinha rejeitado a fé; restava, agora, com a pós-modernidade, rejeitar a própria ‘Razão’.

 

O homem pós-moderno: Narciso descobre o seu umbigo…

O homem pós-moderno, o que emergiu após as duas Guerras e, segundo o mesmo Lipovetsky, depois do Maio de 68, já não se baseia na força dos argumentos, na força da razão, pois está desiludido em relação a isso. O que lhe resta, então?

Os afetos, a emotividade. O homem pós-moderno é um hipersensível…

Narciso é, segundo Gonzalez Carvajal, o seu paradigma. Narciso é, na mitologia grega, uma personagem que se inebria com o seu reflexo nas águas calmas de um lago. Como se nada mais houvesse senão o próprio umbigo!

 

Esse alguém pós-contemporâneo a que deram outrora o nome de ‘Homem’: a síndrome de Heróstrato

Mas a história não parou e, se olharmos com detenção, perceberemos que Narciso foi, entretanto, superado. Hoje, já não nos basta a autocontemplação.

Hoje, precisamos de constatar quão belo acham os outros que é o rosto (o nosso) que vemos nas águas.

O homem (ou esse alguém a quem deram, em tempos, o nome de Homem… alguns pretendem que estejamos na era do pós-humanismo) pós-contemporâneo (utilizamos este paradoxo para retratar esta atitude alienada em que vivemos: somos mas não somos já deste tempo; não nos sentimos de tempo nenhum…) vive a síndrome de Heróstrato, figura que conheci ao ler o livro de Irene Vallejo, ‘O infinito num junco’. Heróstrato é uma personagem histórica que, em 21 de julho de 365 a.C., decide incendiar o templo de Artemisa com o mero objetivo de ficar conhecido. Quantos Heróstratos temos em nosso redor, nestes tempos pós-contemporâneos!

A história mostra-nos que o esquecimento das virtualidades das etapas anteriores gerou uma humanidade progressivamente mais vazia. Não somos só a fé; não somos só a razão; não somos só a emoção; não somos só a aparência. Só seremos se regressarmos à confiança em que caminhamos no sonho do Éden. Ítaca está no nosso horizonte terrestre, mas esse horizonte ainda não é o definitivo.

Sobreviverá Heróstrato a si mesmo? Uma visão cristã da história não poderá bastar-se em formular a pergunta, pois, no Cristo da cruz (em que o transcendente da trave vertical se une ao imanente da trave horizontal) fica estabelecido que a realização humana se faz na tensão que nunca poderá perder-se entre ser e ainda não ser, entre o ‘já’ de uma salvação de que se participa e o ‘ainda não’ de uma realização total. As etapas da história aqui retratadas perderam esta tensão e pretenderam sossegar o Homem e aquietá-lo. Urge recuperar essa tensão para que o Homem sobreviva, pois, como diz S. Ireneu, ‘a glória de Deus é o Homem vivo’.

sábado, junho 05, 2021

À minha avó Maria | 1 de junho de 2021 - anotações do meu diário

 

1 de junho de 2021

(anotações do meu diário)


Hoje, a avó Maria partiu para o Pai. Serena, acompanhada… com a certeza de ser amada, muito amada…

«’bó Maria! ‘bó Maria!» Tantas vezes chamei por si, com este carinho!

«’bó! ‘bó!»

A si contei, ainda com 6 anos, por altura da minha primeira comunhão, que queria ser padre. A si disse, quase vinte anos depois, que iria sair do seminário. De ambas as vezes, as suas palavras foram: ‘Se for a vontade de Deus, segue-A. Se não for, perceberás!’

Quanta confiança isso me deu…

Confiança para esperar, quando pequeno. Confiança para me decidir, já com 23 anos…

E tantos outros não tiveram essa sabedoria!

Quando eu contava que assim reagira a minha avó, abriam os olhos de espanto.

Mas assim sábia era a minha avó.

Nunca lhe ouvi maledicência ou palavras azedas para com alguém…

As suas palavras eram sempre de apaziguamento e de compreensão.

E a mim sempre me pedia que fosse um homem bom, um bom cristão.

Tantas vezes me recordou que mais vale um bom cristão do que um mau padre, quando lhe referi que pensava sair do seminário. (As suas palavras não pretendiam desconsiderar a condição de leigo, mas reforçar a confiança em que eu saberia escolher uma decisão que sabia ser difícil…)

Criou cinco filhos e doze netos, entre os quais dois como filhos adotivos, nos tempos da emigração dos nossos pais - eu e o meu primo Miguel Ângelo.

Quantas vezes enxugou as minhas lágrimas de saudade, como quando, recém-chegado de França, e prestes a entrar na escola ‘primária’, lhe dizia que desejava muito comer ‘poulet’.

E não descansou enquanto não descobriu quantos ‘poulets’ havia no seu aviário.

«’bó», sei que vela por mim, por nós, junto de Deus para Quem foram sempre dirigidas as suas palavras, até quando Alzheimer parecia querer levar-lhe todas as memórias. Até nesse tempo as suas palavras eram os resquícios das orações que a amnésia nunca conseguira sumir.

«’bó», procurarei honrar o seu desejo, o seu legado.

Procurarei ser um homem bom, para que em mim se espelhe a sua melhor herança…

Serei um bom cristão…

Obrigado, «’bó».

A sua vida não foi em vão…

Um beijinho. Gosto tanto de si!

segunda-feira, maio 31, 2021

Credo: a fé da Igreja que habita o coração de cada um

 

«Creio em um só Deus, Pai Todo Poderoso…» Assim professamos, domingo após domingo, aquele que, desde o século XVII, foi designado como o ‘credo ou símbolo nicenoconstantinopolitano’.

 

Noção de símbolo da fé

[A designação ‘símbolo’ é, habitualmente, utilizada para designar os ‘credos’ que, ao longo da história, se foram organizando, reunindo (‘simbolizar’), sendo um dos mais reconhecidos e evocados o ‘símbolo dos apóstolos’, que não analisaremos aqui, cuja designação não quer afirmar que foi formulado pelos apóstolos - o seu aparecimento dá-se no século IV, sendo do século V a primeira versão completa -, mas sim que repercute a fé professada pelos discípulos de Jesus Cristo. Este ‘símbolo dos apóstolos’ tem, reconhecidamente, uma missão ecuménica assinalável, na medida em que as diversas igrejas cristãs se reveem nele, dada a simplicidade das suas formulações. Reproduzimos, no final deste artigo, a versão disponibilizada em https://www.vaticannews.va/pt/oracoes/simbolo-dos-apostolos.html]

 

O Credo nicenoconstantinopolitano

A designação que foi atribuída ao símbolo que professamos, domingo após domingo (credo nicenoconstantinopolitano) repercute a unidade entre o credo de Niceia (325) e o que foi finalizado no concílio de Constantinopla (381), mas não podemos deixar de notar uma curiosidade que nos servirá, aqui, de base de reflexão. No símbolo professado em Niceia, as primeiras palavras são “Cremos em um só Deus, Pai Omnipotente, criador de todas as coisas visíveis e das invisíveis”. Por sua vez, o símbolo reunido em Constantinopla (e que secunda a fé de Niceia, desenvolvendo-a) inicia-se, na versão latina (aquela que nos chegará e que professamos), com “Creio em um só Deus, Pai Todo Poderoso, criador do céu e da Terra”.

Niceia assume um sujeito – nós; Constantinopla, na sua versão latina (a versão grega mantém a primeira pessoa do plural), desloca o sujeito da profissão para a pessoa individual.

Sabendo-se da insofismável unidade entre os dois símbolos (designar o segundo como nicenoconstantinopolitano repercute essa unidade), há que interpretar como sendo significativa esta dupla concentração nos sujeitos das afirmações.

Poderíamos recolher deste traço histórico a constatação de que a fé proclamada por cada um de nós não é uma fé individual, à medida do sujeito individual, mas uma fé comunitária que se personaliza e se assume, envolvendo nela não só o intelecto, mas toda a pessoa. Esta visão sobre a fé que é, por um lado, comunitária, mas também muito mais do que adesão intelectual, antes o envolvimento de toda a pessoa, é notória nas próprias formulações do Credo.

 

A fé em Deus e a fé na Igreja

Se olharmos com atenção a versão latina poderemos fazer uma constatação interessantíssima.

Afirma-se “Credo in unum Deum” (Creio num só Deus), “Credo in unum Dominum Iesum Christum” (Creio num só Senhor, Jesus Cristo), “Credo in Spiritum Sanctum” (Creio no Espírito Santo). Em latim, a preposição ‘in’ seguida de ‘acusativo’ (neste caso, ‘unum Deum’, ‘Unum Christum’ e ‘Spiritum Sanctum’) pode ser traduzida pela ideia de ‘fazer caminho em direção a’, ‘dirigir-se para’. Crer é, assim, muito mais do que uma mera conclusão intelectual, ainda que, certamente, esta dimensão da pessoa não esteja, de modo algum, ausente, mas até omnipresente, mas complementada pelo todo da pessoa. Esta perspetiva é coerente com o que afirmam alguns dos estudiosos da religião que, como Émile Benveniste, fazem derivar a palavra ‘crer’ de uma origem indo-europeia ‘Kred-dhe’, que poderia ser traduzida por ‘colocar o seu coração em alguma coisa’.

Dizer ‘credo in unum Deum’ é mesmo isso que pretende afirmar: encaminho o meu coração para Deus, sendo o coração muito mais do que o órgão, mas símbolo da totalidade do ser, em particular, dos afetos. E, se tivermos em conta que o afeto é a condição que nos permite ‘sermos afetados pelo outro’, então, a reflexão sobre o que é a fé atinge um grau de compreensão que supera as visões individualistas ou meramente intelectuais da fé. Ter fé é deixar-se habitar por Aquele em quem se crê. (Tão fecunda foi, ao longo da história, esta metáfora da ‘habitação’ de Deus no coração do Homem…)

Curiosamente, também, e regressando à versão latina do ‘Credo nicenoconstantinopolitano’, é possível constatar que os padres conciliares de Constantinopla não quiseram reservar à fé na Igreja o mesmo grau de adesão que se espera do crente em relação a Deus.

Na verdade, enquanto para a fé em Deus, em Jesus Cristo e no Espírito Santo é utilizada a preposição ‘in’ (criando a referida ideia de ‘caminho e adesão total do ser a…’), no caso da Igreja, a fé professada no símbolo aqui analisado expressa-se através de um ‘acusativo’ sem a preposição (‘Credo unam sanctam catholicam et apostolicam Ecclesiam’), podendo ser traduzido por ‘creio a Igreja’. A Igreja é merecedora de fé, mas não no mesmo nível que é devido a Deus, pois ela é a comunidade em caminho, ela mesma peregrina com a humanidade. Tal constatação não deve relativizar o papel e missão da Igreja, mas colocá-la ao serviço do absoluto que a transcende. A história cedeu, em alguns momentos, a tentações de absolutização do caminho em relação à meta, mas a consciência que, desde o Vaticano II, a Igreja tem de que a verdade ‘subsiste’ mas não se esgota na Igreja, favorece o diálogo, o encontro e a abertura.

Desafios que deveremos recordar e renovar, domingo a domingo, sempre que, na nossa língua, professarmos ‘Credo in unum Deum’, mas também ‘Credo unam sanctam catholicam et apostolicam Ecclesiam’).

 

(*Para a reflexão aqui recolhida, tomámos por referência uma obra que se tornou um clássico para os estudos teológicos, o Enchiridion …’, uma obra de que possuímos a 36ª edição, uma coletânea iniciada, em 1854, por Heinrich Denzinger. Esta edição devemo-la a Peter Hünermann que atualizou o trabalho iniciado por aquele professor alemão do século XIX. Nesta obra, coligem-se os principais documentos da tradição católica, renovadamente atualizados.)

 

Símbolo dos apóstolos – credo formulado entre os séculos IV e V.

Creio em Deus, Pai todo-poderoso, Criador do Céu e da Terra

E em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor

que foi concebido pelo poder do Espírito Santo;

nasceu da Virgem Maria;

padeceu sob Pôncio Pilatos,

foi crucificado, morto e sepultado;

desceu à mansão dos mortos;

ressuscitou ao terceiro dia;

subiu aos Céus;

está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso,

de onde há-de vir a julgar os vivos e os mortos.

Creio no Espírito Santo;

na santa Igreja Católica;

na comunhão dos Santos;

na remissão dos pecados;

na ressurreição da carne;

e na vida eterna. Amen

Credo nicenoconstantinopolitano (Concílio de Constantinopla – 381)

Creio em um só Deus, Pai todo-poderoso,
Criador do Céu e da Terra,
De todas as coisas visíveis e invisíveis.
Creio em um só Senhor, Jesus Cristo,
Filho Unigénito de Deus,
nascido do Pai antes de todos os séculos:
Deus de Deus, luz da luz,
Deus verdadeiro de Deus verdadeiro;
gerado, não criado, consubstancial ao Pai.
Por Ele todas as coisas foram feitas.
E por nós, homens, e para nossa salvação
desceu dos Céus.
E encarnou pelo Espírito Santo,
no seio da Virgem Maria.
e se fez homem.
Também por nós foi crucificado sob Pôncio Pilatos;
padeceu e foi sepultado.
Ressuscitou ao terceiro dia,
conforme as Escrituras;
e subiu aos Céus,
onde está sentado à direita do Pai.
De novo há-de vir em sua glória
para julgar os vivos e os mortos;
e o seu Reino não terá fim.
Creio no Espírito Santo,
Senhor que dá a vida,
e procede do Pai e do Filho;
e com o Pai e o Filho
é adorado e glorificado:
Ele que falou pelos Profetas.
Creio na Igreja,
Una, Santa, Católica e Apostólica.
Professo um só batismo para a remissão dos pecados.
E espero a ressurreição dos mortos
e vida do mundo que há-de vir.
Amém.

segunda-feira, maio 10, 2021

Intelligo quia credo (Compreendo porque creio) | Variações sobre a fé cristã…

 Inicio, com esta reflexão, uma rubrica dedicada ao estabelecimento de pontes entre a fé cristã e a racionalidade contemporânea. Decidi intitulá-la ‘intelligo quia credo’, integrando a longuíssima tradição teológica que se dispõe a compreender para melhor (e mais solidamente) acreditar (intelligo ut credam – compreendo para acreditar) e crer para, desse modo, melhor poder compreender (credo ut intelligam – creio para que possa compreender). A minha formulação recusa a, erroneamente atribuída a Tertuliano, ideia de que ‘credo quia absurdum’ (creio porque é absurdo). Tertuliano não pretendeu afirmar tal ideia que contradiz o seu enorme esforço intelectual de tornar credível, para os seus tão desafiantes tempos (ele que viveu entre finais do século II e inícios do III), mas a sua convicção de que a ressurreição era credível pelo seu carácter surpreendente (como se fosse algo impossível!), gerou a ideia de que defendia que a fé excluía a razão e era tanto mais ‘credível’ quanto mais absurda. Longe disso!

O pressuposto que seguirei, ao longo das minhas reflexões, será, exatamente, o de que fé e razão são, parafraseando João Paulo II em Fides et Ratio, como que duas asas que necessitam uma da outra para que possa assim voar o conhecimento humano.

Afirmo que ‘intelligo quia credo’: compreendo porque acredito. Não afirmo, aqui, um qualquer fideísmo ou uma apologética gratuita, mas antes prenuncio a constatação que venho fazendo de que, sem o horizonte que lhe abre a fé, o ser humano e o que é ser humano ficam em grave crise.

Não apenas uma crise constatável, sociológica e eticamente (talvez a revisão da história pudesse ser suficiente para sustentar a credibilidade dessa convicção), mas uma verificação ainda mais radical e fundamental.

 

O ateu que, por causa da ciência, negou e, depois, reconheceu a existência de Deus

Tomemos, para enunciar a tal crise em que ficamos sem a fé, o que nos mostrou, já em pleno século XXI, o pensamento de Antony Flew, autor que gosto de revisitar.

Fora, durante cerca de cinquenta anos, um dos grandes defensores do que poderíamos designar como ‘ateísmo epistemológico’. Entendo por ‘ateísmo epistemológico’ aquela posição que defende a inexistência de Deus como resultado da verificação de que o saber teológico foi suplantado pelo saber científico, ficando reduzida a cinzas a sua pretensão de verdade.

Essa fora a convicção de Antony Flew, até que, em 2004, a sua honestidade intelectual o levou a reconhecer que errara. Flew constatava, nessa altura, que o simples esforço de fazer ciência supunha, só por si, a possibilidade da existência de Deus. De outro modo, dizia, seria impossível fazer-se ciência. E explicou a sua conclusão.

Quem faz ciência parte de um princípio inabalável (axioma): há inteligibilidade no universo. Se não supuser a existência de inteligibilidade, ninguém fará ciência. Tudo será absurdo e impossível de estudar. Ora, tal pressuposto obriga a perguntar sobre a razão que justificará a existência de inteligibilidade no universo. Flew enuncia duas possibilidades: ou a inteligibilidade é fruto de acasos que se sobrepõem a acasos, numa cadeia quase infinita de casualidades (biliões de biliões de acasos que se concatenam de forma a gerar a inteligibilidade que é a condição para se fazer ciência); ou, então, diz Flew, há que supor que o universo corresponde à inteligibilidade que nele depositou, como condição, uma Origem inteligente e infinita que lhe concedeu, desde o primeiro momento, essa potencialidade de ser inteligível.

Face a estas duas possibilidades, Flew recorda um critério para se optar pela melhor. O critério recolhe-o da própria ciência que define, à luz do princípio designado como ‘navalha d’Ockam’, que a explicação mais simples para um fenómeno é a mais válida. Ora, com este critério, Flew pergunta qual a possibilidade mais simples e mais credível e conclui que supor a existência de uma Origem Inteligente como condição para compreender a inteligibilidade do universo é a hipótese mais plausível.

Com a mesma ciência com que rejeitara a possibilidade da existência de Deus, Flew concluiria, a partir de 2004 (em português, pode ler-se com muito interesse, o seu Deus não existe, editado pela Alêtheia), que essa existência é, afinal, a própria condição de possibilidade da mesma ciência. (Talvez a abrangência do mar o torne tão ‘opaco’ e improvável para o peixe, poderíamos nós concluir…)

 

Também a história do pensamento evidencia a crise do Humano sem Deus

No mesmo sentido que nos leva a concluir o raciocínio de A. Flew, também a história recente da filosofia parece demonstrar-nos a intrínseca relação entre a existência de Deus e a condição humana. Repare-se que, em finais do século XIX, Nietzsche afirmara, no seu livro A gaia ciência, que Deus morrera. (E não se referia à morte de Cristo na Cruz, mas à morte de Deus como Absoluto.) Afirmara-o em nome da liberdade humana; em nome do Homem. Mas, curiosamente, não foi preciso esperar muito mais de meio século para que a própria filosofia, pela pena de Michel de Foucault, viesse afirmar que o homem morrera. Deus morre, em Nietzsche; o Homem morre, em Foucault.

Estas constatações não pretendem ser, como atrás afirmávamos, apologia gratuita, mas interpelação.

Se não aponta para um horizonte transcendente a vida que levamos do berço até à tumba, quem é o ser que leva os andrajos com que se faz essa vida? Mas será, então, - dirão, alguns -, a fé apenas o fruto de uma necessidade de dar sentido à vida que ficará absurda sem a fé? Aceitamos o repto a que tentaremos responder em outros momentos. Fiquemos, agora, pela constatação do horizonte que nos aponta a própria epistemologia (reflexão sobre o que é conhecer e sobre o que podemos conhecer): sem Deus, sem a possibilidade, pelo menos, de que Deus exista, nem ciência poderemos fazer, diz-nos Antony Flew, nem humanos seremos, como tristemente constatou Foucault.


(Artigo publicado em Ecos da Ria)

sábado, maio 08, 2021

Direitos humanos – duas faces de uma crise de humanidade

 

Vivemos uma dupla crise de direitos humanos: a que se manifesta na sua violação e a que se expressa na justificação e legitimação dessa violação…

A estratégia em andamento já não se basta em atentar contra os direitos humanos. Tudo faz para o justificar, assegurando-se de se munir dos melhores argumentos com aparência de válidos.

Para nos apercebermos disso, exige-se que façamos um breve percurso de reflexão, indo à raiz do que deve entender-se por ‘direitos humanos’.

 

‘Poder fazer’ não é sinónimo de ‘ser legítimo fazer’

A defesa e proclamação dos direitos humanos nasce de uma tragédia humana.

Quando, em 10 de dezembro de 1948, se adotou a Declaração Universal dos Direitos Humanos, o mundo ainda mal acordara de um pesadelo em que, progressivamente, se fora enredando até à tragédia final, monstruosamente orquestrada ao longo de uma década (desde 1933) até à ‘solução final’, como defendiam os preconizadores de um regime que ‘banalizou o mal’ (expressão cunhada pela judia Hannah Arendt).

Face ao que se consumara, na II Guerra Mundial, em nome de um poder que se concebia como fim em si mesmo, foi preciso reconhecer, sem margem para dúvidas nem subterfúgios, que a dignidade humana se impõe por si própria, sendo mesmo anterior ao seu reconhecimento. Esta é a base dos direitos humanos: a dignidade humana de que todos participamos é anterior mesmo ao reconhecimento que dela façamos; ela impõe-se-nos. Não é porque eu reconheço alguém que ele passa a ter dignidade humana, mas antes é porque o outro é humano que me cabe reconhecê-lo. E é também por isto que a declaração universal dos direitos humanos estabelece, no seu preâmbulo, que a “dignidade [é] inerente a todos os membros da família humana e [que o reconhecimento] dos seus direitos iguais e inalienáveis constitui o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo”.

Ora, este ponto de partida significa que a dignidade humana não é algo oscilante, variável, sujeito a conjunturas. É a condição pela qual somos merecedores de todo o respeito e de todo o cuidado, em particular, quando mais frágeis, quando somos mais dependentes do apoio dos outros.

 

Atentados contra direitos humanos

A esta luz, cabe reconhecer que há atentado contra os direitos inerentes à nossa condição de humanos sempre que essa dignidade não é considerada como portadora de uma mensagem de que não podemos ser instrumentalizáveis, transformáveis em objetos. Como, aliás, souberam reconhecer os homens do século XVIII, a condição humana faz de cada um de nós um fim em si mesmo e nunca um meio. Atenta, por isso, contra a dignidade humana, toda a manipulação, sujeição a poderes que se servem do humano para fins que lhe são alheios, o desrespeito pelas condições que servem essa mesma dignidade (habitação, emprego, educação, etc.), matéria de denúncia tão frequente por parte do Papa Francisco que dedica o mês de abril à reflexão sobre esta matéria.

Estamos, neste contexto, a referir-nos aos atos pelos quais se perpetram os atentados e violações contra os direitos humanos.

Mas, dizíamos acima, há uma dupla crise de direitos humanos. Reparemos na outra face dessa crise.

 

A outra face da crise: a legitimação dos atentados contra os direitos humanos

Assistimos a uma dinâmica que já não se basta em violar os direitos humanos. Ela vem orquestrando um discurso que procura legitimar essa mesma violação. Para percebermos esse discurso, regressemos ao que nos diz o preâmbulo da declaração universal dos direitos humanos. Este afirma que os direitos humanos são ‘iguais e inalienáveis’. Repare-se na força da palavra ‘inalienável’. Ela afirma que eu próprio não posso alienar, deixar de proteger esse bem designado como ‘direito humano’ de que eu participo, pela humanidade que há em mim. É isso que significa ‘inalienáveis’: que não posso alienar, dispensar, entregar a outro. Afirmar que os direitos humanos são inalienáveis é sublinhar que os direitos humanos se constituem para os outros e para nós próprios como ‘deveres’. O raciocínio é simples e claro: não sou eu que me ofereço a humanidade; antes, eu sou participante da humanidade que me é comum e aos demais humanos. É, aliás, nesta lógica, que se compreende que atentar contra uma pessoa, contra um povo, contra uma comunidade religiosa, etc., é atentar contra toda a humanidade que em cada um se faz presente.

 

A dignidade humana é o fundamento da liberdade e não o contrário

Face a isto, percebe-se quão ilegítimo é o discurso dos que pretendem sustentar que respeitar os direitos humanos seja permitir o exercício absoluto e indeterminado das vontades individuais (designando isso como ‘liberdade’, quando, de facto, é arbítrio, mas não liberdade. A liberdade é escolha com respeito pela verdade.). Digo de modo mais simples: pretender legitimar práticas que matam ou ofendem, em nome do direito a uma autonomia sem limites, não só não é sustentável à luz da declaração universal dos direitos humanos como, até, a ofende e está em sua oposição. Veja-se que a declaração afirma que é o reconhecimento dessa dignidade que é fundamento da liberdade. Não o contrário, que é o que pretendem os defensores da legalização de práticas como a da eutanásia ou do aborto, sustentando que estas práticas possam ser legítimas à luz dos direitos humanos, sob pretexto de que ‘cada um terá direito a fazer o que bem entenda’. Não é essa, de modo algum, a conclusão que poderá retirar-se de uma leitura verdadeira dessa mesma declaração. Pelo contrário. Tais práticas ofendem a dignidade humana, por não compreenderem o humano que há em cada um como fim em si mesmo, como merecedor de todo o cuidado e proteção. Não foi por acaso, aliás, que o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos deliberou, sem possibilidade de recurso, em 16 de dezembro de 2010, com 11 votos a favor e 6 contra, que o aborto não é um direito humano e, por isso, é legítimo que os Estados o penalizem.

Verifica-se, porém, que o discurso difundido pela dita ‘grande imprensa’ é o de que ‘direito humano’ é fazer o que bem se entende e a nada ser impedido. Mas isso não é reconhecer que o direito humano é inalienável, nem que a dignidade seja o fundamento da liberdade, mas, invertendo isto, é pretender que seja a liberdade o fundamento da dignidade. Esse é o contorcionismo a que temos vindo a assistir e que tem levado para uma vertigem de morte as nossas sociedades de conforto e bem-estar. Convém lembrar que a II Guerra Mundial e o regime nazi não nasceram do dia para a noite. Foram preparados por toda uma vertigem legitimadora bem anterior a 1933, de teor eugenístico. Muito antes de os nazis fazerem a hedionda seleção dos que podiam e não podiam continuar vivos, já o mundo aceitara leis eugenísticas que legitimavam a escolha dos que podiam ou não podiam casar, dos que podiam ou não podiam ter filhos. Como tenho recordado em diversos textos sobre estas matérias, e recuperando o que refere “Matt Ridley, no seu livro ‘Genoma’, entre 1910 e 1935, mais de 30 Estados norte-americanos tinham leis que impunham a esterilização de pessoas (chegando a fazê-lo em ‘mais de 100000 pessoas por serem débeis mentais’ – p. 300). O mesmo Ridley recorda que assim aconteceu na Suécia, Canadá, Noruega, Finlândia, Grã-Bretanha, etc. Um retrato perturbador que pode confirmar-se no livro de André Pichot, no seu livro ‘Eugenismo’. Recorda este investigador do CNRC, Estrasburgo, que ‘na década de 30, eram esterilizadas, nos Estados Unidos, mais de 100 pessoas por mês’, tendo a Dinamarca esterilizado mais de 3000 pessoas e a Suécia mais de 15 mil, entre 1935 e 1945 (p. 51).”

Ainda vamos a tempo de travar a vertigem que parece ir tomando os nossos tempos. Respeitar os direitos humanos não é deixarmo-nos entregues à vontade puramente arbitrária sem respeito por si nem pelo outro: isso é, antes, um bom princípio para a indignidade. Respeitar os direitos humanos é assegurar que todos (qualquer que seja a sua idade, condição, força ou circunstância) são fins em si mesmos e portadores de uma dignidade que os torna merecedores de cuidado e proteção.

 

Luís Manuel Pereira da Silva

Professor – teólogo e bioeticista

Sócio-fundador da ADAV-Aveiro

Membro da Direção Nacional da Federação Portuguesa pela Vida


(Artigo publicado em https://www.paroquiadefafe.com/vozes-plurais)

terça-feira, abril 27, 2021

O perdão redime a ‘trágica’ existência humana

 

(Amigo/a leitor/a, convido-o/a a olhar, com atenção, a imagem que ilustra este texto 

[Pode encontrá-la aqui: https://angelusnews.com/wp-content/uploads/2019/09/3dhgsq1dr_Pope_Feature_1_.jpg]. 

Observe-a, com cuidado, e procure interpretá-la. Sugiro que, só depois de o fazer, inicie a leitura…)


O mundo tem grande dívida para com o cristianismo. Dívida que vai muito para além de todo o impacto visível em obras arquitetónicas, literárias, pictóricas ou outras igualmente observáveis e mensuráveis. Há dívidas que não se podem pesar, calcular e medir. Escapam e são de uma enorme densidade e profundidade. Mas, entretanto, demorará até que reconheça quanto lhe deve, de facto.

Antes de me adentrar no que pretendo aqui analisar, deixo uma sugestão de leitura. ‘O que a civilização ocidental deve à Igreja Católica’, de Thomas E. Woods, Jr (Ed. Alêtheia), é um livro de justiça. Não é um livro de direito. Nem por sombras. É um livro de justiça, isto é, trata-se de uma obra que faz justiça. Costumo sugerir, com ironia, que deveria ser colocado, nas livrarias, na secção de finanças, dado que contribui para se perceber como saldar parte da dívida (enorme!) que o mundo tem para com o Cristianismo.

Feita esta sugestão, regressemos à linha que vínhamos seguindo.

 

‘Pessoa’: uma das dimensões da dívida

Há, de facto, nessa dívida, dimensões que escapam à mensurabilidade. Entre elas, está, por exemplo, o conceito de pessoa. ‘Pessoa’ é um conceito que nasce no contexto das discussões sobre a natureza trinitária de Deus. Não servindo a ideia de ‘indivíduo’, a teologia trinitária forjou o conceito que permitisse evidenciar, por um lado, a dimensão ‘individualizante’, mas sem que tal significasse que Deus era, então, três ‘indivíduos’. Era preciso um conceito que salvaguardasse a identidade sem a isolar e sem a conceber fechada em si. O conceito de ‘Pessoa’ foi o que, resultando de prolongada reflexão, permitiu dizer que Deus é diverso, em si, sem que tal signifique que cada ‘parte’ da diversidade possa pensar-se sem ser em relação com a unidade e a relação. Pessoa diz, precisamente, a identidade que se define na relação e no encontro diante do outro. Deus é Pai no preciso ‘momento’ em que gera o Filho e, no preciso ‘momento’, também, em que a ‘geração, no amor, se possibilita. Desta forma muito plástica descrevemos a densidade que nos possibilita o conceito de ‘Pessoa’.

 

Da visão trágica à confiança no perdão

Mas ainda não chegámos ao núcleo do que pretendemos, nesta reflexão.

Há, sem dúvida, a dívida da arte, da cultura, dos conceitos, mas, antes, durante e depois de todas estas, há a dívida sobre o modo de olhar a existência.

Para percebermos esta dimensão da ‘divida’, importa recordar como era ‘trágica’ a visão que antecedeu a emergência da visão cristã.

Recordemos que a expressão pública e reconhecida do cristianismo só começa a operar-se, de forma definitiva, a partir do ano de 313, ano do édito de Milão que, pela ação do Imperador Constantino, possibilita que o império romano tolere esta nova religião.

Até aí, a visão vigente era a que conformara o ocidente, por influência da visão grega, chegada pela mão dos romanos.

 

A visão trágica dos gregos

E o que nos evidenciava essa visão?

A vida era, na visão grega, tragédia, fundamentalmente, tragédia. Tragédia que se tornava visível na convicção de que, acima dos próprios deuses estava a ‘moira’, o destino (o ‘fatum’ que deu, em português, a ideia de ‘fado’ – destino; ideia presente na palavra ‘fatalidade’). Os próprios deuses estavam submetidos à força de um destino impessoal, cruel, sem piedade…

Tal conceção é particularmente expressiva e densa nas célebres tragédias dos grandes autores clássicos. Entre elas, podíamos recordar a história do Rei Édipo, mas pretendemos incidir o nosso olhar na história de Antígona, uma história que bem conhecem os alunos de Educação Moral e Religiosa Católica, a quem ela é apresentada, na unidade de ‘Política, ética e religião’: um serviço inestimável que a Igreja Católica presta à educação, em Portugal.

O que nos diz a história de Antígona?

O rei Creonte proíbe esta filha do incestuoso casamento de Édipo com Jocasta de enterrar um dos dois irmãos (Etéocles e Polinices) que se tinham combatido um ao outro até à morte. A Etéocles, o rei Creonte oferece honras fúnebres majestosas, mas decide que Polinices seja deixa insepulto. Antígona opõe-se a esta decisão de Creonte, que era seu tio, e enterra, obedecendo ao que lhe impunha a sua consciência e o seu dever religioso. Após fazê-lo, suicida-se, sendo que nos diz a trama trágica que, entretanto, Creonte tinha desistido da decisão e mandara um mensageiro comunicar-lho. Tarde demais…

Assim é, em tantas das tragédias gregas. O destino fora mais forte do que a compaixão.

Esta não é a visão cristã sobre a existência.

 

O perdão e a graça é que redimem

No centro da visão cristã, está o perdão que encontro plasticamente representado numa obra que convido o leitor a observar com atenção.

Refiro-me a um capitel de uma coluna da Basílica de Santa Madalena, em Vezelay, uma igreja do início do século XII.

Um olhar atento deste capitel permite-nos ver, do lado esquerdo, um enforcado. (Aparentemente, de novo, a dimensão trágica da existência…) Porém, o capitel reserva-nos uma surpresa, do lado direito.

Na verdade, facilmente reconhecemos, no enforcado, o traidor Judas, aquele que entregou Jesus Cristo.

Mas o lado direito evidencia-nos a dimensão redentora com que o Cristianismo olha a existência. Ali, o enforcado é levado aos ombros… de Jesus Cristo. No levar aos ombros aquele que o entregou à morte, mostra a densidade do amor de Jesus Cristo. Recordo-me de, na década de noventa, ouvir da boca do sr. D. Manuel de Almeida Trindade, meu bispo e padre conciliar, o espanto ao constatar que, ao longo da história, nunca a Igreja ter ousado dizer que alguém, em concreto, estava em Inferno ou tinha sido abandonado por Deus. Dizia-me o sr D. Manuel: ‘Repara, Luís, que a Igreja sempre nos apontou o exemplo de Santos, mas nunca nos disse que este ou aquele em concreto não podia participar da felicidade eterna de Deus.’

O perdão é, com efeito, a resposta à dimensão aparentemente trágica da existência, pois, a Fonte donde tudo provém é Amor. Não apenas ‘tem’ amor; É amor. E se é amor, então, o limite, a fragilidade, a vulnerabilidade, são assumidos e redimidos, para sempre, dando-nos a certeza de que a Vida é mais forte do que a Morte. Como pode concluir-se da leitura de uma recente obra sobre ‘o sofrimento de Deus’, da autoria do Pe. Rui Mendes de Sousa, a resposta ao sofrimento do mundo está na certeza de que a ‘Paixão de Cristo é efetiva compaixão de Deus’.

E como poderiam recusar perdoar os que sabem que o mundo nasce do amor que perdoa?

(Artigo publicado na revista 'Mundo Rural)


sexta-feira, fevereiro 19, 2021

Carta ao Pe Arménio Pires Dias | Ao homem e padre que fez da fidelidade o seu lema

Escrevo-lhe, Pe. Arménio, neste dia em que saiu da nossa presença. Escrevo-lhe porque o sei na eternidade, junto de Deus, porque esse é o lugar dos homens que moldaram a sua vida à luz de Deus-Santo.

5 de junho de 1980 | 1ª comunhão
O Pe. Arménio e eu, a ler.

A sua e a minha história começam nos meus já longínquos tempos de infância, em Pessegueiro, tempos em que, inspirado na sua imagem de homem de Deus, fiel e leal, se acendeu em mim a luz de que poderia vir a ser, eu próprio, padre como via em si.

O meu caminho foi longo e levou-me a perceber que Deus me chamava a ser cristão no mundo, como leigo, mas de si nunca abandonei (e muitas vezes revisitei) a memória da rocha firme, nestes tempos tão movediços e instáveis. A sua vida foi a de um profeta para o nosso tempo, apelando à austeridade diante da ilusão de podermos viver sem Deus, mas, como os de outrora, tantas vezes incompreendido pela sobranceria com que parecemos olhar para quem nos diz o que não queremos ouvir.

Como me custou ouvir, há cerca de dois anos, a triste notícia de que a voracidade do nosso mundo o atropelara, deixando-o numa condição física que se foi agravando até ao abandono final que hoje ocorreu.

Na sua vida, havia ‘sempres’ e ‘nuncas’, porque o amor, para si, era fiel como o é Deus.

Sei que muito do que pensava, Pe. Arménio, estará reservado em escritos que, um dia, há uns cinco ou seis anos, me mostrou. Esses escritos talvez possam, algum dia, merecer ser partilhados por quem neles reveja a importância da solidez de uma inteligência fina e densa. Uma inteligência que se preocupava ao ver que o mundo se afastava, airosa e despreocupadamente, da certeza de nada ser sem Deus. Mas essa preocupação nunca o demoveu de confiar, nem lhe retirou a serenidade e a paz de quem sabe onde está a sua fonte, onde está a nascente da vida.

Pe. Arménio, recordo com saudade a sua sempre insatisfeita atitude de quem procura ouvir o que dizem os que em algum momento estiveram longe da fé. Quantas vezes lhe ouvi falar do que dizem aqueles que, um dia, se afastaram, mas que, honestamente, vieram a reconhecer que o Deus que tinham abandonado os continuava a buscar, sem cessar. Quantas vezes o ouvi referir os ateus que se tinham deixado olhar por Deus, reconhecendo a sobranceria da outrora posição descrente! As suas palavras eram as de quem sabe que o caminho do homem é um permanente superar da tentação de Adão que se quer fazer sem Deus.

A sua partida deixa-nos uma enorme missão: a de continuarmos acordados quando tudo nos quer adormecer. Adormecer à sombra da satisfação e orgulho de quem parece prescindir de Deus para se engrandecer. Quantas vezes a sua foi uma voz que clamava no deserto! A voz dos que ousam dizer que o Dia está próximo e que é ilusão viver-se sem Deus.

Pe. Arménio, a sua partida deixa-me com o coração apertado, pois em si vi um Pai, porque o é quem de nós foi ‘pároco’ em tempos tão decisivos como os da infância e juventude… Mas este é o aperto de coração de quem se sente investido de nobre tarefa: a de garantir a todos que um dia, na terra, alguém foi rocha sólida e firme quando as areias se moviam, sedutoras, sob os nossos pés.

Obrigado, Pe. Arménio. A sua partida deixa-nos um legado: o de anunciarmos, com palavras e vida, que o caminho fiel e leal continua a ser o sinal que nos pede o mundo, mesmo quando o rejeita. Pois, quanto maior for a noite, maior a importância do farol. Mesmo que, de dia, muitos o dispensem como desnecessário.

Esta é, também, hora de agradecer aos que, com amor, lhe deram o conforto e o afeto, nestes últimos tempos após o seu acidente. Na APCDI e pela mão de um dos seus sucessores na paróquia de Pessegueiro, o Pe. António, a sua vida pôde voltar, até aos últimos dias, a ser fecunda e dedicada, celebrando e rezando por todos, pelo mundo, pelos Homens que sempre amou porque neles viu a Criação de Deus que Ama.

Obrigado, Pe. Arménio. Vele por todos nós, junto de Deus a quem foi fiel toda a sua vida.

 

Com afeto,

Luís

Dignidade humana é… ser-se um fim em si mesmo, nunca meio!

 

O parlamento português está tomado por uma vertigem. E, como em todas as vertigens, parece adormecido, atónito, sem capacidade para refletir, com racionalidade e presença de espírito. O Parlamento está embevecido pela sedução do poder sem limites que lhe gera a vertigem de que falamos…

As decisões de fratura sucedem-se em catadupa, unindo-as um ponto comum: o ceticismo em relação ao que seja a dignidade humana.

Mas não duvidemos… A dignidade da pessoa humana constitui cada um de nós como um fim em si mesmo, insuscetível de ser reduzido à condição de meio. Tomar alguém como meio para um fim posterior é atentar contra a dignidade inerente a todos nós, dignidade que nos faz participantes de um ‘algo’ anterior, concomitante e posterior a nós mesmos. Ser-se humano faz-nos pertencentes a um ‘sólido’ (de que deriva a ideia de ‘solidariedade’) em que o que fazemos a um afeta todos, na medida em que afeta a natureza humana presente nesse um.

Vem isto a propósito das mais recentes decisões do Parlamento em relação a matérias que concernem ao início da vida: ‘inseminação post mortem’ e ‘maternidade de substituição’ (vulgarmente designada como ‘barrigas de aluguer’).

Ambas as decisões foram alvo de pareceres éticos negativos, mas, ainda assim, o Parlamento, [que é quem detém o poder e, por isso, se considera autorizado para decidir o que entender (!)], decidiu avançar para a sua legalização, invocando tratar-se de um avanço imparável.

Tenho-o dito muitas vezes: nada há de mais progressista do que a ética. É à ética que cabe alertar para os riscos de uma atitude conservadora e simplista que nos faz ‘fazer’ tudo o que podemos fazer. A ética diz-nos que não será sensato não subjugarmos o ‘poder’ ao que ‘é lícito fazer’, ao que ‘devemos’ fazer. Quando o ‘poder’ e o ‘dever’ se pretendem coincidentes, emergem as condições para a arbitrariedade que é má conselheira.

E é disto que se trata, nas duas situações que acima invocávamos.

Em ambos os casos estamos perante um desejo de corresponder a um pedido (em si próprio, lícito e gerador de compaixão: o de possibilitar gerar vida nova, gerar filhos), mas em que a solução se revela atentatória da indisponibilidade da dignidade de cada um. Na verdade, um olhar atento e distanciado rapidamente concluirá que, em ambas as situações, o bom fim (beneficiar da paternidade e maternidade) se faz por um mau meio, um meio que se revela instrumentalizador. O centro está, não no filho, mas no desejo de se ter filhos. O filho não é um alguém que se acolhe, é um bem que se pretende.

Bento XVI alertava, na encíclica ‘Caritas in Veritate’ (CV 3), para os perigos do amor compassivo que não respeita a verdade da natureza humana. Assim acontece, neste caso.

O filho gerado por inseminação post mortem é um filho gerado na orfandade. É um órfão no próprio momento em que é concebido. E, se a orfandade nos compadece, porque haveremos de legitimar gerar filhos já órfãos no próprio momento da sua conceção? Há algo de contraditório nisto. Uma contradição que nasce de não se respeitar que o filho não é um direito. Um filho é anterior aos nossos próprios direitos: é alguém. É uma pessoa que nos cabe acolher, amar pelo que é e não por corresponder ao desejo.

Do mesmo modo, no caso da maternidade de substituição, o filho é gerado num contexto que artificializa a relação entre mãe e filho. Sabendo-se quão relevante é o tempo de gestação na criação de vínculos, privar alguém, à partida, desses vínculos, por um motivo que se prende com o desejo dos adultos a terem um filho, desvirtua a natureza das coisas e é uma violência a que não podemos fechar os olhos. O nosso silêncio seria o de uma cumplicidade indigna por abafar o motivo de indignação. Já evidenciava Aristóteles que a virtude se opõe ao vício. O que não é virtuoso é vicioso. Se esta é uma decisão que desvirtua a natureza das coisas, não poderá pretender reconhecimento de virtude… E disso deu conta, precisamente, o Tribunal Constitucional que já se pronunciou sobre esta matéria, considerando-a inconstitucional.

Mas o Parlamento não quer saber dos que se lhe opõem. É ele que tem o poder. E quanto pode contra isso a dignidade humana?

E ao pó hás-de voltar… Não às cinzas estéreis e anónimas.

  Há uma sabedoria profunda, verdadeiramente divina, no ato de inumar o ‘corpo’ morto, de o devolver ao regaço adâmico de que proveio. Mas u...