sábado, março 07, 2026

Sabes, leitor... | 27 | Marca de água do livro 'Woke fizemos?'

 

Rubrica ‘Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página’** | Marca de água de livros que deixam marcas profundas
Parceria: Federação Portuguesa pela Vida e Comissão Diocesana da Cultura

Luís Manuel Pereira da Silva*




O(s) autor(es) e a obra
Teresa Nogueira PINTO e Miguel CÔRTE-REAL (COORD.), Woke fizemos? Anatomia de um totalitarismo suave, Alfragide, Oficina do Livro, 2025.

‘Woke fizemos?’ é uma obra plural. Tal como a interrogação do título. Coordenada por Teresa Nogueira Pinto e Miguel Côrte-Real, reúne dezasseis ensaios de grande diversidade de estilos e de modos de leitura, correspondendo, aliás, à diversidade dos próprios autores: Professores de filosofia, historiador, de teoria política, arquitetos, cientistas políticos, criadores de fotografia e vídeo, jornalistas e críticos de cinema, sociólogos, advogados, analistas políticos, assegurando ao leitor um autêntico caleidoscópico da realidade do wokismo nas sociedades atuais.

Já em momento anterior desta rubrica analisei um livro sobre o ‘wokismo’, cuja leitura recomendo como complemento desta. Estou, aliás, convencido de que há um antes e um depois desse livro – ‘a religião woke’, de F. Braunstein –, por provir de um autor insuspeito (descrente e identificado como de esquerda). O seu aparecimento tornou mais tranquilo o reconhecimento de que estávamos, efetivamente, perante um problema que atravessa a sociedade, de um ao outro lado do espetro político. Dessa mesma consciência nos dão conta os próprios autores destoutro livro que, agora, apresento. Um deles afirma, mesmo: ‘desengane-se quem pensa que se trata de um combate ideológico restrito aos segmentos da direita: é um combate que pertence a toda a sociedade civil que renuncia a viver sob o jugo woke.’ (Gonçalo Nabeiro, p. 221)

Pela diversidade complementar de leituras, e superada a dúvida de esta fosse uma matéria merecedora da preocupação de apenas alguns, este livro torna-se, pela oportunidade e multiplicidade de abordagens, de visita recomendável, para que se perceba como nasceu e como chegou até nós essa tão implantada lente ocular com que, hoje, vemos, despertos (‘woke’ – estar acordado), o mundo.

Marcas de água 

(o que fica depois de se deixar o livro)

Este livro serve, precisamente pela multiplicidade de âmbitos de que provêm os autores dos ensaios, multiplicidade que se repercute nos terrenos em que analisam a presença da cultura woke, para se perceber, com assombro, como esse ‘modus cogitandi’ (modo de pensar) se entranhou, profundamente, na cultura atual, tornando difícil o distanciamento crítico. Do cinema às artes visuais, da literatura à filosofia, do humor à sexualidade, das relações políticas às relações mais individualmente consideradas, o wokismo chegou e entrou como suave ‘perfume’ que inebria. A ideia a que alude o subtítulo ‘anatomia de um totalitarismo suave’ permite-nos revisitar a história da rã que, colocada em recipiente de água, é cozinhada, progressivamente, sem de tal se dar conta. Desse mesmo modo, o wokismo, tantas vezes recusado pelos que dele recolhem dividendos, anestesia, sob a capa de uma genuína simpatia (Como não repudiar a injustiça? A discriminação? O racismo? A desigualdade?), criando, na sociedade, uma lógica que repercute a forma mentis (a estrutura da mente) marxista que tudo reduz a luta de classes, agora reconfigurada.

E fá-lo de um modo particularmente eficaz: não só critica e denuncia como, prontamente, criminaliza toda a oposição, transformando em pensamento único o modo de chegar à meta da injustiça, fazendo supor que um só é o caminho para chegar à justiça.

Soma-lhe, ainda, uma outra estratégia, genialmente recordada no celebérrimo 1984 de George Orwell: ‘quem controla o passado, controla o presente’, pelo que, para promover o seu caminho, manipula a história, revisitando-a como lugar de exploradores e explorados, sem lugar possível para um qualquer ‘encontro de culturas’ ou de ‘povos’.

O wokismo propõe-se despertar o mundo de um suposto adormecimento para a congénita injustiça do mundo, mesmo que de tal não se sinta participante aquele a quem se atribuem as funções de explorador e explorado. Mesmo que não seja explorador aquele sobre quem recai tal ‘preconceito’; ou ‘explorado’ aquele que se propõem libertar.

Por efeito da chamada teoria crítica, caldo em que germinou este modus cogitandi, a realidade deixa de ser tomada na sua objetividade por a ela sempre se estar impossibilitado de aceder, num registo pós-moderno que recusa a «verdade objetiva». O corpo, ele mesmo realidade objetivamente considerada pelos ‘não-wokes’, é, agora, dispensável da consideração da identidade, sendo platonicamente relegado para a condição de entrave à realização individual. O sexo é, assim, substituído pelo conceito de ‘género’, termo que visibiliza a ideia de que a identidade sexual individual depende do próprio sujeito e do seu reconhecimento, isolando num solipsismo máximo o indivíduo a que os restantes só podem aceder por autorização deste.

Tudo se torna diluído, líquido (para evocar o pensamento de Zigmunt Bauman), sem suporte real, reduzido que está à perceção individual. O indivíduo, no wokismo, é a medida de todas as coisas (coisas já sem substância nem consistência, pois totalmente dependentes do sujeito).

Perante o sufoco que uma tal abordagem gera em quem se detém a pensar nestas matérias, o livro deixa inúmeros sinais de que a procela possa estar a iniciar a dissipação. Mas muito há a fazer, em particular, no que respeita ao dever de se manter em estado de vigília e vigilância. É que, ironicamente, o wokismo nasceu de um torpor e adormecimento de que se aproveitou para se implantar, em nome de ser um despertador. Agora, começamos a esticar os braços e a espreguiçar-nos, mas ainda só estamos na aurora…

 

Na mesma página que o autor (citações)

‘O wokismo é […] um totalitarismo suave: pretende educar consciências, corrigir a linguagem, restringir o debate e condicionar comportamentos. Não promete amanhãs que cantam, mas dedica-se à reinvenção do passado com o mesmo zelo com que regula o presente. É sinal de um tempo de crise intelectual e moral, sintoma de uma época de angústias e, quiçá, prenúncio do fim de um ciclo.’ (Nogueira Pinto, Prefácio, p. 9)

‘A partir da influência da Teoria Crítica, a abordagem da questão colonial deixará de se nortear paulatinamente por uma abordagem histórica interessada em documentos e factos. Ela será conduzida doravante pela ideia arraigada de que o mundo se divide na confrontação entre opressor e vítima, havendo sempre dois discursos, duas narrativas, que expressam a relação conflitual. Por um lado, há o discurso do colonizador, falando de uma modernidade triunfante, de um pensamento universal, do progresso da ciência e das conquistas do conhecimento, do descobrimento da América, do «encontro de culturas e de uma humanidade reunida em torno de «valores universais». Por outro, o pressuposto discurso do colonizado: um discurso que, focado na vítima como conceito fundamental, denuncia a vontade de poder subjacente à modernidade como o seu lado obscuro. Este seria o discurso que, negando a perspetiva do colonizador europeu, compreenderia que a relação entre opressor e vítima não cessaria, na medida em que é o próprio colono que, pela sua simples presença e existência, subordinando-a, faz (ou inventa) a sua vítima.’ (Alexandre Franco de Sá, p. 54)

‘A pergunta de James H. Sweet [Is History History?] também se ajusta ao que se passa em Portugal, onde há uma torrente de gente woke, levas sucessivas de alunos e professores que as universidades, na área das ciências sociais e humanas, constantemente formam e deformam. É, tanto quanto posso avaliar, gente profundamente crente nos dogmas do pós-modernismo e motivada para a militância (e vigilância) woke contra aquilo a que chamam História feita à moda antiga, isto é, História positivista. Há, por isso, fortes razões para temer que, sem uma reacção da parte sã da sociedade, a acção deletéria destas pessoas e concepções provocará um abalo irremediável no cerne da investigação historiográfica, isto é, na busca da verdade e no respeito pelo rigor.’ (João Pedro Marques, p. 82)

‘[O] que é ensinado nas universidades, em particular no contexto anglo-americano [é] marcado pelo que Alexandre Franco de Sá chama «militantes intelectuais». Essa abordagem académica baseia-se nas ideias popularizadas no final da década de 1960, promovendo currículos desenhados a partir dos três argumentos seguintes:

- argumento identitário: a convicção de que a forma como vemos, interpretamos e conhecemos o mundo depende da nossa identidade (sexual, racial, etc.), pelo que não é possível falar de um mundo comum e objectivo que esteja para lá da nossa identidade;

- argumento das dinâmicas de poder: a convicção, inspirada no pensamento marxista, de que as dinâmicas sociais se traduzem sempre em dinâmicas de poder, pelo que aquelas identidades estão em permanente tensão e conflito para deverem e exercerem o poder;

- argumento activista: a convicção de que o privado é político, pelo que em todas as dimensões da nossa vida devemos estar conscientes da nossa identidade e do modo como ela resulta de uma situação de privilégio ou de opressão, para podermos agir sobre o mundo e transformar essas relações de poder.

A partir destes três pressupostos, generalizou-se no mundo académico anglo-americano um sentimento de desprezo perante os valores ocidentais tradicionais, entendidos como mero resultado de opressão da identidade branca (privilégio branco), em particular do homem branco (patriarcado branco), visando subordinar e oprimis as restantes identidades (negros, BIPOC, o Sul Global) para manter o seu poder e o seu privilégio. Este etno-masoquismo não é um sentimento generalizado na população: nasceu nas elites universitárias, mas tem vindo a aumentar a sua influência em resultado do crescente número de estudantes no ensino superior. É, por isso, um aspeto fundamental para compreender as divisões sociais actuais e os resultados políticos que surpreendem as elites políticas e intelectuais.’ (Patrícia Fernandes, pp. 90-91)

‘A partir do momento em que a busca da verdade passou a ser uma ideologia, não existem currículos ideologicamente neutros. Neste sentido, o embate educativo é ideológico.

Temos assistido a uma redução do assunto educativo artístico à visualidade que pretende expandir o olhar humano para aquilo que se pode ver e ser visto e que visa ampliar os temos da arte o restrito objecto de estudo que esta convoca, mas levanta questões que merecem uma tenta discussão sobretudo dentro de uma matriz cristã. Essa conformação à estrita visualidade das coisas deixa-nos susceptíveis à hiperimagem da abundância. É preciso ver menos para ver mais. […] Temos de nos recentrar na visualidade cristã do mundo. Uma visualidade intelectiva que vai muito para além daquilo que podemos ver e tocar. Voltar a ensinar a grande arte, o grande gosto e a grande cultura, que nos remeta para o significado original dessas criações artísticas. Mais do que destrezas e manualidades, a educação artística permite-nos a formulação de perguntas e mergulhar na profundidade do mistério humano.’ (Ricardo Roque Martins, pp. 123-124)

‘[…] a luta cultural preconizada pela Teoria Crítica é uma luta contra a biologia e que começa por atacar o próprio facto da sexualidade binária, sugerindo que a identidade sexual deve ser definida de forma mais diversa e fluída, desligada do corpo. É como se cada indivíduo tivesse simultaneamente potencialidades femininas e masculinas dentro de si, à espera de brotar, e a definição da sua identidade sexual fosse um processo de descoberta gradual, criativo e pretensamente livre de pressões normativas. Nessa linha, o corpo é entendido como uma prisão que pode ser um fardo por diferentes motivos. Especialmente para a mulher, no entendimento da maior parte das feministas, o maior fardo que o corpo lhes impõe é a potencialidade da gravidez, pois limita as suas possibilidades práticas durante, no mínimo, o longo período de gestação, e porque pode colidir com outros projectos pessoais, de ascensão profissional e com a plena possibilidades de gozo de cada momento.’ (Daniela Silva, p. 137)

‘Para Yoram Hazoni, o wokismo pegou nos conceitos marxistas de luta e exploração de classes e transferiu essa dialéctica, ou os polos dessa dialéctica – explorador-explorado, burguesia-proletariado -, para outras dicotomias. Assim, ali onde os marxistas-leninistas opunham as classes económico-sociais em guerra, os wokistas deixavam a imaginação dicotómica à solta, conforme as conveniências e a urgência da luta: «supremacias brancas versus povos racializados», «patriarcado versus mulheres», «heterossexuais cisgénero versus LGBTQ+» (Feser, 2023).’ (Jaime Nogueira Pinto, p. 151)

‘Questionar o movimento woke não é sinónimo de considerar que não existem oprimidos e opressores. Existem e sempre existirão. A forma de encarar tal equação é que será discutível e contestável. E neste caso, a condição de ressentimento que domina a cultura woke, como afilhada de um marxismo ressuscitado, alimenta uma visão bipolar e extrema, assente num malabarismo argumentativo que põe em causa a sabedoria popular, o que acaba por lhe retirar aprovação e adesão e, por consequência, angariar oposição e resistência. O pensamento woke é irrefutavelmente um pensamento que toma o niilismo no lugar da esperança, o relativismo no lugar do universalismo, e porventura é incompatível com a experiência humana.’ (João Pedro Marnoto, p. 188)

‘À falta de um contraponto à altura e na proporção ao nível da produção, só podemos contar, para inverter a tendência, com uma gradual reacção do público por cansaço ou overdose de doutrinação; com acções cívicas de protesto, oposição e boicote, como estão já a acontecer nos EUA por parte de grupos de cidadãos e de associações de pais e famílias, particularmente contra a wokíssima Disney; e com mudanças no mercado, ou seja, por quedas ou declínio das audiências e dos resultados comerciais, que se reflectirão no bolso de quem de direito e levarão eventualmente a um atenuar do conteúdo woke nas séries de televisão e streaming, ou mesmo a uma inversão radical do rumo. Se, como notou um analista do meio, «a indústria das imagens em movimento segue o som do dinheiro», talvez seja por aí que a maré do wokismo na ficção televisiva e em streaming possa começar a mudar.’ (Eurico de Barros, pp. 197-198)

‘A Ideia de que se pode combater injustiças e totalitarismos usando o humor é comprovadamente uma ideia da mais ternurenta inocência – e ignorância histórica e política. Os cabarés alemães nos anos de 1920 e 1930 eram bastante conhecidos pelas actuações de comediantes – e não evitaram o nazismo. As piadas soviéticas eram popularíssimas – e não evitaram o estalinismo. Henrique VIII tinha um bobo – que não evitou nenhuma decapitação. O humor pode servir para mostrar iniquidades, injustiças, desigualdades, vaidades e delírios. É habitual dizer-se que quando um sábio aponta para a Lua, o tolo olha-lhe para o dedo. É importante haver quem tenha essa vontade de olhar para o dedo do sábio, à procura de detalhes que outros não viam enquanto olhavam para a Lua. Mas daí a considerar que o papel do comediante é cortar o dedo do sábio, quando este discorda do tolo, ou tapar os olhos do tolo, quando se santifica o sábio, é um passo que muitos julgávamos não vir a presenciar neste século XXI.’ (Nuno Amaral Jerónimo, p. 206)

‘[…] desengane-se quem pensa que se trata de um combate ideológico restrito aos segmentos da direita: é um combate que pertence a toda a sociedade civil que renuncia a viver sob o jugo woke.

Após um período de descrença e de um certo declinismo – sentimentos, por sinal, compreensíveis e justificados -, há motivos para acreditar no reaparecimento do senso comum e na restauração da matriz cultural que nos define enquanto sociedade ocidental. Uma sociedade orientada para a liberdade, para o desenvolvimento e para as relações de respeito mútuo entre indivíduos, cientes dos seus direitos e deveres para que possam dar à comunidade aquilo que dela esperam.’ (Gonçalo Nabeiro, p. 221)

Para a difusão e enraizamento destas ideias perniciosas para a subsistência do Ocidente civilizado que conhecemos, foi condição necessária a substituição do primado do intelecto, próprio da filosofia clássica, pelo primado da vontade, que caracteriza a filosofia moderna. Mas isso não seria suficiente para que o wokismo vingasse como tem vindado: foi também preciso que houvesse fautores investidos em provocar o esmorecimento moral e civilizacional do Ocidente e idiotas úteis, disponíveis para colaborar no processo. Os últimos são conhecidos e estão aí: nas televisões e nos jornais, nos parlamentos e nos governos, nas ruas e nas redes sociais. Os primeiros são mais difíceis de descodificar, identificar ou mesmo revelar.’ (José Diogo Marques, p.226)

‘Não é para mim uma coincidência que os movimentos anti-woke estejam localizados, politicamente, junto da mesma direita que defende o fim da globalização globalista e o retorno da produção (que é o mesmo que dizer das empresas) às comunidades locais. Só o enraizamento do capitalismo nas comunidades locais permite verdadeiramente aproximar os gestores dos accionistas, reactivar o sentimento de pertença dos trabalhadores a um corpo, eliminando a relação distante que é inerente ao contrato de trabalho hiperliberal, e recuperar a noção de propriedade privada. Enquanto isso não acontecer, o líder-gestor-especialista continuará a impor à comunidade que serve […] aquilo que imagina como sendo o melhor para a comunidade, mesmo que a comunidade imagine o contrário. E, por isso, pelo menos no curto prazo, «DEI will not die».’ (José Bento da Silva, p. 272)

 

‘Para proteger a identidade de género, tudo é permitido. Inclusivamente, violar a consciência dos atletas, como no caso dos profissionais de futebol da Liga francesa, ou então, expor desportistas a formas de competição profundamente injustas, em que nunca conseguirão partir em pé de igualdade, como no caso da natação nos Estados Unidos. Pior do que isso, se necessário, expõe as mulheres a uma violência absolutamente inaceitável, como a de partilhar um balneário ou uma casa de banho com uma pessoa transgénero. […] A vitória woke é o triunfo dos derrotados que conseguem impor a sua derrota, perseguindo até às últimas consequências quem não quer ser derrotado como eles. Um acto de resistência à derrota tornou-se um passo para a conquista. A superação e a resiliência são características imprescindíveis para um desportista, e é tudo o que o wokismo pretende esmagar. Não podemos permitir.’ (José Maria Matias, p. 290.293)

‘Antes, não havia eleitores bons ou maus, esclarecidos ou equivocados. Havia eleitores, donos do seu voto, que os news media, por convicção ou comércio, respeitavam sem condições. Hoje, tal respeito, nas noites eleitorais e nos períodos intermédios, é uma memória remota e um anacronismo. Por convicção e por comércio.’ (Alberto Gonçalves, p. 303)

‘O caso Rocco Buttiglione ilustra como, numa primeira fase, as causas fracturantes se tornaram dominantes independentemente do apoio que essas mesmas causas colhiam na sociedade: as maiorias comportavam-se como derrotadas, os seus líderes optaram por centrar o seu discurso nas questões económicas e deixaram às minorias as questões de sociedade e culturais. […] Suprema ironia: enquanto destruía o centro-esquerda, o wokismo gerava o alargamento e a transformação da direita. Esta ganhou eleitores, mas olha-se ao espelho e não gosta do que vê. Não era assim que esperava ser. Mas vai ter de aprender a viver com isso porque na política nunca se volta ao que se foi.

Podia não ter sido assim? Precisamos de acreditar que sim, quanto mais não seja para continuarmos a acreditar que amanhã será diferente.’ (Helena Matos, pp. 320.327)

‘As ideias woke (como todas as ideias perversas) fizeram um caminho fácil de rastrear: pensadas na academia com base na interpretação enviesada dos fenómenos e realidades sociais, foram difundidas e até implementadas por ONG e movimentos que, ao nível local, promoviam, punham em prática e monitorização a implantação das mesmas. Massificadas pela comunicação social com base nos relatórios, casos e casinhos que as organizações de militância identificavam, chegam ao poder político depois de anos de sensibilização da opinião pública, que pressiona os políticos, dependentes/sedentos de votos, a adaptar o seu discurso e trabalho às novas reivindicações. […] É muito cedo para gritarmos que o wokismo morreu. Quem o faz, encara este tema com demasiada leviandade, sem perceber que este movimento foi até ao detalhe mais banal da nossa vida.’ (Rita Matias, pp. 332.346)

 


**(Título retirado de Daniel Faria, Dos líquidos, Porto, Edição Fundação Manuel Leão, 2000, p. 137)

*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Ensaios de liberdade', 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'

Foto recolhida da Leya online

sábado, fevereiro 07, 2026

Sabes, leitor... | 26 | Marca de água do livro 'Identidade e Família'

 

Rubrica ‘Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página’** | Marca de água de livros que deixam marcas profundas
Parceria: Federação Portuguesa pela Vida e Comissão Diocesana da Cultura

Luís Manuel Pereira da Silva*

O(s) autor(es) e a obra
António Bagão FÉLIX, Paulo OTERO, Pedro AFONSO e Victor GIL (Coord.), Identidade e Família: entre a consistência da tradição e as exigências da modernidade, Alfragide, Oficina do Livro, 20243.


‘Identidade e família: entre a consistência da tradição e as exigências da modernidade’ é uma obra coletiva. Reúne, após uma luminosa introdução, 22 artigos de algumas das mais destacadas personalidades nacionais. Qualquer dos nomes dispensa nota curricular. Cada nome é, por si, um currículo. A este mérito associa-se a coerência da obra; apesar de coletiva e de ter uma temática comum, surpreende que as abordagens não se sobreponham, dada a originalidade de cada linha de pensamento. Mérito dos autores, bem certo, mas também da coordenação bem articulada e que resulta, como é explicitamente referido, de intenção de corresponder à missão do ‘Movimento Acção Ética – Vida, Humanismo e Ciência’. O tema exigia, com efeito, que se olhasse a problemática da família sob múltiplos prismas.
Acresce a tudo isto uma virtualidade a sublinhar: os artigos dizem muito, argumentam com a clareza exigível, em curto espaço, equilibradamente definido e respeitado pelos autores.
Ora, a tudo isto se deve a ‘celeuma’ que a saída deste livro suscitou, em particular entre os indivíduos e movimentos que dizem não se identificar com a matriz presente neste livro. E a matriz pode enunciar-se de modo sintético: secundar o reconhecimento de que a família, instituição prévia ao Estado e que este deve reconhecer e proteger, nasce de uma condição natural do ser humano – nasce-se de um pai e uma mãe e a essa referência natural deverá reportar-se o ponto de partida para a discussão sobre o que é ser família.
Esta síntese que, há muito poucas décadas, soaria a ‘lugar-comum’ que rotularia como ‘banal e vulgar’ qualquer artigo, obviando a dispensa da continuidade da leitura, é, hoje, fonte de conflitos e prontamente etiquetada no armário das ‘conservas’ (sem que se apercebam, porém, de que o verdadeiro progresso da humanidade se pode resumir à história de como conservar o que, de outro modo, se esfumaria: conservámos na escrita a volatilidade da coloquialidade; conservámos em papel, em pergaminho e em tantos outros suportes a volatilidade dos registos; conservámos a energia porque a sua volatilidade nos impedia de poder continuar a beneficiar dela; conservámos os alimentos em arcas e frigoríficos para que a voragem do tempo não nos impedisse de os poder consumir por mais tempo; conservámos, conservámos, conservámos para poder ter futuro… De outro modo, tudo seria passado! Irónico, pois quem acusam de serem passadistas é aos conservadores, mas são eles, afinal, que garantem que possa haver futuro. A não ser assim, todo o presente rapidamente se torna passado. Conservando o que é importante, o presente pode aspirar a ter futuro!)
Mas a diversidade das origens dos autores e a lucidez das suas reflexões exigem que se seja mais prudente em tão pronta ‘etiquetagem’.
Apesar, porém, do nosso desejo sincero de que assim seja (que não se arrede da vista um livro conotado…), estamos em tempos em que se pretende ver a ‘bula’ do remédio para a sede de leitura antes de o ingerir. E já não o lemos ‘virgens’ de preconceitos, porque de preconceitos nos pretendíamos dispensar e libertar.
É este um dos maiores paradoxos do nosso tempo: de tanto se pretender despreconceituoso, nunca tanto deles dependemos e por eles nos dispensámos de ler o que caiu sob o rótulo de que deles enfermava.
Sabendo bem disso, os que perceberam perigo neste livro prontamente se encarregaram de sobre ele lançar a ‘lama’ de que seria um livro padecente de preconceitos para que, contaminado, dele não se abeirassem os que, por seu efeito, pudessem vir a ficar ‘enfermiços’.
Mas a obra ficou… A qualidade está ao alcance da leitura e do reconhecimento que aceite conferir-lhe o leitor honesto.

Marcas de água 

(o que fica depois de se deixar o livro)

A leitura, após a polémica que se gerou em torno deste livro, recordou-me o mito clássico de Cassandra.
Sobre Cassandra impende uma bênção e uma maldição. Tem o poder de prever o futuro (um dom reservado a muito poucos…), mas está amaldiçoada pela impossibilidade de ser ouvida e seguida pelos que a ouvirem. Previu que os gregos entrariam em Troia e avisou que o cavalo de madeira ‘estacionado’ junto às muralhas da cidade seria o instrumento com que aqueles entrariam e destruiriam a cidade, mas a sua visionária denúncia só recebeu indiferença. Não só não lhe ligaram como arrastaram para o interior da cidade o cavalo, tomando-o por ‘coroa de glória’ dos deuses…
A denúncia de que a família, que pede o ordenamento internacional que seja protegida, vive ‘sob ameaça’ por efeito de uma ‘liquidificação’ do conceito (expressão minha, mas que corresponde à abordagem defendida ao longo do livro) e por ação de ideologias que, por meios muito eficazes, têm conduzido aos resultados que estão diante de todos – crise demográfica, diluição dos laços familiares, aumento do número de nascimentos fora do contexto da estabilidade matrimonial, diminuição da taxa de nupcialidade e aumento da de divorcialidade, etc. – parece soar a discurso de uns ‘irredutíveis gauleses’ que, mais cedo do que tarde, serão vencidos. Mas os números não se referem a questões marginais, antes à própria solidez da condição humana como seres intrinsecamente relacionais e à garantia dos liames que estruturam a sociedade. Em causa está que, a diluir-se, em definitivo, a estrutura familiar, nos reduzamos ‘à imensa solidão das multidões’ (Manuel Monteiro), pois ‘numa sociedade em que a família perde o valor central, não há habitantes, mas, sim, gente.’ (Manuela Ramalho Eanes)
É por isso que este livro não é, apenas, um livro: é um candelabro erguido sobre o monte em noite sem luar.
Dramático?
Verdadeiramente dramático é nascer-se órfão de uma orfandade legitimada pela lei que, para atender a putativos direitos dos adultos a terem filhos como um objeto que se pode obter, se seja impedido de saber quem é o pai ou a mãe.
Dramático é não poder ver respeitado o direito a nascer numa família com a presença do pai e da mãe porque a lei liquefez os vínculos e permitiu que fosse mais fácil romper laços do que construí-los.
Dramático é nascer-se e permanecer-se filho único porque um idealismo quase platónico nos impede de aceitar que possamos não dar todas as coisas para que possamos dar muito mais daquilo que não se reduz à condição de coisa: a possibilidade de construir uma fraternidade.
Dramático é confundir desejos com direitos. Nem todo o desejo é, só por si, direito. Um direito nunca o poderá ser sobre a pessoa do outro. Dramático é, por isso, a redução dos outros à condição de objetos gerados para satisfação de desejos individuais. Essa é a rampa que despersonaliza e desumaniza. E parece que já nos decidimos, coletivamente, a deixarmo-nos deslizar por ela.
Este livro é, porém, nas suas propostas, também um luzeiro de esperança. São inúmeras as sugestões a tomar como sementes de futuro: da difusão do selo de reconhecimento de empresas familiarmente responsáveis à regulamentação do cuidador informal, dos modos de articulação entre gerações à ‘receita’ maternal contra o individualismo, são muitas as vias para que se opere a revolução que a família permitirá consumar.
Porque, como é recordado, cumprir-se-á Portugal quando se cumprir a família! (Cfr. Gonçalo Portocarrero de Almada)

 

Na mesma página que o autor (citações)

’Como disse o Conselho Pontifício Justiça e Paz, «a família encontra a sua legitimação na natureza humana e não no reconhecimento do Estado. A família não é, portanto, para a sociedade e para o Estado, antes a sociedade e o Estado são para a família».’ (Introdução, p. 14)

‘A família tem sabido, com mais ou menos obstáculos, conjugar três aspetos nucleares: evolução, plasticidade e unidade. Sendo o barómetro social que melhor transmite a tensão e a transição dos tempos, o seu ideal e a sua aspiração não mudaram, porém, na sua essência.’ (Introdução, p. 15)

‘Ultimamente, posições radicais e mediaticamente potenciadas pretendem desdenhar da instituição familiar, vista até como uma instituição ultrapassada. Existe uma indisfarçável pressão ideológica e económica para forçar o indivíduo a uma desvinculação familiar, retirando-lhe todo o sentido da pertença. O lema é «tu poder ser aquilo que tu queres».
Este radicalismo individualista é levado ao limite através da chamada ideologia de género. Sem qualquer base científica, esta ideologia defende que o género é construído apenas pela identidade psicológica de género do indivíduo, negando ou relativizando totalmente a identidade biológica. Esta, porém, não é atribuível, antes é parte integrante do indivíduo na sua diversidade e especificidade. Estamos assim perante um movimento ideológico com impacto na família, na educação, na socialização, na comunicação. A ideologia de género não é promotora da liberdade ou acolhedora da diferença, mas impositora de um novo modelo de pensamento único, comprometendo o desenvolvimento humano fundado em valores, formado na liberdade e autonomia e vocacionado para a felicidade.’ (Introdução, p. 16)

‘Esta obra tem tudo para constituir um livro-semente. Um livro que, queremos, faça despertar, sobretudo nas gerações jovens, desassossegos virtuosos em vez de indiferentismos viciosos. Um livro que nos ajude a germinar perguntas e a colher respostas. Um livro para sempre e não um livro de momento, tão mais significativo quando (sic) vivemos tempos de presentismo obsessivo e descartável.’ (Introdução, p. 17)

‘O ataque à família tradicional é uma estratégia política comum a todas as tiranias, já que a família fomenta uma relação harmoniosa e solidária entre os seus membros que se propaga na sociedade, contrariando os propósitos dos regimes totalitários. Fragilizar a família é comprometer a estabilidade social e a promoção de um bem comum.’ (Pedro Afonso, p. 22)

‘[…] a educação tem de ser realizada com base em três aspetos essenciais: amor, coerência e valores.’ (Pedro Afonso, p. 24)

‘A família é a primeira escola das virtudes sociais: onde se estabelecem relações de interdependência e solidariedade geracional. Ela também é um porto seguro em períodos de crise, de doença ou de qualquer infortúnio, oferecendo um apoio sólido, desinteressado e incondicional. Por isso é que a família deve ser valorizada e protegida pelo Estado, pois uma sociedade que não protege a família compromete o seu futuro.’ (Pedro Afonso, p. 31)

‘Do latim dignitas, dignitatis, que significa substancialmente merecimento, valor, nobreza, o termo dignidade refere-se ao valor em si que uma entidade tem, não equiparável, sem equivalente, portanto não transacionável. Este mesmo significado foi, aliás, sublinhado pelo Papa Francisco, poucos meses depois da sua eleição, ao dizer aos médicos de todo o mundo que «as coisas têm um preço e podem ser vendidas, mas as pessoas têm uma dignidade, valem mais do que as coisas e não têm preço».
Já a Comissão Teológica Internacional, em documento publicado em finais de Abril de 2019, se refere a este «valor em si, nunca transacionável, contido na noção de dignidade humana: «Num sentido muito geral, a dignidade remete para a inalienável perfeição do ser-sujeito na ordem ontológica, moral ou social. A noção emprega-se na ordem moral das relações intersubjetivas [e, portanto, também dentro da família] para designar aquilo que possui um valor em si mesmo e, portanto, não pode jamais ser tratado como se fosse um simples meio. A dignidade é assim uma propriedade inerente à pessoa enquanto tal.»’ (João Duarte Bleck, pp. 37-38)

‘Uma criança que cresce a ser «querida» vai internalizar um sentimento de pertença e de autoestima que lhe dará ferramentas para enfrentar as fases da vida que se seguem e que poderão trazer algumas provações…’ (Pureza de Mello, p. 45)

‘Compreender a importância da família na formação da identidade é, pois, uma exigência não negociável e não transmissível, que nenhum poder político pode ignorar ou corromper.’ (Manuel Monteiro, p. 53)

‘[…] a relação do Estado com as famílias deve nortear-se pelo princípio da subsidiariedade. A defesa deste princípio não implica, como é óbvio, a retirada do Estado de um dos fins que justifica a sua existência – o bem-estar social – implica apenas que o Estado saiba que pode melhor alcançar esse fim se deixar as famílias agir como famílias. Não se trata de lhes dar, bem pelo contrário, trata-se somente de lhes restituir o que nunca lhes deveria ter sido retirado: a liberdade com compromisso e com sentido de responsabilidade. É certo que esta atitude obriga a mudanças de pensamento, mas não é menos certo que sem essa mudança de pensamento todos continuaremos a caminhar para a imensa solidão das multidões.’ (Manuel Monteiro, p. 55)

‘[…] tudo isso que constitui a cultura como herança não-biológica do Homem é na família que primordialmente cada um a recebe; e é em família que consequentemente cada um explora dialogicamente essa cultura, cada um começa a participar na transformação interactiva dessa cultura interactivamente, ao passo que a sua consciência cognoscente e constituinte a vai sustentando criticamente em equação com os seus parâmetros axiológicos e éticos.’ (José Carlos Seabra Pereira, p. 63)

‘Este ataque à família não é virtual, pois as consequências estão já bem à vista: queda drástica da taxa matrimonial, que em Portugal de 1999 a 2019 caiu para metade, descida da taxa de natalidade e, mais significativo, subida espantosa da percentagem de nascimento fora do casamento, que em 1980 era 9%, em 2000 22%, mas já estava acima dos 60% em 2022. É isto, e nãos os esforços das «ideologias de género», que representa o verdadeiro descalabro da família.
A verdade, porém, é que os seres humanos, dentro de si, estão exatamente iguais ao que sempre foram; e nada daquilo que o exterior nos possa dar consegue substituir o amor, o calor, o conforto da família. A família não precisa de defesa, porque ela é nuclear, indispensável, insubstituível. Aquilo que temos de nos esforçar por defender é a sanidade e equilíbrio de tantos dos nossos que, deslumbrados pela ilusão urbana, destroem o seu coração. Quem precisa da nossa ajuda são, não as famílias, mas os pobres tontos que lutam contra e, por isso, contra si mesmos.’ (João César das Neves, p. 71)

‘Nas chamadas «culturas urbanas», sobretudo no mundo ocidental, encontramos ainda três outras atitudes que confrontam a noção de família tradicional. 1.ª – A existência e a promoção de «famílias alternativas», ou seja, por opção, sem pai ou sem mãe, ou com dois pais ou duas mães, ou ainda conjugações mais complexas. 2.ª – A noção ou convicção de que tudo o que a técnica é capaz de fazer (por exemplo, a cirurgia plástica e a engenharia genética…) se poder fazer. […] 3.ª – Tende a instalar-se a ideologia de género, como um dogma que não se pode contradizer. Porém, esta ideologia, embora seja apresentada como cura de traumas bio-psico-sociais não resolvidos, desvaloriza e rejeita a realidade biológica, propondo identidade subjetiva, emotiva, que levam a viver na mentira. Como se o sexo e o corpo fossem coisas que se tem e não um modo próprio de ser. Não temos corpo, somos corporais; não temos sexo, somos sexuados e em processo de maturação desde o pensamento à mais pequena célula onde os cromossomas se mantêm, masculinos ou femininos, apesar das maiores plásticas e de sofisticadas cirurgias e adaptações psíquica e sociais.’ (Vasco Pinto de Magalhães, pp. 76-77)

‘A família daqueles que me-amam-na-verdade é o lugar em que a identidade humana se desenvolve.‘ (Isabel Almeida e Brito, p. 88)

‘É na Família que tem origem o princípio da personalização, como evolução do ser humano para um ser pessoal. Numa sociedade em que a família perde o valor central, não há habitantes, mas, sim, gente. A Família aporta segurança, liberdade e felicidade aos seus membros, por esta ordem, porque não há felicidade sem liberdade, nem liberdade sem segurança.’ (Manuela Ramalho Eanes, p. 92)

‘«As mães são o antídoto mais forte contra o propagar-se do individualismo egoísta. “Indivíduo” quer dizer “que não se pode dividir”. As mães, ao contrário, “dividem-se”, a partir do momento que hospedam um filho para o dar à luz e fazer crescer.»’ (Papa Francisco, A família gera o mundo. Catequeses sobre a família, Lisboa, Paulus, 2016, p. 13) – Citado por Manuel Clemente, p. 100.

‘O Papa é muito sensível a este ponto e questiona: «…pergunto-me se a chamada teoria do género não é também expressão de uma frustração e resignação que visa anular a diferença sexual porque não se sabe confrontar com ela. Sim, corremos o risco de dar um passo atrás. Com efeito, a remoção da diferença é o problema, não a solução. Ao contrário, para resolver a suas problemáticas de relação, o homem e a mulher devem falar mais entre si, ouvir-se e conhecer-se mais, amar-se mais.»’ (Manuel Clemente, p. 102)

‘Perante tudo isto, o Papa acabará por conclamar: «Chegou a hora de os pais e as mães voltarem do seu exílio – porque se autoexilaram da educação dos próprios filhos – e recuperarem a sua função educativa» (p. 70).’ (Manuel Clemente, p. 103)

‘Tal como a infelicidade, a felicidade tem as suas histórias. Tal como a transgressão, a conformidade tem muitas variantes. As famílias felizes não são todas iguais nem são felizes da mesma maneira.’ (Jaime Nogueira Pinto, p. 110)

‘Reféns do subjetivismos contemporâneo, pode parecer-nos que estamos de mãos e pés atados. Mas talvez a família possa ser mais que o mero lugar em que a crise cultural aparece. Ela tem em si mesma, estou também eu seguro disso, o dinamismo de um caminho que pode proporcionar um novo grito – um novo cântico! – do humano. É que, nela, se mostra a essência do Homem e o próprio rosto de Deus.’ (Nuno Brás da Silva Martins, p. 118)

‘A evidência do tempo que passa deixa cada vez mais claro que vivemos uma época solteira de afectos, viúva de emoções e cada vez mais divorciada de compromissos.’ (Fernando Ventura, p. 121)

‘Teimamos em afirmar que a minha liberdade termina, quando começa a liberdade do outro… Será que nos damos conta, agora mais do que nunca, que é preciso ir mais longe? A ser assim, e a ser só assim, o outro é só uma barreira para a minha liberdade, alguém que de uma forma ou outra eu tenho de destruir, tenho de matar para ser livre….
Quando um dia entendermos que a nossa liberdade se pode alargar sempre que for unida à liberdade do outro, teremos entendido o mundo como um mosaico de diferentes cada um com as suas riquezas e os seus limites e, aí sim, poderemos ver nascer um mundo organizado no respeito pelo outro, que comigo é construção de uma liberdade sem fim.’ (Fernando Ventura, pp. 123-124)

‘A solidão maior não é a de não termos ninguém que goste de nós… a solidão maior é a de nós não termos ninguém a quem amar, ninguém a quem dizer todos os dias, pelo menos, eu gosto de ti.’ (Fernando Ventura, p. 125)

‘A sociedade democrática pressupõe a liberdade e a igualdade, a igualdade e a diferença e o valor inviolável da dignidade humana. Essa realidade inicia-se na família, encarada como instituição mediadora por excelência, fator de paz e de diálogo.’ (Guilherme D’Oliveira Martins, p. 130)

‘O social privado e o social público obrigam à consideração de mediadores sociais, capazes de regular os conflitos e de garantir uma função emancipadora, sendo a família reino do amor e a cidade reino do direito, devendo as duas realidades convergir e completar-se.’ (Guilherme D’Oliveira Martins, p. 133)

‘Se é verdade que todos os cristãos, e todos os homens de boa vontade, se devem sentir comprometidos com esta guerra de paz, é sobretudo à família que compete cerrar fileiras e avançar, sem medo, no caminho das reformas que se impõem. Neste sentido, hoje, mais do que nunca, há que promover o associativismo familiar, a participação cívica dos pais, bem como a intervenção política dos representantes das famílias.
A família é, verdadeiramente, a revolução que falta. […]
Nesta hora difícil para a instituição familiar, a ninguém é lícita uma passiva cumplicidade com as injustiças existentes, porque os tempos actuais são de acção e não de omissão.
Falta cumprir a família, falta cumprir Portugal!’ (Gonçalo Portocarrero de Almada, pp. 142.143)

‘Diz [a Constituição]: «Os pais têm o direito e o dever de educação dos filhos.» E acrescenta: «Incumbe ao Estado para protecção da família cooperar com os pais na educação dos filhos.» E remata: «Os pais e as mães têm direito á protecção da sociedade e do Estado na realização da sua insubstituível acção em relação aos filhos, nomeadamente quanto à sua educação.» Qual é a dúvida? Quanto à educação dos filhos, o primado é dos pais. É um direito natural constitucionalmente protegido. O Estado tem, na educação, uma função subsidiária.’ (José Ribeiro e Castro, p. 148)

‘[…] a conciliação entre a vida familiar e o trabalho constitui um factor fundamental do crescimento individual de cada colaborador assim como do sucesso das organizações.’ (Rui Diniz, p. 159)

‘Há evidência científica, como sabemos, de que a solidão mata mais do que muitas doenças; de que as redes sociais não substituem a presença, a expressão dos afetos, o olhar e o toque, embora, em tempos de pandemia, tenham ajudado a aproximar os que estavam longe; enfim… não pode ser delegada na tecnologia a substituição de quem quer que seja e a verdadeira proximidade.’ (Margarida Cordo, p. 164)

‘Os cuidadores informais, que são milhares no nosso país e a quem expressamos o nosso reconhecimento, não podem tornar-se invisíveis para os sistemas de saúde. Depende de todos nós, como sociedade, garantir que possam cumprir o seu papel com o apoio necessário e correcto. Importa que saibam e sintam que não estão sozinhos.
Não nos cansaremos de repetir que só uma sociedade que cuida dos mais frágeis e dos que deles cuidam se pode afirmar como uma sociedade avançada e moderna. Oxalá assim possa ser.’ (Isabel Galriça Neto, pp. 174-175)

‘A família é a primeira e mais básica das instituições sociais, antes de mais porque assegura a renovação das gerações. Podemos dizer que a primeira função de qualquer comunidade é assegurar a sua própria sobrevivência e renovação.’ (Pedro Vaz Patto, p. 180)

‘A família assente na riqueza da diferença e complementaridade entre as dimensões masculina e feminina, que só em conjunto compõem a riqueza integral do humano. Esta «unidade na diversidade» (a unidade a partir da mais básica e fundamental das diferenças) marca a família e, a partir dela e através da sua missão de educação das novas gerações, deve marcar toda a sociedade, que, toda ela, deve beneficiar da riqueza da diferença e complementaridade das dimensões masculina e feminina do humano.’ (Pedro Vaz Patto, p. 181)

‘Não se vence a crise demográfica sem vencer a crise da família. A rejeição do casamento como doação total e compromisso definitivo não pode deixar de traduzir-se na rejeição da natalidade. A fuga diante de escolhas definitivas, o viver projectado apenas no imediato, sem um projecto que envolva toda a vida, leva também à recusa da que é, talvez, a mais irreversível das opções: a de ter filhos.’ (Pedro Vaz Patto, p. 183)

‘Para superar a crise demográfica, importa, pois, contrariar a mentalidade que acentua o individualismo e rejeita os incómodos e sacrifícios que os filhos necessariamente acarretam. Mas há também uma mentalidade de aparente altruísmo que importa contrariar. A que se nota em expressões como esta: «Aos meus filhos quero dar o melhor, e só posso dar o melhor a um.» O melhor que se pode dar aos filhos é, porém, a possibilidade de conviver com vários irmãos, e assim beneficiar da melhor escola de socialidade (com as dificuldades inerentes a qualquer socialidade – é certo).
Saber que a vida é sempre um dom que compensa todos os sacrifícios – só com esta consciência pode ser vencida a crise de natalidade.’ (Pedro Vaz Patto, p. 184)

‘[…] Direito é Ética devem complementar-se […]’ (Raquel Brízida Castro, p. 192)

‘Não será exagero afirmar que as relações intrafamiliares nos preparam para a vivência em sociedade, tal como as disfuncionalidades intrafamiliares criam cicatrizes na identidade psíquica dos indivíduos que se projetam na sua conduta social.
A família torna-se, em suma, fonte da identidade de cada um: se a identidade biológica nos torna homens ou mulheres, a família modela os afetos, a educação e, por absorção ou antagonismo, os padrões axiológicos de convivência social.’ (Paulo Otero, p. 200)

‘Se destruir o modelo tradicional de família é a bandeira de certos grupos políticos apostados na instauração de uma nova ordem mundial de cariz totalitário, usando até o sistema educativo para doutrinar ou instrumentalizando a lei penal para criminalizar quem pensa diferente, defender esse modelo de família, denunciando as manobras atentatórias, e lutar pela sua dignificação como «núcleo natural e fundamental da sociedade» é imperativo de todos os Estados e uma vinculação de cada um de nós.
Pela salvaguarda de um tal modelo de família passa hoje a legítima defesa da nossa identidade e da nossa civilização – o próprio direito de resistência pode ser chamado a intervir, se a objeção de consciência não for suficiente.’ (Paulo Otero, p. 202)

‘Uma ciência e uma tecnologia que deixem de estar ao serviço da dignidade da pessoa humana, sem limites éticos, arrisca-se a tornar-se coveira da própria identidade humana e, por essa via, da nossa inserção no contexto da «família humana» - aqui reside, provavelmente, o maior desafio dos tempos modernos a esta nova forma de totalitarismo recriador de mitos hitlerianos.’ (Paulo Otero, p. 207)

 


**(Título retirado de Daniel Faria, Dos líquidos, Porto, Edição Fundação Manuel Leão, 2000, p. 137)

*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Ensaios de liberdade', 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'

Foto recolhida da Almedina

sexta-feira, janeiro 23, 2026

20 | Alberto Ferreyra | Mystérios lusitanos [contos - texto e locução] | Mistério na terra das langorinhas

 

Mystérios lusitanos | A vinte e três (23) de cada mês, habitamos o mundo pelo imaginário de Alberto Ferreyra...

(Nos ramos da escrita, repousam, vezes sem conta, as gralhas da distração, ocultas, sob múltiplos disfarces, até que alguém as enxote. Alberto Ferreyra contou com o fino olhar da sua amiga Teresa Correia, detentora do segredo da sua identidade, para afastar ou caçar o grasnar das gralhas. Está-lhe, por isso, muito grato...)

Alberto Ferreyra*


Uma suave brisa de outono desprendia, firme, as derradeiras folhas fragilmente presas às árvores. Do interior da Igreja parecia ouvir-se a doce melodia de um ‘requiem à minha mãe’, com a languidez de um murmúrio amargurado por perda precoce.
J. e M. desciam a rua que parecia cindir a esperança da Igreja do temor desesperado da derradeira morada do último adormecer.
Enrolados em quentes cachecóis, pois que o pedia aquele frio…
- Um cemitério, com as suas sepulturas em forma de cama… Um autêntico dormitório! Aqui se dorme, afinal! Para sempre? – J. lançava para o ar os pensamentos que assomavam ao mais íntimo de si. M. seguia, ao seu lado, sem dar conta do que lhe dizia o irmão. Contava, baixinho.
Assim foram até ao lugar das langorinhas, o vértice do mundo. A esquina para que confluem as vertiginosas descidas do tempo. Ficava encravada entre duas encostas: a de Sóligo e a do Cruzeiro. Uma convergência densamente humana.
J. ainda ousara quebrar aquele discreto sussurrar da irmã que continuava a contar.
- Nestas terras, há lendas por cumprir. Por estas montanhas se escondeu, outrora, um pastor que assistiu, no tempo dos mouros, ao abandono de uma moura esposa pelo seu marido violento. Em lugar incerto, mas não longe daqui, deixara-a, sozinha, transformada em pedra até ao dia em que florissem as beldroegas. O oculto pastor procurou quebrar tamanho feitiço, buscando saber o que seriam aquelas benfazejas verduras que, descobrindo-as, ele mesmo plantou, esperando voltar a ver encarnada aquela petrificada moura. Recuperada à carne, com ela casou .
M. nada ouvia. Contava, apenas.
Chegados às Langorinhas, detiveram-se. J. não resistia a comentar o significado que lhe parecia esconder-se sob aquele nome.
M. suspendeu as suas contagens, ainda que fixando onde ia.
- M., lembras-te de vir aqui, quando éramos pequenos? E de como sempre nos ficava a dúvida sobre se esta era a terra das langorinhas, se das longurinhas?
- Ou das ‘longarinas’? – Atalhou M., entusiasmada com a memória recuperada pelo irmão.
- Pode dever-se o nome ao facto de ser uma longa terra. Teria sentido ser ‘longurinha’.
- Mas também poderia ser por nela haver uma longa viga que prendesse as ramadas de outrora. Uma longarina. – Acrescentou M., participando no divertimento.
- Agrada-me mais ‘langorinhas’. A ideia da demora, da languidez…
M. meneou a cabeça, como se assentisse, e retomou a contagem. Saltou por cima de um pequeno rego de água e prosseguiu. Encaminhou-se para os degraus que levavam à leira sobranceira à terra que servia de margem ao maior dos regatos de água daquele lugar. Quatro, no total: um, maior, ao longo de toda a terra; um, a encimar a leira, e dois, a ladear todo aquele lugar.
- 483 passos até aqui. – Rematou M. E continuou, enquanto se preparava para colocar o pé no primeiro do sete degraus que levavam até à leira. – 484! 485! 486! 487! 488!489!
Ao chegar ao sexto degrau, M. parou. O sétimo degrau era o maior de todos. Uma espécie de patim sobre o qual se podia descansar, antes de avançar. M. deteve-se, longamente, a olhar para o último degrau e para a leira.
Ao centro, havia uma macieira. Sem folhas; estavam todas no chão. De cores diferentes, umas envelhecidas, outras mais novas. Nem uma folha havia nos ramos que, porém, apresentavam uma forma perfeita. Como se um jardineiro da maior mestria as houvesse podado. Vista de todos os ângulos, a forma daquela macieira parecia uma interrogação; um enorme e bem feito ponto de interrogação.
M. percorria, com o olhar, a singularidade daquele lugar. Nos ramos, deliciosas maçãs, apetitosas ao olhar; sedutoras!
J. aguardava, no primeiro dos degraus. O tempo parecia ter-se detido. Sem que se avistassem aves, sentiam-se os seus trinados. A forma daquela leira era perfeita, mas apenas ocupada por uma ímpar macieira.
M. decidiu não subir para o sétimo degrau. Desceu!
J. aguardava-a, sem pressas.
Encaminharam-se para os salgueiros ao fundo da terra, abeirando-se do ribeiro.
Pelas escadas, descia, entretanto, uma pequena serpente que M. não vira. Ter-se-ia assustado, ainda que o frio do outono fizesse adivinhar já não dever vir dali grande perigo.
Mas, ainda assim, ter-lhe-ia valido um susto.
- Nestas águas, apanhámos rãs. Era tão giro, M. Enquanto a avó tratava das cabras que tinha, num curral aqui perto.
- Falas como se eu não soubesse. Como se te dirigisses a alguém que nos estivesse a ouvir. Mas só aqui estamos nós…
Riram-se…
Mas o seu riso foi interrompido por passos.
- Parece-me que alguém se está a encaminhar para a leira.
Voltaram-se.
Reconheceram, ainda que envolvida nas vestes negras com que sempre se cobria depois da morte do marido e do filho único, a dona Micas. Uma mulher sofrida, cujo tempo se fizera de dores.
Perdera, em curto tempo, o marido, muito amado, e o filho único.
Nos seus olhos de mulher solitária, tinham secado as lágrimas. Dizia-se que passara a viver das dores dos outros. Procuravam-na, para nela encontrarem esperança, os mais desgraçados das redondezas. Não se percebia, porém, donde lhe vinha a força. Nunca se lhe ouvira um lamento.
Agora, estava ali.
M. pousara a mão no braço de J. e apertava-o, temendo que falasse.
Aguardava.
A dona Micas parara, com o pé direito pousado no primeiro degrau.
Elevara o olhar para a macieira, ao centro da leira.
Depois de um breve esperar, começara a subir. Sempre com o olhar elevado.
Chegada ao último e sétimo degrau, começara a soluçar.
Chorou, demoradamente.
Enrolou-se sobre si mesma. Era um choro só.
Depois, como se tomada por uma força sobre-humana, ergueu-se e dirigiu-se, vociferando, para a árvore.
Ao longe, M. e J. assistiam. Só viam o movimento dos braços daquela pobre mulher. Mas nada ouviam.
Dona Micas tinha o rosto hirto. Gritava. Barafustava. Desalinhava a roupa.
Subitamente, parecendo tomada de fúria, esticou a mão direita e prendeu uma das maçãs. Puxou-a, ligeiramente para si, como se a fosse arrancar.
Os seus olhos pareciam vermelhos de revolta.
O momento alongou-se…
A macieira, ao centro, despida de folhas; carregada de frutos.
Ao lado, sem fazer qualquer sombra no chão, aquela mulher; de pé, de negro, destemida!
Na sua mão, um dos frutos maduros daquela árvore solitária na perfeita leira ladeada por murmurantes regatos de água. Prendia-o à árvore apenas um já frágil pedúnculo, prestes a romper-se. O olhar daquela mulher parecia uma ameaça.
M. reparava, enquanto esta cena se detinha no tempo, como que eternizada, numa serpente que subia pelos degraus. Desejou avisar a mulher, mas a sua voz não se soltou.
Antes de se poder arrepender, aquela mulher largou o fruto e voltou a aligeirar os movimentos.
Voltou a alinhar a roupa, curvou-se sobre o chão. Tomou uma das folhas que guardou no bolso e desceu, pisando a cabeça da serpente, em rápida corrida.
Da árvore totalmente despida caiu uma folha, já seca.
Acordados daquele cristalizado momento, J. e M. seguiram no encalce daquela alíbera e viúva mulher, até à entrada da igreja, mas não mais a viram.
No cemitério ao lado, sobre a campa do mais novo adormecido, repousava uma pequena folha de macieira.


Imagem de Tumisu por Pixabay


*Alberto Ferreyra diz que as suas letras habitam a mente e saem da mão de alguém nascido em terras gaulesas, ainda que afirme, em sussurro, que o seu real nascimento ocorreu nas margens do Antuã, em abril de 2024. É, por isso, um prematuro autor literário, germinado da inspiração que a realidade proporciona quando se tem a companhia, nos livros, de génios como Jorge Luis Borges, Miguel Torga, Gabriel García Marquez ou personagens como Poirot ou Padre Brown.
 
Na sua escrita, cruzam-se o real e o imaginado, o fictício e o histórico, numa embrenhada teia em que o leitor continua a ler, mesmo já depois de fechado o conto. O real continua a fecundar histórias na mente de quem lê Ferreyra. Cada conto, feito dos mistérios desvelados, aproxima o tempo e distancia o espaço, esticando-o até ao eterno e ao infinito. Ao ler Ferreyra, faz-se 'silêncio' ('mystério' alude à etimologia grega da palavra, que remete para o 'fazer silêncio', 'emudecer-se'...) para que possam ecoar as palavras, para que possa desenovelar-se o enredo sucintamente desvelado.
 
J. e M., protagonistas de cada um dos contos, acompanhados, em alguns deles, pelo seu periquito 'branquinho', fazem emergir, do real em que se enredam, histórias que, nascendo da imaginação de Ferreyra, permanecem como realidades possíveis, deixando a suspeita de terem mesmo ocorrido.
Se não foi real, Ferreyra o criará, inspirado numa cosmovisão que tanto deve àquela religião que fez do encarnado a condição fundamental do existir.
 
A vinte e três (23) de cada mês, habitaremos o mundo pelo imaginário de Alberto Ferreyra...

terça-feira, janeiro 20, 2026

'Os Sete Dias da Criação' |7| Luís M. P. Silva - Ainda o primeiro dia: ‘No princípio criou Deus…’ – Deus Criador; não um demiurgo!

 

(‘Os Sete Dias da Criação’ | Rubrica dedicada ao diálogo entre ciência e religião)
Artigo originalmente publicado na revista 'Mundo Rural'

Luís Manuel Pereira da Silva*

A densidade de Gn 1,1 dá-nos pretexto para que regressemos, as vezes necessárias, a este versículo.

Faz-nos regressar a ele, destarte, a compreensão do alcance da ideia de ‘criação’. Apesar do paralelismo com que a nossa linguagem pretende aproximar este termo da ação do artista (quando, efetivamente, o movimento deveria ser o contrário: a ação do artista é que ‘se inspira’ na do Criador), fazendo supor a ideia de uma ação sobre matéria previamente dada, o texto de Génesis é inequívoco. Como lembra Gerhard von Rad, no seu clássico ‘o livro do Génesis’, o termo utilizado pelo autor bíblico, para se referir à ação criadora de Deus [é] ‘um criar carente por completo de analogias. Com razão se diz que o verbo bara’, ‘criar’ contém por um lado a noção de uma total ausência de esforço e por outro a ideia de uma creatio ex nihilo, pois nunca foi ligado à menção da matéria.’ (p. 58). Esta abordagem pode ser confirmada pela leitura da entrada «bara’» no dicionário de Luis Alonso Schökel que, após enunciar os diversos significados do termo (‘criar, dar o ser, tirar do nada, fazer, produzir, fundar, formar, plasmar’), acrescenta ‘o sujeito é Deus’ (p. 116).

A visão bíblica sobre a criação exclui, por isso, a conceção de um deus demiúrgico, tão aprazível aos gregos e aos mesopotâmicos, um ‘deus menor’ a quem cabia apenas moldar uma matéria pré-existente.

A visão sedutora de um deus demiúrgico, que erra na interpretação do texto bíblico que é inequívoco, fez ‘escola’ e encontrou, ao longo dos tempos, novos seguidores. Santo Agostinho, nos séculos IV e V, enfrenta uma das ‘cabeças da Hidra’ «demiúrgica» nos maniqueus, aos quais ele mesmo tinha pertencido até à sua conversão ao cristianismo, tendo, após essa ‘revolução espiritual’, dedicado particular atenção à destruição dessa abordagem sedutora, da qual, porém, ainda hoje se manifestam alguns lampejos na própria leitura de alguns cristãos.

Na verdade, à abordagem demiúrgica, que pensava Deus como um ‘criador de segunda ordem’, por apenas lhe caber moldar uma matéria pré-existente, associava-se a convicção inerente de que a Deus caberia atribuir a causa do bem, mas também do mal.

Santo Agostinho, na obra que sugiro, abaixo, enfrenta esta questão, afirmando que o mal é a ausência de bem[1], tal como as trevas são a ausência da luz e o silêncio a ausência do som. Reportando-se ao que é dito no versículo 4 (‘separou a luz das trevas’), o bispo de Hipona comenta que ‘não se diz neste passo «Deus fez as trevas» pois estas […] mais não são que a ausência da luz e, portanto, simplesmente procedeu à separação entre ambas. De igual modo nós, gritando, produzimos a voz; e estando calados, produzimos o silêncio, porque a cessação da voz é o próprio silêncio: e todavia, num certo sentido, distinguimos a voz do silêncio e a uma coisa chamamos voz e a outra chamamos silêncio.’ (p. 67)

Ora, uma ausência não carece de criador. Mas sim ‘algo’, o ‘ser’, carece de criador.

É toda uma outra visão da realidade.

Um deus demiúrgico molda, confusamente, o cosmos e o caos.

O Deus criador cria, do nada, algo. Esse algo é, em si mesmo, como dirá o autor bíblico, no mesmo versículo 4, ‘bom’. (Veremos, em outros momentos da nossa reflexão, o alcance total deste reconhecimento das realidades criadas como ‘boas’. Para já, enunciemos, apenas essa constatação.)

Ora, é de ‘criação’ que nos fala o autor bíblico. E, para o sublinhar, o autor deste primeiro relato da criação, autor que a análise exegética designa como ‘sacerdotal’ e identifica com a letra ‘P’ (de ‘Priester’) estrutura uma narrativa que, como bem constata D. António Couto, começa e acaba com a ideia de ‘criação’.

Na verdade, a primeira narrativa da criação compõe-se como uma unidade observável entre Gn 1,1 e Gn 2,4a. E, olhando com atenção, verificamos que esta estrutura literária começa com ‘no princípio, Deus criou?’ e termina, em Gn 2,4a, com ‘esta é a origem da criação dos céus e da terra’. (A tradução proposta por D. António Couto é ainda mais significativa: ‘No princípio CRIOU Deus os céus e a terra; […] Esta é a história dos céus e da terra quando foram CRIADOS’).

Não se está a falar de outra coisa, neste texto: apenas e só da ‘criação’.

E sublinhemos, para o objetivo que nos leva a formular estas reflexões [o encontro entre a ciência e a religião cristã], que o foco da reflexão não está no ‘modo como’ Deus cria, mas sim, na afirmação de que ‘Deus cria’, pelo que, ‘o que Deus cria’ tem o sinal de provir dele: a bondade intrínseca. Esta leitura da radical bondade originária contrasta, de forma surpreendente (‘inspirada’, diremos, enquanto religiosos), com as cosmologias circundantes ao povo hebreu: grega, babilónica, fenícia e egípcia (cfr. D. António Couto, p. 19). Nestas, o bem e o mal convivem e combatem-se, em plano de igualdade ou, até, no limite, dando a precedência ao mal em relação ao bem (o bem nasce do caos e fica em permanente ‘conivência’ (p. 18) com ele), não permitindo esperar uma salvação. A tal se deve a condição trágica das mitologias envolventes à leitura bíblica. E daí, também, ser de sublinhar a ‘novidade’ que esta traz.

Ainda que possa haver reminiscências das mitologias circundantes, nos termos originais hebraicos (a referência ao ‘abismo’ é uma delas, sendo que o termo hebraico «tehôm» (abismo) pode evocar a ideia de ‘Tiamat’, o monstro vencido na luta com Marduk, na mitologia mesopotâmica, com cuja carcaça se faz o céu), toda a narrativa toma essas ‘alusões’ e reminiscências para as reconfigurar num novo relato em que não há margem para ambiguidades: há um só Criador, que cria, pela sua vontade, a partir do nada, originando, do que é espiritual (bom em si mesmo), o que é material. Fica, assim, de um só ‘trago’, devorado todo o dualismo que opõe matéria a espírito, bem a mal, como se de duas naturezas antagónicas se tratasse. Com Santo Agostinho, poderemos concluir que o mal fica reduzido ao que é: um nada que é ausência!


Sugestões bibliográficas

Luis Alonso Schökel, Dicionário Bíblico Hebraico-Português, São Paulo, Paulus, 20146.

  1. António Couto, O livro do Génesis, Leça da Palmeira, Letras e Coiras-livros, 2013.

Santo Agostinho, Da interpretação do Génesis: dois livros contra os maniqueus, Prior Velho, Paulinas, 2021.

Gerhard von Rad, El libro del genesis, Salamanca, Ediciones Sígueme, 19887.


[1] Suportado na visão agostiniana, venho defendendo que o mal deveria pensar-se, antes, como a ‘insuficiência’ do bem, permitindo compreender, de forma mais compassiva, a destrutiva ação do mal moral, voluntariamente determinado ou consentido.

quarta-feira, janeiro 07, 2026

Sabes, leitor... | 25 | Marca de água de 'Antiqua et Nova': Nota sobre a relação entre a inteligência artificial e a inteligência humana

 


Rubrica ‘Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página’** | Marca de água de livros que deixam marcas profundas
Parceria: Federação Portuguesa pela Vida e Comissão Diocesana da Cultura

Luís Manuel Pereira da Silva*

O(s) autor(es) e a obra
DICASTÉRIO PARA A DOUTRINA DA FÉ E DICASTÉRIO PARA A CULTURA E A EDUCAÇÃO, Antiqua et Nova: Nota sobre a relação entre a inteligência artificial e a inteligência humana, Apelação, Paulus Editora, 2025..

Em 5 de junho de 2022, através constituição apostólica Praedicate Evangelium, o Papa Francisco fez uma reforma da Cúria romana de que se deu especial destaque à possibilidade aberta a todos os cristãos batizados de exercerem funções de governação na Cúria. Com esta reforma, constituiu o Dicastério para a Doutrina da Fé e o Dicastério para a Cultura e a Educação (que resulta da fusão entre a Congregação para a Educação Católica e o Conselho Pontifício para a Cultura), que assinam a nota que analisamos, agora.
São Prefeitos destes dois dicastérios o Cardeal Victor Manuel Fernández, que muitos consideram o ‘teólogo do Papa Francisco’, por serem notórias, nos escritos do pontífice argentino, as marcas do pensamento e estilo de escrita deste antigo reitor da Universidade Pontifícia da Argentina e arcebispo de La Plata, e o nosso Cardeal José Tolentino de Mendonça.
Num registo subjetivo, ouso evidenciar o significado da confluência dos esforços destes dois dicastérios para o documento aqui em análise.
Sendo evidente as implicações culturais e educativas da ‘inteligência artificial’, poderia suscitar interrogação o envolvimento da ‘doutrina da fé’ nesta matéria.
Uma leitura do artigo 69.º da Constituição apostólica Praedicate Evangelium aguçará o gume da interrogação que, porém, com a leitura da nota ‘antiqua et nova’, se tornará menos cortante. Percebe-se, por esta leitura, que o alcance antropológico da ‘inteligência artificial’ lhe confere o papel de catalisadora de um processo a que Francisco ousou designar como de ‘mudança de época’ (n.º4). Um tal alcance justifica o envolvimento do Dicastério da Doutrina da Fé numa reflexão desta natureza, dado que a sua missão é ‘[…] é ajudar o Romano Pontífice e os Bispos no anúncio do Evangelho em todo o mundo, promovendo e tutelando a integridade da doutrina católica sobre a fé e a moral, como a recebe do depósito da fé e resulta de um entendimento cada vez mais profundo do mesmo face às novas questões.’ (Praedicate Evangelium, n.º 69).
É, por isso, digna de registo esta capacidade de antecipação, revelada pela Igreja Católica com a publicação deste documento. Contrariando o preconceito de ter uma atitude reativa, a equilibrada abordagem evidenciada neste documento confere uma natureza ‘profética’ (utilizando a terminologia teológica tantas vezes sublinhada, após o concílio Vaticano II, repercutindo o lastro veterotestamentário desta consideração) à proposta aqui sustentada.
Convenço-me, aliás, de que este documento será revisitado, vezes sucessivas, por quem pretende olhar com objetividade para as oportunidades e desafios colocados pela Inteligência Artificial, evitando Cila e Caríbdis.

Marcas de água 

(o que fica depois de se deixar o livro)

Os discursos sobre a ‘Inteligência Artificial’ andam entre o medo (que a demoniza) e o fascínio (que a idolatra). ‘Antiqua et Nova’ encaminha o barco do pensamento entre as ciladas de ambos os promontórios.
Desde logo, ousando questionar a própria designação, que considera equívoca e ‘falaciosa’ (n.º 35), situando no devido registo o potencial que este recurso nos proporciona. O documento é inequívoco no reconhecimento de que a ‘inteligência’, por não ser, apenas, uma potencialidade técnica e operativa, é um exclusivo humano (e divino, bem certo!), devendo-se apenas por analogia referir que o que se opera, pela ‘IA’, seja, de facto, ‘inteligência’.
Um tal reconhecimento coloca, no devido âmbito, o que seja a ‘inteligência artificial’: um meio. Um meio carregado de potencialidades, mas um meio.
Esta leitura permite recuperar o reconhecimento da centralidade do critério ético que atribui apenas ao ser humano a condição de fim, devendo ser, sempre, tratado como meio aquilo que o é: os instrumentos de que dispomos para melhor conhecer o ‘mundo’.
A este reconhecimento associa-se, naturalmente, a interrogação sobre a dimensão da responsabilidade, matéria excruciante na abordagem sobre a inteligência artificial: sendo a IA um instrumento jamais se lhe poderá atribuir a condição de ‘entidade responsável’ pelas ações que ela opere.
Desta constatação advêm as múltiplas consequências nos diversos âmbitos do agir humano em sociedade pelos quais circula este documento: as relações laborais, a saúde, a educação, a desinformação, a proteção da casa comum, a guerra e a própria relação do humano consigo mesmo e com Deus. Em todos estes âmbitos se coloca a questão fundamental de saber se a IA nos auxilia ou nos substitui, nos humaniza ou nos desumaniza.
Em todas estas circunstâncias, a posse de conhecimento deverá encaminhar-se para além de si mesmo, em direção à verdade, que implica, sempre, uma inteligência capaz de discernir entre o erro e a coerência, possibilidade reservada ao humano, criado como ser autónomo, livre e, por isso, capaz de responder pelas suas decisões (é isso a ‘responsabilidade’).
‘Antiqua et Nova’ contribuirá, certamente, para uma leitura mediocrática (não do ‘medíocre', mas sim ‘do justo equilíbrio’) do mundo que a IA abre diante de nós: entre a Cila da idolatria e a Caríbdis da demonização. E contribuirá, também, para que se compreenda que da Igreja Católica se pode esperar ser a sábia jangada com que cruzaremos os mares que banham os promontórios da História.

 

Na mesma página que o autor (citações)

‘A tradição cristã considera o dom da inteligência um aspeto essencial da criação do ser humano «à imagem de Deus» (Gn 1,27). Partindo de uma visão integral da pessoa e da valorização do chamamento a «cultivar» e «cuidar» a terra (cf. Gn 2, 15), a Igreja sublinha que este dom deveria encontrar expressão através de um uso responsável da racionalidade e da capacidade técnica ao serviço do mundo criado.’ (n.º1)

‘As capacidades e a criatividade do ser humano vêm d’Ele e, quando usadas corretamente, dão glória a Deus, enquanto reflexo da sua sabedoria e bondade.’ (n.º2)

‘[…] existe um amplo consenso de que a IA marca uma nova e significativa fase na relação da Humanidade com a tecnologia, colocando-se no centro daquilo que o Papa Francisco descreveu como uma «mudança de época». […] Uma vez que a IA continua a avançar rapidamente para patamares cada vez maiores, é extremamente importante considerar as suas implicações antropológicas e éticas. Isto passa não só por mitigar riscos e a prevenção dos danos, mas também a garantia de que as suas aplicações são direcionadas à promoção do progresso humano e do bem comum.’ (n.º4)

‘[Neste documento], pretende-se, em primeiro lugar, distinguir o conceito de “inteligência” em referência à IA e aos seres humanos. Em segundo lugar, considera-se a perspetiva cristã sobre a inteligência humana, oferecendo um quadro geral de reflexão baseado na tradição filosófica e teológica da Igreja. De seguida, propõem-se algumas linhas orientadoras com o objetivo de assegurar que o desenvolvimento e a utilização da IA respeitam a dignidade humana e promovem o desenvolvimento integral do indivíduo e da sociedade.’ (n.º6)

‘Embora cada aplicação da IA ‘estreita’ esteja calibrada para uma tarefa específica, muitos investigadores esperam chegar à chamada “inteligência artificial geral” (AGI),ou seja, a um único sistema o qual, operando em todos os domínios cognitivos, seria capaz de realizar qualquer tarefa ao alcance da mente humana. Alguns defendem que tal IA poderá um dia atingir o estádio de “superinteligência”, ultrapassando a capacidade intelectual humana, ou contribuir para a “superlongevidade” graças aos avanços na biotecnologia. Outros receiam que estas possibilidades, por mais hipotéticas que sejam, venham um dia a ofuscar a própria pessoa humana, enquanto outros acolhem com agrado esta possível transformação.’ (n.º9)

‘No que diz respeito ao ser humano, a inteligência é, de facto, uma faculdade relativa à pessoa como um todo, enquanto, contexto da IA, é entendida num sentido funcional, assumindo frequentemente que as atividades características da mente humana podem ser decompostas em etapas digitalizadas, de modo a que as máquinas também as possam replicar.’ (n.º10)

‘[…] no caso da IA, a “inteligência” de um sistema é avaliada de forma metodológica, mas também reducionista, com base na sua capacidade de produzir respostas adequadas, ou seja, aquelas que estão associadas ao intelecto humano, independentemente da forma como essas respostas são geradas.’ (N.º11)

‘Para o efeito, convém recordar que a riqueza da tradição filosófica e da teologia cristã oferece uma visão mais profunda e abrangente da inteligência, que, por sua vez, é central no ensinamento da Igreja sobre a natureza, a dignidade e a vocação da pessoa humana.’ (n.º12)

‘Desde os primórdios da reflexão da humanidade sobre si própria, a mente tem desempenhado um papel central na compreensão do que significa ser “humano”. Aristóteles observou que «todos os seres humanos tendem, por natureza, para o conhecimento». Este conhecimento humano, com a sua capacidade de abstração que apreende a natureza e o significado das coisas, distingue-os do mundo animal. A natureza exata da inteligência tem sido objeto de investigação por parte de filósofos, teólogos e psicólogos, que se debruçaram também sobre o modo como o ser humano compreende o mundo e faz parte dele, ocupando neles um lugar peculiar. Através destas pesquisas, a tradição cristã chegou a compreender a pessoa como um ser constituído por corpo e alma, ambos profundamente ligados a este mundo e, ao mesmo tempo, indo para além dele.’ (n.º13)

‘Na tradição clássica, o conceito de inteligência é frequentemente declinado nos termos complementares de “razão” (ratio) e “intelecto” (intellectus). Não se trata de faculdades separadas, mas, como explica São Tomás de Aquino, de dois modos de atuação da mesma inteligência: «o termo intelecto deriva da íntima penetração da verdade; enquanto razão deriva da busca e do processo discursivo». Esta descrição concisa permite-nos destacar as duas prerrogativas fundamentais e complementares da inteligência humana: intellectus refere-se à intuição da verdade, ou seja, à sua apreensão com os “olhos” da mente, que precede e funda a própria argumentação, enquanto a ratio diz respeito ao raciocínio propriamente dito, ou seja, ao processo discursivo e analítico que conduz ao juízo. Juntos, intelecto e razão constituem as duas faces do único ato de intelligere, «a operação do homem enquanto homem».’ (n.º14)

‘Apresentar o ser humano como um ser “racional” não significa reduzi-lo a um modo específico de pensamento; significa antes reconhecer que a capacidade de compreensão intelectual da realidade molda e permeia todas as suas atividades, constituindo, além disso, exercitada para o bem e para o mal, um aspeto intrínseco da natureza humana.’ (n.º15)

‘O pensamento cristão considera as faculdades intelectuais no quadro de uma antropologia integral que concebe o ser humano como um ser essencialmente corpóreo. Na pessoa humana, o espírito e a matéria «não são duas naturezas unidas, mas a sua união forma uma única natureza». Por outras palavras, a alma não é a “parte” imaterial da pessoa contida num corpo, assim como este não é o invólucro exterior de um “núcleo” subtil e intangível, mas é o ser humano inteiro que é, ao mesmo tempo, material e espiritual.’ (n.º16)

‘[…] o espírito humano não realiza o seu modo normal de conhecimento sem o corpo. Deste modo, as capacidades intelectuais do ser humano são parte integrante de uma antropologia que reconhece que ele é uma «unidade de alma e corpo».’ (n.º17)

‘(…) a inteligência humana não é uma faculdade isolada, mas exerce-se nas relações, encontrando a sua plena expressão no diálogo, na colaboração e na solidariedade. Aprendemos com os outros, aprendemos através dos outros.’ (n.º18)

‘Mais sublime ainda do que saber muitas coisas é o compromisso de cuidar uns dos outros, porque mesmo que «eu conhecesse todos os mistérios e tivesse toda a ciência […] se não tivesse caridade, nada seria» (1Cor 13,2).’ (n.20)

‘A inteligência humana é, em última análise, um «dom de Deus feito para colher a verdade». No duplo sentido de intellectus-ratio, ela permite à pessoa penetrar nas realidades que ultrapassam a mera experiência sensorial ou a utilidade, porque o «desejo da verdade pertence à própria natureza do homem. Interrogar-se sobre o porquê das coisas é uma propriedade natural da sua razão». (N.º21)

‘Como observa o Papa Francisco, «na era da inteligência artificial, não podemos esquecer que a poesia e o amor são necessários para salvar o humano».’ (n.º 27)

‘Segundo o seu desígnio, a inteligência, entendida em sentido pleno, inclui também a possibilidade de saborear o verdadeiro, o bom e o belo, pelo que se pode dizer, segundo as palavras do poeta francês do século XX, Paul Claudel, que a «inteligência não é nada sem deleite». Também Dante Alighieri, quando alcança o mais alto dos céus, no Paraíso, pode testemunhar que o ponto culminantes deste prazer intelectual se encontra na «Luz intelectual, cheia de amor; / amor do verdadeiro bem, cheia de alegria; /alegria que transcende toda a tristeza».’ (n.º28)

‘[…] uma correta conceção da inteligência humana não pode reduzir-se à mera aquisição de factos ou à capacidade de realizar certas tarefas específicas; pelo contrário, implica a aberta da pessoa às questões últimas da vida e reflete uma orientação para o Verdadeiro e o Bem. […] A verdadeira intelligentia é plasmada pelo amor divino, que «foi derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo» (Rm 5,5). Daqui se deduz que a inteligência humana possui uma dimensão contemplativa essencial, ou seja, uma abertura desinteressada ao que é Verdadeiro, Bom e Belo para além de qualquer utilidade particular.’ (n.º29)

‘[…] embora a IA processe e simule certas expressões de inteligência, esta permanece fundamentalmente confinada a um domínio lógico-matemático, o que lhe impõe certas limitações inerentes. Enquanto a inteligência humana se desenvolve continuamente de forma orgânica no decurso do crescimento físico e psicológico de uma pessoa e é moldada por uma miríade de experiências vividas no corpo, a IA não tem capacidade para evoluir neste sentido. Embora os sistemas avançados possam “aprender através de processos como a aprendizagem automática, este tipo de formação é essencialmente diferente do desenvolvimento do crescimento da inteligência humana, uma vez que esta é moldada pelas suas experiências corporais: estímulos sensoriais, respostas emocionais, interações sociais e o contexto único que caracteriza cada momento. Estes elementos moldam e formam o indivíduo na história pessoal. Em contrapartida, a IA, que não tem um corpo físico, baseia-se no raciocínio e na aprendizagem computacionais sobre vastos conjuntos de dados que incluem experiências e conhecimentos recolhidos pelos seres humanos.’ (n.º31)

‘[…] embora a IA possa simular alguns aspetos do raciocínio humano e realizar certas tarefas com uma rapidez e eficiência incríveis, as suas capacidade computacionais representam apenas uma fração das possibilidades mais vastas da mente humana.’ (n.º32)

‘Ao estabelecer uma equivalência demasiado forte entre a inteligência humana e a IA, corre-se o risco de sucumbir a uma visão funcionalista, segundo a qual as pessoas são valorizadas em função das tarefas que podem realizar.’ (n.º34)

‘À luz de tudo isto, como observa o Papa Francisco, «o próprio uso da palavra “inteligência”» para se referir à IA «é falacioso» e corre o risco de fazer esquecer o que há de mais precioso na pessoa humana. Nesta perspetiva, a IA não deve ser vista como uma forma artificial de inteligência, mas como um dos seus produtos.’ (n.º35)

‘Podemos reconhecer com gratidão que a tecnologia «deu remédio a inúmeros males, que afligiam e limitavam o ser humano», e todos nos podemos regozijar com este facto. Todavia, nem todas as inovações tecnológicas representam, por si mesmas, um verdadeiro progresso. Por isso, a Igreja opõe-se de modo particular às aplicações que ameaçam a santidade da vida ou a dignidade da pessoa. Como qualquer outra atividade humana, o desenvolvimento tecnológico deve ser orientado para o serviço da pessoa e contribuir para a realização de «mais justiça, mais fraternidade mais ampla e uma organização mais humana das relações sociais» que têm «mais valor que os progressos no domínio técnico». As preocupações com as implicações éticas do desenvolvimento tecnológico são partilhadas não só pela Igreja, mas também pelos cientistas, pelos estudiosos da tecnologia e pelas associações profissionais, que apelam cada vez mais a uma reflexão ética para orientar responsavelmente este progresso.’ (n.º40)

‘Para responder a estes desafios, é necessário chamar a atenção para a importância da responsabilidade moral baseada na dignidade e na vocação da pessoa. […] Entre uma máquina e um ser humano, só este último é verdadeiramente um agente moral, ou seja, um sujeito moralmente responsável que exerce a sua liberdade nas suas decisões e aceita as consequências;[…]’ (n.º39)

‘Como qualquer produto do engenho humano, também a IA pode ser orientada para fins positivos ou negativos. […] Onde a liberdade do homem permite a possibilidade de escolher o que é mau, a avaliação moral desta tecnologia depende da forma como é endereçada e utilizada.’ (n.º40)

‘[…] tanto os fins como os meios utilizados numa determinada aplicação da IA, bem como a visão geral que ela encarna, devem ser avaliados para garantir que respeitam a dignidade humana e promovem o bem comum.’ (n.º42)

‘O compromisso de garantir que a IA defenda e promova o valor supremo da dignidade de cada ser humano e a plenitude da sua vocação é um critério de discernimento […].’ (n.º43)

‘A análise das implicações deste princípio pode, portanto, começar por considerar a importância da responsabilidade moral. Uma vez que a causalidade moral em sentido pleno só pertence aos agentes pessoais, e não aos artificiais, é da máxima importância poder identificar e definir quem é responsável pelos processos de IA, especialmente aqueles que incluem possibilidades de aprendizagem, correção e reprogramação. […] Para resolver este problema, há que ter em atenção a natureza dos processos de atribuição de responsabilidade (accountability) em contextos complexos e com elevada automatização, em que os resultados são, muitas vezes, apenas observáveis a médio-longo prazo. Por conseguinte, é importante que a pessoa que toma decisões com base na IA seja responsabilizada pelas mesmas e que seja possível prestar contas da utilização da IA em todas as fases do processo de decisão.’ (n.º44)

‘Além da determinação das responsabilidades, é necessário estabelecer quais são os objetivos atribuídos aos sistemas de IA. […] Coloca-se assim o problema crítico de como garantir que os sistemas de IA sejam ordenados ao bem das pessoas e não contra elas.’ (n.º45)

‘[…] o conceito de “responsabilidade” deveria ser entendido não apenas no seu sentido mais restrito, mas como «cuidar do outro, e não apenas […] prestar contas do que se fez».’ (n.º47)

‘O Papa Francisco advertiu que «os dados obtidos até agora parecem sugerir que as tecnologias digitais tenham servido para aumentar as desigualdades no mundo. Não só diferenças na riqueza material, que são importantes, mas também diferenças no acesso à influência política e social». Neste sentido, a IA poderia ser utilizada para prolongar situações de marginalização e discriminação, criar novas formas de pobreza, alargar o “fosso digital” e agravar as desigualdades sociais.’ (n.º52)

‘[…] o facto de a maior parte do poder sobre as principais aplicações de IA estar, atualmente, concentrado nas mãos de algumas empresas poderosas levanta preocupações éticas significativas. A agravar este problema está também a natureza intrínseca dos sistemas de IA, em que nenhum indivíduo consegue fazer uma supervisão completa dos vastos e complexo conjuntos de dados utilizados para o cálculo.’ (n.º53)

‘Além disso, existe o risco de a IA ser utilizada para promover aquilo a que o Papa Francisco chamou de «paradigma tecnocrático», que pretende resolver todos os problemas do mundo apenas com meios tecnológicos. […] a IA deve ser posta «ao serviço de um outro tipo de progresso, mais saudável, mais humano, mais social e mais integral.’ (n.º54)

‘Para alcançar tal objetivo, é necessária uma reflexão mais profunda sobre a relação entre autonomia e responsabilidade, porque uma maior autonomia implica uma maior responsabilidade de cada pessoa nos vários aspetos da vida em comum. Para os cristãos, o fundamento desta responsabilidade é o reconhecimento de que todas as capacidades humanas, incluindo a autonomia da pessoa, provêm de Deus e têm por objetivo ser postas ao serviço dos outros.’ (n.º55)

‘[…] Embora a IA “generativa” seja capaz de produzir textos, discursos, imagens e outros outputs avançados que são, normalmente, ações de seres humanos, deve ser entendida pelo que é: uma ferramenta, não uma pessoa.’ (n.º59)

‘[…] deve ser sempre evitada a representação errónea da IA como uma pessoa, e fazê-lo para fins fraudulentos constitui uma grave infração ética que pode corroer a confiança social.’ (n.º62)

‘Num mundo cada vez mais individualista, há quem se tenha voltado para a IA em busca de relações humanas profundas, de simples companheirismo ou mesmo de laços afetivos. No entanto, embora reconhecendo que os seres humanos são feitos para viver relações genuínas, deve ser reiterado que a IA só as pode simular.’ (n.º63)

‘[…] ao contrário dos benefícios anunciados, as atuais abordagens tecnológicas podem, paradoxalmente, desqualificar os trabalhadores, sujeitá-los a uma vigilância automatizada e relega-los para tarefas rígidas e repetitivas.’ (n.º67)

‘[…] Se for utilizada para substituir os trabalhadores humanos em vez de os acompanhar, existe um «risco substancial de uma vantagem desproporcionada para alguns à custa do empobrecimento de muitos».’ (n.º68)

‘[…] é bom ter sempre presente que «a ordem das coisas deve estar subordinada à ordem das pessoas e não ao contrário».’ (n.º69)

‘[…] a IA deve ajudar, e não substituir, o discernimento humano, assim como nunca deve degradas a criatividade ou reduzir os trabalhadores a meras «engrenagens de uma máquina».’ (n.º70)

‘«Temos de romper com o imaginário da educação, segundo o qual educar consiste em encher a cabeça de ideias. Desta forma, educamos autómatos, macrocéfalos, não pessoas. Educar é correr riscos na tensão entre cabeça, coração e mãos.»’ (n.º78)

‘A presença física do professor cria uma dinâmica relacional que a IA não pode reproduzir, uma dinâmica que aprofunda o compromisso e alimenta o desenvolvimento integral do estudante.’ (n.º79)

‘[…] a vasta utilização da IA na educação poderia levar a uma maior dependência dos estudantes em relação à tecnologia, afetando a sua capacidade de desenvolver determinadas atividades de forma autónoma e agravando a sua dependência dos ecrãs.’ (n.º81)

‘Em vez de formar os jovens para acumularem informação e darem respostas rápidas, a educação deveria «envolver a tarefa de promover liberdade responsáveis, que, nas encruzilhadas, saibam optar com sensatez e inteligência».’ (n.º82)

‘[…] a utilização da IA deve ser sempre transparente e nunca ambígua.’ (n.º84)

‘[…] À medida que deepfakes induzem as pessoas a questionar tudo, num panorama em que prolifera o conteúdo falso gerado pela IA, corrói-se a confiança no que é visto e ouvido, e a polarização e o conflito só aumentarão. Um engano assim generalizado não é um problema menor: atinge o coração da Humanidade, demolindo a confiança fundamental sobre a qual as sociedades se regem.’ (n.º88)

‘Combater as falsificações alimentadas pela IA não é apenas um trabalho dos especialistas do setor, mas exige os esforços de todas as pessoas de boa vontade.’ (n.º89)

‘O risco de vigilância excessiva deve ser monitorizado por organismos de controlo adequados, de modo a garantir a transparência e a responsabilidade pública.’ (n.º93)

‘Embora as capacidades analíticas da IA possam ser utilizadas para ajudar as nações a procurar a paz e a garantir a segurança, a «utilização bélica da inteligência artificial» pode ser altamente problemática.’ (n.º99)

‘As atrocidades já cometidas a longo da história da Humanidade são suficientes para suscitar profundas preocupações quanto ao potencial abuso da IA.’ (n.º102)

‘[…] a presunção de substituir Deus por uma obra das próprias mãos é idolatria, contra a qual a Sagrada Escritura adverte (por exemplo, Ex 20,4M 32,1-5; 34,17). Além disso, a IA pode ser ainda mais sedutora do que os ídolos tradicionais: ao contrário destes últimos, que «têm boca e não falam, têm olhos e não vêem, têm ouvidos e não ouvem» (Sl 115,5-6), a IA pode “falar” ou, pelo menos, dar a ilusão de o fazer (cf. Ap 13,15). É preciso não esquecer que a IA não passa de um pálido reflexo da Humanidade, produzida por mentes humanas, treinada a partir de material produzido por seres humanos, predisposta a estímulos humanos e sustentada por trabalho humano. […] Em última análise, não é a IA que é deificada e adorada, mas o ser humano, que se torna, assim, escravo da sua própria obra.’ (n.º105)

‘«quanto mais cresce o poder do ser humano, mais se estende e alarga a sua responsabilidade».’ (n.º108)

‘Só a pessoa humana pode ser considerada moralmente responsável, e os desafios da sociedade tecnológica dizem respeito, em última análise, ao se espírito. Por isso, enfrentar estes desafios «exige um revigoramento da sensibilidade espiritual».’ (n.º111)

 


**(Título retirado de Daniel Faria, Dos líquidos, Porto, Edição Fundação Manuel Leão, 2000, p. 137)

*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Ensaios de liberdade', 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'

Foto recolhida da Editora Paulus

Sabes, leitor... | 27 | Marca de água do livro 'Woke fizemos?'

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