sexta-feira, janeiro 23, 2026

20 | Alberto Ferreyra | Mystérios lusitanos [contos - texto e locução] | Mistério na terra das langorinhas

 

Mystérios lusitanos | A vinte e três (23) de cada mês, habitamos o mundo pelo imaginário de Alberto Ferreyra...

(Nos ramos da escrita, repousam, vezes sem conta, as gralhas da distração, ocultas, sob múltiplos disfarces, até que alguém as enxote. Alberto Ferreyra contou com o fino olhar da sua amiga Teresa Correia, detentora do segredo da sua identidade, para afastar ou caçar o grasnar das gralhas. Está-lhe, por isso, muito grato...)

Alberto Ferreyra*


Uma suave brisa de outono desprendia, firme, as derradeiras folhas fragilmente presas às árvores. Do interior da Igreja parecia ouvir-se a doce melodia de um ‘requiem à minha mãe’, com a languidez de um murmúrio amargurado por perda precoce.
J. e M. desciam a rua que parecia cindir a esperança da Igreja do temor desesperado da derradeira morada do último adormecer.
Enrolados em quentes cachecóis, pois que o pedia aquele frio…
- Um cemitério, com as suas sepulturas em forma de cama… Um autêntico dormitório! Aqui se dorme, afinal! Para sempre? – J. lançava para o ar os pensamentos que assomavam ao mais íntimo de si. M. seguia, ao seu lado, sem dar conta do que lhe dizia o irmão. Contava, baixinho.
Assim foram até ao lugar das langorinhas, o vértice do mundo. A esquina para que confluem as vertiginosas descidas do tempo. Ficava encravada entre duas encostas: a de Sóligo e a do Cruzeiro. Uma convergência densamente humana.
J. ainda ousara quebrar aquele discreto sussurrar da irmã que continuava a contar.
- Nestas terras, há lendas por cumprir. Por estas montanhas se escondeu, outrora, um pastor que assistiu, no tempo dos mouros, ao abandono de uma moura esposa pelo seu marido violento. Em lugar incerto, mas não longe daqui, deixara-a, sozinha, transformada em pedra até ao dia em que florissem as beldroegas. O oculto pastor procurou quebrar tamanho feitiço, buscando saber o que seriam aquelas benfazejas verduras que, descobrindo-as, ele mesmo plantou, esperando voltar a ver encarnada aquela petrificada moura. Recuperada à carne, com ela casou .
M. nada ouvia. Contava, apenas.
Chegados às Langorinhas, detiveram-se. J. não resistia a comentar o significado que lhe parecia esconder-se sob aquele nome.
M. suspendeu as suas contagens, ainda que fixando onde ia.
- M., lembras-te de vir aqui, quando éramos pequenos? E de como sempre nos ficava a dúvida sobre se esta era a terra das langorinhas, se das longurinhas?
- Ou das ‘longarinas’? – Atalhou M., entusiasmada com a memória recuperada pelo irmão.
- Pode dever-se o nome ao facto de ser uma longa terra. Teria sentido ser ‘longurinha’.
- Mas também poderia ser por nela haver uma longa viga que prendesse as ramadas de outrora. Uma longarina. – Acrescentou M., participando no divertimento.
- Agrada-me mais ‘langorinhas’. A ideia da demora, da languidez…
M. meneou a cabeça, como se assentisse, e retomou a contagem. Saltou por cima de um pequeno rego de água e prosseguiu. Encaminhou-se para os degraus que levavam à leira sobranceira à terra que servia de margem ao maior dos regatos de água daquele lugar. Quatro, no total: um, maior, ao longo de toda a terra; um, a encimar a leira, e dois, a ladear todo aquele lugar.
- 483 passos até aqui. – Rematou M. E continuou, enquanto se preparava para colocar o pé no primeiro do sete degraus que levavam até à leira. – 484! 485! 486! 487! 488!489!
Ao chegar ao sexto degrau, M. parou. O sétimo degrau era o maior de todos. Uma espécie de patim sobre o qual se podia descansar, antes de avançar. M. deteve-se, longamente, a olhar para o último degrau e para a leira.
Ao centro, havia uma macieira. Sem folhas; estavam todas no chão. De cores diferentes, umas envelhecidas, outras mais novas. Nem uma folha havia nos ramos que, porém, apresentavam uma forma perfeita. Como se um jardineiro da maior mestria as houvesse podado. Vista de todos os ângulos, a forma daquela macieira parecia uma interrogação; um enorme e bem feito ponto de interrogação.
M. percorria, com o olhar, a singularidade daquele lugar. Nos ramos, deliciosas maçãs, apetitosas ao olhar; sedutoras!
J. aguardava, no primeiro dos degraus. O tempo parecia ter-se detido. Sem que se avistassem aves, sentiam-se os seus trinados. A forma daquela leira era perfeita, mas apenas ocupada por uma ímpar macieira.
M. decidiu não subir para o sétimo degrau. Desceu!
J. aguardava-a, sem pressas.
Encaminharam-se para os salgueiros ao fundo da terra, abeirando-se do ribeiro.
Pelas escadas, descia, entretanto, uma pequena serpente que M. não vira. Ter-se-ia assustado, ainda que o frio do outono fizesse adivinhar já não dever vir dali grande perigo.
Mas, ainda assim, ter-lhe-ia valido um susto.
- Nestas águas, apanhámos rãs. Era tão giro, M. Enquanto a avó tratava das cabras que tinha, num curral aqui perto.
- Falas como se eu não soubesse. Como se te dirigisses a alguém que nos estivesse a ouvir. Mas só aqui estamos nós…
Riram-se…
Mas o seu riso foi interrompido por passos.
- Parece-me que alguém se está a encaminhar para a leira.
Voltaram-se.
Reconheceram, ainda que envolvida nas vestes negras com que sempre se cobria depois da morte do marido e do filho único, a dona Micas. Uma mulher sofrida, cujo tempo se fizera de dores.
Perdera, em curto tempo, o marido, muito amado, e o filho único.
Nos seus olhos de mulher solitária, tinham secado as lágrimas. Dizia-se que passara a viver das dores dos outros. Procuravam-na, para nela encontrarem esperança, os mais desgraçados das redondezas. Não se percebia, porém, donde lhe vinha a força. Nunca se lhe ouvira um lamento.
Agora, estava ali.
M. pousara a mão no braço de J. e apertava-o, temendo que falasse.
Aguardava.
A dona Micas parara, com o pé direito pousado no primeiro degrau.
Elevara o olhar para a macieira, ao centro da leira.
Depois de um breve esperar, começara a subir. Sempre com o olhar elevado.
Chegada ao último e sétimo degrau, começara a soluçar.
Chorou, demoradamente.
Enrolou-se sobre si mesma. Era um choro só.
Depois, como se tomada por uma força sobre-humana, ergueu-se e dirigiu-se, vociferando, para a árvore.
Ao longe, M. e J. assistiam. Só viam o movimento dos braços daquela pobre mulher. Mas nada ouviam.
Dona Micas tinha o rosto hirto. Gritava. Barafustava. Desalinhava a roupa.
Subitamente, parecendo tomada de fúria, esticou a mão direita e prendeu uma das maçãs. Puxou-a, ligeiramente para si, como se a fosse arrancar.
Os seus olhos pareciam vermelhos de revolta.
O momento alongou-se…
A macieira, ao centro, despida de folhas; carregada de frutos.
Ao lado, sem fazer qualquer sombra no chão, aquela mulher; de pé, de negro, destemida!
Na sua mão, um dos frutos maduros daquela árvore solitária na perfeita leira ladeada por murmurantes regatos de água. Prendia-o à árvore apenas um já frágil pedúnculo, prestes a romper-se. O olhar daquela mulher parecia uma ameaça.
M. reparava, enquanto esta cena se detinha no tempo, como que eternizada, numa serpente que subia pelos degraus. Desejou avisar a mulher, mas a sua voz não se soltou.
Antes de se poder arrepender, aquela mulher largou o fruto e voltou a aligeirar os movimentos.
Voltou a alinhar a roupa, curvou-se sobre o chão. Tomou uma das folhas que guardou no bolso e desceu, pisando a cabeça da serpente, em rápida corrida.
Da árvore totalmente despida caiu uma folha, já seca.
Acordados daquele cristalizado momento, J. e M. seguiram no encalce daquela alíbera e viúva mulher, até à entrada da igreja, mas não mais a viram.
No cemitério ao lado, sobre a campa do mais novo adormecido, repousava uma pequena folha de macieira.


Imagem de Tumisu por Pixabay


*Alberto Ferreyra diz que as suas letras habitam a mente e saem da mão de alguém nascido em terras gaulesas, ainda que afirme, em sussurro, que o seu real nascimento ocorreu nas margens do Antuã, em abril de 2024. É, por isso, um prematuro autor literário, germinado da inspiração que a realidade proporciona quando se tem a companhia, nos livros, de génios como Jorge Luis Borges, Miguel Torga, Gabriel García Marquez ou personagens como Poirot ou Padre Brown.
 
Na sua escrita, cruzam-se o real e o imaginado, o fictício e o histórico, numa embrenhada teia em que o leitor continua a ler, mesmo já depois de fechado o conto. O real continua a fecundar histórias na mente de quem lê Ferreyra. Cada conto, feito dos mistérios desvelados, aproxima o tempo e distancia o espaço, esticando-o até ao eterno e ao infinito. Ao ler Ferreyra, faz-se 'silêncio' ('mystério' alude à etimologia grega da palavra, que remete para o 'fazer silêncio', 'emudecer-se'...) para que possam ecoar as palavras, para que possa desenovelar-se o enredo sucintamente desvelado.
 
J. e M., protagonistas de cada um dos contos, acompanhados, em alguns deles, pelo seu periquito 'branquinho', fazem emergir, do real em que se enredam, histórias que, nascendo da imaginação de Ferreyra, permanecem como realidades possíveis, deixando a suspeita de terem mesmo ocorrido.
Se não foi real, Ferreyra o criará, inspirado numa cosmovisão que tanto deve àquela religião que fez do encarnado a condição fundamental do existir.
 
A vinte e três (23) de cada mês, habitaremos o mundo pelo imaginário de Alberto Ferreyra...

terça-feira, janeiro 20, 2026

'Os Sete Dias da Criação' |7| Luís M. P. Silva - Ainda o primeiro dia: ‘No princípio criou Deus…’ – Deus Criador; não um demiurgo!

 

(‘Os Sete Dias da Criação’ | Rubrica dedicada ao diálogo entre ciência e religião)
Artigo originalmente publicado na revista 'Mundo Rural'

Luís Manuel Pereira da Silva*

A densidade de Gn 1,1 dá-nos pretexto para que regressemos, as vezes necessárias, a este versículo.

Faz-nos regressar a ele, destarte, a compreensão do alcance da ideia de ‘criação’. Apesar do paralelismo com que a nossa linguagem pretende aproximar este termo da ação do artista (quando, efetivamente, o movimento deveria ser o contrário: a ação do artista é que ‘se inspira’ na do Criador), fazendo supor a ideia de uma ação sobre matéria previamente dada, o texto de Génesis é inequívoco. Como lembra Gerhard von Rad, no seu clássico ‘o livro do Génesis’, o termo utilizado pelo autor bíblico, para se referir à ação criadora de Deus [é] ‘um criar carente por completo de analogias. Com razão se diz que o verbo bara’, ‘criar’ contém por um lado a noção de uma total ausência de esforço e por outro a ideia de uma creatio ex nihilo, pois nunca foi ligado à menção da matéria.’ (p. 58). Esta abordagem pode ser confirmada pela leitura da entrada «bara’» no dicionário de Luis Alonso Schökel que, após enunciar os diversos significados do termo (‘criar, dar o ser, tirar do nada, fazer, produzir, fundar, formar, plasmar’), acrescenta ‘o sujeito é Deus’ (p. 116).

A visão bíblica sobre a criação exclui, por isso, a conceção de um deus demiúrgico, tão aprazível aos gregos e aos mesopotâmicos, um ‘deus menor’ a quem cabia apenas moldar uma matéria pré-existente.

A visão sedutora de um deus demiúrgico, que erra na interpretação do texto bíblico que é inequívoco, fez ‘escola’ e encontrou, ao longo dos tempos, novos seguidores. Santo Agostinho, nos séculos IV e V, enfrenta uma das ‘cabeças da Hidra’ «demiúrgica» nos maniqueus, aos quais ele mesmo tinha pertencido até à sua conversão ao cristianismo, tendo, após essa ‘revolução espiritual’, dedicado particular atenção à destruição dessa abordagem sedutora, da qual, porém, ainda hoje se manifestam alguns lampejos na própria leitura de alguns cristãos.

Na verdade, à abordagem demiúrgica, que pensava Deus como um ‘criador de segunda ordem’, por apenas lhe caber moldar uma matéria pré-existente, associava-se a convicção inerente de que a Deus caberia atribuir a causa do bem, mas também do mal.

Santo Agostinho, na obra que sugiro, abaixo, enfrenta esta questão, afirmando que o mal é a ausência de bem[1], tal como as trevas são a ausência da luz e o silêncio a ausência do som. Reportando-se ao que é dito no versículo 4 (‘separou a luz das trevas’), o bispo de Hipona comenta que ‘não se diz neste passo «Deus fez as trevas» pois estas […] mais não são que a ausência da luz e, portanto, simplesmente procedeu à separação entre ambas. De igual modo nós, gritando, produzimos a voz; e estando calados, produzimos o silêncio, porque a cessação da voz é o próprio silêncio: e todavia, num certo sentido, distinguimos a voz do silêncio e a uma coisa chamamos voz e a outra chamamos silêncio.’ (p. 67)

Ora, uma ausência não carece de criador. Mas sim ‘algo’, o ‘ser’, carece de criador.

É toda uma outra visão da realidade.

Um deus demiúrgico molda, confusamente, o cosmos e o caos.

O Deus criador cria, do nada, algo. Esse algo é, em si mesmo, como dirá o autor bíblico, no mesmo versículo 4, ‘bom’. (Veremos, em outros momentos da nossa reflexão, o alcance total deste reconhecimento das realidades criadas como ‘boas’. Para já, enunciemos, apenas essa constatação.)

Ora, é de ‘criação’ que nos fala o autor bíblico. E, para o sublinhar, o autor deste primeiro relato da criação, autor que a análise exegética designa como ‘sacerdotal’ e identifica com a letra ‘P’ (de ‘Priester’) estrutura uma narrativa que, como bem constata D. António Couto, começa e acaba com a ideia de ‘criação’.

Na verdade, a primeira narrativa da criação compõe-se como uma unidade observável entre Gn 1,1 e Gn 2,4a. E, olhando com atenção, verificamos que esta estrutura literária começa com ‘no princípio, Deus criou?’ e termina, em Gn 2,4a, com ‘esta é a origem da criação dos céus e da terra’. (A tradução proposta por D. António Couto é ainda mais significativa: ‘No princípio CRIOU Deus os céus e a terra; […] Esta é a história dos céus e da terra quando foram CRIADOS’).

Não se está a falar de outra coisa, neste texto: apenas e só da ‘criação’.

E sublinhemos, para o objetivo que nos leva a formular estas reflexões [o encontro entre a ciência e a religião cristã], que o foco da reflexão não está no ‘modo como’ Deus cria, mas sim, na afirmação de que ‘Deus cria’, pelo que, ‘o que Deus cria’ tem o sinal de provir dele: a bondade intrínseca. Esta leitura da radical bondade originária contrasta, de forma surpreendente (‘inspirada’, diremos, enquanto religiosos), com as cosmologias circundantes ao povo hebreu: grega, babilónica, fenícia e egípcia (cfr. D. António Couto, p. 19). Nestas, o bem e o mal convivem e combatem-se, em plano de igualdade ou, até, no limite, dando a precedência ao mal em relação ao bem (o bem nasce do caos e fica em permanente ‘conivência’ (p. 18) com ele), não permitindo esperar uma salvação. A tal se deve a condição trágica das mitologias envolventes à leitura bíblica. E daí, também, ser de sublinhar a ‘novidade’ que esta traz.

Ainda que possa haver reminiscências das mitologias circundantes, nos termos originais hebraicos (a referência ao ‘abismo’ é uma delas, sendo que o termo hebraico «tehôm» (abismo) pode evocar a ideia de ‘Tiamat’, o monstro vencido na luta com Marduk, na mitologia mesopotâmica, com cuja carcaça se faz o céu), toda a narrativa toma essas ‘alusões’ e reminiscências para as reconfigurar num novo relato em que não há margem para ambiguidades: há um só Criador, que cria, pela sua vontade, a partir do nada, originando, do que é espiritual (bom em si mesmo), o que é material. Fica, assim, de um só ‘trago’, devorado todo o dualismo que opõe matéria a espírito, bem a mal, como se de duas naturezas antagónicas se tratasse. Com Santo Agostinho, poderemos concluir que o mal fica reduzido ao que é: um nada que é ausência!


Sugestões bibliográficas

Luis Alonso Schökel, Dicionário Bíblico Hebraico-Português, São Paulo, Paulus, 20146.

  1. António Couto, O livro do Génesis, Leça da Palmeira, Letras e Coiras-livros, 2013.

Santo Agostinho, Da interpretação do Génesis: dois livros contra os maniqueus, Prior Velho, Paulinas, 2021.

Gerhard von Rad, El libro del genesis, Salamanca, Ediciones Sígueme, 19887.


[1] Suportado na visão agostiniana, venho defendendo que o mal deveria pensar-se, antes, como a ‘insuficiência’ do bem, permitindo compreender, de forma mais compassiva, a destrutiva ação do mal moral, voluntariamente determinado ou consentido.

quarta-feira, janeiro 07, 2026

Sabes, leitor... | 25 | Marca de água de 'Antiqua et Nova': Nota sobre a relação entre a inteligência artificial e a inteligência humana

 


Rubrica ‘Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página’** | Marca de água de livros que deixam marcas profundas
Parceria: Federação Portuguesa pela Vida e Comissão Diocesana da Cultura

Luís Manuel Pereira da Silva*

O(s) autor(es) e a obra
DICASTÉRIO PARA A DOUTRINA DA FÉ E DICASTÉRIO PARA A CULTURA E A EDUCAÇÃO, Antiqua et Nova: Nota sobre a relação entre a inteligência artificial e a inteligência humana, Apelação, Paulus Editora, 2025..

Em 5 de junho de 2022, através constituição apostólica Praedicate Evangelium, o Papa Francisco fez uma reforma da Cúria romana de que se deu especial destaque à possibilidade aberta a todos os cristãos batizados de exercerem funções de governação na Cúria. Com esta reforma, constituiu o Dicastério para a Doutrina da Fé e o Dicastério para a Cultura e a Educação (que resulta da fusão entre a Congregação para a Educação Católica e o Conselho Pontifício para a Cultura), que assinam a nota que analisamos, agora.
São Prefeitos destes dois dicastérios o Cardeal Victor Manuel Fernández, que muitos consideram o ‘teólogo do Papa Francisco’, por serem notórias, nos escritos do pontífice argentino, as marcas do pensamento e estilo de escrita deste antigo reitor da Universidade Pontifícia da Argentina e arcebispo de La Plata, e o nosso Cardeal José Tolentino de Mendonça.
Num registo subjetivo, ouso evidenciar o significado da confluência dos esforços destes dois dicastérios para o documento aqui em análise.
Sendo evidente as implicações culturais e educativas da ‘inteligência artificial’, poderia suscitar interrogação o envolvimento da ‘doutrina da fé’ nesta matéria.
Uma leitura do artigo 69.º da Constituição apostólica Praedicate Evangelium aguçará o gume da interrogação que, porém, com a leitura da nota ‘antiqua et nova’, se tornará menos cortante. Percebe-se, por esta leitura, que o alcance antropológico da ‘inteligência artificial’ lhe confere o papel de catalisadora de um processo a que Francisco ousou designar como de ‘mudança de época’ (n.º4). Um tal alcance justifica o envolvimento do Dicastério da Doutrina da Fé numa reflexão desta natureza, dado que a sua missão é ‘[…] é ajudar o Romano Pontífice e os Bispos no anúncio do Evangelho em todo o mundo, promovendo e tutelando a integridade da doutrina católica sobre a fé e a moral, como a recebe do depósito da fé e resulta de um entendimento cada vez mais profundo do mesmo face às novas questões.’ (Praedicate Evangelium, n.º 69).
É, por isso, digna de registo esta capacidade de antecipação, revelada pela Igreja Católica com a publicação deste documento. Contrariando o preconceito de ter uma atitude reativa, a equilibrada abordagem evidenciada neste documento confere uma natureza ‘profética’ (utilizando a terminologia teológica tantas vezes sublinhada, após o concílio Vaticano II, repercutindo o lastro veterotestamentário desta consideração) à proposta aqui sustentada.
Convenço-me, aliás, de que este documento será revisitado, vezes sucessivas, por quem pretende olhar com objetividade para as oportunidades e desafios colocados pela Inteligência Artificial, evitando Cila e Caríbdis.

Marcas de água 

(o que fica depois de se deixar o livro)

Os discursos sobre a ‘Inteligência Artificial’ andam entre o medo (que a demoniza) e o fascínio (que a idolatra). ‘Antiqua et Nova’ encaminha o barco do pensamento entre as ciladas de ambos os promontórios.
Desde logo, ousando questionar a própria designação, que considera equívoca e ‘falaciosa’ (n.º 35), situando no devido registo o potencial que este recurso nos proporciona. O documento é inequívoco no reconhecimento de que a ‘inteligência’, por não ser, apenas, uma potencialidade técnica e operativa, é um exclusivo humano (e divino, bem certo!), devendo-se apenas por analogia referir que o que se opera, pela ‘IA’, seja, de facto, ‘inteligência’.
Um tal reconhecimento coloca, no devido âmbito, o que seja a ‘inteligência artificial’: um meio. Um meio carregado de potencialidades, mas um meio.
Esta leitura permite recuperar o reconhecimento da centralidade do critério ético que atribui apenas ao ser humano a condição de fim, devendo ser, sempre, tratado como meio aquilo que o é: os instrumentos de que dispomos para melhor conhecer o ‘mundo’.
A este reconhecimento associa-se, naturalmente, a interrogação sobre a dimensão da responsabilidade, matéria excruciante na abordagem sobre a inteligência artificial: sendo a IA um instrumento jamais se lhe poderá atribuir a condição de ‘entidade responsável’ pelas ações que ela opere.
Desta constatação advêm as múltiplas consequências nos diversos âmbitos do agir humano em sociedade pelos quais circula este documento: as relações laborais, a saúde, a educação, a desinformação, a proteção da casa comum, a guerra e a própria relação do humano consigo mesmo e com Deus. Em todos estes âmbitos se coloca a questão fundamental de saber se a IA nos auxilia ou nos substitui, nos humaniza ou nos desumaniza.
Em todas estas circunstâncias, a posse de conhecimento deverá encaminhar-se para além de si mesmo, em direção à verdade, que implica, sempre, uma inteligência capaz de discernir entre o erro e a coerência, possibilidade reservada ao humano, criado como ser autónomo, livre e, por isso, capaz de responder pelas suas decisões (é isso a ‘responsabilidade’).
‘Antiqua et Nova’ contribuirá, certamente, para uma leitura mediocrática (não do ‘medíocre', mas sim ‘do justo equilíbrio’) do mundo que a IA abre diante de nós: entre a Cila da idolatria e a Caríbdis da demonização. E contribuirá, também, para que se compreenda que da Igreja Católica se pode esperar ser a sábia jangada com que cruzaremos os mares que banham os promontórios da História.

 

Na mesma página que o autor (citações)

‘A tradição cristã considera o dom da inteligência um aspeto essencial da criação do ser humano «à imagem de Deus» (Gn 1,27). Partindo de uma visão integral da pessoa e da valorização do chamamento a «cultivar» e «cuidar» a terra (cf. Gn 2, 15), a Igreja sublinha que este dom deveria encontrar expressão através de um uso responsável da racionalidade e da capacidade técnica ao serviço do mundo criado.’ (n.º1)

‘As capacidades e a criatividade do ser humano vêm d’Ele e, quando usadas corretamente, dão glória a Deus, enquanto reflexo da sua sabedoria e bondade.’ (n.º2)

‘[…] existe um amplo consenso de que a IA marca uma nova e significativa fase na relação da Humanidade com a tecnologia, colocando-se no centro daquilo que o Papa Francisco descreveu como uma «mudança de época». […] Uma vez que a IA continua a avançar rapidamente para patamares cada vez maiores, é extremamente importante considerar as suas implicações antropológicas e éticas. Isto passa não só por mitigar riscos e a prevenção dos danos, mas também a garantia de que as suas aplicações são direcionadas à promoção do progresso humano e do bem comum.’ (n.º4)

‘[Neste documento], pretende-se, em primeiro lugar, distinguir o conceito de “inteligência” em referência à IA e aos seres humanos. Em segundo lugar, considera-se a perspetiva cristã sobre a inteligência humana, oferecendo um quadro geral de reflexão baseado na tradição filosófica e teológica da Igreja. De seguida, propõem-se algumas linhas orientadoras com o objetivo de assegurar que o desenvolvimento e a utilização da IA respeitam a dignidade humana e promovem o desenvolvimento integral do indivíduo e da sociedade.’ (n.º6)

‘Embora cada aplicação da IA ‘estreita’ esteja calibrada para uma tarefa específica, muitos investigadores esperam chegar à chamada “inteligência artificial geral” (AGI),ou seja, a um único sistema o qual, operando em todos os domínios cognitivos, seria capaz de realizar qualquer tarefa ao alcance da mente humana. Alguns defendem que tal IA poderá um dia atingir o estádio de “superinteligência”, ultrapassando a capacidade intelectual humana, ou contribuir para a “superlongevidade” graças aos avanços na biotecnologia. Outros receiam que estas possibilidades, por mais hipotéticas que sejam, venham um dia a ofuscar a própria pessoa humana, enquanto outros acolhem com agrado esta possível transformação.’ (n.º9)

‘No que diz respeito ao ser humano, a inteligência é, de facto, uma faculdade relativa à pessoa como um todo, enquanto, contexto da IA, é entendida num sentido funcional, assumindo frequentemente que as atividades características da mente humana podem ser decompostas em etapas digitalizadas, de modo a que as máquinas também as possam replicar.’ (n.º10)

‘[…] no caso da IA, a “inteligência” de um sistema é avaliada de forma metodológica, mas também reducionista, com base na sua capacidade de produzir respostas adequadas, ou seja, aquelas que estão associadas ao intelecto humano, independentemente da forma como essas respostas são geradas.’ (N.º11)

‘Para o efeito, convém recordar que a riqueza da tradição filosófica e da teologia cristã oferece uma visão mais profunda e abrangente da inteligência, que, por sua vez, é central no ensinamento da Igreja sobre a natureza, a dignidade e a vocação da pessoa humana.’ (n.º12)

‘Desde os primórdios da reflexão da humanidade sobre si própria, a mente tem desempenhado um papel central na compreensão do que significa ser “humano”. Aristóteles observou que «todos os seres humanos tendem, por natureza, para o conhecimento». Este conhecimento humano, com a sua capacidade de abstração que apreende a natureza e o significado das coisas, distingue-os do mundo animal. A natureza exata da inteligência tem sido objeto de investigação por parte de filósofos, teólogos e psicólogos, que se debruçaram também sobre o modo como o ser humano compreende o mundo e faz parte dele, ocupando neles um lugar peculiar. Através destas pesquisas, a tradição cristã chegou a compreender a pessoa como um ser constituído por corpo e alma, ambos profundamente ligados a este mundo e, ao mesmo tempo, indo para além dele.’ (n.º13)

‘Na tradição clássica, o conceito de inteligência é frequentemente declinado nos termos complementares de “razão” (ratio) e “intelecto” (intellectus). Não se trata de faculdades separadas, mas, como explica São Tomás de Aquino, de dois modos de atuação da mesma inteligência: «o termo intelecto deriva da íntima penetração da verdade; enquanto razão deriva da busca e do processo discursivo». Esta descrição concisa permite-nos destacar as duas prerrogativas fundamentais e complementares da inteligência humana: intellectus refere-se à intuição da verdade, ou seja, à sua apreensão com os “olhos” da mente, que precede e funda a própria argumentação, enquanto a ratio diz respeito ao raciocínio propriamente dito, ou seja, ao processo discursivo e analítico que conduz ao juízo. Juntos, intelecto e razão constituem as duas faces do único ato de intelligere, «a operação do homem enquanto homem».’ (n.º14)

‘Apresentar o ser humano como um ser “racional” não significa reduzi-lo a um modo específico de pensamento; significa antes reconhecer que a capacidade de compreensão intelectual da realidade molda e permeia todas as suas atividades, constituindo, além disso, exercitada para o bem e para o mal, um aspeto intrínseco da natureza humana.’ (n.º15)

‘O pensamento cristão considera as faculdades intelectuais no quadro de uma antropologia integral que concebe o ser humano como um ser essencialmente corpóreo. Na pessoa humana, o espírito e a matéria «não são duas naturezas unidas, mas a sua união forma uma única natureza». Por outras palavras, a alma não é a “parte” imaterial da pessoa contida num corpo, assim como este não é o invólucro exterior de um “núcleo” subtil e intangível, mas é o ser humano inteiro que é, ao mesmo tempo, material e espiritual.’ (n.º16)

‘[…] o espírito humano não realiza o seu modo normal de conhecimento sem o corpo. Deste modo, as capacidades intelectuais do ser humano são parte integrante de uma antropologia que reconhece que ele é uma «unidade de alma e corpo».’ (n.º17)

‘(…) a inteligência humana não é uma faculdade isolada, mas exerce-se nas relações, encontrando a sua plena expressão no diálogo, na colaboração e na solidariedade. Aprendemos com os outros, aprendemos através dos outros.’ (n.º18)

‘Mais sublime ainda do que saber muitas coisas é o compromisso de cuidar uns dos outros, porque mesmo que «eu conhecesse todos os mistérios e tivesse toda a ciência […] se não tivesse caridade, nada seria» (1Cor 13,2).’ (n.20)

‘A inteligência humana é, em última análise, um «dom de Deus feito para colher a verdade». No duplo sentido de intellectus-ratio, ela permite à pessoa penetrar nas realidades que ultrapassam a mera experiência sensorial ou a utilidade, porque o «desejo da verdade pertence à própria natureza do homem. Interrogar-se sobre o porquê das coisas é uma propriedade natural da sua razão». (N.º21)

‘Como observa o Papa Francisco, «na era da inteligência artificial, não podemos esquecer que a poesia e o amor são necessários para salvar o humano».’ (n.º 27)

‘Segundo o seu desígnio, a inteligência, entendida em sentido pleno, inclui também a possibilidade de saborear o verdadeiro, o bom e o belo, pelo que se pode dizer, segundo as palavras do poeta francês do século XX, Paul Claudel, que a «inteligência não é nada sem deleite». Também Dante Alighieri, quando alcança o mais alto dos céus, no Paraíso, pode testemunhar que o ponto culminantes deste prazer intelectual se encontra na «Luz intelectual, cheia de amor; / amor do verdadeiro bem, cheia de alegria; /alegria que transcende toda a tristeza».’ (n.º28)

‘[…] uma correta conceção da inteligência humana não pode reduzir-se à mera aquisição de factos ou à capacidade de realizar certas tarefas específicas; pelo contrário, implica a aberta da pessoa às questões últimas da vida e reflete uma orientação para o Verdadeiro e o Bem. […] A verdadeira intelligentia é plasmada pelo amor divino, que «foi derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo» (Rm 5,5). Daqui se deduz que a inteligência humana possui uma dimensão contemplativa essencial, ou seja, uma abertura desinteressada ao que é Verdadeiro, Bom e Belo para além de qualquer utilidade particular.’ (n.º29)

‘[…] embora a IA processe e simule certas expressões de inteligência, esta permanece fundamentalmente confinada a um domínio lógico-matemático, o que lhe impõe certas limitações inerentes. Enquanto a inteligência humana se desenvolve continuamente de forma orgânica no decurso do crescimento físico e psicológico de uma pessoa e é moldada por uma miríade de experiências vividas no corpo, a IA não tem capacidade para evoluir neste sentido. Embora os sistemas avançados possam “aprender através de processos como a aprendizagem automática, este tipo de formação é essencialmente diferente do desenvolvimento do crescimento da inteligência humana, uma vez que esta é moldada pelas suas experiências corporais: estímulos sensoriais, respostas emocionais, interações sociais e o contexto único que caracteriza cada momento. Estes elementos moldam e formam o indivíduo na história pessoal. Em contrapartida, a IA, que não tem um corpo físico, baseia-se no raciocínio e na aprendizagem computacionais sobre vastos conjuntos de dados que incluem experiências e conhecimentos recolhidos pelos seres humanos.’ (n.º31)

‘[…] embora a IA possa simular alguns aspetos do raciocínio humano e realizar certas tarefas com uma rapidez e eficiência incríveis, as suas capacidade computacionais representam apenas uma fração das possibilidades mais vastas da mente humana.’ (n.º32)

‘Ao estabelecer uma equivalência demasiado forte entre a inteligência humana e a IA, corre-se o risco de sucumbir a uma visão funcionalista, segundo a qual as pessoas são valorizadas em função das tarefas que podem realizar.’ (n.º34)

‘À luz de tudo isto, como observa o Papa Francisco, «o próprio uso da palavra “inteligência”» para se referir à IA «é falacioso» e corre o risco de fazer esquecer o que há de mais precioso na pessoa humana. Nesta perspetiva, a IA não deve ser vista como uma forma artificial de inteligência, mas como um dos seus produtos.’ (n.º35)

‘Podemos reconhecer com gratidão que a tecnologia «deu remédio a inúmeros males, que afligiam e limitavam o ser humano», e todos nos podemos regozijar com este facto. Todavia, nem todas as inovações tecnológicas representam, por si mesmas, um verdadeiro progresso. Por isso, a Igreja opõe-se de modo particular às aplicações que ameaçam a santidade da vida ou a dignidade da pessoa. Como qualquer outra atividade humana, o desenvolvimento tecnológico deve ser orientado para o serviço da pessoa e contribuir para a realização de «mais justiça, mais fraternidade mais ampla e uma organização mais humana das relações sociais» que têm «mais valor que os progressos no domínio técnico». As preocupações com as implicações éticas do desenvolvimento tecnológico são partilhadas não só pela Igreja, mas também pelos cientistas, pelos estudiosos da tecnologia e pelas associações profissionais, que apelam cada vez mais a uma reflexão ética para orientar responsavelmente este progresso.’ (n.º40)

‘Para responder a estes desafios, é necessário chamar a atenção para a importância da responsabilidade moral baseada na dignidade e na vocação da pessoa. […] Entre uma máquina e um ser humano, só este último é verdadeiramente um agente moral, ou seja, um sujeito moralmente responsável que exerce a sua liberdade nas suas decisões e aceita as consequências;[…]’ (n.º39)

‘Como qualquer produto do engenho humano, também a IA pode ser orientada para fins positivos ou negativos. […] Onde a liberdade do homem permite a possibilidade de escolher o que é mau, a avaliação moral desta tecnologia depende da forma como é endereçada e utilizada.’ (n.º40)

‘[…] tanto os fins como os meios utilizados numa determinada aplicação da IA, bem como a visão geral que ela encarna, devem ser avaliados para garantir que respeitam a dignidade humana e promovem o bem comum.’ (n.º42)

‘O compromisso de garantir que a IA defenda e promova o valor supremo da dignidade de cada ser humano e a plenitude da sua vocação é um critério de discernimento […].’ (n.º43)

‘A análise das implicações deste princípio pode, portanto, começar por considerar a importância da responsabilidade moral. Uma vez que a causalidade moral em sentido pleno só pertence aos agentes pessoais, e não aos artificiais, é da máxima importância poder identificar e definir quem é responsável pelos processos de IA, especialmente aqueles que incluem possibilidades de aprendizagem, correção e reprogramação. […] Para resolver este problema, há que ter em atenção a natureza dos processos de atribuição de responsabilidade (accountability) em contextos complexos e com elevada automatização, em que os resultados são, muitas vezes, apenas observáveis a médio-longo prazo. Por conseguinte, é importante que a pessoa que toma decisões com base na IA seja responsabilizada pelas mesmas e que seja possível prestar contas da utilização da IA em todas as fases do processo de decisão.’ (n.º44)

‘Além da determinação das responsabilidades, é necessário estabelecer quais são os objetivos atribuídos aos sistemas de IA. […] Coloca-se assim o problema crítico de como garantir que os sistemas de IA sejam ordenados ao bem das pessoas e não contra elas.’ (n.º45)

‘[…] o conceito de “responsabilidade” deveria ser entendido não apenas no seu sentido mais restrito, mas como «cuidar do outro, e não apenas […] prestar contas do que se fez».’ (n.º47)

‘O Papa Francisco advertiu que «os dados obtidos até agora parecem sugerir que as tecnologias digitais tenham servido para aumentar as desigualdades no mundo. Não só diferenças na riqueza material, que são importantes, mas também diferenças no acesso à influência política e social». Neste sentido, a IA poderia ser utilizada para prolongar situações de marginalização e discriminação, criar novas formas de pobreza, alargar o “fosso digital” e agravar as desigualdades sociais.’ (n.º52)

‘[…] o facto de a maior parte do poder sobre as principais aplicações de IA estar, atualmente, concentrado nas mãos de algumas empresas poderosas levanta preocupações éticas significativas. A agravar este problema está também a natureza intrínseca dos sistemas de IA, em que nenhum indivíduo consegue fazer uma supervisão completa dos vastos e complexo conjuntos de dados utilizados para o cálculo.’ (n.º53)

‘Além disso, existe o risco de a IA ser utilizada para promover aquilo a que o Papa Francisco chamou de «paradigma tecnocrático», que pretende resolver todos os problemas do mundo apenas com meios tecnológicos. […] a IA deve ser posta «ao serviço de um outro tipo de progresso, mais saudável, mais humano, mais social e mais integral.’ (n.º54)

‘Para alcançar tal objetivo, é necessária uma reflexão mais profunda sobre a relação entre autonomia e responsabilidade, porque uma maior autonomia implica uma maior responsabilidade de cada pessoa nos vários aspetos da vida em comum. Para os cristãos, o fundamento desta responsabilidade é o reconhecimento de que todas as capacidades humanas, incluindo a autonomia da pessoa, provêm de Deus e têm por objetivo ser postas ao serviço dos outros.’ (n.º55)

‘[…] Embora a IA “generativa” seja capaz de produzir textos, discursos, imagens e outros outputs avançados que são, normalmente, ações de seres humanos, deve ser entendida pelo que é: uma ferramenta, não uma pessoa.’ (n.º59)

‘[…] deve ser sempre evitada a representação errónea da IA como uma pessoa, e fazê-lo para fins fraudulentos constitui uma grave infração ética que pode corroer a confiança social.’ (n.º62)

‘Num mundo cada vez mais individualista, há quem se tenha voltado para a IA em busca de relações humanas profundas, de simples companheirismo ou mesmo de laços afetivos. No entanto, embora reconhecendo que os seres humanos são feitos para viver relações genuínas, deve ser reiterado que a IA só as pode simular.’ (n.º63)

‘[…] ao contrário dos benefícios anunciados, as atuais abordagens tecnológicas podem, paradoxalmente, desqualificar os trabalhadores, sujeitá-los a uma vigilância automatizada e relega-los para tarefas rígidas e repetitivas.’ (n.º67)

‘[…] Se for utilizada para substituir os trabalhadores humanos em vez de os acompanhar, existe um «risco substancial de uma vantagem desproporcionada para alguns à custa do empobrecimento de muitos».’ (n.º68)

‘[…] é bom ter sempre presente que «a ordem das coisas deve estar subordinada à ordem das pessoas e não ao contrário».’ (n.º69)

‘[…] a IA deve ajudar, e não substituir, o discernimento humano, assim como nunca deve degradas a criatividade ou reduzir os trabalhadores a meras «engrenagens de uma máquina».’ (n.º70)

‘«Temos de romper com o imaginário da educação, segundo o qual educar consiste em encher a cabeça de ideias. Desta forma, educamos autómatos, macrocéfalos, não pessoas. Educar é correr riscos na tensão entre cabeça, coração e mãos.»’ (n.º78)

‘A presença física do professor cria uma dinâmica relacional que a IA não pode reproduzir, uma dinâmica que aprofunda o compromisso e alimenta o desenvolvimento integral do estudante.’ (n.º79)

‘[…] a vasta utilização da IA na educação poderia levar a uma maior dependência dos estudantes em relação à tecnologia, afetando a sua capacidade de desenvolver determinadas atividades de forma autónoma e agravando a sua dependência dos ecrãs.’ (n.º81)

‘Em vez de formar os jovens para acumularem informação e darem respostas rápidas, a educação deveria «envolver a tarefa de promover liberdade responsáveis, que, nas encruzilhadas, saibam optar com sensatez e inteligência».’ (n.º82)

‘[…] a utilização da IA deve ser sempre transparente e nunca ambígua.’ (n.º84)

‘[…] À medida que deepfakes induzem as pessoas a questionar tudo, num panorama em que prolifera o conteúdo falso gerado pela IA, corrói-se a confiança no que é visto e ouvido, e a polarização e o conflito só aumentarão. Um engano assim generalizado não é um problema menor: atinge o coração da Humanidade, demolindo a confiança fundamental sobre a qual as sociedades se regem.’ (n.º88)

‘Combater as falsificações alimentadas pela IA não é apenas um trabalho dos especialistas do setor, mas exige os esforços de todas as pessoas de boa vontade.’ (n.º89)

‘O risco de vigilância excessiva deve ser monitorizado por organismos de controlo adequados, de modo a garantir a transparência e a responsabilidade pública.’ (n.º93)

‘Embora as capacidades analíticas da IA possam ser utilizadas para ajudar as nações a procurar a paz e a garantir a segurança, a «utilização bélica da inteligência artificial» pode ser altamente problemática.’ (n.º99)

‘As atrocidades já cometidas a longo da história da Humanidade são suficientes para suscitar profundas preocupações quanto ao potencial abuso da IA.’ (n.º102)

‘[…] a presunção de substituir Deus por uma obra das próprias mãos é idolatria, contra a qual a Sagrada Escritura adverte (por exemplo, Ex 20,4M 32,1-5; 34,17). Além disso, a IA pode ser ainda mais sedutora do que os ídolos tradicionais: ao contrário destes últimos, que «têm boca e não falam, têm olhos e não vêem, têm ouvidos e não ouvem» (Sl 115,5-6), a IA pode “falar” ou, pelo menos, dar a ilusão de o fazer (cf. Ap 13,15). É preciso não esquecer que a IA não passa de um pálido reflexo da Humanidade, produzida por mentes humanas, treinada a partir de material produzido por seres humanos, predisposta a estímulos humanos e sustentada por trabalho humano. […] Em última análise, não é a IA que é deificada e adorada, mas o ser humano, que se torna, assim, escravo da sua própria obra.’ (n.º105)

‘«quanto mais cresce o poder do ser humano, mais se estende e alarga a sua responsabilidade».’ (n.º108)

‘Só a pessoa humana pode ser considerada moralmente responsável, e os desafios da sociedade tecnológica dizem respeito, em última análise, ao se espírito. Por isso, enfrentar estes desafios «exige um revigoramento da sensibilidade espiritual».’ (n.º111)

 


**(Título retirado de Daniel Faria, Dos líquidos, Porto, Edição Fundação Manuel Leão, 2000, p. 137)

*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Ensaios de liberdade', 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'

Foto recolhida da Editora Paulus

terça-feira, dezembro 23, 2025

Alberto Ferreyra | Mystérios lusitanos [contos - texto e locução] | 19 | Mistério na noite de Natal

 

Mystérios lusitanos | A vinte e três (23) de cada mês, habitamos o mundo pelo imaginário de Alberto Ferreyra...

(Nos ramos da escrita, repousam, vezes sem conta, as gralhas da distração, ocultas, sob múltiplos disfarces, até que alguém as enxote. Alberto Ferreyra contou com o fino olhar da sua amiga Teresa Correia, detentora do segredo da sua identidade, para afastar ou caçar o grasnar das gralhas. Está-lhe, por isso, muito grato...)

Alberto Ferreyra*


- As noites de outrora eram escuras; as noites de agora são longas… - M. meditava na vida. Parecia distante, mas dificilmente poderia supor-se mais presente à vida.
E continuou, como se J., o seu irmão, não estivesse ali, mesmo ao pé de si.
- Quando a noite é assim, escura como o breu, dou-me conta do sentido profundo das palavras bíblicas ‘o povo que andava nas trevas viu uma grande luz’. Como se anseia a luz quando o mais pequeno cascalho nos serve de escândalo, como gigante pedra de tropeço! Sabes, J.? Se Mateus decidiu voltar a pôr o profeta Isaías a repetir, séculos volvidos, as palavras que a esperança fervilhante do seu coração inspirava, para as ver confirmadas no nascimento de um pobre Menino, é, provavelmente, porque nelas se diz muito que ainda não conseguimos ver.
Franziu o sobrolho e rematou:
- Bem. É o que vou tentar descobrir.
- Vem aí fantasia! – Rematou o irmão, correndo atrás de M., que saltara do pequeno muro da ponte chamada ‘da Senhora da Saúde’, repousada sobre o pequeno ribeiro molengão que atravessava as terras do Vouga. Correra para um lugar simbolicamente denominado ‘chão de além’. Correra como quem confia, porque a noite era densa. Uma leve neblina elevava-se, com frescura.
Percorridas algumas centenas de metros, M. estacara. Sentara-se e olhava, ao longe, a luz da lua enamorada dos montes da margem esquerda do rio.
Olhava, de novo perdida nas suas meditações.
J. reconhecia aquele olhar. Sabia-o denunciador de uma viagem longínqua.
- Vês aqueles caminhos? Por eles andou, há muito tempo, o nosso bisavô. Lembro-me de o contar o nosso pai. Numa das vezes em que fora visitar a mulher para quem falava (assim chamavam ao namoro…), a noite escura fez renascer todos os fantasmas que habitam as noites do pensamento. Só a lua o acompanhava. Mas, sob as ramadas, nem a lua servia de candeeiro. À medida que andava, parecia acompanhá-lo o caminhar de alguém. Parava e dizia, balbuciando: ‘Quem estiver aí que se mostre!’ Mas o ‘fantasma’ não só não se revelava como se silenciava.
E o bisavô acelerava o passo, compassado com o medo que se abatia no coração. Após várias tentativas de convencer o tenebroso companheiro da noite, decidiu-se. Voltou-se. No momento em que o fez, deu conta de que o tacão da sua bota estava solto, provocando o ‘caminhar’ que o acompanhava. Não mais se deitou com o medo. Passaram a dormir em camas diversas.
- Grande Bisa’! – Gritou J., efusivo.
- Mas as noites de muitos continuam a ser o berço de inúmeros fantasmas. E os dias de alguns, noites constantes.
Interrompeu-se para voltar a deliciar-se com a paisagem escura, apenas iluminada pela lua e como que edulcorada pela neblina.
- Sabes o que me lembra esta colina?
E fez um curto silêncio, como que a reavivar a memória para dizer, com certeza, o que o irmão esperava ouvir.
- Aquela que criou o cenário em que São Francisco emoldurou o primeiro presépio da história depois do original; a bela colina de Greccio. De então para cá, a imaginação não mais se limitou e encheu de figuras o modesto presépio do início.
- Mas, se da condição humana se adornou o próprio Deus?!
- Que belo o que dizes, J.! Penso exatamente assim. S. Francisco bem o sabia. Toda a condição do humano pode fazer sua morada naquele modesto lugar de Belém. E eu, habitada pela imaginação franciscana, sinto-me enlevada e com perguntas que abrem novas portas à fantasia. Sempre me intrigou aquele momento.
- Adivinho história…
- Nunca te inquietou que só Mateus e Lucas tenham dedicado letras dos evangelhos a este momento da História do Jesus de quem Marcos e João só nos falam adulto?
- O curioso é que tão tardiamente a própria história cristã tenha voltado a sua atenção para este quadro.
- J., os tempos de perseguição exigiam, bem certo, um ir ao essencial, deixando, para depois da paz, a apreciação dos arcos mais distantes da espiral da fé. Celebrar o ressuscitado era o centro. O ressuscitado de quem um jovem que os primeiros discípulos não ouviram chegar falou como tendo resistido à força e ao poder da morte.
- Não ouviram chegar! Que intrigante…
- Sabes o que te digo? A minha imaginação diz-me que esse seu silêncio pode ter muito a dizer-nos sobre o primeiro momento. Os seus passos são como os de um Primeiro Jardineiro que, no tempo da inocência, também não ouvíamos, mas passámos a ouvir depois de termos desejado ser como deuses. O chão da eternidade não faz barulho.
- Estou curioso, M. Explica-te. Não estou a perceber nada.
- Porque escaparam os Magos do Oriente ao poderoso Herodes?
- Não seguiram por outro caminho, M.? Não é assim que diz o evangelho?
- Mas, com os seus esbirros, o grande Herodes teria sabido bem como segui-los. E não foram os sábios do Oriente guiados por uma estrela que poisou sobre a gruta onde estaria o Menino? Que melhor forma de localização?
- Densificas a história com as tuas perguntas, M. Explica-te lá.
- Tenho uma hipótese. O evangelho não o diz. Não tinha de nos dizer tudo. Mas deixa-nos sinais. ‘O povo que andava nas trevas viu uma grande luz.’ A estrela que poisou sobre o lugar da manjedoura era, ainda, sóbria. Sinal simples para os que dela precisavam. Localizada, porém, a morada onde decidira habitar connosco o Eterno, essa luz elevou-se e toda aquela noite se tornou um só dia. A Judeia ficou iluminada como se o sol tivesse madrugado. Os Herodes de então ficaram sem bússola. Toda a terra de Judá era, neste momento, uma noite luminosa. Entretanto, entravam naquela modesta morada os sábios que a tradição posterior identificou como sendo três – pois se três eram os presentes! –, e a quem Beda, o venerável, associou, para sempre, nomes que haveriam de dar rosto e aspeto a cada um deles. Certamente, diante daquele Menino, haveriam de descalçar o que lhes cobria os pés. Bem sabiam estar perante Deus humanado! Curvaram-se e depositaram, talvez aos pés da mãe ou, até, nas mãos do emudecido pai adotivo, aquele que unia, por gerações contínuas, ao grande rei David, as prendas com que simbolizavam a condição de rei, de sacerdote e de Homem com que se revestia aquele Menino.
- Descalçaram-se? Está boa. Nunca tinha pensado em tal coisa.
- Pois se Deus estava, ali, presente naquele Menino, aquele que haveria de ir ao Egito, como outrora o fora o povo submetido ao Faraó, conquistando a liberdade pela mão de Moisés, após este viver, descalço, a presença do Eterno, no Monte Sinai!? O Menino vai ao Egito… O primogénito que sobreviverá à praga que matara, séculos antes, os primogénitos súbditos do Faraó. Uma praga, já não realizada pela natureza, mas pela mão humana. A praga de um fragelante Herodes… E do Egito regressará para libertar, de vez, o povo. Já não um povo único, mas o povo que é a humanidade.
- Lindo o que dizes! Jesus é o novo Moisés. Mas, M., mesmo que a estrela tenha iluminado toda a noite, os passos de um sábio do oriente são inconfundíveis. Herodes e os seus capatazes haveriam de descobrir, no chão do pó da Judeia os seus traços. O calçado de um sábio do Oriente identifica-se com facilidade.
- Não há natal sem presentes. O Menino não haveria de deixar de mãos vazias os que o receberam antes de todos.
- Bem. Tinha a salvação para lhes oferecer.
- Certamente! Mas, ali, a salvação tinha um nome mais próximo: sobreviver ao desejo de Herodes. Os sábios já não saíram dali com o mesmo caminhar. Nos seus pés, levavam as sandálias do jardineiro inicial, as que transfiguram o chão de pó em chão do além, o chão que não guarda marca e é percorrido como passo silencioso.
- Que fantasia habita a tua mente, M.
- E estou certa, J…. Aos pés da cruz, trinta e três volvidos, três pares de sandálias foram depositados e entregues aos discípulos no regresso de Emaús. As mesmas sandálias que terá calçado o jovem jardineiro que lhes anunciaria que a morte tinha sido vencida. Talvez por isso depositamos na lareira do natal as sandálias que cobrem os nossos pés. Mas essas ainda se fazem do pó do chão de aquém. Calçá-las-emos, um dia… Quando o nosso for o definitivo chão do Além.


Imagem de Tumisu por Pixabay


*Alberto Ferreyra diz que as suas letras habitam a mente e saem da mão de alguém nascido em terras gaulesas, ainda que afirme, em sussurro, que o seu real nascimento ocorreu nas margens do Antuã, em abril de 2024. É, por isso, um prematuro autor literário, germinado da inspiração que a realidade proporciona quando se tem a companhia, nos livros, de génios como Jorge Luis Borges, Miguel Torga, Gabriel García Marquez ou personagens como Poirot ou Padre Brown.
 
Na sua escrita, cruzam-se o real e o imaginado, o fictício e o histórico, numa embrenhada teia em que o leitor continua a ler, mesmo já depois de fechado o conto. O real continua a fecundar histórias na mente de quem lê Ferreyra. Cada conto, feito dos mistérios desvelados, aproxima o tempo e distancia o espaço, esticando-o até ao eterno e ao infinito. Ao ler Ferreyra, faz-se 'silêncio' ('mystério' alude à etimologia grega da palavra, que remete para o 'fazer silêncio', 'emudecer-se'...) para que possam ecoar as palavras, para que possa desenovelar-se o enredo sucintamente desvelado.
 
J. e M., protagonistas de cada um dos contos, acompanhados, em alguns deles, pelo seu periquito 'branquinho', fazem emergir, do real em que se enredam, histórias que, nascendo da imaginação de Ferreyra, permanecem como realidades possíveis, deixando a suspeita de terem mesmo ocorrido.
Se não foi real, Ferreyra o criará, inspirado numa cosmovisão que tanto deve àquela religião que fez do encarnado a condição fundamental do existir.
 
A vinte e três (23) de cada mês, habitaremos o mundo pelo imaginário de Alberto Ferreyra...

sexta-feira, dezembro 19, 2025

Aborto | Manifesto ‘para que todos os catraios possam nascer’

 

Vamos imaginar.

Imagine-se que um dos 43 milhões de abortados, neste ano, em todo o mundo (números do worldmeters.info) conseguia quebrar a ‘interrupção’ a que o entregaram e falava ao nosso ouvido. Pedir-nos-ia, certamente, que lhe devolvêssemos a vida e que lhe permitíssemos que fosse à vida, acabada a gravidez de que a sua mãe o queria, antecipadamente, fazer sair.

Se é certo que tal só é possível por um exercício de imaginação, há, porém, que reconhecer que este exercício é o que suporta a ideia de que àqueles que são portadores de dignidade humana cabe reconhecer que, mesmo quando não têm voz, é como se a tivessem e a ouvíssemos, sempre, e sem desfalecer.

Ora, no caso do aborto, os que o legalizam e o querem tornar ‘lei blindada’ querem sumir a voz dos abortados.

É, por isso, humanamente exigível que se lhes dê voz.

Regressemos à constatação óbvia.

Num aborto, um filho é impedido de se desenvolver e de vir a nascer.

Num aborto, um pai é impedido de continuar a sê-lo.

Num aborto, uma mulher que era mãe deixa de o ser.

Num aborto, há muitos interesses em jogo.

Num aborto, há, por vezes, razões que levam a achar que o filho se tornou um problema e só eliminando-o o problema deixa de existir. Colide, porém, o desejo de que deixe de ser um problema com o reconhecimento de que um ser humano, portador de dignidade humana, é alguém, um alguém a quem ainda não soubemos que nome dar, mas que já é um ser participante da natureza humana e, por isso, merecedor de que o pensemos como um ‘tu’ a olhar para nós e a pedir-nos que o acolhamos. Abortá-lo é silenciá-lo.

É inquietante que o torpor coletivo que vem tomando conta do Ocidente esteja a apagar de diante de nós a voz dos que, no silêncio do ventre das suas mães, clamam por vida, clamam pelo futuro.

Quase não há semana em que não tenhamos notícias sobre o aborto. Ora da França, ora de cá, ora da Europa, ora daqui, ora dali.

No dia 18 de dezembro de 2025, a França anunciou ter aprovado lei que reabilita mulheres condenadas pelas leis anteriores a 1973.

A estratégia é impedir de falar o filho.

Aparentemente, em todo este processo, parece só haver uma vítima: a mulher que aborta.

Sejamos, porém, honestos. Se já temos abortos repetidos em perto de 30% do casos, se 96% dos casos de aborto são praticados sem razões explícitas (só cerca de 4% são por malformação, conflito entre a vida da mãe e do filho, violação, etc.), se há toda uma estrutura mundialmente organizada de clínicas que se dedicam, exclusivamente, a este ‘negócio’, podemos afirmar, com, honestidade, que o aborto se deve sempre a razões justificáveis?

Mas ‘o aborto diz só respeito a quem o faz’, dirão alguns, verdadeiramente convencidos disso.

Se um filho é um ser distinto do pai e da mãe, o assunto ‘aborto’ já não respeita só a quem o faz. Diz respeito, principalmente, a quem o sofre, o filho, e pela proteção que todo o filho humano nos merece, então, o assunto diz respeito a todos.

E se diz respeito a todos, porque quando se mata um humano, mata-se a humanidade nele presente, então as perguntas, perante o aborto, deveriam ser outras. Não ‘como ajudar a eliminar um filho?’, mas sim ‘como podemos ajudar quem sente que o filho em gestação é um problema?’

A estratégia em curso é, porém, clara. O aborto está encapsulado no preconceito de que é um direito da mulher e, por isso, beliscar este hipotético ‘direito’ é ser contra a mulher, considerada, sempre, em situação de miséria (os números não o demonstram!), sendo, então, de concluir que quem se opõe à legalização não o faça por bons motivos, mas porque é incompassivo, sem misericórdia.

Como opositor à legalização do aborto, olho para esta conclusão como uma ofensa.

Oponho-me, à legalização do aborto e ao seu reconhecimento como um direito, por causa da mãe; oponho-me por causa do filho; oponho-me por causa do pai; oponho-me porque recuso uma sociedade individualista em que cada um fica com o seu problema e os outros oferecem a morte porque, após ela, fica o silêncio que já não incomoda.

Oponho-me por sincera compaixão para com as mulheres que querem os seus filhos, mas que, por pressão social, são arrastadas para o aborto legalizado (quando era ilegal, jamais o fariam!); oponho-me porque a dignidade humana não pode ser um chavão que se utiliza quando dá votos, mas é, de facto, o fundamento da inviolabilidade de toda a vida humana, em particular quando, sendo frágil, ela mais incomoda e apetece rejeitá-la; oponho-me porque um filho não é gerado por um só e, por isso, é ilógico que um só possa decidir por um bem que é gerado por dois; oponho-me porque a vida humana não é um bem disponível; oponho-me porque não é apenas o ato da mulher que aborta que é legalizado: é todo o negócio e todos os interesses envolvidos; oponho-me porque a vida é de baixa probabilidade e, quando ela consegue contornar as improbabilidades, temos de lhe dar oportunidade de se abrir ao futuro; oponho-me porque não é dividindo a mãe contra o filho, o filho contra a mãe, a mãe contra o pai, o pai contra a mãe e todos contra todos que se constrói uma sociedade livre.

Como podemos admirar-nos com a violência que grassa nas nossas sociedades ocidentais quando o ato de violência da mãe sobre o seu filho em si protegido é reconhecida como um direito? O fim legitimado da gravidez parece nascer da ideia de que a gravidez é um peso lançado sobre a mulher. Como homem, e com uma inconfessável inveja, grito que a gravidez é um privilégio. Como podem perverter este reconhecimento os movimentos que estão paulatinamente a minar as consciências e a gerar a convicção de que o aborto seja um direito?

Bem sei que os interesses em jogo, que abanam as bandeiras dos ‘direitos conquistados’ ou da ‘compaixão para com quem é «atirado» para o aborto clandestino’, detêm condições de manipulação mediática e (outras) que só me permitem sonhar com uma outra sociedade para tempos não imediatos.

Mas a história mostra-nos que não devemos perder a esperança.

Recupero a história do eugenismo de que venho falando, em diversos estudos já publicados.

Entre 1883 e a Segunda Guerra Mundial, o mundo viveu uma vertigem semelhante à abortista que vem tomando conta do Ocidente, desde a década de 60, mas em particular, desde 1973 (caso Roe vs Wade).

A vertigem eugenística começou por suportar-se na ideia de que era preciso aproveitar as conquistas da ciência para limitar o nascimento dos que eram débeis, replicando, na sociedade, o que Darwin observara na natureza (por uma seleção artificial que replicava a seleção natural). O fascínio pela ideia foi-se avolumando. Criaram-se sociedades eugenísticas um pouco por todo o mundo. Legalizou-se o casamento eugénico, limitou-se o acesso ao casamento das comunidades tidas como ‘debilitadas’, etc. O torpor coletivo foi sendo cada vez mais avassalador.

Só uns raros países, de influência católica continuaram a resistir, em nome do reconhecimento de que a dignidade humana exigia o reconhecimento de que todos mereciam viver.

O que acordou deste torpor foi a II Guerra Mundial e a ‘superlativização’ do eugenismo por parte de Hitler.

O mundo despertou do longo sono.

Estou convencido de que o mundo acordará para o sono em que está.

A erosão do direito, grande responsável por esta onda abortista (pois, se o direito continuasse a travar a sua aceitação, a sua prática diminuiria e a vida sairia respeitada e protegida…), está a permitir que a onda continue a agigantar-se. O medo dos que se opõem a esta prática e a estas leis de serem tomados por incompassivos, por insensíveis, tem favorecido que, como a água de um tsunami, as lógicas abortistas, individualistas, tomem conta de tudo.

Mas permaneço confiante.

A dignidade humana vencerá, como venceu, após outras vertigens.

Atónitos, diremos, então: ‘como nos permitimos chegar aqui?’

Até lá, porém, é o tempo de escutar os silenciosos…

Deixemos os catraios nascer!

domingo, dezembro 07, 2025

Sabes, leitor... | 24 | Marca de água do livro de Simone Troisi e Cristiana Paccini, 'Nascemos e jamais morreremos: vida de Chiara Corbella Petrillo'

 

Rubrica ‘Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página’** | Marca de água de livros que deixam marcas profundas
Parceria: Federação Portuguesa pela Vida e Comissão Diocesana da Cultura




Luís Manuel Pereira da Silva*

 

O autor e a obra e as Marcas de água 

(o que fica depois de se deixar o livro: a verdadeira autora deste livro é Chiara Petrillo. Simone e Cristiana, os autores que encimam a capa, são os amigos de todas as horas, diante de quem se desenrolou a história que decidiram verter para as letras repousadas sobre as folhas…)

Simone Troisi e Cristiana Paccini, Nascemos e jamais morreremos: vida de Chiara Corbella Petrillo, Braga, Editorial A.O., 20236.

Começo esta nota com uma confissão. Demorei a decidir-me a fazer a recensão deste livro. Não porque nada tenha a dizer; antes, pelo grandeza do que nele se conta, pela dimensão do que há a dizer. Temo pela ineficácia das minhas palavras.

Por isso, começo por onde deveria terminar: leia, caríssimo leitor, este livro e deixe-se tomar pelo que nele se conta. Melhor, deixe-se habitar pela vida que nele fulge.

E prepare-se! Este livro incomoda, inquieta, avassala-nos.

Não pela especial verve literária, mas pela força das decisões de Chiara Petrillo, a biografada. Sim, este livro é uma biografia.

Ou, melhor. Este livro é vida! Não apenas ‘palavras sobre uma vida’, é, antes, vida que se socorre de palavras para poder continuar a contar-se.

A história de Chiara Petrillo é impressionante, como impressionam as vidas dos que, nas decisões quotidianas, se revelam heróis.

Verdadeiramente, Chiara levou até às últimas consequências a consciência de que ‘ser mãe’, ‘ser pai’ é, não só dar vida, mas, principalmente, quando tal se exige, ‘dar a vida’.

E isso desconcerta.

Se desconcerta!..

Apesar de o mundo da ‘defesa da vida’ ser a minha vida desde há muito, terei de revisitar a história de Gianna Molla para reencontrar uma tão densa narrativa de vida como esta que encontrei neste livro que, em boa hora, uma amiga do ‘mundo da defesa da vida’ partilhou comigo. Confesso que, em muitos momentos, me comovi, parei, limpei lágrimas para poder prosseguir com a leitura.

Chiara Petrillo e o seu marido, Enrico, são luzeiros de esperança, confiança e fé na vida que não se acaba.

Casaram em 2008, tendo-lhes nascido, pouco mais de um ano depois, a sua primeira filha: Maria Grazia Letizia. Os nomes são significativos. ‘Maria da Graça Alegria’!

O precoce diagnóstico de anencefalia logo foi fonte de pressões para que abortasse.

Mas a vida de um filho não é uma posse: é um convite ao amor e a ser amado. Por isso, a gravidez desenvolveu-se e o parto, contrariamente ao previsto, foi natural e Maria Grazia Letizia nasceu para, poucas horas depois, e já batizada, morrer nos braços dos seus amados pais.

Loucura?

Muitos di-lo-ão, uns em surdina, outros explicitamente.

Mas, se a vida é dom, como poderia ser de outro modo senão permitir-se que nasça e se deixe a natureza humana decidir? Seremos nós, pais, os senhores dos nossos filhos?

A situação vem a repetir-se, já não por anencefalia, mas por malformações singulares, ainda não designadas pela medicina.

Nova gravidez com sobressalto, mas levada até ao final. Nasce Davide Giovanni, ‘David João’.

‘David’, como o rei israelita que venceu Golias.

O Golias dos nossos medos e resistências.

Nasceu, foi acolhido e batizado. Os funerais destes filhos foram lugares de fé, esperança, confiança e alegria. A alegria de quem reconhece que a vida que se recebe não se possui, pois, o ‘contrário do amor não é o ódio, mas a posse’, como tantas vezes repete Chiara.

Terceira gravidez.

Desta feita, Francesco, o filho que se aguarda, não apresenta nenhuma malformação.

O pai, Enrico, sempre envolvendo o amor com o humor, perguntava o que faltaria a este terceiro filho.

Desta vez, a surpresa era outra.

Muito cedo, na gravidez, Chiara descobre que tem um tumor maligno a que ela chama ‘um dragão’.

Faz uma intervenção cirúrgica que não interfere com o desenvolvimento do seu filho. Propõem-lhe uma outra, mais invasiva, mas que pode colocar em risco a vida do filho.

Decide-se pela vida do seu filho e adia, o mais que pode, e só para depois do parto, essa segunda intervenção.

Francesco nasce… As intervenções sucedem-se, mas o que mais desconcerta é o amor e a confiança nunca perdida. Não a confiança numa cura, mas a certeza de o amor vencer. O amor que não possui, mas que acolhe a vida, com os seus fulgores e dores.

Com cerca de um ano de Francesco, Chiara morre, entre os seus inúmeros amigos, dando a todos confiança, segurança, esperança, conforto, quando a mais necessitada era, afinal, ela mesma. Os outros eram, sempre, em cada passo da sua história, o centro. Pois, como diz em carta que dedicou ao seu filho, para que a lesse quando maiorzinho, ‘’no pouco que percebi neste anos, apenas te posso dizer que o Amor é o centro da nossa vida, porque nascemos de um ato de amor, vivemos para amar e para ser amados, e morreremos para conhecer o amor verdadeiro de Deus.

O objetivo da nossa vida é amar e estar sempre prontos para aprender a amar os outros como só Deus te pode ensinar.

O amor consome-te, mas é tão bonito morrer consumidos, exatamente como uma vela que se apaga quando atinge o seu objetivo.

Não importa o que farás, mas o que quer que venhas a fazer só terá sentido se o fizeres em função da vida eterna.

Se estiveres realmente a amar, aperceber-te-ás disso pelo facto de que nada te pertence realmente, porque tudo é um dom.

Como diz S. Francisco: o contrário do amor é a posse!’

Não é por acaso que, tendo falecido em junho de 2012, com apenas 28 anos, Chiara Petrillo seja já invocada, pela Igreja Católica, desde 21 de setembro de 2018, como ‘serva de Deus’ e esteja em andamento o seu processo de beatificação.

Esta não é uma história de um culto do sacrifício, de um culto da dor mórbida. Pelo contrário, é a história da não desistência da vida e do amor por ela, apesar das dores e sacrifícios que amá-la possa comportar. Porque a verdadeira natureza do sacrifício está, precisamente, em ‘tornar sagrado’ o que, sem esse acolhimento amoroso, seria meramente ‘profano’ e sem sentido. Sacrifício diz, mesmo, ‘tornar sagrado’.

Chiara amou, acolheu a vida sem reservas. E isso desarma-nos. Este livro faz-nos deixar cair todas as armas defensivas com que recusamos receber o dom da vida, a vida que é um dom.

Neste livro, colocam-se, frente a frente, duas visões sobre a vida: a dos que a consideram uma posse e sobre ela tudo se admitem fazer por se entenderem seus donos; e a de quem se reconhece um grato recetor de um dom e tudo faz por merecer o dom recebido.

Fechado o livro, o silêncio toma conta de nós e pergunta-nos, sussurrando, ao ouvido: de que lado estás?

 

Na mesma página que o autor (citações)

‘Amar não é possuir. É querer o bem do outro’ (Luísa Viterbo, prefácio à edição portuguesa, p. 6)

‘Uma pessoa morre como viveu. Chiara morreu de uma maneira incrível, sorrindo diante da morte. Muito mais do que serena: feliz. Estar a seu lado foi ver o viver e o morrer de um filho de Deus’. (p. 17)

‘Nascemos e jamais morreremos. Essa frase está ligada à imagem de Chiara, mas Chiara nunca a pronunciou, ainda que seja perfeita para ela. Pronunciou-a Enrico. É uma frase que ouviu a um responsável da comunidade ‘Gesù Risorto’, doente terminal de cancro nos ossos. Enrico tinha cerca de 15 anos e ficou muito impressionado. Repetiu-a muitas vezes, e nós sabíamos que ele a queria escrever numa t-shirt, porque achava que era uma boa notícia para dar a todos.’ (p. 22)

‘Chiara passou da convicção de que tinha direito ao Enrico à compreensão de que o outro é um dom de Deus e, portanto, é necessário primeiro aceitar perdê-lo para depois o encontrar.’ (p. 32)

‘O que mais assusta Chiara é ela e Enrico estarem casados há poucos meses e não saber como poderá ele reagir à notícia de que a sua filha não está bem (era portadora de anencefalia) e morrerá logo após o nascimento. Tem medo de descobrir o que Enrico pode ter no coração, teme que possa deixar de a amar. Pensa: «Esta cruz, o meu marido vai pegar nela comigo ou terei de carrega-la sozinha? Ele vai entender-me ou…?»

[…] Quando Enrico fala, Chiara ouve as palavras que tanto tinha desejado ouvir: «Não te preocupes. É nossa filha: acompanhá-la-emos até onde pudermos». Também ele não pensa nem por um momento em rejeitar este dom. Para Chiara este não é só um momento inesquecível. É «o primeiro milagre».’ (pp. 42.44)

‘Para muitos médicos, o aborto é, neste caso, uma escolha evidente. Infelizmente, também o é para muitos dos que se dizem católicos. Poucos são os cristãos que apoiam Chiara e Enrico. O facto de Maria Grazia Letizia crescer sem cérebro faz com que muitos ponham em questão que a sua seja , de facto, vida; e alguns põem em questão se interromper uma gravidez destas é, na verdade, um aborto, como se a bebé nem sequer existisse. E este é, para Chiara e Enrico, o maior sofrimento: o peso do julgamento daqueles que os rodeiam, os conselhos daqueles que até àquele momento lhes eram próximos.’ (p. 45)

‘Tendo decidido levar a gravidez até ao fim, na verdade, Chiara e Enrico levaram para a frente uma ideia acerca da vida que muitos consideram incómoda. Mas é precisamente aquela defendida pela Igreja. A ideia de uma vida que vale por si mesma, prescindindo da inteligência, da capacidade de raciocínio e da beleza. Uma ideia de vida que rejeita todos os critérios do mundo que sugerem se uma pessoa deve sair para a rua ou ficar em casa, se deve levantar a mão para falar ou não, ou levantar-se da cama de manhã ou ficar a dormir.

É ainda uma ideia de vida segundo a qual o outro não vem para nos roubar nada, mas enriquece-nos com a sua presença.’ (p. 46)

‘Todas as mães geram filhos que não lhes pertencem. Ser pais significa exatamente isto. Mas para Chiara a consciência disto é maior. A sua missão e a de Enrico é a de acompanhar imediatamente esta menina ao encontro com Deus, e ela quer estar preparada o melhor possível para que isto aconteça, para que tudo se realize segundo o seu desígnio.’ (p. 52)

‘Chiara e Enrico estão verdadeiramente felizes. Tinham-se preparado para o pior, não para tanta beleza. «O momento em que a vimos foi um momento que nunca esquecerei: percebi que estávamos ligadas para toda a vida. Não pensava no facto de que estaria pouco tempo connosco. Foi uma meia hora inesquecível.

Se tivesse feito um aborto, não creio que poderia recordar o dia do aborto como um dia de festa, um dia em que me teria libertado de alguma coisa. Teria sido um momento que procuraria esquecer, um momento de grande sofrimento.’ (p. 55)

‘Aquilo que quero dizer às mães que perderam filhos é isto: nós fomos mães, recebemos este dom. Não importa o tempo: um mês, dois meses, poucas horas… o que conta é termos recebido este dom… e não é uma coisa que se possa esquecer.’ (p. 56)

‘[…] o contrário do amor não é o ódio, mas o possuir […]’ (p. 61)

‘Fazer um aborto é rejeitar um dom.’ (p. 65)

‘[…] o objetivo mais importante da vida é ser amados. O importante não é fazer coisas, mas nascer e deixar-se amar’. (p. 81)

‘«No pouco que percebi nestes anos, apenas te posso dizer que o Amor é o centro da nossa vida, porque nascemos de um ato de amor, vivemos para amar e para ser amados, e morremos para o conhecer o amor verdadeiro de Deus.

O objetivo da nossa vida é amar e estar sempre prontos para aprender a amar os outros como só Deus te pode ensinar.

O amor consome-te, mas é tão bonito morrer consumidos, exatamente como uma vela que se apaga quando atinge o seu objetivo.

Não importa o que farás, mas o que quer que venhas a fazer só terá sentido se o fizeres em função da vida eterna.

Se estiveres realmente a amar, aperceber-te-ás disso pelo facto de que nada te pertence realmente, porque tudo é dom.

Como diz São Francisco: o contrário do amor é a posse!»’ (p. 164 – da carta escrita por Chiara ao seu filhinho Francesco)


**(Título retirado de Daniel Faria, Dos líquidos, Porto, Edição Fundação Manuel Leão, 2000, p. 137)

*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Ensaios de liberdade', 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'

Foto recolhida do site da Editora Paulinas

domingo, novembro 23, 2025

Alberto Ferreyra | Mystérios lusitanos [contos - texto e locução] | 18 | Mistério na casa da Mata

 

Mystérios lusitanos | A vinte e três (23) de cada mês, habitamos o mundo pelo imaginário de Alberto Ferreyra...

(Nos ramos da escrita, repousam, vezes sem conta, as gralhas da distração, ocultas, sob múltiplos disfarces, até que alguém as enxote. Alberto Ferreyra contou com o fino olhar da sua amiga Teresa Correia, detentora do segredo da sua identidade, para afastar ou caçar o grasnar das gralhas. Está-lhe, por isso, muito grato...)

Alberto Ferreyra*



- São mesmo estreitos estes degraus! Não admira que o pai aqui tenha caído, segundo nos conta, nas vésperas da sua primeira comunhão.
- Outros tempos! Se fosse hoje, teríamos memórias fotográficas das inúmeras mazelas com que terá ficado. – Atalhou M. – Mas, desses tempos, só nos ficaram as palavras contadas.
J. e M. percorriam o passado, visitando-o do cimo das estreitas escadas que levam até à primeira leira da casa da Mata, uma humilde casa de aldeia, da cor do salmão, com rés-do-chão e primeiro andar. Como em todas estas simples moradias de camponeses, no andar térreo, havia um modesto lagar, onde, segundo recordavam as memórias repetidas vezes narradas, se chegara a dormir de tanto cansaço.
Uma exterior escada de pedra levava à parte nova da casa, onde se acrescentaram pequenos quartos para visitas, cujo chão era de soalho. Tudo rangia. Como o tempo entre as articulações de um homem.
A água, sempre farta, corria, sem se deter, no pequeno tanque repousado sobre um eternizado lamaçal. Lugar perfeito para um robusto tapete de marias-moles, deleite desejado dos galináceos que por ali cirandavam.
Ao fundo, percorridas algumas leiras e atravessada a estrada, o rio! Lento e demoradamente atento. O rio de todas as memórias, de hoje, do passado e do futuro. Um rio é sempre um reservatório de memórias. Se não das vetustas, das vindouras. Pois não há nascente que não apele a uma foz. Disso se faz um rio.
Do cimo das escadas, ouvia-se, por isso, o som do rio. Não agreste, pois aquele não é o lugar de um leito rápido. Antes o de uma prolongada estadia. O Vouga gosta daquela margem de Pessegueiro e ali se deleita… Era, por isso, um lugar de espera e de misteriosos aconteceres.
O Rio demorava-se e fazia-se sentir como serena voz das esperas. De todas as esperas. As que se viam, mas, principalmente, as que ouviam, sem que as vissem os olhos.
Um tal esperar-se o tempo que se alonga não podia senão ecoar no modo de ser. O modo próprio do ser da Mata.
- Como dizia, tantas vezes, a avó, duas pessoas da Mata podiam sair para a missa sem partilharem, até aos ‘Santos’, uma palavra que fosse. – Gracejou J. – Mas confiavam umas nas outras, como cegos firmes na mão que os leva.
E silenciou-se, enquanto colhia pequenas violetas nascidas na sempre humedecida terra que repousava sobre o muro em que se encostavam aqueles degraus que davam para um pequeno curral.
- Não era ali que estavam os coelhinhos que o pai nos disse que o levara a querer descer, apressadamente, estas estreitas escadas, quando pequeno? – Recordou M., apontando para a porta velha e mal fechada que deixava adivinhar uma longa história de sucessivas ninhadas de láparos.
Uma luz, atravessando as já pronunciadas frestas daquela enrugada porta, fez parar a narrativa de M.
J. continuava distraído, de olhos abertos, a apanhar violetas.
Erguendo-se, como que seduzida por uma voz misteriosa, M. encaminhou-se para o fundo dos degraus.
A medo, de olhos arregalados e cheios de mistério, abriu, pouco decidida, a porta que resistiu à sua parca força.
Nada!
A luz apagou-se.
Regressou ao lugar donde saíra.
- O que te mordeu? – Perguntou, com um certo tom de malícia, J. – Havia coelhos em ninhada?
E voltou a dirigir os olhos para o que estava a fazer.
M. ficou, porém, incomodada. Estava certa de ter visto uma luz. A reação do irmão deixara-a com a certeza da sua incompreensão. Decidiu, por isso, dispensar-se de lhe contar.
Estava, porém, entre estes pensamentos quando voltou a parecer-lhe que algo luminoso parecia emergir do interior daquele sombrio curral.
- J., estás a ver o mesmo que eu?
J. ergueu os seus olhos das violetas e tentou perceber o que M. via.
Era ele, agora, que estava atónito.
De um salto, pôs-se junto à porta, de olhos assombrados. Abriu-a e, tal como acontecera com M., a luz extinguiu-se.
Sem jeito, com mãos e pés trocados, subiu os degraus até junto da irmã.
O seu respirar era tão trôpego como o seu andar.
- Porque se apaga a luz quando abrimos a porta? Assusta-me isto.
Encostaram-se um ao outro, à espera de que mais alguma coisa acontecesse.
Nisto, nova luz emergiu.
M., mais corajosa, decidiu-se a enfrentar aquele mistério.
Compassadamente, aproximou-se da porta. A luz continuava intensa. Abriu, com cuidado, a porta. À medida que a abria, a luz ia diminuindo de intensidade.
Decidiu voltar a fechá-la.
A luz voltou a robustecer-se.
Percebeu que, se abrisse a porta, não conseguiria que a luz se mantivesse acesa.
Fechou, por momentos, os olhos para pensar, voltando costas à porta, a que se encostou.
Sem se aperceber, de olhos cerrados, uma ligeira brisa abriu, vagarosamente, a porta.
A luz mantinha-se acesa. Para J., porém, a luz extinguia-se.
Só para M. se mantinha a luz acesa, que se voltou para o interior do curral.
De olhos fechados, via que a luz iluminava aquele modesto espaço, que ganhava vida.
Um vulto estava sentado a um canto, num pequeno mocho, de queixo repousado sobre um velho cajado.
M. conservava os olhos fechados. Via, assim, toda aquela cena. Do cimo das escadas, J., confundido, nada percebia daqueles eventos. Aquele recanto era, para ele, apenas breu.
O homem, sentado no mocho e de queixo pousado sobre o velho cajado, sussurrou ao ouvido de M.:
- Só de olhos fechados se pode ver a verdade de um homem.
M. abriu os olhos e tudo foi devolvido à escuridão.
Subiu as escadas, até junto do irmão.
M. brilhava. Todo o seu rosto, o seu corpo era luz.
Abraçou o irmão, deu-lhe um suave beijo no rosto e pediu-lhe:
- Olha para mim… Não! De olhos fechados!...


Imagem de Tumisu por Pixabay


*Alberto Ferreyra diz que as suas letras habitam a mente e saem da mão de alguém nascido em terras gaulesas, ainda que afirme, em sussurro, que o seu real nascimento ocorreu nas margens do Antuã, em abril de 2024. É, por isso, um prematuro autor literário, germinado da inspiração que a realidade proporciona quando se tem a companhia, nos livros, de génios como Jorge Luis Borges, Miguel Torga, Gabriel García Marquez ou personagens como Poirot ou Padre Brown.
 
Na sua escrita, cruzam-se o real e o imaginado, o fictício e o histórico, numa embrenhada teia em que o leitor continua a ler, mesmo já depois de fechado o conto. O real continua a fecundar histórias na mente de quem lê Ferreyra. Cada conto, feito dos mistérios desvelados, aproxima o tempo e distancia o espaço, esticando-o até ao eterno e ao infinito. Ao ler Ferreyra, faz-se 'silêncio' ('mystério' alude à etimologia grega da palavra, que remete para o 'fazer silêncio', 'emudecer-se'...) para que possam ecoar as palavras, para que possa desenovelar-se o enredo sucintamente desvelado.
 
J. e M., protagonistas de cada um dos contos, acompanhados, em alguns deles, pelo seu periquito 'branquinho', fazem emergir, do real em que se enredam, histórias que, nascendo da imaginação de Ferreyra, permanecem como realidades possíveis, deixando a suspeita de terem mesmo ocorrido.
Se não foi real, Ferreyra o criará, inspirado numa cosmovisão que tanto deve àquela religião que fez do encarnado a condição fundamental do existir.
 
A vinte e três (23) de cada mês, habitaremos o mundo pelo imaginário de Alberto Ferreyra...

20 | Alberto Ferreyra | Mystérios lusitanos [contos - texto e locução] | Mistério na terra das langorinhas

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