terça-feira, outubro 06, 2026

Ecos de um suculento banquete (Simpósio) | A educação: entre o simbólico e o seu oposto

 Artigo publicado, originalmente, na Agência Ecclesia

Convoco (refletir tem o seu ‘quê’ de ‘reunião’ agregadora) para este ensaio diversas fontes.

A mais imediata é o ‘Simpósio «A Educação e a Escola em Portugal: Traçar mapas educativos para uma Magnífica Humanização»’ que decorreu em Fátima, nos dias 2 e 3 de outubro de 2026, sob a luminosidade da carta apostólica de Leão XIV, ‘Traçar novos mapas de esperança’, da encíclica ‘Magnifica Humanitas’, na senda, ainda, do norteamento resultante do Jubileu da educação, em que Leão XIV enunciou quatro pontos cardeais da educação cristã, acrescentando-os aos sete vetores propostos pelo Papa Francisco para um ‘Pacto educativo Global[1].

Seguem-se a esta primeira fonte (tão fecunda e poliédrica) diversas leituras: desde Esquirol (e o seu ‘a escola da alma’), a Leonardo Boff (e o seu ‘despertar da Águia’), passando pela visão proléptica da realidade de W. Pannenberg…

Acrescentar-se-ão, ainda, as ‘lições dos descobrimentos’, pela mão de Jorge Nascimento Rodrigues e Tessaleno Devezas, que nos permitirão vislumbrar uma resposta a uma dúvida com que os portugueses se confrontam, desde o século XV, quando ousámos deixar a costa para nos adentrarmos no mar: como foi possível tal ousadia?

O que nos reservará, então e afinal, a lição dos descobrimentos de iluminador para as interrogações sobre a educação?

 

A educação repercute paradigmas antropológicos

 

Só os humanos educam, característica que nasce da tensão entre poder ser e não o ser… Esta ‘co’incidência (entre o que é a educação e o que é o humano) define a educação como realidade intrinsecamente antropológica que repercute, portanto, não só uma ideia de ‘Homem’, nas suas motivações (e conceções), mas também nas suas consequências.

Uma metáfora do ser humano poderá auxiliar-nos, nesta reflexão.

Pensemo-nos como um elástico tendido entre dois pontos fixos: o transcendente (espiritual, anímico) e o imanente (o animal, o biológico, materialmente observável, físico…).

O Homem é esse elástico, em tensão.

Perdida essa tensão, outra realidade emerge, mas já não estaremos perante o humano inteiro e completo.

Desprendido do físico, do corpóreo, teremos ‘anjos’, inteligências incorpóreas (mas insuscetíveis de vivência histórica, local…). Não teremos, já, o humano. (Não é difícil vislumbrar, neste paradigma de elástico solto do corpóreo, todos os gnosticismos da História, sendo o mais recente o que se manifesta no transumanismo e, como horizonte final, o pós-humanismo). Chamemos-lhe ‘paradigma ex-humano’ (aludindo à força da preposição ‘ex’ interpretada, aqui, como significando ‘fora de’)… O paradigma ‘ex-humano’ fala de um ‘Homem’ sem odor nem cheiro, sem vivência assente no contacto com o ‘chão’. Ele é só inteligência, dados, conhecimento…

Em oposição, temos um outro paradigma que solta o elástico na outra ponta, quebrando a tensão que é própria do humano por reduzi-lo ao corpóreo, ao imanente, ao visível e observável, ao quantificável, como que à ‘res extensa’ de que falava Descartes. Ele não tem interioridade nem projeção transcendente. É o meramente ‘posto aí’ (positivum – origem do ‘positivismo’).

Mais uma vez, temos algo do humano, mas não o humano inteiro.

Uma tal conclusão (bem certo que ainda precoce, na nossa reflexão…) permite-nos encontrar uma primeira ‘pedra’ para pousarmos os pés: uma autêntica educação não poderá fazer-se da fragmentação dos sujeitos, devendo, por isso, também estar atenta ao risco que possa resultar da fragmentação dos objetos. Pannenberg esteve particularmente atento a esta realidade, ao enunciar, no seu brilhante ‘teoria da ciência e teologia’ que, sem o horizonte de unidade que Deus assegura, a fragmentação dos saberes pode redundar numa consequente fragmentação do próprio sujeito humano (sendo que o processo moderno de fragmentação das ciências é, por si só, já sinal de uma conceção fragmentada do próprio homem – uma conceção antropológica incompleta, portanto).

Ajuda-nos a melhor compreender o que está aqui em jogo a recuperação do significado etimológico dos termos.

 

A educação, entre o simbólico e o seu oposto

Fixemo-nos na ideia de ‘símbolo’.

A ideia de ‘símbolo’ é altamente fecunda para a compreensão do que deva ser a educação e tendo em conta o que acabámos de enunciar: a educação perante o risco das fragmentações.

Recordo-me de, nos finais do milénio passado, quando os nossos ainda ‘imberbes’ computadores começavam a ficar lentos, se proceder à ‘desfragmentação’ (os engenheiros informáticos bem sabiam que também as máquinas se fragmentam e é preciso, com alguma frequência, combater essa sedução (de fragmentar-se) para que não se destruam…).

Os que conceberam os sistemas informáticos tiveram, certamente, por referência, o que se observa na condição humana.

A excessiva fragmentação cinde, parte, quebra a unidade e conduz, com a força da entropia (de que fala a segunda lei da termodinâmica), à destruição do ser.

O termo ‘símbolo’ fala dessa unidade.

A etimologia ajuda a compreender até onde vai esse significado.

A palavra ‘símbolo’ reúne uma preposição (‘sún’ – que nos aparece em ‘simpatia’, ‘simbiose’, etc.) que significa ‘juntamente’, ‘ao mesmo tempo’, podendo ser traduzida por ‘com’; a esta preposição junta-se o verbo ‘bállô’, que pode ser traduzido por ‘lançar’, ‘atirar’, donde resulta a ideia de ‘juntar o que está separado’, ‘unir em conjunto’, ‘lançar ao mesmo tempo’.

É esse o significado profundo de ‘símbolo’: refere-se a uma realidade ou processo pelo qual duas condições separadas se unem, ao mesmo tempo, densificando-se, reciprocamente. Um símbolo é mesmo isso. A rosa no jardim não é um símbolo. A rosa, na mão do amante, é um símbolo, pois à realidade física da flor, bela e perfumada, junta-se, ao mesmo tempo, a vivência do amor, expresso na amada, bela e perfume do viver do amante.

Se procurarmos compreender, ainda mais profundamente, o alcance do conceito, podemos colocá-lo em contraposição ao seu antónimo.

O oposto ao simbólico será a realidade ou processo pelo qual se ‘lança em separado’, ‘se divide o que está unido’, ‘se cinde o que é unidade’. Em grego, a preposição ‘diá’ serve esta procura. Lançar em separado pode dizer-se ‘dia+bállô’ que chegou à língua portuguesa cunhado na palavra ‘diabólico’. O ‘diabólico’ opera o contrário do ‘simbólico’. Enquanto este une os fragmentos, o ‘diabólico’ faz em fragmentos o que era unidade.

A educação deverá definir-se, à luz do caminho feito até este momento da nossa reflexão, como um demorado processo de ‘simbolização’. Os inúmeros saberes devem ‘simbolizar-se’ como unidade de sentido, no sujeito em construção.

Uma unidade que não é, porém, apenas de ordem cognitiva. O sujeito humano é saber, bem certo, mas é muito mais dimensões que se ‘representam’ (tornam presentes) no acontecer educativo.

 

Educação: a finitude como ‘o’ lugar educativo

O sujeito humano é humanidade, humanitude que acontece num ser concreto.

Na escolástica, a matéria era reconhecida como princípio de individuação. Hoje, podemos recuperar esse significado e reconfigurá-lo numa nova categoria a que a educação deverá atender.

Cheguemos lá por um pequeno exercício conceptual.

Demo-nos conta de que os processos de poder tendem a reduzir os sujeitos a categorias anonimizadas. O poder (frio e abstrato) despersonaliza.

O processo oposto a este deverá operar a personalização. É o que acontece ao olharmos, de frente, a fragilidade do sujeito. A fragilidade singulariza-nos; o poder homogeneiza-nos.

Deste pequeno exercício conceptual podemos colher o reconhecimento de que a fragilidade, a vulnerabilidade (a posse de uma ‘ferida’ (‘vulnus’, em latim)) humaniza-nos, leva-nos a reconhecer a nossa condição débil, frágil, imperfeita, feita de ‘húmus’, na linha da grande intuição judaico-cristã de que somos todos ‘Adão’ (‘Aquele que é feito de ‘húmus’, terra vermelha e fértil’), o que faz da educação um processo de encontro de ‘imperfeitos’ que, sabendo-se incompletos, se reconhecem, também, como perfetíveis – em caminho futurível de construção de uma perfeição nunca acabada.

Em contexto de desafios como os que nos coloca a tão poderosa ‘inteligência artificial’, seguindo a matriz que Leão XIV enuncia, na ‘Magnifica Humanitas’, cabe encontrar um equilíbrio entre a demonização e a acrítica aceitação das oportunidades que tal instrumento (que é já mais do que um instrumento; um modo de pensar, como que o ‘espírito deste tempo’) nos proporciona, olhando para o risco de que, à sua luz, possamos pensar-nos como destituídos de erro e de limites. Se tal ocorresse, o humano teria morrido.

A IA não tem cheiro e não sabe a que cheiram os perfumes. Nela, não há chão percorrido. Há, nela, dados que se agigantam como sombra de um pequeno boneco projetado de um foco de luz diante do qual se posicionou, originando enorme sombra. Se deslocarmos, ligeiramente, o foco de luz, a sombra desvanecer-se-á e poderemos continuar a ver-nos como seres sem medo do fantasma que se engrandecia como todo-poderoso.

Regressemos, pela educação, à condição frágil. Reconheçamo-nos, como seres ‘efinitos’, seres que vivem ‘a partir’ (preposição ‘e/ex’) da finitude, que não se pensam sem a ter em conta (ela é condição de possibilidade de nos compreendermos, realmente – como o elástico preso na ponta corpórea), mas projetando-nos para o mais elevado. A IA (e, com ela, os que a pretendem como instrumento de transumanismos ou pós-humanismos) pode servir um paradigma em que o humano já não possui limites, em que se pretende prescindir dos limites como se não fizessem parte da sua condição. Nesse paradigma, não viveremos: deslizaremos sobre o tempo. Em alternativa, porém, a mesma IA pode, se lida criticamente, se compreendida como instrumento ao serviço do humano, pode ajudar a elevar, a caminhar para mais longe, mas com a condição de que não se prescinda dos limites: os do espaço, os do tempo, os da condição corpórea…

A educação será, então, lugar da demora, do dar-se tempo e espaço para que aconteça o crescimento lento, progressivo e não avassalador.

Um crescimento feito do reconhecimento de que ninguém nasce de si, ninguém se faz a si mesmo, mas nasce de outros e gera, com outros, outros ainda…

Do reconhecimento da finitude redunda, intrinsecamente, o reconhecimento da ‘vulnerabilidade’ (essa ferida congénita e nunca totalmente sarada) que precisa da mão dos outros para ir cicatrizando.

Na IA de paradigma ‘ex-humano’, o outro é prescindível; no paradigma ‘inumano’ (sim, aludo aqui ao ‘entrar na terra’, pois ser com o outro é participar da sua condição de ‘húmus’), sem os outros morreremos. Os outros são condição de possibilidade de sermos, pois, não só nascemos de dois outros como é de muitos outros que recebemos a possibilidade de se tornar atual a nossa consciência que é, apenas, ‘potência à espera’ quando nascemos.

É precisamente por isto que só os humanos educam. Se não educassem, a potencialidade de se ser autoconsciente não se tornaria, jamais, atual. Educar é fazer emergir do sujeito a potencialidade de se saber e de saber. Os outros não são, por isso, acrescento e elemento prescindível: sem eles, não aconteceríamos como seres inteiros. O elástico perderia a sua tensão, reduzido que estaria à sua prisão no biológico.

Ganha, neste momento da nossa reflexão, uma densa significação a lição que podemos colher dos descobrimentos portugueses.

Há uma interrogação que todos os que estudam os descobrimentos se colocam: o que fez com que ousássemos partir para o alto-mar, quando, até aí navegávamos por cabotagem, isto é, sem nos afastarmos da costa?

Os autores de ‘as lições dos descobrimentos’ enunciam uma multiplicidade de fatores, reunidos num capítulo sobre ‘inovações em múltiplas frentes’, em que se faça da criação da ‘junta dos cosmógrafos’, do ‘regimento do astrolábio e do quadrante’ (documento de enorme relevância), os ‘progressos na arte da navegação’, ‘na cartografia’, etc. etc. Destaco, entre as várias descobertas, a adaptação, à caravela, da vela latina, conhecida já desde o século IIa.C.

Há, porém, na minha perspetiva, um aspeto óbvio que escapa a esta leitura de enunciação de dados.

Os portugueses sabiam que havia mais mar para além do que se vislumbrava da costa. (Aliás, a propósito disto, considero oportuno recordar que a Idade Média não acreditava na terra plana, como veio a fazer-se crer, depois da revolução francesa. Isso é um mito a desconstruir, mas para cuja análise remeto para artigos que entretanto já fui publicando, na rubrica ‘7 dias da criação).

Recordando a sentença de Séneca, os portugueses tornaram favoráveis os ventos pois sabiam o destino…

E isso é densamente significativo para a reflexão sobre a educação.

Não há educação autêntica sem sentido e sem destino e é por isso que considero que os Estados que pretendem promover uma educação que neutraliza a identidade, a cultura, os ‘sentidos’ reconhecidos pela sociedade, conduzem a educação ao fracasso. Uma das maiores crises das sociedades ocidentais resulta de uma conceção de laicidade que voltou as costas às narrativas de sentido em que se estruturam as vidas dos seus cidadãos, construindo matrizes de educação (amplamente reduzidas a instrução) que colam com frágil ‘goma’ os saberes propostos. Sem uma convergência dos esforços societários no processo educativo, não prescindindo da educação de matriz religiosa e, no contexto português, do contributo da educação católica (seja a que é promovida nos contextos explicitamente religiosos, através da catequese, seja a que é proposta através da educação moral e religiosa católica), a educação viverá em estado de permanente risco de ‘ex-humanidade’, sobrevoando a realidade efetiva dos sujeitos humanamente considerados.

A causa de falhar a educação está em que no centro não esteja, de facto, o humano. Não se constroem mapas de realidades que nunca foram habitadas ou em que não se pretende vir a fazer morada. Concebemos mapas de realidades de que nos falam outros que as moraram e para que possamos pensar em vir nelas a fazer morada, nós mesmos. É por isso que educar é manter em tensão o elástico antropológico: tensão entre o imanente e o transcendente; tensão entre o já sido, o ainda a ser e o ainda não sido; tensão entre o habitado e o habitável; tensão entre o ter-se sido, o ser-se e o haver de ser… Educar é aprender a não deixar cair o elástico. Para que permaneçamos humanos.



[1] Para que a sua enumeração supere a suposição de serem conhecidos, deixo-os aqui explicitados, recuperando-os da carta apostólica de Leão XIV, ‘Traçar novos mapas de esperança’:

Os sete vetores do Pacto educativo global, segundo a proposta sintetizada por Leão XIV:

"10.1. Entre as estrelas que orientam o caminho está o Pacto Educativo Global. É com gratidão que acolho esta herança profética, confiada a todos nós pelo Papa Francisco. Trata-se dum convite a estabelecer alianças e redes para educar à fraternidade universal. Os seus sete caminhos continuam a ser a nossa base: colocar a pessoa no centro; ouvir as crianças e os jovens; promover a dignidade e a plena participação das mulheres; reconhecer a família como primeira educadora; abrir-se ao acolhimento e à inclusão; renovar a economia e a política ao serviço do humano; cuidar da casa comum."

A estes sete vetores, Leão XIV acrescentou, no encontro com os educadores, no Jubileu do mundo educativo, os seguintes: “Também eu fui professor nas instituições educativas da Ordem de Santo Agostinho. Portanto, gostaria de partilhar convosco a minha experiência, retomando quatro aspectos da doutrina do Doctor Gratiae que considero fundamentais para a educação cristã: a interioridade, a unidade, o amor e a alegria. São princípios que gostaria que se tornassem os pilares de um caminho a percorrer juntos, fazendo deste encontro o início de um percurso comum de crescimento e enriquecimento recíprocos.”


sexta-feira, setembro 11, 2026

E ao pó hás-de voltar… Não às cinzas estéreis e anónimas.

 

Há uma sabedoria profunda, verdadeiramente divina, no ato de inumar o ‘corpo’ morto, de o devolver ao regaço adâmico de que proveio. Mas uma onda vertiginosa está a fazer-nos regressar aos fornos crematórios.

Inquietante…

Bem sei que a longa tradição oriental, particularmente a de origem hindu, encerra a vida terrena no ato de cremar. Mas há uma conceção que a justifica, sustentada numa visão escatológica (sobre o pós-vida) muito distinta da judaico-cristã: nesta, a vida de cada um permanecerá uma identidade, depois da vida terrena; na visão oriental, todos nos fundiremos num uno, no cosmos.

Hoje, porém, a raiz dessa justificação está ausente dos motivos que assistem ao avolumar de números de pedidos de cremação, no contexto ocidental, em particular, no europeu.

 

Este texto nasce da confluência de três experiências: uma visita de estudo a Cracóvia e aos campos de concentração de Auschwitz-Birkenau; peregrinação a Santiago de Compostela e a leitura de um livro.

Na visita de estudo que realizei a Auschwitz-Birkenau, tomei consciência (essa consciência que arregala os olhos de pestanas queimadas por longas leituras, a que resulta de se ser surpreendido pelo óbvio que os livros nunca deixaram transparecer) de que a crueldade nazi para com os judeus não se bastara em humilhar, em vida, cada uma das suas vítimas. A ação nazi ia desde o despir integral, desonrando, pela nudez, cada um dos que chegavam aos campos de concentração, passando pela despersonalização reduzida ao número tatuado no corpo (deixava-se, para sempre, o nome com que se adquire uma identidade única) e pelas mortes arbitrárias (porquê este ou porquê aquele eram questões vazias. Morria-se porque assim o determinava a vontade de poder, a vontade dos que tinham o poder…). Os nazis reservavam para o fim a suprema humilhação: um judeu quer voltar à terra de que proveio, a terra que dá o nome à condição adâmica. Somos ‘adam’ porque somos feitos de ‘adamah’; como poderíamos constatar ser ‘humanos’ por nos fazermos do ‘húmus’. Reduzir a cinzas é a negação final da identidade, o culminar de uma ‘solução final’ que se faz do desejo malvado de apagar da história todo um povo e, com ele, cada um dos seus. Para o judeu (como, aliás, para o cristão), o corpo deve regressar à terra que clama por ele. Inumar o cadáver, devolvê-lo ao berço de origem, é respeitar a história que se enlaçou com o suporte corporal da identidade de cada um. O corpo não é apêndice; é parte visível de uma densa identidade que penetra na interioridade invisível. Reduzir a cinzas o que é visível é propiciar a destruição da identidade ali visibilizada.

É isto que torna inquietante o incremento de uma cultura da cremação.

Uma cultura feita de ‘sem-nomes’, de pessoas que, no seu viver ‘funcional’ e ‘útil’, querem fazer-se perder para sempre, sem lugar nem memória.

Senti isto, na peregrinação a Santiago, ao aproximar-me de Padrón, pela madrugada.

No percurso, passei pelo grande crematório/tanatório. Senti, ao ver aquele edifício soturno, anonimizado, o rigor frio da morte. Aquele crematório faz parte de um grande complexo associado ao morrer. Para quem faz o caminho em direção a Padrón, o primeiro que vê é, precisamente, o crematório/tanatório. Após o silencioso e anónimo edifício, segue-se um grande cemitério.

A diferença não podia ser maior. Ao anonimato do crematório - um lugar sem nomes, sem memórias-, segue-se o terreno dos nomes: o cemitério, com as suas cruzes e lápides cheias de nomes e memórias.

No silêncio do meu caminhar, lembrei-me do que faziam os nazis, nos seus campos, cuja porta de saída eram os fornos crematórios: reduzir a nada a vida de cada um dos que faziam parte da ‘solução final’.

E somei outras constatações: tatuámo-nos com imagens sem conteúdo, ocultando, sob tintas já sem narrativas, a cor das nossas peles, como se quiséssemos deixar de nos ser; queremos apagar a memória do que somos e fomos, mudando o nosso género e, com ele, a nossa identidade que pretendemos substituir pelo que a nossa vontade de poder entender determinar.

Iludimo-nos na busca da felicidade, como se ela fosse a meta e não a consequência de amarmos, verdadeiramente. Vivemos gravitando em torno de nós mesmos, desistindo de querer ser como Deus nos pretende para nos determinarmos, ficando em becos sem saída e sem rumo, por nos descobrirmos (talvez sós e sem ninguém que nos acompanhe) que, afinal, a quem sempre buscámos foi a nós mesmos. Por tudo isso, sobra reduzirmo-nos ao ‘sem-nome’, porque só Deus poderia garantir que permanecêssemos nós mesmos. Mas se já nada quisemos com Deus!?… O que poderia sobrar, então?

Nem nós mesmos, obviamente.

A história do pensamento já o adivinhara: se Deus morre, o sujeito humano extingue-se, também.

Mas parecemos gostar da ideia.

Vivemos numa condição assética, sem luta sem superações reais. Não vamos para lado nenhum, pois não nos sabemos ‘chamados’ porque recusamos que Alguém pudesse, sequer, chamar.

Resulta daqui, como bem recorda, Bourgninaud, no seu livro ‘Contra a aversão do homem pelo homem’, um estranho e absurdo movimento de repulsa do Homem para consigo próprio. Quando gravitamos em torno de nós mesmos, à inicial força centrípeta (de sedutora atração por si mesmo) segue-se um movimento oposto, gerador de uma força centrífuga. Voltámo-nos tão intensamente para nós mesmos que nos cansámos de nós. Byung Chul-Han constata, por isso, estarmos a construir uma sociedade do cansaço, na linha, aliás, do que também Lipovetsky identifica como sendo a ‘hipermodernidade’: uma cultura da deceção.

Regressar à terra, à fragilidade que somos, que nos identifica como únicos, como imperfeitos e, por isso, perfetíveis, é, assim, condição necessária e urgente para que possa sobreviver a humanidade. Haverá que pedir que se afixe, nas portas das casas que habitamos, o convite a um novo humanismo. E que voltemos a desejar regressar à terra da qual provimos, para que sobre ela possam caminhar, seguros, os nossos passos de humanos imperfeitos.

sexta-feira, setembro 04, 2026

Santiago de Compostela: Um homem e o seu caminho

 

A condição de peregrino é das que mais belamente expressam o que é ‘ser-se humano’.

Gabriel Marcel percebeu-o, ao designar o Homem como ‘homo viator’, ‘aquele que caminha’, que ‘faz caminho’… Bem poderia tê-lo dito, cunhando-o como ‘homo peregrinante’. Um qualquer dicionário de latim ajuda-nos a perceber que a densidade do que se diz, neste termo, é maior do que a primeira vista permite vislumbrar. O ‘peregrino’ é aquele que ‘atravessa os campos’, anda ‘pelo campo’, não tanto o ‘campo rural’ (ainda que a ideia não esteja totalmente ausente), mas com o alcance de ‘campo estrangeiro’. O peregrino faz uma ‘longa viagem’. É, de algum modo, estrangeiro em toda a terra, ainda que em toda a terra se demore. É muito distinto do turista, que se acelera, de lugar em lugar, para ver, ver, ver. (Ah, como bem o sabia o autor da carta a Diogneto, no século II, que assim falava da condição cristã como a de quem é estrangeiro em toda a terra, ao mesmo tempo que cidadão da mesma!)

O peregrino, pelo contrário, habita e é habitado. Demora-se, nos espaços e nos tempos, ainda que se saiba não pertencente àquele lugar. Não anda errante, porque o erro não o impede de se encaminhar para a meta que o move.

É por isso que, por se fazer ao caminho, por entre os campos que lhe são estrangeiros, acomoda os pés, prepara o seu coração, mune do fundamental o seu alforge e se faz à vida sem sucumbir às adversidades.

Fiz-me ‘à vida’ com o desejo de não sucumbir às adversidades, entre os dias 18 e 22 de agosto de 2026, percorrendo o caminho português, a partir de Valença.

Não pretendo, porém, com esta partilha, apresentar-me como exemplo (Um só é o Mestre!), mas soprar, com estas palavras, sobre as cinzas que, tantas vezes, repousam, tornando-a opaca, sobre a esperança e mostrar como são muitos os mundos de que se faz um ‘Homem’.

Percorri, num grupo de doze, os mais de 120 kms que separam Valença de Santiago de Compostela. No princípio, éramos um mais um mais um mais um… até aos doze: seis do grupo de jovens de Estarreja (AM, DH, AV, RM, JM e eu, Luís) e seis jovens da ‘Missão País’ (CM, HA, DC, MF, FF e SC)! Acabámos ‘um-que-se-faz-de-doze’: gente de fibra, autênticos ‘buscadores de Deus’. É que o ‘caminho’ entrelaça as histórias e faz com que, no mesmo tempo, se vivam muitas vidas simultâneas: as de todos os que, connosco, caminham o caminho, que jamais voltarão a ser as mesmas, após o entrelaçar caminhado. As dores de uns são as dores de todos. As superações de um alegram o coração de todos.

Doze histórias diferentes de doze mundos distintos, com tempos diversos. Uns mais novos (a grande maioria!), outros mais distanciados do tempo do seu nascer. Encontrámos, no caminho, novos, velhos, coxos e trôpegos, doridos e frescos… Os ombros de uns serviam de apoio à insegura cabeça de outros. É assim o caminho.

Deixámo-nos conduzir, ao longo dos cinco dias, pelos cinco capítulos da carta de São Tiago: um capítulo por dia. A carta em que Tiago nos recorda que a fé sem obras é morta…

Entre as muitas histórias e motivos que levam a que se faça o caminho, há narrativas mais simples, há outras mais densas.

Encontrei, em Padrón, uma das mais marcantes que ouvi, nos últimos tempos.

Este texto é, também, exteriorização da minha profunda unidade de coração com a dor que nela se conta.

Aguardávamos pela hora de abertura do albergue público. A entrada era feita pela ordem de chegada. Tínhamos, por isso, saído muito cedo de Briallos. Havíamos vivido um susto, logo no primeiro albergue, e não queríamos repeti-lo.

Chegados, por volta das seis horas e trinta minutos da madrugada, a Padrón, cujo albergue público tem lotação máxima de 47 lugares, já ali aguardavam dez peregrinos. Fizéramos bem em sair cedinho. A nossa decisão de não marcar lugares e confiar obrigava-nos a este sacrifício suplementar. Talvez, no futuro, venhamos a rever tal opção...

Mas, neste ano, nada havia a fazer e restava confiar. Não deixar reservas (só possível nos albergues privados) densificava a nossa condição de peregrinos. A nossa era uma ‘via’ que, verdadeiramente, depositava toda a confiança no Senhor.

Confirmando que tínhamos vaga, fomos instalando, na pedra fria da calçada exterior ao albergue, os nossos alforges e sacos-camas, preparando-nos para algum descanso até à abertura do alojamento.

Entretanto, chegou A.

(Este meu texto é homenagem àquela que levou A. a realizar o seu décimo quinto caminho, diferente de todos os anteriores…)

A. era português, vindo da margem sul.

Este caminho já fora antecedido de muitos outros, mas era único. Como me disse, perdera a irmã, quinze dias antes, por doença oncológica prolongada. Pudera despedir-se e preparar-se.

Prometera-lhe, no leito de morte, que faria o caminho e que a levaria consigo. (Na história da sua irmã refletia-se a história do meu pai, em luta contra um cancro…)

Trazia, por isso, na sua carteira, duas credenciais de peregrino: a sua e a da sua irmã.

Esperava que lhe emitissem, em nome da irmã, o diploma de peregrino, pois também ela fizera caminho ao seu lado ou, melhor, no seu coração. Sabia-a consigo. Ela fazia caminho com o seu cajado e o seu alforge.

Chorei com ele.

Chorei mais do que uma vez e comovo-me, de cada vez que lembro a sua história.

Disse-me, com a sabedoria de quem sente sem amargura, que estava ali, após ter tentado vários albergues públicos, sempre ocupados. Caminhara quinze horas seguidas (mais de sessenta quilómetros), antes de encontrar aquele albergue. Sabia que não encontrara lugar porque, como me disse, o caminho é feito por peregrinos, mas também por ‘turegrinos’ que ultrapassam outros, através de expedientes pouco coerentes com o ‘caminho’. (Infelizmente, também nisto o ‘caminho’ explicita a condição humana, feita de ‘espertezas’ e sombras.)

A. estava cansado, mas percebia-se-lhe a felicidade. Este era o último albergue, antes da etapa final que o levaria ao regaço do Apóstolo.

Quando parti, no grupo dos ‘doze’, do albergue, A. ainda dormia. Deixei-lhe, sobre a mochila, uma curta mensagem, escrita em papel.

Não sabemos, um do outro, nada mais do que o nome. Mas as nossas vidas jamais serão iguais porque o ‘caminho’ nos entrelaçou.

É assim a condição humana. Somos entrelaçados nas vidas uns dos outros, um entrelaçar que tantos peregrinos visibilizam nos símbolos que guardam e de que nunca mais se desfazem (as pulseiras, as conchas, o chapéu de peregrinos…).

Mas os tempos querem desenlaçar-nos, como se pudéssemos existir e viver sem os demais. Triste ilusão!

Ao pórtico da Glória só se chegará, porém, com os outros, na comunhão dos santos. E quantas lágrimas se derramam, sem que as consigamos estancar, quando nos abraça o Apóstolo! A alegria assume a forma de lágrima fecunda de nova luz sobre o nosso caminhar. É-nos dado, para sempre, um novo caminhar!

quarta-feira, agosto 26, 2026

A propósito do aumento da criminalidade. Transformar o medo que bloqueia em energia que encoraja


As notícias parecem retratar um aumento da criminalidade violenta. Correspondam ou não a um aumento estatisticamente verificável, importa tomar consciência de dados que esta perceção pode catalisar, ao ponto de, deles, resultar uma mudança da própria realidade.

O medo é um dos mais poderosos sentimentos humanos. Fernando Savater não lhe atribui poder pequeno quando afirma que ‘a cultura nasce do medo da morte’. O medo; a cultura: o que há de mais humano!

Nele, concentram-se realidade e perceção, em equilíbrio que dificilmente nos permite discernir quanto há de objetivo e quanto sobra de subjetivo.

Importa, por isso, tomar consciência do seu poder. Poder de que sabem, aliás, sobejamente, os ditadores. É com ele que constroem os pilares dos seus regimes.

Baltazar Garzón, no seu luminoso livro ‘Um mundo sem medo’, recorda como é que a máfia criava, no sul da Itália, a sua teia de influências. Quando alguém decidia começar vida, cedo se tornava notado um dos seus correligionários que se encarregava de recordar ao recém-chegado quão volátil é o gás, por aqueles lugares. Para resistir a tal volatilidade, havia que pedir a proteção dos que sabiam acalmar o instável temperamento do gás.

Mas recorda, também, o ex-juiz espanhol como se começou a combater o poder dos que criavam e mobilizavam o medo. Por pequenos sinais (atirando pequenas moedas pretas para o chão), o povo foi identificando os mafiosos e, assim, dando a saber, aos políticos e ao sistema judicial, que era hora de agir. O sinal do povo e a vontade dos homens justos deu origem à operação ‘mãos limpas’ que, entre muitas vítimas, permitiu alguma ‘purificação’ do sistema italiano.

Somemos a esta constatação uma outra.

Recolhemo-la do livro ‘Freakonomics: o estranho mundo da economia’. Levitt e Dubner contam-nos que não foi sem alguma perplexidade que muitos estudiosos perceberam que a diferença entre estados com crimes hediondos e outros em que este tipo de atos era menos frequente poderia não estar na gravidade das penas. Aliás, tudo apontava para que a ameaça com penas mais graves fosse relativamente ineficaz. Uma outra era a linha a prosseguir. A leitura atenta permitiu concluir que era na eficácia da punibilidade nos delitos menos graves e a perceção de se ser punido o fator mais inibidor da sua prática. Estar sob a ameaça de penas pesadas, mas sem a convicção de se ser apanhado ou, sequer, punido, tornava ineficazes as leis.

Significativa constatação e extremamente útil para a reflexão que estamos a desenvolver.

Os sinais (objetivos ou subjetivamente recolhidos) de um recrudescer da violência (quase todas as semanas ouvimos notícias de assassínios, nas ruas de Lisboa, em pleno dia, e em ruas movimentadas) exige uma abordagem pronta e imediata, exigindo maior celeridade de atuação, combatendo qualquer sentimento de impunidade que possa conduzir a que, após ‘partir-se’ a vidraça, impunemente, se possa concluir ‘ser legítimo incendiar todo o edifício’.

Sabem disso os que promovem a violência e a querem ver replicada, pois assim o fizeram em outros contextos (o Brasil não foi sempre violento; o México não foi sempre violento; a Colômbia não foi sempre violenta…). Bem sabem que a violência lhes dá poder, pois os que temem pelas suas vidas e pelas dos seus buscarão refúgio e segurança junto de quem lhes assegura que a garantirá.

Para que não possam vencer estes que promovem a violência para se arvorarem como os autores da paz, é preciso estar atento, travar os primeiros sinais de agressividade e violência, e assegurar que não haverá impunidade para quem a promove. Para que as nossas ruas não se tornem lugar de uma ‘mexicanização’ (que me perdoem o termo, pois é bela e significativa a história do México…) que não saberemos, jamais, quando se estagnará e extinguirá.

Em tempos, recordei que as polémicas e os intensos debates têm uma linha vermelha que jamais deveremos transpor: a do derramamento de sangue. Pois, após ter-se derramado sangue, nada permanecerá como dantes: exigir-se-á ser a favor ou contra porque a indiferença será tomada como cumplicidade.

Ainda estamos a tempo. A realidade nacional ainda é tranquila e pode garantir-nos que o futuro é respirável. Mas, se nos tornarmos indiferentes aos sinais, alguns ‘capitalizarão’ o medo para se tornarem os garantes da paz, difundindo o medo contra o outro, e promovendo a blindagem das relações por temor dos demais.

Essa é uma ideia de sociedade que não queremos.

Para isso, sem titubear, devem ser claros os sinais de que a violência e o medo não encontrarão chão onde morar. Pois, onde há medo, não há liberdade, assim como onde há liberdade, não há dependência de quem nos prometa a paz por nos ter, invisivelmente, imposto a violência.

Se necessário, como fizera o povo, em Itália, lançaremos, sobre o chão que pisamos, as pequenas moedas pretas da nossa indignação contra os violentos.

sexta-feira, agosto 07, 2026

'Os Sete Dias da Criação' |11| Luís M. P. Silva - 11 – O segundo dia… a preparar o terceiro!

 

(‘Os Sete Dias da Criação’ | Rubrica dedicada ao diálogo entre ciência e religião)
Artigo originalmente publicado na revista 'Mundo Rural'

Luís Manuel Pereira da Silva*

 

Avancemos para o segundo dia….

Dia que nos reserva algumas curiosidades habitualmente não constatadas.

Em primeiro lugar, observa-se – como refere G. V. Rad – que se sobrepõem, no relato deste dia, as características de duas tradições narrativas: numa, mais antiga, a obra criadora é realizada, diretamente por Deus – ‘Deus fez o firmamento’-, enquanto na mais recente, a obra realiza-se por ação da palavra – ‘Deus disse’[1].

Um segundo detalhe curioso só pode constatar-se ao cruzar a leitura desta narrativa com a leitura de narrativas contemporâneas desta, mas escritas pelos povos envolventes (exercício que já temos vindo a realizar…). Nesse cruzar de leituras, observa-se que ‘em Enuma Elish [mito da criação babilónico que, certamente, os autores bíblicos conheciam] Marduk [o Deus mais poderoso de todo o panteão babilónico] criou o céu como uma abóbada, usando os despojoso da deusa primordial Tiamat como material de construção. Esta abóbada retém, por cima dela, águas que de vez em quando se precipitam através dela, em forma de chuva. O Génesis também concebe o céu como uma abóbada, mas para a criar, Deus não teve de matar ninguém. Bastou a sua palavra.[2]’

O segundo dia reserva-nos, para além disto, uma particularidade que se constatará ao concluir a leitura de toda a narrativa do autor sacerdotal[3] (Gn1,1-2,4a). Para dar conta dessa particularidade, repare-se que, ao fim do terceiro dia (o seguinte), o autor bíblico diz que ‘Deus viu que isto era bom.’(v.12); no quarto dia, diz ‘E Deus viu que isto era bom.’ (v.18); no quinto dia, diz, duas vezes: ‘E Deus viu que isto era bom.’ (v.21 e 25); e, no sexto, após completar a obra, que inclui a humanidade, dirá: ‘Deus, vendo toda a sua obra, considerou-a muito boa.’ (v.31).

Curiosamente, porém, após concluir a obra do segundo dia, o autor bíblico não qualifica a obra de Deus. O autor não refere que Deus constate que a obra é boa…

Santo Agostinho regista, a propósito deste passo da obra criadora: ‘Não me recordo de que os maniqueus costumem criticar este passo.’ (Este silêncio dos maniqueus é interessante. Talvez eles próprios se sentissem surpreendidos com a expectativa deixada pelo autor bíblico que omite apreciação da obra de Deus…)

 E acrescenta o Bispo de Hipona: ‘No entanto, […] tendo a matéria informe sido designada pelo nome água, esta divisão das águas, colocando algumas acima do firmamento e outras abaixo, não significa outra coisa, creio, que a separação feita pelo firmamento do céu entre a matéria corporal das coisas visíveis e a matéria incorpórea das coisas invisíveis.[4]’

Como interpretar, então, esta ausência de qualificação da obra?

D. António Couto, que nos propõe tradução sempre muito cuidada dos termos, repercutindo o espírito concreto da língua hebraica[5], recorda, em nota de rodapé que ‘a exegese judaica explica assim esta ausência da anotação da bondade na obra do segundo dia: «Não foi neste dia que a obra da água ficou acabada!»[6]’. Como o mesmo D. António refere, ainda está em curso da ‘engenharia da água’, que só se completará no terceiro dia.

Cruzando todos estes dados em jogo, acima enumerados, podemos recolher, para a análise que temos em curso, alguns elementos significativos.

Não basta que haja uma separação clara entre o âmbito divino e o humano para que a ordem seja assegurada. Só concluída a obra de separação entre as águas e a terra seca, no lugar onde o Homem pousará os seus pés, é que a ordem ficará estabelecida. Dito de outro modo: não basta que se separem o sagrado e o profano; será necessário que, no âmbito do profano também se cumpra a ordem devida.

Um segundo elemento interessante a reter tem a ver com a cosmologia (o modo de pensar o mundo) implícito nesta narrativa. O autor bíblico não pretende vincular o leitor a uma determinada compreensão (quase científica). A ser assim, teríamos de ficar vinculados à cosmologia que tão claramente nos descreve D. António Couto (referida na anota abaixo). O autor bíblico repercute a cosmologia do povo bíblico para, com ela, enunciar, por um lado, que ‘habitamos um mundo bom, criado por um Deus bom. A substância última de tudo o que existe não é a violência, mas a bondade insuflada pelo ato criador de Deus. Podemos viver felizes nesta Terra. Deus não supõe nenhuma ameaça.’[7], mas também que, por outro lado, não basta constatar a bondade desejada por Deus: é necessário que, no acontecer real, se preserve a ordem, seja a vertical (entre Céu e Terra), mas também a horizontal (entre ás águas e a terra seca). Sendo esta a mensagem a colher, é preciso, então, ter em conta que, ‘separadas as águas entre o sagrado e o profano’, à ciência e à teologia caberão missões distintas, mas que a nossa reflexão permitirá perceber que não são indiferentes, conflituantes ou, sequer contrastantes, mas convergentes e complementares. ‘A ciência investiga os processos pelos quais o universo se foi desenvolvendo e como a vida evoluiu no planeta Terra: pergunta-se como sucederam e sucedem as coisas. Filósofos e teólogos interrogam-se porquê. Como se perguntava o matemático, físico e filósofo Leibniz há mais de trezentos anos, «por que razão existe alguma coisa em vez de nada?»[8].’


Sugestões bibliográficas

 

D. António Couto, O livro do Génesis, Leça da Palmeira, Letras e Coisas-livros, 2013.

Gerhard von Rad, El libro del Génesis, Salamanca, Ediciones Sígueme, 19887.

Alberto de Mingo Kaminouchi, A Bíblia do princípio ao fim: um guia de leitura para hoje, Apelação, Paulus Editora, 2021.

Santo Agostinho, Da interpretação do Génesis: dois livros contra os maniqueus, Prior Velho, Paulinas, 2021.

Xavier Léon-Dufour, Vocabulário de Teologia Bíblica, Petrópolis, Vozes, 20027.


[1] Cfr. Gerhard von Rad, El libro del Génesis, Salamanca, Ediciones Sígueme, 19887, p. 63.

[2] Alberto de Mingo Kaminouchi, A Bíblia do princípio ao fim: um guia de leitura para hoje, Apelação, Paulus Editora, 2021, p. 54.

[3] ‘Autor sacerdotal é expressão com que os exegetas designam os redatores da passagem bíblica que estamos a analisar. Obtém a sua designação do facto de se atribuir a sacerdotes (eventualmente regressados do exílio, na Babilónia) e que terão redigido partes significativas do livro de Génesis e de outros livros do Pentateuco, no século VI-V a.C.. Este ‘autor’ (não é, certamente, um autor individual, mas uma ‘escola’) é, muitas vezes, identificado com ‘P’, aludindo à palavra alemã ‘Priester’ (sacerdote).

[4] Santo Agostinho, Da interpretação do Génesis: dois livros contra os maniqueus, Prior Velho, Paulinas, 2021, p. 69.

[5] ‘«Firmamento» diz-se, na língua hebraica, raqia’, que deriva do verbo raqa’, na forma qal, que é considerado como a pele de uma tenda ou uma lâmina trabalhada de cristal reluzente, mas que o mais das vezes significa «tornar sólido», que é o significado que tem nesta passagem. E é «firmamento», «firme», porque se apoia em colunas sólidas, «colinas» ou «montes eternos», que o sustentam (Jb 26,11; cf. Dt 33,15; Hab 3,6). Sobre o formamento estão as águas superiores, conservadas em reservatórios (Jb 38,22), de onde podem sair através de comportas (‘arbôt), formndo a chuva. Quando o firmamento se apresenta sereno, tem uma cor azul, que deriva das águas de cima. Sobre o mar celeste, eleva-se uma vasta cúpula, formada de três, sete ou dez céus, chamada «os céus dos céus» (shemê hashshamaîm) (Dt 10,14), habitação inacessível de Deus. Segundo a mentalidade dos mestres do Talmud, estes céus formam a chamada «escada cósmica». A espessura de cada céu é igual a uma viagem de 500 anos, e Deus senta-se no sétimo céu, ou último céu, caso se trate de mais. Em suma, os Hebreus vêem o universo como uma casa composta de três partes: o plano subterrâneo forma o she’ôl: o plano terreno a superfície terrestre; as paredes as «colinas eternas»; o tecto a cúpula celeste; o terraço o «céu dos céus». Mas a engenharia das águas continua no terceiro dizer de Deus. Também por isso a menção da bondade da obra feita é diferida para o final do terceiro dizer de Deus.’ D. António Couto, O livro do Génesis, Leça da Palmeira, Letras e Coisas-livros, 2013., pp. 31-32

[6] Cfr. Ibidem, nota 77, p. 31.

[7] Alberto de Mingo Kaminouchi, A Bíblia do princípio ao fim: um guia de leitura para hoje, Apelação, Paulus Editora, 2021, p. 58.

[8] Ibidem, p. 59.


*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano', 'Ensaios de liberdade' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'

 

quinta-feira, julho 23, 2026

26 | Alberto Ferreyra | Mystérios lusitanos [contos - texto e locução] | Mistério na rua do casal

 

Mystérios lusitanos | A vinte e três (23) de cada mês, habitamos o mundo pelo imaginário de Alberto Ferreyra...

(Nos ramos da escrita, repousam, vezes sem conta, as gralhas da distração, ocultas, sob múltiplos disfarces, até que alguém as enxote. Alberto Ferreyra contou com o fino olhar da sua amiga Teresa Correia, detentora do segredo da sua identidade, para afastar ou caçar o grasnar das gralhas. Está-lhe, por isso, muito grato...)

Alberto Ferreyra*



Na rua do casal, chegados ao chafariz, pode subir-se ou descer. J. tomou o rumo da rua do bacelo. M. decidiu sentar-se e descansar. Haveriam de descer os dois, mas o momento pedia brando deleite.
Do que fora, outrora, abundante bica resta, hoje, apenas, um lugar seco. Com a forma de uma ogiva e base quimérica – as quimeras da geometria que unem quadrados e hexágonos numa mistura originalmente inominável -, o chafariz de pedra guarda as memórias da família de que herdou o nome.
M. sentou-se, meditativa, não se apercebendo de que J. se afastara.
Um vento ligeiro desceu, macio, pelas pedras da rua. Enrolou-se em M. e levou-lhe a memória ao interior da morada do casal.
O vento movia-se, brandamente.
O tempo esperava.
M. deixou-se tomar nos braços da brisa.
Entrou, qual memória sem corpo, no interior da habitação.
O chão, de soalho, rangia, como que percorrido por passos pesados. Atormentados, mas raros.
Sobre um aparador, barrocamente rendilhado, repousavam fotos e livros. Amontoados como quem deixa a fermentar até vir a sorver, com deleite. Percebia-se ser gente letrada; não estavam abandonados, antes, delidos do uso.
A memória de M. percorreu-os, longamente. Viu-lhes os títulos e os autores. Guardou recordação de um ‘Wilde’.
Ao seu lado, entre as fotos, erguiam-se, em pose fresca, dois noivos.
O olhar de M. regressou ali. Parecera-lhe perceber uma originalidade.
A noiva permanecia igual ao que fora na primeira hora. A sépia, jovem, com o branco do tempo de outrora. O noivo estava rodeado de um cinzento novo e fresco – mas cinzento, sem cor - , ainda que de rosto já envelhecido.
O tempo passara por ele.
Guardara, para si, porém, a noiva. Jovem, como no primeiro dia.
Por momentos, o vento devolveu M. à pedra do chafariz.
Mas M. resistiu. Queria continuar a revisitar aquela memória.
A um canto da sala, chorava-se.
Pareciam as sombras de um velório.
Uma voz, sem rosto, titubeava:
‘Ao menos, não morreu…’
‘… no inverno em que viveu!’
…
Um longo silêncio envolveu aquelas curtas palavras.
Para se lhe seguirem outras e outras:
‘Trouxe-lhe a primavera aquela confissão da vida’.
M. esperou. Haveria de compreender o significado do que ouvia.
‘Enquanto foi o ‘Terça-feira’, o seu viver foi um inverno. O da sua doce mulher, um inferno.’
De um outro lado da sala, que M. não conseguia ver, uma outra voz, também feminina, dizia, com firmeza:
‘Todos lhe chamavam o ‘Terça-feira’... Como não? Se só à terça-feira o via a pobre mulher, perdido andava ele pelas margens do existir nos outros dias do seu viver…’
E prosseguiu:
‘Viveu perdido, errante dos seus erros, sem olhar a bela mulher que decidira infernizar.’
‘Dizem que vendera a alma ao diabo.’ – Acrescentou, cavernosa, a voz de um homem de que só se via, por detrás de uma ondulante cortina, a silhueta alta e hirta, como voz final ao desvairado Dom Juan…
‘Mas, nos derradeiros dias do seu existir, pediu-lhe a mulher que se tornasse ‘Todos os dias’. Aceitou confessar-se. Fazer a confissão de vida e reconhecer que os erros não tinham de o tornar um errante.’
‘Viram-no entrar na igreja, de botas arrastadas, sulcando o chão. Voltaram a vê-lo, de olhar erguido, sair, horas mais tarde.’
‘Podemos chorá-lo. Chorar todos os dias em que foi ‘Terça-feira’ e, para a mulher, ‘Dia nenhum’.
‘Mas esperar que se tenha tornado Antítono, e que o diabo lhe tenha devolvido a alma, restituindo-lhe a eternidade, com uma autêntica eterna juventude.’ – Rematou a primeira voz, regressando ao choro.
Como que num teatro rematado, os cantos da sala escureceram.
M. recentrou o seu olhar no aparador.
Reviu os livros. Revisitou a foto. Tudo era, agora, autêntico.
Entre os livros, uma mão delicada destacou um título: ‘ o gigante egoísta’.
M. pareceu despertar. J. sacudia-a, levemente, esperando fazê-la regressar.
J. nada lhe perguntou.
Desceram, juntos, o que restava da rua do casal.
De uma janela entreaberta, M. viu, sobre um amontoado de livros, uma foto a sépia.
Nela, havia dois noivos. Ambos envelhecidos pelo tempo.
M. olhou para J. Ia distraído nos seus pensamentos.
Não o quis acordar da sua sonolência.
Ou seria ela que permanecia indolente?
Uma cortina agitava-se com o vento. Sobre o aparador sobre que repousava a foto, desprendia-se, de um calendário com destaques, uma folha sem indicação de mês. Um colorido e fosforescente destaque rodeava cada dia da semana; todos os dias!

 


Imagem de Tumisu por Pixabay


*Alberto Ferreyra diz que as suas letras habitam a mente e saem da mão de alguém nascido em terras gaulesas, ainda que afirme, em sussurro, que o seu real nascimento ocorreu nas margens do Antuã, em abril de 2024. É, por isso, um prematuro autor literário, germinado da inspiração que a realidade proporciona quando se tem a companhia, nos livros, de génios como Jorge Luis Borges, Miguel Torga, Gabriel García Marquez ou personagens como Poirot ou Padre Brown.
 
Na sua escrita, cruzam-se o real e o imaginado, o fictício e o histórico, numa embrenhada teia em que o leitor continua a ler, mesmo já depois de fechado o conto. O real continua a fecundar histórias na mente de quem lê Ferreyra. Cada conto, feito dos mistérios desvelados, aproxima o tempo e distancia o espaço, esticando-o até ao eterno e ao infinito. Ao ler Ferreyra, faz-se 'silêncio' ('mystério' alude à etimologia grega da palavra, que remete para o 'fazer silêncio', 'emudecer-se'...) para que possam ecoar as palavras, para que possa desenovelar-se o enredo sucintamente desvelado.
 
J. e M., protagonistas de cada um dos contos, acompanhados, em alguns deles, pelo seu periquito 'branquinho', fazem emergir, do real em que se enredam, histórias que, nascendo da imaginação de Ferreyra, permanecem como realidades possíveis, deixando a suspeita de terem mesmo ocorrido.
Se não foi real, Ferreyra o criará, inspirado numa cosmovisão que tanto deve àquela religião que fez do encarnado a condição fundamental do existir.
 
A vinte e três (23) de cada mês, habitaremos o mundo pelo imaginário de Alberto Ferreyra...

segunda-feira, julho 20, 2026

Luís Manuel P. Silva | Aborto e outras violências: O futuro é dos sonhadores!

 


Luís Manuel Pereira da Silva*


Dizem que sou um sonhador. Que esperar um mundo em que todos os filhos de humanos (mulheres ou homens, pessoas com deficiência ou sem que a tenham explícita, pobres ou ricos…) possam nascer é um sonho paradisíaco pouco irreal.

Posso sê-lo. Mas o que seria o futuro sem os sonhadores?

O cinzento não é alternativa.

Ouso fazer um pedido a cada um dos leitores deste texto: que me leia sem preconceitos; que me leia como quem está disponível para, verdadeiramente, ouvir.

Leia-me, bom leitor, como a criança a quem falam do que, realmente, está em causa.

Trago, a esse propósito, uma página de um diário de uma mulher que aceitou ser ‘barriga de aluguer’ de uma cunhada. Diz ela, na semana 15: ‘Contei aos meus filhos o que se está a passar. A minha filha perguntou: «Não me vais dar a outra pessoa, pois não?»[1]

Uma só pergunta e desaba toda a segurança sobre a bondade das ‘barrigas de aluguer’.

Uma só pergunta – ‘onde está o meu irmão que eu esperava?’ – e desaba toda a convicção de que o aborto seja um inócuo ato solitário que só a cada um diz respeito.

Acredite, caro leitor, que quem se opõe à legalização do aborto não o defende porque queira ver punidas todas as pessoas que o praticam.

Tremendo equívoco esse que pressupõe raciocínio tão curto e tão estreito.

As leis não foram feitas para que se possa punir quem as infringe. Foram, antes, feitas para proteger bens que merecem cuidado e defesa.

Dir-me-á o leitor, muito atento: ‘esqueces-te de que as leis que despenalizaram o aborto protegem um valor igualmente importante: o de nos determinarmos.’

E eu compreendo o valor que se visa proteger, mas ouso pedir um novo olhar.

O bem de que se prescinde – o da vida de um (ou vários, se forem gémeos) filho – é um valor de que não se pode prescindir de parte e permanecer com outra; ou se tem, em absoluto, ou não se tem. A vida não se possui em progressividade; ou está ou não está. Há, talvez, em muitos, o equívoco com a qualidade de vida que, essa sim, é reversível e futurível. Como a liberdade, aliás… A liberdade pode possuir-se em progressividade; ter-se em parte e ir-se desenvolvendo como, aliás, acontece com a criança que se desenvolve ou, mesmo, com alguém que depende dos outros enquanto não domina uma matéria, um assunto. Em todas estas situações, a liberdade está presente, mas nunca de forma absoluta nem totalmente ausente. Porque, por definição, ser livre é ‘ir-se libertando’. Com a vida, que integra o que poderá definir-se como valores irreversíveis (ou se possuem ou não se possuem), não é assim. A partir do momento em que se deixa de possuir, não se recupera.

Logo, é desequilibrado que se prescinda de um valor ‘irreversível’ por um outro que é sempre reversível.

Mas, poderá dizer-me, mais uma vez, o leitor, muito atento: ‘mas isso é uma decisão exclusiva da mulher que está grávida…’

A ideia é sedutora, mas, mais uma vez, nasce de um equívoco.

Um filho não é gerado por um só, pela mãe (muito menos, só pelo pai, claro!). O filho é, por natureza, um ente que une duas histórias. O homem e a mulher de quem provêm os gâmetas (que triste é que a tecnologia nos tenha obrigado a esta leitura fria e laboratorial – o frio das pipetas e das seringas… - que dissociou a geração de um ato de amor, mas é assim!…) eram dois seres sem ponto de convergência até que um filho os une, para sempre. Sublinho ‘para sempre’.

Mesmo que o queiram apagar, aquele ente une-os. Geneticamente, há algo do pai e há algo da mãe. Saibam-no ou não. Queiram ou não!

E o que fazer com o filho que ‘fala’ dos dois é, neste momento, a questão.

Sentimo-nos autorizados a decidir sobre a sua vida?

Ou reconhecemo-lo como anterior ao que nos é legítimo decidir?

E é aqui que os dois caminhos se separam.

Como o ponto após as portagens de uma autoestrada em que, para um lado, se vira para norte e, para o outro, se vira para sul.

Admitir a legitimidade do aborto é aqui que se determina.

E, a partir daqui, é importante que se perceba o que se está a determinar: se a vida do outro está ao nosso dispor, ao dispor da nossa autodeterminação, ou se não.

Se sim, então, honestamente, deveríamos ir até ao fim.

Se alguém pode determinar se a vida do outro merece ou não merece continuar, é puramente arbitrário que o seja às dez, às doze, às vinte e quatro semanas ou até ao final da gravidez… E, no limite, até que tenha capacidade de decidir por si (como permite, neste momento, a Bélgica que autoriza a eutanásia de menores, a pedido dos seus pais). Vejamos que, em termos lógicos, a Bélgica está a levar até ao limite o raciocínio.

E é por isso que devemos questionar o raciocínio. Para que não seja demasiado tarde…

Regresso ao lugar após as portagens…

Para mim é claro que a vida se impõe à liberdade de cada um (e, caríssimo leitor, se acha que sou eu o primeiro a reconhecê-lo, sugiro a leitura muito atenta do preâmbulo da Declaração Universal dos Direitos Humanos que afirma, claramente, que é o reconhecimento da dignidade humana o pressuposto da liberdade e não o contrário), por muito que me apeteça extingui-la, por muito que esteja perturbado pela notícia e pelo medo (talvez até terror) do futuro.

O que deveria, neste momento, fazer a sociedade, era dizer a cada casal, a cada mulher que se reconhece mãe: ‘estamos aqui, contigo, e temos, para ti, estes apoios e estas ajudas. Não estás só.’

Digo-lhe, caríssimo leitor, caríssima leitora, que a sociedade se tem organizado para tal, pois muitas instituições surgiram, nos últimos trinta anos, a apoiar as grávidas que se encontram sem apoio. Mas o ‘zeitgeist’, o espírito deste tempo, não tem estado atento e quase as silencia. Mas alguns milhares de crianças já nasceram, desde que o referendo ao aborto legitimou a sua prática, por ajuda destas organizações. Autênticas sobreviventes da lei do aborto. Sim, meu bom leitor, todos os que nasceram depois de 2007, são, em Portugal, sobreviventes da lei do aborto. Pois a pergunta que pode sempre fazer-se é: ‘porque tive eu direito a nascer e não os mais de 300 mil entretanto abortados?’

Confesso-lhe, caríssimo leitor, que muito me custa esta arbitrariedade em que deixaram enredar-se os ‘Estados de Direito’ ocidentais que permitiram que algo tão determinante (como a vida de alguém) dependesse da decisão de um só. Com as abrangentes implicações que tal comporta: onde ficou o pai, nesta decisão? Onde ficou o filho? Onde ficou a própria mãe que, tantas vezes, pressionada pela sociedade envolvente, é empurrada para o aborto porque a lei já não protege a sua decisão de não abortar? Onde ficou, afinal, a mensagem de que não devemos ser violentos uns com os outros?

Sim, porque se uma sociedade admite a violência da mãe sobre o seu filho, quando este mais depende dela, então, toda a violência pode ser tolerada…

A mãe que é o primeiro berço do seu filho tem de merecer toda a ajuda da sociedade, porque ela é o futuro que já mora no presente. E se queremos futuro, não o podemos esperar amanhã. É que o primeiro futuro, o futuro do passado, é o hoje. E só haverá futuro do presente se, no presente, não se extinguir a vida, não se extinguir quem existe.

Eu sei que sou um sonhador…

Mas o que será o futuro sem sonhos? Pois se não há futuro sem vida, dado que o tempo é vida que se desenrola como novelo. Mas, sem ela, é poeira ao vento.

Sonho… Sonho com uma sociedade sem violências. E sem a maior dessas violências: a dos braços que deveriam acolher a vida quando esta mais precisa do seu conforto.

Sonho… Bem sei que sonho. Mas outros sonham, já hoje, comigo e, um dia, o sonho será real. E enquanto houver sonhadores, a vida continuará a garantir amanhãs. Pois é no hoje de cada vida que germina o devir.


[1] In Gabriele Kuby, A geração abandonada, Cascais, Princípia, 2021, p. 92.


*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano', 'Ensaios de liberdade' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'

Imagem de Clive Einstein por Pixabay

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