terça-feira, abril 07, 2026

Sabes, leitor... | 28 | Marca de água do livro de Bernard Michal, 'Os julgamentos de Nuremberga'

 


Rubrica ‘Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página’** | Marca de água de livros que deixam marcas profundas
Parceria: Federação Portuguesa pela Vida e Comissão Diocesana da Cultura

Luís Manuel Pereira da Silva*

O(s) autor(es) e a obra
Bernard Michal, Os julgamentos de Nuremberga, Porto Salvo, Edições Desassossego, 2019.

Bernard Michal, o autor de ‘Os julgamentos de Nuremberga’, é um jornalista e historiador, nascido em 1932, em França, quando as nuvens da Guerra já se erguiam no horizonte, como bem se percebe, pela leitura desta obra. Tem dedicado a sua vida à investigação sobre guerras e, em particular, a Segunda Guerra Mundial. Contam-se, entre os seus mais destacados títulos, ‘A Guerra Civil Espanhola’, ‘Os grande enigmas da Segunda Guerra Mundial’, mas também ‘História das seitas e das sociedades secretas’ (em coautoria com Jean Renald), ‘Os grandes enigmas da Resistência’, ‘Os grandes enigmas da Libertação’, revelando-se um profundo conhecedor da história da conflitualidade humana. Merece referência, a confirmar esta constatação, o seu ‘As personagens malditas da história’, ainda não editado em Portugal.
Em ‘Os julgamentos de Nuremberga’, Michal mostra-se um investigador muito minucioso e um escritor extremamente atento às expectativas do leitor.
Contextualiza, explica, detalha, permitindo que não fique incompreendidas as diversas afirmações formuladas, as referências históricas mencionadas e as situações enunciadas. A leitura da obra de Bernard Michal, em geral, e desta, em particular, homenageia as vítimas silenciadas pelo estertor das armas dos fortes, assegurando a justiça possível que se pode fazer por levantar do pó do silenciamento os nomes dos inocentes caídos às balas dos cruéis.
É a experiência que se faz ao preparar os nossos passos para entrar em Auschwitz. Lia esta obra quando ali fui, entre 12 e 15 de março de 2026. Antes de atravessarmos o portão onde a ironia cruel nazi nos assegura que ‘o trabalho cria liberdade’ (traduzo, livremente, ‘arbeit macht frei’, que encima o portão principal do campo de concentração), somos conduzidos por um longuíssimo corredor de betão onde o silêncio que toma conta de nós é apenas interrompido por uma voz cadenciada que diz nomes. Os nomes das vítimas do terror que ali se levou ao zénite.
Nomes… Nomes… Apenas nomes. Porque cada nome é um mundo, uma pessoa, uma vítima. Só os delas nos é devido repetir. Os dos seus ‘carrascos’ só lembraremos para não mais esquecermos o mal que fizeram. Os das suas vítimas, porque a justiça no-lo exige.

 

Marcas de água 

(o que fica depois de se deixar o livro)

Li este livro entre 12 de março e 1 de abril de 2026. Obriguei-me a lê-lo no tempo em que, em visita de estudo, percorri os lugares de que nele se fala. Os lugares que se tornaram ‘não-lugares’ (para referir uma categoria evocada por Marc Augé).
Sempre me inquietou e perturbou a potencial resposta para a pergunta ‘como foi possível?’. A pergunta ganha densidade se pensarmos que a crueldade atingida em Auschwitz-Birkenau (Auschwitz foi prolongado para Birkenau por necessidade de aumentar os ‘não-lugares’ e prolongar a maldade até aos limites do possível) foi protagonizada por líderes políticos de um dos países onde se ergueram os maiores de entre os humanos: Bach, Beethoven, Kant, Leibniz, Haendel, Goethe, etc. foram alguns dos mais destacados de sempre entre os humanos. A Alemanha é associável ao que de maior e melhor se fez. Muita da nossa tecnologia quotidiana tem origem alemã, muito do nosso saber, muitos dos nossos conceitos, muitas das nossas ‘luzes’ são de ‘genética’ alemã. E, porém, a elevação da cultura não impediu o emergir de um regime assente na crueldade e na inumanidade e desumanidade.
Como foi possível?
E, mais densamente excruciante, ‘poderá, um dia repetir-se?’
Ao ler-se Michal, fica uma certeza: o caldo que permitiu isto é fórmula repetível, por ser fórmula disponível. O regime não nasceu em 1 de setembro de 1939. Há uma longa história que começa com a criação do partido, em 1920, onde se anuncia que há um inimigo comum e onde se define a estratégia: a violência fará parte da genética deste ‘movimento’.
Tudo sob a aparência de algo legítimo, pois evocava-se a injustiça dos tratados com que se ‘fechara’ a primeira Guerra Mundial.
Com a leitura desta obra de Michal, ficaremos na posse de muito mais do que as muitíssimas informações que ela nos faculta. Saberemos, certamente, como se organizou o partido nazi, desde as embrionárias ideias de um ‘ferreiro’ de nome Anton Drexler, em 1920, a que se associa Adolf Hitler, com a sua perturbadora personalidade, entre o fascinante e o arrasador: onde Hitler está, tudo fica terraplanado; como a cumplicidade da república de Weimar foi criando as condições para que as narrativas hitlerianas fossem germinando; saberemos o contributo, para esse germinar, do incêndio do Reichstag (1933), da ‘noite das facas longas’ (1934) e da morte de Roehm, líder das SA, ou, ainda, da ‘noite de cristal’ (1938); o que significa falar dos prisioneiros ‘noite e nevoeiro’, ou o que foi o massacre de Oradour (em 1944); compreenderemos os planos ‘branco’ (invasão da Polónia), ‘amarelo’ (invasão da Bélgica), ‘barbarossa’ (invasão da Rússia) ou a operação ‘Marita’ (da invasão da Grécia) e ‘Leão Marinho’ (da invasão de Inglaterra); surpreender-nos-emos com os números avassaladores dos mortos em campos de concentração (26 milhões), dos quais 6 milhões são só de Judeus; saberemos, ainda, os mistérios associados à detenção (tantas vezes em circunstâncias inesperadas como a de Julius Streicher, disfarçado de ‘pastor’) dos maiores criminosos nazis; o fim de Goebbels, ou Goering, ou Bormann, ou Hans Frank (o governador da Polónia sob o jugo nazi), ou Himmler ou Krupp ou Ribbentrop, etc. Saberemos tudo isso e tanto mais que Bernard Michal nos faculta, com detalhes. Mas, principalmente, deparar-nos-emos com uma constatação que podemos cunhar como Joachim Fest registou: tudo isto foi feito sob a capa de um ‘amoralismo tecnocrático’. O amoralismo foi o caldo mais profundo do nazismo.
Com esse caldo, à medida que o tempo passa, Hitler cria um polvo que atinge as mais ínfimas estruturas da sociedade, sempre sob o espectro do medo e da imprevisibilidade. Mas com a aura da legitimidade.
Os relatos minuciosamente descritos por Michal mostram-nos que Hitler é portador de uma personalidade simultaneamente sedutora e irascível. Com recurso ao isolamento dos que se lhe opõem, as suas ferozes conversas deixam atónitos os mais seguros de entre os líderes. É assim que ‘encurrala’ os presidentes ou chefes dos Estados que prevê invadir (secretamente), mas cujo respeito pelos limites fronteiriços alardeia aos quatro ventos, criando uma falsa sensação de paz e segurança, enquanto, nos bastidores, organiza a posse sempre falsamente justificada.
Amoralismo, divisão, medo, distração e a surpresa do inesperado. O caldo para que se espalhe um regime cruel.
E, claro, o silêncio e cumplicidade dos que não querem saber ou até justificam a violência.
Atordoa constatar, ainda, que, com raras exceções, os julgados (e condenados) de Nuremberga justificam as suas ações com o dever de obediência. Mas, como bem recorda Michal, ‘[mesmo] em tempo de guerra certos atos reprovados pela moral ficam dependentes da justiça e são passíveis de sanções exemplares.’ (p. 14)
Regressar a Nuremberga é corresponder ao dever de lembrar para que não se repita, mas, também, ao dever de exumar do pó da história as vítimas inocentes. Para que elas vençam e nunca os injustos e cruéis poderosos.
Para que, enfim, continue com resposta negativa a pergunta: ‘poderia, um dia, repetir-se o que os nazis fizeram?’
Não se pense que só os outros são capazes do pior. Aqueles homens eram iguais a todos os demais. Mas deixaram justificar o mal que realizaram com elevadas justificações e pretextos. É a isso que temos de permanecer atentos. Há linhas vermelhas que jamais nos admitiremos transpor. A dignidade de todo e cada ser humano e a sua inviolabilidade devem constituir-se como fronteira cuja transposição jamais nos deveremos admitir realizar. Mas há nuvens sombrias nos céus. Regressemos a Nuremberga e interroguemo-nos. Deixemos a pergunta habitar-nos até às fímbrias da alma. O grito dos inocentes pede a autêntica justiça de não se repetir a crueldade…
Nuremberga continua a ecoar como juízo na História. Não o juízo dos vencedores, mas o juízo da consciência atenta ao rosto (essa categoria ética cunhada por um judeu também perseguido pelos nazis, Emmanuel Lévinas) do outro em quem se reconhece um tu, um irmão. Um rosto, um nome humanizam. Tão bem o sabiam os nazis que todos reduziam, quando chegados aos campos, a meros números tatuados com brasa na pele.
Nuremberga é o lugar dos nomes, dos rostos… Dêmos um nome; reconheçamos cada rosto. E Auschwitz não se repetirá…

 

 

Na mesma página que o autor (citações)

‘Nuremberga, novembro de 1945, primeiro outono de paz. Três quartas partes da cidade estão destruídas. Do seu esplendor restam algumas ruínas no bairro medieval. As igrejas de S. Lourenço, de Nossa Senhora, de S. Sebaldo, o castelo imperial do século XII e a casa onde viveu Dürer foram gravemente atingidos. […] É nesta cidade que os criminosos de guerra nazis vão ser julgados. Para os quatrocentos jornalistas vindos de todos os pontos da terra, Nuremberga é, antes de tudo, a imagem da Alemanha vencida.’ (p. 13)

‘A criação do Tribunal Militar Internacional suscitou uma série de dificuldades de ordem moral e jurídica, material e diplomática. Basta que se leia o jornal Le Monde de 18 de novembro de 1945 para se tomar consciência do problema moral levantado pela instituição de um tribunal militar internacional. No seu noticiário estrangeiro, o jornal francês anota:
«Sempre houve crimes de guerra que em geral apenas foram punidos com represálias. Os processos atuais inspiram-se, portanto, num princípio novo. A saber: que em tempo de guerra certos atos reprovados pela moral ficam dependentes da justiça e são passíveis de sanções exemplares. Não se pode deixar de aderir a este princípio, que marca um progresso da consciência universal, e cuja aplicação poderá, até certo ponto, intimidar os criminosos do futuro. Há que reconhecer, no entanto, que esta suscita numerosas dificuldades.
«A primeira consiste na própria definição do crime de guerra. Seria relativamente fácil se se entendesse que crimes de guerra são apenas atos contrários à humanidade e que as necessidades da luta não justificassem. Incluem-se nesta categoria as torturas e os homicídios nos campos de concentração, as execuções maciças de certos grupos da população, tais como os judeus, os polacos, os ucranianos, ou os atos ferozes de certos chefes militares, como o da destruição de Oradour.
«Mas o processo de Nuremberga vai incluir casos de outra natureza. Sabe-se que se destina às mais altas personagens do Terceiro Reich, civis e militares.
«Estes serão por vezes incriminados por crueldades injustificáveis, como os carrascos vulgares de Dachau e de algures, mas ser-lhes-ão também imputados outros crimes. Foi decidido considerar assim a responsabilidade da guerra e inculpar a esse título aqueles que podem ser considerados seus autores ou que, pelos seus conselhos e a sua influência, tenham contribuído para a fazer deflagrar.
«Não restam dúvidas de que os juízes chamados a Nuremberga, escolhidos entre a élite da magistratura dos países aliados, vão cumprir a sua tarefa com imparcialidade e competência. É uma grande experiência a que vai ser tentada. E seria deplorável se o seu êxito não fosse completo.»’
(Pp. 14-15)

‘A 8 de agosto de 1945, o Estatuto do Tribunal Militar Internacional é estabelecido por acordo assinado entre os Aliados.
Dezoito nações aderem a esse acordo e aprovam esse estatuto.
O Tribunal Militar Internacional terá, em princípio, a sua sede em Berlim. Poderá escolher o local das suas audiências para cada processo. A Grã-Bretanha, a União Soviética, a França e os Estados Unidos escolherão um juiz cada um, mas esses juízes serão «desnacionalizados».
Em contrapartida, os ministérios públicos serão nacionais e representarão os interesses dos Estados a quem pertencem.
Antes de se iniciar o processo será constituída uma comissão de «instrução e busca dos grandes criminosos de guerra».
Os incriminados poderão escolher os seus advogados.’
(pp. 19-20)

‘Em princípios de 1920, Hitler decide organizar um comício.
Escolhe a data de 24 de fevereiro e uma sala capaz de abrigar duas mil pessoas: o salão de festas da Hofbrauhaus. Os seus companheiros não acreditam no êxito do empreendimento. Hitler ocupa-se pessoalmente dos preparativos e da propaganda.
Nessa altura, a Alemanha procura ainda um equilíbrio. Os partidos são numerosos. Todos eles suscitam, pelo menos curiosidade. Um novo partido em Munique não pode deixar as pessoas indiferentes: a sala está cheia. É o primeiro triunfo de Hitler – que não deixa de recordar em Mein Kampf:
«Há um tumulto de gritos e de violentas altercações na sala. Um grupo dos veteranos mais fiéis bate-se contra os perturbadores… comunistas e socialistas… e só pouco a pouco se consegue restabelecer a ordem. Consegui então continuar a falar. Ao fim de meia hora, os aplausos começaram a cobrir os assobios. Quando, quase quatro horas mais tarde, a sala se esvaziou, eu sabia que a partir daquele momento os princípios do nosso movimento não podiam mais ser esquecidos e que haviam de se disseminar entre o povo alemão».
Hitler acabava, com efeito, de lançar os vinte e cinco pontos do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, que iriam constituir a bíblia dos nazis até à subida ao poder, em 1933.
Esse programa referia-se a aspetos políticos por vezes muito diferentes uns dos outros, alguns dos quais de uma rara audácia para a época, dando-lhes um matizado muito diferente das cores dos outros partidos. Hitler insistira muito especialmente sobre a união de todos os Alemães numa «Grande Alemanha». É o prenúncio, com muitos anos de antecedência, da Anschluss (Anexação) e da conquista dos países sudetas na Checoslováquia. É também o anúncio, a quase vinte anos de distância, de Danzigue e do drama da agressão à Polónia. Hitler afirma desde já, nessa noite de 24 de fevereiro de 1920, que os judeus da Alemanha seriam excluídos do Exército, da Administração, da imprensa. Preconiza a abolição dos rendimentos que não fossem fruto do trabalho, a nacionalização dos cartéis, o interesse do Estado nos lucros das grandes empresas, a abolição das especulações sobre terrenos. Pede a pena de morte para os traidores, os usurários e os especuladores, a expropriação dos grandes estabelecimentos. Exige a anulação dos tratados de Versalhes e de Saint-Germain e a criação de um poder central forte.
Dois meses mais tarde, Rudolf Hess, um antigo oficial aviador que se tornara chefe dos serviços da ordem do partido, trata Hitler por «Fürher». É assim que daí em diante os membros do partido, enquanto o não faz a Alemanha em peso, passar a tratar o chefe do NSDAP.
Oito meses depois, durante o versão de 1920, aparece em Munique, durante um comício, a Svastika… a cruz gamada. A paz não tem ainda dois anos.
Abril de 1921. Hitler criar as Ordnungstruppen. Esses grupos paradesportivos usam camisas castanhas e tomam a forma de brigadas; alargam-se… A partir de outubro de 1921, passam a ser as Srturmabteilungen, as SA. Juntamente com Goering, Hitler desenha-lhes o uniforme. […] Não tardará que semeiem o terror nas reuniões públicas das outras formações políticas. […] O NSDAP está agora armado para a conquista do poder: tem um chefe, o Fürher, um emblema, a cruz gamada, os seus terroristas, as SA… Falta-lhes apenas uma palavra de ordem – que Hitler veio a lançar em 27 de janeiro de 1927, no decurso do segundo congresso do partido: «Deutschland erwache» (Alemanha, acorda).’ (Pp.43-45)

‘O libelo acusatório [apresentado pelo procurador-adjunto dos Estados Unidos] revela […] de que forma foram realizados os objetivos e os desígnios dos conspiradores [nazis]: introdução da violência no jogo político, depois penetração nas estruturas existentes com vista a chegar ao poder sob forma «legal».
Uma vez no poder, depois da ascensão de Hitler à Chancelaria, em 30 de janeiro de 1933: interdição de todos os partidos políticos e tomada da posse total de todos os sistemas de funcionamento do Estado alemão, atentado à liberdade das eleições, depuração na Administração, tutela de todos os organismos do Estado pelo partido, organização do terror civil, criação de campos de concentração, perseguições políticas e religiosas e mais particularmente dos alemães de confissão judaica. Em breve, esta destruição transformar-se-á em política oficial do Estado, fazendo mesmo apelo à violência individual.’ (p. 46)

‘Sempre dentro do primeiro ato de acusação, são analisada as diferentes medidas que, progressivamente, conduziram à guerra mundial:
- Rearmamento secreto de 1933 a 1935, em conjunto com a retirada alemã da Conferência do Desarmamento e da Sociedade das Nações em 1933.
- Criação em 1935 de força armada aérea e instituição do serviço militar obrigatório.
- Reocupação em 1936 da Renânia, em violação do Tratado de Versalhes, e depois de declarações tranquilizadoras sobre a vontade alemã de não apresentar reivindicações territoriais na Europa.
- Invasão da Áustria em 1938, e depois invasão da Checoslováquia. No dia 1 de maio de 1936, Hitler não hesitara, no entanto, em proclamar: «Torna a propagar-se a mentira de que a Alemanha, amanhã ou depois, cairá sobre a Áustria ou a Checoslováquia.»
- Enfim, de 1938 a setembro de 1939, preparação e execução do ataque contra a Polónia.’
(p. 48)

‘[O] segundo ato de acusação [trata] dos crimes contra a paz.
Depressa são passados em revista esses crimes: basta ao procurador britânico [Maxwell Fyfe] enunciar seis datas que constituem as etapas da agressão alemã:
- 1 de setembro de 1939, ataque à Polónia;
- 3 de setembro de 1939, hostilidades com a Grã-Bretanha e a França;
- 10 de maio de 1940, invasão da Bélgica, dos Países Baixos e do Luxemburgo;
- 6 de abril de 1941, assalto contra a Jugoslávia e a Grécia;
- 22 de junho de 1941, ofensiva contra a Rússia;
- 11 de dezembro de 1941, guerra contra os Estados Unidos.’
(Pp. 48-49)

‘[…] a leitura do terceiro libelo, pelo advogado francês Pierre Mournier, [é] sobre crimes de guerra.’ […]
A acusação toma a palavra:
«Desde o dia 1 de setembro de 1939 até 8 de maio de 1945, os acusados violaram as convenções internacionais e os princípios gerais de direito penal tal como derivam do direito penal de todas as nações civilizadas…
Censura-se especialmente aos acusados que tenham praticado a “guerra total”. Que tenham, com um objetivo de terror, maltratado, detido sem processo legal, torturado e assassinado elementos civis.
Os homicídios e maus-tratos eram levados a efeito por meios variados, tais como fuzilamentos em massa, enforcamentos, câmaras de gás, morte por inanição, acampamentos povoados em excesso subalimentação sistemática, etc.».’ (p. 49)

‘O partido não fora organizado para tomar o poder no Estado alemão com a assistência vitoriosa da maioria do povo alemão; fora organizado para arrebatar o poder apesar da vontade do povo.
Paralelamente, a falsificação das eleições é erigida em sistema.’ (p. 73)

‘A tomada do poder por meios legais, quer dizer sem o recurso à revolução, constitui o objetivo declarado de Hitler desde o dia seguinte ao putsch falhado de Munique [um golpe de estado falhado protagonizado pelo partido nazi, em 8/9 de novembro de 1923]. Contudo, a coberto dor espeito pela legalidade, ordena, com paciência e muita eficácia, o combate contra o regime de Weimar. A violência torna-se um sistema político controlado, uma sábia dosagem de terror, de crimes, de chantagem, misturado com propaganda e manifestações em massa.’ (p. 74)

‘A aparente fraqueza do Partido Nazi depois do putsch vai finalmente servi-lo. As autoridades bávaras estão convencidas de que ele já não representa um perigo real, e fecham os olhos às suas atividades. A 26 de fevereiro de 1925, Hitler escreve no jornal do seu partido, o Volkischer Beobachter, um editorial intitulado «Ressurreição». Anuncia uma reunião pública para o dia seguinte, 27 de fevereiro.
Quatro mil fiéis assistem ao comício. A Bürgerbräukeller, a cervejaria do putsch, é o lugar escolhido para a reunião.
Ao deixar a prisão, Hitler prometera respeitar a Constituição, mas logo nesta primeira reunião não esconde a intenção de derrubar a República. O Governo bávaro proíbe-o de usar da palavra em público. A medida é rapidamente estendida a toda a Alemanha. Demasiado tarde. O Partido Nazi passa, em quatro anos, de vinte e sete mil membros para cento e setenta e oito mil. Ao mesmo tempo, Hitler organiza a administração do partido. Adapta-lhe as estruturas às do país: divide o território em regiões, ou Gau, dirigidas por Gauleiter. Engloba nesta organização não apenas a Alemanha, mas a Áustria e Danzigue. Cada Gau é dividido em Kreise (círculos) dirigidos por Kreisleiter. Esses Kreise são, por seu turno, divididos em Ortsgruppe (secções locais). As secções urbanas são ainda subdivididas em células e em blocos; e, finalmente, em cada edifício há um responsável.
Estabelece assim uma administração paralela, pronta a substituir a administração existente. À testa do partido, organiza um autêntico Governo de substituição.
Sempre que disso tenha a possibilidade, colocará em funções oficiais aquele que as assumiu já, oficiosamente, dentro da organização.
Constitui ainda organizações de mulheres e de jovens. Terão as suas escolas, os seus jornais, os seus círculos culturais, as suas instalações desportivas e turísticas.
Arranja também a sua polícia. Foi nessa altura […] que, paralelamente às SA, cria também as SS.’ (p. 75)

‘[Por decreto de 14 de julho de 1933], Hitler conseguira que Hindenburg assinasse um decreto criando na Alemanha o regime do partido único: «O Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães constitui o único partido da Alemanha. Seja quem for que tente manter a estrutura de um outo partido político ou formar um outro partido político, será punido com uma pena que poderá ir de três anos de trabalhos forçados ou de seis meses a três anos de prisão, se o crime não for passível de um castigo mais grave nos termos de outros regulamentos.»’ (p. 83)

‘No plano interno, os outros objetivos nazis são definidos, em 11 de dezembro de 1938, pelo general Von Fritsch. Nesse dia escreve «que três batalhas foram necessárias para restabelecer o poderio da Alemanha: a batalha contra as classes trabalhadoras, a batalha contra Igreja Católica, a batalha contra os judeus.’ (p. 84)

‘Uma lei secreta, com a assinatura de Martin Bormann, é suficiente para definir o ponto de vista nazi na sua luta contra a Igreja: «Todas as influências que possam conter a influência exercida sobre o povo pelo Fürher devem ser eliminadas. Cada vez mais, o povo deve ser afastado das igrejas e dos seus representantes e pastores. Nunca mais se deverá consentir às igrejas que assumam qualquer influência sobre a direção do povo.»’ (p. 85)

‘Em Mein Kampf, Hitler critica os políticos católicos, mas tem necessidade dos seus eleitores. Agrada-lhes e faz da promessa de uma Concordata um argumento eleitoral. Efetivamente, a 20 de julho de 1933, a Igreja vê que lhe é concedido «o direito de regularizar os seus próprios assuntos». É o futuro Pio XII, Pacelli, secretário de Estado pontifício, e Von Papen que assinam a Concordata.
Cinco dias mais tarde, Hitler promulga uma lei sobre a esterilização. Dez dias mais tarde, a Liga das Juventudes Católicas é dissolvida. A seguir, o chefe da Ação Católica, Erich Klausener, é assassinado.
Em 1937, Pio XI publica a encíclica Com uma dor enorme… Nessa encíclica, acusa o Governo alemão de semear «a embriaguez da suspeição, da discórdia, do ódio, da calúnia, da hostilidade fundamental secreta e aberta ao Cristo e à sua Igreja…». E Pio XI acrescenta: «Veem-se despontar no horizonte da Alemanha nuvens ameaçadoras de guerras religiosas destruidoras que não têm outro objetivo senão o extermínio.»
Em março de 1937, quando Pio XI promulga a encíclica, os judeus já há muito tempo que são proscritos, perseguidos, presos. É verdade que, neste caso, não se trata de uma guerra religiosa, mas da realidade de um extermínio racial.’ (pp. 86-87)

‘Em 26 de agosto de 1939, enquanto se prepara par atacar a Polónia, [Hitler] manda enviar ao Rei dos Belgas, à Rainha da Holanda e ao Governo do grão-ducado do Luxemburgo uma nota na qual afirma solenemente a sua intenção de respeitar aquelas neutralidades. Nova garantia a 6 de outubro. Porém, três dias mais tarde, dita a sua diretiva para a condução da guerra e, especialmente, para a invasão daqueles três países. Esta operação recebe o nome de «Plano Amarelo».’ (pp. 180-181)

‘Desde que realizara a Anschluss, Hitler, fiel aos seus hábitos, empenhou-se em dar garantias aos países vizinhos: «Informei a Jugoslávia de que, de futuro, a nossa fronteira com esse país permaneceria inalterável e que nós não poderíamos viver senão em paz e em boa amizade.»
Mas havia já algum tempo que tinham ficado prontos os planos da agressão à Jugoslávia. Ao dar os últimos retoques no Plano Barbarossa – invasão da URSS – Hitler ordenara aos generais que previssem a segurança do flanco sul dos seus exércitos e a proteção das linhas de comunicação para a Ucrânia.’ (pp. 182-183)

‘Nuremberga já vai longe, mas a evocação dos crimes que exigiram Nuremberga permanece, bem nítida. Uma lista interminável, horrível. Uma lista que explica muitos ódios e expiações implacáveis. Crimes que, para honra dos homens, se deseja que nunca mais se repitam.’ (p. 389)


**(Título retirado de Daniel Faria, Dos líquidos, Porto, Edição Fundação Manuel Leão, 2000, p. 137)

*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Ensaios de liberdade', 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'

Foto recolhida da Biblioteca Nacional Portuguesa 

sexta-feira, março 20, 2026

'Os Sete Dias da Criação' |8| Luís M. P. Silva - Ainda o primeiro dia: ‘Deus disse: «Faça-se a luz.» E a luz foi feita.’ Deus é origem, através da Sua Palavra.

 

(‘Os Sete Dias da Criação’ | Rubrica dedicada ao diálogo entre ciência e religião)
Artigo originalmente publicado na revista 'Mundo Rural'

Luís Manuel Pereira da Silva*

Neste passo da nossa reflexão sobre ‘os sete dias da criação’, gostaria de enfrentar três aspetos que nos é possível observar deste densíssimo versículo 3 de Gn 1: o vínculo indissociável entre ‘a’ Palavra e Deus; a bondade da criação e, por fim, a dificuldade da receção do texto perante das descobertas científicas.

Enfrentemos o primeiro destas três observações.

É, para nós leitores do século XXI, já imbuídos da ‘resolução’ da controvérsia trinitária, óbvia a relação entre a ‘Palavra’ de Deus e o próprio Deus. A ‘Palavra’ não é um ‘suplemento de Deus, mas a Sua ação pessoal criadora, indissociável da Sua própria natureza. A Palavra é Deus, como Deus é, também, o princípio. É princípio pela Sua Palavra e é pela Palavra que dá início a tudo.

Para nós, isto é, hoje, claro.

Mas, se recuarmos ao século IV, ao contexto das controvérsias que deram pretexto para o primeiro Concílio ecuménico (universal, de toda a ‘terra habitada’) do Cristianismo, perceberemos que esta constatação não era, então, assim tão clara. Para Ario, o presbítero de Alexandria cujas teses Atanásio, ainda diácono do Bispo de Alexandria (de nome ‘Alexandre), teve de enfrentar e refutar, em Niceia, em 325, a Palavra era a primeira das criaturas de Deus. Não coincidia, não era da mesma substância (consubstancial, como dizemos no credo – que é ‘nicenoconstantinopolitano’) de Deus. Havia um hiato entre Deus (princípio absoluto, solitário, ‘fechado em si’) e a Sua Palavra. Ora, Génesis torna clara esta unidade indissociável entre ‘Deus’ e ‘Palavra’, mostrando que a ação de Deus se opera na e pela Palavra. A Palavra é o ‘nome’, a ‘pessoa’ (condição de diversidade em Deus) pela qual Deus todo (trinitário) cria. E isso é notório na preocupação com que o autor bíblico nos descreve os atos criadores. Diz que ‘Deus disse’ e ‘aconteceu’. A Palavra de Deus é eficaz.

Em segundo lugar, recuperemos uma constatação já insinuada em anteriores etapas deste nosso percurso reflexivo: a criação, na perspetiva bíblica, é bondosa. No pensamento, no desejo de Deus, toda a sua criatura, toda a sua criação é boa, contrariando aquilo que os vários maniqueísmos (o nome nasce de Manes, um nobre persa que viveu no século III d.C., no contexto da religião zoroastrista, na Pérsia, que defendia que, na sua origem, a criação tem dois princípios antagónicos: o do bem e o do mal. Esta tese sedutora exerceu muita influência, chegando, inclusive, a muitos cristãos. Recordemos, a título ilustrativo que o próprio Santo Agostinho, no século IV-V, sofreu, numa fase anterior à sua conversão ao cristianismo, influência desta perspetiva.) da história, repetidamente foram sustentando. Na visão bíblica, a criação é, originariamente boa. Deus não é um criador do mal; é um criador do bem. O mal é a corrupção, a degradação, a não correspondência ao que Deus pretende e à natureza própria da criação.

Em terceiro lugar, enfrentemos uma interrogação que tem servido de lastro a toda a reflexão que temos vindo a desenvolver – no confronto entre o texto bíblico, literalmente analisado, e as conclusões que a ciência exata e experimental foi retirando, à medida que foi apurando o seu método, verificaram-se, em alguns momentos, dissonâncias, divergências.

Guardemos, para já, essa constatação.

Repitamo-lo: do confronto entre o texto bíblico, lido em registo literalista, e as descobertas científicas, ocorreram, em muitos momentos, desencontros.

É importante que a tenhamos em conta, pois o caminho que nos propomos é o de, enfrentando essa constatação, procurar uma via de encontro e convergência que nos permita evitar repetir erros que a história já nos evidenciou.

Entre as tentativas de permitir atenuar a ‘dureza’ da constatação dessas dissonâncias encontra-se a chamada ‘interpretação acomodatícia’, que fez longa escola. Na verdade, como recorda Agustín Udías Vallina, no seu muito interessante ‘Ciencia y fe cristiana en la historia’, ‘esta interpretação já tinha sido utilizada com os textos que falam da Terra plana, sendo aceite a sua forma esférica já por autores como Beda, o Venerável e ao longo da Idade Média.’ (p. 88) Recordemos que Beda, o venerável, viveu nos séculos VII e VIII e que, como já vimos, em etapa anterior, toda a Idade Média pressupunha que a Terra era esférica, contrariamente ao preconceito repetidamente referido de que a Idade Média acreditava numa Terra plana.

Ora, a pergunta a fazer é, precisamente, sobre como conciliaram os leitores atentos da bíblia as suas múltiplas referências à terra como plana com a tese ‘científica’ de que a Terra era esférica.

A interpretação acomodatícia foi, durante muitos séculos, uma das que vingaram, ao lado das abordagens alegoristas, podendo definir-se como a ideia de que os autores bíblicos acomodaram (por isso ‘acomodatícia’) a sua escrita às conceções próprias dos seus tempos. Vallina diz que ‘interpretação acomodatícia significa que os textos estão acomodados ao sentir da época em que foram escritos.’ (p. 88)

É uma abordagem confortável e que serenou, durante muito tempo, os ‘espíritos’ de controvérsia, mas valerá a pena conservar uma interrogação: será uma abordagem suficiente? O literalismo para que procura ser resposta é o modo exclusivo ou, sequer, o que deverá adotar-se, na abordagem ao texto bíblico?

Vê-lo-emos, ao longo da nossa posterior reflexão.

 


Sugestões bibliográficas

 

Agustín Udías Vallina, Ciencia y fe cristiana en la historia, Maliaño, Editorial Sal Terrae, 2021.

Isidro Lamelas (coord.), O primeiro concílio ecuménico – Niceia 325: memória e herança, Apelação, Paulus editora, 2025.

D. António Couto, O livro do Génesis, Leça da Palmeira, Letras e Coiras-livros, 2013.

Santo Agostinho, Da interpretação do Génesis: dois livros contra os maniqueus, Prior Velho, Paulinas, 2021.

Gerhard von Rad, El libro del genesis, Salamanca, Ediciones Sígueme, 19887.


*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano', 'Ensaios de liberdade' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'


 

 

quinta-feira, março 19, 2026

Os carros, na Polónia, não têm buzina: ecos de uma visita a Cracóvia e Auschwitz

 

Acabo de regressar de visita de estudo à Polónia.

(Não pretendo, porém, fazer deste um texto de literatura de viagem. Antes, uma espécie de página rasgada de um diário de memórias…)

Ir aos locais confere-nos experiências que nenhum livro (apesar de os ter como meus fiéis companheiros) poderá, alguma vez, replicar ou substituir. Os cheiros, os ritmos, a língua falada, os tempos e os modos, são irreplicáveis.

Curiosamente, porém, o odor, esse sentido que logo coloco em alerta quando me desloco a um novo destino, desta vez, foi escassamente convidado a manifestar-se. O tempo de inverno adormece as flores e anoitece os alvoreceres perfumados.

Mas muito havia a descobrir, para além do que nos reserva o olfato, esse sentido tão carnal e corpóreo que nenhuma inteligência artificial ousará replicar.

Fui a Cracóvia e a Auschwitz. Reservarei, para um segundo momento, a emoção deste lugar singular. Deter-me-ei, primeiramente, nas impressões de Cracóvia.

Levava-me a expectativa de ver quanto de S. João Paulo II se guarda, na memória dos lugares daquela cidade.

Percebe-se que, Cracóvia, tendo no seu histórico cidadão mundial, o arcebispo Karol que, um dia, chegou a Sumo Pontífice, talvez o seu mais reputado e amado cidadão (ainda que tivesse nascido em Wadowice), a profundidade da fé católica, que define a genética daquele povo, suplanta a densidade da importância de uma só pessoa. Surpreende perceber-se a catolicidade de que se faz aquela cidade. Uma catolicidade que se torna efetiva na capacidade de universalidade que se vislumbra na importância do seu rei herói, o grande monarca Casimiro, aquele que soube acolher os abandonados desses tempos, entre eles, os sempre rejeitados judeus. Será, aliás, dessa memória que falarão os que sumamente os quiseram extinguir, os nazis. Numa tristemente célebre cena evocada no ímpar filme ‘Lista de Schindler’, Amon Goeth, o terrível chefe do campo de concentração de Plaszow, quando se preparava para esvaziar o gueto de Cracóvia (também ele um lugar visitado em dia de comemoração dos 83 anos do seu encerramento – uma coincidência que nos permitiu assistir às cerimónias adiadas por um dia, por motivo de, na efetiva data, ser Sábado – dia sagrado para os judeus) recorda que Casimiro, o Grande, dera aos judeus a liberdade que ele, Amon, se propunha, agora, extinguir para sempre. E perto estiveram os nazis de o conseguir.

Dessa terrível, temível e hedionda eficácia fala Auschwitz-Birkenau… A esse lugar ‘não-lugar’ regressarei, mais adiante.

Volto a Cracóvia.

Ir ao lugar, habitar, por algum tempo, com os que dele fazem o seu tempo, permite-nos, com a distância de quem habita e faz tempo noutros lugares, vislumbrar sinais da singularidade de cada morada.

Cracóvia é uma cidade bela. É uma cidade ampla, aberta, de espaços onde se pode peregrinar pela história sem se desistir do presente. É uma cidade que surpreende porque é ampla, como a planura da Polónia. Não via montanhas. Só planícies. As planícies que tão apetecível tornam este país e que podem ajudar a explicar porque tão difíceis foram, ao longo da história, as relações de vizinhança com alemães e russos, os seus ‘arqui-inimigos’ que muito ganhariam em, de vez, unir esforços, em vez de os dividir. A História deste povo é a história de uma luta contra os apetites vorazes dos que os rodeiam. É, por isso, uma história de resistência ao perigo do desaparecimento. Uma resistência visível na unicidade da sua língua - participei em missa dominical de que percebi pouco mais do que ‘efésios’, ‘Jesus’, ‘Jerusalém’ e muito pouco mais (Mas a virtualidade dos rituais é que a sua simbólica os torna transparentes para quem participa da sua semântica). Mas se se ousasse olhar quanto de significativo aqui se reserva! A Polónia teve, entre 1573 e 1795 reis que eram eleitos. E não se pense que só o podiam ser os que provinham das linhagens. Foram eleitos franceses, húngaros, leigos e bispos, reis e rainhas, numa diversidade que surpreende e evidencia a originalidade deste povo.

E no viver também se torna notória esta particularidade.

Surpreende a serenidade quotidiana de uma cidade com cerca de 700 mil habitantes que, não sendo exuberantes nos modos (não ouvi gargalhadas ou aparências de ‘piadas’, tanto ao gosto dos latinos. Na verdade, a única gargalhada e volumosa troca de conversas provinha de um grupo que, quando passou por mim, percebi ser de italianos…), se respeita e acolhe. Na estrada, não ouvi uma única buzinadela. Entrecruzam-se carros, elétricos, bicicletas e peões, sem que se atropelem e cedendo, espontaneamente, a passagem como se uma qualquer lei suposta tivesse demitido a presunção de que se ‘tem sempre razão’.

O sofrimento da história talvez explique a capacidade de não valorizar excessivamente o que não o merece.

Um sofrimento de que a célebre entrada de Birkenau (com a sua linha férrea dirigida ao abismo da História) ou o lema de Auschwitz (‘arbeit macht frei’) evocarão, para sempre e para todo o sempre.

No dicionário de Auschwitz-Birkenau eclipsa-se um vocábulo: ‘turista’. Outro preenche o seu lugar: ‘peregrino’.

É impossível passar por ali como quem sobrevoa um lugar. Os nossos pés ficam enlameados e presos na terra empapada de sangue.

A entrada, demorada e prolongada, antes de nos abeirarmos do portão encimado pela tristemente célebre frase feita do sarcasmo nazi (‘o trabalho liberta’), faz-nos percorrer um longo corredor onde, pausadamente, uma voz nos sussurra nomes. Um de cada vez, para que penetre, profundamente, em cada um, a memória viva de quem se quis apagar até o próprio nome, substituindo-o por um número.

Somos esmagados. Um nome. Outro nome. Outro nome… Nomes, apenas. Porque aquele percurso fora feito em sentido contrário: com o intuito de apagar qualquer nome.

Tudo em Auschwitz é maldade.

Para um judeu, que quer ser inumado, enterrado, para que possa ser devolvido à terra donde proveio, como Adão, ser cremado é a derradeira humilhação. Dessa humilhação falam os fornos crematórios. Esses definitivos ‘não-lugares’ e ‘não-tempos’.

Eram o último ato de sarcasmo nazi. Depois de despirem os recém-chegados aos campos, de os gasearem (em inúmeros casos) a pretexto de lhes proporcionarem banho, de os reduzirem a um número, de os dividirem uns contra os outros (os colaboracionistas e violentos tinham ‘benesses’ que recrudesciam as ações de uns para com os outros), de os desumanizarem até ao mais baixo possível (Birkenau é um campo composto por barracas que se destinavam a animais, transformadas em lugares para ‘amontoados de pessoas’), reduzir a fogo e cinza era o derradeiro grito sarcástico.

A humilhação pura, gratuita, decadente, desumanizante.

Auschwitz-Birkenau é silêncio. O silêncio que se abate sobre nós.

O silêncio que nos deve despertar.

Como recordava a guia, de nome ‘Aneta’, isto só foi possível porque o ‘mal e o bem se confundiram’.

E, como me recordava alguém muito próximo, quando lhe disse onde estivera, ‘Auschwitz cheira a morte’.

Li, durante os dias em que fiz esta ‘peregrinação interior’, o livro de Bernard Michal, ‘os julgamentos de Nuremberga’.

Densificou-se em mim a convicção de que não podemos estar certos de não se repetir a inumanidade de que fala Auschwitz. Exige-se que não se deixem adormecer os ‘não-violentos’. Exige-se que não deixemos de agitar a cinza sob a qual repousa o brilho. Exige-se que continuemos a ver o humano que refulge sob as rugas dos tempos e debilidades. Exige-se que mantenhamos a certeza da humanidade onde a ideia que desumaniza pretende prevalecer. Exige-se que nos mantenhamos atentos, em atitude de sentinela. A alvorada verdadeira só será a do sol, não a dos holofotes sinistros.

Os tempos são de exigente atenção.

Quem serão, hoje, os novos ‘judeus’?

Os de sempre, bem certo, e tantos novos…

Os que ninguém quer porque ainda não são; porque já não parecem ser; porque nunca poderão ser; porque serem incomoda; porque serem perturba; porque já não merecem a esperança.

Quem são os novos ‘judeus’?

Em memória dos judeus de todos os tempos exige-se que despertemos e honremos a memória dos esmagados pelas botas de ferro.

Somos todos humanos, fragilidade de Adão e só na eternidade seremos como o Eterno. Até lá, fazemo-nos de ‘terra’, de caminho juntos, de olhar que vê o humano que a deficiência habita. O verdadeiro poder não é o da humilhação, mas o do perdão que cresce e faz crescer; que acolhe e respeita.

Schindler recorda-o, no celebérrimo filme, em diálogo com Amon Goeth. O maior poder dos imperadores, diz Schindler, não era o de matar; mas o de perdoar quando o destino apontara a morte como fatalidade intransponível.

Esse é o maior poder: o de perdoar. O de se reconhecer pequeno como e com os pequenos.

Como os de Cracóvia, não precisamos de ‘buzinar’ porque nos respeitamos, reciprocamente. O outro não nos estorva: vive connosco e crescemos, juntos, com a singularidade de cada um, sem a qual somos mais pobres. A nossa verdadeira riqueza são os outros. O que é novo não nasce de nós: recebemo-lo dos outros.

Auschwitz é a negação disto; é a recusa do outro e a sua redução à condição de estorvo a abater.

Mas, sem o outro, sem o tu que o outro é, morre, também, sob a ilusão de vitória, o próprio eu. Permanece na sua loucura narcísica. Torna-se uma massa informe. A massa amorfa e sem identidade que pretendiam os nazis.

É por isso que Auschwitz terá de permanecer, para sempre, como aguilhão doloroso na pele de todos: ninguém seremos, se não ‘formos’ com os outros, únicos e singulares.

sábado, março 07, 2026

Sabes, leitor... | 27 | Marca de água do livro 'Woke fizemos?'

 

Rubrica ‘Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página’** | Marca de água de livros que deixam marcas profundas
Parceria: Federação Portuguesa pela Vida e Comissão Diocesana da Cultura

Luís Manuel Pereira da Silva*




O(s) autor(es) e a obra
Teresa Nogueira PINTO e Miguel CÔRTE-REAL (COORD.), Woke fizemos? Anatomia de um totalitarismo suave, Alfragide, Oficina do Livro, 2025.

‘Woke fizemos?’ é uma obra plural. Tal como a interrogação do título. Coordenada por Teresa Nogueira Pinto e Miguel Côrte-Real, reúne dezasseis ensaios de grande diversidade de estilos e de modos de leitura, correspondendo, aliás, à diversidade dos próprios autores: Professores de filosofia, historiador, de teoria política, arquitetos, cientistas políticos, criadores de fotografia e vídeo, jornalistas e críticos de cinema, sociólogos, advogados, analistas políticos, assegurando ao leitor um autêntico caleidoscópico da realidade do wokismo nas sociedades atuais.

Já em momento anterior desta rubrica analisei um livro sobre o ‘wokismo’, cuja leitura recomendo como complemento desta. Estou, aliás, convencido de que há um antes e um depois desse livro – ‘a religião woke’, de F. Braunstein –, por provir de um autor insuspeito (descrente e identificado como de esquerda). O seu aparecimento tornou mais tranquilo o reconhecimento de que estávamos, efetivamente, perante um problema que atravessa a sociedade, de um ao outro lado do espetro político. Dessa mesma consciência nos dão conta os próprios autores destoutro livro que, agora, apresento. Um deles afirma, mesmo: ‘desengane-se quem pensa que se trata de um combate ideológico restrito aos segmentos da direita: é um combate que pertence a toda a sociedade civil que renuncia a viver sob o jugo woke.’ (Gonçalo Nabeiro, p. 221)

Pela diversidade complementar de leituras, e superada a dúvida de esta fosse uma matéria merecedora da preocupação de apenas alguns, este livro torna-se, pela oportunidade e multiplicidade de abordagens, de visita recomendável, para que se perceba como nasceu e como chegou até nós essa tão implantada lente ocular com que, hoje, vemos, despertos (‘woke’ – estar acordado), o mundo.

Marcas de água 

(o que fica depois de se deixar o livro)

Este livro serve, precisamente pela multiplicidade de âmbitos de que provêm os autores dos ensaios, multiplicidade que se repercute nos terrenos em que analisam a presença da cultura woke, para se perceber, com assombro, como esse ‘modus cogitandi’ (modo de pensar) se entranhou, profundamente, na cultura atual, tornando difícil o distanciamento crítico. Do cinema às artes visuais, da literatura à filosofia, do humor à sexualidade, das relações políticas às relações mais individualmente consideradas, o wokismo chegou e entrou como suave ‘perfume’ que inebria. A ideia a que alude o subtítulo ‘anatomia de um totalitarismo suave’ permite-nos revisitar a história da rã que, colocada em recipiente de água, é cozinhada, progressivamente, sem de tal se dar conta. Desse mesmo modo, o wokismo, tantas vezes recusado pelos que dele recolhem dividendos, anestesia, sob a capa de uma genuína simpatia (Como não repudiar a injustiça? A discriminação? O racismo? A desigualdade?), criando, na sociedade, uma lógica que repercute a forma mentis (a estrutura da mente) marxista que tudo reduz a luta de classes, agora reconfigurada.

E fá-lo de um modo particularmente eficaz: não só critica e denuncia como, prontamente, criminaliza toda a oposição, transformando em pensamento único o modo de chegar à meta da injustiça, fazendo supor que um só é o caminho para chegar à justiça.

Soma-lhe, ainda, uma outra estratégia, genialmente recordada no celebérrimo 1984 de George Orwell: ‘quem controla o passado, controla o presente’, pelo que, para promover o seu caminho, manipula a história, revisitando-a como lugar de exploradores e explorados, sem lugar possível para um qualquer ‘encontro de culturas’ ou de ‘povos’.

O wokismo propõe-se despertar o mundo de um suposto adormecimento para a congénita injustiça do mundo, mesmo que de tal não se sinta participante aquele a quem se atribuem as funções de explorador e explorado. Mesmo que não seja explorador aquele sobre quem recai tal ‘preconceito’; ou ‘explorado’ aquele que se propõem libertar.

Por efeito da chamada teoria crítica, caldo em que germinou este modus cogitandi, a realidade deixa de ser tomada na sua objetividade por a ela sempre se estar impossibilitado de aceder, num registo pós-moderno que recusa a «verdade objetiva». O corpo, ele mesmo realidade objetivamente considerada pelos ‘não-wokes’, é, agora, dispensável da consideração da identidade, sendo platonicamente relegado para a condição de entrave à realização individual. O sexo é, assim, substituído pelo conceito de ‘género’, termo que visibiliza a ideia de que a identidade sexual individual depende do próprio sujeito e do seu reconhecimento, isolando num solipsismo máximo o indivíduo a que os restantes só podem aceder por autorização deste.

Tudo se torna diluído, líquido (para evocar o pensamento de Zigmunt Bauman), sem suporte real, reduzido que está à perceção individual. O indivíduo, no wokismo, é a medida de todas as coisas (coisas já sem substância nem consistência, pois totalmente dependentes do sujeito).

Perante o sufoco que uma tal abordagem gera em quem se detém a pensar nestas matérias, o livro deixa inúmeros sinais de que a procela possa estar a iniciar a dissipação. Mas muito há a fazer, em particular, no que respeita ao dever de se manter em estado de vigília e vigilância. É que, ironicamente, o wokismo nasceu de um torpor e adormecimento de que se aproveitou para se implantar, em nome de ser um despertador. Agora, começamos a esticar os braços e a espreguiçar-nos, mas ainda só estamos na aurora…

 

Na mesma página que o autor (citações)

‘O wokismo é […] um totalitarismo suave: pretende educar consciências, corrigir a linguagem, restringir o debate e condicionar comportamentos. Não promete amanhãs que cantam, mas dedica-se à reinvenção do passado com o mesmo zelo com que regula o presente. É sinal de um tempo de crise intelectual e moral, sintoma de uma época de angústias e, quiçá, prenúncio do fim de um ciclo.’ (Nogueira Pinto, Prefácio, p. 9)

‘A partir da influência da Teoria Crítica, a abordagem da questão colonial deixará de se nortear paulatinamente por uma abordagem histórica interessada em documentos e factos. Ela será conduzida doravante pela ideia arraigada de que o mundo se divide na confrontação entre opressor e vítima, havendo sempre dois discursos, duas narrativas, que expressam a relação conflitual. Por um lado, há o discurso do colonizador, falando de uma modernidade triunfante, de um pensamento universal, do progresso da ciência e das conquistas do conhecimento, do descobrimento da América, do «encontro de culturas e de uma humanidade reunida em torno de «valores universais». Por outro, o pressuposto discurso do colonizado: um discurso que, focado na vítima como conceito fundamental, denuncia a vontade de poder subjacente à modernidade como o seu lado obscuro. Este seria o discurso que, negando a perspetiva do colonizador europeu, compreenderia que a relação entre opressor e vítima não cessaria, na medida em que é o próprio colono que, pela sua simples presença e existência, subordinando-a, faz (ou inventa) a sua vítima.’ (Alexandre Franco de Sá, p. 54)

‘A pergunta de James H. Sweet [Is History History?] também se ajusta ao que se passa em Portugal, onde há uma torrente de gente woke, levas sucessivas de alunos e professores que as universidades, na área das ciências sociais e humanas, constantemente formam e deformam. É, tanto quanto posso avaliar, gente profundamente crente nos dogmas do pós-modernismo e motivada para a militância (e vigilância) woke contra aquilo a que chamam História feita à moda antiga, isto é, História positivista. Há, por isso, fortes razões para temer que, sem uma reacção da parte sã da sociedade, a acção deletéria destas pessoas e concepções provocará um abalo irremediável no cerne da investigação historiográfica, isto é, na busca da verdade e no respeito pelo rigor.’ (João Pedro Marques, p. 82)

‘[O] que é ensinado nas universidades, em particular no contexto anglo-americano [é] marcado pelo que Alexandre Franco de Sá chama «militantes intelectuais». Essa abordagem académica baseia-se nas ideias popularizadas no final da década de 1960, promovendo currículos desenhados a partir dos três argumentos seguintes:

- argumento identitário: a convicção de que a forma como vemos, interpretamos e conhecemos o mundo depende da nossa identidade (sexual, racial, etc.), pelo que não é possível falar de um mundo comum e objectivo que esteja para lá da nossa identidade;

- argumento das dinâmicas de poder: a convicção, inspirada no pensamento marxista, de que as dinâmicas sociais se traduzem sempre em dinâmicas de poder, pelo que aquelas identidades estão em permanente tensão e conflito para deverem e exercerem o poder;

- argumento activista: a convicção de que o privado é político, pelo que em todas as dimensões da nossa vida devemos estar conscientes da nossa identidade e do modo como ela resulta de uma situação de privilégio ou de opressão, para podermos agir sobre o mundo e transformar essas relações de poder.

A partir destes três pressupostos, generalizou-se no mundo académico anglo-americano um sentimento de desprezo perante os valores ocidentais tradicionais, entendidos como mero resultado de opressão da identidade branca (privilégio branco), em particular do homem branco (patriarcado branco), visando subordinar e oprimis as restantes identidades (negros, BIPOC, o Sul Global) para manter o seu poder e o seu privilégio. Este etno-masoquismo não é um sentimento generalizado na população: nasceu nas elites universitárias, mas tem vindo a aumentar a sua influência em resultado do crescente número de estudantes no ensino superior. É, por isso, um aspeto fundamental para compreender as divisões sociais actuais e os resultados políticos que surpreendem as elites políticas e intelectuais.’ (Patrícia Fernandes, pp. 90-91)

‘A partir do momento em que a busca da verdade passou a ser uma ideologia, não existem currículos ideologicamente neutros. Neste sentido, o embate educativo é ideológico.

Temos assistido a uma redução do assunto educativo artístico à visualidade que pretende expandir o olhar humano para aquilo que se pode ver e ser visto e que visa ampliar os temos da arte o restrito objecto de estudo que esta convoca, mas levanta questões que merecem uma tenta discussão sobretudo dentro de uma matriz cristã. Essa conformação à estrita visualidade das coisas deixa-nos susceptíveis à hiperimagem da abundância. É preciso ver menos para ver mais. […] Temos de nos recentrar na visualidade cristã do mundo. Uma visualidade intelectiva que vai muito para além daquilo que podemos ver e tocar. Voltar a ensinar a grande arte, o grande gosto e a grande cultura, que nos remeta para o significado original dessas criações artísticas. Mais do que destrezas e manualidades, a educação artística permite-nos a formulação de perguntas e mergulhar na profundidade do mistério humano.’ (Ricardo Roque Martins, pp. 123-124)

‘[…] a luta cultural preconizada pela Teoria Crítica é uma luta contra a biologia e que começa por atacar o próprio facto da sexualidade binária, sugerindo que a identidade sexual deve ser definida de forma mais diversa e fluída, desligada do corpo. É como se cada indivíduo tivesse simultaneamente potencialidades femininas e masculinas dentro de si, à espera de brotar, e a definição da sua identidade sexual fosse um processo de descoberta gradual, criativo e pretensamente livre de pressões normativas. Nessa linha, o corpo é entendido como uma prisão que pode ser um fardo por diferentes motivos. Especialmente para a mulher, no entendimento da maior parte das feministas, o maior fardo que o corpo lhes impõe é a potencialidade da gravidez, pois limita as suas possibilidades práticas durante, no mínimo, o longo período de gestação, e porque pode colidir com outros projectos pessoais, de ascensão profissional e com a plena possibilidades de gozo de cada momento.’ (Daniela Silva, p. 137)

‘Para Yoram Hazoni, o wokismo pegou nos conceitos marxistas de luta e exploração de classes e transferiu essa dialéctica, ou os polos dessa dialéctica – explorador-explorado, burguesia-proletariado -, para outras dicotomias. Assim, ali onde os marxistas-leninistas opunham as classes económico-sociais em guerra, os wokistas deixavam a imaginação dicotómica à solta, conforme as conveniências e a urgência da luta: «supremacias brancas versus povos racializados», «patriarcado versus mulheres», «heterossexuais cisgénero versus LGBTQ+» (Feser, 2023).’ (Jaime Nogueira Pinto, p. 151)

‘Questionar o movimento woke não é sinónimo de considerar que não existem oprimidos e opressores. Existem e sempre existirão. A forma de encarar tal equação é que será discutível e contestável. E neste caso, a condição de ressentimento que domina a cultura woke, como afilhada de um marxismo ressuscitado, alimenta uma visão bipolar e extrema, assente num malabarismo argumentativo que põe em causa a sabedoria popular, o que acaba por lhe retirar aprovação e adesão e, por consequência, angariar oposição e resistência. O pensamento woke é irrefutavelmente um pensamento que toma o niilismo no lugar da esperança, o relativismo no lugar do universalismo, e porventura é incompatível com a experiência humana.’ (João Pedro Marnoto, p. 188)

‘À falta de um contraponto à altura e na proporção ao nível da produção, só podemos contar, para inverter a tendência, com uma gradual reacção do público por cansaço ou overdose de doutrinação; com acções cívicas de protesto, oposição e boicote, como estão já a acontecer nos EUA por parte de grupos de cidadãos e de associações de pais e famílias, particularmente contra a wokíssima Disney; e com mudanças no mercado, ou seja, por quedas ou declínio das audiências e dos resultados comerciais, que se reflectirão no bolso de quem de direito e levarão eventualmente a um atenuar do conteúdo woke nas séries de televisão e streaming, ou mesmo a uma inversão radical do rumo. Se, como notou um analista do meio, «a indústria das imagens em movimento segue o som do dinheiro», talvez seja por aí que a maré do wokismo na ficção televisiva e em streaming possa começar a mudar.’ (Eurico de Barros, pp. 197-198)

‘A Ideia de que se pode combater injustiças e totalitarismos usando o humor é comprovadamente uma ideia da mais ternurenta inocência – e ignorância histórica e política. Os cabarés alemães nos anos de 1920 e 1930 eram bastante conhecidos pelas actuações de comediantes – e não evitaram o nazismo. As piadas soviéticas eram popularíssimas – e não evitaram o estalinismo. Henrique VIII tinha um bobo – que não evitou nenhuma decapitação. O humor pode servir para mostrar iniquidades, injustiças, desigualdades, vaidades e delírios. É habitual dizer-se que quando um sábio aponta para a Lua, o tolo olha-lhe para o dedo. É importante haver quem tenha essa vontade de olhar para o dedo do sábio, à procura de detalhes que outros não viam enquanto olhavam para a Lua. Mas daí a considerar que o papel do comediante é cortar o dedo do sábio, quando este discorda do tolo, ou tapar os olhos do tolo, quando se santifica o sábio, é um passo que muitos julgávamos não vir a presenciar neste século XXI.’ (Nuno Amaral Jerónimo, p. 206)

‘[…] desengane-se quem pensa que se trata de um combate ideológico restrito aos segmentos da direita: é um combate que pertence a toda a sociedade civil que renuncia a viver sob o jugo woke.

Após um período de descrença e de um certo declinismo – sentimentos, por sinal, compreensíveis e justificados -, há motivos para acreditar no reaparecimento do senso comum e na restauração da matriz cultural que nos define enquanto sociedade ocidental. Uma sociedade orientada para a liberdade, para o desenvolvimento e para as relações de respeito mútuo entre indivíduos, cientes dos seus direitos e deveres para que possam dar à comunidade aquilo que dela esperam.’ (Gonçalo Nabeiro, p. 221)

Para a difusão e enraizamento destas ideias perniciosas para a subsistência do Ocidente civilizado que conhecemos, foi condição necessária a substituição do primado do intelecto, próprio da filosofia clássica, pelo primado da vontade, que caracteriza a filosofia moderna. Mas isso não seria suficiente para que o wokismo vingasse como tem vindado: foi também preciso que houvesse fautores investidos em provocar o esmorecimento moral e civilizacional do Ocidente e idiotas úteis, disponíveis para colaborar no processo. Os últimos são conhecidos e estão aí: nas televisões e nos jornais, nos parlamentos e nos governos, nas ruas e nas redes sociais. Os primeiros são mais difíceis de descodificar, identificar ou mesmo revelar.’ (José Diogo Marques, p.226)

‘Não é para mim uma coincidência que os movimentos anti-woke estejam localizados, politicamente, junto da mesma direita que defende o fim da globalização globalista e o retorno da produção (que é o mesmo que dizer das empresas) às comunidades locais. Só o enraizamento do capitalismo nas comunidades locais permite verdadeiramente aproximar os gestores dos accionistas, reactivar o sentimento de pertença dos trabalhadores a um corpo, eliminando a relação distante que é inerente ao contrato de trabalho hiperliberal, e recuperar a noção de propriedade privada. Enquanto isso não acontecer, o líder-gestor-especialista continuará a impor à comunidade que serve […] aquilo que imagina como sendo o melhor para a comunidade, mesmo que a comunidade imagine o contrário. E, por isso, pelo menos no curto prazo, «DEI will not die».’ (José Bento da Silva, p. 272)

 

‘Para proteger a identidade de género, tudo é permitido. Inclusivamente, violar a consciência dos atletas, como no caso dos profissionais de futebol da Liga francesa, ou então, expor desportistas a formas de competição profundamente injustas, em que nunca conseguirão partir em pé de igualdade, como no caso da natação nos Estados Unidos. Pior do que isso, se necessário, expõe as mulheres a uma violência absolutamente inaceitável, como a de partilhar um balneário ou uma casa de banho com uma pessoa transgénero. […] A vitória woke é o triunfo dos derrotados que conseguem impor a sua derrota, perseguindo até às últimas consequências quem não quer ser derrotado como eles. Um acto de resistência à derrota tornou-se um passo para a conquista. A superação e a resiliência são características imprescindíveis para um desportista, e é tudo o que o wokismo pretende esmagar. Não podemos permitir.’ (José Maria Matias, p. 290.293)

‘Antes, não havia eleitores bons ou maus, esclarecidos ou equivocados. Havia eleitores, donos do seu voto, que os news media, por convicção ou comércio, respeitavam sem condições. Hoje, tal respeito, nas noites eleitorais e nos períodos intermédios, é uma memória remota e um anacronismo. Por convicção e por comércio.’ (Alberto Gonçalves, p. 303)

‘O caso Rocco Buttiglione ilustra como, numa primeira fase, as causas fracturantes se tornaram dominantes independentemente do apoio que essas mesmas causas colhiam na sociedade: as maiorias comportavam-se como derrotadas, os seus líderes optaram por centrar o seu discurso nas questões económicas e deixaram às minorias as questões de sociedade e culturais. […] Suprema ironia: enquanto destruía o centro-esquerda, o wokismo gerava o alargamento e a transformação da direita. Esta ganhou eleitores, mas olha-se ao espelho e não gosta do que vê. Não era assim que esperava ser. Mas vai ter de aprender a viver com isso porque na política nunca se volta ao que se foi.

Podia não ter sido assim? Precisamos de acreditar que sim, quanto mais não seja para continuarmos a acreditar que amanhã será diferente.’ (Helena Matos, pp. 320.327)

‘As ideias woke (como todas as ideias perversas) fizeram um caminho fácil de rastrear: pensadas na academia com base na interpretação enviesada dos fenómenos e realidades sociais, foram difundidas e até implementadas por ONG e movimentos que, ao nível local, promoviam, punham em prática e monitorização a implantação das mesmas. Massificadas pela comunicação social com base nos relatórios, casos e casinhos que as organizações de militância identificavam, chegam ao poder político depois de anos de sensibilização da opinião pública, que pressiona os políticos, dependentes/sedentos de votos, a adaptar o seu discurso e trabalho às novas reivindicações. […] É muito cedo para gritarmos que o wokismo morreu. Quem o faz, encara este tema com demasiada leviandade, sem perceber que este movimento foi até ao detalhe mais banal da nossa vida.’ (Rita Matias, pp. 332.346)

 


**(Título retirado de Daniel Faria, Dos líquidos, Porto, Edição Fundação Manuel Leão, 2000, p. 137)

*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Ensaios de liberdade', 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'

Foto recolhida da Leya online

sábado, fevereiro 07, 2026

Sabes, leitor... | 26 | Marca de água do livro 'Identidade e Família'

 

Rubrica ‘Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página’** | Marca de água de livros que deixam marcas profundas
Parceria: Federação Portuguesa pela Vida e Comissão Diocesana da Cultura

Luís Manuel Pereira da Silva*

O(s) autor(es) e a obra
António Bagão FÉLIX, Paulo OTERO, Pedro AFONSO e Victor GIL (Coord.), Identidade e Família: entre a consistência da tradição e as exigências da modernidade, Alfragide, Oficina do Livro, 20243.


‘Identidade e família: entre a consistência da tradição e as exigências da modernidade’ é uma obra coletiva. Reúne, após uma luminosa introdução, 22 artigos de algumas das mais destacadas personalidades nacionais. Qualquer dos nomes dispensa nota curricular. Cada nome é, por si, um currículo. A este mérito associa-se a coerência da obra; apesar de coletiva e de ter uma temática comum, surpreende que as abordagens não se sobreponham, dada a originalidade de cada linha de pensamento. Mérito dos autores, bem certo, mas também da coordenação bem articulada e que resulta, como é explicitamente referido, de intenção de corresponder à missão do ‘Movimento Acção Ética – Vida, Humanismo e Ciência’. O tema exigia, com efeito, que se olhasse a problemática da família sob múltiplos prismas.
Acresce a tudo isto uma virtualidade a sublinhar: os artigos dizem muito, argumentam com a clareza exigível, em curto espaço, equilibradamente definido e respeitado pelos autores.
Ora, a tudo isto se deve a ‘celeuma’ que a saída deste livro suscitou, em particular entre os indivíduos e movimentos que dizem não se identificar com a matriz presente neste livro. E a matriz pode enunciar-se de modo sintético: secundar o reconhecimento de que a família, instituição prévia ao Estado e que este deve reconhecer e proteger, nasce de uma condição natural do ser humano – nasce-se de um pai e uma mãe e a essa referência natural deverá reportar-se o ponto de partida para a discussão sobre o que é ser família.
Esta síntese que, há muito poucas décadas, soaria a ‘lugar-comum’ que rotularia como ‘banal e vulgar’ qualquer artigo, obviando a dispensa da continuidade da leitura, é, hoje, fonte de conflitos e prontamente etiquetada no armário das ‘conservas’ (sem que se apercebam, porém, de que o verdadeiro progresso da humanidade se pode resumir à história de como conservar o que, de outro modo, se esfumaria: conservámos na escrita a volatilidade da coloquialidade; conservámos em papel, em pergaminho e em tantos outros suportes a volatilidade dos registos; conservámos a energia porque a sua volatilidade nos impedia de poder continuar a beneficiar dela; conservámos os alimentos em arcas e frigoríficos para que a voragem do tempo não nos impedisse de os poder consumir por mais tempo; conservámos, conservámos, conservámos para poder ter futuro… De outro modo, tudo seria passado! Irónico, pois quem acusam de serem passadistas é aos conservadores, mas são eles, afinal, que garantem que possa haver futuro. A não ser assim, todo o presente rapidamente se torna passado. Conservando o que é importante, o presente pode aspirar a ter futuro!)
Mas a diversidade das origens dos autores e a lucidez das suas reflexões exigem que se seja mais prudente em tão pronta ‘etiquetagem’.
Apesar, porém, do nosso desejo sincero de que assim seja (que não se arrede da vista um livro conotado…), estamos em tempos em que se pretende ver a ‘bula’ do remédio para a sede de leitura antes de o ingerir. E já não o lemos ‘virgens’ de preconceitos, porque de preconceitos nos pretendíamos dispensar e libertar.
É este um dos maiores paradoxos do nosso tempo: de tanto se pretender despreconceituoso, nunca tanto deles dependemos e por eles nos dispensámos de ler o que caiu sob o rótulo de que deles enfermava.
Sabendo bem disso, os que perceberam perigo neste livro prontamente se encarregaram de sobre ele lançar a ‘lama’ de que seria um livro padecente de preconceitos para que, contaminado, dele não se abeirassem os que, por seu efeito, pudessem vir a ficar ‘enfermiços’.
Mas a obra ficou… A qualidade está ao alcance da leitura e do reconhecimento que aceite conferir-lhe o leitor honesto.

Marcas de água 

(o que fica depois de se deixar o livro)

A leitura, após a polémica que se gerou em torno deste livro, recordou-me o mito clássico de Cassandra.
Sobre Cassandra impende uma bênção e uma maldição. Tem o poder de prever o futuro (um dom reservado a muito poucos…), mas está amaldiçoada pela impossibilidade de ser ouvida e seguida pelos que a ouvirem. Previu que os gregos entrariam em Troia e avisou que o cavalo de madeira ‘estacionado’ junto às muralhas da cidade seria o instrumento com que aqueles entrariam e destruiriam a cidade, mas a sua visionária denúncia só recebeu indiferença. Não só não lhe ligaram como arrastaram para o interior da cidade o cavalo, tomando-o por ‘coroa de glória’ dos deuses…
A denúncia de que a família, que pede o ordenamento internacional que seja protegida, vive ‘sob ameaça’ por efeito de uma ‘liquidificação’ do conceito (expressão minha, mas que corresponde à abordagem defendida ao longo do livro) e por ação de ideologias que, por meios muito eficazes, têm conduzido aos resultados que estão diante de todos – crise demográfica, diluição dos laços familiares, aumento do número de nascimentos fora do contexto da estabilidade matrimonial, diminuição da taxa de nupcialidade e aumento da de divorcialidade, etc. – parece soar a discurso de uns ‘irredutíveis gauleses’ que, mais cedo do que tarde, serão vencidos. Mas os números não se referem a questões marginais, antes à própria solidez da condição humana como seres intrinsecamente relacionais e à garantia dos liames que estruturam a sociedade. Em causa está que, a diluir-se, em definitivo, a estrutura familiar, nos reduzamos ‘à imensa solidão das multidões’ (Manuel Monteiro), pois ‘numa sociedade em que a família perde o valor central, não há habitantes, mas, sim, gente.’ (Manuela Ramalho Eanes)
É por isso que este livro não é, apenas, um livro: é um candelabro erguido sobre o monte em noite sem luar.
Dramático?
Verdadeiramente dramático é nascer-se órfão de uma orfandade legitimada pela lei que, para atender a putativos direitos dos adultos a terem filhos como um objeto que se pode obter, se seja impedido de saber quem é o pai ou a mãe.
Dramático é não poder ver respeitado o direito a nascer numa família com a presença do pai e da mãe porque a lei liquefez os vínculos e permitiu que fosse mais fácil romper laços do que construí-los.
Dramático é nascer-se e permanecer-se filho único porque um idealismo quase platónico nos impede de aceitar que possamos não dar todas as coisas para que possamos dar muito mais daquilo que não se reduz à condição de coisa: a possibilidade de construir uma fraternidade.
Dramático é confundir desejos com direitos. Nem todo o desejo é, só por si, direito. Um direito nunca o poderá ser sobre a pessoa do outro. Dramático é, por isso, a redução dos outros à condição de objetos gerados para satisfação de desejos individuais. Essa é a rampa que despersonaliza e desumaniza. E parece que já nos decidimos, coletivamente, a deixarmo-nos deslizar por ela.
Este livro é, porém, nas suas propostas, também um luzeiro de esperança. São inúmeras as sugestões a tomar como sementes de futuro: da difusão do selo de reconhecimento de empresas familiarmente responsáveis à regulamentação do cuidador informal, dos modos de articulação entre gerações à ‘receita’ maternal contra o individualismo, são muitas as vias para que se opere a revolução que a família permitirá consumar.
Porque, como é recordado, cumprir-se-á Portugal quando se cumprir a família! (Cfr. Gonçalo Portocarrero de Almada)

 

Na mesma página que o autor (citações)

’Como disse o Conselho Pontifício Justiça e Paz, «a família encontra a sua legitimação na natureza humana e não no reconhecimento do Estado. A família não é, portanto, para a sociedade e para o Estado, antes a sociedade e o Estado são para a família».’ (Introdução, p. 14)

‘A família tem sabido, com mais ou menos obstáculos, conjugar três aspetos nucleares: evolução, plasticidade e unidade. Sendo o barómetro social que melhor transmite a tensão e a transição dos tempos, o seu ideal e a sua aspiração não mudaram, porém, na sua essência.’ (Introdução, p. 15)

‘Ultimamente, posições radicais e mediaticamente potenciadas pretendem desdenhar da instituição familiar, vista até como uma instituição ultrapassada. Existe uma indisfarçável pressão ideológica e económica para forçar o indivíduo a uma desvinculação familiar, retirando-lhe todo o sentido da pertença. O lema é «tu poder ser aquilo que tu queres».
Este radicalismo individualista é levado ao limite através da chamada ideologia de género. Sem qualquer base científica, esta ideologia defende que o género é construído apenas pela identidade psicológica de género do indivíduo, negando ou relativizando totalmente a identidade biológica. Esta, porém, não é atribuível, antes é parte integrante do indivíduo na sua diversidade e especificidade. Estamos assim perante um movimento ideológico com impacto na família, na educação, na socialização, na comunicação. A ideologia de género não é promotora da liberdade ou acolhedora da diferença, mas impositora de um novo modelo de pensamento único, comprometendo o desenvolvimento humano fundado em valores, formado na liberdade e autonomia e vocacionado para a felicidade.’ (Introdução, p. 16)

‘Esta obra tem tudo para constituir um livro-semente. Um livro que, queremos, faça despertar, sobretudo nas gerações jovens, desassossegos virtuosos em vez de indiferentismos viciosos. Um livro que nos ajude a germinar perguntas e a colher respostas. Um livro para sempre e não um livro de momento, tão mais significativo quando (sic) vivemos tempos de presentismo obsessivo e descartável.’ (Introdução, p. 17)

‘O ataque à família tradicional é uma estratégia política comum a todas as tiranias, já que a família fomenta uma relação harmoniosa e solidária entre os seus membros que se propaga na sociedade, contrariando os propósitos dos regimes totalitários. Fragilizar a família é comprometer a estabilidade social e a promoção de um bem comum.’ (Pedro Afonso, p. 22)

‘[…] a educação tem de ser realizada com base em três aspetos essenciais: amor, coerência e valores.’ (Pedro Afonso, p. 24)

‘A família é a primeira escola das virtudes sociais: onde se estabelecem relações de interdependência e solidariedade geracional. Ela também é um porto seguro em períodos de crise, de doença ou de qualquer infortúnio, oferecendo um apoio sólido, desinteressado e incondicional. Por isso é que a família deve ser valorizada e protegida pelo Estado, pois uma sociedade que não protege a família compromete o seu futuro.’ (Pedro Afonso, p. 31)

‘Do latim dignitas, dignitatis, que significa substancialmente merecimento, valor, nobreza, o termo dignidade refere-se ao valor em si que uma entidade tem, não equiparável, sem equivalente, portanto não transacionável. Este mesmo significado foi, aliás, sublinhado pelo Papa Francisco, poucos meses depois da sua eleição, ao dizer aos médicos de todo o mundo que «as coisas têm um preço e podem ser vendidas, mas as pessoas têm uma dignidade, valem mais do que as coisas e não têm preço».
Já a Comissão Teológica Internacional, em documento publicado em finais de Abril de 2019, se refere a este «valor em si, nunca transacionável, contido na noção de dignidade humana: «Num sentido muito geral, a dignidade remete para a inalienável perfeição do ser-sujeito na ordem ontológica, moral ou social. A noção emprega-se na ordem moral das relações intersubjetivas [e, portanto, também dentro da família] para designar aquilo que possui um valor em si mesmo e, portanto, não pode jamais ser tratado como se fosse um simples meio. A dignidade é assim uma propriedade inerente à pessoa enquanto tal.»’ (João Duarte Bleck, pp. 37-38)

‘Uma criança que cresce a ser «querida» vai internalizar um sentimento de pertença e de autoestima que lhe dará ferramentas para enfrentar as fases da vida que se seguem e que poderão trazer algumas provações…’ (Pureza de Mello, p. 45)

‘Compreender a importância da família na formação da identidade é, pois, uma exigência não negociável e não transmissível, que nenhum poder político pode ignorar ou corromper.’ (Manuel Monteiro, p. 53)

‘[…] a relação do Estado com as famílias deve nortear-se pelo princípio da subsidiariedade. A defesa deste princípio não implica, como é óbvio, a retirada do Estado de um dos fins que justifica a sua existência – o bem-estar social – implica apenas que o Estado saiba que pode melhor alcançar esse fim se deixar as famílias agir como famílias. Não se trata de lhes dar, bem pelo contrário, trata-se somente de lhes restituir o que nunca lhes deveria ter sido retirado: a liberdade com compromisso e com sentido de responsabilidade. É certo que esta atitude obriga a mudanças de pensamento, mas não é menos certo que sem essa mudança de pensamento todos continuaremos a caminhar para a imensa solidão das multidões.’ (Manuel Monteiro, p. 55)

‘[…] tudo isso que constitui a cultura como herança não-biológica do Homem é na família que primordialmente cada um a recebe; e é em família que consequentemente cada um explora dialogicamente essa cultura, cada um começa a participar na transformação interactiva dessa cultura interactivamente, ao passo que a sua consciência cognoscente e constituinte a vai sustentando criticamente em equação com os seus parâmetros axiológicos e éticos.’ (José Carlos Seabra Pereira, p. 63)

‘Este ataque à família não é virtual, pois as consequências estão já bem à vista: queda drástica da taxa matrimonial, que em Portugal de 1999 a 2019 caiu para metade, descida da taxa de natalidade e, mais significativo, subida espantosa da percentagem de nascimento fora do casamento, que em 1980 era 9%, em 2000 22%, mas já estava acima dos 60% em 2022. É isto, e nãos os esforços das «ideologias de género», que representa o verdadeiro descalabro da família.
A verdade, porém, é que os seres humanos, dentro de si, estão exatamente iguais ao que sempre foram; e nada daquilo que o exterior nos possa dar consegue substituir o amor, o calor, o conforto da família. A família não precisa de defesa, porque ela é nuclear, indispensável, insubstituível. Aquilo que temos de nos esforçar por defender é a sanidade e equilíbrio de tantos dos nossos que, deslumbrados pela ilusão urbana, destroem o seu coração. Quem precisa da nossa ajuda são, não as famílias, mas os pobres tontos que lutam contra e, por isso, contra si mesmos.’ (João César das Neves, p. 71)

‘Nas chamadas «culturas urbanas», sobretudo no mundo ocidental, encontramos ainda três outras atitudes que confrontam a noção de família tradicional. 1.ª – A existência e a promoção de «famílias alternativas», ou seja, por opção, sem pai ou sem mãe, ou com dois pais ou duas mães, ou ainda conjugações mais complexas. 2.ª – A noção ou convicção de que tudo o que a técnica é capaz de fazer (por exemplo, a cirurgia plástica e a engenharia genética…) se poder fazer. […] 3.ª – Tende a instalar-se a ideologia de género, como um dogma que não se pode contradizer. Porém, esta ideologia, embora seja apresentada como cura de traumas bio-psico-sociais não resolvidos, desvaloriza e rejeita a realidade biológica, propondo identidade subjetiva, emotiva, que levam a viver na mentira. Como se o sexo e o corpo fossem coisas que se tem e não um modo próprio de ser. Não temos corpo, somos corporais; não temos sexo, somos sexuados e em processo de maturação desde o pensamento à mais pequena célula onde os cromossomas se mantêm, masculinos ou femininos, apesar das maiores plásticas e de sofisticadas cirurgias e adaptações psíquica e sociais.’ (Vasco Pinto de Magalhães, pp. 76-77)

‘A família daqueles que me-amam-na-verdade é o lugar em que a identidade humana se desenvolve.‘ (Isabel Almeida e Brito, p. 88)

‘É na Família que tem origem o princípio da personalização, como evolução do ser humano para um ser pessoal. Numa sociedade em que a família perde o valor central, não há habitantes, mas, sim, gente. A Família aporta segurança, liberdade e felicidade aos seus membros, por esta ordem, porque não há felicidade sem liberdade, nem liberdade sem segurança.’ (Manuela Ramalho Eanes, p. 92)

‘«As mães são o antídoto mais forte contra o propagar-se do individualismo egoísta. “Indivíduo” quer dizer “que não se pode dividir”. As mães, ao contrário, “dividem-se”, a partir do momento que hospedam um filho para o dar à luz e fazer crescer.»’ (Papa Francisco, A família gera o mundo. Catequeses sobre a família, Lisboa, Paulus, 2016, p. 13) – Citado por Manuel Clemente, p. 100.

‘O Papa é muito sensível a este ponto e questiona: «…pergunto-me se a chamada teoria do género não é também expressão de uma frustração e resignação que visa anular a diferença sexual porque não se sabe confrontar com ela. Sim, corremos o risco de dar um passo atrás. Com efeito, a remoção da diferença é o problema, não a solução. Ao contrário, para resolver a suas problemáticas de relação, o homem e a mulher devem falar mais entre si, ouvir-se e conhecer-se mais, amar-se mais.»’ (Manuel Clemente, p. 102)

‘Perante tudo isto, o Papa acabará por conclamar: «Chegou a hora de os pais e as mães voltarem do seu exílio – porque se autoexilaram da educação dos próprios filhos – e recuperarem a sua função educativa» (p. 70).’ (Manuel Clemente, p. 103)

‘Tal como a infelicidade, a felicidade tem as suas histórias. Tal como a transgressão, a conformidade tem muitas variantes. As famílias felizes não são todas iguais nem são felizes da mesma maneira.’ (Jaime Nogueira Pinto, p. 110)

‘Reféns do subjetivismos contemporâneo, pode parecer-nos que estamos de mãos e pés atados. Mas talvez a família possa ser mais que o mero lugar em que a crise cultural aparece. Ela tem em si mesma, estou também eu seguro disso, o dinamismo de um caminho que pode proporcionar um novo grito – um novo cântico! – do humano. É que, nela, se mostra a essência do Homem e o próprio rosto de Deus.’ (Nuno Brás da Silva Martins, p. 118)

‘A evidência do tempo que passa deixa cada vez mais claro que vivemos uma época solteira de afectos, viúva de emoções e cada vez mais divorciada de compromissos.’ (Fernando Ventura, p. 121)

‘Teimamos em afirmar que a minha liberdade termina, quando começa a liberdade do outro… Será que nos damos conta, agora mais do que nunca, que é preciso ir mais longe? A ser assim, e a ser só assim, o outro é só uma barreira para a minha liberdade, alguém que de uma forma ou outra eu tenho de destruir, tenho de matar para ser livre….
Quando um dia entendermos que a nossa liberdade se pode alargar sempre que for unida à liberdade do outro, teremos entendido o mundo como um mosaico de diferentes cada um com as suas riquezas e os seus limites e, aí sim, poderemos ver nascer um mundo organizado no respeito pelo outro, que comigo é construção de uma liberdade sem fim.’ (Fernando Ventura, pp. 123-124)

‘A solidão maior não é a de não termos ninguém que goste de nós… a solidão maior é a de nós não termos ninguém a quem amar, ninguém a quem dizer todos os dias, pelo menos, eu gosto de ti.’ (Fernando Ventura, p. 125)

‘A sociedade democrática pressupõe a liberdade e a igualdade, a igualdade e a diferença e o valor inviolável da dignidade humana. Essa realidade inicia-se na família, encarada como instituição mediadora por excelência, fator de paz e de diálogo.’ (Guilherme D’Oliveira Martins, p. 130)

‘O social privado e o social público obrigam à consideração de mediadores sociais, capazes de regular os conflitos e de garantir uma função emancipadora, sendo a família reino do amor e a cidade reino do direito, devendo as duas realidades convergir e completar-se.’ (Guilherme D’Oliveira Martins, p. 133)

‘Se é verdade que todos os cristãos, e todos os homens de boa vontade, se devem sentir comprometidos com esta guerra de paz, é sobretudo à família que compete cerrar fileiras e avançar, sem medo, no caminho das reformas que se impõem. Neste sentido, hoje, mais do que nunca, há que promover o associativismo familiar, a participação cívica dos pais, bem como a intervenção política dos representantes das famílias.
A família é, verdadeiramente, a revolução que falta. […]
Nesta hora difícil para a instituição familiar, a ninguém é lícita uma passiva cumplicidade com as injustiças existentes, porque os tempos actuais são de acção e não de omissão.
Falta cumprir a família, falta cumprir Portugal!’ (Gonçalo Portocarrero de Almada, pp. 142.143)

‘Diz [a Constituição]: «Os pais têm o direito e o dever de educação dos filhos.» E acrescenta: «Incumbe ao Estado para protecção da família cooperar com os pais na educação dos filhos.» E remata: «Os pais e as mães têm direito á protecção da sociedade e do Estado na realização da sua insubstituível acção em relação aos filhos, nomeadamente quanto à sua educação.» Qual é a dúvida? Quanto à educação dos filhos, o primado é dos pais. É um direito natural constitucionalmente protegido. O Estado tem, na educação, uma função subsidiária.’ (José Ribeiro e Castro, p. 148)

‘[…] a conciliação entre a vida familiar e o trabalho constitui um factor fundamental do crescimento individual de cada colaborador assim como do sucesso das organizações.’ (Rui Diniz, p. 159)

‘Há evidência científica, como sabemos, de que a solidão mata mais do que muitas doenças; de que as redes sociais não substituem a presença, a expressão dos afetos, o olhar e o toque, embora, em tempos de pandemia, tenham ajudado a aproximar os que estavam longe; enfim… não pode ser delegada na tecnologia a substituição de quem quer que seja e a verdadeira proximidade.’ (Margarida Cordo, p. 164)

‘Os cuidadores informais, que são milhares no nosso país e a quem expressamos o nosso reconhecimento, não podem tornar-se invisíveis para os sistemas de saúde. Depende de todos nós, como sociedade, garantir que possam cumprir o seu papel com o apoio necessário e correcto. Importa que saibam e sintam que não estão sozinhos.
Não nos cansaremos de repetir que só uma sociedade que cuida dos mais frágeis e dos que deles cuidam se pode afirmar como uma sociedade avançada e moderna. Oxalá assim possa ser.’ (Isabel Galriça Neto, pp. 174-175)

‘A família é a primeira e mais básica das instituições sociais, antes de mais porque assegura a renovação das gerações. Podemos dizer que a primeira função de qualquer comunidade é assegurar a sua própria sobrevivência e renovação.’ (Pedro Vaz Patto, p. 180)

‘A família assente na riqueza da diferença e complementaridade entre as dimensões masculina e feminina, que só em conjunto compõem a riqueza integral do humano. Esta «unidade na diversidade» (a unidade a partir da mais básica e fundamental das diferenças) marca a família e, a partir dela e através da sua missão de educação das novas gerações, deve marcar toda a sociedade, que, toda ela, deve beneficiar da riqueza da diferença e complementaridade das dimensões masculina e feminina do humano.’ (Pedro Vaz Patto, p. 181)

‘Não se vence a crise demográfica sem vencer a crise da família. A rejeição do casamento como doação total e compromisso definitivo não pode deixar de traduzir-se na rejeição da natalidade. A fuga diante de escolhas definitivas, o viver projectado apenas no imediato, sem um projecto que envolva toda a vida, leva também à recusa da que é, talvez, a mais irreversível das opções: a de ter filhos.’ (Pedro Vaz Patto, p. 183)

‘Para superar a crise demográfica, importa, pois, contrariar a mentalidade que acentua o individualismo e rejeita os incómodos e sacrifícios que os filhos necessariamente acarretam. Mas há também uma mentalidade de aparente altruísmo que importa contrariar. A que se nota em expressões como esta: «Aos meus filhos quero dar o melhor, e só posso dar o melhor a um.» O melhor que se pode dar aos filhos é, porém, a possibilidade de conviver com vários irmãos, e assim beneficiar da melhor escola de socialidade (com as dificuldades inerentes a qualquer socialidade – é certo).
Saber que a vida é sempre um dom que compensa todos os sacrifícios – só com esta consciência pode ser vencida a crise de natalidade.’ (Pedro Vaz Patto, p. 184)

‘[…] Direito é Ética devem complementar-se […]’ (Raquel Brízida Castro, p. 192)

‘Não será exagero afirmar que as relações intrafamiliares nos preparam para a vivência em sociedade, tal como as disfuncionalidades intrafamiliares criam cicatrizes na identidade psíquica dos indivíduos que se projetam na sua conduta social.
A família torna-se, em suma, fonte da identidade de cada um: se a identidade biológica nos torna homens ou mulheres, a família modela os afetos, a educação e, por absorção ou antagonismo, os padrões axiológicos de convivência social.’ (Paulo Otero, p. 200)

‘Se destruir o modelo tradicional de família é a bandeira de certos grupos políticos apostados na instauração de uma nova ordem mundial de cariz totalitário, usando até o sistema educativo para doutrinar ou instrumentalizando a lei penal para criminalizar quem pensa diferente, defender esse modelo de família, denunciando as manobras atentatórias, e lutar pela sua dignificação como «núcleo natural e fundamental da sociedade» é imperativo de todos os Estados e uma vinculação de cada um de nós.
Pela salvaguarda de um tal modelo de família passa hoje a legítima defesa da nossa identidade e da nossa civilização – o próprio direito de resistência pode ser chamado a intervir, se a objeção de consciência não for suficiente.’ (Paulo Otero, p. 202)

‘Uma ciência e uma tecnologia que deixem de estar ao serviço da dignidade da pessoa humana, sem limites éticos, arrisca-se a tornar-se coveira da própria identidade humana e, por essa via, da nossa inserção no contexto da «família humana» - aqui reside, provavelmente, o maior desafio dos tempos modernos a esta nova forma de totalitarismo recriador de mitos hitlerianos.’ (Paulo Otero, p. 207)

 


**(Título retirado de Daniel Faria, Dos líquidos, Porto, Edição Fundação Manuel Leão, 2000, p. 137)

*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Ensaios de liberdade', 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'

Foto recolhida da Almedina

Sabes, leitor... | 28 | Marca de água do livro de Bernard Michal, 'Os julgamentos de Nuremberga'

  Rubrica ‘Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página’** | Marca de água de livros que deixam marcas profundas Parceria: Federação Po...