terça-feira, junho 23, 2026

25 | Alberto Ferreyra | Mystérios lusitanos [contos - texto e locução] | Mistério na casa do cruzeiro

 

Mystérios lusitanos | A vinte e três (23) de cada mês, habitamos o mundo pelo imaginário de Alberto Ferreyra...

(Nos ramos da escrita, repousam, vezes sem conta, as gralhas da distração, ocultas, sob múltiplos disfarces, até que alguém as enxote. Alberto Ferreyra contou com o fino olhar da sua amiga Teresa Correia, detentora do segredo da sua identidade, para afastar ou caçar o grasnar das gralhas. Está-lhe, por isso, muito grato...)

Alberto Ferreyra*


Hoje, a casa do cruzeiro é um suspenso monte de escombros à espera de se desmoronar logo que o permitam as teias de aranha.

Mas não foi sempre assim. A casa, de um andar, foi lugar muito vivo. Vivia, ali, a ti’ Carolina, mulher de ombros largos e olhar atento. Reservara-lhe o destino cuidar de uma sobrinha, esquiva, que, ao primeiro vento de amores, se aventurou por terras de França. E por lá ficou.
Muita vida houvera ali, portanto…
Outrora, não estava ali o cruzeiro. Após empenos e quedas provocadas que transformavam, repetidas vezes, o transepto em escabelo de pés blasfemos, encontrou, naquela curva sombria, o sossego desejado. Hoje, eleva-se ligeiramente acima do nível da estrada e resplandece, solenemente.
Saber qual é a casa do cruzeiro é, por isso, tarefa simples. Restaurada, a tinta fresca, a inscrição recupera a novidade do primeiro momento: A.L.P. – 1899.
Ali descansam, em tarde de verão de calor abafado, J. e M. em férias na casa dos avós, próxima da casa do cruzeiro. Contou-lhe o avô que morara, naquilo que, hoje, são paredes inseguras, uma bela mulher, de nome Carolina, que morrera, cega, ao cair pelas escadas interiores. Encontraram-na em dia de Santa Luzia.
Ouviram-lhe contar, também, e ao pai, as aventuras passadas naquela casa que servira de sala de baile, nos tempos de escola.
Decidem-se a subir. Forçam a porta, presa por heras que parecem mais antigas do que a criação do mundo, e sobem por umas rangentes escadas presas à parede oposta ao cruzeiro.
O primeiro andar é feito de soalho carcomido pelo tempo. Param, no cimo das escadas, para apreciar. A janela maior, sobranceira ao cruzeiro, está entreaberta. Já não tem vidros. Só madeira retorcida pelo secar e humedecer das sucessões das horas. A um canto, entre as duas únicas janelas daquele amplo salão, um baú robusto, como que ali depositado na véspera, para que J. e M. o descobrissem.
- Parece ali posto para nós. – Atalhou a curiosa M.
- E se nos reserva uma serpente das índias, tendo-se o estafeta esquecido de trazer o respetivo encantador? Não contes comigo para lhe assobiar ao ouvido!
M. soltou uma espontânea gargalhada, prontamente interrompida pela escuta de passos, no exterior da casa. Apesar das grossas paredes, as frinchas na pedra e as janelas partidas faziam daquela sala uma autêntica caixa-de-ressonância. Tudo se ouvia.
Ouviram os passos a afastarem-se…
Retomaram, cúmplices, a conversa.
- Ainda pensam que somos almas penadas…
M. sentia-se, sempre, a voz da imaginação do povo. Continuou a sua observação longa do espaço. No canto oposto ao do baú, havia um velho toucador com espelho, sobre o qual repousava uma ânfora adequada para nelas se depositarem cinzas. Na parede confinante com a casa dos Pereiras, uma parede sem janela, havia uma já esconsa lareira.
M. encaminhou-se para o baú. Silenciosa, meneou a cabeça como que pedindo a ajuda de J. no erguer da pesada tampa.
Entre papéis amarelecidos e - tantos deles! - roídos, havia uma carta fechada.
Abriram-na.
As letras pareciam mal alinhadas, como se tivessem sido escritas no escuro da noite.
Os olhos de J. e M. dirigiram-se para o fundo da carta.
Terminava, dizendo:

- ‘Não sei se a ti chegarão estas palavras, que entrego ao vento…
Tua tia,
Carolina.
12 de dezembro de 1987’

- Foi uma carta escrita pela dona desta casa.
J. ficara a cismar na data.
- 12 de dezembro! 12 de dezembro! É a véspera da Santa Luzia. Segundo nos disse o avô, a ti’ Carolina terá sido encontrada morta a 13 de dezembro, pelo que a carta foi escrita no próprio dia da sua morte. Não chegou, por isso, ao seu destino.
E é uma carta escrita por alguém que já não via. Isso explica estes desalinhamentos…
A curiosidade agigantou-se.
-‘Meu querido Afonso.
Guardei, no meu coração, os liames com que se fez a história do teu irmão que enegrecem a minha alma. Hoje, cega que estou, sinto não poder guardar para mim a verdade que o destino, teimosamente, quis contrariar.
Bem sei que o Pedro, teu irmão, vive, feliz, com a Francisca. Mas uma nuvem reside, como que eterna, sobre o seu lar. Uma nuvem de que não são conscientes responsáveis, mas inadvertidos culpados.
Há uns dez anos, à porta de minha casa, deu-se uma tragédia. Júlio caiu, morto, no primeiro luar da noite, mesmo por baixo da minha janela. Tudo fizera crer que tropeçara na pressa de chegar a casa da Francisca, sua apaixonada.
Um lenho profundo na cabeça não deixara dúvida de que, ao tropeçar, batera na esquina da casa dos Pereiras, logo ali ficando.
O sombrio manto da morte tomou conta de Francisca, de quem o teu irmão Pedro veio a enamorar-se, meses mais tarde, casando e com quem teve os teus bonitos três sobrinhos.’
J. interrompeu…
- Nestas aldeias, todos se conhecem e sabem tudo uns dos outros…
- Deixa-me continuar. – zangou-se M.
E continuou a leitura. Estava tomada de desejo de concluir… Onde a levariam as palavras caídas de ti’ Carolina?
- ‘Todos julgavam nada haver a dizer sobre o que ali acontecera. Mesmo por baixo da minha janela.
Mas o tempo reservava-me surpresas.
Quando morreu o ti Vicente, que vinha aos bailaricos que tantas vezes aqui fiz, fui visitá-lo, nas suas últimas horas.
Chamou-me e pediu que todos saíssem. Tinha uma confidência a fazer-me. Pensei que fosse alguma coita de amor. Os velhotes, quando se lhes extingue o fogo da vida, sopram sobre a brasa decadente dos amores não vividos e como que atiçam um último brasido.
Mas não.
Perguntou-me:
- Ainda te lembras do pobre Júlio? Sabes de que morreu?
Nesse dia, estavas a dar um bailarico lá em casa. Na tua janela, tinhas um pequeno vaso de petúnias azuis. Caíram, quando passava o desgraçado enamorado de Francisca. Sabes quem as fez cair?
Estava, junto a essa janela, o Pedro, de olhos fechados, dançando sozinho. Sem o saber, tocou na janela entreaberta que arrastou consigo aquele vaso de petúnias azuis…
Se todos pensavam que aquela fora uma morte sem culpado, porque haveria eu de lançar a suspeita sobre quem continuava, dançando, de olhos fechados?
Guardei para mim o que vi.
Mas, agora, a morte, esse espelho em que se desnuda a consciência, não me deixa partir sem to dizer. Guarda-o para ti, até que chegue a tua hora. Porque merece ser feliz quem não quis o mal de alguém, mesmo que o tenha, inadvertidamente, provocado.’
J. e M. emudeceram.
Uma verdade assim, trazida à luz, volvidos tantos anos, enche de negrume toda uma vida feliz.
Meu querido Afonso, a mulher que escolheu para si o teu irmão Pedro perdera o seu amado para aquele que, sem o saber, lhe causara a própria morte.
- ‘Reserva para ti mesmo, até ao último dos teus dias, esta verdade que não pode contar-se, mas perpetua, em segredo, a memória dela. Porque o destino não pode vencer-nos na sua teimosia.’
M olhou, intensamente, para J.
O que fazer com aquela carta?
Olharam, ambos, para a ânfora, no toucador.
Queimaram, nas desalinhadas pedras da lareira, aquela memória maldita, e depositaram, entre os restos do pó do tempo repousados na ânfora, as cinzas da carta.
Um olhar de promessa fez cair, com silencioso estrondo, a certeza de tudo reduzir a poeira.
E desceram, entre rangidos prolongados, encaminhando-se para o solene cruzeiro, junto ao qual rezaram, demoradamente.
Voltaram a olhar um para o outro, com assombro. Aos pés da cruz, havia uma petúnia azul.


Imagem de Tumisu por Pixabay


*Alberto Ferreyra diz que as suas letras habitam a mente e saem da mão de alguém nascido em terras gaulesas, ainda que afirme, em sussurro, que o seu real nascimento ocorreu nas margens do Antuã, em abril de 2024. É, por isso, um prematuro autor literário, germinado da inspiração que a realidade proporciona quando se tem a companhia, nos livros, de génios como Jorge Luis Borges, Miguel Torga, Gabriel García Marquez ou personagens como Poirot ou Padre Brown.
 
Na sua escrita, cruzam-se o real e o imaginado, o fictício e o histórico, numa embrenhada teia em que o leitor continua a ler, mesmo já depois de fechado o conto. O real continua a fecundar histórias na mente de quem lê Ferreyra. Cada conto, feito dos mistérios desvelados, aproxima o tempo e distancia o espaço, esticando-o até ao eterno e ao infinito. Ao ler Ferreyra, faz-se 'silêncio' ('mystério' alude à etimologia grega da palavra, que remete para o 'fazer silêncio', 'emudecer-se'...) para que possam ecoar as palavras, para que possa desenovelar-se o enredo sucintamente desvelado.
 
J. e M., protagonistas de cada um dos contos, acompanhados, em alguns deles, pelo seu periquito 'branquinho', fazem emergir, do real em que se enredam, histórias que, nascendo da imaginação de Ferreyra, permanecem como realidades possíveis, deixando a suspeita de terem mesmo ocorrido.
Se não foi real, Ferreyra o criará, inspirado numa cosmovisão que tanto deve àquela religião que fez do encarnado a condição fundamental do existir.
 
A vinte e três (23) de cada mês, habitaremos o mundo pelo imaginário de Alberto Ferreyra...

domingo, junho 07, 2026

Sabes, leitor... | 30 | Marca de água do livro de Daniel Cohen, 'Uma [Muito] Breve História da Economia'

 


Rubrica ‘Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página’** | Marca de água de livros que deixam marcas profundas
Parceria: Federação Portuguesa pela Vida e Comissão Diocesana da Cultura

Luís Manuel Pereira da Silva*

O(s) autor(es) e a obra
Daniel Cohen, Uma [Muito] Breve História da Economia, Lisboa, Penguin Random House Grupo Editorial, 2025.

Daniel Cohen foi um muito prolífico e destacado economista francês, nascido em junho de 1953, na Tunísia. Sendo autor de uma vastíssima obra do âmbito da economia, não deixa de ser curioso verificar que lhe são atribuídos, pelos sites portugueses de livros, títulos de um outro autor francês homónimo. É-lhe, erradamente, atribuído o livro ‘Os genes da esperança’, da autoria de um outro Daniel Cohen, médico e geneticista que liderou o projeto ‘Genoma’.
Não precisa, porém, o ‘nosso’ Daniel Cohen de obras suplementares, pois é suficientemente vasto e relevante o seu labor de escrita, abruptamente interrompido, em agosto de 2023, pouco tempo depois de completar setenta anos, a idade em que o ‘U’ que configura a curvatura da felicidade volta a subir, como refere no último capítulo deste seu livro.
Confesso que descobri Daniel Cohen (o economista) com a leitura deste livro. E fico com pena de não lhe poder dizer, nesta vida, quanto isso me agradou. Terei de esperar (porque assim o espero…) pela eternidade (porque sou alguém que, como ele pede, no final do livro, acredito em ‘alguma coisa’…) para lho assegurar.
Esta é, por isso, uma obra póstuma que ele deixara alinhavada e que, em boa hora, a família decidiu levar ao prelo, ainda que sendo de aguardar que, como diz o irmão, Michel Cohen, no posfácio, esta obra venha a ser vertida para versão em banda desenhada, lembrando o que já tem ocorrido com outros ensaios.
Neste livro, Cohen mostra grande erudição e verve. Escreve e pensa muito bem. Domina, com a simplicidade dos especialistas (só um especialista consegue dizer, de modo simples, a complexidade dos grãos do conhecimento que a mó do tempo ajuda a mastigar e transformar em fina farinha).
Ilustra estas minhas palavras uma constatação muito simples. Eu comprara esta obra, no dia 27 de março, na feira do livro realizada na minha escola. Tomei-a em mãos, após ler excertos dos ‘escritos de teologia’, de Rahner, no dia 9 de abril, terminando a leitura no dia seguinte, 10 de abril. Deixei-me levar pela mão de Cohen em apenas dois dias. E fiquei tomado pela capacidade que revela de pôr a economia ao serviço da transformação do mundo.
É uma leitura muito recomendável.
Uma síntese que penso fazer justiça ao que Cohen evidencia neste seu livro é a que poderemos reunir na ideia de que a economia deve ser pensada como um instrumento, um meio de realização humana e nunca como um fim em si mesma. Uma ideia que, sendo comum na ética personalista e cristã (que sempre sublinha que só a pessoa é fim; tudo o mais é meio ao seu serviço…), não deixa de ser interessante encontrar num autor que não se presumindo ser cristão (não o perguntei, ao ler o livro, nem me deixei condicionar pela busca de o confirmar), poderia muito bem, na linha de Karl Rahner – que eu lera, antes desta incursão por ‘Uma [Muito] Breve História da Economia’ -, ser assumido como um ‘cristão anónimo’…

Marcas de água 

(o que fica depois de se deixar o livro)

Este é um livro de economia. Mas não é, apenas, um livro de economia. É um livro sobre a vida dos humanos de que fala a economia.
Deixa transparecer esta singela conclusão reparar que começa com a frase ‘O crescimento económico é a religião do mundo moderno’ (na Introdução) e termina com ‘Compete-nos agora repensar a ideia que temos de um mundo em harmonia consigo mesmo, que nos faça sentir «o prenúncio da felicidade e da paz»’.
De facto, Cohen mostra não ser um economista que se basta em projetar sobre o seu objeto de estudo e análise a técnica e a ciência adquiridas. Pretende, com elas, criar condições para o surgir de um mundo melhor.
Curiosamente, é exatamente o que pode constatar-se ao ver que o lema da ‘Paris School of Economics’, de que foi um dos fundadores, é ‘a ciência económica ao serviço da sociedade’.
Vislumbra-se este mesmo espírito, nos títulos das suas obras: ‘homo numericus’, ‘homo oeconomicus’, ‘a prosperidade do vício: uma introdução à economia’, etc. Obras que não se resumem a descrever economia, mas a ler o seu impacto na vida dos humanos.
Marcas omnipresentes nestes fascinante ensaio (de 158 páginas) onde, a pretexto da descrição da sumária história da economia, em que não se esquiva a desmontar preconceitos (como o de que as sociedades recolectores não tinham a ideia de acumulação de riqueza –à maneira das conceções de Rousseau e outros que vincaram, entre os nossos mais frequentes mitos, o do ‘bom selvagem’, totalmente desprendido e sem qualquer vínculo aos bens terrenos e efémeros), Cohen lança um fino olhar sobre as relações humanas, desvirtuadas do núcleo que deveria ser compreendermo-nos como pessoas e não objetos. E não deixa de olhar, enquanto percorre o fio da história, para as mais íntimas relações (inclusive as de natureza sexual) alertando para o custo de, por efeito da inveja e da digitalização afetiva, a vivência da sexualidade passar a acontecer sem atender à «bagagem emocional do outro».
É interessante, ainda, o modo como o faz. Cohen tem páginas repletas de dados, histórias, curiosidades, que acompanham, de um modo muito plástico, o que vai dizendo. Suscita uma dupla curiosidade: a de saber e a de informar. Cohen estruturou um ensaio cheio de dinamismo, em que recupera as lições da história (como a que concerne à do desenvolvimento e queda da ilha da Páscoa) para nos projetar para um futuro em que, tendo superado a lei de Malthus (que nos assegurava que, em períodos de crescimento, a população também cresceria, criando nova fase de quebra – vivemos um período de inverno demográfico), somos confrontados com o paradoxo de Easterlin, que nos evidencia que, apesar de estarmos mais ricos, não estamos mais felizes.
Talvez Cohen possa, com o conteúdo destas páginas, facultar-nos um oportuno contributo para que possamos encontrar, pela via da humanização das relações, a autêntica felicidade, via com que poderíamos, finalmente, construir as mais sólidas ‘leis da nossa casa’. A autêntica ‘economia’ (‘lei da casa’).

 

Na mesma página que o autor (citações)

‘[…] ao perdermos as relações humanas, perdemos a razão de ser das nossas atividades e, sem dúvida, a nossa própria razão de ser. Um robô de pele bem macia nunca será capaz de substituir uma enfermeira que cuida com carinho de uma pessoa idosa.’ (Do Prefácio, p. 15)

‘Em vez de desesperarmos com a ideia de que, se os chineses e os norte-americanos não mudarem de comportamento, é inútil mudarmos o nosso, devemos começar por mudar o que podemos mudar, à nossa escala. E isso não só, ou talvez nem sequer primordialmente, para mudarmos o mundo exterior, mas sobretudo para nos mudarmos a nós próprios. ’ (Do Prefácio, p. 15)

‘[…] Keynes afirmava destemidamente que, em 2030, as pessoais poderiam trabalhar três horas por dia e dedicar-se às tarefas verdadeiramente importantes: arte, cultura, metafísica. Infelizmente, a cultura e os problemas metafísicos não se tornaram as questões principais do nosso tempo. As sociedades modernas continuam a buscar mais do que nunca a prosperidade material, apesar de se terem tornado seis vezes mais ricas do que na altura em que Keynes escrevia.’ (Da Introdução, p. 22)

‘O crescimento deixou de ser um meio para atingir um fim, para se tornar um fim em si mesmo, que permite às pessoas escaparem do tormento da existência.’ (Da Introdução, p. 22)

‘Para sair do subemprego, o remédio keynesiano é […] simples: temos de gastar, gastar a todo o curso, mesmo que seja necessário contratar desempregados para, à tarde, taparem os buracos que eles próprios abriram nesse dia de manhã.’ (pp. 66-67)

‘No auge da guerra, Churchill encomenda, em novembro de 1940, um relatório para combater tanto as consequências sociais da crise dos anos 1930 como as provocadas pela guerra. O relatório será tornado público em 1942. William Beveridge define os princípios que hoje em dia são os nossos. O Estado tem a responsabilidade de lutar contra as cinco pragas da humanidade: «a doença, a ignorância, a dependência, a decadência e os bairros de lata».’ (p. 67)

‘Numa empresa das décadas de 1950 e 1960, o refeitório, a vigilância, a limpeza e a contabilidade estavam a cargo de funcionários da mesma. Com a revolução financeira dos anos 1980, nenhum destes serviços continua a ser prestado internamente, ficando os prestadores de serviços sujeitos às leis da concorrência. Sonha-se com empresas sem funcionários.’ (p. 80)

‘A crise do subprime foi desencadeada por várias bombas-relógio. Em primeiro lugar, no período que antecedeu a crise, houve um facto que saltou rapidamente à vista: a qualidade dos créditos deteriorou-se bastante, mesmo tendo em conta a nova clientela a que se dirigiam. A solvência dos clientes foi sistematicamente sobrevalorizada pelos intermediários responsáveis pela distribuição dos empréstimos. […]
Com a ajuda das agências de notação, os investidores fabricaram então instrumentos considerados livres de risco, classificados como AAA.’ (p. 84)

‘A história da China ilustra bem esta mutação do capitalismo moderno: é o exemplo acabado de um país que foi, durante muito tempo, o mais poderoso do mundo, a seguir um dos mais pobres, e que volta a ser um dos mais ricos.’ (p. 95)

‘Dos treze aos dezoito anos, 6 horas e 45 minutos por dia são dedicados a estes aparelhos [tablets e telemóveis]. Por isso, chegámos a um número em que os adolescentes dedicam 40% do tempo que passam acordados em frente a um ecrã! A vida psíquica e afetiva destes jovens é marcada por vagas de melancolia e euforia, o que se reflete em efeitos prejudiciais na alimentação e em riscos frequentes de obesidade. A atenção dos adolescentes é gravemente afetada pelo zapping, pela impulsividade, pela impaciência… A leitura de um livro, que pressupõe dar o ao autor tempo para instalar personagens ou um raciocínio, é constantemente impedida por uma relação compulsiva com o telemóvel, o que torna impossível manter o foco em qualquer outra coisa.’ (p. 116)

‘A consulta compulsiva do telemóvel é rotulada com um termo agora famoso: o FOMO, o Fear Of Missing Out, que exprime esta inquietante preocupação de perder algum coisa, quer se trate de «informação», de um fofoca, de uma oportunidade. A capacidade de atenção dos adolescentes em relação ao mundo real atingiu o seu mínimo histórico.’ (p. 117)

‘[…] a sexualidade na era digital dispensa o incómodo de ter de gerir «a bagagem emocional do outro». O sexo sem amanhã cria um estado psíquico em que cada um dos dois parceiros se considera com total domínio, sem dependência do outro, o que é quase o oposto do que uma relação romântica implica. O amor, de acordo com o Tinder, causa um vaio existencial que o interessado deve preencher multiplicando os encontros numa fuga para a frente, que é perfeitamente representativa dos comportamentos de dependência provocada pela sociedade. […] Ao distinguir radicalmente entre sexo e sentimento amoroso, a sexualidade digital faz-nos perder a capacidade de reconhecer o outro na sua integralidade, como pessoa, numa relação em que todos esperam que o ente querido abra as portas de uma vida a inventar.’ (pp. 119-120)

‘Em trinta anos, em França, o consumo de drogas psicotrópicas aumentou seis vezes. Nos Estados Unidos, os indicadores de bem-estar diminuíram quase 30% em comparação com o nível atingido na década de 1950. Estudos sucessivos apontam para o mesmo resultado: a felicidade regride ou estagna nas sociedades ricas, em França como noutros países.’ (p. 137)

‘O economista Richar Easterin publicou, em 1974, um estudo que teve grande repercussão e que iria atrair a atenção dos economistas […]. Acompanhando durante trinta anos as respostas à pergunta: «É feliz?», mostrou que não se observava nenhuma variação ao longo do tempo, apesar de ter havido um extraordinário enriquecimento durante esse período. É o que os economistas denominarão paradoxo de Easterlin. Os franceses são incomparavelmente mais ricos em 1975 do que em 1945, mas não são mais felizes. Porquê?’
[…] o consumo é viciante. O prazer que proporciona é efémero, mas o desespero é imenso quando ficamos privados dele.’ (pp. 138-139)

‘[…] Um dos segredos da felicidade pode ser resumido de forma bastante simples: compare-se com quem tem menos.[…]
Ganhe dinheiro, mas sem fazer disso uma doença. […]
Envelheça com elegância. […]
Não se compare com os demais em termos de beleza. […]
«Acredite nalguma coisa: Deus, a justiça social ou a beleza da Natureza; é preciso um meaning of life para ser feliz e fugir de si próprio.
Ajude os demais: o altruísmo afasta-o de si próprio, o que é benéfico […]
Controle os seus desejos. […]
Preserve os seus amigos: são os tesouros mais preciosos, mesmo que sejam os menos visíveis.
Viva integrado num casal, porque a solidão não é benéfica.
Aceite quem é e faça uma gestão radical das suas fraquezas.’ (pp. 149-150)


**(Título retirado de Daniel Faria, Dos líquidos, Porto, Edição Fundação Manuel Leão, 2000, p. 137)

*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Ensaios de liberdade', 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'

Imagem recolhida do site da Penguin

'Os Sete Dias da Criação' |10| Luís M. P. Silva - O primeiro dia feito de uma tarde e uma manhã: ‘E foi tarde e foi manhã: dia um’

 

(‘Os Sete Dias da Criação’ | Rubrica dedicada ao diálogo entre ciência e religião)
Artigo originalmente publicado na revista 'Mundo Rural'

Luís Manuel Pereira da Silva*

Prossigamos com a nossa reflexão sobre as relações entre a ciência e a religião, seguindo os ‘sete dias da criação’.

A força e densidade que o dia primeiro nos reserva fazem-nos nele permanecer mais um pouco.

A tradução da difusora bíblica (de acordo com a publicação disponibilizada em https://www.paroquias.org/biblia/), diz-nos, ainda, sobre este dia, que ‘Assim, surgiu a tarde e, em seguida, a manhã: foi o primeiro dia.’ Nesta opção de tradução, o dia aparece referido de modo ordinal: o primeiro. Uma leitura mais fina permite-nos, porém, constatar que o autor bíblico se refere, antes, a esta sequência com uma menção cardinal: ‘dia um’ ou ‘um dia’[1] , como quem está a contar ao ritmo da própria descrição e não como quem já sabe que há um seguinte.

A iniciativa é, efetivamente, de Deus e não do autor que escreve.

Reparemos, ainda, que a ordem – tantas vezes distraidamente desatendida – é a de que, primeiro, vem a tarde, e só depois, a manhã. ‘E foi tarde e foi manhã: dia Um’, traduz D. António Couto, que acrescenta, em rodapé, que ‘esta maneira de descrever o dia, do pôr-do-sol ao pôr-do-sol, está sob a influência do calendário lunar, em que o dia começa e acaba com o pôr-do-sol’[2].

Mantemos reminiscência desta organização do tempo na nossa liturgia que celebra, após o pôr-do-sol de sábado, a eucaristia dominical.

Servem-nos estas notas para constatar que a novidade bíblica está presente, para além da noção de criação (ausente das cosmogonias circundantes), na própria conceção de tempo. Certamente, sofrendo influências dos povos envolventes (no próprio ano lunar que o cristianismo veio a substituir pelo solar, por influência romana e por ação cientificamente fundamentada de sucessivos Papas, entre os quais deveremos destacar João III (século VI) e Gregório XIII (século XVI)), o texto bíblico preconiza uma revolução na conceção de tempo, seja porque o situa (como já anteriormente sublinhámos) na ordem da criação (e não como existindo antes do início da criação, como sustentavam as conceções circundantes, que atribuíam um ‘tempo dos deuses’), seja porque supera a leitura circular do tempo, para criar a ideia da sequencialidade e progressividade, noção que criou a ‘forma mentis’ ocidental. Bem certo que a sedução da circularidade temporal vai reemergindo (F. Nietzsche defendeu-a, no final do século XIX, na sua crítica feroz ao judeo-cristianismo), mas a compreensão bíblica fez ‘cultura’ e fecunda o modus cogitandi que molda as nossas sociedades. Estes dois ‘lados’ da conceção temporal bíblica andam de mãos dados: a condição criatural e a sua ‘tensão’ para o plus que é Deus. Dizem-no, de modo claro, os autores do Vocabulário de Teologia Bíblica: ‘o ato criador marca o começo absoluto do tempo que é o nosso, bem como todo o resto da criação; mas Deus preexistia a esse tempo. Aquilo que se desenvolverá no tempo é plano dEle, ordenando, primeiramente, toda a criação com vistas ao homem, e depois dirigindo o fim do homem com vistas a um fim misterioso.[3]

E como sabemos quão importante é o tempo que não regressa!

Como recorda Colin Stuart, no seu muito curioso livro ‘Tempo: 10 coisas que deve saber’, é desta noção do tempo que flui para diante e não regressa que resulta valorizarmos cada parte do tempo de que dispomos. ‘A mais ínfima fração de segundo poderá ser a diferença entre o ouro e a prata. Essa fração pode, também, valer-lhes uma fortuna. Em 2009, trabalhadores da construção civil instalaram um cabo subterrâneo de 1300 quilómetros, entre as bolsas de valores em Chicago e Nova Iorque, com o custo de 180 milhões de dólares. Tudo para reduzir 0,000004 segundos ao tempo que demora a enviar informação comercial entre os dois polos. Até mesmo essa pequena diferença aumentou os lucros em 12 mil milhões de libras por ano, numa indústria em que o tempo é, literalmente, dinheiro.[4]

Para os que pretendem recolher do texto bíblico uma qualquer conclusão de que este se oponha ao progresso e ao desenvolvimento não poderá, senão, questionar-se sobre se tomaram o texto no seu todo ou se só o tomaram na literalidade de um fragmento. Mas importa, bem certo, perguntar para que destino se encaminha esse progresso.

E essa, sim, é questão a que é fundamental responder regressando ao texto bíblico. É que cada uma das oito obras da criação ocorridas nos seis dias da criação só ocorre porque, segundo o autor bíblico, ‘E disse Deus’. Para existir, a criação depende de Deus. E se n’Ele não permanecer, perece… É nada! Não é criação. Não existe.

‘Para onde progride o tempo que flui?’ – Parece ser a pergunta implícita deixada pelo autor bíblico, ao recordar-nos que ‘E chamou Deus à luz dia e às trevas chamou noite. E foi tarde e foi manhã: dia UM[5]’.


Sugestões bibliográficas:

 

D. António Couto, O livro do Génesis, Leça da Palmeira, Letras e Coisas-livros, 2013.

Gerhard von Rad, El libro del Génesis, Salamanca, Ediciones Sígueme, 19887.

Colin Stuart, Tempo: 10 coisas que deve saber, Lisboa, Vogais, 2024.

Xavier Léon-Dufour, Vocabulário de Teologia Bíblica, Petrópolis, Vozes, 20027.


[1] Cfr. D. António Couto, O livro do Génesis, p. 30.

[2] Ibidem, nota 73, p. 30.

[3] Xavier Léon-Dufour, Vocabulário de Teologia Bíblica, col. 1008.

[4] Colin Stuart, Tempo: 10 coisas que deve saber, pp. 17-18.

[5] D. António Couto, O livro do Génesis, p. 30.


*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano', 'Ensaios de liberdade' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'

Sabes, leitor... | 31 [último] | Marca de água do documento da Comissão Teológica Internacional, 'Quo vadis, humanitas?'

 



Rubrica ‘Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página’** | Marca de água de livros que deixam marcas profundas
Parceria: Federação Portuguesa pela Vida e Comissão Diocesana da Cultura

Luís Manuel Pereira da Silva*

O(s) autor(es) e a obra
Comissão Teológica Internacional, Quo vadis humanitas?: reflexão sobre a antropologia cristã perante alguns cenários sobre o futuro do ser humano, 9 de fevereiro de 2026, https://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/cti_documents/rc_cti_doc_20260304_quo-vadis-humanits_po.html.

Encerro, com a análise de ‘Quo vadis, humanitas?’, um primeiro ciclo de trinta e uma entradas da rubrica ‘sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página’. Farei suceder, a este primeiro ciclo, um novo modelo de rubrica de análise de livros, mais simples e mais incisiva. Os tempos pós-modernos e o mundo digital pedem contenção nas palavras…

A primeira entrada da rubrica foi em 7 de janeiro de 2024. Fecha-se este primeiro ciclo em 7 julho de 2026.

Escolhi o 7, porque 7 é um número de plenitude e 7 é o dia em que todos, na família que estou, cada dia, a construir, celebram nascimento (Só eu divirjo: nasci a 23 de junho). O leitor não se terá dado conta, mas cada entrada acontecia no dia 7 de cada mês, às 7 horas e 7 minutos… Não por magia, mas por simbolismo. Não há, aqui, magias, porque os livros falam de decisões e liberdades que se responsabilizam. Não de magias que substituem o papel das liberdades, divina e humana.

Recolhi o título (melhor seria dizer ‘recebi’ ou ‘foi-me confiado’…) de um verso do poeta e teólogo Daniel Faria, que a casualidade histórica não permitiu que convivêssemos, na mesma faculdade de Teologia, no Porto. Ele saiu; eu cheguei. Mas a sua ‘presença ausente’ era omnipresente. Pela palavra de um amigo comum, também ele poeta, José Rui Ribeiro de Almeida Teixeira, passei a conviver com os seus versos e a deixar-me habitar pelo seu modo de ver em verso, (a polissemia de ‘verso’ torna-o simbólica metáfora de quem olha o outro lado – o ‘verso’ – da vida, aquilo que nenhum outro viu, alguma vez…) com um olhar iluminado pela fé, a vida, nos seus aparentes lugares-comuns que são incomuns habitares do eterno.

Seduz, na poesia de Daniel Faria, a capacidade de dizer o muito em tão pouco, de concentrar, na densidade da palavra, que é símbolo, o indizível através do que se diz. E, sendo raramente explicitamente cristão, é-o permanentemente implícito, porque descortinando o sentido onde os escombros fumegam. Veja-se quanto se diz em ‘sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página’! Quem dera conta de que, ao ler, voltamos a habitar o mundo de quem escreveu as linhas que lemos? Os tempos convergem, no momento da leitura. Um sentido à espera de ser revelado se desvela nos versos de Daniel Faria.

Foi, aliás, esta a matriz que segui, na escolha dos livros e no modo de os ler. Não pretendi fechar o circuito e falar para um público cristão. Pretendi, antes, que as leituras (que provieram de diversos quadrantes), convergissem no respeito pela pessoa humana e pela sua dignidade…

Termino, por isso, com uma obra que serve de cúspide deste edifício que se eleva. Comecei com ‘a cultura do éden’ e termino com reflexão sobre a humanidade e os seus grandes desafios. Um arco perfeito…

Incidamos, então, a nossa atenção, na obra que, agora, nos faz estar na mesma página que os seus autores: ‘Quo vadis, humanitas’, da autoria da Comissão Teológica Internacional.

Para um mais detido conhecimento da natureza e missão da Comissão Teológica Internacional, sugiro ao leitor a consulta do respetivo site  [https://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/cti_index_po.htm], onde poderá apurar-se que se trata de um organismo instituído junto à Congregação para a Doutrina da Fé (Hoje, Dicastério para a Doutrina da Fé), sendo que é presidida, por inerência, pelo Cardeal-Presidente que é o Prefeito da referida Congregação (agora, dicastério).

Foi instituída (com estatuto ‘ad experimentum’), pelo Papa S. Paulo VI, em 11 de abril de 1969, tendo sido publicados os seus estatutos definitivos, pelo Papa S. João Paulo II, em 6 de agosto de 1982.

Os seus membros, em número não superior a 30, são teólogos reconhecidos, provenientes de ‘diversas ‘ escolas e nações’, por um quinquénio (estamos a encerrar o décimo desses quinquénios), pelo Papa, sob proposta do Cardeal-Presidente, ouvidas as Conferências Episcopais.

Uma análise da lista dos seus membros, ao longo destes cinquenta e sete anos, permite constatar que apenas um português integrou esta Comissão, o eminente professor Henrique de Noronha Galvão, somando-se a nomes como Hans Urs Von Balthasar, Jean-Marie Tillard, Bernard Sesboüé, Rudolf Schnakenburg, Joseph Ratzinger (futuro Papa Bento XVI), Karl Rahner, Luis Ladaria, Walter Kasper, Olegario Cardedal, Joachim Gnilka. Adolphe Gesché, Bruno Forte, Henri de Lubac, Yves Congar, Raniero Cantalamessa, Juan Alfaro, etc.

Curiosamente, Portugal teve, apenas, um membro, enquanto Espanha contribuiu com dez membros (inclusive na condição de presidente), ao longo da história desta Comissão. Destaco como sinal a interpretar, no que concerne ao espaço concedido à discussão teológica (e consequente repercussão na publicação livreira) nos dois lados da fronteira. Basta observar a autonomia (e disputa) das diversas faculdades e escolas de Teologia, existente no contexto espanhol, assim como a numerosa quantidade de obras teológicas publicadas, anualmente, comparando com o contexto lusitano, para percebermos a distância entre estes dois mundos. Eu, um leitor compulsivo, socorro-me, frequentemente, das editoras espanholas para chegar aos grandes teólogos e acompanhar o ‘estado da arte’. Dificilmente os encontro, entre as editoras nacionais. Mas percebo… Não há público! (Ainda que estejamos perante uma ‘pescadinha de rabo na boca’: sem livros, não há público; sem público, não há livros… Quem ousará devolver a forma não circular à pescada?)

É relevante, para a compreensão da obra agora em análise, atender ao facto de esta Comissão se constituir como um meio de ‘ajudar a Santa Sé e, em particular, a Congregação para a Doutrina da fé, ‘no exame de questões doutrinais de maior importância’.

‘Quo vadis, humanitas’ é o trigésimo segundo documento publicado por esta Comissão, sendo verificável que o trabalho preparatório (iniciado em discussões ocorridas nas sessões plenárias nos anos 2022-2025) foi concomitante ao da publicação da declaração ‘Dignitas Infinita’ (publicada, pelo Dicastério para a Doutrina da fé, em 2 de abril de 2024), da nota ‘Antiqua et Nova’ sobre a Inteligência artificial (publicada, em 28 de janeiro de 2025, pelo Dicastério para a Doutrina da Fé e Dicastério para a Cultura e Educação) e antecipando a publicação da encíclica ‘Magnifica Humanitas’ (Publicada pelo Papa Leão XIV, em 15 de maio de 2026). Percebe-se, inclusive, pela existência de expressões comuns (os termos ‘infinita’, ‘magnífica’, e uma linguagem mais narrativa e de menor pendor ontologicista), a enorme coerência e convergência entre estes quatro documentos, cuja leitura articulada recomendo, vivamente.

Marcas de água 

(o que fica depois de se deixar o livro)

‘Quo vadis, humanitas?’ é um documento de leitura altamente recomendável. Na pergunta que lhe serve de título esconde-se, como boneca russa, a riqueza do próprio documento. Esta parece ser a pergunta de alguém que meneia a cabeça perante a tragédia iminente e a baixa, de seguida, com desânimo. Mas, neste documento, essa não é a atitude. Esta é a interrogação autêntica de quem sabe que a humanidade tem um horizonte, contrasta esse horizonte com o rumo em curso e chama, do lado da estrada que leva à meta, a fim de restituir o caminho adequado. Não é, por isso, uma pergunta de desespero: é o chamamento da esperança!

Depois de uma breve introdução, em que se cruzam a enunciação das etapas da construção deste documento e a descrição sumária da metodologia, enunciam-se as categorias que estruturarão todo o documento, como que numa espiral. No seu vértice inicial, estão as categorias de ‘desenvolvimento’, ‘vocação’, ‘identidade humana’ e ‘condição trágica’ que o documento desenvolverá, tendo por foco os desafios que, na atualidade, colocam o transumanismo e o pós-humanismo.

Face às pungentes inquietações que estes dois caminhos (transumanismo e pós-humanismo) colocam, a Comissão Teológica Internacional (doravante, CTI) decide enfrentá-las, num equilíbrio que encontraremos, também, nos documentos que formam a tetralogia que já enunciei, acima. A CTI não se coloca em nenhum dos seguintes registos: nem numa atitude de ‘idolatria’ do progresso (pois ’todo o desenvolvimento implica uma compreensão axiológica e antropológica’ (22)), nem numa atitude de recusa de princípio que vê em todo o progresso motivos de desconfiança. A atitude deve ser, antes, e é a escolhida pela CTI, a de discernir os ‘sinais dos tempos’ que emergem nos rumos da história.

E é perante tal horizonte que são estruturantes as categorias acima descritas.

Ouso concentrar a atenção do leitor no conteúdo que melhor ilumina, na minha perspetiva (toda a análise de um livro é uma tomada de decisão sobre o eixo com que queremos lê-lo…) a valia dessas categorias. Na verdade, no número 133, afirma-se que ‘esta capacidade de integração unitiva, que respeita o real na sua concretude e, portanto, nas suas oposições polares, é característica do esforço de pensamento do “et/et” típico da forma mentis católica.’

Os desafios atuais tendem a levar-nos a assumir posições de ‘ou… ou…’ (em latim, ‘aut… aut…’), criando lógicas dualistas (somos somas de substâncias, mas não uma autêntica unidade) ou monistas (não somos mais do que…).

A lógica em que assenta todo este documento é particularmente inteligente e é, como o mesmo diz, autenticamente ‘católica’. Toma em mãos a dualidade, mas sem que esse tomar em mãos da dualidade redunde ou numa fusão ou num dualismo. Conserva a tensão porque é essa tensão que nos define como humanos. Somos infinito no finito, sem que o finito absorva o infinito ou o infinito anule o finito.

E isso só é possível porque a pergunta que todo o documento faz, perante as potencialidades do desenvolvimento, é a acertada: que homem emerge do caminho que estamos a fazer?

Ou caminhamos para um Homem não ‘humanizado’ (não finito, transumanizado) ou, mesmo, para o fim do Homem (pós-humanismo)?

Evitar esse fim só será possível se se assegurar (teórica e praticamente) a condição finita da humanidade, feita da tensão entre ‘ser e ainda não ser’, entre o ‘já’ (ser) e o ‘ainda não’ (ser), que só uma lógica de vocação da existência (não sou o criador da minha vida, mas o seu administrador, porque a recebo e corresponde ao que sou chamado a ser). Daqui resulta que o reconhecimento da condição trágica da humanidade não deve servir para uma ‘autossatisfação’ com essa condição, ficando-se na tragicidade que se saboreia e que legitima toda a posse da vida, mas antes, reconhecendo essa tragicidade deve emergir a procura do sentido último que o cristianismo, na experiência do Ressuscitado, ilumina, de modo único: toda a dualidade humana adquire significado e não é anulada, antes assumida (Jesus Cristo não anula a divindade por ser Homem; não anula a humanidade por ser Deus).

Este é, de facto, um documento que vai ao âmago: ao âmago da condição pós-moderna, contemporânea, ao enunciar os grandes dramas atuais; mas também ao âmago do cristianismo, ao evidenciar a atualidade da resposta cristã perante os tremendos desafios contemporâneos.

O horizonte não só não se fechou como, subitamente, se escancarou, grávido de esperança.

A pergunta continua, porém, a ecoar, enquanto a decisão passar por anular (escolhendo os monismos ou dualismos) a tensão que define a humanidade (entre finito e infinito; entre eu e tu; entre eu e mundo; entre eu e Deus): ‘para onde vais, tu, humanidade?’

 

Na mesma página que o autor (citações)

‘Ser uma pessoa humana, com uma dignidade infinita, não é algo que construímos ou adquirimos, mas é fruto de um dom gratuito que nos precede.’ (n.º 2)

‘Para desempenhar adequadamente o compromisso do discernimento crítico diante de alguns dos cenários mais relevantes para o futuro do ser humano, o documento propõe quatro categorias fundamentais, em cada um dos capítulos que o compõem. Começa-se pela consideração da noção de desenvolvimento, que está na base de muitas das novidades tecnológicas e sociais em curso. A necessidade de garantir um desenvolvimento humano integral leva então a refletir sobre a categoria de vocação, como chave de compreensão antropológica que, por sua vez, remete à questão da identidade humana, tanto a nível pessoal como social. Por fim, aprofunda-se a condição dramática, ou seja, histórica e livre, que caracteriza a identidade humana, entendida como vocação, e o seu diálogo com os novos desafios tecnocientíficos.’ (n.º 8)

‘A condição dramática do processo histórico de humanização, redimido e levado à realização gratuita em Cristo – se desdobra na consciência que cada ser humano tem da sua finitude no encontro inevitável com o infinito. Os seres humanos são as únicas criaturas que sabem que são finitas e, portanto, devem enfrentar esse fato. É possível considerar diferentes opções que se abrem diante de cada ser humano: pode-se tentar absolutizar a finitude; pode-se tentar escapar da finitude num infinito fictício; pode-se tentar chegar a um acordo com a finitude; pode-se habitar a tensão entre finitude e infinito, na esperança de uma realização recebida como dom.’ (n.º 13)

‘O transumanismo e o pós-humanismo, embora relacionados e por vezes considerados idênticos (devido às suas respetivas definições ainda bastante fluidas), representam perspectivas diferentes na compreensão da natureza humana e do futuro da humanidade.
O transumanismo é um movimento filosófico que opera com a convicção de que o ser humano pode e deve empregar os recursos da ciência e da tecnologia para superar os limites físicos e biológicos da condição humana, em particular o envelhecimento e até mesmo a morte, moldando assim a sua própria evolução e maximizando o seu potencial, até redesenhar o ser humano para torná-lo apto a ir além. Com a sua ênfase programática no aumento das capacidades humanas individuais, desenvolve uma perspectiva claramente antropocêntrica, subscrevendo uma visão ideológica e ingenuamente acrítica do progresso científico-tecnológico.
O transumanismo imagina um futuro em que os seres humanos aperfeiçoarão a forma biológica atual que caracteriza a natureza humana, para alcançar o objetivo da imortalidade individual apoiada pela tecnologia. No âmbito utópico da sua busca pela imortalidade imanente, o transumanismo pode ser interpretado como a expressão existencial de uma presunção ao mesmo tempo ingénua e arrogante.’ (n.º14)

‘O pós-humanismo, em sentido estrito, critica o humanismo tradicional, questionando a especificidade dos seres humanos e a existência de uma “forma humana” que, como tal, merece ser preservada por ser portadora de um significado universalmente válido. Por isso, enfatiza o “híbrido” (cyborg), a ponto de desconstruir o sujeito humano, tornando totalmente fluida a fronteira entre o humano e a máquina, e rejeitando o antropocentrismo que continua a ser característico do transumanismo. Em última análise, o pós-humanismo em sentido estrito pode ser entendido como uma expressão existencial de fuga da realidade, que parte de uma desvalorização radical do humano.’ (n.º 15)

‘[…] Resta perguntar-se se este sonho de uma passagem para uma fase pós-humana não levará, antes, a uma condição “desumana”. Embora seja preciso reconhecer que esse desejo de “ir além”, de superar a si mesmo e a condição atual para ser plenamente humano, representa uma tensão constitutiva da natureza humana. Podemos, portanto, distinguir entre um significado positivo de “superação”, no qual se reconhece a abertura para além da natureza humana, e um significado negativo, quando a ideia de superação implica a substituição ou supressão do humano.’ (n.º 23)

‘ […] essa preocupação surge um critério fundamental: se a tecnologia faz parte da atividade característica do ser humano em realização na história, é preciso estar atento para garantir um “desenvolvimento integral e solidário”, ou seja, o desenvolvimento “de cada homem e de todo o homem”, que evite uma exaltação da técnica como forma dominante de vida, como modo absorvente de existir, sem que a questão do seu significado seja realmente colocada.’ (n.º26)

‘A relação com os instrumentos tecnológicos é complexa, pois a relação entre o instrumento tecnológico e o sujeito que o utiliza apresenta uma circularidade que implica um condicionamento recíproco. Quem utiliza o instrumento tecnológico é, em certa medida, condicionado pelas possibilidades que o instrumento oferece e pode imaginar de forma diferente a organização da sua vida. Por exemplo, a construção de autoestradas e vias de alta velocidade favorece uma distribuição do trabalho que se estende por espaços mais vastos e permite deslocações rápidas que favorecem intercâmbios, contatos e atividades a distâncias antes impensáveis. Isto implica uma maior mobilidade e uma organização diferente da vida profissional e familiar. Este dinamismo torna-se mais impactante para o indivíduo quando se passa dos instrumentos tecnológicos, que aumentam a velocidade de deslocamento (carro, trem, avião), para as “tecnologias intelectuais”, que visam potenciar o conhecimento, ou seja, o que e como pensamos (tecnologia digital, redes sociais, inteligência artificial).’ (n.º32)

‘[…] é neste tipo de conhecimento sem corpo, sem limites, sem laços e sem sentido moral que se baseiam os sonhos do transumanismo, que chega também, no pós-humanismo, a imaginar um salto evolutivo. Essa imaginação repõe com força a questão sobre o fim último do progresso tecnológico.’ (n.º41)

‘ […] Uma vez modificado, muitas vezes com uma frenesia incessante, o corpo torna-se um corpo-objeto no qual a pessoa-sujeito se espelha, criando uma relação em que a pessoa já não é o seu corpo, mas “possui” um corpo, a partir do qual procura encontrar uma identidade “emprestada”. Nesta dinâmica, não é mais necessário aceitar o próprio corpo para realizar a própria identidade. Ele pode ser transformado de acordo com os gostos do momento. Cria-se uma situação curiosa: o corpo ideal é exaltado, procurado e cultivado, enquanto o corpo real não é verdadeiramente amado, sendo fonte de limites, esforços, envelhecimento. Deseja-se um corpo perfeito, enquanto se sonha em fugir do próprio corpo concreto e dos seus limites.’ (n.º47)

‘Em resumo, estas transformações influenciam a relação com o Mistério da origem e do fim último da vida humana. Quando o ser humano reduz a natureza criada (pessoa, cosmos) a matéria a ser transformada, ele não manifesta mais a glória do Criador, mas substitui-Se a Ele. O mesmo acontece quando a tarefa de dar sentido à existência e indicar o fim último se identifica com a implementação das potencialidades tecnológicas. Neste contexto, as tradições religiosas e espirituais ainda têm algo de essencial e indispensável a oferecer no que diz respeito à sabedoria de viver em relação a Deus.’ (n.º50)

‘A partir das reflexões anteriores, percebe-se a importância de colocar no centro a questão antropológica, perguntando-se não tanto como ir “além dos limites do humano”, mas sim o que torna a nossa existência “autenticamente humana”. À luz desta questão antropológica fundamental, é possível elaborar alguns critérios para um discernimento crítico da antropologia subjacente a estes movimentos filosóficos e culturais.
[…] Um primeiro elemento que se revela problemático é o julgamento negativo sobre a condição humana tal como ela é e, em última análise, sobre a sua identidade. Daí deriva o sonho de reinventá-la, um sonho motivado pela insatisfação com o que ela é, com os seus limites e defeitos. (57)
[…] O segundo aspeto, relacionado com o primeiro, é o sonho de um perfeccionismo individualista e elitista. Parece que cada ser humano concreto só pode existir ou ser aceite na condição de “se tornar mais perfeito”. Tanto que nos devemos perguntar se a condição humana atual ainda tem direito a existir ou se os seres humanos particulares se tornaram “supérfluos”.’ (58)
[…] Um terceiro fator é o impacto social dessa visão do ser humano. Na verdade, ela pode chegar a afirmar a separação entre uma forma de humanidade superior, dotada de instrumentos que a potenciam até a imortalidade, e uma humanidade primitiva, pré-tecnológica e destinada, em última instância, à extinção.’ (59)
[…] Por fim, não se deve esquecer o olhar geralmente negativo sobre a experiência religiosa. Ela é frequentemente apresentada como uma posição resignada e fatalista, que sacraliza a condição humana atual com dogmas e preceitos que inibem a pesquisa e o progresso. As “visões sacralizantes” que enfatizam o valor do corpo ou da natureza como expressões da criação de Deus impediriam a livre pesquisa. A ideia de que a vida biológica é um dom, a ser tratado com cuidado, implicaria a proibição de algumas experiências e mutações melhorativas, bloqueando o progresso.’ (60)

‘A antropologia cristã pode identificar nessas tendências filosóficas e culturais atuais muitos traços daquela mentalidade que Francisco descreveu como uma forma de “neo-gnosticismo”. Trata-se de modos de pensar e atitudes que devem ser entendidos num sentido análogo às formas antigas de gnosticismo. Tal abordagem, ao considerar o humano e a sua salvação, procura libertá-lo de toda a dependência e limite, separando-o do corpo, do cosmos, da comunidade e da história. Apresenta “uma salvação meramente interior, encerrada no subjetivismo. [...] Pretende-se assim libertar a pessoa do corpo e do cosmos material, nos quais já não se descobrem os traços da mão providencial do Criador, mas se vê apenas uma realidade sem sentido, alheia à identidade última da pessoa e manipulável segundo os interesses do homem”.’ (n.º61)

‘A mentalidade que se pode reconhecer nos movimentos transumanista e pós-humanista perde, de fato, a integralidade do ser humano e, em particular, a sua identidade e vocação segundo o desígnio de Deus, exaltando algumas dimensões em detrimento de outras. É clara a questão antropológica fundamental que se coloca: trata-se de uma proposta que transforma ou deforma o humano, no que diz respeito à sua essência? Chegará a haver um humano excepcional ou formas de exceção ao humano autêntico? De acordo com a visão cristã, o ser humano é definido por uma forma específica que garante a sua unidade e integridade, tanto no que se refere à sua identidade, como à ação em que se torna ele mesmo, como ao fim último em que encontra a sua realização. Ao nível do indivíduo, é a alma imortal que dá forma, ou seja, que unifica e organiza a matéria num corpo vivo, conferindo ao ser humano uma transcendência que o pós-humanismo e o transumanismo não podem alcançar nem superar. O que unifica e orienta o desenvolvimento pessoal não emerge apenas da natureza e do cosmos, mas também se realiza a partir das relações, nas quais a identidade pessoal é antecipada pelas expectativas dos outros e, de forma original e fundamental, pelo diálogo livre com Deus.[…]’ (n.º62)

‘[…] A cultura dominante hoje não está suficientemente atenta ao fato de que “se nasce”, e o transumanismo, e ainda mais o pós-humanismo, esquecem que o ser humano é antes de tudo filho e, portanto, criança, que se descobre gerado e doado a si mesmo na maravilhosa aventura de ser e crescer.’ (n.º86)

‘Em contraposição a todo o triunfalismo transumanista ou ao pessimismo radical do pós-humanismo, a referência ao mistério da Cruz chama a nossa atenção para a história do ponto de vista das vítimas. O verdadeiro pathos da história não consiste apenas nas grandes conquistas da humanidade, mas também nos sofrimentos silenciosos de tantas pessoas ao longo das gerações e em todo o mundo.[…]’ (n.º97)

‘A existência pessoal está inserida numa história, num tempo e num espaço precisos, e desperta para a consciência de si mesma no interior de relações que expressam uma pertença que a precede e a fundamenta. Desta forma, reencontra o seu significado original como chamada à vida […].’ (n.º99)

‘Hoje, especialmente no Ocidente, é frequentemente favorecida uma “cultura da não vocação”, que de fato também está subjacente aos desafios antropológicos contemporâneos. Em particular, no que diz respeito à educação dos jovens, não é difícil constatar como muitas vezes a compreensão da sua vida carece de abertura a um sentido último, tanto em termos de orientação como de relações constitutivas. Não se sabe e não se reconhece que se é chamado. O planeamento do futuro limita-se a uma lógica que reduz o futuro, na melhor das hipóteses, à escolha de uma profissão, à estabilização económica ou à satisfação de algumas necessidades: “São escolhas sem qualquer abertura ao mistério e ao transcendente, e talvez até com pouca responsabilidade em relação à vida, própria e alheia, à vida recebida como dom e a ser gerada nos outros”. O modelo antropológico predominante parece ser o da “pessoa sem vocação”, cujo impacto na percepção da vida é o de se sentir perdida no drama de uma existência que não encontra sentido e que não tem esperança em relação ao futuro. É o convite a uma “vida como vocação” que pode abrir um horizonte que ultrapassa a pretensão de encontrar um “projeto de vida” efémero, absolutamente autofundado e programado pelo indivíduo, que paradoxalmente reflete a homologação com a mentalidade dominante.’ (n.º103)

‘Redescobrir a vida como vocação significa corresponder a um dom que chama a moldar a própria identidade, assumindo a tarefa de se tornar a si mesmo e de transformar a sociedade e o mundo segundo o desígnio de Deus. Não se trata simplesmente de fazer projetos, de programar o futuro, de encontrar um trabalho para ganhar a vida e melhorar o mundo. A questão séria na vida, entendida como vocação, é realizar a própria identidade pessoal como dom para os outros.’ (n.º106)

‘O ambiente mais adequado para amadurecer a própria identidade é o do amor, a começar pela família, que está na origem da nossa existência. De fato, muitas pobrezas, mesmo materiais, nascem na raiz do “isolamento, do não ser amado ou da dificuldade de amar”. De acordo com o dinamismo da reciprocidade assimétrica entre o dom e a resposta que moldam a nossa identidade, assumir a própria vida significa reconhecer que somos confiados a nós mesmos (autopossessão) por um dom não pedido e que deve ser reconhecido, aceite e desejado como um bem para si mesmo (assentimento). Esse reconhecimento do dom que precede não é apenas uma questão de pura razão. Implica uma dinâmica afetiva: amamo-nos porque somos amados e sentimo-nos amados.[…]’ (n.º110)

‘[…] A identidade é complexa, sendo constituída por várias dimensões. Os seres humanos estão conscientes de que as suas identidades, se por um lado são individuais e intransferíveis, por outro são relacionais, moldadas pelas comunidades a que pertencem e pelas circunstâncias da vida. Por isso,a identidade é sempre algo recebido e, ao mesmo tempo, algo atualizado e desenvolvido por cada um. Nenhum ser humano entra na existência já definido e perfeito: temos de aprender quem e o que somos, tanto na infância como na idade adulta. Aprendemos a aceitar o dom de nós mesmos, assumindo sobretudo a tarefa de formar a nossa identidade, implícita neste dom, e de a redescobrir em cada nova etapa da vida.’ (n.º112)

‘Neste contexto, também a reflexão teológica sobre a deficiência pode assumir um valor relevante na defesa da dignidade infinita de cada pessoa, abraçando a sua condição particular. A voz das pessoas com deficiência é uma contestação radical à “cultura do descarte” que ressoa em certos raciocínios transumanistas ou pós-humanistas. Estamos num terreno muito delicado, mas significativo para a questão da identidade biológica-natural, que mereceria uma consideração muito mais aprofundada. Em linha geral, é necessário recordar o significado decisivo da dependência e da vulnerabilidade como elementos integrantes de toda a experiência humana. Sem prejuízo de que as deficiências congénitas não são diretamente desejadas por Deus, a deficiência deve ser explorada, com todas as suas especificidades, como uma manifestação daquelas dimensões de finitude e contingência, que devem ser vistas e vividas não apenas como negativas para a formação da identidade. De fato, a condição de deficiência mantém a identidade pessoal bem ancorada à realidade corporal-espiritual dada, a ponto de aparecer como um elemento inelutável da identidade da pessoa com deficiência. No contexto do conjunto da pessoa e da sua história, também a deficiência pode ser uma ocasião de bem, de sabedoria e de beleza. Estamos longe dos sonhos do transumanismo e do pós-humanismo de fugir da base natural da existência, e especialmente dos limites do próprio corpo, para alcançar a própria identidade.’ (n.º118)

‘Isso não implica que os outros seres vivos devam ser considerados meros objetos de domínio ou exploração, pois isso teria consequências graves para a sociedade: reforçaria a idolatria dos mais fortes e produziria desigualdades, injustiças e violência para toda a humanidade e para o planeta. Segundo a Sagrada Escritura, as outras criaturas merecem um olhar positivo, digno de proteção e respeito, em particular os animais, enquanto seres vivos e sencientes. O ser humano, embora se encontre no centro da criação, não pode compreender-se a si mesmo se não se descobrir situado no contexto das outras criaturas e unido a elas. É preciso, porém, evitar os excessos de certas sociedades avançadas, sobretudo no Ocidente, que tendem a considerar alguns animais, especialmente os domésticos, quase como pessoas. É preciso evitar as tentações recíprocas de “humanizar os animais” e de “reduzir os seres humanos a animais”.’ (n.º126)

‘A condição humana parece marcada por tensões ou polaridades irredutíveis, cujo significado cada pessoa e toda a humanidade são chamadas a descobrir, para compô-las numa harmonia que faça crescer a vida em todo o seu potencial. As “tensões polares” são constitutivas da experiência humana comum, e nelas a pessoa descobre o seu ser mistério aberto ao Mistério de Deus. Se quisermos compreender os recursos e as dificuldades do caminho para nos tornarmos nós mesmos, é preciso tomar consciência dessas polaridades características da condição criatural.’ (n.º130)

‘Essas polaridades não devem ser interpretadas numa lógica dualista, mas como “unidade dos dois”, nem podem ser simplificadas através da redução de um termo, numa lógica monista da identidade ou numa lógica dual da dialética dos opostos. As polaridades superam, portanto, dualismos e monismos, que pretendem capturar o mistério do ser humano, e mostram o valor justo e inalienável da diferença. Os polos opostos não se anulam, não acontece que um polo destrua o outro. Nem a contradição nem a identidade absoluta dominam. Para vivê-las bem, é necessária outra lógica, que permita captar o ritmo interior da realidade de uma forma mais aderente aos dados e mais harmoniosa. Somos remetidos, em última análise, ao próprio ritmo da vida trinitária, que se reflete na criação, em virtude do qual a relação entre dois não se fecha sobre si mesma, nem reabsorve a alteridade no um, mas se abre à realização no terceiro, sempre excedente e inesgotável.’ (n.º132)

‘Através das oposições polares, permanece intato o dom original que precede e funda. Devem, portanto, ser assumidas à luz do caráter promissor que brota do próprio dom. Mais do que como “dados”, as polaridades devem ser interpretadas como “dons”. É precisamente em Cristo que se realiza a assunção completa das polaridades numa unidade que mantém as diferenças e as harmoniza numa síntese superior. Esta capacidade de integração unitiva, que respeita o real na sua concretude e, portanto, nas suas oposições polares, é característica do esforço de pensamento do “et/et” típico da forma mentis católica. E é isso que acontece na Igreja: em que o ser humano adquire, pela graça, o sentido da realidade total, pois nela se amplia o horizonte da experiência da pessoa e do seu mistério. Examinemos, então, em rápida síntese, estas polaridades criaturais, segundo uma ordem que parte da experiência humana mais imediata até à raiz mais profunda, precisando que existe entre elas uma “progressão circular”, mais do que uma simples sucessão.’ (n.º133)

‘[…] diante das várias reduções que descrevemos, onde certos aspetos do humano eram mortificados, a forma mentis católica pretende buscar uma síntese dinâmica, na qual nenhuma dimensão da experiência comum se perca, respeitando as tensões constitutivas.’ (n.º161)

‘O desenvolvimento tecnológico imparável que consideramos neste texto e que favorece sobretudo aqueles que já têm muito poder, desafia-nos a voltar o nosso olhar para os mais pobres. Se este desenvolvimento, como vimos, juntamente com as ideologias que o acompanham, implica sérios riscos, estes serão ainda maiores para os mais fracos e indefesos, ou seja, para aqueles que não contam nada por que não servem aos interesses dos mais poderosos. Eles correm o risco de se tornarem matéria descartável, “danos colaterais”, varridos sem piedade. Como cristãos, porém, somos chamados a olhar para eles com os olhos de Cristo, que diz a cada um deles: “Eu te amei” (Ap 3,9). Como explica o Papa Leão XIV, Cristo “com o seu amor doado até ao fim, mostra a dignidade de cada ser humano”. E isso nos estimula a “perceber a forte ligação que existe entre o amor de Cristo e o seu apelo a aproximarmo-nos dos pobres”.
Daí decorre o dever de estar particularmente atentos, como humildes sentinelas, às consequências que os novos desenvolvimentos da sociedade podem ter para a vida dos últimos. Não obstante, reagir com uma palavra profética e um envolvimento generoso. É assim que se joga a autenticidade da nossa fé e o valor humano da nossa vida.’ (n.º164)


**(Título retirado de Daniel Faria, Dos líquidos, Porto, Edição Fundação Manuel Leão, 2000, p. 137)

*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Ensaios de liberdade', 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'

Imagem recolhida do site da livraria Martins Fontes

quarta-feira, maio 20, 2026

'Os Sete Dias da Criação' |9| Luís M. P. Silva - Continuamos no primeiro dia: ‘Deus disse: «Faça-se a luz.» E a luz foi feita.’ A luz é criada; as trevas são separadas…

 

(‘Os Sete Dias da Criação’ | Rubrica dedicada ao diálogo entre ciência e religião)
Artigo originalmente publicado na revista 'Mundo Rural'

Luís Manuel Pereira da Silva*

 

Continuamos a refletir sobre as relações entre a ciência e a religião, seguindo os ‘sete dias da criação’.

Mantemo-nos no primeiro dia. A densidade do texto a isso nos obriga.

Na tradução da difusora bíblica (de acordo com a publicação disponibilizada em https://www.paroquias.org/biblia/), assim foi o primeiro dia: ‘Deus disse: «Faça-se a luz.» E a luz foi feita. Deus viu que a luz era boa e separou a luz das trevas. Deus chamou dia à luz, e às trevas, noite. Assim, surgiu a tarde e, em seguida, a manhã: foi o primeiro dia.’

Às inúmeras e significativas constatações que já nos foi possível fazer, a partir destes três versículos, podem acrescentar-se as que, seguidamente, enunciaremos.

Não sem antes recordar, com Gerhard von Rad, que ‘além dos dois enunciados sobre a criação aduzidos até agora (diferença de essência em relação a Deus, e dependência d’Ele), aparece mais outro que é digno de apreço: a criatura que entrou na existência é tob (boa), termo no qual mais do que um juízo estético há uma indicação de que a criatura é conforme ao seu fim, ajusta-se a ele […]’[1].

Já o tínhamos anotado, anteriormente (tínhamos sublinhado o alcance do significado da ideia de ‘criação’ e evidenciado que, na perspetiva bíblica, esta é ‘boa’, contrariamente às visões pessimistas que circundavam o povo bíblico), mas pretendemos, agora, evidenciar um aspeto de que nos dá conta Santo Agostinho, com enorme impacto e significado que só muito sumariamente aqui destacaremos.

Diz Santo Agostinho, no seu ‘Da interpretação do Génesis: dois livros contra os maniqueus’: ‘E Deus separou a luz das trevas e chamou Deus à luz dia e às trevas chamou noite. Não se diz neste passo «Deus fez as trevas» pois estas […] mais não são que a ausência de luz e, portanto, simplesmente se procedeu à separação entre ambas. De igual modo nós, gritando, produzimos a voz; e, estando calados, produzimos o silêncio, porque a cessação da voz é o próprio silêncio; e, todavia, num certo sentido, distinguimos a voz do silêncio e a uma coisa chamamos voz e a outra chamamos silêncio. Do mesmo modo que com razão dizemos «fazer silêncio», também em múltiplos passos das Divinas Escrituras com razão se diz que Deus fez as trevas porque ou não dá ou subtrai a luz àqueles momentos e lugares que pretende.[2]

Estamos perante os alicerces da visão de Santo Agostinho sobre o problema do mal. Recorde-se que esta matéria é uma daquelas em que mais notoriamente se evidencia o que o cristianismo trouxe a este genial santo. Na verdade, ele fora, durante longo período da sua vida, um maniqueu. Defendera, por isso, a ‘substancialidade’ do mal. O mal tinha, na perspetiva maniqueia, consistência ontológica, pelo que se exigia, tal como para o bem, uma origem absoluta. Para os maniqueus, o mal e o bem tinham respetivos criadores, sendo o mundo o palco desse «eterno» combate entre os dois princípios.

A leitura judaico-cristã da criação trouxe nova luz sobre esta matéria que, nesta passagem de Santo Agostinho, se torna particularmente evidente: só o bem tem consistência ontológica, porque define a natureza daquilo que é, do ser que, por existir e corresponder ao que é, é bem. O mal, a esta luz, é a insuficiência do bem, a não realização do bem, o não-ser, o nada-ser. Não carece, por isso, de uma origem absoluta que, efetivamente, não tem.

O bispo de Hipona explicita, deste modo, uma nova ponerologia (em grego, ‘ponêrós’ significa ‘mau, em mau estado, defeituoso, etc.[3]’), uma reflexão sobre o mal, compreendendo-o como a ‘insuficiência’, a ‘ausência’ do bem, o que não implica que ‘ser insuficiente’, ‘ficar-se aquém do bem que se pode realizar’ não seja sedutor e destrutivo. Mas tal deverá compreender-se como ‘não realização’ e não como uma outra criatura, originada por um criador negativo.

Tendo em conta tal abordagem, é possível concluir-se, como faz Andrés Torres Queiruga[4], que Deus é o ‘anti-mal’, intrinsecamente pensável como origem do bem e o fim último da máxima realização e não como o criador do mal, de que Ele mesmo é, afinal, o redentor, ao orientar tudo para o bem e ao compadecer-se da irrealização da Sua criatura.

As implicações para as dimensões existenciais da humanidade são inúmeras, em particular a que Von Rad deixava implícita: a realização das criaturas (entre eles, sobremaneira, o ser humano) ocorre se elas corresponderem ao fim para que foram criadas. Realizar o fim para que se foi criado é o bem. Dele desviar-se é o mal.

E assim se separa o bem (criado e pretendido por Deus) do mal, insuficiência e ausência do bem, por divergência de realização.

Concluamos esta nossa etapa da reflexão com mais uma interessante constatação, recolhida, também, de Santo Agostinho. Num seu outro livro dedicado a Génesis, o santo de Tagaste (lugar do seu nascimento) evidencia que a luz, primeira criatura de Deus[5], ‘seja corpórea ou incorpórea, é mutável’[6]. É uma intuição que antecipa, em muitos séculos, a de Einstein de que a luz é finita.

A riqueza que pode recolher-se de Génesis, se a abordagem que dele fizermos não confundir os planos e não errar nas interrogações a fazer-lhe. Pretender de Génesis que nos responda às perguntas que cabem à ciência, baralha os planos e gera conflitos que a história já nos ensinou a evitar. Perguntar-lhe sobre o sentido do mundo e da existência é encaminhar-se no sentido adequado.

Disso precisaremos, ao avançar para os dias subsequentes. Assim, por exemplo, perante o sentido literal dos versículos que se referem ao segundo dia, em que, implicitamente, se supõe uma cosmologia (leitura da ordem que o universo tem) que não é, já a nossa. Fazer uma abordagem acomodatícia, como a já descrita, em passos anteriores da nossa reflexão, pode dar-nos condições para o início de uma compreensão equilibrada, mas não é, ainda, a forma final que deveremos adotar, pois ainda supõe a análise literalista do texto bíblico. Esse será o nosso desafio, nas reflexões futuras: encontrar modos de recolher do texto bíblico toda a densidade do que tem a transmitir-nos, como sagrada escritura; no justo equilíbrio entre a redução à ciência ou a redução à Bíblia. Como bem recordava, a pretexto da condição humana, Viktor Frankl, o erro de todo o reducionismo é o de pretender que uma determinada realidade ‘nada mais é do que’… O saber, o conhecimento humano é muito mais do que só este ou aquele discurso. Muito ganhará de recolher sabedoria dos diversos discursos. Com essa meta nos propomos avançar… Outros dias virão.


Sugestões bibliográficas

Andrés Torres Queiruga, Repensar el mal: de la ponerología a la teodicea, Madrid, Editorial Trotta, 2011

  1. António Couto, O livro do Génesis, Leça da Palmeira, Letras e Coiras-livros, 2013.

Santo Agostinho, Da interpretação do Génesis: dois livros contra os maniqueus, Prior Velho, Paulinas, 2021.

Gerhard von Rad, El libro del genesis, Salamanca, Ediciones Sígueme, 19887.


[1] Gerhard von Rad, El libro del genesis, Salamanca, Ediciones Sígueme, 19887, p. 62.

[2] Santo Agostinho, Da interpretação do Génesis: dois livros contra os maniqueus, Prior Velho, Paulinas, 2021, número 15, pp. 67-68.

[3] Isidro Pereira, Dicionário grego-português e português-grego, Braga, Livraria A.I., 19908, P. 474.

[4] Cfr. Andrés Torres Queiruga, Repensar el mal: de la ponerología a la teodicea, Madrid, Editorial Trotta, 2011, pp. 263ss.

[5] Cfr. D. António Couto, O livro do Génesis, Leça da Palmeira, Letras e Coisas-livros, 2013, p. 30.

[6] Santo Agostinho, Da interpretação literal do Génesis: uma obra inacabada, Prior Velho, Paulinas, 2021, p. 158


*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano', 'Ensaios de liberdade' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'


quinta-feira, maio 07, 2026

Sabes, leitor... | 29 | Marca de água do livro de Frei Fernando Ventura e Joaquim Franco, 'Todos nós somos sendo: o primado da liberdade e a cautela da consciência'

 


Rubrica ‘Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página’** | Marca de água de livros que deixam marcas profundas
Parceria: Federação Portuguesa pela Vida e Comissão Diocesana da Cultura

Luís Manuel Pereira da Silva*

O(s) autor(es) e a obra
Frei Fernando Ventura e Joaquim Franco, Todos nós somos sendo: o primado da liberdade e a cautela da consciência, Lisboa, Contraponto, 2022.

As conversas de Frei Fernando Ventura com o jornalista Joaquim Franco deram bons livros. Excelentes livros, aliás! O esperado, afinal, quando se juntam, à mesma mesa, um notável biblista em cuja vida se juntam muitas vidas e um fino jornalista.
De ‘Do eu solitário ao nós solidário’, em 2011, a ‘Somos pobres mas somos muitos’, em 2013, ambos editados pela Verso de Kapa, até, por último, este ‘Todos nós somos sendo’, publicado em 2022, pela Contraponto, Frei Fernando Ventura e Joaquim Franco passam, a pente fino, toda a estrutura capilar a sociedade… Sem deixar escapar qualquer ‘piolho’, para explorar a metáfora implícita na expressão a que deitei mão: ‘passar a pente fino’. Assim é a escrita e a coloquialidade de Frei Fernando Ventura, na qual se percebe, a cada passo, a linguagem de um biblista de reconhecida autoridade e que repercute, no seu dizer, o modo próprio de Deus se dizer na Bíblia: narrando, contando histórias, dizendo o mundo através de imagens que são palavra a acontecer.
Na vida de Frei Fernando Ventura, há muitas vidas. Seja porque a sua é uma vida dedicada a outros (e o que se é nasce do ser-se com os outros…), seja porque a sua tem sido uma vida de muitos ‘viveres’ transformadores: desde a profundidade do homem que reflete e escreve, com uma facilidade singular (é, também, o diretor da revista mensal ‘Bíblica’), que ensina (foi docente do ISCRA, em Aveiro, onde nos conhecemos), mas também que arregaça mangas e se envolve na transformação profética do mundo.
E de Joaquim Franco pode esperar-se a pertinência das interrogações e a atenção às entrelinhas a que vai buscar novas sendas pelas quais se envereda a conversa, atenta à realidade, mas também à diversidade semântica das alusões. Pois que Frei Fernando Ventura enriquece os diálogos de conteúdos que, pela sua densidade, permitem olhares penetrantes sobre o real, tantas vezes opaco ou diluído.

 

Marcas de água 

(o que fica depois de se deixar o livro)

O título de ‘Todos nós somos sendo’ anuncia ao que se vai. Cada um dos títulos é, aliás, um programa. E, neste, na densidade teológica implícita (o título repercute a tradução que propõe Frei Fernando Ventura para o mais célebre tetragrama de sempre – YHWH: ‘Eu Sou Aquele que É, sendo!), como que dizendo, implicitamente, que, do que de Deus se pode dizer terá de se pensar da humanidade como aquela que é criada à Sua imagem e semelhança. E se de Deus o que se sabe (porque no-lo revelou) é que é um Deus-Relação, não poderá pensar-se diferente em relação à humanidade.
A este subentendido bíblico-teológico, o título também soma a surpresa do primeiro confronto com o desconcerto da formulação. Não nos pensamos, espontaneamente, como aqueles que são, sendo. Pensamo-nos como aqueles que são porque são, indivíduos isolados e autossuficientes. Esperar-se-ia um ‘todos nós somos o que somos’, repercutindo a fatalista compreensão que supõe o concomitante encolher de ombros de quem se rende à condição recebida e acabada.
Mas essa não é a linha de Frei Fernando Ventura.
‘Somos, sendo’ implica a contingência, a indigência de se saber inacabado e dependente, porque essa é, afinal, a nossa genuína condição. Dela fala, praticamente do primeiro ao último diálogo, este livro. Visão que contraria as leituras ‘de paraíso perdido’ que nos convencem da não necessidade de ninguém nem Ninguém…
É um livro feito de uma plasticidade de imagens que, para quem já ouviu Frei Fernando Ventura em intervenções públicas, confere uma naturalidade a cada página que quase nos permite reinvocar cada palavra ouvida ao vivo.
O dizer aqui escrito fala do dizer dito e do ‘dizer vivido’ de frei Fernando Ventura que joga com a surpresa e com a polissemia dos termos e das metáforas. A que soma um conhecimento detalhado das línguas bíblicas (do hebraico ao grego e, mesmo, ao aramaico), que permite levar o leitor a realizar descobertas bíblicas, no meio das problematizações sobre o viver atual.
É, ainda, um livro de coragem e liberdade, subentendidas no subtítulo – ‘o primado da liberdade e a cautela da consciência’. Com a distância própria dos profetas, os que falam a partir da experiência de Deus, que os faz ler em profundidade a realidade (do passado ao futuro, sem, porém, o ser com a atitude do adivinho, mas do homem de pés no chão e olhar no horizonte maior), Frei Fernando analisa, criticamente, as opções contemporâneas, das económicas que ‘matam’ (repercutindo o pensamento de Francisco e de S. Francisco – não fosse Frei Fernando ele próprio um franciscano!) às que se propõem, em tempos de morte pandémica, legalizar a morte suavemente designada como ‘eutanásia’ (boa morte!).
A este propósito, merecem destaque as suas palavras:
‘[…] aqueles que passaram, como eu, pela experiência de perder alguém próximo como eu perdi o meu pai, sem COVID-19, mas isolado meses a fio numa instituição de acolhimento, sabem que nada disto é normal e nada disto pode ser normalizável.
Também neste contexto se pode medir o grau de incompreensível derrapagem no «gesto» do parlamento do nosso país, que aprova a eufemisticamente chamada lei da eutanásia (boa morte), que discute condições de morte, precisamente num tempo em que saltava à evidência de todos que o que não temos são condições de vida. Ver os «senhores» deputados em pé a aprovar legislação de morte, quando tantos estavam deitados em ambulâncias à porta dos hospitais à espera da sua vez de (não) morrer, sinceramente… senti nojo!
Senti isso e, contemporaneamente, o risco de nos esquecermos de todos os outros que não foram e continuam a não ser objeto de estudo numérico, mas que engrossarão os números dos «adiados» que morrerão mais tarde, porque esquecidos, porque objetivamente, o mundo, o nosso mundo, parecia ter deixado de ter condições de vida.’ (pp. 32-33)
Em toda a realidade incide, acutilantemente, o olhar de Frei Fernando para nela descortinar os sinais de autocentramento e abandono dos que ‘nada-tendo’ são transformados em ‘nada-sendo’.
Não o faz para que a denúncia seja o fim do discurso, mas, antes, o início do percurso de transformação, pois, como diz Luís Osório, no prefácio, este é um livro ‘carregado de esperança’. Não a que nasce de um vago e alienado desejo de que seja diferente (que rapidamente poderia redundar, por ser ilusão, na maior das desilusões), mas que tem origem na consciência de que, na raiz da mais genuína esperança, está uma Aliança, que nos diz provirmos de um Deus que não é ‘sido’, mas ‘sendo’. Um tal entendimento contraria os pressupostos individualistas que fecham na convicção de se bastar a si mesmo, como se, as nossas liberdades se estorvassem umas às outras. Não!
Frei Fernando recorda uma ideia que também nós temos sublinhado, repetidamente: as nossas liberdades não se limitam umas às outras. Antes, potenciam-se umas às outras e são condição de possibilidade umas das outras. Sem os outros, poderíamos dizer, nada somos. Somos, sendo com os outros.
É por isso que podemos, também, concluir com Frei Fernando Ventura que ‘a defesa dos mais frágeis é a fasquia definidora do humanismo, é a bitola por excelência capaz de revelar a medida exata do processo de humanização e de hominização de uma sociedade e de um tempo.’ (p. 93)
Numa sociedade humanizada, verdadeiramente humanista, não uma sociedade (mundo) […] «solteira de afetos, viúva de emoções e divorciada de compromissos», mas feita de e para as pessoas, ‘só temos o direito de olhar alguém e cima para baixo quando for para o ajudar a levantar-se.’ (p. 144), ideia que o Papa Francisco veio a repetir, no ano seguinte ao da publicação deste livro, na Jornada Mundial da Juventude, em Lisboa.
É desse sonho de olhos abertos que fala este livro. O sonho de que ‘o palácio não viva no luxo e do luxo enquanto a barraca tem de viver no lixo e do lixo.’ (p. 173)
Um sonho acordado e de acordados que se reconhecem como irmãos: ‘Essa utopia resume-se a três princípios à espera desse espaço: hospitalidade, solidariedade e fraternidade; tal como toda a reflexão ética se pode resumir à gestão, em cada segundo da existência, a três palavras: quero, posso, devo. É da resposta a cada uma destas três palavras em cada segundo de existir que existo ou não existo como pessoa, como ser de relação, comigo, com os outros, com o universo e com Deus.’ (p. 38)
À maneira franciscana (do Francisco de há oitocentos anos…), falamos de um sonho em que tudo e todos são irmãos: do mundo aos Mundos. Para que, no imundo mundo se realize uma autêntica fraternidade. Pois que outra coisa é senão o reconhecimento de todos sermos irmãos?! Reconhecidos como provindo d’Aquele que nos possibilita sermo-lo. Irmãos porque provindos do Mesmo Pai, Deus-connosco, Aquele que, ‘Sendo-Connosco’, nos faz ‘Sendo-Com-Todos’.

Na mesma página que o autor (citações)

‘[…] como frei Fernando nos diz – e o papa Francisco por outras palavras – a nossa sociedade (mundo) é «solteira de afetos, viúva de emoções e divorciada de compromissos». Do prefácio, p. 11

‘É […] um livro carregado de esperança. Apesar de todos os apesares Todos Nós Somos Sendo convoca-nos para não faltarmos ao jogo decisivo de que somos todos protagonistas. Um bilhete para que possamos está à hora certa na estação onde um dia teremos a oportunidade de nos revelar por dentro. Nesse momento decisivo, a superfície não nos valerá de nada.’ Do prefácio, p. 12.

‘[…] cada ponto de chegada é, ao mesmo tempo, tem de ser, um ponto de partida. E este que vivemos é o tempo por excelência da metanoia, de ir para além de nós, para além da ponta do nosso nariz existencial, em direção ao desconfinado mundo das ideias e das relações, para encontrar sempre novas fronteiras, sempre novas metas de compreensão que há que entender e ultrapassar para ser possível, vencer o medo e os medos, o medo e os medos que matam, o medo e os medos com que nos querem «matar», porque a forma mais eficaz para controlar alguém é controlar-lhe os medos. Controlar qualquer sociedade é ter o poder de controlar e gerir os medos que tolhem e que nos fazem saltar para o primeiro colo que se apresente a oferecer acolhimento capaz de «tirar o medo». Foi sempre assim que nasceram os ditadores, foi sempre assim que se instalaram as ditaduras… este é um dos meus medos… não confio em nenhum colo dos que estão disponíveis por aí…’ (p. 28)

‘[…] aqueles que passaram, como eu, pela experiência de perder alguém próximo como eu perdi o meu pai, sem COVID-19, mas isolado meses a fio numa instituição de acolhimento, sabem que nada disto é normal e nada disto pode ser normalizável.
Também neste contexto se pode medir o grau de incompreensível derrapagem no «gesto» do parlamento do nosso país, que aprova a eufemisticamente chamada lei da eutanásia (boa morte), que discute condições de morte, precisamente num tempo em que saltava à evidência de todos que o que não temos são condições de vida. Ver os «senhores» deputados em pé a aprovar legislação de morte, quando tantos estavam deitados em ambulâncias à porta dos hospitais à espera da sua vez de (não) morrer, sinceramente… senti nojo!
Senti isso e, contemporaneamente, o risco de nos esquecermos de todos os outros que não foram e continuam a não ser objeto de estudo numérico, mas que engrossarão os números dos «adiados» que morrerão mais tarde, porque esquecidos, porque objetivamente, o mundo, o nosso mundo, parecia ter deixado de ter condições de vida.’ (pp. 32-33)

‘JF: [as] palavras de Francisco abrem-nos à utopia. Falta ver a humanidade abraçar todas as contrariedades e dar espaço à criatividade?
FV: Essa utopia resume-se a três princípios à espera desse espaço: hospitalidade, solidariedade e fraternidade; tal como toda a reflexão ética se pode resumir à gestão, em cada segundo da existência, a três palavras: quero, posso, devo. É da resposta a cada uma destas três palavras em cada segundo de existir que existo ou não existo como pessoa, como ser de relação, comigo, com os outros, com o universo e com Deus.’ (p. 38)

‘JF: Deus… casado?!
FV: Claro que sim! É a Aliança que dá sentido a tudo. Repara num detalhe aparentemente banal. Logo no início da Bíblia, no primeiro capítulo do Livro do Génesis, quando se fala da criação à luz dos critérios e conhecimentos do tempo – o autor ou autores do Génesis não querem explicar como é que o mundo foi criado, mas sim quem criou o mundo -, o texto diz que ‘o Espírito pairava sobre a superfície das águas»; logo, sozinho, «solteiro»…
Vamos agora praticamente à última frase da Bíblia, Apocalipse 22,17, vês o que lá está? «O Espírito e a esposa dizem Vem!»
É fantástico! Deus «começa» solteiro em Génesis e termina casado em Apocalipse. […]’ (p. 43)

‘Na continuidade do projeto criacional, não é já só a Ruah (o espírito, o sopro criador) de Deus que paira sozinho, solitário sobre as águas. Ao criar Adam, Deus reinventa-se num «nós» relacional. É um Deus ao contrário dos deuses…’ (p. 51)

‘Na Hungria, em setembro de 2021, o papa defendeu que o grande confronto não é entre religiosos e não religiosos, mas «entre o Deus verdadeiro e o deus que é o próprio eu». Francisco disse que «a lógica de Deus» é a do «amor humilde», que «o caminho de Deus evita qualquer imposição, ostentação e triunfalismo, visa sempre o bem dos outros, indo até ao sacrifício de si mesmo», enquanto, do outro lado, «temos o pensar segundo os homens», isto é, «a lógica do mundo, presa às honras e privilégios, tendente ao prestígio e ao sucesso».’ (p. 57)

‘Perdoa-me repetir sempre este estribilho, mas estou profundamente convencido quer da sua verdade, quer da sua urgência. Independentemente das variadas opções de vida que nos podem não separar, mas diferenciar, o sentido último do «ser em relação» é ser gente com gente, para que cada vez mais gente seja gente e nunca ninguém deixe de ser pessoa.’ (p. 67)

‘JF: O Apocalipse é um livro difícil, do qual se fazem muitas e habilidosas hermenêuticas…
FV: Porque é lido como sendo o livro das «desgraças finais», mas não é. É o livro da nova criação, da nova Jerusalém, do cumprimento definitivo da esperança. Apocalipse significa «revelação».’ (p. 70)

‘[…] hoje, mais do que nunca, são necessários profetas. É preciso continuar na mesma linha de reflexão. O profeta de ontem e de hoje não é um adivinho, muito menos um agoureiro anunciador de desgraças. O profeta não vive no passado nem no futuro. O profeta vive no hoje e em cada hoje faz memória do ontem, para descobrir e anunciar o sentido do amanhã.’ (p. 73)

‘[…] O problema é que quando o cinzento é a cor da moda, o arco-íris é visto como um insulto.

JF: Ou uma sedutora dança da cobra…
FV: Ah, pois! Esse é outro drama. A marcha dos dias não permite distinguir o arco-íris que contribui para contrariar o cinzento, de um arco de motivações obscuras, protagonizadas por lobos de falas atrevidas, disfarçados de cordeiros.’ (p. 79)

‘Como já disseste, a defesa dos mais frágeis é a fasquia definidora do humanismo, é a bitola por excelência capaz de revelar a medida exata do processo de humanização e de hominização de uma sociedade e de um tempo. Só que o mito da eterna juventude e do sucesso alicerçado no ter – que é exatamente o que é vendido pela(s) publicidade(s) com que somos continuamente matraqueados – impede justamente que aqueles que a maioria considera como «não sendo» ou «não tendo», sejam tratados precisamente como «não-seres», colocados na varanda da vida pela «borracheira» dos poderosos e não vão da escada para não estorvarem a passagem dos «bem-sucedidos» que não podem ser impedidos de subir os degraus do sucesso…’ (p. 93)

‘Estamos ainda convencidos de que justiça é tratar todos por igual… Que pobreza de raciocínio! Tratar todos por igual pode ser e é sempre uma forma suprema de injustiça disfarçada de bem.
Justiça não é nem pode ser dar exatamente a mesma coisa para todos. Isso será quando muito um igualitarismo bacoco, tão do agrado de certos ambientes pseudopolíticos. A palavra-chave terá de ser «subsidiariedade», quer dizer, em primeiro lugar respeito de mim por mim próprio e pelos outros, porque este tipo de organização social precisa de gente que tenha consciência de si, das suas necessidades, mas também das suas capacidades de contributo para o bem comum.
Eu sou responsável por mim e pelo meu irmão, seja ele quem for. Se um dia se chegasse a uma generalização de uma mentalidade deste calibre, não haveria mais ninguém a «viver à conta do orçamento». E não, não estou a falar do RSI! […] Lutar contra a injustiça e contra a exclusão é dar a cada um tudo o que precisa, mas só o que precisa, e exigir que, da sua parte, dê também o seu contributo. A sociedade deve dar tudo a quem, sem sombra de dúvida, não pode conseguir para si mesmo seja o que for, deve dar o que fizer falta a quem manifestamente se esforça por conseguir atingir os seus objetivos e não deve dar nada quer aos preguiçosos quer aos pulhas da roubalheira.’ (p. 105)

‘Só temos o direito de olhar alguém e cima para baixo quando for para o ajudar a levantar-se.’ (p. 144)

‘Não, a nossa liberdade não termina quando começa a liberdade do outro. Se cada um dos dois tiver a coragem de ir ao encontro de si próprio e para além de si próprio, dar-se-á conta disto mesmo.
Sou mais livre quanto mais somar a minha liberdade livre a outras liberdades livres para podermos fazer caminho em comum.’ (p. 152)

‘Depois de se ter já identificado como o «Deus dos teus pais», da tua família, da tua história, da tua identidade, Deus vai mais longe e toda a heresia: «Eu sou aquele que é sendo».
JF: Voltamos ao gerúndio?!
FV: Sim! A heresia está precisamente neste gerúndio… «sendo». Esta forma construída do verbo ser não se resume simplesmente a uma afirmação de Deus enquanto «existente». A tradução tem de ir mais longe, para além do simples «Eu sou aquele que sou», ao encontro da profundidade da mensagem. Eu sou Aquele que é… sendo contigo.’ (p. 158)

‘[…] a essencialidade essencial que nos define e determina como pessoas - «o ser de relação» -, persona do latim per sonum o «soar através de», a comunicação no seu sentido pleno e abrangente de construção do «próprio eu» diante de si próprio e dos outros, no seu «ser com», no seu comunicar, na sua sinodalidade relacional.’ (p. 168)

‘[O que falta é] ir à essência para sermos capazes de unir o palácio e a barraca, não por um abismo intransponível, mas pela descoberta e criação de formas novas, para que o palácio não viva no luxo e do luxo enquanto a barraca tem de viver no lixo e do lixo.
Se do pós-sínodo sairmos mais capazes de construir a consciência universal no sentido Teilhardiano do processo de hominização como espiral ascensional de complexidade de consciência, terá valido a pena o esforço e as penas porque passámos; veremos florescer o novum como continuidade e evolução, como memória que se faz história, como história que se faz vida, vida em abundância, para todos, sem excluídos, a não ser os filhos da autoexclusão.
Esta é a missão do agora, a ser proclamada e vivida na nova Ágora do tempo novo, que é o mundo todo e todo o mundo, solidamente ancorado no presente, fazendo memória do ontem, para que o amanhã possa ter sentido para todos os que se atrevem e têm a coragem de ser, sendo…’ (p. 173)


**(Título retirado de Daniel Faria, Dos líquidos, Porto, Edição Fundação Manuel Leão, 2000, p. 137)

*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Ensaios de liberdade', 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'

Imagem recolhida da BNP

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