domingo, junho 07, 2026

Sabes, leitor... | 30 | Marca de água do livro de Daniel Cohen, 'Uma [Muito] Breve História da Economia'

 


Rubrica ‘Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página’** | Marca de água de livros que deixam marcas profundas
Parceria: Federação Portuguesa pela Vida e Comissão Diocesana da Cultura

Luís Manuel Pereira da Silva*

O(s) autor(es) e a obra
Daniel Cohen, Uma [Muito] Breve História da Economia, Lisboa, Penguin Random House Grupo Editorial, 2025.

Daniel Cohen foi um muito prolífico e destacado economista francês, nascido em junho de 1953, na Tunísia. Sendo autor de uma vastíssima obra do âmbito da economia, não deixa de ser curioso verificar que lhe são atribuídos, pelos sites portugueses de livros, títulos de um outro autor francês homónimo. É-lhe, erradamente, atribuído o livro ‘Os genes da esperança’, da autoria de um outro Daniel Cohen, médico e geneticista que liderou o projeto ‘Genoma’.
Não precisa, porém, o ‘nosso’ Daniel Cohen de obras suplementares, pois é suficientemente vasto e relevante o seu labor de escrita, abruptamente interrompido, em agosto de 2023, pouco tempo depois de completar setenta anos, a idade em que o ‘U’ que configura a curvatura da felicidade volta a subir, como refere no último capítulo deste seu livro.
Confesso que descobri Daniel Cohen (o economista) com a leitura deste livro. E fico com pena de não lhe poder dizer, nesta vida, quanto isso me agradou. Terei de esperar (porque assim o espero…) pela eternidade (porque sou alguém que, como ele pede, no final do livro, acredito em ‘alguma coisa’…) para lho assegurar.
Esta é, por isso, uma obra póstuma que ele deixara alinhavada e que, em boa hora, a família decidiu levar ao prelo, ainda que sendo de aguardar que, como diz o irmão, Michel Cohen, no posfácio, esta obra venha a ser vertida para versão em banda desenhada, lembrando o que já tem ocorrido com outros ensaios.
Neste livro, Cohen mostra grande erudição e verve. Escreve e pensa muito bem. Domina, com a simplicidade dos especialistas (só um especialista consegue dizer, de modo simples, a complexidade dos grãos do conhecimento que a mó do tempo ajuda a mastigar e transformar em fina farinha).
Ilustra estas minhas palavras uma constatação muito simples. Eu comprara esta obra, no dia 27 de março, na feira do livro realizada na minha escola. Tomei-a em mãos, após ler excertos dos ‘escritos de teologia’, de Rahner, no dia 9 de abril, terminando a leitura no dia seguinte, 10 de abril. Deixei-me levar pela mão de Cohen em apenas dois dias. E fiquei tomado pela capacidade que revela de pôr a economia ao serviço da transformação do mundo.
É uma leitura muito recomendável.
Uma síntese que penso fazer justiça ao que Cohen evidencia neste seu livro é a que poderemos reunir na ideia de que a economia deve ser pensada como um instrumento, um meio de realização humana e nunca como um fim em si mesma. Uma ideia que, sendo comum na ética personalista e cristã (que sempre sublinha que só a pessoa é fim; tudo o mais é meio ao seu serviço…), não deixa de ser interessante encontrar num autor que não se presumindo ser cristão (não o perguntei, ao ler o livro, nem me deixei condicionar pela busca de o confirmar), poderia muito bem, na linha de Karl Rahner – que eu lera, antes desta incursão por ‘Uma [Muito] Breve História da Economia’ -, ser assumido como um ‘cristão anónimo’…

Marcas de água 

(o que fica depois de se deixar o livro)

Este é um livro de economia. Mas não é, apenas, um livro de economia. É um livro sobre a vida dos humanos de que fala a economia.
Deixa transparecer esta singela conclusão reparar que começa com a frase ‘O crescimento económico é a religião do mundo moderno’ (na Introdução) e termina com ‘Compete-nos agora repensar a ideia que temos de um mundo em harmonia consigo mesmo, que nos faça sentir «o prenúncio da felicidade e da paz»’.
De facto, Cohen mostra não ser um economista que se basta em projetar sobre o seu objeto de estudo e análise a técnica e a ciência adquiridas. Pretende, com elas, criar condições para o surgir de um mundo melhor.
Curiosamente, é exatamente o que pode constatar-se ao ver que o lema da ‘Paris School of Economics’, de que foi um dos fundadores, é ‘a ciência económica ao serviço da sociedade’.
Vislumbra-se este mesmo espírito, nos títulos das suas obras: ‘homo numericus’, ‘homo oeconomicus’, ‘a prosperidade do vício: uma introdução à economia’, etc. Obras que não se resumem a descrever economia, mas a ler o seu impacto na vida dos humanos.
Marcas omnipresentes nestes fascinante ensaio (de 158 páginas) onde, a pretexto da descrição da sumária história da economia, em que não se esquiva a desmontar preconceitos (como o de que as sociedades recolectores não tinham a ideia de acumulação de riqueza –à maneira das conceções de Rousseau e outros que vincaram, entre os nossos mais frequentes mitos, o do ‘bom selvagem’, totalmente desprendido e sem qualquer vínculo aos bens terrenos e efémeros), Cohen lança um fino olhar sobre as relações humanas, desvirtuadas do núcleo que deveria ser compreendermo-nos como pessoas e não objetos. E não deixa de olhar, enquanto percorre o fio da história, para as mais íntimas relações (inclusive as de natureza sexual) alertando para o custo de, por efeito da inveja e da digitalização afetiva, a vivência da sexualidade passar a acontecer sem atender à «bagagem emocional do outro».
É interessante, ainda, o modo como o faz. Cohen tem páginas repletas de dados, histórias, curiosidades, que acompanham, de um modo muito plástico, o que vai dizendo. Suscita uma dupla curiosidade: a de saber e a de informar. Cohen estruturou um ensaio cheio de dinamismo, em que recupera as lições da história (como a que concerne à do desenvolvimento e queda da ilha da Páscoa) para nos projetar para um futuro em que, tendo superado a lei de Malthus (que nos assegurava que, em períodos de crescimento, a população também cresceria, criando nova fase de quebra – vivemos um período de inverno demográfico), somos confrontados com o paradoxo de Easterlin, que nos evidencia que, apesar de estarmos mais ricos, não estamos mais felizes.
Talvez Cohen possa, com o conteúdo destas páginas, facultar-nos um oportuno contributo para que possamos encontrar, pela via da humanização das relações, a autêntica felicidade, via com que poderíamos, finalmente, construir as mais sólidas ‘leis da nossa casa’. A autêntica ‘economia’ (‘lei da casa’).

 

Na mesma página que o autor (citações)

‘[…] ao perdermos as relações humanas, perdemos a razão de ser das nossas atividades e, sem dúvida, a nossa própria razão de ser. Um robô de pele bem macia nunca será capaz de substituir uma enfermeira que cuida com carinho de uma pessoa idosa.’ (Do Prefácio, p. 15)

‘Em vez de desesperarmos com a ideia de que, se os chineses e os norte-americanos não mudarem de comportamento, é inútil mudarmos o nosso, devemos começar por mudar o que podemos mudar, à nossa escala. E isso não só, ou talvez nem sequer primordialmente, para mudarmos o mundo exterior, mas sobretudo para nos mudarmos a nós próprios. ’ (Do Prefácio, p. 15)

‘[…] Keynes afirmava destemidamente que, em 2030, as pessoais poderiam trabalhar três horas por dia e dedicar-se às tarefas verdadeiramente importantes: arte, cultura, metafísica. Infelizmente, a cultura e os problemas metafísicos não se tornaram as questões principais do nosso tempo. As sociedades modernas continuam a buscar mais do que nunca a prosperidade material, apesar de se terem tornado seis vezes mais ricas do que na altura em que Keynes escrevia.’ (Da Introdução, p. 22)

‘O crescimento deixou de ser um meio para atingir um fim, para se tornar um fim em si mesmo, que permite às pessoas escaparem do tormento da existência.’ (Da Introdução, p. 22)

‘Para sair do subemprego, o remédio keynesiano é […] simples: temos de gastar, gastar a todo o curso, mesmo que seja necessário contratar desempregados para, à tarde, taparem os buracos que eles próprios abriram nesse dia de manhã.’ (pp. 66-67)

‘No auge da guerra, Churchill encomenda, em novembro de 1940, um relatório para combater tanto as consequências sociais da crise dos anos 1930 como as provocadas pela guerra. O relatório será tornado público em 1942. William Beveridge define os princípios que hoje em dia são os nossos. O Estado tem a responsabilidade de lutar contra as cinco pragas da humanidade: «a doença, a ignorância, a dependência, a decadência e os bairros de lata».’ (p. 67)

‘Numa empresa das décadas de 1950 e 1960, o refeitório, a vigilância, a limpeza e a contabilidade estavam a cargo de funcionários da mesma. Com a revolução financeira dos anos 1980, nenhum destes serviços continua a ser prestado internamente, ficando os prestadores de serviços sujeitos às leis da concorrência. Sonha-se com empresas sem funcionários.’ (p. 80)

‘A crise do subprime foi desencadeada por várias bombas-relógio. Em primeiro lugar, no período que antecedeu a crise, houve um facto que saltou rapidamente à vista: a qualidade dos créditos deteriorou-se bastante, mesmo tendo em conta a nova clientela a que se dirigiam. A solvência dos clientes foi sistematicamente sobrevalorizada pelos intermediários responsáveis pela distribuição dos empréstimos. […]
Com a ajuda das agências de notação, os investidores fabricaram então instrumentos considerados livres de risco, classificados como AAA.’ (p. 84)

‘A história da China ilustra bem esta mutação do capitalismo moderno: é o exemplo acabado de um país que foi, durante muito tempo, o mais poderoso do mundo, a seguir um dos mais pobres, e que volta a ser um dos mais ricos.’ (p. 95)

‘Dos treze aos dezoito anos, 6 horas e 45 minutos por dia são dedicados a estes aparelhos [tablets e telemóveis]. Por isso, chegámos a um número em que os adolescentes dedicam 40% do tempo que passam acordados em frente a um ecrã! A vida psíquica e afetiva destes jovens é marcada por vagas de melancolia e euforia, o que se reflete em efeitos prejudiciais na alimentação e em riscos frequentes de obesidade. A atenção dos adolescentes é gravemente afetada pelo zapping, pela impulsividade, pela impaciência… A leitura de um livro, que pressupõe dar o ao autor tempo para instalar personagens ou um raciocínio, é constantemente impedida por uma relação compulsiva com o telemóvel, o que torna impossível manter o foco em qualquer outra coisa.’ (p. 116)

‘A consulta compulsiva do telemóvel é rotulada com um termo agora famoso: o FOMO, o Fear Of Missing Out, que exprime esta inquietante preocupação de perder algum coisa, quer se trate de «informação», de um fofoca, de uma oportunidade. A capacidade de atenção dos adolescentes em relação ao mundo real atingiu o seu mínimo histórico.’ (p. 117)

‘[…] a sexualidade na era digital dispensa o incómodo de ter de gerir «a bagagem emocional do outro». O sexo sem amanhã cria um estado psíquico em que cada um dos dois parceiros se considera com total domínio, sem dependência do outro, o que é quase o oposto do que uma relação romântica implica. O amor, de acordo com o Tinder, causa um vaio existencial que o interessado deve preencher multiplicando os encontros numa fuga para a frente, que é perfeitamente representativa dos comportamentos de dependência provocada pela sociedade. […] Ao distinguir radicalmente entre sexo e sentimento amoroso, a sexualidade digital faz-nos perder a capacidade de reconhecer o outro na sua integralidade, como pessoa, numa relação em que todos esperam que o ente querido abra as portas de uma vida a inventar.’ (pp. 119-120)

‘Em trinta anos, em França, o consumo de drogas psicotrópicas aumentou seis vezes. Nos Estados Unidos, os indicadores de bem-estar diminuíram quase 30% em comparação com o nível atingido na década de 1950. Estudos sucessivos apontam para o mesmo resultado: a felicidade regride ou estagna nas sociedades ricas, em França como noutros países.’ (p. 137)

‘O economista Richar Easterin publicou, em 1974, um estudo que teve grande repercussão e que iria atrair a atenção dos economistas […]. Acompanhando durante trinta anos as respostas à pergunta: «É feliz?», mostrou que não se observava nenhuma variação ao longo do tempo, apesar de ter havido um extraordinário enriquecimento durante esse período. É o que os economistas denominarão paradoxo de Easterlin. Os franceses são incomparavelmente mais ricos em 1975 do que em 1945, mas não são mais felizes. Porquê?’
[…] o consumo é viciante. O prazer que proporciona é efémero, mas o desespero é imenso quando ficamos privados dele.’ (pp. 138-139)

‘[…] Um dos segredos da felicidade pode ser resumido de forma bastante simples: compare-se com quem tem menos.[…]
Ganhe dinheiro, mas sem fazer disso uma doença. […]
Envelheça com elegância. […]
Não se compare com os demais em termos de beleza. […]
«Acredite nalguma coisa: Deus, a justiça social ou a beleza da Natureza; é preciso um meaning of life para ser feliz e fugir de si próprio.
Ajude os demais: o altruísmo afasta-o de si próprio, o que é benéfico […]
Controle os seus desejos. […]
Preserve os seus amigos: são os tesouros mais preciosos, mesmo que sejam os menos visíveis.
Viva integrado num casal, porque a solidão não é benéfica.
Aceite quem é e faça uma gestão radical das suas fraquezas.’ (pp. 149-150)


**(Título retirado de Daniel Faria, Dos líquidos, Porto, Edição Fundação Manuel Leão, 2000, p. 137)

*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Ensaios de liberdade', 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'

Imagem recolhida do site da Penguin

'Os Sete Dias da Criação' |10| Luís M. P. Silva - O primeiro dia feito de uma tarde e uma manhã: ‘E foi tarde e foi manhã: dia um’

 

(‘Os Sete Dias da Criação’ | Rubrica dedicada ao diálogo entre ciência e religião)
Artigo originalmente publicado na revista 'Mundo Rural'

Luís Manuel Pereira da Silva*

Prossigamos com a nossa reflexão sobre as relações entre a ciência e a religião, seguindo os ‘sete dias da criação’.

A força e densidade que o dia primeiro nos reserva fazem-nos nele permanecer mais um pouco.

A tradução da difusora bíblica (de acordo com a publicação disponibilizada em https://www.paroquias.org/biblia/), diz-nos, ainda, sobre este dia, que ‘Assim, surgiu a tarde e, em seguida, a manhã: foi o primeiro dia.’ Nesta opção de tradução, o dia aparece referido de modo ordinal: o primeiro. Uma leitura mais fina permite-nos, porém, constatar que o autor bíblico se refere, antes, a esta sequência com uma menção cardinal: ‘dia um’ ou ‘um dia’[1] , como quem está a contar ao ritmo da própria descrição e não como quem já sabe que há um seguinte.

A iniciativa é, efetivamente, de Deus e não do autor que escreve.

Reparemos, ainda, que a ordem – tantas vezes distraidamente desatendida – é a de que, primeiro, vem a tarde, e só depois, a manhã. ‘E foi tarde e foi manhã: dia Um’, traduz D. António Couto, que acrescenta, em rodapé, que ‘esta maneira de descrever o dia, do pôr-do-sol ao pôr-do-sol, está sob a influência do calendário lunar, em que o dia começa e acaba com o pôr-do-sol’[2].

Mantemos reminiscência desta organização do tempo na nossa liturgia que celebra, após o pôr-do-sol de sábado, a eucaristia dominical.

Servem-nos estas notas para constatar que a novidade bíblica está presente, para além da noção de criação (ausente das cosmogonias circundantes), na própria conceção de tempo. Certamente, sofrendo influências dos povos envolventes (no próprio ano lunar que o cristianismo veio a substituir pelo solar, por influência romana e por ação cientificamente fundamentada de sucessivos Papas, entre os quais deveremos destacar João III (século VI) e Gregório XIII (século XVI)), o texto bíblico preconiza uma revolução na conceção de tempo, seja porque o situa (como já anteriormente sublinhámos) na ordem da criação (e não como existindo antes do início da criação, como sustentavam as conceções circundantes, que atribuíam um ‘tempo dos deuses’), seja porque supera a leitura circular do tempo, para criar a ideia da sequencialidade e progressividade, noção que criou a ‘forma mentis’ ocidental. Bem certo que a sedução da circularidade temporal vai reemergindo (F. Nietzsche defendeu-a, no final do século XIX, na sua crítica feroz ao judeo-cristianismo), mas a compreensão bíblica fez ‘cultura’ e fecunda o modus cogitandi que molda as nossas sociedades. Estes dois ‘lados’ da conceção temporal bíblica andam de mãos dados: a condição criatural e a sua ‘tensão’ para o plus que é Deus. Dizem-no, de modo claro, os autores do Vocabulário de Teologia Bíblica: ‘o ato criador marca o começo absoluto do tempo que é o nosso, bem como todo o resto da criação; mas Deus preexistia a esse tempo. Aquilo que se desenvolverá no tempo é plano dEle, ordenando, primeiramente, toda a criação com vistas ao homem, e depois dirigindo o fim do homem com vistas a um fim misterioso.[3]

E como sabemos quão importante é o tempo que não regressa!

Como recorda Colin Stuart, no seu muito curioso livro ‘Tempo: 10 coisas que deve saber’, é desta noção do tempo que flui para diante e não regressa que resulta valorizarmos cada parte do tempo de que dispomos. ‘A mais ínfima fração de segundo poderá ser a diferença entre o ouro e a prata. Essa fração pode, também, valer-lhes uma fortuna. Em 2009, trabalhadores da construção civil instalaram um cabo subterrâneo de 1300 quilómetros, entre as bolsas de valores em Chicago e Nova Iorque, com o custo de 180 milhões de dólares. Tudo para reduzir 0,000004 segundos ao tempo que demora a enviar informação comercial entre os dois polos. Até mesmo essa pequena diferença aumentou os lucros em 12 mil milhões de libras por ano, numa indústria em que o tempo é, literalmente, dinheiro.[4]

Para os que pretendem recolher do texto bíblico uma qualquer conclusão de que este se oponha ao progresso e ao desenvolvimento não poderá, senão, questionar-se sobre se tomaram o texto no seu todo ou se só o tomaram na literalidade de um fragmento. Mas importa, bem certo, perguntar para que destino se encaminha esse progresso.

E essa, sim, é questão a que é fundamental responder regressando ao texto bíblico. É que cada uma das oito obras da criação ocorridas nos seis dias da criação só ocorre porque, segundo o autor bíblico, ‘E disse Deus’. Para existir, a criação depende de Deus. E se n’Ele não permanecer, perece… É nada! Não é criação. Não existe.

‘Para onde progride o tempo que flui?’ – Parece ser a pergunta implícita deixada pelo autor bíblico, ao recordar-nos que ‘E chamou Deus à luz dia e às trevas chamou noite. E foi tarde e foi manhã: dia UM[5]’.


Sugestões bibliográficas:

 

D. António Couto, O livro do Génesis, Leça da Palmeira, Letras e Coisas-livros, 2013.

Gerhard von Rad, El libro del Génesis, Salamanca, Ediciones Sígueme, 19887.

Colin Stuart, Tempo: 10 coisas que deve saber, Lisboa, Vogais, 2024.

Xavier Léon-Dufour, Vocabulário de Teologia Bíblica, Petrópolis, Vozes, 20027.


[1] Cfr. D. António Couto, O livro do Génesis, p. 30.

[2] Ibidem, nota 73, p. 30.

[3] Xavier Léon-Dufour, Vocabulário de Teologia Bíblica, col. 1008.

[4] Colin Stuart, Tempo: 10 coisas que deve saber, pp. 17-18.

[5] D. António Couto, O livro do Génesis, p. 30.


*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano', 'Ensaios de liberdade' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'

quarta-feira, maio 20, 2026

'Os Sete Dias da Criação' |9| Luís M. P. Silva - Continuamos no primeiro dia: ‘Deus disse: «Faça-se a luz.» E a luz foi feita.’ A luz é criada; as trevas são separadas…

 

(‘Os Sete Dias da Criação’ | Rubrica dedicada ao diálogo entre ciência e religião)
Artigo originalmente publicado na revista 'Mundo Rural'

Luís Manuel Pereira da Silva*

 

Continuamos a refletir sobre as relações entre a ciência e a religião, seguindo os ‘sete dias da criação’.

Mantemo-nos no primeiro dia. A densidade do texto a isso nos obriga.

Na tradução da difusora bíblica (de acordo com a publicação disponibilizada em https://www.paroquias.org/biblia/), assim foi o primeiro dia: ‘Deus disse: «Faça-se a luz.» E a luz foi feita. Deus viu que a luz era boa e separou a luz das trevas. Deus chamou dia à luz, e às trevas, noite. Assim, surgiu a tarde e, em seguida, a manhã: foi o primeiro dia.’

Às inúmeras e significativas constatações que já nos foi possível fazer, a partir destes três versículos, podem acrescentar-se as que, seguidamente, enunciaremos.

Não sem antes recordar, com Gerhard von Rad, que ‘além dos dois enunciados sobre a criação aduzidos até agora (diferença de essência em relação a Deus, e dependência d’Ele), aparece mais outro que é digno de apreço: a criatura que entrou na existência é tob (boa), termo no qual mais do que um juízo estético há uma indicação de que a criatura é conforme ao seu fim, ajusta-se a ele […]’[1].

Já o tínhamos anotado, anteriormente (tínhamos sublinhado o alcance do significado da ideia de ‘criação’ e evidenciado que, na perspetiva bíblica, esta é ‘boa’, contrariamente às visões pessimistas que circundavam o povo bíblico), mas pretendemos, agora, evidenciar um aspeto de que nos dá conta Santo Agostinho, com enorme impacto e significado que só muito sumariamente aqui destacaremos.

Diz Santo Agostinho, no seu ‘Da interpretação do Génesis: dois livros contra os maniqueus’: ‘E Deus separou a luz das trevas e chamou Deus à luz dia e às trevas chamou noite. Não se diz neste passo «Deus fez as trevas» pois estas […] mais não são que a ausência de luz e, portanto, simplesmente se procedeu à separação entre ambas. De igual modo nós, gritando, produzimos a voz; e, estando calados, produzimos o silêncio, porque a cessação da voz é o próprio silêncio; e, todavia, num certo sentido, distinguimos a voz do silêncio e a uma coisa chamamos voz e a outra chamamos silêncio. Do mesmo modo que com razão dizemos «fazer silêncio», também em múltiplos passos das Divinas Escrituras com razão se diz que Deus fez as trevas porque ou não dá ou subtrai a luz àqueles momentos e lugares que pretende.[2]

Estamos perante os alicerces da visão de Santo Agostinho sobre o problema do mal. Recorde-se que esta matéria é uma daquelas em que mais notoriamente se evidencia o que o cristianismo trouxe a este genial santo. Na verdade, ele fora, durante longo período da sua vida, um maniqueu. Defendera, por isso, a ‘substancialidade’ do mal. O mal tinha, na perspetiva maniqueia, consistência ontológica, pelo que se exigia, tal como para o bem, uma origem absoluta. Para os maniqueus, o mal e o bem tinham respetivos criadores, sendo o mundo o palco desse «eterno» combate entre os dois princípios.

A leitura judaico-cristã da criação trouxe nova luz sobre esta matéria que, nesta passagem de Santo Agostinho, se torna particularmente evidente: só o bem tem consistência ontológica, porque define a natureza daquilo que é, do ser que, por existir e corresponder ao que é, é bem. O mal, a esta luz, é a insuficiência do bem, a não realização do bem, o não-ser, o nada-ser. Não carece, por isso, de uma origem absoluta que, efetivamente, não tem.

O bispo de Hipona explicita, deste modo, uma nova ponerologia (em grego, ‘ponêrós’ significa ‘mau, em mau estado, defeituoso, etc.[3]’), uma reflexão sobre o mal, compreendendo-o como a ‘insuficiência’, a ‘ausência’ do bem, o que não implica que ‘ser insuficiente’, ‘ficar-se aquém do bem que se pode realizar’ não seja sedutor e destrutivo. Mas tal deverá compreender-se como ‘não realização’ e não como uma outra criatura, originada por um criador negativo.

Tendo em conta tal abordagem, é possível concluir-se, como faz Andrés Torres Queiruga[4], que Deus é o ‘anti-mal’, intrinsecamente pensável como origem do bem e o fim último da máxima realização e não como o criador do mal, de que Ele mesmo é, afinal, o redentor, ao orientar tudo para o bem e ao compadecer-se da irrealização da Sua criatura.

As implicações para as dimensões existenciais da humanidade são inúmeras, em particular a que Von Rad deixava implícita: a realização das criaturas (entre eles, sobremaneira, o ser humano) ocorre se elas corresponderem ao fim para que foram criadas. Realizar o fim para que se foi criado é o bem. Dele desviar-se é o mal.

E assim se separa o bem (criado e pretendido por Deus) do mal, insuficiência e ausência do bem, por divergência de realização.

Concluamos esta nossa etapa da reflexão com mais uma interessante constatação, recolhida, também, de Santo Agostinho. Num seu outro livro dedicado a Génesis, o santo de Tagaste (lugar do seu nascimento) evidencia que a luz, primeira criatura de Deus[5], ‘seja corpórea ou incorpórea, é mutável’[6]. É uma intuição que antecipa, em muitos séculos, a de Einstein de que a luz é finita.

A riqueza que pode recolher-se de Génesis, se a abordagem que dele fizermos não confundir os planos e não errar nas interrogações a fazer-lhe. Pretender de Génesis que nos responda às perguntas que cabem à ciência, baralha os planos e gera conflitos que a história já nos ensinou a evitar. Perguntar-lhe sobre o sentido do mundo e da existência é encaminhar-se no sentido adequado.

Disso precisaremos, ao avançar para os dias subsequentes. Assim, por exemplo, perante o sentido literal dos versículos que se referem ao segundo dia, em que, implicitamente, se supõe uma cosmologia (leitura da ordem que o universo tem) que não é, já a nossa. Fazer uma abordagem acomodatícia, como a já descrita, em passos anteriores da nossa reflexão, pode dar-nos condições para o início de uma compreensão equilibrada, mas não é, ainda, a forma final que deveremos adotar, pois ainda supõe a análise literalista do texto bíblico. Esse será o nosso desafio, nas reflexões futuras: encontrar modos de recolher do texto bíblico toda a densidade do que tem a transmitir-nos, como sagrada escritura; no justo equilíbrio entre a redução à ciência ou a redução à Bíblia. Como bem recordava, a pretexto da condição humana, Viktor Frankl, o erro de todo o reducionismo é o de pretender que uma determinada realidade ‘nada mais é do que’… O saber, o conhecimento humano é muito mais do que só este ou aquele discurso. Muito ganhará de recolher sabedoria dos diversos discursos. Com essa meta nos propomos avançar… Outros dias virão.


Sugestões bibliográficas

Andrés Torres Queiruga, Repensar el mal: de la ponerología a la teodicea, Madrid, Editorial Trotta, 2011

  1. António Couto, O livro do Génesis, Leça da Palmeira, Letras e Coiras-livros, 2013.

Santo Agostinho, Da interpretação do Génesis: dois livros contra os maniqueus, Prior Velho, Paulinas, 2021.

Gerhard von Rad, El libro del genesis, Salamanca, Ediciones Sígueme, 19887.


[1] Gerhard von Rad, El libro del genesis, Salamanca, Ediciones Sígueme, 19887, p. 62.

[2] Santo Agostinho, Da interpretação do Génesis: dois livros contra os maniqueus, Prior Velho, Paulinas, 2021, número 15, pp. 67-68.

[3] Isidro Pereira, Dicionário grego-português e português-grego, Braga, Livraria A.I., 19908, P. 474.

[4] Cfr. Andrés Torres Queiruga, Repensar el mal: de la ponerología a la teodicea, Madrid, Editorial Trotta, 2011, pp. 263ss.

[5] Cfr. D. António Couto, O livro do Génesis, Leça da Palmeira, Letras e Coisas-livros, 2013, p. 30.

[6] Santo Agostinho, Da interpretação literal do Génesis: uma obra inacabada, Prior Velho, Paulinas, 2021, p. 158


*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano', 'Ensaios de liberdade' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'


quinta-feira, maio 07, 2026

Sabes, leitor... | 29 | Marca de água do livro de Frei Fernando Ventura e Joaquim Franco, 'Todos nós somos sendo: o primado da liberdade e a cautela da consciência'

 


Rubrica ‘Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página’** | Marca de água de livros que deixam marcas profundas
Parceria: Federação Portuguesa pela Vida e Comissão Diocesana da Cultura

Luís Manuel Pereira da Silva*

O(s) autor(es) e a obra
Frei Fernando Ventura e Joaquim Franco, Todos nós somos sendo: o primado da liberdade e a cautela da consciência, Lisboa, Contraponto, 2022.

As conversas de Frei Fernando Ventura com o jornalista Joaquim Franco deram bons livros. Excelentes livros, aliás! O esperado, afinal, quando se juntam, à mesma mesa, um notável biblista em cuja vida se juntam muitas vidas e um fino jornalista.
De ‘Do eu solitário ao nós solidário’, em 2011, a ‘Somos pobres mas somos muitos’, em 2013, ambos editados pela Verso de Kapa, até, por último, este ‘Todos nós somos sendo’, publicado em 2022, pela Contraponto, Frei Fernando Ventura e Joaquim Franco passam, a pente fino, toda a estrutura capilar a sociedade… Sem deixar escapar qualquer ‘piolho’, para explorar a metáfora implícita na expressão a que deitei mão: ‘passar a pente fino’. Assim é a escrita e a coloquialidade de Frei Fernando Ventura, na qual se percebe, a cada passo, a linguagem de um biblista de reconhecida autoridade e que repercute, no seu dizer, o modo próprio de Deus se dizer na Bíblia: narrando, contando histórias, dizendo o mundo através de imagens que são palavra a acontecer.
Na vida de Frei Fernando Ventura, há muitas vidas. Seja porque a sua é uma vida dedicada a outros (e o que se é nasce do ser-se com os outros…), seja porque a sua tem sido uma vida de muitos ‘viveres’ transformadores: desde a profundidade do homem que reflete e escreve, com uma facilidade singular (é, também, o diretor da revista mensal ‘Bíblica’), que ensina (foi docente do ISCRA, em Aveiro, onde nos conhecemos), mas também que arregaça mangas e se envolve na transformação profética do mundo.
E de Joaquim Franco pode esperar-se a pertinência das interrogações e a atenção às entrelinhas a que vai buscar novas sendas pelas quais se envereda a conversa, atenta à realidade, mas também à diversidade semântica das alusões. Pois que Frei Fernando Ventura enriquece os diálogos de conteúdos que, pela sua densidade, permitem olhares penetrantes sobre o real, tantas vezes opaco ou diluído.

 

Marcas de água 

(o que fica depois de se deixar o livro)

O título de ‘Todos nós somos sendo’ anuncia ao que se vai. Cada um dos títulos é, aliás, um programa. E, neste, na densidade teológica implícita (o título repercute a tradução que propõe Frei Fernando Ventura para o mais célebre tetragrama de sempre – YHWH: ‘Eu Sou Aquele que É, sendo!), como que dizendo, implicitamente, que, do que de Deus se pode dizer terá de se pensar da humanidade como aquela que é criada à Sua imagem e semelhança. E se de Deus o que se sabe (porque no-lo revelou) é que é um Deus-Relação, não poderá pensar-se diferente em relação à humanidade.
A este subentendido bíblico-teológico, o título também soma a surpresa do primeiro confronto com o desconcerto da formulação. Não nos pensamos, espontaneamente, como aqueles que são, sendo. Pensamo-nos como aqueles que são porque são, indivíduos isolados e autossuficientes. Esperar-se-ia um ‘todos nós somos o que somos’, repercutindo a fatalista compreensão que supõe o concomitante encolher de ombros de quem se rende à condição recebida e acabada.
Mas essa não é a linha de Frei Fernando Ventura.
‘Somos, sendo’ implica a contingência, a indigência de se saber inacabado e dependente, porque essa é, afinal, a nossa genuína condição. Dela fala, praticamente do primeiro ao último diálogo, este livro. Visão que contraria as leituras ‘de paraíso perdido’ que nos convencem da não necessidade de ninguém nem Ninguém…
É um livro feito de uma plasticidade de imagens que, para quem já ouviu Frei Fernando Ventura em intervenções públicas, confere uma naturalidade a cada página que quase nos permite reinvocar cada palavra ouvida ao vivo.
O dizer aqui escrito fala do dizer dito e do ‘dizer vivido’ de frei Fernando Ventura que joga com a surpresa e com a polissemia dos termos e das metáforas. A que soma um conhecimento detalhado das línguas bíblicas (do hebraico ao grego e, mesmo, ao aramaico), que permite levar o leitor a realizar descobertas bíblicas, no meio das problematizações sobre o viver atual.
É, ainda, um livro de coragem e liberdade, subentendidas no subtítulo – ‘o primado da liberdade e a cautela da consciência’. Com a distância própria dos profetas, os que falam a partir da experiência de Deus, que os faz ler em profundidade a realidade (do passado ao futuro, sem, porém, o ser com a atitude do adivinho, mas do homem de pés no chão e olhar no horizonte maior), Frei Fernando analisa, criticamente, as opções contemporâneas, das económicas que ‘matam’ (repercutindo o pensamento de Francisco e de S. Francisco – não fosse Frei Fernando ele próprio um franciscano!) às que se propõem, em tempos de morte pandémica, legalizar a morte suavemente designada como ‘eutanásia’ (boa morte!).
A este propósito, merecem destaque as suas palavras:
‘[…] aqueles que passaram, como eu, pela experiência de perder alguém próximo como eu perdi o meu pai, sem COVID-19, mas isolado meses a fio numa instituição de acolhimento, sabem que nada disto é normal e nada disto pode ser normalizável.
Também neste contexto se pode medir o grau de incompreensível derrapagem no «gesto» do parlamento do nosso país, que aprova a eufemisticamente chamada lei da eutanásia (boa morte), que discute condições de morte, precisamente num tempo em que saltava à evidência de todos que o que não temos são condições de vida. Ver os «senhores» deputados em pé a aprovar legislação de morte, quando tantos estavam deitados em ambulâncias à porta dos hospitais à espera da sua vez de (não) morrer, sinceramente… senti nojo!
Senti isso e, contemporaneamente, o risco de nos esquecermos de todos os outros que não foram e continuam a não ser objeto de estudo numérico, mas que engrossarão os números dos «adiados» que morrerão mais tarde, porque esquecidos, porque objetivamente, o mundo, o nosso mundo, parecia ter deixado de ter condições de vida.’ (pp. 32-33)
Em toda a realidade incide, acutilantemente, o olhar de Frei Fernando para nela descortinar os sinais de autocentramento e abandono dos que ‘nada-tendo’ são transformados em ‘nada-sendo’.
Não o faz para que a denúncia seja o fim do discurso, mas, antes, o início do percurso de transformação, pois, como diz Luís Osório, no prefácio, este é um livro ‘carregado de esperança’. Não a que nasce de um vago e alienado desejo de que seja diferente (que rapidamente poderia redundar, por ser ilusão, na maior das desilusões), mas que tem origem na consciência de que, na raiz da mais genuína esperança, está uma Aliança, que nos diz provirmos de um Deus que não é ‘sido’, mas ‘sendo’. Um tal entendimento contraria os pressupostos individualistas que fecham na convicção de se bastar a si mesmo, como se, as nossas liberdades se estorvassem umas às outras. Não!
Frei Fernando recorda uma ideia que também nós temos sublinhado, repetidamente: as nossas liberdades não se limitam umas às outras. Antes, potenciam-se umas às outras e são condição de possibilidade umas das outras. Sem os outros, poderíamos dizer, nada somos. Somos, sendo com os outros.
É por isso que podemos, também, concluir com Frei Fernando Ventura que ‘a defesa dos mais frágeis é a fasquia definidora do humanismo, é a bitola por excelência capaz de revelar a medida exata do processo de humanização e de hominização de uma sociedade e de um tempo.’ (p. 93)
Numa sociedade humanizada, verdadeiramente humanista, não uma sociedade (mundo) […] «solteira de afetos, viúva de emoções e divorciada de compromissos», mas feita de e para as pessoas, ‘só temos o direito de olhar alguém e cima para baixo quando for para o ajudar a levantar-se.’ (p. 144), ideia que o Papa Francisco veio a repetir, no ano seguinte ao da publicação deste livro, na Jornada Mundial da Juventude, em Lisboa.
É desse sonho de olhos abertos que fala este livro. O sonho de que ‘o palácio não viva no luxo e do luxo enquanto a barraca tem de viver no lixo e do lixo.’ (p. 173)
Um sonho acordado e de acordados que se reconhecem como irmãos: ‘Essa utopia resume-se a três princípios à espera desse espaço: hospitalidade, solidariedade e fraternidade; tal como toda a reflexão ética se pode resumir à gestão, em cada segundo da existência, a três palavras: quero, posso, devo. É da resposta a cada uma destas três palavras em cada segundo de existir que existo ou não existo como pessoa, como ser de relação, comigo, com os outros, com o universo e com Deus.’ (p. 38)
À maneira franciscana (do Francisco de há oitocentos anos…), falamos de um sonho em que tudo e todos são irmãos: do mundo aos Mundos. Para que, no imundo mundo se realize uma autêntica fraternidade. Pois que outra coisa é senão o reconhecimento de todos sermos irmãos?! Reconhecidos como provindo d’Aquele que nos possibilita sermo-lo. Irmãos porque provindos do Mesmo Pai, Deus-connosco, Aquele que, ‘Sendo-Connosco’, nos faz ‘Sendo-Com-Todos’.

Na mesma página que o autor (citações)

‘[…] como frei Fernando nos diz – e o papa Francisco por outras palavras – a nossa sociedade (mundo) é «solteira de afetos, viúva de emoções e divorciada de compromissos». Do prefácio, p. 11

‘É […] um livro carregado de esperança. Apesar de todos os apesares Todos Nós Somos Sendo convoca-nos para não faltarmos ao jogo decisivo de que somos todos protagonistas. Um bilhete para que possamos está à hora certa na estação onde um dia teremos a oportunidade de nos revelar por dentro. Nesse momento decisivo, a superfície não nos valerá de nada.’ Do prefácio, p. 12.

‘[…] cada ponto de chegada é, ao mesmo tempo, tem de ser, um ponto de partida. E este que vivemos é o tempo por excelência da metanoia, de ir para além de nós, para além da ponta do nosso nariz existencial, em direção ao desconfinado mundo das ideias e das relações, para encontrar sempre novas fronteiras, sempre novas metas de compreensão que há que entender e ultrapassar para ser possível, vencer o medo e os medos, o medo e os medos que matam, o medo e os medos com que nos querem «matar», porque a forma mais eficaz para controlar alguém é controlar-lhe os medos. Controlar qualquer sociedade é ter o poder de controlar e gerir os medos que tolhem e que nos fazem saltar para o primeiro colo que se apresente a oferecer acolhimento capaz de «tirar o medo». Foi sempre assim que nasceram os ditadores, foi sempre assim que se instalaram as ditaduras… este é um dos meus medos… não confio em nenhum colo dos que estão disponíveis por aí…’ (p. 28)

‘[…] aqueles que passaram, como eu, pela experiência de perder alguém próximo como eu perdi o meu pai, sem COVID-19, mas isolado meses a fio numa instituição de acolhimento, sabem que nada disto é normal e nada disto pode ser normalizável.
Também neste contexto se pode medir o grau de incompreensível derrapagem no «gesto» do parlamento do nosso país, que aprova a eufemisticamente chamada lei da eutanásia (boa morte), que discute condições de morte, precisamente num tempo em que saltava à evidência de todos que o que não temos são condições de vida. Ver os «senhores» deputados em pé a aprovar legislação de morte, quando tantos estavam deitados em ambulâncias à porta dos hospitais à espera da sua vez de (não) morrer, sinceramente… senti nojo!
Senti isso e, contemporaneamente, o risco de nos esquecermos de todos os outros que não foram e continuam a não ser objeto de estudo numérico, mas que engrossarão os números dos «adiados» que morrerão mais tarde, porque esquecidos, porque objetivamente, o mundo, o nosso mundo, parecia ter deixado de ter condições de vida.’ (pp. 32-33)

‘JF: [as] palavras de Francisco abrem-nos à utopia. Falta ver a humanidade abraçar todas as contrariedades e dar espaço à criatividade?
FV: Essa utopia resume-se a três princípios à espera desse espaço: hospitalidade, solidariedade e fraternidade; tal como toda a reflexão ética se pode resumir à gestão, em cada segundo da existência, a três palavras: quero, posso, devo. É da resposta a cada uma destas três palavras em cada segundo de existir que existo ou não existo como pessoa, como ser de relação, comigo, com os outros, com o universo e com Deus.’ (p. 38)

‘JF: Deus… casado?!
FV: Claro que sim! É a Aliança que dá sentido a tudo. Repara num detalhe aparentemente banal. Logo no início da Bíblia, no primeiro capítulo do Livro do Génesis, quando se fala da criação à luz dos critérios e conhecimentos do tempo – o autor ou autores do Génesis não querem explicar como é que o mundo foi criado, mas sim quem criou o mundo -, o texto diz que ‘o Espírito pairava sobre a superfície das águas»; logo, sozinho, «solteiro»…
Vamos agora praticamente à última frase da Bíblia, Apocalipse 22,17, vês o que lá está? «O Espírito e a esposa dizem Vem!»
É fantástico! Deus «começa» solteiro em Génesis e termina casado em Apocalipse. […]’ (p. 43)

‘Na continuidade do projeto criacional, não é já só a Ruah (o espírito, o sopro criador) de Deus que paira sozinho, solitário sobre as águas. Ao criar Adam, Deus reinventa-se num «nós» relacional. É um Deus ao contrário dos deuses…’ (p. 51)

‘Na Hungria, em setembro de 2021, o papa defendeu que o grande confronto não é entre religiosos e não religiosos, mas «entre o Deus verdadeiro e o deus que é o próprio eu». Francisco disse que «a lógica de Deus» é a do «amor humilde», que «o caminho de Deus evita qualquer imposição, ostentação e triunfalismo, visa sempre o bem dos outros, indo até ao sacrifício de si mesmo», enquanto, do outro lado, «temos o pensar segundo os homens», isto é, «a lógica do mundo, presa às honras e privilégios, tendente ao prestígio e ao sucesso».’ (p. 57)

‘Perdoa-me repetir sempre este estribilho, mas estou profundamente convencido quer da sua verdade, quer da sua urgência. Independentemente das variadas opções de vida que nos podem não separar, mas diferenciar, o sentido último do «ser em relação» é ser gente com gente, para que cada vez mais gente seja gente e nunca ninguém deixe de ser pessoa.’ (p. 67)

‘JF: O Apocalipse é um livro difícil, do qual se fazem muitas e habilidosas hermenêuticas…
FV: Porque é lido como sendo o livro das «desgraças finais», mas não é. É o livro da nova criação, da nova Jerusalém, do cumprimento definitivo da esperança. Apocalipse significa «revelação».’ (p. 70)

‘[…] hoje, mais do que nunca, são necessários profetas. É preciso continuar na mesma linha de reflexão. O profeta de ontem e de hoje não é um adivinho, muito menos um agoureiro anunciador de desgraças. O profeta não vive no passado nem no futuro. O profeta vive no hoje e em cada hoje faz memória do ontem, para descobrir e anunciar o sentido do amanhã.’ (p. 73)

‘[…] O problema é que quando o cinzento é a cor da moda, o arco-íris é visto como um insulto.

JF: Ou uma sedutora dança da cobra…
FV: Ah, pois! Esse é outro drama. A marcha dos dias não permite distinguir o arco-íris que contribui para contrariar o cinzento, de um arco de motivações obscuras, protagonizadas por lobos de falas atrevidas, disfarçados de cordeiros.’ (p. 79)

‘Como já disseste, a defesa dos mais frágeis é a fasquia definidora do humanismo, é a bitola por excelência capaz de revelar a medida exata do processo de humanização e de hominização de uma sociedade e de um tempo. Só que o mito da eterna juventude e do sucesso alicerçado no ter – que é exatamente o que é vendido pela(s) publicidade(s) com que somos continuamente matraqueados – impede justamente que aqueles que a maioria considera como «não sendo» ou «não tendo», sejam tratados precisamente como «não-seres», colocados na varanda da vida pela «borracheira» dos poderosos e não vão da escada para não estorvarem a passagem dos «bem-sucedidos» que não podem ser impedidos de subir os degraus do sucesso…’ (p. 93)

‘Estamos ainda convencidos de que justiça é tratar todos por igual… Que pobreza de raciocínio! Tratar todos por igual pode ser e é sempre uma forma suprema de injustiça disfarçada de bem.
Justiça não é nem pode ser dar exatamente a mesma coisa para todos. Isso será quando muito um igualitarismo bacoco, tão do agrado de certos ambientes pseudopolíticos. A palavra-chave terá de ser «subsidiariedade», quer dizer, em primeiro lugar respeito de mim por mim próprio e pelos outros, porque este tipo de organização social precisa de gente que tenha consciência de si, das suas necessidades, mas também das suas capacidades de contributo para o bem comum.
Eu sou responsável por mim e pelo meu irmão, seja ele quem for. Se um dia se chegasse a uma generalização de uma mentalidade deste calibre, não haveria mais ninguém a «viver à conta do orçamento». E não, não estou a falar do RSI! […] Lutar contra a injustiça e contra a exclusão é dar a cada um tudo o que precisa, mas só o que precisa, e exigir que, da sua parte, dê também o seu contributo. A sociedade deve dar tudo a quem, sem sombra de dúvida, não pode conseguir para si mesmo seja o que for, deve dar o que fizer falta a quem manifestamente se esforça por conseguir atingir os seus objetivos e não deve dar nada quer aos preguiçosos quer aos pulhas da roubalheira.’ (p. 105)

‘Só temos o direito de olhar alguém e cima para baixo quando for para o ajudar a levantar-se.’ (p. 144)

‘Não, a nossa liberdade não termina quando começa a liberdade do outro. Se cada um dos dois tiver a coragem de ir ao encontro de si próprio e para além de si próprio, dar-se-á conta disto mesmo.
Sou mais livre quanto mais somar a minha liberdade livre a outras liberdades livres para podermos fazer caminho em comum.’ (p. 152)

‘Depois de se ter já identificado como o «Deus dos teus pais», da tua família, da tua história, da tua identidade, Deus vai mais longe e toda a heresia: «Eu sou aquele que é sendo».
JF: Voltamos ao gerúndio?!
FV: Sim! A heresia está precisamente neste gerúndio… «sendo». Esta forma construída do verbo ser não se resume simplesmente a uma afirmação de Deus enquanto «existente». A tradução tem de ir mais longe, para além do simples «Eu sou aquele que sou», ao encontro da profundidade da mensagem. Eu sou Aquele que é… sendo contigo.’ (p. 158)

‘[…] a essencialidade essencial que nos define e determina como pessoas - «o ser de relação» -, persona do latim per sonum o «soar através de», a comunicação no seu sentido pleno e abrangente de construção do «próprio eu» diante de si próprio e dos outros, no seu «ser com», no seu comunicar, na sua sinodalidade relacional.’ (p. 168)

‘[O que falta é] ir à essência para sermos capazes de unir o palácio e a barraca, não por um abismo intransponível, mas pela descoberta e criação de formas novas, para que o palácio não viva no luxo e do luxo enquanto a barraca tem de viver no lixo e do lixo.
Se do pós-sínodo sairmos mais capazes de construir a consciência universal no sentido Teilhardiano do processo de hominização como espiral ascensional de complexidade de consciência, terá valido a pena o esforço e as penas porque passámos; veremos florescer o novum como continuidade e evolução, como memória que se faz história, como história que se faz vida, vida em abundância, para todos, sem excluídos, a não ser os filhos da autoexclusão.
Esta é a missão do agora, a ser proclamada e vivida na nova Ágora do tempo novo, que é o mundo todo e todo o mundo, solidamente ancorado no presente, fazendo memória do ontem, para que o amanhã possa ter sentido para todos os que se atrevem e têm a coragem de ser, sendo…’ (p. 173)


**(Título retirado de Daniel Faria, Dos líquidos, Porto, Edição Fundação Manuel Leão, 2000, p. 137)

*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Ensaios de liberdade', 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'

Imagem recolhida da BNP

terça-feira, abril 07, 2026

Sabes, leitor... | 28 | Marca de água do livro de Bernard Michal, 'Os julgamentos de Nuremberga'

 


Rubrica ‘Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página’** | Marca de água de livros que deixam marcas profundas
Parceria: Federação Portuguesa pela Vida e Comissão Diocesana da Cultura

Luís Manuel Pereira da Silva*

O(s) autor(es) e a obra
Bernard Michal, Os julgamentos de Nuremberga, Porto Salvo, Edições Desassossego, 2019.

Bernard Michal, o autor de ‘Os julgamentos de Nuremberga’, é um jornalista e historiador, nascido em 1932, em França, quando as nuvens da Guerra já se erguiam no horizonte, como bem se percebe, pela leitura desta obra. Tem dedicado a sua vida à investigação sobre guerras e, em particular, a Segunda Guerra Mundial. Contam-se, entre os seus mais destacados títulos, ‘A Guerra Civil Espanhola’, ‘Os grande enigmas da Segunda Guerra Mundial’, mas também ‘História das seitas e das sociedades secretas’ (em coautoria com Jean Renald), ‘Os grandes enigmas da Resistência’, ‘Os grandes enigmas da Libertação’, revelando-se um profundo conhecedor da história da conflitualidade humana. Merece referência, a confirmar esta constatação, o seu ‘As personagens malditas da história’, ainda não editado em Portugal.
Em ‘Os julgamentos de Nuremberga’, Michal mostra-se um investigador muito minucioso e um escritor extremamente atento às expectativas do leitor.
Contextualiza, explica, detalha, permitindo que não fique incompreendidas as diversas afirmações formuladas, as referências históricas mencionadas e as situações enunciadas. A leitura da obra de Bernard Michal, em geral, e desta, em particular, homenageia as vítimas silenciadas pelo estertor das armas dos fortes, assegurando a justiça possível que se pode fazer por levantar do pó do silenciamento os nomes dos inocentes caídos às balas dos cruéis.
É a experiência que se faz ao preparar os nossos passos para entrar em Auschwitz. Lia esta obra quando ali fui, entre 12 e 15 de março de 2026. Antes de atravessarmos o portão onde a ironia cruel nazi nos assegura que ‘o trabalho cria liberdade’ (traduzo, livremente, ‘arbeit macht frei’, que encima o portão principal do campo de concentração), somos conduzidos por um longuíssimo corredor de betão onde o silêncio que toma conta de nós é apenas interrompido por uma voz cadenciada que diz nomes. Os nomes das vítimas do terror que ali se levou ao zénite.
Nomes… Nomes… Apenas nomes. Porque cada nome é um mundo, uma pessoa, uma vítima. Só os delas nos é devido repetir. Os dos seus ‘carrascos’ só lembraremos para não mais esquecermos o mal que fizeram. Os das suas vítimas, porque a justiça no-lo exige.

 

Marcas de água 

(o que fica depois de se deixar o livro)

Li este livro entre 12 de março e 1 de abril de 2026. Obriguei-me a lê-lo no tempo em que, em visita de estudo, percorri os lugares de que nele se fala. Os lugares que se tornaram ‘não-lugares’ (para referir uma categoria evocada por Marc Augé).
Sempre me inquietou e perturbou a potencial resposta para a pergunta ‘como foi possível?’. A pergunta ganha densidade se pensarmos que a crueldade atingida em Auschwitz-Birkenau (Auschwitz foi prolongado para Birkenau por necessidade de aumentar os ‘não-lugares’ e prolongar a maldade até aos limites do possível) foi protagonizada por líderes políticos de um dos países onde se ergueram os maiores de entre os humanos: Bach, Beethoven, Kant, Leibniz, Haendel, Goethe, etc. foram alguns dos mais destacados de sempre entre os humanos. A Alemanha é associável ao que de maior e melhor se fez. Muita da nossa tecnologia quotidiana tem origem alemã, muito do nosso saber, muitos dos nossos conceitos, muitas das nossas ‘luzes’ são de ‘genética’ alemã. E, porém, a elevação da cultura não impediu o emergir de um regime assente na crueldade e na inumanidade e desumanidade.
Como foi possível?
E, mais densamente excruciante, ‘poderá, um dia repetir-se?’
Ao ler-se Michal, fica uma certeza: o caldo que permitiu isto é fórmula repetível, por ser fórmula disponível. O regime não nasceu em 1 de setembro de 1939. Há uma longa história que começa com a criação do partido, em 1920, onde se anuncia que há um inimigo comum e onde se define a estratégia: a violência fará parte da genética deste ‘movimento’.
Tudo sob a aparência de algo legítimo, pois evocava-se a injustiça dos tratados com que se ‘fechara’ a primeira Guerra Mundial.
Com a leitura desta obra de Michal, ficaremos na posse de muito mais do que as muitíssimas informações que ela nos faculta. Saberemos, certamente, como se organizou o partido nazi, desde as embrionárias ideias de um ‘ferreiro’ de nome Anton Drexler, em 1920, a que se associa Adolf Hitler, com a sua perturbadora personalidade, entre o fascinante e o arrasador: onde Hitler está, tudo fica terraplanado; como a cumplicidade da república de Weimar foi criando as condições para que as narrativas hitlerianas fossem germinando; saberemos o contributo, para esse germinar, do incêndio do Reichstag (1933), da ‘noite das facas longas’ (1934) e da morte de Roehm, líder das SA, ou, ainda, da ‘noite de cristal’ (1938); o que significa falar dos prisioneiros ‘noite e nevoeiro’, ou o que foi o massacre de Oradour (em 1944); compreenderemos os planos ‘branco’ (invasão da Polónia), ‘amarelo’ (invasão da Bélgica), ‘barbarossa’ (invasão da Rússia) ou a operação ‘Marita’ (da invasão da Grécia) e ‘Leão Marinho’ (da invasão de Inglaterra); surpreender-nos-emos com os números avassaladores dos mortos em campos de concentração (26 milhões), dos quais 6 milhões são só de Judeus; saberemos, ainda, os mistérios associados à detenção (tantas vezes em circunstâncias inesperadas como a de Julius Streicher, disfarçado de ‘pastor’) dos maiores criminosos nazis; o fim de Goebbels, ou Goering, ou Bormann, ou Hans Frank (o governador da Polónia sob o jugo nazi), ou Himmler ou Krupp ou Ribbentrop, etc. Saberemos tudo isso e tanto mais que Bernard Michal nos faculta, com detalhes. Mas, principalmente, deparar-nos-emos com uma constatação que podemos cunhar como Joachim Fest registou: tudo isto foi feito sob a capa de um ‘amoralismo tecnocrático’. O amoralismo foi o caldo mais profundo do nazismo.
Com esse caldo, à medida que o tempo passa, Hitler cria um polvo que atinge as mais ínfimas estruturas da sociedade, sempre sob o espectro do medo e da imprevisibilidade. Mas com a aura da legitimidade.
Os relatos minuciosamente descritos por Michal mostram-nos que Hitler é portador de uma personalidade simultaneamente sedutora e irascível. Com recurso ao isolamento dos que se lhe opõem, as suas ferozes conversas deixam atónitos os mais seguros de entre os líderes. É assim que ‘encurrala’ os presidentes ou chefes dos Estados que prevê invadir (secretamente), mas cujo respeito pelos limites fronteiriços alardeia aos quatro ventos, criando uma falsa sensação de paz e segurança, enquanto, nos bastidores, organiza a posse sempre falsamente justificada.
Amoralismo, divisão, medo, distração e a surpresa do inesperado. O caldo para que se espalhe um regime cruel.
E, claro, o silêncio e cumplicidade dos que não querem saber ou até justificam a violência.
Atordoa constatar, ainda, que, com raras exceções, os julgados (e condenados) de Nuremberga justificam as suas ações com o dever de obediência. Mas, como bem recorda Michal, ‘[mesmo] em tempo de guerra certos atos reprovados pela moral ficam dependentes da justiça e são passíveis de sanções exemplares.’ (p. 14)
Regressar a Nuremberga é corresponder ao dever de lembrar para que não se repita, mas, também, ao dever de exumar do pó da história as vítimas inocentes. Para que elas vençam e nunca os injustos e cruéis poderosos.
Para que, enfim, continue com resposta negativa a pergunta: ‘poderia, um dia, repetir-se o que os nazis fizeram?’
Não se pense que só os outros são capazes do pior. Aqueles homens eram iguais a todos os demais. Mas deixaram justificar o mal que realizaram com elevadas justificações e pretextos. É a isso que temos de permanecer atentos. Há linhas vermelhas que jamais nos admitiremos transpor. A dignidade de todo e cada ser humano e a sua inviolabilidade devem constituir-se como fronteira cuja transposição jamais nos deveremos admitir realizar. Mas há nuvens sombrias nos céus. Regressemos a Nuremberga e interroguemo-nos. Deixemos a pergunta habitar-nos até às fímbrias da alma. O grito dos inocentes pede a autêntica justiça de não se repetir a crueldade…
Nuremberga continua a ecoar como juízo na História. Não o juízo dos vencedores, mas o juízo da consciência atenta ao rosto (essa categoria ética cunhada por um judeu também perseguido pelos nazis, Emmanuel Lévinas) do outro em quem se reconhece um tu, um irmão. Um rosto, um nome humanizam. Tão bem o sabiam os nazis que todos reduziam, quando chegados aos campos, a meros números tatuados com brasa na pele.
Nuremberga é o lugar dos nomes, dos rostos… Dêmos um nome; reconheçamos cada rosto. E Auschwitz não se repetirá…

 

 

Na mesma página que o autor (citações)

‘Nuremberga, novembro de 1945, primeiro outono de paz. Três quartas partes da cidade estão destruídas. Do seu esplendor restam algumas ruínas no bairro medieval. As igrejas de S. Lourenço, de Nossa Senhora, de S. Sebaldo, o castelo imperial do século XII e a casa onde viveu Dürer foram gravemente atingidos. […] É nesta cidade que os criminosos de guerra nazis vão ser julgados. Para os quatrocentos jornalistas vindos de todos os pontos da terra, Nuremberga é, antes de tudo, a imagem da Alemanha vencida.’ (p. 13)

‘A criação do Tribunal Militar Internacional suscitou uma série de dificuldades de ordem moral e jurídica, material e diplomática. Basta que se leia o jornal Le Monde de 18 de novembro de 1945 para se tomar consciência do problema moral levantado pela instituição de um tribunal militar internacional. No seu noticiário estrangeiro, o jornal francês anota:
«Sempre houve crimes de guerra que em geral apenas foram punidos com represálias. Os processos atuais inspiram-se, portanto, num princípio novo. A saber: que em tempo de guerra certos atos reprovados pela moral ficam dependentes da justiça e são passíveis de sanções exemplares. Não se pode deixar de aderir a este princípio, que marca um progresso da consciência universal, e cuja aplicação poderá, até certo ponto, intimidar os criminosos do futuro. Há que reconhecer, no entanto, que esta suscita numerosas dificuldades.
«A primeira consiste na própria definição do crime de guerra. Seria relativamente fácil se se entendesse que crimes de guerra são apenas atos contrários à humanidade e que as necessidades da luta não justificassem. Incluem-se nesta categoria as torturas e os homicídios nos campos de concentração, as execuções maciças de certos grupos da população, tais como os judeus, os polacos, os ucranianos, ou os atos ferozes de certos chefes militares, como o da destruição de Oradour.
«Mas o processo de Nuremberga vai incluir casos de outra natureza. Sabe-se que se destina às mais altas personagens do Terceiro Reich, civis e militares.
«Estes serão por vezes incriminados por crueldades injustificáveis, como os carrascos vulgares de Dachau e de algures, mas ser-lhes-ão também imputados outros crimes. Foi decidido considerar assim a responsabilidade da guerra e inculpar a esse título aqueles que podem ser considerados seus autores ou que, pelos seus conselhos e a sua influência, tenham contribuído para a fazer deflagrar.
«Não restam dúvidas de que os juízes chamados a Nuremberga, escolhidos entre a élite da magistratura dos países aliados, vão cumprir a sua tarefa com imparcialidade e competência. É uma grande experiência a que vai ser tentada. E seria deplorável se o seu êxito não fosse completo.»’
(Pp. 14-15)

‘A 8 de agosto de 1945, o Estatuto do Tribunal Militar Internacional é estabelecido por acordo assinado entre os Aliados.
Dezoito nações aderem a esse acordo e aprovam esse estatuto.
O Tribunal Militar Internacional terá, em princípio, a sua sede em Berlim. Poderá escolher o local das suas audiências para cada processo. A Grã-Bretanha, a União Soviética, a França e os Estados Unidos escolherão um juiz cada um, mas esses juízes serão «desnacionalizados».
Em contrapartida, os ministérios públicos serão nacionais e representarão os interesses dos Estados a quem pertencem.
Antes de se iniciar o processo será constituída uma comissão de «instrução e busca dos grandes criminosos de guerra».
Os incriminados poderão escolher os seus advogados.’
(pp. 19-20)

‘Em princípios de 1920, Hitler decide organizar um comício.
Escolhe a data de 24 de fevereiro e uma sala capaz de abrigar duas mil pessoas: o salão de festas da Hofbrauhaus. Os seus companheiros não acreditam no êxito do empreendimento. Hitler ocupa-se pessoalmente dos preparativos e da propaganda.
Nessa altura, a Alemanha procura ainda um equilíbrio. Os partidos são numerosos. Todos eles suscitam, pelo menos curiosidade. Um novo partido em Munique não pode deixar as pessoas indiferentes: a sala está cheia. É o primeiro triunfo de Hitler – que não deixa de recordar em Mein Kampf:
«Há um tumulto de gritos e de violentas altercações na sala. Um grupo dos veteranos mais fiéis bate-se contra os perturbadores… comunistas e socialistas… e só pouco a pouco se consegue restabelecer a ordem. Consegui então continuar a falar. Ao fim de meia hora, os aplausos começaram a cobrir os assobios. Quando, quase quatro horas mais tarde, a sala se esvaziou, eu sabia que a partir daquele momento os princípios do nosso movimento não podiam mais ser esquecidos e que haviam de se disseminar entre o povo alemão».
Hitler acabava, com efeito, de lançar os vinte e cinco pontos do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, que iriam constituir a bíblia dos nazis até à subida ao poder, em 1933.
Esse programa referia-se a aspetos políticos por vezes muito diferentes uns dos outros, alguns dos quais de uma rara audácia para a época, dando-lhes um matizado muito diferente das cores dos outros partidos. Hitler insistira muito especialmente sobre a união de todos os Alemães numa «Grande Alemanha». É o prenúncio, com muitos anos de antecedência, da Anschluss (Anexação) e da conquista dos países sudetas na Checoslováquia. É também o anúncio, a quase vinte anos de distância, de Danzigue e do drama da agressão à Polónia. Hitler afirma desde já, nessa noite de 24 de fevereiro de 1920, que os judeus da Alemanha seriam excluídos do Exército, da Administração, da imprensa. Preconiza a abolição dos rendimentos que não fossem fruto do trabalho, a nacionalização dos cartéis, o interesse do Estado nos lucros das grandes empresas, a abolição das especulações sobre terrenos. Pede a pena de morte para os traidores, os usurários e os especuladores, a expropriação dos grandes estabelecimentos. Exige a anulação dos tratados de Versalhes e de Saint-Germain e a criação de um poder central forte.
Dois meses mais tarde, Rudolf Hess, um antigo oficial aviador que se tornara chefe dos serviços da ordem do partido, trata Hitler por «Fürher». É assim que daí em diante os membros do partido, enquanto o não faz a Alemanha em peso, passar a tratar o chefe do NSDAP.
Oito meses depois, durante o versão de 1920, aparece em Munique, durante um comício, a Svastika… a cruz gamada. A paz não tem ainda dois anos.
Abril de 1921. Hitler criar as Ordnungstruppen. Esses grupos paradesportivos usam camisas castanhas e tomam a forma de brigadas; alargam-se… A partir de outubro de 1921, passam a ser as Srturmabteilungen, as SA. Juntamente com Goering, Hitler desenha-lhes o uniforme. […] Não tardará que semeiem o terror nas reuniões públicas das outras formações políticas. […] O NSDAP está agora armado para a conquista do poder: tem um chefe, o Fürher, um emblema, a cruz gamada, os seus terroristas, as SA… Falta-lhes apenas uma palavra de ordem – que Hitler veio a lançar em 27 de janeiro de 1927, no decurso do segundo congresso do partido: «Deutschland erwache» (Alemanha, acorda).’ (Pp.43-45)

‘O libelo acusatório [apresentado pelo procurador-adjunto dos Estados Unidos] revela […] de que forma foram realizados os objetivos e os desígnios dos conspiradores [nazis]: introdução da violência no jogo político, depois penetração nas estruturas existentes com vista a chegar ao poder sob forma «legal».
Uma vez no poder, depois da ascensão de Hitler à Chancelaria, em 30 de janeiro de 1933: interdição de todos os partidos políticos e tomada da posse total de todos os sistemas de funcionamento do Estado alemão, atentado à liberdade das eleições, depuração na Administração, tutela de todos os organismos do Estado pelo partido, organização do terror civil, criação de campos de concentração, perseguições políticas e religiosas e mais particularmente dos alemães de confissão judaica. Em breve, esta destruição transformar-se-á em política oficial do Estado, fazendo mesmo apelo à violência individual.’ (p. 46)

‘Sempre dentro do primeiro ato de acusação, são analisada as diferentes medidas que, progressivamente, conduziram à guerra mundial:
- Rearmamento secreto de 1933 a 1935, em conjunto com a retirada alemã da Conferência do Desarmamento e da Sociedade das Nações em 1933.
- Criação em 1935 de força armada aérea e instituição do serviço militar obrigatório.
- Reocupação em 1936 da Renânia, em violação do Tratado de Versalhes, e depois de declarações tranquilizadoras sobre a vontade alemã de não apresentar reivindicações territoriais na Europa.
- Invasão da Áustria em 1938, e depois invasão da Checoslováquia. No dia 1 de maio de 1936, Hitler não hesitara, no entanto, em proclamar: «Torna a propagar-se a mentira de que a Alemanha, amanhã ou depois, cairá sobre a Áustria ou a Checoslováquia.»
- Enfim, de 1938 a setembro de 1939, preparação e execução do ataque contra a Polónia.’
(p. 48)

‘[O] segundo ato de acusação [trata] dos crimes contra a paz.
Depressa são passados em revista esses crimes: basta ao procurador britânico [Maxwell Fyfe] enunciar seis datas que constituem as etapas da agressão alemã:
- 1 de setembro de 1939, ataque à Polónia;
- 3 de setembro de 1939, hostilidades com a Grã-Bretanha e a França;
- 10 de maio de 1940, invasão da Bélgica, dos Países Baixos e do Luxemburgo;
- 6 de abril de 1941, assalto contra a Jugoslávia e a Grécia;
- 22 de junho de 1941, ofensiva contra a Rússia;
- 11 de dezembro de 1941, guerra contra os Estados Unidos.’
(Pp. 48-49)

‘[…] a leitura do terceiro libelo, pelo advogado francês Pierre Mournier, [é] sobre crimes de guerra.’ […]
A acusação toma a palavra:
«Desde o dia 1 de setembro de 1939 até 8 de maio de 1945, os acusados violaram as convenções internacionais e os princípios gerais de direito penal tal como derivam do direito penal de todas as nações civilizadas…
Censura-se especialmente aos acusados que tenham praticado a “guerra total”. Que tenham, com um objetivo de terror, maltratado, detido sem processo legal, torturado e assassinado elementos civis.
Os homicídios e maus-tratos eram levados a efeito por meios variados, tais como fuzilamentos em massa, enforcamentos, câmaras de gás, morte por inanição, acampamentos povoados em excesso subalimentação sistemática, etc.».’ (p. 49)

‘O partido não fora organizado para tomar o poder no Estado alemão com a assistência vitoriosa da maioria do povo alemão; fora organizado para arrebatar o poder apesar da vontade do povo.
Paralelamente, a falsificação das eleições é erigida em sistema.’ (p. 73)

‘A tomada do poder por meios legais, quer dizer sem o recurso à revolução, constitui o objetivo declarado de Hitler desde o dia seguinte ao putsch falhado de Munique [um golpe de estado falhado protagonizado pelo partido nazi, em 8/9 de novembro de 1923]. Contudo, a coberto dor espeito pela legalidade, ordena, com paciência e muita eficácia, o combate contra o regime de Weimar. A violência torna-se um sistema político controlado, uma sábia dosagem de terror, de crimes, de chantagem, misturado com propaganda e manifestações em massa.’ (p. 74)

‘A aparente fraqueza do Partido Nazi depois do putsch vai finalmente servi-lo. As autoridades bávaras estão convencidas de que ele já não representa um perigo real, e fecham os olhos às suas atividades. A 26 de fevereiro de 1925, Hitler escreve no jornal do seu partido, o Volkischer Beobachter, um editorial intitulado «Ressurreição». Anuncia uma reunião pública para o dia seguinte, 27 de fevereiro.
Quatro mil fiéis assistem ao comício. A Bürgerbräukeller, a cervejaria do putsch, é o lugar escolhido para a reunião.
Ao deixar a prisão, Hitler prometera respeitar a Constituição, mas logo nesta primeira reunião não esconde a intenção de derrubar a República. O Governo bávaro proíbe-o de usar da palavra em público. A medida é rapidamente estendida a toda a Alemanha. Demasiado tarde. O Partido Nazi passa, em quatro anos, de vinte e sete mil membros para cento e setenta e oito mil. Ao mesmo tempo, Hitler organiza a administração do partido. Adapta-lhe as estruturas às do país: divide o território em regiões, ou Gau, dirigidas por Gauleiter. Engloba nesta organização não apenas a Alemanha, mas a Áustria e Danzigue. Cada Gau é dividido em Kreise (círculos) dirigidos por Kreisleiter. Esses Kreise são, por seu turno, divididos em Ortsgruppe (secções locais). As secções urbanas são ainda subdivididas em células e em blocos; e, finalmente, em cada edifício há um responsável.
Estabelece assim uma administração paralela, pronta a substituir a administração existente. À testa do partido, organiza um autêntico Governo de substituição.
Sempre que disso tenha a possibilidade, colocará em funções oficiais aquele que as assumiu já, oficiosamente, dentro da organização.
Constitui ainda organizações de mulheres e de jovens. Terão as suas escolas, os seus jornais, os seus círculos culturais, as suas instalações desportivas e turísticas.
Arranja também a sua polícia. Foi nessa altura […] que, paralelamente às SA, cria também as SS.’ (p. 75)

‘[Por decreto de 14 de julho de 1933], Hitler conseguira que Hindenburg assinasse um decreto criando na Alemanha o regime do partido único: «O Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães constitui o único partido da Alemanha. Seja quem for que tente manter a estrutura de um outo partido político ou formar um outro partido político, será punido com uma pena que poderá ir de três anos de trabalhos forçados ou de seis meses a três anos de prisão, se o crime não for passível de um castigo mais grave nos termos de outros regulamentos.»’ (p. 83)

‘No plano interno, os outros objetivos nazis são definidos, em 11 de dezembro de 1938, pelo general Von Fritsch. Nesse dia escreve «que três batalhas foram necessárias para restabelecer o poderio da Alemanha: a batalha contra as classes trabalhadoras, a batalha contra Igreja Católica, a batalha contra os judeus.’ (p. 84)

‘Uma lei secreta, com a assinatura de Martin Bormann, é suficiente para definir o ponto de vista nazi na sua luta contra a Igreja: «Todas as influências que possam conter a influência exercida sobre o povo pelo Fürher devem ser eliminadas. Cada vez mais, o povo deve ser afastado das igrejas e dos seus representantes e pastores. Nunca mais se deverá consentir às igrejas que assumam qualquer influência sobre a direção do povo.»’ (p. 85)

‘Em Mein Kampf, Hitler critica os políticos católicos, mas tem necessidade dos seus eleitores. Agrada-lhes e faz da promessa de uma Concordata um argumento eleitoral. Efetivamente, a 20 de julho de 1933, a Igreja vê que lhe é concedido «o direito de regularizar os seus próprios assuntos». É o futuro Pio XII, Pacelli, secretário de Estado pontifício, e Von Papen que assinam a Concordata.
Cinco dias mais tarde, Hitler promulga uma lei sobre a esterilização. Dez dias mais tarde, a Liga das Juventudes Católicas é dissolvida. A seguir, o chefe da Ação Católica, Erich Klausener, é assassinado.
Em 1937, Pio XI publica a encíclica Com uma dor enorme… Nessa encíclica, acusa o Governo alemão de semear «a embriaguez da suspeição, da discórdia, do ódio, da calúnia, da hostilidade fundamental secreta e aberta ao Cristo e à sua Igreja…». E Pio XI acrescenta: «Veem-se despontar no horizonte da Alemanha nuvens ameaçadoras de guerras religiosas destruidoras que não têm outro objetivo senão o extermínio.»
Em março de 1937, quando Pio XI promulga a encíclica, os judeus já há muito tempo que são proscritos, perseguidos, presos. É verdade que, neste caso, não se trata de uma guerra religiosa, mas da realidade de um extermínio racial.’ (pp. 86-87)

‘Em 26 de agosto de 1939, enquanto se prepara par atacar a Polónia, [Hitler] manda enviar ao Rei dos Belgas, à Rainha da Holanda e ao Governo do grão-ducado do Luxemburgo uma nota na qual afirma solenemente a sua intenção de respeitar aquelas neutralidades. Nova garantia a 6 de outubro. Porém, três dias mais tarde, dita a sua diretiva para a condução da guerra e, especialmente, para a invasão daqueles três países. Esta operação recebe o nome de «Plano Amarelo».’ (pp. 180-181)

‘Desde que realizara a Anschluss, Hitler, fiel aos seus hábitos, empenhou-se em dar garantias aos países vizinhos: «Informei a Jugoslávia de que, de futuro, a nossa fronteira com esse país permaneceria inalterável e que nós não poderíamos viver senão em paz e em boa amizade.»
Mas havia já algum tempo que tinham ficado prontos os planos da agressão à Jugoslávia. Ao dar os últimos retoques no Plano Barbarossa – invasão da URSS – Hitler ordenara aos generais que previssem a segurança do flanco sul dos seus exércitos e a proteção das linhas de comunicação para a Ucrânia.’ (pp. 182-183)

‘Nuremberga já vai longe, mas a evocação dos crimes que exigiram Nuremberga permanece, bem nítida. Uma lista interminável, horrível. Uma lista que explica muitos ódios e expiações implacáveis. Crimes que, para honra dos homens, se deseja que nunca mais se repitam.’ (p. 389)


**(Título retirado de Daniel Faria, Dos líquidos, Porto, Edição Fundação Manuel Leão, 2000, p. 137)

*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Ensaios de liberdade', 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'

Foto recolhida da Biblioteca Nacional Portuguesa 

sexta-feira, março 20, 2026

'Os Sete Dias da Criação' |8| Luís M. P. Silva - Ainda o primeiro dia: ‘Deus disse: «Faça-se a luz.» E a luz foi feita.’ Deus é origem, através da Sua Palavra.

 

(‘Os Sete Dias da Criação’ | Rubrica dedicada ao diálogo entre ciência e religião)
Artigo originalmente publicado na revista 'Mundo Rural'

Luís Manuel Pereira da Silva*

Neste passo da nossa reflexão sobre ‘os sete dias da criação’, gostaria de enfrentar três aspetos que nos é possível observar deste densíssimo versículo 3 de Gn 1: o vínculo indissociável entre ‘a’ Palavra e Deus; a bondade da criação e, por fim, a dificuldade da receção do texto perante das descobertas científicas.

Enfrentemos o primeiro destas três observações.

É, para nós leitores do século XXI, já imbuídos da ‘resolução’ da controvérsia trinitária, óbvia a relação entre a ‘Palavra’ de Deus e o próprio Deus. A ‘Palavra’ não é um ‘suplemento de Deus, mas a Sua ação pessoal criadora, indissociável da Sua própria natureza. A Palavra é Deus, como Deus é, também, o princípio. É princípio pela Sua Palavra e é pela Palavra que dá início a tudo.

Para nós, isto é, hoje, claro.

Mas, se recuarmos ao século IV, ao contexto das controvérsias que deram pretexto para o primeiro Concílio ecuménico (universal, de toda a ‘terra habitada’) do Cristianismo, perceberemos que esta constatação não era, então, assim tão clara. Para Ario, o presbítero de Alexandria cujas teses Atanásio, ainda diácono do Bispo de Alexandria (de nome ‘Alexandre), teve de enfrentar e refutar, em Niceia, em 325, a Palavra era a primeira das criaturas de Deus. Não coincidia, não era da mesma substância (consubstancial, como dizemos no credo – que é ‘nicenoconstantinopolitano’) de Deus. Havia um hiato entre Deus (princípio absoluto, solitário, ‘fechado em si’) e a Sua Palavra. Ora, Génesis torna clara esta unidade indissociável entre ‘Deus’ e ‘Palavra’, mostrando que a ação de Deus se opera na e pela Palavra. A Palavra é o ‘nome’, a ‘pessoa’ (condição de diversidade em Deus) pela qual Deus todo (trinitário) cria. E isso é notório na preocupação com que o autor bíblico nos descreve os atos criadores. Diz que ‘Deus disse’ e ‘aconteceu’. A Palavra de Deus é eficaz.

Em segundo lugar, recuperemos uma constatação já insinuada em anteriores etapas deste nosso percurso reflexivo: a criação, na perspetiva bíblica, é bondosa. No pensamento, no desejo de Deus, toda a sua criatura, toda a sua criação é boa, contrariando aquilo que os vários maniqueísmos (o nome nasce de Manes, um nobre persa que viveu no século III d.C., no contexto da religião zoroastrista, na Pérsia, que defendia que, na sua origem, a criação tem dois princípios antagónicos: o do bem e o do mal. Esta tese sedutora exerceu muita influência, chegando, inclusive, a muitos cristãos. Recordemos, a título ilustrativo que o próprio Santo Agostinho, no século IV-V, sofreu, numa fase anterior à sua conversão ao cristianismo, influência desta perspetiva.) da história, repetidamente foram sustentando. Na visão bíblica, a criação é, originariamente boa. Deus não é um criador do mal; é um criador do bem. O mal é a corrupção, a degradação, a não correspondência ao que Deus pretende e à natureza própria da criação.

Em terceiro lugar, enfrentemos uma interrogação que tem servido de lastro a toda a reflexão que temos vindo a desenvolver – no confronto entre o texto bíblico, literalmente analisado, e as conclusões que a ciência exata e experimental foi retirando, à medida que foi apurando o seu método, verificaram-se, em alguns momentos, dissonâncias, divergências.

Guardemos, para já, essa constatação.

Repitamo-lo: do confronto entre o texto bíblico, lido em registo literalista, e as descobertas científicas, ocorreram, em muitos momentos, desencontros.

É importante que a tenhamos em conta, pois o caminho que nos propomos é o de, enfrentando essa constatação, procurar uma via de encontro e convergência que nos permita evitar repetir erros que a história já nos evidenciou.

Entre as tentativas de permitir atenuar a ‘dureza’ da constatação dessas dissonâncias encontra-se a chamada ‘interpretação acomodatícia’, que fez longa escola. Na verdade, como recorda Agustín Udías Vallina, no seu muito interessante ‘Ciencia y fe cristiana en la historia’, ‘esta interpretação já tinha sido utilizada com os textos que falam da Terra plana, sendo aceite a sua forma esférica já por autores como Beda, o Venerável e ao longo da Idade Média.’ (p. 88) Recordemos que Beda, o venerável, viveu nos séculos VII e VIII e que, como já vimos, em etapa anterior, toda a Idade Média pressupunha que a Terra era esférica, contrariamente ao preconceito repetidamente referido de que a Idade Média acreditava numa Terra plana.

Ora, a pergunta a fazer é, precisamente, sobre como conciliaram os leitores atentos da bíblia as suas múltiplas referências à terra como plana com a tese ‘científica’ de que a Terra era esférica.

A interpretação acomodatícia foi, durante muitos séculos, uma das que vingaram, ao lado das abordagens alegoristas, podendo definir-se como a ideia de que os autores bíblicos acomodaram (por isso ‘acomodatícia’) a sua escrita às conceções próprias dos seus tempos. Vallina diz que ‘interpretação acomodatícia significa que os textos estão acomodados ao sentir da época em que foram escritos.’ (p. 88)

É uma abordagem confortável e que serenou, durante muito tempo, os ‘espíritos’ de controvérsia, mas valerá a pena conservar uma interrogação: será uma abordagem suficiente? O literalismo para que procura ser resposta é o modo exclusivo ou, sequer, o que deverá adotar-se, na abordagem ao texto bíblico?

Vê-lo-emos, ao longo da nossa posterior reflexão.

 


Sugestões bibliográficas

 

Agustín Udías Vallina, Ciencia y fe cristiana en la historia, Maliaño, Editorial Sal Terrae, 2021.

Isidro Lamelas (coord.), O primeiro concílio ecuménico – Niceia 325: memória e herança, Apelação, Paulus editora, 2025.

D. António Couto, O livro do Génesis, Leça da Palmeira, Letras e Coiras-livros, 2013.

Santo Agostinho, Da interpretação do Génesis: dois livros contra os maniqueus, Prior Velho, Paulinas, 2021.

Gerhard von Rad, El libro del genesis, Salamanca, Ediciones Sígueme, 19887.


*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano', 'Ensaios de liberdade' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'


 

 

quinta-feira, março 19, 2026

Os carros, na Polónia, não têm buzina: ecos de uma visita a Cracóvia e Auschwitz

 

Acabo de regressar de visita de estudo à Polónia.

(Não pretendo, porém, fazer deste um texto de literatura de viagem. Antes, uma espécie de página rasgada de um diário de memórias…)

Ir aos locais confere-nos experiências que nenhum livro (apesar de os ter como meus fiéis companheiros) poderá, alguma vez, replicar ou substituir. Os cheiros, os ritmos, a língua falada, os tempos e os modos, são irreplicáveis.

Curiosamente, porém, o odor, esse sentido que logo coloco em alerta quando me desloco a um novo destino, desta vez, foi escassamente convidado a manifestar-se. O tempo de inverno adormece as flores e anoitece os alvoreceres perfumados.

Mas muito havia a descobrir, para além do que nos reserva o olfato, esse sentido tão carnal e corpóreo que nenhuma inteligência artificial ousará replicar.

Fui a Cracóvia e a Auschwitz. Reservarei, para um segundo momento, a emoção deste lugar singular. Deter-me-ei, primeiramente, nas impressões de Cracóvia.

Levava-me a expectativa de ver quanto de S. João Paulo II se guarda, na memória dos lugares daquela cidade.

Percebe-se que, Cracóvia, tendo no seu histórico cidadão mundial, o arcebispo Karol que, um dia, chegou a Sumo Pontífice, talvez o seu mais reputado e amado cidadão (ainda que tivesse nascido em Wadowice), a profundidade da fé católica, que define a genética daquele povo, suplanta a densidade da importância de uma só pessoa. Surpreende perceber-se a catolicidade de que se faz aquela cidade. Uma catolicidade que se torna efetiva na capacidade de universalidade que se vislumbra na importância do seu rei herói, o grande monarca Casimiro, aquele que soube acolher os abandonados desses tempos, entre eles, os sempre rejeitados judeus. Será, aliás, dessa memória que falarão os que sumamente os quiseram extinguir, os nazis. Numa tristemente célebre cena evocada no ímpar filme ‘Lista de Schindler’, Amon Goeth, o terrível chefe do campo de concentração de Plaszow, quando se preparava para esvaziar o gueto de Cracóvia (também ele um lugar visitado em dia de comemoração dos 83 anos do seu encerramento – uma coincidência que nos permitiu assistir às cerimónias adiadas por um dia, por motivo de, na efetiva data, ser Sábado – dia sagrado para os judeus) recorda que Casimiro, o Grande, dera aos judeus a liberdade que ele, Amon, se propunha, agora, extinguir para sempre. E perto estiveram os nazis de o conseguir.

Dessa terrível, temível e hedionda eficácia fala Auschwitz-Birkenau… A esse lugar ‘não-lugar’ regressarei, mais adiante.

Volto a Cracóvia.

Ir ao lugar, habitar, por algum tempo, com os que dele fazem o seu tempo, permite-nos, com a distância de quem habita e faz tempo noutros lugares, vislumbrar sinais da singularidade de cada morada.

Cracóvia é uma cidade bela. É uma cidade ampla, aberta, de espaços onde se pode peregrinar pela história sem se desistir do presente. É uma cidade que surpreende porque é ampla, como a planura da Polónia. Não via montanhas. Só planícies. As planícies que tão apetecível tornam este país e que podem ajudar a explicar porque tão difíceis foram, ao longo da história, as relações de vizinhança com alemães e russos, os seus ‘arqui-inimigos’ que muito ganhariam em, de vez, unir esforços, em vez de os dividir. A História deste povo é a história de uma luta contra os apetites vorazes dos que os rodeiam. É, por isso, uma história de resistência ao perigo do desaparecimento. Uma resistência visível na unicidade da sua língua - participei em missa dominical de que percebi pouco mais do que ‘efésios’, ‘Jesus’, ‘Jerusalém’ e muito pouco mais (Mas a virtualidade dos rituais é que a sua simbólica os torna transparentes para quem participa da sua semântica). Mas se se ousasse olhar quanto de significativo aqui se reserva! A Polónia teve, entre 1573 e 1795 reis que eram eleitos. E não se pense que só o podiam ser os que provinham das linhagens. Foram eleitos franceses, húngaros, leigos e bispos, reis e rainhas, numa diversidade que surpreende e evidencia a originalidade deste povo.

E no viver também se torna notória esta particularidade.

Surpreende a serenidade quotidiana de uma cidade com cerca de 700 mil habitantes que, não sendo exuberantes nos modos (não ouvi gargalhadas ou aparências de ‘piadas’, tanto ao gosto dos latinos. Na verdade, a única gargalhada e volumosa troca de conversas provinha de um grupo que, quando passou por mim, percebi ser de italianos…), se respeita e acolhe. Na estrada, não ouvi uma única buzinadela. Entrecruzam-se carros, elétricos, bicicletas e peões, sem que se atropelem e cedendo, espontaneamente, a passagem como se uma qualquer lei suposta tivesse demitido a presunção de que se ‘tem sempre razão’.

O sofrimento da história talvez explique a capacidade de não valorizar excessivamente o que não o merece.

Um sofrimento de que a célebre entrada de Birkenau (com a sua linha férrea dirigida ao abismo da História) ou o lema de Auschwitz (‘arbeit macht frei’) evocarão, para sempre e para todo o sempre.

No dicionário de Auschwitz-Birkenau eclipsa-se um vocábulo: ‘turista’. Outro preenche o seu lugar: ‘peregrino’.

É impossível passar por ali como quem sobrevoa um lugar. Os nossos pés ficam enlameados e presos na terra empapada de sangue.

A entrada, demorada e prolongada, antes de nos abeirarmos do portão encimado pela tristemente célebre frase feita do sarcasmo nazi (‘o trabalho liberta’), faz-nos percorrer um longo corredor onde, pausadamente, uma voz nos sussurra nomes. Um de cada vez, para que penetre, profundamente, em cada um, a memória viva de quem se quis apagar até o próprio nome, substituindo-o por um número.

Somos esmagados. Um nome. Outro nome. Outro nome… Nomes, apenas. Porque aquele percurso fora feito em sentido contrário: com o intuito de apagar qualquer nome.

Tudo em Auschwitz é maldade.

Para um judeu, que quer ser inumado, enterrado, para que possa ser devolvido à terra donde proveio, como Adão, ser cremado é a derradeira humilhação. Dessa humilhação falam os fornos crematórios. Esses definitivos ‘não-lugares’ e ‘não-tempos’.

Eram o último ato de sarcasmo nazi. Depois de despirem os recém-chegados aos campos, de os gasearem (em inúmeros casos) a pretexto de lhes proporcionarem banho, de os reduzirem a um número, de os dividirem uns contra os outros (os colaboracionistas e violentos tinham ‘benesses’ que recrudesciam as ações de uns para com os outros), de os desumanizarem até ao mais baixo possível (Birkenau é um campo composto por barracas que se destinavam a animais, transformadas em lugares para ‘amontoados de pessoas’), reduzir a fogo e cinza era o derradeiro grito sarcástico.

A humilhação pura, gratuita, decadente, desumanizante.

Auschwitz-Birkenau é silêncio. O silêncio que se abate sobre nós.

O silêncio que nos deve despertar.

Como recordava a guia, de nome ‘Aneta’, isto só foi possível porque o ‘mal e o bem se confundiram’.

E, como me recordava alguém muito próximo, quando lhe disse onde estivera, ‘Auschwitz cheira a morte’.

Li, durante os dias em que fiz esta ‘peregrinação interior’, o livro de Bernard Michal, ‘os julgamentos de Nuremberga’.

Densificou-se em mim a convicção de que não podemos estar certos de não se repetir a inumanidade de que fala Auschwitz. Exige-se que não se deixem adormecer os ‘não-violentos’. Exige-se que não deixemos de agitar a cinza sob a qual repousa o brilho. Exige-se que continuemos a ver o humano que refulge sob as rugas dos tempos e debilidades. Exige-se que mantenhamos a certeza da humanidade onde a ideia que desumaniza pretende prevalecer. Exige-se que nos mantenhamos atentos, em atitude de sentinela. A alvorada verdadeira só será a do sol, não a dos holofotes sinistros.

Os tempos são de exigente atenção.

Quem serão, hoje, os novos ‘judeus’?

Os de sempre, bem certo, e tantos novos…

Os que ninguém quer porque ainda não são; porque já não parecem ser; porque nunca poderão ser; porque serem incomoda; porque serem perturba; porque já não merecem a esperança.

Quem são os novos ‘judeus’?

Em memória dos judeus de todos os tempos exige-se que despertemos e honremos a memória dos esmagados pelas botas de ferro.

Somos todos humanos, fragilidade de Adão e só na eternidade seremos como o Eterno. Até lá, fazemo-nos de ‘terra’, de caminho juntos, de olhar que vê o humano que a deficiência habita. O verdadeiro poder não é o da humilhação, mas o do perdão que cresce e faz crescer; que acolhe e respeita.

Schindler recorda-o, no celebérrimo filme, em diálogo com Amon Goeth. O maior poder dos imperadores, diz Schindler, não era o de matar; mas o de perdoar quando o destino apontara a morte como fatalidade intransponível.

Esse é o maior poder: o de perdoar. O de se reconhecer pequeno como e com os pequenos.

Como os de Cracóvia, não precisamos de ‘buzinar’ porque nos respeitamos, reciprocamente. O outro não nos estorva: vive connosco e crescemos, juntos, com a singularidade de cada um, sem a qual somos mais pobres. A nossa verdadeira riqueza são os outros. O que é novo não nasce de nós: recebemo-lo dos outros.

Auschwitz é a negação disto; é a recusa do outro e a sua redução à condição de estorvo a abater.

Mas, sem o outro, sem o tu que o outro é, morre, também, sob a ilusão de vitória, o próprio eu. Permanece na sua loucura narcísica. Torna-se uma massa informe. A massa amorfa e sem identidade que pretendiam os nazis.

É por isso que Auschwitz terá de permanecer, para sempre, como aguilhão doloroso na pele de todos: ninguém seremos, se não ‘formos’ com os outros, únicos e singulares.

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