Rubrica ‘Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página’** | Marca de água de livros que deixam marcas profundas
Parceria: Federação Portuguesa pela Vida e Comissão Diocesana da Cultura
Luís Manuel Pereira da Silva*
O(s) autor(es) e a obra
António Bagão FÉLIX, Paulo OTERO, Pedro AFONSO e Victor GIL (Coord.), Identidade e Família: entre a consistência da tradição e as exigências da modernidade, Alfragide, Oficina do Livro, 20243.
‘Identidade e família: entre a consistência da tradição e as exigências da modernidade’ é uma obra coletiva. Reúne, após uma luminosa introdução, 22 artigos de algumas das mais destacadas personalidades nacionais. Qualquer dos nomes dispensa nota curricular. Cada nome é, por si, um currículo. A este mérito associa-se a coerência da obra; apesar de coletiva e de ter uma temática comum, surpreende que as abordagens não se sobreponham, dada a originalidade de cada linha de pensamento. Mérito dos autores, bem certo, mas também da coordenação bem articulada e que resulta, como é explicitamente referido, de intenção de corresponder à missão do ‘Movimento Acção Ética – Vida, Humanismo e Ciência’. O tema exigia, com efeito, que se olhasse a problemática da família sob múltiplos prismas.
Acresce a tudo isto uma virtualidade a sublinhar: os artigos dizem muito, argumentam com a clareza exigível, em curto espaço, equilibradamente definido e respeitado pelos autores.
Ora, a tudo isto se deve a ‘celeuma’ que a saída deste livro suscitou, em particular entre os indivíduos e movimentos que dizem não se identificar com a matriz presente neste livro. E a matriz pode enunciar-se de modo sintético: secundar o reconhecimento de que a família, instituição prévia ao Estado e que este deve reconhecer e proteger, nasce de uma condição natural do ser humano – nasce-se de um pai e uma mãe e a essa referência natural deverá reportar-se o ponto de partida para a discussão sobre o que é ser família.
Esta síntese que, há muito poucas décadas, soaria a ‘lugar-comum’ que rotularia como ‘banal e vulgar’ qualquer artigo, obviando a dispensa da continuidade da leitura, é, hoje, fonte de conflitos e prontamente etiquetada no armário das ‘conservas’ (sem que se apercebam, porém, de que o verdadeiro progresso da humanidade se pode resumir à história de como conservar o que, de outro modo, se esfumaria: conservámos na escrita a volatilidade da coloquialidade; conservámos em papel, em pergaminho e em tantos outros suportes a volatilidade dos registos; conservámos a energia porque a sua volatilidade nos impedia de poder continuar a beneficiar dela; conservámos os alimentos em arcas e frigoríficos para que a voragem do tempo não nos impedisse de os poder consumir por mais tempo; conservámos, conservámos, conservámos para poder ter futuro… De outro modo, tudo seria passado! Irónico, pois quem acusam de serem passadistas é aos conservadores, mas são eles, afinal, que garantem que possa haver futuro. A não ser assim, todo o presente rapidamente se torna passado. Conservando o que é importante, o presente pode aspirar a ter futuro!)
Mas a diversidade das origens dos autores e a lucidez das suas reflexões exigem que se seja mais prudente em tão pronta ‘etiquetagem’.
Apesar, porém, do nosso desejo sincero de que assim seja (que não se arrede da vista um livro conotado…), estamos em tempos em que se pretende ver a ‘bula’ do remédio para a sede de leitura antes de o ingerir. E já não o lemos ‘virgens’ de preconceitos, porque de preconceitos nos pretendíamos dispensar e libertar.
É este um dos maiores paradoxos do nosso tempo: de tanto se pretender despreconceituoso, nunca tanto deles dependemos e por eles nos dispensámos de ler o que caiu sob o rótulo de que deles enfermava.
Sabendo bem disso, os que perceberam perigo neste livro prontamente se encarregaram de sobre ele lançar a ‘lama’ de que seria um livro padecente de preconceitos para que, contaminado, dele não se abeirassem os que, por seu efeito, pudessem vir a ficar ‘enfermiços’.
Mas a obra ficou… A qualidade está ao alcance da leitura e do reconhecimento que aceite conferir-lhe o leitor honesto.
Marcas de água (o que fica depois de se deixar o livro)
A leitura, após a polémica que se gerou em torno deste livro, recordou-me o mito clássico de Cassandra.
Sobre Cassandra impende uma bênção e uma maldição. Tem o poder de prever o futuro (um dom reservado a muito poucos…), mas está amaldiçoada pela impossibilidade de ser ouvida e seguida pelos que a ouvirem. Previu que os gregos entrariam em Troia e avisou que o cavalo de madeira ‘estacionado’ junto às muralhas da cidade seria o instrumento com que aqueles entrariam e destruiriam a cidade, mas a sua visionária denúncia só recebeu indiferença. Não só não lhe ligaram como arrastaram para o interior da cidade o cavalo, tomando-o por ‘coroa de glória’ dos deuses…
A denúncia de que a família, que pede o ordenamento internacional que seja protegida, vive ‘sob ameaça’ por efeito de uma ‘liquidificação’ do conceito (expressão minha, mas que corresponde à abordagem defendida ao longo do livro) e por ação de ideologias que, por meios muito eficazes, têm conduzido aos resultados que estão diante de todos – crise demográfica, diluição dos laços familiares, aumento do número de nascimentos fora do contexto da estabilidade matrimonial, diminuição da taxa de nupcialidade e aumento da de divorcialidade, etc. – parece soar a discurso de uns ‘irredutíveis gauleses’ que, mais cedo do que tarde, serão vencidos. Mas os números não se referem a questões marginais, antes à própria solidez da condição humana como seres intrinsecamente relacionais e à garantia dos liames que estruturam a sociedade. Em causa está que, a diluir-se, em definitivo, a estrutura familiar, nos reduzamos ‘à imensa solidão das multidões’ (Manuel Monteiro), pois ‘numa sociedade em que a família perde o valor central, não há habitantes, mas, sim, gente.’ (Manuela Ramalho Eanes)
É por isso que este livro não é, apenas, um livro: é um candelabro erguido sobre o monte em noite sem luar.
Dramático?
Verdadeiramente dramático é nascer-se órfão de uma orfandade legitimada pela lei que, para atender a putativos direitos dos adultos a terem filhos como um objeto que se pode obter, se seja impedido de saber quem é o pai ou a mãe.
Dramático é não poder ver respeitado o direito a nascer numa família com a presença do pai e da mãe porque a lei liquefez os vínculos e permitiu que fosse mais fácil romper laços do que construí-los.
Dramático é nascer-se e permanecer-se filho único porque um idealismo quase platónico nos impede de aceitar que possamos não dar todas as coisas para que possamos dar muito mais daquilo que não se reduz à condição de coisa: a possibilidade de construir uma fraternidade.
Dramático é confundir desejos com direitos. Nem todo o desejo é, só por si, direito. Um direito nunca o poderá ser sobre a pessoa do outro. Dramático é, por isso, a redução dos outros à condição de objetos gerados para satisfação de desejos individuais. Essa é a rampa que despersonaliza e desumaniza. E parece que já nos decidimos, coletivamente, a deixarmo-nos deslizar por ela.
Este livro é, porém, nas suas propostas, também um luzeiro de esperança. São inúmeras as sugestões a tomar como sementes de futuro: da difusão do selo de reconhecimento de empresas familiarmente responsáveis à regulamentação do cuidador informal, dos modos de articulação entre gerações à ‘receita’ maternal contra o individualismo, são muitas as vias para que se opere a revolução que a família permitirá consumar.
Porque, como é recordado, cumprir-se-á Portugal quando se cumprir a família! (Cfr. Gonçalo Portocarrero de Almada)
Na mesma página que o autor (citações)
’Como disse o Conselho Pontifício Justiça e Paz, «a família encontra a sua legitimação na natureza humana e não no reconhecimento do Estado. A família não é, portanto, para a sociedade e para o Estado, antes a sociedade e o Estado são para a família».’ (Introdução, p. 14)
‘A família tem sabido, com mais ou menos obstáculos, conjugar três aspetos nucleares: evolução, plasticidade e unidade. Sendo o barómetro social que melhor transmite a tensão e a transição dos tempos, o seu ideal e a sua aspiração não mudaram, porém, na sua essência.’ (Introdução, p. 15)
‘Ultimamente, posições radicais e mediaticamente potenciadas pretendem desdenhar da instituição familiar, vista até como uma instituição ultrapassada. Existe uma indisfarçável pressão ideológica e económica para forçar o indivíduo a uma desvinculação familiar, retirando-lhe todo o sentido da pertença. O lema é «tu poder ser aquilo que tu queres».
Este radicalismo individualista é levado ao limite através da chamada ideologia de género. Sem qualquer base científica, esta ideologia defende que o género é construído apenas pela identidade psicológica de género do indivíduo, negando ou relativizando totalmente a identidade biológica. Esta, porém, não é atribuível, antes é parte integrante do indivíduo na sua diversidade e especificidade. Estamos assim perante um movimento ideológico com impacto na família, na educação, na socialização, na comunicação. A ideologia de género não é promotora da liberdade ou acolhedora da diferença, mas impositora de um novo modelo de pensamento único, comprometendo o desenvolvimento humano fundado em valores, formado na liberdade e autonomia e vocacionado para a felicidade.’ (Introdução, p. 16)
‘Esta obra tem tudo para constituir um livro-semente. Um livro que, queremos, faça despertar, sobretudo nas gerações jovens, desassossegos virtuosos em vez de indiferentismos viciosos. Um livro que nos ajude a germinar perguntas e a colher respostas. Um livro para sempre e não um livro de momento, tão mais significativo quando (sic) vivemos tempos de presentismo obsessivo e descartável.’ (Introdução, p. 17)
‘O ataque à família tradicional é uma estratégia política comum a todas as tiranias, já que a família fomenta uma relação harmoniosa e solidária entre os seus membros que se propaga na sociedade, contrariando os propósitos dos regimes totalitários. Fragilizar a família é comprometer a estabilidade social e a promoção de um bem comum.’ (Pedro Afonso, p. 22)
‘[…] a educação tem de ser realizada com base em três aspetos essenciais: amor, coerência e valores.’ (Pedro Afonso, p. 24)
‘A família é a primeira escola das virtudes sociais: onde se estabelecem relações de interdependência e solidariedade geracional. Ela também é um porto seguro em períodos de crise, de doença ou de qualquer infortúnio, oferecendo um apoio sólido, desinteressado e incondicional. Por isso é que a família deve ser valorizada e protegida pelo Estado, pois uma sociedade que não protege a família compromete o seu futuro.’ (Pedro Afonso, p. 31)
‘Do latim dignitas, dignitatis, que significa substancialmente merecimento, valor, nobreza, o termo dignidade refere-se ao valor em si que uma entidade tem, não equiparável, sem equivalente, portanto não transacionável. Este mesmo significado foi, aliás, sublinhado pelo Papa Francisco, poucos meses depois da sua eleição, ao dizer aos médicos de todo o mundo que «as coisas têm um preço e podem ser vendidas, mas as pessoas têm uma dignidade, valem mais do que as coisas e não têm preço».
Já a Comissão Teológica Internacional, em documento publicado em finais de Abril de 2019, se refere a este «valor em si, nunca transacionável, contido na noção de dignidade humana: «Num sentido muito geral, a dignidade remete para a inalienável perfeição do ser-sujeito na ordem ontológica, moral ou social. A noção emprega-se na ordem moral das relações intersubjetivas [e, portanto, também dentro da família] para designar aquilo que possui um valor em si mesmo e, portanto, não pode jamais ser tratado como se fosse um simples meio. A dignidade é assim uma propriedade inerente à pessoa enquanto tal.»’ (João Duarte Bleck, pp. 37-38)
‘Uma criança que cresce a ser «querida» vai internalizar um sentimento de pertença e de autoestima que lhe dará ferramentas para enfrentar as fases da vida que se seguem e que poderão trazer algumas provações…’ (Pureza de Mello, p. 45)
‘Compreender a importância da família na formação da identidade é, pois, uma exigência não negociável e não transmissível, que nenhum poder político pode ignorar ou corromper.’ (Manuel Monteiro, p. 53)
‘[…] a relação do Estado com as famílias deve nortear-se pelo princípio da subsidiariedade. A defesa deste princípio não implica, como é óbvio, a retirada do Estado de um dos fins que justifica a sua existência – o bem-estar social – implica apenas que o Estado saiba que pode melhor alcançar esse fim se deixar as famílias agir como famílias. Não se trata de lhes dar, bem pelo contrário, trata-se somente de lhes restituir o que nunca lhes deveria ter sido retirado: a liberdade com compromisso e com sentido de responsabilidade. É certo que esta atitude obriga a mudanças de pensamento, mas não é menos certo que sem essa mudança de pensamento todos continuaremos a caminhar para a imensa solidão das multidões.’ (Manuel Monteiro, p. 55)
‘[…] tudo isso que constitui a cultura como herança não-biológica do Homem é na família que primordialmente cada um a recebe; e é em família que consequentemente cada um explora dialogicamente essa cultura, cada um começa a participar na transformação interactiva dessa cultura interactivamente, ao passo que a sua consciência cognoscente e constituinte a vai sustentando criticamente em equação com os seus parâmetros axiológicos e éticos.’ (José Carlos Seabra Pereira, p. 63)
‘Este ataque à família não é virtual, pois as consequências estão já bem à vista: queda drástica da taxa matrimonial, que em Portugal de 1999 a 2019 caiu para metade, descida da taxa de natalidade e, mais significativo, subida espantosa da percentagem de nascimento fora do casamento, que em 1980 era 9%, em 2000 22%, mas já estava acima dos 60% em 2022. É isto, e nãos os esforços das «ideologias de género», que representa o verdadeiro descalabro da família.
A verdade, porém, é que os seres humanos, dentro de si, estão exatamente iguais ao que sempre foram; e nada daquilo que o exterior nos possa dar consegue substituir o amor, o calor, o conforto da família. A família não precisa de defesa, porque ela é nuclear, indispensável, insubstituível. Aquilo que temos de nos esforçar por defender é a sanidade e equilíbrio de tantos dos nossos que, deslumbrados pela ilusão urbana, destroem o seu coração. Quem precisa da nossa ajuda são, não as famílias, mas os pobres tontos que lutam contra e, por isso, contra si mesmos.’ (João César das Neves, p. 71)
‘Nas chamadas «culturas urbanas», sobretudo no mundo ocidental, encontramos ainda três outras atitudes que confrontam a noção de família tradicional. 1.ª – A existência e a promoção de «famílias alternativas», ou seja, por opção, sem pai ou sem mãe, ou com dois pais ou duas mães, ou ainda conjugações mais complexas. 2.ª – A noção ou convicção de que tudo o que a técnica é capaz de fazer (por exemplo, a cirurgia plástica e a engenharia genética…) se poder fazer. […] 3.ª – Tende a instalar-se a ideologia de género, como um dogma que não se pode contradizer. Porém, esta ideologia, embora seja apresentada como cura de traumas bio-psico-sociais não resolvidos, desvaloriza e rejeita a realidade biológica, propondo identidade subjetiva, emotiva, que levam a viver na mentira. Como se o sexo e o corpo fossem coisas que se tem e não um modo próprio de ser. Não temos corpo, somos corporais; não temos sexo, somos sexuados e em processo de maturação desde o pensamento à mais pequena célula onde os cromossomas se mantêm, masculinos ou femininos, apesar das maiores plásticas e de sofisticadas cirurgias e adaptações psíquica e sociais.’ (Vasco Pinto de Magalhães, pp. 76-77)
‘A família daqueles que me-amam-na-verdade é o lugar em que a identidade humana se desenvolve.‘ (Isabel Almeida e Brito, p. 88)
‘É na Família que tem origem o princípio da personalização, como evolução do ser humano para um ser pessoal. Numa sociedade em que a família perde o valor central, não há habitantes, mas, sim, gente. A Família aporta segurança, liberdade e felicidade aos seus membros, por esta ordem, porque não há felicidade sem liberdade, nem liberdade sem segurança.’ (Manuela Ramalho Eanes, p. 92)
‘«As mães são o antídoto mais forte contra o propagar-se do individualismo egoísta. “Indivíduo” quer dizer “que não se pode dividir”. As mães, ao contrário, “dividem-se”, a partir do momento que hospedam um filho para o dar à luz e fazer crescer.»’ (Papa Francisco, A família gera o mundo. Catequeses sobre a família, Lisboa, Paulus, 2016, p. 13) – Citado por Manuel Clemente, p. 100.
‘O Papa é muito sensível a este ponto e questiona: «…pergunto-me se a chamada teoria do género não é também expressão de uma frustração e resignação que visa anular a diferença sexual porque não se sabe confrontar com ela. Sim, corremos o risco de dar um passo atrás. Com efeito, a remoção da diferença é o problema, não a solução. Ao contrário, para resolver a suas problemáticas de relação, o homem e a mulher devem falar mais entre si, ouvir-se e conhecer-se mais, amar-se mais.»’ (Manuel Clemente, p. 102)
‘Perante tudo isto, o Papa acabará por conclamar: «Chegou a hora de os pais e as mães voltarem do seu exílio – porque se autoexilaram da educação dos próprios filhos – e recuperarem a sua função educativa» (p. 70).’ (Manuel Clemente, p. 103)
‘Tal como a infelicidade, a felicidade tem as suas histórias. Tal como a transgressão, a conformidade tem muitas variantes. As famílias felizes não são todas iguais nem são felizes da mesma maneira.’ (Jaime Nogueira Pinto, p. 110)
‘Reféns do subjetivismos contemporâneo, pode parecer-nos que estamos de mãos e pés atados. Mas talvez a família possa ser mais que o mero lugar em que a crise cultural aparece. Ela tem em si mesma, estou também eu seguro disso, o dinamismo de um caminho que pode proporcionar um novo grito – um novo cântico! – do humano. É que, nela, se mostra a essência do Homem e o próprio rosto de Deus.’ (Nuno Brás da Silva Martins, p. 118)
‘A evidência do tempo que passa deixa cada vez mais claro que vivemos uma época solteira de afectos, viúva de emoções e cada vez mais divorciada de compromissos.’ (Fernando Ventura, p. 121)
‘Teimamos em afirmar que a minha liberdade termina, quando começa a liberdade do outro… Será que nos damos conta, agora mais do que nunca, que é preciso ir mais longe? A ser assim, e a ser só assim, o outro é só uma barreira para a minha liberdade, alguém que de uma forma ou outra eu tenho de destruir, tenho de matar para ser livre….
Quando um dia entendermos que a nossa liberdade se pode alargar sempre que for unida à liberdade do outro, teremos entendido o mundo como um mosaico de diferentes cada um com as suas riquezas e os seus limites e, aí sim, poderemos ver nascer um mundo organizado no respeito pelo outro, que comigo é construção de uma liberdade sem fim.’ (Fernando Ventura, pp. 123-124)
‘A solidão maior não é a de não termos ninguém que goste de nós… a solidão maior é a de nós não termos ninguém a quem amar, ninguém a quem dizer todos os dias, pelo menos, eu gosto de ti.’ (Fernando Ventura, p. 125)
‘A sociedade democrática pressupõe a liberdade e a igualdade, a igualdade e a diferença e o valor inviolável da dignidade humana. Essa realidade inicia-se na família, encarada como instituição mediadora por excelência, fator de paz e de diálogo.’ (Guilherme D’Oliveira Martins, p. 130)
‘O social privado e o social público obrigam à consideração de mediadores sociais, capazes de regular os conflitos e de garantir uma função emancipadora, sendo a família reino do amor e a cidade reino do direito, devendo as duas realidades convergir e completar-se.’ (Guilherme D’Oliveira Martins, p. 133)
‘Se é verdade que todos os cristãos, e todos os homens de boa vontade, se devem sentir comprometidos com esta guerra de paz, é sobretudo à família que compete cerrar fileiras e avançar, sem medo, no caminho das reformas que se impõem. Neste sentido, hoje, mais do que nunca, há que promover o associativismo familiar, a participação cívica dos pais, bem como a intervenção política dos representantes das famílias.
A família é, verdadeiramente, a revolução que falta. […]
Nesta hora difícil para a instituição familiar, a ninguém é lícita uma passiva cumplicidade com as injustiças existentes, porque os tempos actuais são de acção e não de omissão.
Falta cumprir a família, falta cumprir Portugal!’ (Gonçalo Portocarrero de Almada, pp. 142.143)
‘Diz [a Constituição]: «Os pais têm o direito e o dever de educação dos filhos.» E acrescenta: «Incumbe ao Estado para protecção da família cooperar com os pais na educação dos filhos.» E remata: «Os pais e as mães têm direito á protecção da sociedade e do Estado na realização da sua insubstituível acção em relação aos filhos, nomeadamente quanto à sua educação.» Qual é a dúvida? Quanto à educação dos filhos, o primado é dos pais. É um direito natural constitucionalmente protegido. O Estado tem, na educação, uma função subsidiária.’ (José Ribeiro e Castro, p. 148)
‘[…] a conciliação entre a vida familiar e o trabalho constitui um factor fundamental do crescimento individual de cada colaborador assim como do sucesso das organizações.’ (Rui Diniz, p. 159)
‘Há evidência científica, como sabemos, de que a solidão mata mais do que muitas doenças; de que as redes sociais não substituem a presença, a expressão dos afetos, o olhar e o toque, embora, em tempos de pandemia, tenham ajudado a aproximar os que estavam longe; enfim… não pode ser delegada na tecnologia a substituição de quem quer que seja e a verdadeira proximidade.’ (Margarida Cordo, p. 164)
‘Os cuidadores informais, que são milhares no nosso país e a quem expressamos o nosso reconhecimento, não podem tornar-se invisíveis para os sistemas de saúde. Depende de todos nós, como sociedade, garantir que possam cumprir o seu papel com o apoio necessário e correcto. Importa que saibam e sintam que não estão sozinhos.
Não nos cansaremos de repetir que só uma sociedade que cuida dos mais frágeis e dos que deles cuidam se pode afirmar como uma sociedade avançada e moderna. Oxalá assim possa ser.’ (Isabel Galriça Neto, pp. 174-175)
‘A família é a primeira e mais básica das instituições sociais, antes de mais porque assegura a renovação das gerações. Podemos dizer que a primeira função de qualquer comunidade é assegurar a sua própria sobrevivência e renovação.’ (Pedro Vaz Patto, p. 180)
‘A família assente na riqueza da diferença e complementaridade entre as dimensões masculina e feminina, que só em conjunto compõem a riqueza integral do humano. Esta «unidade na diversidade» (a unidade a partir da mais básica e fundamental das diferenças) marca a família e, a partir dela e através da sua missão de educação das novas gerações, deve marcar toda a sociedade, que, toda ela, deve beneficiar da riqueza da diferença e complementaridade das dimensões masculina e feminina do humano.’ (Pedro Vaz Patto, p. 181)
‘Não se vence a crise demográfica sem vencer a crise da família. A rejeição do casamento como doação total e compromisso definitivo não pode deixar de traduzir-se na rejeição da natalidade. A fuga diante de escolhas definitivas, o viver projectado apenas no imediato, sem um projecto que envolva toda a vida, leva também à recusa da que é, talvez, a mais irreversível das opções: a de ter filhos.’ (Pedro Vaz Patto, p. 183)
‘Para superar a crise demográfica, importa, pois, contrariar a mentalidade que acentua o individualismo e rejeita os incómodos e sacrifícios que os filhos necessariamente acarretam. Mas há também uma mentalidade de aparente altruísmo que importa contrariar. A que se nota em expressões como esta: «Aos meus filhos quero dar o melhor, e só posso dar o melhor a um.» O melhor que se pode dar aos filhos é, porém, a possibilidade de conviver com vários irmãos, e assim beneficiar da melhor escola de socialidade (com as dificuldades inerentes a qualquer socialidade – é certo).
Saber que a vida é sempre um dom que compensa todos os sacrifícios – só com esta consciência pode ser vencida a crise de natalidade.’ (Pedro Vaz Patto, p. 184)
‘[…] Direito é Ética devem complementar-se […]’ (Raquel Brízida Castro, p. 192)
‘Não será exagero afirmar que as relações intrafamiliares nos preparam para a vivência em sociedade, tal como as disfuncionalidades intrafamiliares criam cicatrizes na identidade psíquica dos indivíduos que se projetam na sua conduta social.
A família torna-se, em suma, fonte da identidade de cada um: se a identidade biológica nos torna homens ou mulheres, a família modela os afetos, a educação e, por absorção ou antagonismo, os padrões axiológicos de convivência social.’ (Paulo Otero, p. 200)
‘Se destruir o modelo tradicional de família é a bandeira de certos grupos políticos apostados na instauração de uma nova ordem mundial de cariz totalitário, usando até o sistema educativo para doutrinar ou instrumentalizando a lei penal para criminalizar quem pensa diferente, defender esse modelo de família, denunciando as manobras atentatórias, e lutar pela sua dignificação como «núcleo natural e fundamental da sociedade» é imperativo de todos os Estados e uma vinculação de cada um de nós.
Pela salvaguarda de um tal modelo de família passa hoje a legítima defesa da nossa identidade e da nossa civilização – o próprio direito de resistência pode ser chamado a intervir, se a objeção de consciência não for suficiente.’ (Paulo Otero, p. 202)
‘Uma ciência e uma tecnologia que deixem de estar ao serviço da dignidade da pessoa humana, sem limites éticos, arrisca-se a tornar-se coveira da própria identidade humana e, por essa via, da nossa inserção no contexto da «família humana» - aqui reside, provavelmente, o maior desafio dos tempos modernos a esta nova forma de totalitarismo recriador de mitos hitlerianos.’ (Paulo Otero, p. 207)

