Mostrar mensagens com a etiqueta criação. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta criação. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, agosto 07, 2026

'Os Sete Dias da Criação' |11| Luís M. P. Silva - 11 – O segundo dia… a preparar o terceiro!

 

(‘Os Sete Dias da Criação’ | Rubrica dedicada ao diálogo entre ciência e religião)
Artigo originalmente publicado na revista 'Mundo Rural'

Luís Manuel Pereira da Silva*

 

Avancemos para o segundo dia….

Dia que nos reserva algumas curiosidades habitualmente não constatadas.

Em primeiro lugar, observa-se – como refere G. V. Rad – que se sobrepõem, no relato deste dia, as características de duas tradições narrativas: numa, mais antiga, a obra criadora é realizada, diretamente por Deus – ‘Deus fez o firmamento’-, enquanto na mais recente, a obra realiza-se por ação da palavra – ‘Deus disse’[1].

Um segundo detalhe curioso só pode constatar-se ao cruzar a leitura desta narrativa com a leitura de narrativas contemporâneas desta, mas escritas pelos povos envolventes (exercício que já temos vindo a realizar…). Nesse cruzar de leituras, observa-se que ‘em Enuma Elish [mito da criação babilónico que, certamente, os autores bíblicos conheciam] Marduk [o Deus mais poderoso de todo o panteão babilónico] criou o céu como uma abóbada, usando os despojoso da deusa primordial Tiamat como material de construção. Esta abóbada retém, por cima dela, águas que de vez em quando se precipitam através dela, em forma de chuva. O Génesis também concebe o céu como uma abóbada, mas para a criar, Deus não teve de matar ninguém. Bastou a sua palavra.[2]’

O segundo dia reserva-nos, para além disto, uma particularidade que se constatará ao concluir a leitura de toda a narrativa do autor sacerdotal[3] (Gn1,1-2,4a). Para dar conta dessa particularidade, repare-se que, ao fim do terceiro dia (o seguinte), o autor bíblico diz que ‘Deus viu que isto era bom.’(v.12); no quarto dia, diz ‘E Deus viu que isto era bom.’ (v.18); no quinto dia, diz, duas vezes: ‘E Deus viu que isto era bom.’ (v.21 e 25); e, no sexto, após completar a obra, que inclui a humanidade, dirá: ‘Deus, vendo toda a sua obra, considerou-a muito boa.’ (v.31).

Curiosamente, porém, após concluir a obra do segundo dia, o autor bíblico não qualifica a obra de Deus. O autor não refere que Deus constate que a obra é boa…

Santo Agostinho regista, a propósito deste passo da obra criadora: ‘Não me recordo de que os maniqueus costumem criticar este passo.’ (Este silêncio dos maniqueus é interessante. Talvez eles próprios se sentissem surpreendidos com a expectativa deixada pelo autor bíblico que omite apreciação da obra de Deus…)

 E acrescenta o Bispo de Hipona: ‘No entanto, […] tendo a matéria informe sido designada pelo nome água, esta divisão das águas, colocando algumas acima do firmamento e outras abaixo, não significa outra coisa, creio, que a separação feita pelo firmamento do céu entre a matéria corporal das coisas visíveis e a matéria incorpórea das coisas invisíveis.[4]’

Como interpretar, então, esta ausência de qualificação da obra?

D. António Couto, que nos propõe tradução sempre muito cuidada dos termos, repercutindo o espírito concreto da língua hebraica[5], recorda, em nota de rodapé que ‘a exegese judaica explica assim esta ausência da anotação da bondade na obra do segundo dia: «Não foi neste dia que a obra da água ficou acabada!»[6]’. Como o mesmo D. António refere, ainda está em curso da ‘engenharia da água’, que só se completará no terceiro dia.

Cruzando todos estes dados em jogo, acima enumerados, podemos recolher, para a análise que temos em curso, alguns elementos significativos.

Não basta que haja uma separação clara entre o âmbito divino e o humano para que a ordem seja assegurada. Só concluída a obra de separação entre as águas e a terra seca, no lugar onde o Homem pousará os seus pés, é que a ordem ficará estabelecida. Dito de outro modo: não basta que se separem o sagrado e o profano; será necessário que, no âmbito do profano também se cumpra a ordem devida.

Um segundo elemento interessante a reter tem a ver com a cosmologia (o modo de pensar o mundo) implícito nesta narrativa. O autor bíblico não pretende vincular o leitor a uma determinada compreensão (quase científica). A ser assim, teríamos de ficar vinculados à cosmologia que tão claramente nos descreve D. António Couto (referida na anota abaixo). O autor bíblico repercute a cosmologia do povo bíblico para, com ela, enunciar, por um lado, que ‘habitamos um mundo bom, criado por um Deus bom. A substância última de tudo o que existe não é a violência, mas a bondade insuflada pelo ato criador de Deus. Podemos viver felizes nesta Terra. Deus não supõe nenhuma ameaça.’[7], mas também que, por outro lado, não basta constatar a bondade desejada por Deus: é necessário que, no acontecer real, se preserve a ordem, seja a vertical (entre Céu e Terra), mas também a horizontal (entre ás águas e a terra seca). Sendo esta a mensagem a colher, é preciso, então, ter em conta que, ‘separadas as águas entre o sagrado e o profano’, à ciência e à teologia caberão missões distintas, mas que a nossa reflexão permitirá perceber que não são indiferentes, conflituantes ou, sequer contrastantes, mas convergentes e complementares. ‘A ciência investiga os processos pelos quais o universo se foi desenvolvendo e como a vida evoluiu no planeta Terra: pergunta-se como sucederam e sucedem as coisas. Filósofos e teólogos interrogam-se porquê. Como se perguntava o matemático, físico e filósofo Leibniz há mais de trezentos anos, «por que razão existe alguma coisa em vez de nada?»[8].’


Sugestões bibliográficas

 

D. António Couto, O livro do Génesis, Leça da Palmeira, Letras e Coisas-livros, 2013.

Gerhard von Rad, El libro del Génesis, Salamanca, Ediciones Sígueme, 19887.

Alberto de Mingo Kaminouchi, A Bíblia do princípio ao fim: um guia de leitura para hoje, Apelação, Paulus Editora, 2021.

Santo Agostinho, Da interpretação do Génesis: dois livros contra os maniqueus, Prior Velho, Paulinas, 2021.

Xavier Léon-Dufour, Vocabulário de Teologia Bíblica, Petrópolis, Vozes, 20027.


[1] Cfr. Gerhard von Rad, El libro del Génesis, Salamanca, Ediciones Sígueme, 19887, p. 63.

[2] Alberto de Mingo Kaminouchi, A Bíblia do princípio ao fim: um guia de leitura para hoje, Apelação, Paulus Editora, 2021, p. 54.

[3] ‘Autor sacerdotal é expressão com que os exegetas designam os redatores da passagem bíblica que estamos a analisar. Obtém a sua designação do facto de se atribuir a sacerdotes (eventualmente regressados do exílio, na Babilónia) e que terão redigido partes significativas do livro de Génesis e de outros livros do Pentateuco, no século VI-V a.C.. Este ‘autor’ (não é, certamente, um autor individual, mas uma ‘escola’) é, muitas vezes, identificado com ‘P’, aludindo à palavra alemã ‘Priester’ (sacerdote).

[4] Santo Agostinho, Da interpretação do Génesis: dois livros contra os maniqueus, Prior Velho, Paulinas, 2021, p. 69.

[5] ‘«Firmamento» diz-se, na língua hebraica, raqia’, que deriva do verbo raqa’, na forma qal, que é considerado como a pele de uma tenda ou uma lâmina trabalhada de cristal reluzente, mas que o mais das vezes significa «tornar sólido», que é o significado que tem nesta passagem. E é «firmamento», «firme», porque se apoia em colunas sólidas, «colinas» ou «montes eternos», que o sustentam (Jb 26,11; cf. Dt 33,15; Hab 3,6). Sobre o formamento estão as águas superiores, conservadas em reservatórios (Jb 38,22), de onde podem sair através de comportas (‘arbôt), formndo a chuva. Quando o firmamento se apresenta sereno, tem uma cor azul, que deriva das águas de cima. Sobre o mar celeste, eleva-se uma vasta cúpula, formada de três, sete ou dez céus, chamada «os céus dos céus» (shemê hashshamaîm) (Dt 10,14), habitação inacessível de Deus. Segundo a mentalidade dos mestres do Talmud, estes céus formam a chamada «escada cósmica». A espessura de cada céu é igual a uma viagem de 500 anos, e Deus senta-se no sétimo céu, ou último céu, caso se trate de mais. Em suma, os Hebreus vêem o universo como uma casa composta de três partes: o plano subterrâneo forma o she’ôl: o plano terreno a superfície terrestre; as paredes as «colinas eternas»; o tecto a cúpula celeste; o terraço o «céu dos céus». Mas a engenharia das águas continua no terceiro dizer de Deus. Também por isso a menção da bondade da obra feita é diferida para o final do terceiro dizer de Deus.’ D. António Couto, O livro do Génesis, Leça da Palmeira, Letras e Coisas-livros, 2013., pp. 31-32

[6] Cfr. Ibidem, nota 77, p. 31.

[7] Alberto de Mingo Kaminouchi, A Bíblia do princípio ao fim: um guia de leitura para hoje, Apelação, Paulus Editora, 2021, p. 58.

[8] Ibidem, p. 59.


*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano', 'Ensaios de liberdade' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'

 

domingo, junho 07, 2026

'Os Sete Dias da Criação' |10| Luís M. P. Silva - O primeiro dia feito de uma tarde e uma manhã: ‘E foi tarde e foi manhã: dia um’

 

(‘Os Sete Dias da Criação’ | Rubrica dedicada ao diálogo entre ciência e religião)
Artigo originalmente publicado na revista 'Mundo Rural'

Luís Manuel Pereira da Silva*

Prossigamos com a nossa reflexão sobre as relações entre a ciência e a religião, seguindo os ‘sete dias da criação’.

A força e densidade que o dia primeiro nos reserva fazem-nos nele permanecer mais um pouco.

A tradução da difusora bíblica (de acordo com a publicação disponibilizada em https://www.paroquias.org/biblia/), diz-nos, ainda, sobre este dia, que ‘Assim, surgiu a tarde e, em seguida, a manhã: foi o primeiro dia.’ Nesta opção de tradução, o dia aparece referido de modo ordinal: o primeiro. Uma leitura mais fina permite-nos, porém, constatar que o autor bíblico se refere, antes, a esta sequência com uma menção cardinal: ‘dia um’ ou ‘um dia’[1] , como quem está a contar ao ritmo da própria descrição e não como quem já sabe que há um seguinte.

A iniciativa é, efetivamente, de Deus e não do autor que escreve.

Reparemos, ainda, que a ordem – tantas vezes distraidamente desatendida – é a de que, primeiro, vem a tarde, e só depois, a manhã. ‘E foi tarde e foi manhã: dia Um’, traduz D. António Couto, que acrescenta, em rodapé, que ‘esta maneira de descrever o dia, do pôr-do-sol ao pôr-do-sol, está sob a influência do calendário lunar, em que o dia começa e acaba com o pôr-do-sol’[2].

Mantemos reminiscência desta organização do tempo na nossa liturgia que celebra, após o pôr-do-sol de sábado, a eucaristia dominical.

Servem-nos estas notas para constatar que a novidade bíblica está presente, para além da noção de criação (ausente das cosmogonias circundantes), na própria conceção de tempo. Certamente, sofrendo influências dos povos envolventes (no próprio ano lunar que o cristianismo veio a substituir pelo solar, por influência romana e por ação cientificamente fundamentada de sucessivos Papas, entre os quais deveremos destacar João III (século VI) e Gregório XIII (século XVI)), o texto bíblico preconiza uma revolução na conceção de tempo, seja porque o situa (como já anteriormente sublinhámos) na ordem da criação (e não como existindo antes do início da criação, como sustentavam as conceções circundantes, que atribuíam um ‘tempo dos deuses’), seja porque supera a leitura circular do tempo, para criar a ideia da sequencialidade e progressividade, noção que criou a ‘forma mentis’ ocidental. Bem certo que a sedução da circularidade temporal vai reemergindo (F. Nietzsche defendeu-a, no final do século XIX, na sua crítica feroz ao judeo-cristianismo), mas a compreensão bíblica fez ‘cultura’ e fecunda o modus cogitandi que molda as nossas sociedades. Estes dois ‘lados’ da conceção temporal bíblica andam de mãos dados: a condição criatural e a sua ‘tensão’ para o plus que é Deus. Dizem-no, de modo claro, os autores do Vocabulário de Teologia Bíblica: ‘o ato criador marca o começo absoluto do tempo que é o nosso, bem como todo o resto da criação; mas Deus preexistia a esse tempo. Aquilo que se desenvolverá no tempo é plano dEle, ordenando, primeiramente, toda a criação com vistas ao homem, e depois dirigindo o fim do homem com vistas a um fim misterioso.[3]’

E como sabemos quão importante é o tempo que não regressa!

Como recorda Colin Stuart, no seu muito curioso livro ‘Tempo: 10 coisas que deve saber’, é desta noção do tempo que flui para diante e não regressa que resulta valorizarmos cada parte do tempo de que dispomos. ‘A mais ínfima fração de segundo poderá ser a diferença entre o ouro e a prata. Essa fração pode, também, valer-lhes uma fortuna. Em 2009, trabalhadores da construção civil instalaram um cabo subterrâneo de 1300 quilómetros, entre as bolsas de valores em Chicago e Nova Iorque, com o custo de 180 milhões de dólares. Tudo para reduzir 0,000004 segundos ao tempo que demora a enviar informação comercial entre os dois polos. Até mesmo essa pequena diferença aumentou os lucros em 12 mil milhões de libras por ano, numa indústria em que o tempo é, literalmente, dinheiro.[4]’

Para os que pretendem recolher do texto bíblico uma qualquer conclusão de que este se oponha ao progresso e ao desenvolvimento não poderá, senão, questionar-se sobre se tomaram o texto no seu todo ou se só o tomaram na literalidade de um fragmento. Mas importa, bem certo, perguntar para que destino se encaminha esse progresso.

E essa, sim, é questão a que é fundamental responder regressando ao texto bíblico. É que cada uma das oito obras da criação ocorridas nos seis dias da criação só ocorre porque, segundo o autor bíblico, ‘E disse Deus’. Para existir, a criação depende de Deus. E se n’Ele não permanecer, perece… É nada! Não é criação. Não existe.

‘Para onde progride o tempo que flui?’ – Parece ser a pergunta implícita deixada pelo autor bíblico, ao recordar-nos que ‘E chamou Deus à luz dia e às trevas chamou noite. E foi tarde e foi manhã: dia UM[5]’.


Sugestões bibliográficas:

 

D. António Couto, O livro do Génesis, Leça da Palmeira, Letras e Coisas-livros, 2013.

Gerhard von Rad, El libro del Génesis, Salamanca, Ediciones Sígueme, 19887.

Colin Stuart, Tempo: 10 coisas que deve saber, Lisboa, Vogais, 2024.

Xavier Léon-Dufour, Vocabulário de Teologia Bíblica, Petrópolis, Vozes, 20027.


[1] Cfr. D. António Couto, O livro do Génesis, p. 30.

[2] Ibidem, nota 73, p. 30.

[3] Xavier Léon-Dufour, Vocabulário de Teologia Bíblica, col. 1008.

[4] Colin Stuart, Tempo: 10 coisas que deve saber, pp. 17-18.

[5] D. António Couto, O livro do Génesis, p. 30.


*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano', 'Ensaios de liberdade' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'

quarta-feira, maio 20, 2026

'Os Sete Dias da Criação' |9| Luís M. P. Silva - Continuamos no primeiro dia: ‘Deus disse: «Faça-se a luz.» E a luz foi feita.’ A luz é criada; as trevas são separadas…

 

(‘Os Sete Dias da Criação’ | Rubrica dedicada ao diálogo entre ciência e religião)
Artigo originalmente publicado na revista 'Mundo Rural'

Luís Manuel Pereira da Silva*

 

Continuamos a refletir sobre as relações entre a ciência e a religião, seguindo os ‘sete dias da criação’.

Mantemo-nos no primeiro dia. A densidade do texto a isso nos obriga.

Na tradução da difusora bíblica (de acordo com a publicação disponibilizada em https://www.paroquias.org/biblia/), assim foi o primeiro dia: ‘Deus disse: «Faça-se a luz.» E a luz foi feita. Deus viu que a luz era boa e separou a luz das trevas. Deus chamou dia à luz, e às trevas, noite. Assim, surgiu a tarde e, em seguida, a manhã: foi o primeiro dia.’

Às inúmeras e significativas constatações que já nos foi possível fazer, a partir destes três versículos, podem acrescentar-se as que, seguidamente, enunciaremos.

Não sem antes recordar, com Gerhard von Rad, que ‘além dos dois enunciados sobre a criação aduzidos até agora (diferença de essência em relação a Deus, e dependência d’Ele), aparece mais outro que é digno de apreço: a criatura que entrou na existência é tob (boa), termo no qual mais do que um juízo estético há uma indicação de que a criatura é conforme ao seu fim, ajusta-se a ele […]’[1].

Já o tínhamos anotado, anteriormente (tínhamos sublinhado o alcance do significado da ideia de ‘criação’ e evidenciado que, na perspetiva bíblica, esta é ‘boa’, contrariamente às visões pessimistas que circundavam o povo bíblico), mas pretendemos, agora, evidenciar um aspeto de que nos dá conta Santo Agostinho, com enorme impacto e significado que só muito sumariamente aqui destacaremos.

Diz Santo Agostinho, no seu ‘Da interpretação do Génesis: dois livros contra os maniqueus’: ‘E Deus separou a luz das trevas e chamou Deus à luz dia e às trevas chamou noite. Não se diz neste passo «Deus fez as trevas» pois estas […] mais não são que a ausência de luz e, portanto, simplesmente se procedeu à separação entre ambas. De igual modo nós, gritando, produzimos a voz; e, estando calados, produzimos o silêncio, porque a cessação da voz é o próprio silêncio; e, todavia, num certo sentido, distinguimos a voz do silêncio e a uma coisa chamamos voz e a outra chamamos silêncio. Do mesmo modo que com razão dizemos «fazer silêncio», também em múltiplos passos das Divinas Escrituras com razão se diz que Deus fez as trevas porque ou não dá ou subtrai a luz àqueles momentos e lugares que pretende.[2]’

Estamos perante os alicerces da visão de Santo Agostinho sobre o problema do mal. Recorde-se que esta matéria é uma daquelas em que mais notoriamente se evidencia o que o cristianismo trouxe a este genial santo. Na verdade, ele fora, durante longo período da sua vida, um maniqueu. Defendera, por isso, a ‘substancialidade’ do mal. O mal tinha, na perspetiva maniqueia, consistência ontológica, pelo que se exigia, tal como para o bem, uma origem absoluta. Para os maniqueus, o mal e o bem tinham respetivos criadores, sendo o mundo o palco desse «eterno» combate entre os dois princípios.

A leitura judaico-cristã da criação trouxe nova luz sobre esta matéria que, nesta passagem de Santo Agostinho, se torna particularmente evidente: só o bem tem consistência ontológica, porque define a natureza daquilo que é, do ser que, por existir e corresponder ao que é, é bem. O mal, a esta luz, é a insuficiência do bem, a não realização do bem, o não-ser, o nada-ser. Não carece, por isso, de uma origem absoluta que, efetivamente, não tem.

O bispo de Hipona explicita, deste modo, uma nova ponerologia (em grego, ‘ponêrós’ significa ‘mau, em mau estado, defeituoso, etc.[3]’), uma reflexão sobre o mal, compreendendo-o como a ‘insuficiência’, a ‘ausência’ do bem, o que não implica que ‘ser insuficiente’, ‘ficar-se aquém do bem que se pode realizar’ não seja sedutor e destrutivo. Mas tal deverá compreender-se como ‘não realização’ e não como uma outra criatura, originada por um criador negativo.

Tendo em conta tal abordagem, é possível concluir-se, como faz Andrés Torres Queiruga[4], que Deus é o ‘anti-mal’, intrinsecamente pensável como origem do bem e o fim último da máxima realização e não como o criador do mal, de que Ele mesmo é, afinal, o redentor, ao orientar tudo para o bem e ao compadecer-se da irrealização da Sua criatura.

As implicações para as dimensões existenciais da humanidade são inúmeras, em particular a que Von Rad deixava implícita: a realização das criaturas (entre eles, sobremaneira, o ser humano) ocorre se elas corresponderem ao fim para que foram criadas. Realizar o fim para que se foi criado é o bem. Dele desviar-se é o mal.

E assim se separa o bem (criado e pretendido por Deus) do mal, insuficiência e ausência do bem, por divergência de realização.

Concluamos esta nossa etapa da reflexão com mais uma interessante constatação, recolhida, também, de Santo Agostinho. Num seu outro livro dedicado a Génesis, o santo de Tagaste (lugar do seu nascimento) evidencia que a luz, primeira criatura de Deus[5], ‘seja corpórea ou incorpórea, é mutável’[6]. É uma intuição que antecipa, em muitos séculos, a de Einstein de que a luz é finita.

A riqueza que pode recolher-se de Génesis, se a abordagem que dele fizermos não confundir os planos e não errar nas interrogações a fazer-lhe. Pretender de Génesis que nos responda às perguntas que cabem à ciência, baralha os planos e gera conflitos que a história já nos ensinou a evitar. Perguntar-lhe sobre o sentido do mundo e da existência é encaminhar-se no sentido adequado.

Disso precisaremos, ao avançar para os dias subsequentes. Assim, por exemplo, perante o sentido literal dos versículos que se referem ao segundo dia, em que, implicitamente, se supõe uma cosmologia (leitura da ordem que o universo tem) que não é, já a nossa. Fazer uma abordagem acomodatícia, como a já descrita, em passos anteriores da nossa reflexão, pode dar-nos condições para o início de uma compreensão equilibrada, mas não é, ainda, a forma final que deveremos adotar, pois ainda supõe a análise literalista do texto bíblico. Esse será o nosso desafio, nas reflexões futuras: encontrar modos de recolher do texto bíblico toda a densidade do que tem a transmitir-nos, como sagrada escritura; no justo equilíbrio entre a redução à ciência ou a redução à Bíblia. Como bem recordava, a pretexto da condição humana, Viktor Frankl, o erro de todo o reducionismo é o de pretender que uma determinada realidade ‘nada mais é do que’… O saber, o conhecimento humano é muito mais do que só este ou aquele discurso. Muito ganhará de recolher sabedoria dos diversos discursos. Com essa meta nos propomos avançar… Outros dias virão.


Sugestões bibliográficas

Andrés Torres Queiruga, Repensar el mal: de la ponerología a la teodicea, Madrid, Editorial Trotta, 2011

  1. António Couto, O livro do Génesis, Leça da Palmeira, Letras e Coiras-livros, 2013.

Santo Agostinho, Da interpretação do Génesis: dois livros contra os maniqueus, Prior Velho, Paulinas, 2021.

Gerhard von Rad, El libro del genesis, Salamanca, Ediciones Sígueme, 19887.


[1] Gerhard von Rad, El libro del genesis, Salamanca, Ediciones Sígueme, 19887, p. 62.

[2] Santo Agostinho, Da interpretação do Génesis: dois livros contra os maniqueus, Prior Velho, Paulinas, 2021, número 15, pp. 67-68.

[3] Isidro Pereira, Dicionário grego-português e português-grego, Braga, Livraria A.I., 19908, P. 474.

[4] Cfr. Andrés Torres Queiruga, Repensar el mal: de la ponerología a la teodicea, Madrid, Editorial Trotta, 2011, pp. 263ss.

[5] Cfr. D. António Couto, O livro do Génesis, Leça da Palmeira, Letras e Coisas-livros, 2013, p. 30.

[6] Santo Agostinho, Da interpretação literal do Génesis: uma obra inacabada, Prior Velho, Paulinas, 2021, p. 158


*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano', 'Ensaios de liberdade' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'


sexta-feira, março 20, 2026

'Os Sete Dias da Criação' |8| Luís M. P. Silva - Ainda o primeiro dia: ‘Deus disse: «Faça-se a luz.» E a luz foi feita.’ Deus é origem, através da Sua Palavra.

 

(‘Os Sete Dias da Criação’ | Rubrica dedicada ao diálogo entre ciência e religião)
Artigo originalmente publicado na revista 'Mundo Rural'

Luís Manuel Pereira da Silva*

Neste passo da nossa reflexão sobre ‘os sete dias da criação’, gostaria de enfrentar três aspetos que nos é possível observar deste densíssimo versículo 3 de Gn 1: o vínculo indissociável entre ‘a’ Palavra e Deus; a bondade da criação e, por fim, a dificuldade da receção do texto perante das descobertas científicas.

Enfrentemos o primeiro destas três observações.

É, para nós leitores do século XXI, já imbuídos da ‘resolução’ da controvérsia trinitária, óbvia a relação entre a ‘Palavra’ de Deus e o próprio Deus. A ‘Palavra’ não é um ‘suplemento de Deus, mas a Sua ação pessoal criadora, indissociável da Sua própria natureza. A Palavra é Deus, como Deus é, também, o princípio. É princípio pela Sua Palavra e é pela Palavra que dá início a tudo.

Para nós, isto é, hoje, claro.

Mas, se recuarmos ao século IV, ao contexto das controvérsias que deram pretexto para o primeiro Concílio ecuménico (universal, de toda a ‘terra habitada’) do Cristianismo, perceberemos que esta constatação não era, então, assim tão clara. Para Ario, o presbítero de Alexandria cujas teses Atanásio, ainda diácono do Bispo de Alexandria (de nome ‘Alexandre), teve de enfrentar e refutar, em Niceia, em 325, a Palavra era a primeira das criaturas de Deus. Não coincidia, não era da mesma substância (consubstancial, como dizemos no credo – que é ‘nicenoconstantinopolitano’) de Deus. Havia um hiato entre Deus (princípio absoluto, solitário, ‘fechado em si’) e a Sua Palavra. Ora, Génesis torna clara esta unidade indissociável entre ‘Deus’ e ‘Palavra’, mostrando que a ação de Deus se opera na e pela Palavra. A Palavra é o ‘nome’, a ‘pessoa’ (condição de diversidade em Deus) pela qual Deus todo (trinitário) cria. E isso é notório na preocupação com que o autor bíblico nos descreve os atos criadores. Diz que ‘Deus disse’ e ‘aconteceu’. A Palavra de Deus é eficaz.

Em segundo lugar, recuperemos uma constatação já insinuada em anteriores etapas deste nosso percurso reflexivo: a criação, na perspetiva bíblica, é bondosa. No pensamento, no desejo de Deus, toda a sua criatura, toda a sua criação é boa, contrariando aquilo que os vários maniqueísmos (o nome nasce de Manes, um nobre persa que viveu no século III d.C., no contexto da religião zoroastrista, na Pérsia, que defendia que, na sua origem, a criação tem dois princípios antagónicos: o do bem e o do mal. Esta tese sedutora exerceu muita influência, chegando, inclusive, a muitos cristãos. Recordemos, a título ilustrativo que o próprio Santo Agostinho, no século IV-V, sofreu, numa fase anterior à sua conversão ao cristianismo, influência desta perspetiva.) da história, repetidamente foram sustentando. Na visão bíblica, a criação é, originariamente boa. Deus não é um criador do mal; é um criador do bem. O mal é a corrupção, a degradação, a não correspondência ao que Deus pretende e à natureza própria da criação.

Em terceiro lugar, enfrentemos uma interrogação que tem servido de lastro a toda a reflexão que temos vindo a desenvolver – no confronto entre o texto bíblico, literalmente analisado, e as conclusões que a ciência exata e experimental foi retirando, à medida que foi apurando o seu método, verificaram-se, em alguns momentos, dissonâncias, divergências.

Guardemos, para já, essa constatação.

Repitamo-lo: do confronto entre o texto bíblico, lido em registo literalista, e as descobertas científicas, ocorreram, em muitos momentos, desencontros.

É importante que a tenhamos em conta, pois o caminho que nos propomos é o de, enfrentando essa constatação, procurar uma via de encontro e convergência que nos permita evitar repetir erros que a história já nos evidenciou.

Entre as tentativas de permitir atenuar a ‘dureza’ da constatação dessas dissonâncias encontra-se a chamada ‘interpretação acomodatícia’, que fez longa escola. Na verdade, como recorda Agustín Udías Vallina, no seu muito interessante ‘Ciencia y fe cristiana en la historia’, ‘esta interpretação já tinha sido utilizada com os textos que falam da Terra plana, sendo aceite a sua forma esférica já por autores como Beda, o Venerável e ao longo da Idade Média.’ (p. 88) Recordemos que Beda, o venerável, viveu nos séculos VII e VIII e que, como já vimos, em etapa anterior, toda a Idade Média pressupunha que a Terra era esférica, contrariamente ao preconceito repetidamente referido de que a Idade Média acreditava numa Terra plana.

Ora, a pergunta a fazer é, precisamente, sobre como conciliaram os leitores atentos da bíblia as suas múltiplas referências à terra como plana com a tese ‘científica’ de que a Terra era esférica.

A interpretação acomodatícia foi, durante muitos séculos, uma das que vingaram, ao lado das abordagens alegoristas, podendo definir-se como a ideia de que os autores bíblicos acomodaram (por isso ‘acomodatícia’) a sua escrita às conceções próprias dos seus tempos. Vallina diz que ‘interpretação acomodatícia significa que os textos estão acomodados ao sentir da época em que foram escritos.’ (p. 88)

É uma abordagem confortável e que serenou, durante muito tempo, os ‘espíritos’ de controvérsia, mas valerá a pena conservar uma interrogação: será uma abordagem suficiente? O literalismo para que procura ser resposta é o modo exclusivo ou, sequer, o que deverá adotar-se, na abordagem ao texto bíblico?

Vê-lo-emos, ao longo da nossa posterior reflexão.

 


Sugestões bibliográficas

 

Agustín Udías Vallina, Ciencia y fe cristiana en la historia, Maliaño, Editorial Sal Terrae, 2021.

Isidro Lamelas (coord.), O primeiro concílio ecuménico – Niceia 325: memória e herança, Apelação, Paulus editora, 2025.

D. António Couto, O livro do Génesis, Leça da Palmeira, Letras e Coiras-livros, 2013.

Santo Agostinho, Da interpretação do Génesis: dois livros contra os maniqueus, Prior Velho, Paulinas, 2021.

Gerhard von Rad, El libro del genesis, Salamanca, Ediciones Sígueme, 19887.


*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano', 'Ensaios de liberdade' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'


 

 

terça-feira, janeiro 20, 2026

'Os Sete Dias da Criação' |7| Luís M. P. Silva - Ainda o primeiro dia: ‘No princípio criou Deus…’ – Deus Criador; não um demiurgo!

 

(‘Os Sete Dias da Criação’ | Rubrica dedicada ao diálogo entre ciência e religião)
Artigo originalmente publicado na revista 'Mundo Rural'

Luís Manuel Pereira da Silva*

A densidade de Gn 1,1 dá-nos pretexto para que regressemos, as vezes necessárias, a este versículo.

Faz-nos regressar a ele, destarte, a compreensão do alcance da ideia de ‘criação’. Apesar do paralelismo com que a nossa linguagem pretende aproximar este termo da ação do artista (quando, efetivamente, o movimento deveria ser o contrário: a ação do artista é que ‘se inspira’ na do Criador), fazendo supor a ideia de uma ação sobre matéria previamente dada, o texto de Génesis é inequívoco. Como lembra Gerhard von Rad, no seu clássico ‘o livro do Génesis’, o termo utilizado pelo autor bíblico, para se referir à ação criadora de Deus [é] ‘um criar carente por completo de analogias. Com razão se diz que o verbo bara’, ‘criar’ contém por um lado a noção de uma total ausência de esforço e por outro a ideia de uma creatio ex nihilo, pois nunca foi ligado à menção da matéria.’ (p. 58). Esta abordagem pode ser confirmada pela leitura da entrada «bara’» no dicionário de Luis Alonso Schökel que, após enunciar os diversos significados do termo (‘criar, dar o ser, tirar do nada, fazer, produzir, fundar, formar, plasmar’), acrescenta ‘o sujeito é Deus’ (p. 116).

A visão bíblica sobre a criação exclui, por isso, a conceção de um deus demiúrgico, tão aprazível aos gregos e aos mesopotâmicos, um ‘deus menor’ a quem cabia apenas moldar uma matéria pré-existente.

A visão sedutora de um deus demiúrgico, que erra na interpretação do texto bíblico que é inequívoco, fez ‘escola’ e encontrou, ao longo dos tempos, novos seguidores. Santo Agostinho, nos séculos IV e V, enfrenta uma das ‘cabeças da Hidra’ «demiúrgica» nos maniqueus, aos quais ele mesmo tinha pertencido até à sua conversão ao cristianismo, tendo, após essa ‘revolução espiritual’, dedicado particular atenção à destruição dessa abordagem sedutora, da qual, porém, ainda hoje se manifestam alguns lampejos na própria leitura de alguns cristãos.

Na verdade, à abordagem demiúrgica, que pensava Deus como um ‘criador de segunda ordem’, por apenas lhe caber moldar uma matéria pré-existente, associava-se a convicção inerente de que a Deus caberia atribuir a causa do bem, mas também do mal.

Santo Agostinho, na obra que sugiro, abaixo, enfrenta esta questão, afirmando que o mal é a ausência de bem[1], tal como as trevas são a ausência da luz e o silêncio a ausência do som. Reportando-se ao que é dito no versículo 4 (‘separou a luz das trevas’), o bispo de Hipona comenta que ‘não se diz neste passo «Deus fez as trevas» pois estas […] mais não são que a ausência da luz e, portanto, simplesmente procedeu à separação entre ambas. De igual modo nós, gritando, produzimos a voz; e estando calados, produzimos o silêncio, porque a cessação da voz é o próprio silêncio: e todavia, num certo sentido, distinguimos a voz do silêncio e a uma coisa chamamos voz e a outra chamamos silêncio.’ (p. 67)

Ora, uma ausência não carece de criador. Mas sim ‘algo’, o ‘ser’, carece de criador.

É toda uma outra visão da realidade.

Um deus demiúrgico molda, confusamente, o cosmos e o caos.

O Deus criador cria, do nada, algo. Esse algo é, em si mesmo, como dirá o autor bíblico, no mesmo versículo 4, ‘bom’. (Veremos, em outros momentos da nossa reflexão, o alcance total deste reconhecimento das realidades criadas como ‘boas’. Para já, enunciemos, apenas essa constatação.)

Ora, é de ‘criação’ que nos fala o autor bíblico. E, para o sublinhar, o autor deste primeiro relato da criação, autor que a análise exegética designa como ‘sacerdotal’ e identifica com a letra ‘P’ (de ‘Priester’) estrutura uma narrativa que, como bem constata D. António Couto, começa e acaba com a ideia de ‘criação’.

Na verdade, a primeira narrativa da criação compõe-se como uma unidade observável entre Gn 1,1 e Gn 2,4a. E, olhando com atenção, verificamos que esta estrutura literária começa com ‘no princípio, Deus criou?’ e termina, em Gn 2,4a, com ‘esta é a origem da criação dos céus e da terra’. (A tradução proposta por D. António Couto é ainda mais significativa: ‘No princípio CRIOU Deus os céus e a terra; […] Esta é a história dos céus e da terra quando foram CRIADOS’).

Não se está a falar de outra coisa, neste texto: apenas e só da ‘criação’.

E sublinhemos, para o objetivo que nos leva a formular estas reflexões [o encontro entre a ciência e a religião cristã], que o foco da reflexão não está no ‘modo como’ Deus cria, mas sim, na afirmação de que ‘Deus cria’, pelo que, ‘o que Deus cria’ tem o sinal de provir dele: a bondade intrínseca. Esta leitura da radical bondade originária contrasta, de forma surpreendente (‘inspirada’, diremos, enquanto religiosos), com as cosmologias circundantes ao povo hebreu: grega, babilónica, fenícia e egípcia (cfr. D. António Couto, p. 19). Nestas, o bem e o mal convivem e combatem-se, em plano de igualdade ou, até, no limite, dando a precedência ao mal em relação ao bem (o bem nasce do caos e fica em permanente ‘conivência’ (p. 18) com ele), não permitindo esperar uma salvação. A tal se deve a condição trágica das mitologias envolventes à leitura bíblica. E daí, também, ser de sublinhar a ‘novidade’ que esta traz.

Ainda que possa haver reminiscências das mitologias circundantes, nos termos originais hebraicos (a referência ao ‘abismo’ é uma delas, sendo que o termo hebraico «tehôm» (abismo) pode evocar a ideia de ‘Tiamat’, o monstro vencido na luta com Marduk, na mitologia mesopotâmica, com cuja carcaça se faz o céu), toda a narrativa toma essas ‘alusões’ e reminiscências para as reconfigurar num novo relato em que não há margem para ambiguidades: há um só Criador, que cria, pela sua vontade, a partir do nada, originando, do que é espiritual (bom em si mesmo), o que é material. Fica, assim, de um só ‘trago’, devorado todo o dualismo que opõe matéria a espírito, bem a mal, como se de duas naturezas antagónicas se tratasse. Com Santo Agostinho, poderemos concluir que o mal fica reduzido ao que é: um nada que é ausência!


Sugestões bibliográficas

Luis Alonso Schökel, Dicionário Bíblico Hebraico-Português, São Paulo, Paulus, 20146.

  1. António Couto, O livro do Génesis, Leça da Palmeira, Letras e Coiras-livros, 2013.

Santo Agostinho, Da interpretação do Génesis: dois livros contra os maniqueus, Prior Velho, Paulinas, 2021.

Gerhard von Rad, El libro del genesis, Salamanca, Ediciones Sígueme, 19887.


[1] Suportado na visão agostiniana, venho defendendo que o mal deveria pensar-se, antes, como a ‘insuficiência’ do bem, permitindo compreender, de forma mais compassiva, a destrutiva ação do mal moral, voluntariamente determinado ou consentido.

quinta-feira, novembro 20, 2025

'Os Sete Dias da Criação' |6| Luís M. P. Silva Ainda o primeiro dia: ‘No princípio criou Deus o Céu e a Terra’ – espaço e tempo unidos.

 

(‘Os Sete Dias da Criação’ | Rubrica dedicada ao diálogo entre ciência e religião)
Artigo originalmente publicado na revista 'Mundo Rural'

Luís Manuel Pereira da Silva*

Regressemos ao primeiro versículo da Bíblia, a Gn 1,1.

O texto diz, literalmente, ‘no princípio, criou Deus o Céu e a Terra, e a Terra estava caótica e vazia…’.

Habitualmente, as traduções têm optado por ‘no princípio, quando Deus criou o Céu e a Terra, a Terra estava caótica e vazia...’[1], favorecendo o risco de uma ‘receção’ do texto que faz crer a anterioridade da Terra, o que suscita reservas quanto à coincidência com a pretensão do autor bíblico de se demarcar das narrativas contemporâneas do texto bíblico.

(Para melhor compreender esta última ideia, tenha-se em conta que a perícope de Gn 1,1-2,4a terá sido redigida no período exílico e pós-exílico [que ocorreu entre 587 e 537 a.C., sob o domínio do império babilónico], tendo o povo bíblico contactado com as narrativas míticas dos povos mesopotâmicos. Nestes textos, é pressuposta a anterioridade de uma matéria à ação criadora. Tal não será a visão bíblica. Deus é o Criador de tudo. Não apenas o ‘modelador’ de matéria incriada.)

Constatemos que o texto utiliza termos que nos falam de ‘tempo’ [no princípio] e de ‘espaço’ [céu e terra].

Uma tal constatação permite-nos estabelecer mais uma ponte interessante entre ciência e religião. Vejamos…

Intuitivamente, tendemos a separar o tempo do espaço e o espaço do tempo. Movemo-nos no espaço, para a frente e para trás, para os lados, o que nos parece, de todo, impossível, em termos de tempo. O tempo é, como nos diz a nossa intuição, uma linha reta. ‘Envelhecemos’ e não ‘rejuvenescemos’ ou ‘reinfantilizamos’.

Estas constatações fazem-nos dissociar, sem qualquer nexo ou ligação, espaço e tempo. Não nos parece que tenham nada a ver um com o outro.

O texto bíblico, de forma quase contraintuitiva, obriga-nos, porém, a ser mais atentos.

Logo na primeira afirmação, tempo (‘no princípio’) e espaço (‘Céu e Terra’) ficam unidos. Deus é o criador de ambos. Não, apenas, do espaço, como, tantas vezes, tendemos a ler.

O tempo e o espaço d’Ele dependem e não existem senão como criaturas suas.

Ora, esta intuição bíblica antecipa, curiosamente, uma das descobertas mais fascinantes da física contemporânea, possível a partir das teorias da relatividade de Albert Einstein.

As suas conclusões permitem constatar que, se nos deslocássemos, no espaço, a velocidades próximas da velocidade máxima que existe no universo (sim, no universo não há velocidades absolutas. Todas têm um limite máximo: a da luz, que é de cerca de 300 mil Kms por segundo), alteraríamos o tempo e poderíamos viajar neste, atrasá-lo. Se alguém se deslocasse (não se preocupe, caro leitor; as construções de tais meios estão atrasadas…) a tal velocidade e regressasse à terra, aqui, o tempo teria levado centenas ou milhares de anos, enquanto no interior dessa máquina o tempo teria decorrido mais lentamente.

Colin Stuart, um autor prolífico de livros sobre estas matérias, e em cuja homenagem já foi atribuído o nome a um asteroide, conta, no seu ‘Tempo: 10 coisas que deve saber’, ‘digamos que viajamos através da galáxia numa grande volta a 99,9999 por cento da velocidade da luz […] durante 10 anos. Regressa uma década mais velho, mas terão passado sete mil anos na Terra enquanto esteve fora.’[2]

Para melhor se perceber a ideia, faça-se um exercício simples que permite dar conta de como as noções de espaço e tempo dependem do ‘mundo’ em que se está e pode haver mudanças distintas, de acordo com esses ‘mundos’.

Imagine-se alguém dentro de um comboio, a velocidade constante. Se essa pessoa deixar cair uma bola de ténis, ela cairá na vertical.

Mas, se algum observador com visão larga, acompanhar o percurso do comboio, e este for totalmente transparente, o movimento da bola formará uma linha diagonal desde a mão até ao chão.

‘Vertical’, se vista dentro do comboio; ‘diagonal’, se vista de fora.

Assim, também, com o tempo. O tempo não é vivido todo de modo igual. Há um nexo estreito com o espaço.

Ora, tal intuição é já vislumbrável no texto de génesis que une ‘tempo’ (‘no princípio’) e espaço (‘céu e terra’).

Curioso…


Sugestões bibliográficas:

Colin Stuart, Tempo: 10 coisas que deve saber, Lisboa, Vogais, 2024.

  1. Tomás de Aquino, Suma de Teología, Madrid, Biblioteca de Autores Cristianos, 2017.

Michel-Yves Bolloré e Olivier Bonnassies, Deus, a ciência, as provas: alvorada de uma revolução, Alfragide, Publicações Dom Quixote, 20242.

Luis Alonso Schökel, Dicionário Bíblico Hebraico-Português, São Paulo, Paulus, 20146.


[1] Reproduzo a tradução proposta a discussão em 1 de junho de 2025 pela equipa de tradutores da Bíblia, sob a coordenação da CEP.

[2] Colin Stuart, Tempo: 10 coisas que deve saber, p. 72.


*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano', 'Ensaios de liberdade' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'

Imagem de Gerd Altmann por Pixabay

 

 

 

sábado, setembro 20, 2025

'Os Sete Dias da Criação' |5| Luís M. P. Silva 'Ainda o primeiro dia: «No princípio…»'

 

(‘Os Sete Dias da Criação’ | Rubrica dedicada ao diálogo entre ciência e religião)
Artigo originalmente publicado na revista 'Mundo Rural'

Luís Manuel Pereira da Silva*

Uma grande finalidade assiste à escrita destas linhas: contribuir para o reconhecimento de que a relação entre ciência e religião (em especial, a religião cristã) não tem de se fazer de conflito. E pretendo cumpri-la, concretizando dois objetivos: superar os preconceitos com que é lida a religião (evidenciando a pertinência da sua leitura e da sua visão sobre o mundo e o Homem) e contrariando a convicção de que, ao ser-se cientista, tem, necessariamente, de se assumir um qualquer ateísmo de princípio.

Para a concretização desta finalidade, com os seus dois objetivos associados, já demos alguns passos que nos permitiram evidenciar que a permanência de alguns equívocos continuam a perturbar a sã relação entre estes dois modos de aceder ao conhecimento que não são disjuntivos, mas complementares, porque no sujeito humano muitas são as moradas das perguntas. Pretender esgotar, numa só dessas moradas, todo o habitar humano é empobrecedor.

Socorro-me, para guiar esse caminho de reflexão e construção de pontes, do dinamismo que o próprio relato bíblico, estruturado em torno da metáfora dos sete dias, nos proporciona.

Iniciámos, no momento anterior da nossa reflexão, essa condição de viandante que segue o ritmo dos dias. Depois de nos prepararmos, começámos. Acolhemos a luz…

Mas há um aspeto que nos obriga a determo-nos, por mais algum tempo, nesse primeiro dia.

O texto bíblico começa com uma palavra que não temos como traduzir senão pela locução ‘no princípio’. Em hebraico, a palavra é ‘bereshit’ que, no seu uso adverbial, deve ser traduzido, precisamente, por ‘no princípio’[1].

Curiosamente, o evangelho de S. João, o mais elaborado dos quatro evangelhos e, também, o mais tardio, começa com a expressão correspondente, em grego, ‘en arkhê’: ‘no princípio’.

A frequência da utilização da expressão, por tantas vezes a ouvirmos na liturgia, faz-nos, eventualmente, perder a frescura da sua originalidade.

Mas tenha-se em conta que o que, para nós, é óbvio (houve um princípio) não o foi ao longo dos tempos.

Valerá a pena, aliás, recordar que a questão 46 da Suma Teológica[2] de S. Tomás, no século XIII, incide, entre outras coisas, precisamente, sobre a possibilidade de o mundo ter existido desde sempre (e, a tê-lo acontecido, como articular isso com o texto bíblico que falava de ‘princípio’), se o ter princípio era artigo de fé e como deveria, perante estas dúvidas, acreditar-se que Deus tinha criado o céu e a terra.

Genialmente, o Aquinate (cognome de S. Tomás por ser de Aquino) não recusa que possa admitir-se a possibilidade de o mundo ser eterno, por tal ser indemonstrável, mas que sempre se teria de falar de um ‘princípio’ considerado metafisicamente, isto é, o mundo tem origem na vontade de Deus que, se o pretendesse, faria com que o mundo deixasse de o ser, concluindo-se daqui que ‘criação’ é um conceito que não nos fala do modo ‘como’ o mundo é feito, mas sim do facto de o mundo ser originado, do nada, pela Vontade de Deus, sua Origem sem origem. ‘Criação’ diz, assim, que a criatura não é o Criador, mas d’Ele depende, de modo absoluto, em termos ontológicos.

Sem nos alongarmos nesta reflexão, detenhamo-nos na constatação de que a condição de ‘ter princípio’ é, consequentemente, não óbvia.

Aliás, a história mais recente demonstra-o, cabalmente.

É conhecido de poucos que a formulação da hipótese de o universo ter começado com uma grande explosão se deve a um presbítero, professor da Universidade de Lovaina: Georges Lemaître. À sua hipótese deu o nome de ‘átomo primitivo’. (É a Fred Hoyle, que se lhe opunha, a expressão ‘big bang’, utilizada para ironizar e apequenar.).

A história da receção desta hipótese evidencia como a ideia de um princípio não era óbvia, nem para os maiores físicos. O próprio e genial Albert Einstein recusa, num primeiro momento, a possibilidade e altera as suas fórmulas para que ‘estabilizem’ a imagem de universo que delas se recolhia.

Do mesmo modo, quando a possibilidade de o universo poder estar em expansão e ter tido uma origem, encaminhando-se, por isso, também, para um fim, parecia absurda aos líderes soviéticos que, quando a hipótese foi tendo acolhimento junto dos cientistas russos, se encarregaram de os perseguir e impedir de difundirem tais teorias que, naturalmente, poriam em causa a ideia da eternidade da matéria, necessária à leitura dialética do pensamento marxista-leninista. (Esta história é detalhadamente contada no muito oportuno livro de Michel-Yves Bolloré e Olivier Bonnassies, Deus, a ciência, as provas: alvorada de uma revolução. Uma obra de leitura altamente recomendável…).

Não deixa de merecer atenção, por isto que acabo de referir, constatar que, de facto, a relação entre ciência e religião tem sido marcada por inúmeros equívocos e mal-entendidos.

Veja-se como é referido, hoje em dia, que os supostos opositores da hipótese de o universo ter tido um início (com um big bang) sejam os crentes (os cristãos, para ser mais preciso). Curiosamente, porém, tendo a hipótese sido proposta, primeiramente, por um padre (que, inclusive, cedo encontrou apoio da parte do Papa Pio XII que, após diálogo sincero, percebeu que deveria deixar à ciência que fizesse o seu caminho, sem cair na tentação do concordismo), e constatando-se que a hipótese se afigurava de fácil instrumentalização para fins concordistas (então, a ciência confirma o que a Bíblia diz…), o que aconteceu foi o contrário. Quem se opôs à hipótese de um início para o universo foram, precisamente, os descrentes.

Pretendo, então, recuperar a frase de Werner Keller (‘A Bíblia tinha razão’), e sustentar um qualquer requentado concordismo?

Não o pretendo e não o defendo.

Os terrenos da ciência e da religião são distintos, mas, na minha perspetiva, complementares.

O sujeito humano é muito rico, nas suas interrogações e não se basta em procurar respostas para uma compreensão de ‘como’ se chegou ao que hoje temos. Quer, também, compreender ‘porquê?’, ‘para quê?’, ‘com que sentido?’… Há, afinal, inteligência, amor, rumo, na realidade de que emergimos, nós, seres capazes de pensar, amar, dirigir a nossa vida para um determinado fim?

Constatar que ‘no princípio’ nos fala de algo que a ciência hoje tem como certo, mas que ao judeo-cristianismo primeiramente se deve não é de somenos importância.

Diz-nos que muito se pode esperar da fé e que a ciência não tem, afinal, que temê-la, pois quem faz a ciência são indivíduos com dúvidas, interrogações, desejo de amar e ser amado, e não cérebros repousados sobre ombros. Ao todo do ser humano falam ciência e religião. Muito pouco ficaria se apenas uma das dimensões restasse…

De outras constatações nos falarão próximas etapas e dias do nosso rumo.


Sugestões bibliográficas:

Colin Stuart, Tempo: 10 coisas que deve saber, Lisboa, Vogais, 2024.

  1. Tomás de Aquino, Suma de Teología, Madrid, Biblioteca de Autores Cristianos, 2017.

Michel-Yves Bolloré e Olivier Bonnassies, Deus, a ciência, as provas: alvorada de uma revolução, Alfragide, Publicações Dom Quixote, 20242.

Luis Alonso Schökel, Dicionário Bíblico Hebraico-Português, São Paulo, Paulus, 20146.


[1] Cfr. Luis Alonso Schökel, Dicionário Bíblico Hebraico-Português, São Paulo, Paulus, 20146, p. 601.

[2] Sigo, nas minhas análises, a edição da BAC referida nas sugestões bibliográfica.


*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano', 'Ensaios de liberdade' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'

Imagem de Juergen Striewski por Pixabay

 

 

quarta-feira, agosto 13, 2025

'Os Sete Dias da Criação' |4| Luís M. P. Silva 'O primeiro dia: a luz!'

 

(‘Os Sete Dias da Criação’ | Rubrica dedicada ao diálogo entre ciência e religião)
Artigo originalmente publicado na revista 'Mundo Rural'

Luís Manuel Pereira da Silva*

Consideremos as etapas anteriores desta nossa reflexão como um autêntico ‘preâmbulo’. ‘Preambulare’ significa, literalmente, ‘antes de começar a andar’… Preparámo-nos para andar, para caminhar.

É hora de andar!

O preâmbulo antecipou o primeiro momento do nosso caminho. A luz, primeiro fruto do ato criador, é particularmente simbólica e significativa para o que aqui nos traz.

Diz o autor bíblico[1]:

«3*Deus disse: «Faça-se a luz.» E a luz foi feita. 4Deus viu que a luz era boa e separou a luz das trevas. 5*Deus chamou dia à luz, e às trevas, noite. Assim, surgiu a tarde e, em seguida, a manhã: foi o primeiro dia.»

Vale a pena, antes de começar a deixar que o texto ‘fale’ connosco, reparar num detalhe intrigante. Diz o autor que ‘surgiu a tarde e, em seguida, a manhã: foi o primeiro dia.’ Sempre me intrigou esta sequência.

‘Uma tarde e, depois, a manhã?’

Sim, é a lógica judaica de organização do tempo. O dia começa com o pôr-do-sol. É por isso que o sábado começa na sexta-feira, com o pôr-do-sol, e, pela morte de Jesus, o seu enterramento teve de ser precipitado, porque se avizinhava o fim daquele dia e, com o pôr-do-sol, o início do Sábado da Páscoa, que ‘era um grande dia’ (Jo 19,31)

Regressemos, então, ao que este excerto nos evidencia.

Sublinhemos o simbolismo que radica neste primeiro ato criador. Deus começa a Sua ação com a ‘luz’. Bem certo que uma abordagem concordista[2] da Bíblia vislumbra neste ato a confirmação de que o início da criação se opera por uma ‘grande explosão’, como que subscrevendo a teoria primeiramente sustentada pelo Pe. Georges Lemaître e cunhada como ‘big bang’, pelos seus opositores, entre os quais se destacava, então, Fred Hoyle, defensor de um universo estacionário.

Sigo outra linha…

É simbólico que a luz seja o primeiro ‘fruto’ criado.

É que o autor bíblico tem o cuidado de registar que esta é ‘separada das trevas’ (estas não são fruto do Criador. São uma mera ‘ausência’ da luz que, essa sim, é fruto criado! Santo Agostinho explorará esta constatação para a sua reflexão sobre o mal enquanto ausência do bem. O bem, sim, é fruto de Deus. O mal, enquanto insuficiência do bem, é mera ausência e, por isso, não carece de um criador…).

Mas o autor bíblico acrescenta mais um detalhe que ganha significado quando comparamos o texto bíblico com os textos contemporâneos de então e que marcavam as cosmogonias (as teorias explicativas sobre a origem do mundo) desse tempo. O autor bíblico sublinha que ‘Deus viu que a luz era boa’. A bondade da criação é uma nota específica do texto bíblico. Contrasta, de forma flagrante e nunca sobejamente recordada, com as visões de então (e, apetece dizer, com muitas leituras ainda hoje presentes…). Na visão bíblica, o mundo não é intrinsecamente mau. O mundo, enquanto fruto da ação de Deus, é desejado como bom, é reconhecido como bom.

Mas, e que nos diz de ainda mais relevante o facto de ser a luz o primeiro ato criador?

A luz sempre foi, ao longo dos tempos, sinónimo de bem, verdade, sentido, horizonte, conhecimento.

Acrescentemos, para densificar esta última nota, que o autor bíblico refere todos os atos de criação de Deus como resultando da eficácia da Sua Palavra.

O autor afirma: ‘Deus disse: «Faça-se a luz.»’

E a luz foi feita.

Não é um demiurgo que realiza o mundo, que o concretiza. É a própria Palavra que, na sua eficácia, opera o ato.

Há uma intrínseca ligação entre ‘Palavra’ e ‘Criação’, seja, enquanto ‘ato’ (o ato de criar), seja enquanto fruto (a obra criada), o que coloca todo o mundo em estreita ligação à verdade.

Para percebermos o alcance disto, socorramo-nos do que os gregos diziam sobre a verdade.

Para os gregos, a verdade podia ser pensada em três registos: como ‘orthótês’ (‘coerência), como ‘ousia’ (como a ‘verdade da coisa em si’) e como ‘alêtheia’ (a verdade no intelecto, entendida como ‘desvelamento’, como ‘não esquecimento’).

O que importa desta brevíssima síntese?

Esta síntese permite-nos ver que a verdade, como dizia S. Tomás é, bem certo, ‘a adequação entre objeto e entendimento’ (Suma Teológica (Ia, q. 16, a. 1, sol.), em que subentendem as demais implicações de ‘verdade’, mas que a história virá a explicitar mais claramente.

A verdade deverá, sempre, naturalmente, dizer-se em relação ao sujeito que conhece, mas deverão supor-se as outras duas dimensões: a verdade da coisa em si e a verdade desta coisa em relação ao que Deus quer dela.

Parece subtil, mas desdobremos a ideia.

A verdade deve reconhecer-se ao pensamento que reflete sobre a realidade. Certamente! E tal, num contexto de uma reflexão como a que estamos a fazer (em que ciência e religião se interrogam sobre o mundo, é particularmente implicativo…). O pensamento, para ser válido, tem de ser verdadeiro e, como dizia São Tomás, adequar-se à realidade.

Mas a própria realidade é, isto é, existe como um algo concreto. O sujeito que pensa, que conhece, interroga-se sobre o mundo em si. Não sobre criações mentais sem respaldo na realidade.

Resulta daqui um desafio de ‘regressar à realidade’ (Quantas implicações para os diversos âmbitos do saber que, fechados hermeticamente em si, se vão afastando do mundo, criando ideologias…).

Mas há um outro desafio: o de a própria realidade ser de acordo com o que Deus pretende para ela.

Aplicando ao ser humano, é visível a consequência disto… Ser-se humano é corresponder à humanidade desejada por Deus. O próprio S. Tomás tem isto em conta ao falar do dever de corresponder ao ‘entendimento de Deus’.

Vincar, como afirmava o autor bíblico, que ‘Deus disse… e foi feita’ é vincar que a natureza das coisas realiza-se e fá-las verdadeiras se elas corresponderem ao que Deus quis e quer que elas sejam…

Assegurada a ‘luz’, iluminados pela ‘Verdade’, prossigamos, nas próximas etapas, os ‘dias da criação’… ‘Desvelando’, levantando o véu de trevas que sempre tenta abater-se sobre a realidade, sobre a identidade da realidade e sobre o discurso acerca da mesma realidade.


[1] Sigo a tradução de https://www.paroquias.org/biblia/

[2] O diálogo entre ciência e religião pode operar-se de muitos modos. No que respeita à leitura do que deva recolher-se da leitura bíblica, muitos são os que a interpretam procurando confirmar, na letra do texto, o que as ciências vão estabilizando como saber comummente aceite pela comunidade científica. A esta leitura que coloca em ‘concordância’ a letra da Bíblia com as teorias científicas designa-se como ‘concordismo’.

Defendo, porém, que outra deva ser a leitura. À Bíblia não devem fazer-se as perguntas a que a ciência pretende responder. Outro é o objetivo dos textos bíblicos. Como sintetizava, sabiamente, Galileu, não deveremos perguntar-nos, a partir da Bíblia, ‘como’ é o céu, mas sim como se vai ‘para’ o Céu. A Bíblia é a história de Deus com os Homens e, por isso, narra-nos o olhar de Deus sobre o sentido da História e sobre o sentido do agir humano.


*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano', 'Ensaios de liberdade' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'

Imagem de Enrique por Pixabay

 

'Os Sete Dias da Criação' |3| Luís M. P. Silva: 3 – 'Continuando antes do primeiro dia… Como se construiu a ‘fake’ de que a Idade Média acreditara na planura da Terra…'

 

(‘Os Sete Dias da Criação’ | Rubrica dedicada ao diálogo entre ciência e religião)
Artigo originalmente publicado na revista 'Mundo Rural'

Luís Manuel Pereira da Silva*

Quem nos conta a origem da ‘fake new’ sobre a ‘fé’ da Idade Média na planura da Terra, com o detalhe que não desenvolveremos aqui, é Jeffrey Burton Russell, professor da Universidade de Califórnia, no seu livro Inventing the flat Earth: Columbus and modern historians, a que chegámos pela mão de Jorge Buescu.

Importa, desde já, clarificar que, na Idade Média, houve dois autores que defenderam a ideia da Terra plana: Lactâncio (245-325; Luís Filipe Thomaz indica as datas de c. 250-317) e Cosme Indicopleustes (que viveu no tempo de Justiniano (reinou entre 527 e 565). São, porém, autores menores, sendo que Lactâncio só é descoberto pelos renascentistas pela sua retórica (nos séculos XV e XVI) e Cosme Indicopleustes só é traduzido para latim em 1706 (muito tempo, portanto, depois de qualquer possibilidade de exercer influência nos decisores desta discussão…)[1].

Então, como compreender como aqui chegámos?

Russell descreve 4 momentos, a partir de inícios do século XIX, determinantes para a criação deste mito.

Antes de os enumerar, constatemos, porém, que estamos no rescaldo da Revolução da Francesa e em pleno contexto do iluminismo, que consideravam, por um lado, a primeira, que o passado associado à Igreja era período tenebroso e que havia que centrar tudo, de acordo com o segundo, o Iluminismo, já não na fé, tomada como obscura, mas sim na Razão, entendida como a verdadeira fonte da luz… Em contraste, o passado associado ao cristianismo, o período entre o final da Idade Antiga e o início da Idade moderna, passaria a ser designado como ‘idade média’ (a que fica no ‘meio’) e considerada como ‘idade de trevas’. Edward Gibbon, na sua obra de grande fôlego, ‘Declínio e Queda do Império Romano, obra de 1788, no fulgor deste espírito iluminista, refere-se a ‘as trevas da Idade Média’[2].

Ainda hoje, esta é a visão. Não é, por isso, fortuito que os historiadores que, honestamente, olham para este período, estejam a tentar reabilitá-lo, reconhecendo-o, como diz Seb Falk, professor da Universidade de Cambridge, como ‘a verdadeira idade das luzes’. Mas um pré-conceito, lançado sobre um ‘inimigo’, demora a ser desmontado, se é que o será, algum dia!...

Ora, como chegámos, de facto, à criação de um tal mito que deturpou o que era óbvio (que os autores lidos e seguidos, na Idade Média, defendiam a esfericidade da Terra a que as decisões mais determinantes dos impérios de então tinham sido tomadas com este pressuposto), sem que se tenha contestado?

Como dizíamos, acima, esta é uma ‘tragédia’ em quatro atos.

No primeiro, há um romance da autoria de Washington Irving (1783-1859) que ficciona, no seu História da vida e Viagens de Cristóvão Colombo, publicado em 1828, todo um enredo em que Cristóvão Colombo tem de enfrentar o obscurantismo inquisitorial, convicto da planura da Terra.

Mas, neste primeiro ato, estamos perante um romance…

O assunto ganha outros contornos quando esta tese que, aqui, era literária, passa a ser defendida, em letra de artigo com pretensões científicas, pela pena de um reconhecido geógrafo e eminente cientista de então, Antoine-Jean Letronne (1787-1848). Em 1834, publica ‘Sobre as opiniões cosmográficas dos padres da Igreja’, onde branqueia (não menos obscurantisticamente do que os ‘tenebrosos medievais’!) a história verdadeira, e considera que são mais relevantes Lactâncio e Cosme Indicopleustes do que o que, de facto, são, vincando que até Colombro e Magalhães, se acreditava na planura da terra.

O terceiro ato tem em cena um outro livro, desta feita de um professor de Biologia e Química da Universidade de Nova Iorque, John Draper que, no calor da discussão sobre a relação entre ciência e religião, afirma, em ‘História do conflito entre Religião e Ciência’ (1873) que as universidade medievais negavam a esfericidade da Terra. Observa Jorge Buescu (p. 179) que esta obra teve 50 edições nos Estados Unidos, 21 no Reino Unido, tendo sido traduzida para todo o mundo. O impacto não podia deixar de se esperar e o resultado está à vista de todos. Mesmo os que não lemos esta obra continuamos, mais de 100 anos depois, a defende a mentira ali veiculada…

Falta o quarto ato…

Em 1896, Andrew DIckson White (1832-1918) retoma a mesma tese, confere a Cosme Indicopleustes méritos e reconhecimentos que não tem, definindo-o como ‘típico e influente’, e sustenta que a maioria (já vimos que é falso) dos padres da Igreja tinha a opinião contrária a Agostinho, Orígenes, Isidoro de Sevilha, Beda, o venerável, que ele reconhece que defendiam a esfericidade. A mentira não podia ser maior e obviamente contraditória, pois qualquer leitura honesta constataria que os desconhecidos Cosme Indicopleustes e Lactâncio não podem ter tido maior influência do que a de Agostinho, Orígenes ou, ainda que não citado nesta última lista, São Tomás.

White conseguiu uma influência que suplantou a de Draper, através da Universidade de Cornell que ele mesmo fundou…

Bem certo que, no contexto português, poderemos somar a esta história posterior à revolução francesa, a criação de uma ambiência defensora de um obscurantismo cristão que tem como momento de maior corolário o período pombalino e a sua campanha negra contra a Igreja, em geral, e os jesuítas, em particular.

Henrique Leitão, prémio Pessoa em 2014, em conferência proferida em Aveiro, em 2019[3], contou que o Marquês de Pombal, para poder desenvolver a sua campanha de perseguição aos Jesuítas, ordenou que fossem destruídos os inúmeros azulejos que, nas paredes da Universidade de Évora, apresentavam os diversos passos do tratado da Esfera e outros tratados astronómicos, pois não era enquadrável com a sua tese de que a Igreja era obscurantista, a existência de tais painéis, numa universidade coordenada por Jesuítas…

Estávamos na segunda metade do século XVIII:

Em inícios do século XXI, já com a experiência de desencontros que nos deveriam ter acordado para o dever de servir a verdade, sem pré-conceitos nem entrincheiramentos, continua o Marquês de Pombal a mandar picar os azulejos com que se tornaria óbvia a nossa mentira? E quem tem na mão a picareta com que se executa a sua demanda?

O nosso intuito é promover o encontro. Pousem-se, sobre a bancada, os martelos e picaretas e abramos, em conjunto, um ateliê de restauro. Os azulejos devem voltar a luzir e, com eles, a luz que não se faz, apenas, de razão iluminadora, pois qual lua, ela não é, ainda, a nascente e a fonte da luz: reflete-a, apenas. A autêntica demanda é a da verdade de que só, como lampejos, nos aproximamos, qual peregrinos…


Seb Falk, A Idade Média: a verdadeira idade das luzes, Lisboa, Bertrand Editora, 2021.

Umberto Eco, Construir o inimigo e outros escritos ocasionais, Lisboa, Gradiva, 2011.

Jorge Buescu, Da falsificação dos euros aos pequenos mundos, Lisboa, Gradiva, 2003.

Luís Filipe F. R. Thomaz, O drama de Magalhães e a volta ao mundo sem querer, Lisboa, Gradiva, 20192.

Tomás de Aquino, Suma de Teologia, Tomo I (Parte 1), Madrid, Biblioteca de Autores Cristianos, 2017.


[1] Cfr. Jorge Buescu, Da falsificação dos euros aos pequenos mundos, pp. 173-174.

[2] Cfr. Seb Falk, A Idade Média: a verdadeira idade das luzes, p. 21.

[3] Cfr. https://agencia.ecclesia.pt/portal/aveiro-ciencia-tecnologia-etica-e-cristianismo-encerram-o-ciclo-de-tertulias-a-quarta/


*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano', 'Ensaios de liberdade' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'

Imagem de Gerd Altmann por Pixabay

'Os Sete Dias da Criação' |2| Luís M. P. Silva: 'Ainda antes do primeiro dia… ‘A terra plana’: a ‘fake’ antes de todas as ‘fakes’'

 

(‘Os Sete Dias da Criação’ | Rubrica dedicada ao diálogo entre ciência e religião)
Artigo originalmente publicado na revista 'Mundo Rural'

Luís Manuel Pereira da Silva*

Uma das maiores dificuldades no estabelecimento do diálogo é a superação dos pré-conceitos para com o outro.

No seu livro ‘construir o inimigo’, Umberto Eco chega a afirmar que ‘ter um inimigo é importante, não apenas para definir a nossa identidade, mas também para arranjarmos um obstáculo em relação ao qual seja medido o nosso sistema de valores, e para mostrar, no afronta-lo, o nosso valor. Portanto, quando o inimigo não existe, há que construí-lo.’ (Umberto Eco, Construir o inimigo e outros escritos ocasionais, p. 12) E acrescenta, ao longo das cerca de trinta páginas que constituem a conferência que abre este livro, que o inimigo é sempre ‘feio’, ‘malcheiroso’, ‘monstruoso’, ‘inferior’, ‘pouco inteligente’, etc.. O inimigo, enfim, nunca é um de nós…

Parece uma inevitabilidade com que, porém, não me identifico. Defendo, desde há muito, que não nos definimos pela competição, mas, antes, pela cooperação que nos permite fazer render os talentos de acordo com uma fórmula matemática de soma criativa: 1+1 não é igual a 2, mas a 3 ou 4 ou 5 ou muito mais.

Quantas vezes, a soma da criatividade de duas pessoas ultrapassa tudo o que ambas puderam algum dia imaginar!

Não tem sido, infelizmente, imune a esta constatação de Eco (que ele pretende que seja intransponível, mas a que tentaremos não nos render…) a história da relação entre a ciência e a religião.

E conta-se entre as mais significativas histórias dessa narrativa de encontros e desencontros, a que nos acompanhará, ao longo desta etapa da nossa reflexão.

Era lugar-comum, no tempo da minha formação, enquanto adolescente e jovem, a afirmação de que a Idade Média acreditara na terra como sendo plana.

Acrescentava-se, inclusive, para fundamentar esta convicção, a ideia de que Cristóvão Colombo não fora financiado pela corte portuguesa por nela vigorar esta ideia, e que fora Fernão de Magalhães a demonstrar a condição esférica da Terra.

A tese tinha tudo para ser credível.

E somava-se às condições de veracidade a nossa acriticidade.

Curiosamente, porém, facilmente se constatará que algo não está bem nesta convicção quase universalmente difundida quando uma rápida visita à obra maior da teologia medieval (importante por repercutir o pensamento consolidado e, também, por ser a obra de maior referência então e posteriormente), a Summa Theologica, de São Tomás de Aquino, nos leva a encontrar, logo na primeira parte, questão 1, artigo 1, na resposta à objeção 2, o seguinte: ‘A diversos modos de conhecer, diversas ciências. Por exemplo, tanto o astrólogo [de acordo com o pensamento medieval, o termo ainda designa o astrónomo] como o físico podem concluir que a terra é redonda. Mas enquanto o astrólogo o deduz por algo abstrato, o físico fá-lo por algo concreto, a matéria.’ [E prossegue, debatendo questões de epistemologia, aliás muito oportunas para a reflexão que aqui nos traz, a saber, a da legitimidade da autonomia das ciências e a da sua complementaridade, na sua especificidade.]

Importa, porém, sublinhar a ‘espontaneidade’ com que o Aquinate se refere ao carácter ‘rotundo’ da terra, deixando pressupor que o assunto era lugar-comum.

Essa conclusão sai confirmada quando nos damos conta de que, como afirmam alguns dos historiadores da ciência que se têm dedicado a este tema (recordo, a título ilustrativo, alguns livros onde esta matéria é abordada: Seb Falk, A Idade Média: a verdadeira idade das luzes; Jorge Buescu, Da falsificação dos euros aos pequenos mundos; Luís Filipe F. R. Thomaz, O drama de Magalhães e a volta ao mundo sem querer, etc.), um dos tratados de astronomia mais estudados, durante a idade média, era o Tratado da Esfera, de João Sacrobosco, publicado em 1231 (segundo Seb Falk, p. 144; Jorge Buescu data-o de 1250). Como recorda Jorge Buescu, outros autores medievais tinham, inclusive, tratados que abordavam, já não apenas a questão da esfericidade da terra, mas a da sua rotação: Jean Buridan (1300-1358) e Nicolau Oresme (1320-1382). Acrescenta Jorge Buescu, no livro com que despertei, no já distante ano de 2003, para esta enorme ‘fake new’, que ‘Roger Bacon (1220-1292) afirmou a esfericidade da terra utilizando os argumentos clássicos (os mastros dos navios, as diferentes constelações visíveis em diferentes partes do mundo, o facto de a vista do cimo de uma montanha ser maior) [e que] o próprio Tratado da Esfera do matemático português Pedro Nunes, publicado em 1537, é uma tradução anotada e comentada do Tratado da Esfera de Sacrobosco.’ (Jorge Buescu, Da falsificação dos euros aos pequenos mundos, p. 171).

Luis Filipe Thomaz pergunta, com graça: ‘se a Terra não fosse redonda, como poderia Colombo, trinta anos antes de Magalhães, intentar descobrir as Índias Orientais navegando para Ocidente? E como poderia o cosmógrafo florentino Paolo del Pozzo Toscanelli (1397-1482) ter sugerido o mesmo a D. Afonso V logo em 1474? E como poderia ter o papa Alexandre VI dividido a Terra em dois hemisférios, atribuindo um a Castela e outro a Portugal, se aquela não fosse esférica? E como se teria podido em Tordesilhas traçar uma linha de pólo a pólo sobre uma superfície plana? Porventura têm pólos os rectângulos?’ (Luís Filipe F. R. Thomaz, O drama de Magalhães e a volta ao mundo sem querer, pp 33-34) Explica, por seu turno, Jorge Buescu que a corte portuguesa não investiu em Colombo, não porque acreditasse na Terra como plano, mas sim porque, pelas suas contas (corretas, enquanto a corte espanhola as tinha erradas), a dimensão da Terra tornava um investimento sem retorno a aposta na chegada à Índia pelo Ocidente. A sorte de Colombo foi ter encontrado, no caminho, a desconhecida América… (cfr. Jorge Buescu, Da falsificação dos euros aos pequenos mundos, pp. 176-177)

Perante isto, é óbvia a pergunta paradoxal: como chegámos aqui? Como pôde tornar-se uma convicção comum uma tal mentira? E, ainda pior: porque continua a fazer-se silêncio sobre tamanha falsidade?

Vê-lo-emos, no próximo passo da nossa reflexão…


Seb Falk, A Idade Média: a verdadeira idade das luzes, Lisboa, Bertrand Editora, 2021.

Umberto Eco, Construir o inimigo e outros escritos ocasionais, Lisboa, Gradiva, 2011.

Jorge Buescu, Da falsificação dos euros aos pequenos mundos, Lisboa, Gradiva, 2003.

Luís Filipe F. R. Thomaz, O drama de Magalhães e a volta ao mundo sem querer, Lisboa, Gradiva, 20192.

  1. Tomás de Aquino, Suma de Teologia, Tomo I (Parte 1), Madrid, Biblioteca de Autores Cristianos, 2017.

*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano', 'Ensaios de liberdade' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'

Imagem de Ylanite Koppens por Pixabay

'Os Sete Dias da Criação' |1| Luís M. P. Silva: 'Antes, mesmo, do primeiro dia…'

 

(‘Os Sete Dias da Criação’ | Rubrica dedicada ao diálogo entre ciência e religião)
Artigo originalmente publicado na revista 'Mundo Rural'

Luís Manuel Pereira da Silva*

‘Os sete dias da Criação’ evocam um tempo… (Para Santo Agostinho, não será grande o futuro para os que gastam o tempo a interrogar-se sobre o ‘antes do tempo’. Espero que não me aguarde tal destino por ousar desafiar a conclusão agostiniana…) Mas ouso pensar ‘os sete dias da Criação’, muito mais do que um tempo, como um lugar. O lugar utópico que, recuperando o termo criado por S. Tomás Moro, nos fala de um ‘não-lugar’ (utopia – u+topos – ‘não lugar’), pois sonho-o como uma oportunidade para promover um encontro tantas vezes difícil e – estou convencido! – sustentado em enormes equívocos.

‘Os sete dias da Criação’ querem definir-se como um areópago de diálogo entre a ciência e a religião, entre a religião e a ciência. Não a ciência, bem certo, como a pensavam os pré-modernos, que a entendiam como ‘scientia’, sabedoria e saber sistematizado, de forma dedutiva, mas como, com a modernidade, a passámos a pensar (talvez nos venha a merecer posterior discussão esta matéria, mas, para já, bastemo-nos com o conceito moderno…). E não, também, toda a religião, mas a que, enquanto cristãos, se pensa a si mesma como ‘releitura’ e ‘religação’ assente no pressuposto de que, ‘no princípio era o «lógos»’. Não, por isso, uma religião emocionalmente definida, mas que se faz da profunda ligação à racionalidade, não à maneira racionalista, mas no pressuposto de que o ser humano é racional e relacional. Uma razão, por isso, intrinsecamente definida como ‘relação’. Uma razão marcada pela historicidade e pela encarnação. Não uma razão desencarnada.

Dizia, acima, que muitos dos desencontros entre ciência (à maneira antes descrita) e a religião do Verbo encarnado se sustentam em equívocos que, por razões específicas e concretamente observáveis, se tornaram duráveis e, em alguns casos, ainda vigentes.

Veja-se como continua a ser considerada como válida a convicção de que o cristianismo esteja de costas voltadas para com a ciência. ‘Não tivemos nós a história de Galileu?’ (Que alguns chegam a ‘mandar queimar na fogueira pela Inquisição’, levando à consumação algo que não se pode confirmar pela História…). ‘Ou a história de Darwin e a sua recusa pela Igreja Católica?’ (transferindo para o continente uma discussão que foi verdadeiramente quente, sim, mas em terras de Sua Majestade…). Ou, por fim, ‘não temos a cereja no topo do bolo que é a tese de que o universo começou com um ‘Big Bang’?’, omitindo-se que foi um padre o primeiro a formular a hipótese de o Universo ter começado com uma densa e singular concentração de energia, professor na universidade de Lovaina e amigo de Einstein, Georges Lemaître.

Os equívocos somam-se, de parte a parte, e a estes acrescentam-se, bem certo, também conceções conflituantes. John Haught, um prolífico autor destas matérias (em português, está traduzido um dos mais interessantes sobre estas ‘pontes’, escrito numa linguagem acessível e recomendável para todas as gerações, mas particularmente para as mais jovens: ‘Criação e evolucionismo em 101 perguntas e respostas, Gradiva’) analisa, no seu ‘ciência e fé: uma nova introdução, editora Sal Terrae’, as três mais posições fundamentais sobre este assunto: a do conflito, a do contraste e a da convergência.

Tomarei partido pela terceira destas, ainda que deva sublinhar que, por convergência não deverá entender-se uma qualquer matização do ‘concordismo’, que procura na ciência as confirmações para o que uma leitura literalista dos textos sagrados conclui. Antes, deverá entender-se como a posição que pressupõe estratos na realidade, legíveis diversamente, de acordo com o nível ou estrato em que se está, mas sem que tal signifique a existência de várias verdades, como que revisitando os erros do averroísmo. Antes, a convergência dá como pressuposto que, no que for matéria comum, não poderá haver contradição.

Para tal ser possível, a atitude, de parte a parte, deverá ser a da boa-fé e a da disponibilidade para o autêntico diálogo, pressupondo, sempre, que, para haver diálogo, é necessário verificarem-se duas condições coexistentes: duas identidades (distinção) disponíveis para o encontro (convergência). Sem distinção, há monólogo; sem convergência, há conflito e imposição da verdade ao outro.

A este propósito, evoque-se a fórmula encontrada pela Igreja Católica para assegurar, por um lado, a presença da verdade, mas sem que tal implique a recusa de verdade no caminho percorrido por outras vias. Evocando a ideia da presença de ‘sementes do Verbo’ em outras experiências religiosas e, particularmente, nas comunidades cristãs não católicas, a Constituição Dogmática ‘Lumen Gentium’, no seu número 8, refere que ‘esta Igreja, constituída e organizada neste mundo como sociedade, subsiste na Igreja Católica, governada pelo sucessor de Pedro e pelos Bispos em união com ele, embora, fora da sua comunidade, se encontrem muitos elementos de santificação e de verdade, os quais, por serem dons pertencentes à Igreja de Cristo, impelem para a unidade católica.’

Esta ideia de que a verdade ‘subsiste na Igreja Católica, embora fora da sua comunidade se encontrem elementos de santificação e de verdade’, assegura, por um lado, que não se redunde num relativismo, mas sem que tal comporte a legitimação de uma qualquer imposição ou, no limite, de uma recusa de acolhimento dos elementos de verdade presentes no outro.

Uma tal abordagem coloca-nos em atitude de genuínos peregrinos da Verdade. Wolfhart Pannenberg, por muitos considerado o mais católico dos teólogos protestantes, ao falar da condição proléptica da realidade, afirmando que, no concreto da História, se antecipam lampejos do sentido definitivo, enuncia, precisamente, esta tensão entre os escolhos do relativismo (ao afirmar a ‘Verdade’ antecipada) e o do objetivismo absolutizante (ao falar da condição proléptica da verdade aqui antecipada…).

Será entre estes Cila e Caríbdis (os dois mostrengos entre os quais teve de passar Ulisses, na sua viagem de regresso a Ítaca) que tentaremos navegar…

 


Bibliografia:

John F. Haught, Ciencia y fe: una nueva introducción, Madrid/Maliaño, Universid Pontificia Comillas/Sal Terrae, 2018.

John F. Haught, Criação e evolucionismo em 101 perguntas e respostas, Lisboa, Gradiva, 2009.

Dominique Lambert, Ciencia y fe en el padre del Big Bang, Georges Lemaître, Madrid/Maliaño, Universid Pontificia Comillas/Sal Terrae, 2015.

Luís M. P. Silva, Teologia, Ciência e Verdade: Fundamentos para uma definição do estatuto científico da Teologia, segundo W. Pannenberg, Coimbra, Gráfica de Coimbra, 2004.

Ronald L. Numbers (org.), Galileu na prisão e outros mitos sobre ciência e religião, Lisboa, Gradiva, 2012.


*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano', 'Ensaios de liberdade' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'

Imagem de Andres Nassar por Pixabay

terça-feira, janeiro 06, 2015

Quanto pode Deus perante o mal?

Li, há dias, num insuspeito jornal de economia, a afirmação de um destacado líder político nacional que dizia que acreditara em Deus até ao dia em que lhe morrera o irmão.
Não pude ficar indiferente a esta afirmação, como terá ocorrido com tantos outros que se depararam com esta surpreendente declaração.
O primeiro sentimento que tal declaração suscita não pode ser senão a da solidariedade na dor da perda de um irmão. Poucas expressões de sofrimento serão maiores do que essa. Talvez só a da perda de um filho.
Contudo, num segundo passo, não resisti ao esforço de interpretar o significado destas palavras, já distantes, no tempo, das razões existenciais que as motivam.
Na realidade, estas palavras, ditas na primeira pessoa, ecoam a densa discussão sobre o que pode Deus diante do mal. Pergunta que emerge quando o mal ocorre com aparência de quase absurdo, seja pelas vítimas que faz, seja pela dureza a que se associa. Assim aconteceu, quando em 2004, a onda gigante, cujo nome era até então apenas reconhecido por especialistas, fez identificar tsunami com morte e terror. Então, como já ocorrera em 1755, quando, em 1 de novembro, a periférica cidade de Lisboa fez ressoar pela Europa fora a interrogação sobre onde estava Deus e a que se devia o mal, a pergunta não deixa ninguém indiferente. Nomes como Rousseau, Voltaire, ou o grande Kant, participaram em acesas discussões que pareciam ter dificuldade em sair de um círculo vicioso que continua bem fresco: ou Deus pode e não quer acabar com o mal; ou quer e não pode.
Antes de procurarmos uma resposta, gostaria de adiantar, desde já, que valerá a pena constatar o seguinte: a afirmação segundo a qual se deixou de acreditar em Deus porque um nosso irmão nos morreu resulta de não nos darmos conta de que, nessa hora, abandonámos aquilo que, precisamente nesse momento, tinha a oportunidade de mostrar a sua valia. Como se alguém despejasse o copo de água na hora em que sentia sede, suspeitando de que era por ver a água que se lhe despertava a sede. Dito de outro modo: face à morte, não deveríamos perguntar-nos sobre onde está Deus, mas constatar, antes, que a Deus devemos a possibilidade de dar sentido à morte, ao mal, pois, de outro modo, já nada restará e o mal e a morte terão a última palavra.
Na verdade, muitas têm sido as tentativas de conciliar a existência de Deus e a existência do mal, mas dificilmente se consegue essa conciliação se situarmos Deus no mesmo nível das nossas possibilidades de conhecimento. O primeiro erro está, precisamente, em considerar Deus como uma causa entre outras, agindo à maneira das forças de que dispomos. Na realidade, podemos dispor das fontes de energia, das forças motrizes que fazem mover determinados objetos, etc., contudo, a causa das causas está além das nossas disponibilidades. Neste pressuposto, continuaremos, contudo, a sentir a crueza da presença do mal que nos aflige e nos leva a perguntar, sempre de modo renovado, sobre onde está Deus.
Uns quiseram reduzir o mal à simples ausência do bem e eliminá-lo como se de nada se tratasse; outros pretenderam atribuir o sofrimento do mal a pecados merecedores de pena adequada, à maneira de uma retribuição a que Deus condenaria a humanidade, tese rejeitada pelo próprio Jesus, quando lhe apresentam um cego de nascença (Cfr Jo 9, 1-41); outros, ainda, quiseram sossegar a interrogação bastando-se em considerar que este era, afinal, o melhor dos mundos e que saber isso seria suficiente; outros, por fim, quiseram colocar o mal ao serviço de um bem maior, não escapando à crítica de que se tal fosse verdade, muita seria a crueldade de Alguém que faria um mundo em que uns seriam cilindrados para benefício de outros.
Confesso-me muito próximo do que pensa, sobre esta matéria, um teólogo de Santiago de Compostela, Andrés Torres Queiruga, para quem Deus é a origem permanente do bem, mas que cria o mundo em liberdade, porque a liberdade é a condição do amor. Ao criar o mundo, Deus «depara-se» com uma de duas possibilidades: ou criar o mundo, sabendo que ele terá de ser imperfeito, pois não é possível fazê-lo perfeito, dado que assim, seria, não mundo, mas Deus; ou, então, simplesmente não criar, pois não haveria uma terceira possibilidade. A escolha de Deus é a de criar, sendo o próprio ato criador um ato de salvação do nada. Mas essa é a condição do mundo: sendo livre, ser também limitado e por isso marcado pela fragilidade e pelo mal. Assim, o mal não tem origem em Deus, mas na condição de fragilidade e limite que é inerente à criatura, à criação. Criado o mundo, Deus continua, em cada momento, a chamá-lo ao bem e à plena realização. Quando o chamamento de Deus é correspondido pela resposta livre da criatura, emerge o bem; quando o chamamento de Deus não é correspondido e a criatura se desvia dessa plenitude de perfeição, emerge o mal.
Ora, sendo esta uma resposta abstrata e aparentemente teórica, não é suficiente sem constatar que, na pessoa de Jesus Cristo, esse encontro de total coincidência entre o chamamento de Deus e a resposta humana é absoluta. E nesse encontro verifica-se que a resposta de Deus não é a da indiferença perante o mal, mas antes a da sua assunção total. Poderíamos dizer que, sendo Jesus o inocente por excelência, aceita a morte, ainda que não a deseje, como bem demonstram as afirmações repetidas, nos momentos que a antecedem. E aceita-a, não como demonstração de força, nem porque nele a morte seja uma aparência, como pretendiam algumas heresias dos primeiros séculos (o caso mais claro é o do docetismo), mas sim, primeiro, por fidelidade à verdade, não recuando perante as consequências de lhe permanecer vinculado, e, segundo, porque a certeza de que Deus vencerá a morte o faz olhá-la de frente. A resposta definitiva à morte e ao mal está nesta solidariedade de Deus, na pessoa de Jesus Cristo, que evidencia, na ressurreição, que a morte não tem a última palavra e, nela, toda a expressão do mal.
Neste quadro, a encarnação de Deus, celebrada no Natal, é já a primeira expressão da tremenda solidariedade de Deus para com a criação. Na resposta coincidente entre o humano e o divino, na pessoa de Jesus, está expressa a certeza de que a fragilidade, o mal, a finitude, não são a condição final e definitiva, mas a primeira condição em que se antecipa a definitiva. Haverá que ver nos sinais de emergência do bem a marca forte de que o mal só emerge quando a resposta da criatura diverge do permanente chamamento à plena realização. Deus não só não abandona, como sempre pretende a resposta que eleve a criatura à perfeição. Mas o amor não se impõe, realiza-se em liberdade. E poder não se realizar é uma possibilidade que Deus não quer e tudo faz para impedir, na medida do amor que não obriga (antes respeita a resposta livre).

Num irmão que morre, Deus desce com ele à morte para o elevar à vida.

E ao pó hás-de voltar… Não às cinzas estéreis e anónimas.

  Há uma sabedoria profunda, verdadeiramente divina, no ato de inumar o ‘corpo’ morto, de o devolver ao regaço adâmico de que proveio. Mas u...