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segunda-feira, julho 20, 2026

Luís Manuel P. Silva | Aborto e outras violências: O futuro é dos sonhadores!

 


Luís Manuel Pereira da Silva*


Dizem que sou um sonhador. Que esperar um mundo em que todos os filhos de humanos (mulheres ou homens, pessoas com deficiência ou sem que a tenham explícita, pobres ou ricos…) possam nascer é um sonho paradisíaco pouco irreal.

Posso sê-lo. Mas o que seria o futuro sem os sonhadores?

O cinzento não é alternativa.

Ouso fazer um pedido a cada um dos leitores deste texto: que me leia sem preconceitos; que me leia como quem está disponível para, verdadeiramente, ouvir.

Leia-me, bom leitor, como a criança a quem falam do que, realmente, está em causa.

Trago, a esse propósito, uma página de um diário de uma mulher que aceitou ser ‘barriga de aluguer’ de uma cunhada. Diz ela, na semana 15: ‘Contei aos meus filhos o que se está a passar. A minha filha perguntou: «Não me vais dar a outra pessoa, pois não?»[1]

Uma só pergunta e desaba toda a segurança sobre a bondade das ‘barrigas de aluguer’.

Uma só pergunta – ‘onde está o meu irmão que eu esperava?’ – e desaba toda a convicção de que o aborto seja um inócuo ato solitário que só a cada um diz respeito.

Acredite, caro leitor, que quem se opõe à legalização do aborto não o defende porque queira ver punidas todas as pessoas que o praticam.

Tremendo equívoco esse que pressupõe raciocínio tão curto e tão estreito.

As leis não foram feitas para que se possa punir quem as infringe. Foram, antes, feitas para proteger bens que merecem cuidado e defesa.

Dir-me-á o leitor, muito atento: ‘esqueces-te de que as leis que despenalizaram o aborto protegem um valor igualmente importante: o de nos determinarmos.’

E eu compreendo o valor que se visa proteger, mas ouso pedir um novo olhar.

O bem de que se prescinde – o da vida de um (ou vários, se forem gémeos) filho – é um valor de que não se pode prescindir de parte e permanecer com outra; ou se tem, em absoluto, ou não se tem. A vida não se possui em progressividade; ou está ou não está. Há, talvez, em muitos, o equívoco com a qualidade de vida que, essa sim, é reversível e futurível. Como a liberdade, aliás… A liberdade pode possuir-se em progressividade; ter-se em parte e ir-se desenvolvendo como, aliás, acontece com a criança que se desenvolve ou, mesmo, com alguém que depende dos outros enquanto não domina uma matéria, um assunto. Em todas estas situações, a liberdade está presente, mas nunca de forma absoluta nem totalmente ausente. Porque, por definição, ser livre é ‘ir-se libertando’. Com a vida, que integra o que poderá definir-se como valores irreversíveis (ou se possuem ou não se possuem), não é assim. A partir do momento em que se deixa de possuir, não se recupera.

Logo, é desequilibrado que se prescinda de um valor ‘irreversível’ por um outro que é sempre reversível.

Mas, poderá dizer-me, mais uma vez, o leitor, muito atento: ‘mas isso é uma decisão exclusiva da mulher que está grávida…’

A ideia é sedutora, mas, mais uma vez, nasce de um equívoco.

Um filho não é gerado por um só, pela mãe (muito menos, só pelo pai, claro!). O filho é, por natureza, um ente que une duas histórias. O homem e a mulher de quem provêm os gâmetas (que triste é que a tecnologia nos tenha obrigado a esta leitura fria e laboratorial – o frio das pipetas e das seringas… - que dissociou a geração de um ato de amor, mas é assim!…) eram dois seres sem ponto de convergência até que um filho os une, para sempre. Sublinho ‘para sempre’.

Mesmo que o queiram apagar, aquele ente une-os. Geneticamente, há algo do pai e há algo da mãe. Saibam-no ou não. Queiram ou não!

E o que fazer com o filho que ‘fala’ dos dois é, neste momento, a questão.

Sentimo-nos autorizados a decidir sobre a sua vida?

Ou reconhecemo-lo como anterior ao que nos é legítimo decidir?

E é aqui que os dois caminhos se separam.

Como o ponto após as portagens de uma autoestrada em que, para um lado, se vira para norte e, para o outro, se vira para sul.

Admitir a legitimidade do aborto é aqui que se determina.

E, a partir daqui, é importante que se perceba o que se está a determinar: se a vida do outro está ao nosso dispor, ao dispor da nossa autodeterminação, ou se não.

Se sim, então, honestamente, deveríamos ir até ao fim.

Se alguém pode determinar se a vida do outro merece ou não merece continuar, é puramente arbitrário que o seja às dez, às doze, às vinte e quatro semanas ou até ao final da gravidez… E, no limite, até que tenha capacidade de decidir por si (como permite, neste momento, a Bélgica que autoriza a eutanásia de menores, a pedido dos seus pais). Vejamos que, em termos lógicos, a Bélgica está a levar até ao limite o raciocínio.

E é por isso que devemos questionar o raciocínio. Para que não seja demasiado tarde…

Regresso ao lugar após as portagens…

Para mim é claro que a vida se impõe à liberdade de cada um (e, caríssimo leitor, se acha que sou eu o primeiro a reconhecê-lo, sugiro a leitura muito atenta do preâmbulo da Declaração Universal dos Direitos Humanos que afirma, claramente, que é o reconhecimento da dignidade humana o pressuposto da liberdade e não o contrário), por muito que me apeteça extingui-la, por muito que esteja perturbado pela notícia e pelo medo (talvez até terror) do futuro.

O que deveria, neste momento, fazer a sociedade, era dizer a cada casal, a cada mulher que se reconhece mãe: ‘estamos aqui, contigo, e temos, para ti, estes apoios e estas ajudas. Não estás só.’

Digo-lhe, caríssimo leitor, caríssima leitora, que a sociedade se tem organizado para tal, pois muitas instituições surgiram, nos últimos trinta anos, a apoiar as grávidas que se encontram sem apoio. Mas o ‘zeitgeist’, o espírito deste tempo, não tem estado atento e quase as silencia. Mas alguns milhares de crianças já nasceram, desde que o referendo ao aborto legitimou a sua prática, por ajuda destas organizações. Autênticas sobreviventes da lei do aborto. Sim, meu bom leitor, todos os que nasceram depois de 2007, são, em Portugal, sobreviventes da lei do aborto. Pois a pergunta que pode sempre fazer-se é: ‘porque tive eu direito a nascer e não os mais de 300 mil entretanto abortados?’

Confesso-lhe, caríssimo leitor, que muito me custa esta arbitrariedade em que deixaram enredar-se os ‘Estados de Direito’ ocidentais que permitiram que algo tão determinante (como a vida de alguém) dependesse da decisão de um só. Com as abrangentes implicações que tal comporta: onde ficou o pai, nesta decisão? Onde ficou o filho? Onde ficou a própria mãe que, tantas vezes, pressionada pela sociedade envolvente, é empurrada para o aborto porque a lei já não protege a sua decisão de não abortar? Onde ficou, afinal, a mensagem de que não devemos ser violentos uns com os outros?

Sim, porque se uma sociedade admite a violência da mãe sobre o seu filho, quando este mais depende dela, então, toda a violência pode ser tolerada…

A mãe que é o primeiro berço do seu filho tem de merecer toda a ajuda da sociedade, porque ela é o futuro que já mora no presente. E se queremos futuro, não o podemos esperar amanhã. É que o primeiro futuro, o futuro do passado, é o hoje. E só haverá futuro do presente se, no presente, não se extinguir a vida, não se extinguir quem existe.

Eu sei que sou um sonhador…

Mas o que será o futuro sem sonhos? Pois se não há futuro sem vida, dado que o tempo é vida que se desenrola como novelo. Mas, sem ela, é poeira ao vento.

Sonho… Sonho com uma sociedade sem violências. E sem a maior dessas violências: a dos braços que deveriam acolher a vida quando esta mais precisa do seu conforto.

Sonho… Bem sei que sonho. Mas outros sonham, já hoje, comigo e, um dia, o sonho será real. E enquanto houver sonhadores, a vida continuará a garantir amanhãs. Pois é no hoje de cada vida que germina o devir.


[1] In Gabriele Kuby, A geração abandonada, Cascais, Princípia, 2021, p. 92.


*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano', 'Ensaios de liberdade' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'

Imagem de Clive Einstein por Pixabay

sexta-feira, dezembro 19, 2025

Aborto | Manifesto ‘para que todos os catraios possam nascer’

 

Vamos imaginar.

Imagine-se que um dos 43 milhões de abortados, neste ano, em todo o mundo (números do worldmeters.info) conseguia quebrar a ‘interrupção’ a que o entregaram e falava ao nosso ouvido. Pedir-nos-ia, certamente, que lhe devolvêssemos a vida e que lhe permitíssemos que fosse à vida, acabada a gravidez de que a sua mãe o queria, antecipadamente, fazer sair.

Se é certo que tal só é possível por um exercício de imaginação, há, porém, que reconhecer que este exercício é o que suporta a ideia de que àqueles que são portadores de dignidade humana cabe reconhecer que, mesmo quando não têm voz, é como se a tivessem e a ouvíssemos, sempre, e sem desfalecer.

Ora, no caso do aborto, os que o legalizam e o querem tornar ‘lei blindada’ querem sumir a voz dos abortados.

É, por isso, humanamente exigível que se lhes dê voz.

Regressemos à constatação óbvia.

Num aborto, um filho é impedido de se desenvolver e de vir a nascer.

Num aborto, um pai é impedido de continuar a sê-lo.

Num aborto, uma mulher que era mãe deixa de o ser.

Num aborto, há muitos interesses em jogo.

Num aborto, há, por vezes, razões que levam a achar que o filho se tornou um problema e só eliminando-o o problema deixa de existir. Colide, porém, o desejo de que deixe de ser um problema com o reconhecimento de que um ser humano, portador de dignidade humana, é alguém, um alguém a quem ainda não soubemos que nome dar, mas que já é um ser participante da natureza humana e, por isso, merecedor de que o pensemos como um ‘tu’ a olhar para nós e a pedir-nos que o acolhamos. Abortá-lo é silenciá-lo.

É inquietante que o torpor coletivo que vem tomando conta do Ocidente esteja a apagar de diante de nós a voz dos que, no silêncio do ventre das suas mães, clamam por vida, clamam pelo futuro.

Quase não há semana em que não tenhamos notícias sobre o aborto. Ora da França, ora de cá, ora da Europa, ora daqui, ora dali.

No dia 18 de dezembro de 2025, a França anunciou ter aprovado lei que reabilita mulheres condenadas pelas leis anteriores a 1973.

A estratégia é impedir de falar o filho.

Aparentemente, em todo este processo, parece só haver uma vítima: a mulher que aborta.

Sejamos, porém, honestos. Se já temos abortos repetidos em perto de 30% do casos, se 96% dos casos de aborto são praticados sem razões explícitas (só cerca de 4% são por malformação, conflito entre a vida da mãe e do filho, violação, etc.), se há toda uma estrutura mundialmente organizada de clínicas que se dedicam, exclusivamente, a este ‘negócio’, podemos afirmar, com, honestidade, que o aborto se deve sempre a razões justificáveis?

Mas ‘o aborto diz só respeito a quem o faz’, dirão alguns, verdadeiramente convencidos disso.

Se um filho é um ser distinto do pai e da mãe, o assunto ‘aborto’ já não respeita só a quem o faz. Diz respeito, principalmente, a quem o sofre, o filho, e pela proteção que todo o filho humano nos merece, então, o assunto diz respeito a todos.

E se diz respeito a todos, porque quando se mata um humano, mata-se a humanidade nele presente, então as perguntas, perante o aborto, deveriam ser outras. Não ‘como ajudar a eliminar um filho?’, mas sim ‘como podemos ajudar quem sente que o filho em gestação é um problema?’

A estratégia em curso é, porém, clara. O aborto está encapsulado no preconceito de que é um direito da mulher e, por isso, beliscar este hipotético ‘direito’ é ser contra a mulher, considerada, sempre, em situação de miséria (os números não o demonstram!), sendo, então, de concluir que quem se opõe à legalização não o faça por bons motivos, mas porque é incompassivo, sem misericórdia.

Como opositor à legalização do aborto, olho para esta conclusão como uma ofensa.

Oponho-me, à legalização do aborto e ao seu reconhecimento como um direito, por causa da mãe; oponho-me por causa do filho; oponho-me por causa do pai; oponho-me porque recuso uma sociedade individualista em que cada um fica com o seu problema e os outros oferecem a morte porque, após ela, fica o silêncio que já não incomoda.

Oponho-me por sincera compaixão para com as mulheres que querem os seus filhos, mas que, por pressão social, são arrastadas para o aborto legalizado (quando era ilegal, jamais o fariam!); oponho-me porque a dignidade humana não pode ser um chavão que se utiliza quando dá votos, mas é, de facto, o fundamento da inviolabilidade de toda a vida humana, em particular quando, sendo frágil, ela mais incomoda e apetece rejeitá-la; oponho-me porque um filho não é gerado por um só e, por isso, é ilógico que um só possa decidir por um bem que é gerado por dois; oponho-me porque a vida humana não é um bem disponível; oponho-me porque não é apenas o ato da mulher que aborta que é legalizado: é todo o negócio e todos os interesses envolvidos; oponho-me porque a vida é de baixa probabilidade e, quando ela consegue contornar as improbabilidades, temos de lhe dar oportunidade de se abrir ao futuro; oponho-me porque não é dividindo a mãe contra o filho, o filho contra a mãe, a mãe contra o pai, o pai contra a mãe e todos contra todos que se constrói uma sociedade livre.

Como podemos admirar-nos com a violência que grassa nas nossas sociedades ocidentais quando o ato de violência da mãe sobre o seu filho em si protegido é reconhecida como um direito? O fim legitimado da gravidez parece nascer da ideia de que a gravidez é um peso lançado sobre a mulher. Como homem, e com uma inconfessável inveja, grito que a gravidez é um privilégio. Como podem perverter este reconhecimento os movimentos que estão paulatinamente a minar as consciências e a gerar a convicção de que o aborto seja um direito?

Bem sei que os interesses em jogo, que abanam as bandeiras dos ‘direitos conquistados’ ou da ‘compaixão para com quem é «atirado» para o aborto clandestino’, detêm condições de manipulação mediática e (outras) que só me permitem sonhar com uma outra sociedade para tempos não imediatos.

Mas a história mostra-nos que não devemos perder a esperança.

Recupero a história do eugenismo de que venho falando, em diversos estudos já publicados.

Entre 1883 e a Segunda Guerra Mundial, o mundo viveu uma vertigem semelhante à abortista que vem tomando conta do Ocidente, desde a década de 60, mas em particular, desde 1973 (caso Roe vs Wade).

A vertigem eugenística começou por suportar-se na ideia de que era preciso aproveitar as conquistas da ciência para limitar o nascimento dos que eram débeis, replicando, na sociedade, o que Darwin observara na natureza (por uma seleção artificial que replicava a seleção natural). O fascínio pela ideia foi-se avolumando. Criaram-se sociedades eugenísticas um pouco por todo o mundo. Legalizou-se o casamento eugénico, limitou-se o acesso ao casamento das comunidades tidas como ‘debilitadas’, etc. O torpor coletivo foi sendo cada vez mais avassalador.

Só uns raros países, de influência católica continuaram a resistir, em nome do reconhecimento de que a dignidade humana exigia o reconhecimento de que todos mereciam viver.

O que acordou deste torpor foi a II Guerra Mundial e a ‘superlativização’ do eugenismo por parte de Hitler.

O mundo despertou do longo sono.

Estou convencido de que o mundo acordará para o sono em que está.

A erosão do direito, grande responsável por esta onda abortista (pois, se o direito continuasse a travar a sua aceitação, a sua prática diminuiria e a vida sairia respeitada e protegida…), está a permitir que a onda continue a agigantar-se. O medo dos que se opõem a esta prática e a estas leis de serem tomados por incompassivos, por insensíveis, tem favorecido que, como a água de um tsunami, as lógicas abortistas, individualistas, tomem conta de tudo.

Mas permaneço confiante.

A dignidade humana vencerá, como venceu, após outras vertigens.

Atónitos, diremos, então: ‘como nos permitimos chegar aqui?’

Até lá, porém, é o tempo de escutar os silenciosos…

Deixemos os catraios nascer!

domingo, dezembro 07, 2025

Sabes, leitor... | 24 | Marca de água do livro de Simone Troisi e Cristiana Paccini, 'Nascemos e jamais morreremos: vida de Chiara Corbella Petrillo'

 

Rubrica ‘Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página’** | Marca de água de livros que deixam marcas profundas
Parceria: Federação Portuguesa pela Vida e Comissão Diocesana da Cultura




Luís Manuel Pereira da Silva*

 

O autor e a obra e as Marcas de água 

(o que fica depois de se deixar o livro: a verdadeira autora deste livro é Chiara Petrillo. Simone e Cristiana, os autores que encimam a capa, são os amigos de todas as horas, diante de quem se desenrolou a história que decidiram verter para as letras repousadas sobre as folhas…)

Simone Troisi e Cristiana Paccini, Nascemos e jamais morreremos: vida de Chiara Corbella Petrillo, Braga, Editorial A.O., 20236.

Começo esta nota com uma confissão. Demorei a decidir-me a fazer a recensão deste livro. Não porque nada tenha a dizer; antes, pelo grandeza do que nele se conta, pela dimensão do que há a dizer. Temo pela ineficácia das minhas palavras.

Por isso, começo por onde deveria terminar: leia, caríssimo leitor, este livro e deixe-se tomar pelo que nele se conta. Melhor, deixe-se habitar pela vida que nele fulge.

E prepare-se! Este livro incomoda, inquieta, avassala-nos.

Não pela especial verve literária, mas pela força das decisões de Chiara Petrillo, a biografada. Sim, este livro é uma biografia.

Ou, melhor. Este livro é vida! Não apenas ‘palavras sobre uma vida’, é, antes, vida que se socorre de palavras para poder continuar a contar-se.

A história de Chiara Petrillo é impressionante, como impressionam as vidas dos que, nas decisões quotidianas, se revelam heróis.

Verdadeiramente, Chiara levou até às últimas consequências a consciência de que ‘ser mãe’, ‘ser pai’ é, não só dar vida, mas, principalmente, quando tal se exige, ‘dar a vida’.

E isso desconcerta.

Se desconcerta!..

Apesar de o mundo da ‘defesa da vida’ ser a minha vida desde há muito, terei de revisitar a história de Gianna Molla para reencontrar uma tão densa narrativa de vida como esta que encontrei neste livro que, em boa hora, uma amiga do ‘mundo da defesa da vida’ partilhou comigo. Confesso que, em muitos momentos, me comovi, parei, limpei lágrimas para poder prosseguir com a leitura.

Chiara Petrillo e o seu marido, Enrico, são luzeiros de esperança, confiança e fé na vida que não se acaba.

Casaram em 2008, tendo-lhes nascido, pouco mais de um ano depois, a sua primeira filha: Maria Grazia Letizia. Os nomes são significativos. ‘Maria da Graça Alegria’!

O precoce diagnóstico de anencefalia logo foi fonte de pressões para que abortasse.

Mas a vida de um filho não é uma posse: é um convite ao amor e a ser amado. Por isso, a gravidez desenvolveu-se e o parto, contrariamente ao previsto, foi natural e Maria Grazia Letizia nasceu para, poucas horas depois, e já batizada, morrer nos braços dos seus amados pais.

Loucura?

Muitos di-lo-ão, uns em surdina, outros explicitamente.

Mas, se a vida é dom, como poderia ser de outro modo senão permitir-se que nasça e se deixe a natureza humana decidir? Seremos nós, pais, os senhores dos nossos filhos?

A situação vem a repetir-se, já não por anencefalia, mas por malformações singulares, ainda não designadas pela medicina.

Nova gravidez com sobressalto, mas levada até ao final. Nasce Davide Giovanni, ‘David João’.

‘David’, como o rei israelita que venceu Golias.

O Golias dos nossos medos e resistências.

Nasceu, foi acolhido e batizado. Os funerais destes filhos foram lugares de fé, esperança, confiança e alegria. A alegria de quem reconhece que a vida que se recebe não se possui, pois, o ‘contrário do amor não é o ódio, mas a posse’, como tantas vezes repete Chiara.

Terceira gravidez.

Desta feita, Francesco, o filho que se aguarda, não apresenta nenhuma malformação.

O pai, Enrico, sempre envolvendo o amor com o humor, perguntava o que faltaria a este terceiro filho.

Desta vez, a surpresa era outra.

Muito cedo, na gravidez, Chiara descobre que tem um tumor maligno a que ela chama ‘um dragão’.

Faz uma intervenção cirúrgica que não interfere com o desenvolvimento do seu filho. Propõem-lhe uma outra, mais invasiva, mas que pode colocar em risco a vida do filho.

Decide-se pela vida do seu filho e adia, o mais que pode, e só para depois do parto, essa segunda intervenção.

Francesco nasce… As intervenções sucedem-se, mas o que mais desconcerta é o amor e a confiança nunca perdida. Não a confiança numa cura, mas a certeza de o amor vencer. O amor que não possui, mas que acolhe a vida, com os seus fulgores e dores.

Com cerca de um ano de Francesco, Chiara morre, entre os seus inúmeros amigos, dando a todos confiança, segurança, esperança, conforto, quando a mais necessitada era, afinal, ela mesma. Os outros eram, sempre, em cada passo da sua história, o centro. Pois, como diz em carta que dedicou ao seu filho, para que a lesse quando maiorzinho, ‘’no pouco que percebi neste anos, apenas te posso dizer que o Amor é o centro da nossa vida, porque nascemos de um ato de amor, vivemos para amar e para ser amados, e morreremos para conhecer o amor verdadeiro de Deus.

O objetivo da nossa vida é amar e estar sempre prontos para aprender a amar os outros como só Deus te pode ensinar.

O amor consome-te, mas é tão bonito morrer consumidos, exatamente como uma vela que se apaga quando atinge o seu objetivo.

Não importa o que farás, mas o que quer que venhas a fazer só terá sentido se o fizeres em função da vida eterna.

Se estiveres realmente a amar, aperceber-te-ás disso pelo facto de que nada te pertence realmente, porque tudo é um dom.

Como diz S. Francisco: o contrário do amor é a posse!’

Não é por acaso que, tendo falecido em junho de 2012, com apenas 28 anos, Chiara Petrillo seja já invocada, pela Igreja Católica, desde 21 de setembro de 2018, como ‘serva de Deus’ e esteja em andamento o seu processo de beatificação.

Esta não é uma história de um culto do sacrifício, de um culto da dor mórbida. Pelo contrário, é a história da não desistência da vida e do amor por ela, apesar das dores e sacrifícios que amá-la possa comportar. Porque a verdadeira natureza do sacrifício está, precisamente, em ‘tornar sagrado’ o que, sem esse acolhimento amoroso, seria meramente ‘profano’ e sem sentido. Sacrifício diz, mesmo, ‘tornar sagrado’.

Chiara amou, acolheu a vida sem reservas. E isso desarma-nos. Este livro faz-nos deixar cair todas as armas defensivas com que recusamos receber o dom da vida, a vida que é um dom.

Neste livro, colocam-se, frente a frente, duas visões sobre a vida: a dos que a consideram uma posse e sobre ela tudo se admitem fazer por se entenderem seus donos; e a de quem se reconhece um grato recetor de um dom e tudo faz por merecer o dom recebido.

Fechado o livro, o silêncio toma conta de nós e pergunta-nos, sussurrando, ao ouvido: de que lado estás?

 

Na mesma página que o autor (citações)

‘Amar não é possuir. É querer o bem do outro’ (Luísa Viterbo, prefácio à edição portuguesa, p. 6)

‘Uma pessoa morre como viveu. Chiara morreu de uma maneira incrível, sorrindo diante da morte. Muito mais do que serena: feliz. Estar a seu lado foi ver o viver e o morrer de um filho de Deus’. (p. 17)

‘Nascemos e jamais morreremos. Essa frase está ligada à imagem de Chiara, mas Chiara nunca a pronunciou, ainda que seja perfeita para ela. Pronunciou-a Enrico. É uma frase que ouviu a um responsável da comunidade ‘Gesù Risorto’, doente terminal de cancro nos ossos. Enrico tinha cerca de 15 anos e ficou muito impressionado. Repetiu-a muitas vezes, e nós sabíamos que ele a queria escrever numa t-shirt, porque achava que era uma boa notícia para dar a todos.’ (p. 22)

‘Chiara passou da convicção de que tinha direito ao Enrico à compreensão de que o outro é um dom de Deus e, portanto, é necessário primeiro aceitar perdê-lo para depois o encontrar.’ (p. 32)

‘O que mais assusta Chiara é ela e Enrico estarem casados há poucos meses e não saber como poderá ele reagir à notícia de que a sua filha não está bem (era portadora de anencefalia) e morrerá logo após o nascimento. Tem medo de descobrir o que Enrico pode ter no coração, teme que possa deixar de a amar. Pensa: «Esta cruz, o meu marido vai pegar nela comigo ou terei de carrega-la sozinha? Ele vai entender-me ou…?»

[…] Quando Enrico fala, Chiara ouve as palavras que tanto tinha desejado ouvir: «Não te preocupes. É nossa filha: acompanhá-la-emos até onde pudermos». Também ele não pensa nem por um momento em rejeitar este dom. Para Chiara este não é só um momento inesquecível. É «o primeiro milagre».’ (pp. 42.44)

‘Para muitos médicos, o aborto é, neste caso, uma escolha evidente. Infelizmente, também o é para muitos dos que se dizem católicos. Poucos são os cristãos que apoiam Chiara e Enrico. O facto de Maria Grazia Letizia crescer sem cérebro faz com que muitos ponham em questão que a sua seja , de facto, vida; e alguns põem em questão se interromper uma gravidez destas é, na verdade, um aborto, como se a bebé nem sequer existisse. E este é, para Chiara e Enrico, o maior sofrimento: o peso do julgamento daqueles que os rodeiam, os conselhos daqueles que até àquele momento lhes eram próximos.’ (p. 45)

‘Tendo decidido levar a gravidez até ao fim, na verdade, Chiara e Enrico levaram para a frente uma ideia acerca da vida que muitos consideram incómoda. Mas é precisamente aquela defendida pela Igreja. A ideia de uma vida que vale por si mesma, prescindindo da inteligência, da capacidade de raciocínio e da beleza. Uma ideia de vida que rejeita todos os critérios do mundo que sugerem se uma pessoa deve sair para a rua ou ficar em casa, se deve levantar a mão para falar ou não, ou levantar-se da cama de manhã ou ficar a dormir.

É ainda uma ideia de vida segundo a qual o outro não vem para nos roubar nada, mas enriquece-nos com a sua presença.’ (p. 46)

‘Todas as mães geram filhos que não lhes pertencem. Ser pais significa exatamente isto. Mas para Chiara a consciência disto é maior. A sua missão e a de Enrico é a de acompanhar imediatamente esta menina ao encontro com Deus, e ela quer estar preparada o melhor possível para que isto aconteça, para que tudo se realize segundo o seu desígnio.’ (p. 52)

‘Chiara e Enrico estão verdadeiramente felizes. Tinham-se preparado para o pior, não para tanta beleza. «O momento em que a vimos foi um momento que nunca esquecerei: percebi que estávamos ligadas para toda a vida. Não pensava no facto de que estaria pouco tempo connosco. Foi uma meia hora inesquecível.

Se tivesse feito um aborto, não creio que poderia recordar o dia do aborto como um dia de festa, um dia em que me teria libertado de alguma coisa. Teria sido um momento que procuraria esquecer, um momento de grande sofrimento.’ (p. 55)

‘Aquilo que quero dizer às mães que perderam filhos é isto: nós fomos mães, recebemos este dom. Não importa o tempo: um mês, dois meses, poucas horas… o que conta é termos recebido este dom… e não é uma coisa que se possa esquecer.’ (p. 56)

‘[…] o contrário do amor não é o ódio, mas o possuir […]’ (p. 61)

‘Fazer um aborto é rejeitar um dom.’ (p. 65)

‘[…] o objetivo mais importante da vida é ser amados. O importante não é fazer coisas, mas nascer e deixar-se amar’. (p. 81)

‘«No pouco que percebi nestes anos, apenas te posso dizer que o Amor é o centro da nossa vida, porque nascemos de um ato de amor, vivemos para amar e para ser amados, e morremos para o conhecer o amor verdadeiro de Deus.

O objetivo da nossa vida é amar e estar sempre prontos para aprender a amar os outros como só Deus te pode ensinar.

O amor consome-te, mas é tão bonito morrer consumidos, exatamente como uma vela que se apaga quando atinge o seu objetivo.

Não importa o que farás, mas o que quer que venhas a fazer só terá sentido se o fizeres em função da vida eterna.

Se estiveres realmente a amar, aperceber-te-ás disso pelo facto de que nada te pertence realmente, porque tudo é dom.

Como diz São Francisco: o contrário do amor é a posse!»’ (p. 164 – da carta escrita por Chiara ao seu filhinho Francesco)


**(Título retirado de Daniel Faria, Dos líquidos, Porto, Edição Fundação Manuel Leão, 2000, p. 137)

*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Ensaios de liberdade', 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'

Foto recolhida do site da Editora Paulinas

domingo, setembro 07, 2025

Sabes, leitor... | 21 | Marca de água do livro de Teresa de Melo Ribeiro, José Ribeiro e Castro e Isilda Pegado (coordenação), 'My body, my life: no debate sobre o aborto'

 

Rubrica ‘Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página’** | Marca de água de livros que deixam marcas profundas
Parceria: Federação Portuguesa pela Vida e Comissão Diocesana da Cultura

Luís Manuel Pereira da Silva*

O(s) autor(es) e a obra
Teresa de Melo Ribeiro, José Ribeiro e Castro e Isilda Pegado (coordenação), My body, my life: no debate sobre o aborto, Cascais, Sopa de letras, 2025.

Quando somos tomados por uma vertigem, tendemos a fechar os olhos. Quando, porém, ela é de natureza moral ou ética, é recomendável mantê-los abertos.

É de uma vertigem avassaladora que fala este livro e abrir os olhos é o que se espera de quem o ler.

Reúnem-se, aqui, vinte e sete artigos que, como referem os seus coordenadores, foram, originalmente, publicados em órgãos de comunicação social. Vinte e sete artigos: tantos quantos os anos que decorreram desde o primeiro referendo ao aborto. Os autores, quinze no total, correspondem, também, a uma significativa diversidade de profissões e funções, ainda que com maior prevalência de juristas ou profissionais do âmbito do direito (professores, um juiz, advogados, etc.). Contam-se, ainda, entre os autores, uma bióloga, três professores de outras áreas, uma escritora, um estudante de direito, o secretário-geral de uma juventude partidária, um padre e um cardeal, identificando-se alguns dos autores como sendo dirigentes de organizações diversas (Comissão Nacional ‘Justiça e Paz’, Corpo Nacional de Escutas, Comissão Diocesana da Cultura, Federação Portuguesa pela Vida).

Constata-se o papel do jornal Observador enquanto fonte privilegiada da grande maioria dos textos - vinte e dois -, sendo os restantes cinco provindos de outras quatro fontes: um blogue (‘nós os poucos’), um site (da Comissão Diocesana da Cultura|Aveiro), a Rádio Renascença e o Correio da Manhã.

O prefácio, da autoria do ex-primeiro ministro, Pedro Passos Coelho, sublinha a diversidade e a liberdade com que se construiu este livro, afirmando a originalidade da sua posição em relação à da maioria dos autores, mas evidenciando, também, o respeito por que não se encerre um assunto que, como o mesmo afirma, se escude numa atitude de ‘fraqueza [que] é ter medo de confrontar as ideias ou pretender calar ou diminuir aqueles de quem discordamos e esconder-se atrás de qualquer relativismo moral para não tomar posição’. (prefácio, p. 19)

Este livro é francamente oportuno porque uma vertigem de relativismo enevoa as leituras sobre este assunto que, como recordam os coordenadores na nota introdutória, ‘voltou a estar na ordem do dia, política e mediática’ (p. 8), seja pela discussão, em contexto de campanha eleitoral de inícios de 2024, seja pela resolução do Parlamento europeu, de 11 de abril de 2024, seja, ainda, por se terem apresentado à Assembleia da República iniciativas legislativas que pretendiam alargar os prazos da despenalização, ou, acrescentamos, pela aprovação, em França, de decisão que propõe que se reconheça, ali, o aborto como um direito a assegurar a nível correspondente ao da proteção constitucional.

Para grandes vertigens, exige-se um verdadeiro arregalar de olhos. E é isso que se propõe esta coletânea de 27 esclarecedores artigos, que começa com um argumento de peso: a capa, que fala por si. Aliás, talvez seja de dizer de outro modo: quem nela aparece fala por si. E com que eloquência!

Marcas de água 

(o que fica depois de se deixar o livro)

A ideia de vertigem é especialmente plástica e esclarecedora. Num contexto vertiginoso, é natural protegermo-nos e tentarmos, a todo o custo, minorar os custos do impacto da causa que a provoca. É, por isso, que a sedução de fechar os olhos é particularmente eficaz. Fechados os olhos, como que se desvanece a realidade e tranquilizamos.

Mas quando os deixamos abertos, a realidade obriga a acolher o que ela mesma nos evidencia.

Sabia bem disto um reconhecido e reputado pensador e político italiano quando, na década de 80 (mais propriamente em 1981), se discutia, em Itália, a legalização do aborto. Norberto Bobbio, que se definia como ‘socialista e laico’, afirmou, com escândalo, ao Corriere della Sera, que lhe causava estupefação que os «laicos entregassem aos crentes o privilégio e a honra de afirmar que não se deve matar».

Destaco desta afirmação de Bobbio, três aspetos.

Em primeiro lugar, o reconhecimento de que o aborto não é matéria de natureza religiosa ou que deva ser lida à luz exclusiva dos argumentos desta natureza. Bem certo que, à luz do que o mesmo Bobbio reconhecia, os crentes ficam muito gratos que se lhes reconheça essa sensibilidade, mas, queira-se ou não, a leitura ética sobre o aborto é de um plano distinto. (Bem certo que os crentes têm um ‘plus’ de razões [a vida é, em perspetiva crente, sempre dom de Deus], mas as verdadeiras são prévias a esse ‘plus’).

E as verdadeiras concernem ao segundo aspeto que destaco. Bobbio era muito claro no seu repúdio da posição confortável e cómoda dos laicos: abortar é ‘matar’, não é outra coisa. Quem o diz não sou eu: é Bobbio! Ao denunciar, no contexto da discussão italiana que aceitar o aborto, através de leis, era ceder perante a violação do princípio de que não se deve matar, Bobbio não deixava margem para dúvidas.

Por fim, a posição de Bobbio permanece, como voz póstuma, como desafio a que se regresse, vezes sem conta, ao que está, verdadeiramente, em causa.

É esse regresso ‘ao ponto’ que se propõe este livro, que surpreenderá até os leitores mais convencidos de se ter, já, esgotado toda a argumentação. A atitude decisiva deverá ser, no final, a de se deixar despertar não se permitindo aquietar-se ou acomodar-se.

Resisto a enunciar os múltiplos argumentos que, curiosamente, não se repetem (a originalidade de cada autor evidencia-se na singularidade de cada posicionamento), sublinhando quatro linhas que desenvolvo, a partir dos argumentos reunidos neste ‘livro despertador’.

Em primeiro lugar, valerá a pena constatar-se como os argumentos de quem pretende a legalização do aborto são ‘fluídos’ e ‘gelatinosos’, indo do esvaziamento da natureza do filho ainda não nascido à sustentação (incoerente, pois teria de defender o aborto até ao fim da gravidez) de que se trata de uma parte do corpo da mulher e, por isso, parte dos seus direitos de autodeterminação (também este um argumento de difícil sustentação absoluta, pois permitiria uma total disponibilidade de si que colidiria, por exemplo, com a legitimidade de o Estado punir o não uso do cinto de segurança, a título de exemplo…). Recorre-se aos argumentos que melhor servem em cada momento sem a preocupação com a coerência, evidenciando as marcas de um ‘pensamento débil’ (Gianni Vatimo) e de um sociedade que liquidifica tudo (Zigmunt Bauman).

Em segundo lugar, valerá a pena desenvolver a ideia tantas vezes repetida de que a legalização do aborto procurou equilibrar direitos em conflito. Para além de (como é descrito por um dos autores) não se perceber como é que uma vida inocente pode ser tomada como ‘agressora’, o suposto equilíbrio é, de facto, inexistente, pois, quando há equilíbrio, nenhum dos direitos põe o outro em causa. Ora, pode sempre supor-se a possibilidade de todas as mulheres portuguesas decidirem exercer o ‘direito’ que a lei lhes facultou. Nenhum humano nasceria, pois o eufemismo ‘interrupção’ não tem respaldo na realidade e não é, de modo algum, possível começar uma gravidez às dez semanas. Todas começam à primeira semana…

Por fim, também numa lógica de desenvolvimento progressivo de argumentos, tomemos em análise a questão dos ‘direitos’ em jogo. Já vimos que os ‘direitos’ da mãe e do filho foram desequilibrados, sumindo os de um deles, em absoluto, durante o tempo da suspensão total, ao longo das primeiras dez semanas. Vejamos, agora, o impacto desta ‘suspensão’ em outro elemento da equação: o pai.

Sabendo que não há filhos sem dois gâmetas (células sexuais), um feminino (o óvulo) e um masculino (o espermatozoide), para haver um filho humano é preciso existir, sempre, uma mulher e um homem que, a partir do momento da fecundação, mudam de condição, passando a ser uma mãe e um pai. Logo, aquele novo ser, que, antes da fecundação, não existir, passa a ser o fruto de dois. Formalmente, juridicamente, aquele ato (a fecundação) tem dois sujeitos igualmente responsáveis. Porém, o legislador decidiu que, durante dez semanas, os direitos sobre aquele filho, que foi gerado pelos dois, recairiam, de forma absoluta, sobre um só dos dois sujeitos, a mãe. A pergunta que se impõe é esta: sendo o pai destituído de direitos, de forma absoluta (não pode decidir nada sobre aquele filho), como pode ver serem-lhe exigidos deveres, dez semanas depois, quando nenhum direito teve na tomada de decisão? Se o legislador fosse coerente, teria de concluir que a lei é absolutamente injusta, pois só arbitrariamente confere deveres a quem não teve quaisquer direitos de decisão sobre um ‘bem’ de que vai ter de se responsabilizar. Defendo, por isso, que todos os pais, depois de 2007, podem recusar assumir responsabilidades sobre os filhos? Obviamente que não. Obviamente! A conclusão tem de ser outra. Não pode ser direito de alguém a decisão solitária sobre o fim de um filho que, afinal, foi gerado por dois. O carácter óbvio desta constatação deveria levar todos os legisladores a concluir a injusta (os clássicos chamavam-lhe a ‘iniquidade’…) da lei.

Por fim, um último argumento que desenvolvo…

Tendo o Estado abandonado, por determinação sua, à arbitrariedade de um só, a decisão sobre vivermos ou não, será legítimo todos os nascidos depois de 2007 concluírem que são ‘sobreviventes’ da lei 16/2007 e, eventualmente, exigirem do Estado ressarcimento pela desproteção.

Contrariamente ao que pretendem defender os que sustentam que o aborto pudesse ter enquadramento no âmbito dos ‘direitos humanos’, os tribunais dos direitos humanos deveriam, sim, concluir que em causa estão direitos humanos quando se desprotege a vida de alguém, entregando-a à arbitrariedade de um só que, afinal, deveria protegê-lo, ficando, pelo contrário, com o poder absoluto de o abandonar à morte.

Não só deverá, por isso, concluir-se que não pode, nunca, existir o reconhecimento do direito ao aborto quando, pelo contrário, o que deveria estar a fazer-se era reconhecer o direito a nascer, pois, se, como sustenta a declaração universal dos direitos humanos, estes são ‘inalienáveis’, então, ninguém pode aliená-los, nem sequer o próprio, pelo que, quando eles estão em causa, temos o dever de os proteger, a começar em nós mesmos. A vida que vivemos não é um bem de que temos posse, mas um bem que devemos cuidar, pois não nos damos a humanidade: somos dela participantes e cabe-nos, por isso, cuidar dela. A humanidade de um só que é ofendida está a ofender a humanidade de todos.

Como leitor, parti do livro e desenrolei novas linhas argumentativas. Caberá a cada leitor pegar no novelo que é este livro e puxar por novos fios. Por discretos que sejam, como os fios de uma teia, quem sabe que olhos poderão abrir-se porque nunca se tinha pensado nisto?! É que, afinal, se tudo são opiniões, como tanto se diz, há umas de que resulta vida e tanta história por contar, enquanto outras acabam em morte. Serão, por isso, todas as opiniões igualmente válidas?

Na mesma página que o autor (citações)

‘De acordo com os dados constantes do “Relatório de Análise dos Registos da Interrupção da Gravidez de 2023”, último relatório publicado pela Direcção-Geral da Saúde, foram registadas, em 2023, em Portugal, 17.124 interrupções da gravidez por todos os motivos, verificando-se um aumento de cerca de 3% relativamente a 2022 e representando o aborto por opção da mulher nas primeiras 10 semanas da gravide 96,7% dos abortos registados.’

(Nota introdutória dos coordenadores, p. 7)

‘[…] fraqueza é ter medo de confrontar as ideias ou pretender calar ou diminuir aqueles de quem discordamos e esconder-se atrás de qualquer relativismo moral para não tomar posição’.

(Pedro Passos Coelho, prefácio, p. 19)

‘Temos de dar um passo atrás. Se continuamos a tomar decisões sobre a vida e a morte sem recorrer a critérios materiais que respeitem a dignidade de cada ser humano, temos de estar prontos para as consequências que daí advêm.

Hoje és meu filho, mas ontem não eras. E amanhã? – pergunta o filho.’

(Ana Brito Goes, p. 22)

‘O resultado de considerarmos o assunto arrumado e da falta de reflexão pessoal e comunitária sobre o aborto foi a quebra do vínculo que considerávamos indestrutível entre a gravidez e a vida humana em gestação.

[…]

Ser filho passa a ser uma condição que se adquire se a mulher desejar ser mãe. Se a mulher quer ser mãe, aquele embrião passa a ser considerado filho. Se uma mulher não quer ser mãe, o que existi já não é um filho, é uma gravidez que deve ser interrompida.

[…]

Os outros, nessas ocasiões, são todos chamados: cabe a cada um decidir se estende a mão ou se vira as costas, porque o assunto está arrumado.’

(Ana Brito Goes, p. 24)

‘Vejamos: o aborto é, e sempre será, a morte de um ser humano inocente e indefeso por vontade de outro ser humano. Qualquer legislação que valide a sua realização condena uma parte da comunidade humana à eliminação.

[…]

Para terminar, o aborto não é nem nunca será uma questão pacífica nem pacificada, a não ser que nenhuma mulher aborte. Porque, por muito que nos queiram enganar dizendo que é um bem, mesmo um direito, isso não transforma uma mentira numa verdade. Como disse Albert Camus, “Designar mal as coisas é acrescentar infelicidade ao mundo.” Não há nenhum mérito e muito menos algum futuro na promoção da infelicidade.’

(Isabel Carmo Pedro, pp. 26.27)

‘Violência contra as mulheres e Interrupção Voluntária da Gravidez.

Arrisco uma nova correlação.

Será que não estamos perante uma nova forma de violência contra as mulheres, uma violência camuflada de empoderamento, que revela o que, já não os homens, mas uma ideologia, pensa verdadeiramente sobre as mulheres?’

(Ana Brito Goes, pp. 30.31)

‘Para o mundo contemporâneo é mais fácil ignorar a questão da vida por nascer. É mais fácil dizer que a mulher tem na barriga uma coisa, que depois, num passo de magia, se transforma num bebé. Porque reconhecer que ali está um bebé significa enfrentar o horror dos milhões de vidas ceifadas anualmente pelo aborto. Reconhecer a dignidade infinita da vida por nascer significa dar-se conta da monstruosidade que a cultura do aborto introduziu no nosso tempo. E por isso é mais fácil esquecer o bebé, e reduzir o aborto a uma mera questão da intimidade da mulher.

Respeito o drama das mulheres que não desejam ter os seus filhos, das mulheres que procuram o aborto ilegal, das mulheres que estão em situações de dificuldade e estão grávidas. E defendo uma sociedade que apoia e acolha essas mulheres, assim como todas as mulheres grávidas. Mas a solução para um drama, a solução para uma injustiça não passa por ignorar que o aborto elimina uma vida. O drama do aborto é, antes de mais, o drama de uma vida que existe e que merece ser defendida.’

(José Maria Duque, pp. 34.35)

‘Na sua decisão [que considerou não haver inconstitucionalidade no referendo ao aborto], a maioria do Tribunal Constitucional cometeu dois erros graves. O primeiro erro foi o de dar por descontado que o alegado conflito de direitos fundamentais entre a mãe e o filho é um conflito entre duas ofensas de direitos. Ora, tal não é verdade. A liberdade da mulher-mãe de organizar a sua vida não é ofendida com o seu sacrifício total e definitivo pela vida do filho; ela continua a poder organizar a sua vida ainda que em circunstâncias diferentes. Mas, na posição inversa, pretende-se que a liberdade da mulher a organizar a sua vida possa exigir o sacrifício total e definitivo da vida (inviolável) do filho. Por outras palavras: a garantia da vida do filho não impede completamente o exercício do direito da mãe, que pode sempre continuar a organizar a sua vida, embora em termos diferentes. Mas a garantia da liberdade da mãe é entendida como impedindo total e definitivamente que o filho possa continuar a viver, ainda que em termos diferentes.

[…]

O segundo erro cometido pelo Tribunal Constitucional foi o de afirmar que o método que inventou para o ajustamento no gozo dos dois direitos, o direito da mãe e o direito do filho, é método equilibrado. Trata-se do chamado método dos prazos, que praticamente (e isto é o que importa) se traduz em dar à mulher um prazo para decidir, em seu completo e incontrolado arbítrio, se quer ou não sacrificar completa e definitivamente o direito à vida do filho, em favor do seu direito a organizar a sua vida sem qualquer ajustamento ao direito da vida do filho. Como é evidente, este «método dos prazos» é um falso equilíbrio, porque a liberdade da mãe é sempre vencedora e a vida do filho resulta sempre dependente do exercício da liberdade da mãe. A vida do filho nunca sacrifica a liberdade da mãe, porque essa liberdade só é sacrificada se a mãe quiser. De facto, o alegado equilíbrio que se obtém para o gozo destes dois direitos fundamentais de liberdade pelo «método dos prazos é um perfeito sofisma.’

(Mário Pinto, pp. 39.40)

 

’[…] como admitir um Direito Fundamental ao Aborto quando o Aborto é em todos os Países e na Europa um crime (vide art.º 142.º do C. Penal onde apenas é descriminalizado em certas circunstâncias)? Sendo Direito Fundamental, será possível até aos 9 meses?’

(Isilda Pegado, p. 44)

‘Também se invoca, para justificar o direito ao aborto como direito fundamental, a autodeterminação reprodutiva da mulher. O argumento será válido quando se trate de evitar a conceção, antes da reprodução se dar, não quando já se deu a conceção e a reprodução, quando (como sucede com o aborto) se trata de suprimir a vida de um ser já concebido e em gestação.’

(Pedro Vaz Patto, p. 49)

‘Este poder de eliminar Vidas Humanas dado a uns, no tempo, há de gerar novas formas de alguns poderem decidir da vida de outros. Vertigem a que só o Estado se pode e deve opor. É necessário sentido de Estado.’

(Isilda Pegado, p. 56)

(Descrição sensível e perturbadora)

‘A notícia da NPR, que eu já enviara ao Polígrafo, aborda esta questão: “Também conhecida como «dilatação e extração», ou D&X, e «D&E intacta» [dilatação e extração intacta], envolve a remoção do feto intacto através da dilatação do colo do útero da mulher grávida, puxando depois todo o corpo para fora através do canal de parto.”

Dilatação e extração é o que se faz num parto, com a diferença de que, aqui, a dilatação é inteiramente provocada e o filho tem de ser morto antes de sair totalmente. Daí, a técnica ter sido designada socialmente de “aborto por nascimento parcial” (PBA), como o documento dos bispos (que o Polígrafo também recebeu, mas escondes) descreve: “O médico pare parte substancial da criança viva para fora do corpo da mãe – toda a cabeça num parto com a cabeça para baixo ou o tronco para além do umbigo num parto com os pés para cima – e depois mata a criança esmagando-lhe o crânio ou retirando-lhe o cérebro por sucção.”’

(José Ribeiro e Castro, pp. 60-61)

‘Uma coisa não pode ser um direito fundamental e um crime ao mesmo tempo.’

(José Maria Duque, p. 68)

‘Limitar o exercício do direito à objeção de consciência por parte dos médicos (e outros profissionais de saúde), para além de ser inconstitucional, é ética e deontologicamente inadmissível.’

(Teresa de Melo Ribeiro, p. 82)

‘Recordo-me do tempo em que os partidários da legalização do aborto argumentavam que esta era uma exigência da tolerância porque «ninguém é obrigado a abortar» e, por isso, também ninguém deve ser proibido de o fazer. É certo que essa argumentação esquecia que o nascituro é «obrigado a ser abortado», obviamente sem dar para tal o seu consentimento. Mas com a limitação do direito à objeção de consciência nos termos do referido projeto de lei, deixa de ser verdade que «ninguém é obrigado a abortar»: um profissional de saúde pode ser obrigado a agir contra a sua consciência e a praticar um aborto ou colaborar nessa prática quando não haja alternativas.

A liberdade de consciência está, pois, em perigo. Importa salvá-la.’

(Pedro Vaz Patto, p. 89)

‘Se os seres humanos têm valor fundamental só por causa de alguma característica que adquirem em diferentes estágios da sua vida, então, aqueles que possuem um grau maior dessa característica têm mais valor do que aqueles que têm um grau menor e a famigerada igualdade entre todos os seres humanos não passa de um mito.’

(Maria Helena Costa, p. 92)

‘Recusar a eleição de uma juíza para o Tribunal Constitucional por esta ter declarado, na linha da jurisprudência desse Tribunal, que a vida humana intrauterina goza de proteção constitucional, é uma forma inaceitável de desprezo pela Constituição e pela independência desse Tribunal. Acima do respeito pela Constituição e pela independência do Tribunal Constitucional, está uma agenda ideológica extremista a prosseguir a qualquer preço.’

(Pedro Vaz Patto, p. 97)

‘As ordens profissionais dão pareceres contra a eutanásia? Tenta-se acabar com a sua autonomia. Os médicos evocam a objecção de consciência para não praticar abortos? Acaba-se com a objecção de consciência. Os pais não educam os filhos na ideologia de género? Obriga-se as crianças a aprender na escola. Mais, os pais não aderem à ideologia de género? Então, cria-se na escola mecanismos para que estes sejam denunciados à CPCJ, como acontecia com o projecto de lei que aplicava a Lei da Autodeterminação de Género às escolas. As pessoas dizem coisas nas redes sociais que a esquerda não gosta? Regule-se as redes sociais. As pessoas afirmam coisas que a esquerda não gosta? Criminalize-se o discurso afirmando que tudo o que discordamos é discurso de ódio.’

(José Maria Duque, p. 100)

‘[…] a vida humana é sagrada, a violação da vida humana por  meio do assassinato é imoral, o embrião é um ser humano, a lei pretende tutelar os bens, entre eles e como magno a vida humana, e o aborto é a prática que leva à morte do feto. Logo, a lei deve proteger o bem vida humana do feto (pequeno humano) face à ameaça do aborto.’

(Francisco Ascensão, p. 107)

‘[…] o que há a fazer com urgência e determinação não é impedir que nasçam crianças (a maior das riquezas, como disse o Papa Francisco em Timor-Leste) promovendo o aborto, é remover os obstáculos que hoje tanto dificultam a maternidade e a paternidade.’

(Pedro Vaz Patto, p. 113)

‘Quais foram os movimentos filosóficos, sociais e políticos que nos conduziram até aqui? Que processos ideológicos criaram condições para que, a pouco e pouco, se fosse perdendo o conceito de Bem objetivo? Que correntes de pensamento foram dissolvendo o conceito de Consciência, e foram cultivando a ideia de que a razão subjetiva da pessoa que decide se deve sobrepor ao valor da vida?

[…] só uma concepção materialista da vida, hiper legalista (se está na lei então pode-se fazer), só uma visão meramente funcional e utilitária da existência poderia decretar que é a vontade popular que determina se o aborto é um direito ou um crime, e que confia à maioria a determinação do bem e do mal.’

(Pedro Saraiva Ferreira, pp. 122.123)

‘Veja-se a legislação que, em vários países, pretende proibir qualquer manifestação de oposição ao aborto (mesmo que de forma pacífica e não ofensiva, mesmo que de uma oração em silêncio se trate) em zonas próximas dos locais onde ele se pratica. Onde está agora a tolerância?’

(Pedro Vaz Patto, p. 127)

‘Sendo o aborto um erro, como podemos continuar a achar que ele seja sinal de compaixão?

Compadecer-se é, sim, ajudar o outro a encontrar uma saída construtiva para um problema que se lhe afigura insuperável… E para isso aí estão as associações de defesa da vida que têm, desde 1998, criado respostas para que não fique sem ajuda mulher alguma cujo filho decidiu ouvir: em sussurro, ele pedia-lhe que o acolhesse…’

(Luís Manuel Pereira da Silva, pp. 131-132)

‘Não há temas indiscutíveis em democracia. No debate político não deve haver tabus. E, por isso, não devemos ter medo de discutir a IVG, mas quem quiser alterar a lei deve fazê-lo em absoluta lealdade ao povo português, sempre e apenas através de um novo referendo.’

(João Pedro Luís, p. 135)

‘[…] esta ofensiva política, a pretexto do aborto (outra vez), é uma arremetida de fome pelo poder e um cortejo de desonestidade intelectual, de indecência de processos, de falta de respeito pelo Direito, cavalgando mentiras habituais e querendo romper limites de exercício do poder em democracia. Merece ser vencida. Necessita de ser vencida.’

(José Ribeiro e Castro, p. 142)

‘[…] sabemos que o aborto em Portugal raramente é livre, mas é, em grande parte dos casos, fruto da pressão de patrões, companheiros, famílias ou simplesmente provocado pela pobreza. Por isso sabemos que o aborto não destrói apenas a vida por nascer, mas tantas vezes destrói também a mulher. Por isso sabemos que o alargamento dos prazos do aborto não irá ajudar nenhuma mulher, mas apenas aumentar a desresponsabilização do Estado e da sociedade diante das mulheres em dificuldade.

Impressiona-me que num país com tão poucos nascimentos, onde as grávidas encontram tantas dificuldades para ter os seus filhos, onde não existe qualquer política de apoio às grávidas em dificuldade, existam deputados que brinquem aos prazos legais do aborto sem qualquer critério que não seja a conveniência política. Pelo caminho ficam todas as mulheres que procuram ajuda para ter os seus filhos e que só encontram da parte do Estado uma resposta: o aborto.’

(José Maria Duque, p. 145)

‘Não existe matéria de maior importância, gravidade e sensibilidade do que aquela que respeita à vida ou morte de seres humanos, ainda que apenas vivam dentro de suas mães.’

(Teresa de Melo Ribeiro, p. 151)

‘Defendo a vida desde o momento da conceção até à morte natural e, concretamente nesta matéria, já tive ocasião de o dizer publicamente que não me identifico com uma sociedade que opta por viver entre uma pílula do dia seguinte e uma pílula do último dia.’

(D. Américo Aguiar, p. 153)

‘Não sei quantos portugueses estão conscientes deste silencioso genocídio, que a esmagadora maioria dos nossos políticos finge ignorar, mas é crescente a mobilização de cidadãos – cristãos, crentes de outras religiões, agnósticos e ateus – em defesa da vida humana intrauterina e da cultura humanista. Espera-se que o silêncio cúmplice da comunicação social em relação a iniciativas que promovem a dignidade humana dê lugar a uma atitude comprometida com a verdade e a justiça, assegurando a devida cobertura às manifestações em defesa da vida. Com efeito, no próximo dia 29 de março [de 2025], ocorre mais uma Caminhada pela Vida, em simultâneo em 13 cidades portuguesas: Aveiro, Beja, Braga, Coimbra, Évora, Faro, Funchal, Guarda, Lamego, Lisboa, Porto, Santarém e Viseu. Pela vida dos seres humanos mais desprotegidos e necessitados e pelo respeito pela dignidade das mulheres, vale a pena, agora e sempre.’

(Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada, pp. 158-159)

 


**(Título retirado de Daniel Faria, Dos líquidos, Porto, Edição Fundação Manuel Leão, 2000, p. 137)

*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Ensaios de liberdade', 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'

Foto recolhida do site das Ediciones Cristiandad

quinta-feira, agosto 07, 2025

Sabes, leitor... | 20 | Marca de água do livro de Ignacio Caprile, 'A extinção dos filhos'

 

Rubrica ‘Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página’** | Marca de água de livros que deixam marcas profundas
Parceria: Federação Portuguesa pela Vida e Comissão Diocesana da Cultura

Luís Manuel Pereira da Silva*

O autor e a obra
Ignacio Garcia de Leániz Caprile, La extinción de los hijos: el retorno del flautista de Hamelín, Madrid, Ediciones Cristiandad, 2023.

Ignacio de Leániz Caprile é um autor a conhecer. E, este livro, de tradução obrigatória para português…

 Ainda não traduzido em português (não consegui encontrar nenhum dos seus títulos nas editoras nacionais), tem já significativa obra publicada (entre livros e artigos) em diversas editoras e revistas espanholas: Laertes, Encuentro (2 livros), Diaz de Santos e Ediciones Cristiandad, revelando, neste livro com que acedi à sua escrita (‘A extinção dos filhos’) uma robusta cultura que conjuga conhecimento livresco com o aprofundado conhecimento da realidade contemporânea, repercutindo, na sua escrita, a sua experiência como académico (é professor associado na Universidade de Alcalá, Madrid, uma universidade com perto de 20 mil alunos), mas também o seu ‘respirar’ de consultor de empresas. Esta última nota é particularmente visível neste livro em que se articulam o imaginário literário e a concretude das propostas de natureza económica e empresarial. Caprile escreve bem e de forma transparente, com um pensamento lúcido, atento, não só à espuma do tempo, mas também ao ‘espírito’ que lhe subjaz. É desta matriz que se faz ‘a extinção dos filhos’, onde se cruzam as estatísticas e os dados demográficos com uma leitura em profundidade, interpretativa e solidamente analítica. As notas biográficas que cobrem a badana deste livro ajudam a perceber o ‘tapete’ que se tece, neste livro: Caprile tem-se dedicado, nos seus livros e nas colunas com que colabora, nos jornais El Mundo e El Debate, à reflexão sobre filosofia, antropologia, literatura, cinema e, naturalmente, a gestão dos recursos humanos, enquanto consultor de empresas. De tudo isso se fazem as páginas deste livro. Não apenas para servir um bom, robusto, diagnóstico, mas, também, para formular uma original proposta.

Marcas de água 

(o que fica depois de se deixar o livro)

Li, de um fôlego, entre os dias 27 e 29 de abril de 2025, este belo ensaio de Ignacio Caprile. São 108 páginas, divididas em oito capítulos, antecedidos de uma introdução e de um epílogo escrito ‘a partir de Hamelin’. O título e o subtítulo são, só por si, já um programa… A capa ilustra, transparentemente, o seu conteúdo: sobre um berço vazio, caminha um ‘flautista de Hamelin’, em cujas vestes se visibilizam as crianças roubadas a Hamelin, seduzidas para a cova onde serão escondidas dos pais. Parece ouvir-se a sua maviosa melodia… O tom cinzento da capa soma-se à ilustração inequívoca. Mas, se de sombras se faz grande parte da reflexão, não se pense que este é um livro de desespero. É, como um despertador, a voz que nos acorda da noite, provocando o incómodo próprio do momento de se elevar do leito do repouso. O acordar perturba, mas a culpa não é do despertador, antes do estado letárgico de que custa sair…

Como com a lenda de Hamelin, popularizada pelos irmãos Grimm (curiosamente, autores que são ‘irmãos’… Uma curiosidade significativa, quando se denuncia a ideologia do ‘filho único’…), o flautista que ‘rouba’ as crianças sabem munir-se das melhores melodias para levar avante os sues intentos.

Ao longo das 108 páginas deste ensaio, Caprile percorre um caminho: socorre-se de dados estatísticos que evidenciam (lá, em Espanha, como cá…) um declínio demográfico. Declínio que deveria preocupar, mas que, como afirma, logo a abrir o livro, é matéria proibida, nas discussões políticas ocidentais, denunciando que já não estamos perante uma mera factualidade de natureza fatalista (devida a causas que ultrapassam a vontade humana), mas sim perante uma intencional ação, pretendida e cultivada.

Caprile encontra as suas raízes no cruzamento entre uma visão nihilista, intencionalmente cultivada [que prefere o ‘nada’ (de não gerar vida) ao ‘ser’ (que é um filho); Caprile cria o termo ‘nadificação’ para designar esta atitude de escolha do ‘nada’ em vez da ‘nidificação’, a criação do ninho para gerar vida…], e ideologias apocalípticas que, a pretexto de uma suposta sobrelotação humana do planeta, defendem a extinção da espécie humana, como meio para a cura de um hipotético mal, de que não só se convenceram os seus próprios defensores, como pretenderam (com bastante sucesso, aliás) associar, criando sentimentos de culpa, os demais humanos. Procriar é, nesta ideologia aqui denunciada, um novo ‘pecado original’ que lesa o planeta, devendo, no entender dos seus preconizadores, gerar sentimentos de culpa nos que ousam dar origem a novas vidas humanas…

É desta matriz que Caprile parte para, como que numa espiral que se vai desenovelando, constatar o papel que tem o aborto, nesta emergência e consolidação da ideologia que defende a diminuição da natalidade e, até, a extinção da espécie humana (Caprile não faz afirmações gratuitas: retenhamos na memória nomes como Corinne Maier, Paul Ehrlich ou Alan Weismann ou a designação das correntes que defendem o ‘voluntary childlessness’ ou a ‘voluntária extinção da espécie humana’…). Os números deveriam, mais uma vez, lá como cá, fazer pensar e incomodar, mas, como bem recorda, ‘infelizmente, acostumamo-nos ao aborto. As suas vítimas, reduzidas e tratadas como restos, como Resíduos Sólidos Urbanos (RSU), não se veem, ficam no anonimato, sem nome com que figurar em algum registo.’ (p. 26)

Recordemos os números, para que falem por si (deixemos Caprile falar…):

‘Qualquer aproximação intelectual ao tema da extinção dos filhos que pretenda ser honrada não pode iludir o grave tema, o punctum dolens da realidade do aborto na nossa cultura atual.’ Da sua magnitude dão conta as cifras certamente calafriantes da sua prática: no nosso país [Espanha] o número de abortos voluntários não desce dos 90000 por ano. Na França, as cifras atingem mais de 222000; no Reino Unido, 215000. Nos Estados Unidos, com mais de 900000, uma em cada gravidez desemboca num aborto voluntário. Na China, desde que começou a política do filho único em 1979, registaram-se mais de 336 milhões de abortos legais, cifra que supera a população atual dos Estados Unidos. É ocioso dizer que se esses seres humanos tivessem chegado a nascer estaríamos perto da taxa de reposição comentada de 2,1 filhos por mulher e, ao menos no nosso país, os nascimentos estariam equilibrados com as mortes, dado que não se reflete no discurso político atual, como comprovava Blair.’ (p. 25-26)

Soma à análise sobre o contributo que o aborto tem neste destruir da vida humana e o seu robusto impacto numérico e de mentalidade na crise demográfica uma outra linha. No terceiro capítulo do ensaio, evidencia como está organizada a estratégia para que os fins sejam efetivos: os humanos são culpabilizados por terem filhos. Para a concretização deste desiderato, muito contribuíram livros como No kid. 40 boas razões para não ter filhos [1](2008) e O mundo sem nós (2007). Se havia dúvidas sobre a intencionalidade que assiste a este processo, este capítulo não as deixa sobreviver…

Do mesmo modo acontece com um facto observável: a proliferação dos animais de estimação e a (quase diretamente proporcional) inversão no número de filhos. Caprile não deixa escapar essa verificação: ‘Há uma clara correlação entre o declínio demográfico e o aumento exponencial da aquisição de animais domésticos, preferencialmente cães e gatos. De facto, no nosso país (Espanha) há 6265153 crianças menores de 14 anos, enquanto o número de animais de estimação registados ascende a 13 milhões no ano em que menos nascimentos temos tido desde há 80 anos.’ (p. 53)

A sua análise, em relação aos motivos, é particularmente interessante. É que um animal (aparentemente) não desilude; um filho pode desiludir. E esse é o risco de gerar filhos: eles são eles, não o que queremos que sejam. Um animal, enquanto ser previsível e entregue ao instinto, não tem condições para a autonomia e autodeterminação. Mas quanto de geneticamente ou educacionalmente nosso há num cão ou num gato? Quanto da depressão coletiva pode ficar a dever-se a esta morte do futuro que redunda de termos desistido de ter filhos para os substituir por animais que nada têm de nosso?

São interrogações implícitas na análise de Caprile que não podemos deixar de enfrentar…

Desta, o nosso autor encaminha-se para constatação com profundo impacto nas relações mais significativas da nossa condição: esta opção pela extinção da espécie humana está a conduzir-nos a uma sociedade sem passado nem futuro.

Obviamente, uma sociedade sem filhos é uma sociedade sem pai, sem mãe, sem irmãos e, naturalmente, sem avós. Curiosa e paradoxalmente, apesar de ser uma sociedade que conseguiu prolongar o tempo de vida, mas que está, por decisão sua, a impedir que esse prolongamento seja feito de humanidade e significado…

A sua análise encaminha-se, no penúltimo capítulo, para uma análise de natureza teológica, ao constatar que a recusa da paternidade, da filiação repercute a recusa da visão cristã de Deus, revelado como Pai e Filho… Uma observação a que o nosso autor acrescenta um desafio: o de que os discursos pastorais retomem o tema da procriação e da fecundidade como contributo para a realização humana, denunciando, aliás, que ‘o desaparecimento progressivo deste discurso nas próprias esferas religiosas nas últimas décadas, sem dúvida contribuiu com o seu silêncio para a grande encruzilhada em que nos encontramos.’ (p. 107-108) Um repto a ter em conta…

Por fim, não se bastando com uma análise pertinente que nos expõe um diagnóstico inquietante, Ignacio Leániz dedica o último capítulo à formulação de uma proposta que, tendo em conta o seu saber como consultor, tem em conta o modus cogitandi próprio do mundo empresarial: sugere que, dando como certo que a demografia se repercute na criatividade empresarial e nos modelos de organização das empresas, é preciso introduzir o critério do ‘contributo da empresa para a natalidade’ como um dos critérios de apreciação e financiamento destas…

Uma proposta a considerar…

Para que das covas onde foram escondidas as nossas crianças possam estas ser resgatadas das ‘garras sedutoras’ dos novos flautistas de Hamelin.

Ou já teremos sido todos associados à sua orquestra de sopros?

[1] Editado, em português, pela Guerra e Paz, 2008.

Na mesma página que o autor (citações)

‘«As civilizações morrem por suicídio, não por assassinato.»’ Arnold Toynbee (citado em epígrafe, p. 11)

‘Foi já há alguns anos. Li uma entrevista ao antigo primeiro-ministro britânico Tony Blair, na qual declarava que havia um tema proibido na alta política que, como um tabu, não se podia mencionar salvo em voz baixa nas cimeiras de chefes de Estado ocidentais. E se se tentava sacá-lo à colação, calavam-no educadamente. O assunto ocultado não era outro senão o do suicídio demográfico ocidental, que tanto alarmava já o político britânico convertido posteriormente ao catolicismo. Aquela confissão e denúncia sua pareceu-me muito significativa e, a partir daí, prestei mais atenção a esse fenómeno singular na História como é o da drástica queda da natalidade no nosso tempo. Esta queda supõe um facto extraordinário, já não só no Ocidente mas no mundo inteiro: cada vez mais gente renuncia, voluntária e premeditadamente, a ter filhos. Não só um ou dois descendentes, mas nenhum.’ (p. 11)

‘Voltando a Espanha, as projeções demográficas estabelecem que 40% dos jovens não terão filhos e meta não serão avós.’ (p. 13)

‘Um filho é a antítese do nada; ao nascerem homens e mulheres novos afasta-se de alguma maneira o não-ser […]’ (p. 17)

[…] o nosso século XX mudou profunda e sigilosamente aquele grande pressuposto compartilhado de que o ser – neste caso, um filho – é preferível e mais estimável do que o nada, a ausência de ser. E é este princípio imemoriável que combate e destrói Nietzsche na segunda metade do século XIX. O seu nihilismo tornar-se-á dono do mundo ocidental na centúria seguinte.’ (p. 18)

‘Na troca de sermos donos do nosso destino, e esta é a grande mutação ocorrida, unicamente nos fica, para além dos deveres e fins, uma ‘vocação para o nada’ que supõe o vazio que aparece quando os alicerces que sustentavam a nossa cultura ocidental se tornam ilusórios. Mas a nadificação do mundo e da vida humana atentam, como estamos a comprovar agora, contra o desejo e dever procriador, que ficam portanto em suspenso.’ (p. 18-19)

‘O que esta ideologia comporta não é só o empobrecimento da vida humana, mas também a ameaça da sua própria extinção.’ (p. 19)

‘Qualquer aproximação intelectual ao tema da extinção dos filhos que pretenda ser honrada não pode iludir o grave tema, o punctum dolens da realidade do aborto na nossa cultura atual.’ Da sua magnitude dão conta as cifras certamente calafriantes da sua prática: no nosso país [Espanha] o número de abortos voluntários não desce dos 90000 por ano. Na França, as cifras atingem mais de 222000; no Reino Unido, 215000. Nos Estados Unidos, com mais de 900000, uma em cada gravidez desemboca num aborto voluntário. Na China, desde que começou a política do filho único em 1979, registaram-se mais de 336 milhões de abortos legais, cifra que supera a população atual dos Estados Unidos. É ocioso dizer que se esses seres humanos tivessem chegado a nascer estaríamos perto da taxa de reposição comentada de 2,1 filhos por mulher e, ao menos no nosso país, os nascimentos estariam equilibrados com as mortes, dado que não se reflete no discurso político atual, como comprovava Blair.’ (p. 25-26)

‘Infelizmente, acostumamo-nos ao aborto. As suas vítimas, reduzidas e tratadas como restos, como Resíduos Sólidos Urbanos (RSU), não se veem, ficam no anonimato, sem nome com que figurar em algum registo.’ (p. 26)

‘Em 2008 uma psicóloga e mãe francesa, Corinne Maier, escreveu um livro emblemático que não tardou a ser traduzido em mais de 15 idiomas: No kid. 40 boas razões para não ter filhos[1]. O dito manifesto de «boas razões» contrárias à natalidade deu lugar à expansão, no Ocidente, do movimento anglo-saxónico voluntary childlessness, «sem filhos voluntariamente», capitaneado por mulheres que tinham decidido não ter filhos. Maier destaca como uma poderosa razão para tal decisão a «pegada contaminante de carbono» que supõe a procriação, pegada que no nosso país (Espanha) supõe de três a quatro toneladas de CO2 por ano por pessoa.’ (p. 39)

‘A origem desta conceção podemos datá-la no aparecimento, em 1968, do livro de grande impacto The Population Bomb, do biólogo e divulgador Paul R. Ehrlich, onde se avançava o apocalipse ambiental e, portanto de toda a nossa civilização, se não se reduzissem drasticamente as taxas de fertilidade. Com o êxito estrondoso do livro, o termo «explosão demográfica», carregado de dramatismo nada inocente, passava ao acervo cultural do Ocidente. Pouco depois, o Club de Roma fez suas as teses de Ehrlich no seu famoso relatório de 1972, tão difundido em todos os meios, com a sua afirmação de que a Terra era finita e a população devia reduzir-se drasticamente. […] Mais recentemente, o bem-sucedido aparecimento em 2007 do livro de Alan Weisman O mundo sem nós torna visível na imaginação do leitor as vantagens ambientais, especialmente no ar, fauna e flora que o fim da humanidade constituiria para o planeta.

Ao abrigo desta nova dialética restritiva da nossa fertilidade, surgiu um novo conceito psíquico que dá nome a um forte sentimento associado: o da ecoansiedade entendida como uma inédita forma de ansiedade ligada à inquietação e angústia que nos produz no nosso mundo emocional o desgaste e risco ambiental. […] daqui surgiu nos nossos dias uma lei demográfica fundamental: quanto mais consciente estiver uma pessoa sobre o impacto ambiental, maior será o seu sentimento de culpa pela situação em que se encontra o planeta e de rejeição da humanidade; de tal maneira que para procurar evitar o peso desta culpa – como se fosse um novo pecado original -, não gerará filhos contaminantes em favor da natureza.’ (pp. 40-41)

‘Há uma clara correlação entre o declínio demográfico e o aumento exponencial da aquisição de animais domésticos, preferencialmente cães e gatos. De facto, no nosso país (Espanha) há 6265153 crianças menores de 14 anos, enquanto o número de animais de estimação registados ascende a 13 milhões no ano em que menos nascimentos temos tido desde há 80 anos.’ (p. 53)

‘O desaparecimento dos filhos parece ter ativado um mecanismo de substituição a favor do animal doméstico, que ocupa não só novos espaços públicos mas também que protagoniza a nossa esfera conversacional na rua e nos pequenos grupos.’ (p. 54)

‘A paternidade e maternidade aparecem diante da autonomia do animal de estimação como um dispêndio de grande quantidade de energia exigida dia e noite durante os primeiros anos da criança. Pelo contrário, o animal de companhia na sua suficiência tranquila sem prantos outorga-nos alívio, afeto e descanso. A quantidade de energia que nos exige é mínima em comparação com a do filho. Digamo-lo deste modo, o animal de estimação dá-me enquanto o filho me pede.’ (p. 56)

‘Um dos [efeitos antropológicos], e não menos, é o aumento exponencial do filho único, que comporta a extinção paulatina da figura do irmão e, portanto, da vivência biográfica do que a ‘irmandade’ supõe. […] Em 1975, o número de filhos por mulher, em Espanha, era de 2,8, o que supunha uma média de três descendentes por família. Hoje, o indicador de fecundidade em Espanha é de 1,19, o que implica famílias de filho único, que atingem já uma percentagem de 27,6%.’ (pp. 65-66)

‘O desaparecimento dos filhos comporta outra diminuição que também não se menciona. Sem eles, extingue-se também a figura dos avós, precisamente num momento histórico em que o papel do avô se pode exercer durante muitos anos, mercê do presente da longevidade que amplia as idades do homem.’ (p. 77)

‘[…] a crise atual da figura do pai, que explica em grande medida o atual desaparecimento dos filhos, é uma crise da própria ideia do Deus cristão, ou, para o dizer de outro modo, sinal da sua perda. Mas também é a crise da figura do filho, que já não consegue reconhecer a pré-existência e bondade do pai, muitas vezes ausente, replicação do esquecimento do Filho de Deus encarnado em Jesus Cristo.’ (p.90)

‘Face a tal declive demográfico que põe em questão o futuro dos modelos das empresas, talvez tenha chegado o momento de ampliar a sustentabilidade organizacional, incluindo nos critérios ESG (principalmente nos sociais) um tipo de «contributo para a sustentabilidade populacional» que ajude a corrigir a atual configuração da pirâmide demográfica, a gravidade da sua crise e que fixe metas e objetivos com vista à distante razão de reposição de 2,1 que assegure a sobrevivência. Recordemos a este propósito que o «S» de social do ESG inclui o impacto que uma determinada empresa tem no seu contexto social, na sua comunidade, e determina com os outros critérios a decisões finais dos investidores que se regem, cada vez mais pelo investimento sustentável e responsável (ISR de acordo com sigla em inglês).’ (p. 100)

‘No nosso passeio, deparamo-nos agora com a Bungelosenstrasse: a rua sem tambores. Conta a tradição que foi o último lugar por onde passou o flautista com as crianças a 26 de junho de 1284. Daí que nela não se possa tocar nenhum instrumento, nem cantar ou rir, em memória das crianças roubadas à cidade, como um luto perpétuo, que nos refere as perdas que supõe a extinção das crianças e as suas tristezas associadas. Hoje o Ocidente é uma imensa Bungelosenstrasse, sem rufar de tambores, silenciosa e inerte, que atravessa obscuramente uma das épocas Kali mortas, que nos ensino Ortega na sua conhecida alusão à mitologia hindu.’ (p. 106)

‘[…] não basta o desalento quando se trata da sobrevivência de uma civilização e talvez de toda a espécie humana, por mais que o desafio seja formidável. É necessário para isso inaugurar novos cursos de ação que reposicionem a natalidade no gonzo do Ocidente, que era até agora o eixo do mundo. Algumas ações que poderíamos iniciar bem poderiam começar por ser tomar consciência plena da gravidade da nossa crise demográfica e do que está em jogo, informar-se sobre a sua profundidade e alcance, e falar pelo menos em privado dela. […] Já apontámos no último capítulo possíveis ações que se podem implantar progressivamente no mundo empresarial. A principal, como já dissemos, seria incorporar a natalidade necessária no conjunto de critérios de sustentabilidade organizacional […].’ (pp. 106-107)

‘O desaparecimento progressivo deste discurso nas próprias esferas religiosas nas últimas décadas, sem dúvida contribuiu com o seu silêncio para a grande encruzilhada em que nos encontramos.’ (p. 107-108)

‘Entretanto, continuamos o passeio imaginário pela cidade alemã com o livro de contos dos irmãos Grimm entre mãos. Sentamo-nos junto ao Weser e relemos as suas páginas sobre o flautista e a sua lenda: elas referem-nos que as crianças de Hamelin desapareceram dentro de uma cova na montanha próxima da cidade, Poppenberg, que ao fundo divisamos para lá das muralhas. E acrescentam os autores irmãos de forma premonitória: «Esta cova ainda existe». Fechamos, pensativos, o livrito dos Grimm junto ao velho rio. Talvez tudo consista nessa precisa tarefa: descer à cova da nossa hipermodernidade e lançar cordas para recuperar as crianças perdidas, e repovoar assim o mundo minguante do Ocidente, enquanto prevenimos as consequências do músico inquietante que está a deixar tão desertos os nossos parques infantis, a cidade e nós mesmos.’ (p. 108)

[1] Editado, em português, pela Guerra e Paz, 2008.


**(Título retirado de Daniel Faria, Dos líquidos, Porto, Edição Fundação Manuel Leão, 2000, p. 137)

*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Ensaios de liberdade', 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'

Foto recolhida do site das Ediciones Cristiandad

sábado, junho 07, 2025

Sabes, leitor... | 18 | Marca de água do livro de Gabriele Kuby, 'A geração abandonada'

 

Rubrica ‘Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página’** | Marca de água de livros que deixam marcas profundas
Parceria: Federação Portuguesa pela Vida e Comissão Diocesana da Cultura

Luís Manuel Pereira da Silva*

O autor e a obra
Gabriele Kuby, A geração abandonada, Cascais, Princípia Editora, 2021.

Gabriele Kuby é o que designo como uma ‘autora-pirilampo’. Caracteriza os ‘autores-pirilampos’ a capacidade de manterem intensa uma luz que lhes é própria mesmo em tempos de densa escuridão. E, como os pirilampos, são escassos e correm o risco da extinção: a poluição dos tempos e lugares colocam em perigo a sua existência.
Distintamente, porém, dos coleópteros a que também se dá o nome de ‘vaga-lume’, estão muito conscientes da fragilidade em que assenta a sua existência.
Gabriele Kuby bem o sabe. Está claramente consciente de que os tempos decadentes (e, por isso, de treva) em que vivemos se inebriam com a sua vacuidade e ufanam-se dela, sendo arrogantes e vigorosos. E, por isso, não teme, mas sabe como rugem as vozes que a querem silenciar.
Kuby bem sabe de que linhas se fazem os tecidos dos teares de hoje, pois também ela, enquanto socióloga, moveu as peças que enredam as lãs do novelo e constroem os hábitos com que, hoje, se veste a humanidade.
Mas em bom tempo dali se afastou e hoje, após uma tardia conversão ao catolicismo, no final da década de noventa, tornou-se uma voz que desperta do torpor coletivo que parece ter tomado conta do mundo, em particular do ocidente.
Os seus livros, de que se destaca o seu ‘a revolução sexual global’, secundando por este ‘a geração abandonada’, poderiam ter a forma de um relógio de mesa-de-cabeceira, pois inquietam e acordam consciências.
Neste tempo, em que as retóricas tornaram comum e vulgar o que é exceção e pretendem excecional o que é comum, a voz de Gabriele Kuby incomoda, porque nos coloca diante da verdade dos factos.
Kuby é corajosa. Sabemos (e ela também o sabe) como ousar questionar as agendas do ‘politicamente correto’, do ‘wokismo’, é colocar-se a jeito de ser cancelado. Mas, como já vamos ouvindo algumas vozes recordar, se lutámos pela liberdade, foi para nos subjugarmos a quem nos quer impor uma ideologia que nega o real e se propõe reconstruí-lo sobre constructos mentais artificiais? Kuby não aceita essa subjugação.
Ousa questionar, voltar à raiz das coisas, aos alicerces da realidade humana.
Desmascara as farsas e arrisca propor caminhos, em nome de uma autêntica liberdade, de uma genuína compaixão, de uma efetiva solidariedade humana.
Como se, perante os taipais com que se pretende disfarçar os efeitos de um tsunami, escolha a autenticidade dos escombros para, diante deles, reconstruir um sólido futuro. Os taipais não passarão, para Kuby, de um verniz que oculta o caos que é preciso olhar de frente para que se possa construir uma realidade robusta.

Marcas de água 

(o que fica depois de se deixar o livro)

Gabriele Kuby mostra, neste livro, grande inteligência. Bem sabemos, porém, que os seus ‘não leitores’ dirão dela, apenas os chavões habituais, assentes nos inúmeros preconceitos de quem não quer ousar parar para refletir. A vertigem de andar para diante, sem que saibam onde fica esse ‘adiante’, é que os move. Kuby propõe-se questionar se temos andado para diante ou se, pelo contrário, em nome do avançar, do progredir, nos temos desumanizado, cindido e dividido cada vez mais.
A resposta a esta questão fundamental encontramo-la no início e no final do livro.
Nas últimas páginas, encontramos a síntese de todo o caminho feito: ‘O mundo em que vivemos – aquele em que as crianças nascem – pulverizou e expôs a arbitrariedade das decisões humanas. O que devia estar unido foi separado: o corpo da alma, o homem da mulher, a sexualidade da fertilidade, a procriação da sexualidade, a crianças dos seus pais biológicos. Não terá chegado a altura de juntarmos novamente o que deve estar junto – corpo e alma, homem e mulher, sexualidade e fertilidade, pais e filhos?’ (p. 266)
Diante desta constatação se define a linha estruturante do livro: denunciar o que tem dividido o ser humano que somos, a realidade humana em que nos fazemos, propondo modos de superar essas cisões. No seu livro, a nossa autora percorre temas como o aborto, a educação sexual no contexto escolar, a equiparação dos múltiplos modelos de agregação de pessoas à estrutura familiar, as barrigas de aluguer, a procriação tecnicamente realizada, o impacto da pornografia no crescimento das novas gerações, as consequências das políticas de facilitação do divórcio, as estratégias de manipulação da opinião pública ao serviço da promoção da teoria de género, etc. O seu prisma é o de uma autora de contexto alemão, mas um leitor português sentirá que, lá como cá, as linhas repetem-se…
Os dados que recolhe (todas as suas afirmações estão blindadas, pois está consciente de quanto os adversários da sua tese farão para as descredibilizar) arrepiam. Demonstram como, em nome do individualismo que nos vem isolando cada vez mais, estamos a tornar esta geração um joguete nas mãos de adultos autocentrados e que perderam o sentido da dedicação e do sacrifício pelos mais novos. Importa a satisfação pessoal, mesmo que ela custe o direito a ter pai e mãe ou a ser criança, ou a ser amado, ou a ser respeitado no direito a saber donde se vem, ou, ou, ou…
As páginas deste livro lacrimejam: vertem as lágrimas não derramadas, de tão secos os sacos lacrimais de todas as vítimas de ideologias que rompem o que é humanamente desejável – o direito a nascer-se num quadro de amor, segurança e estabilidade.
Kuby retoma questões a que é preciso regressar como na primeira hora em que se tomou de assalto a convicção de que eram incontornável seguir a resposta então adotada: como poderá pensar-se o aborto como um direito quando em causa está a vida de um desprotegido humano? Como poderá deixar-se sobrepor o direito dos pais à felicidade no amor sem acautelar o direito dos filhos à felicidade de viverem a segurança de uma família originariamente constituída? Como poderá pretender-se assegurar um putativo direito a ter filhos quando, originariamente, deveria, sim, reconhecer-se um direito dos filhos a encontrarem nos seus pais biológicos o amor e o cuidado? Como poderá pretender-se que se, tecnicamente, é possível gerar um filho assim será de se fazer, sem acautelar as condições ético-morais em que a possibilidade técnica deverá ser concretizada? Poder fazer é sinónimo de ser legítimo?
Kuby ousa olhar para as consequências do que foram sendo decisões vertiginosas, tantas vezes tomadas em contextos de pressão mediática e estrategicamente bem estruturadas para que não se tivesse tempo de pensar.
E olha-as sob o prisma da grande vítima de todas estas decisões ditas ‘progressistas’: as crianças, os filhos! Eles são, com efeito, a geração abandonada de quem se deixou compadecer Kuby e que nos convida a que nos associemos à sua compaixão.
Contra os que nos querem vender a ideia de que os compassivos são os que querem mudar as leis em nome de abstratas inclusões, Gabriele Kuby fala de uma genuína compaixão que sofre as dores reais das crianças reais, filhas e filhos reais de famílias reais. Fala da realidade que leis inumanas, sustentadas no individualismo e num entendimento solipsista da liberdade, fragilizaram e fragmentaram. E, de forma corajosa e grávida de esperança, Gabriele Kuby desafia como que à recuperação da paciência do ourives que trabalha a filigrana: os cacos já se quebraram em pedaços próximos da pulverização, mas, paulatinamente, será possível reunir o que se quebrou. Este livro é um passo importante para que tal se torne possível. Assim seja acompanhada a sua publicação com profusa leitura. Os muitos leitores de Kuby poderão tornar-se, eles mesmos, ‘leitores-pirilampos’. E a escuridão clareará…

Na mesma página que o autor (citações)

‘Na nossa sociedade, as crianças são vistas em grande medida como um fardo. E ter e educar crianças não é, de facto, um conto infantil. É tarefa séria da vida. Vêm no mesmo pacote grandes alegrias e grandes sacrifícios. Durante a grande prosperidade, foi contada uma mentira a toda uma geração: que o divertimento é o sentido da vida, e que esse divertimento vem sem sacrifício ou sofrimento. De um momento para o outro, dar à luz destrói esta mentida. Eis nas nossas mãos um pequenino embrulho de humanidade, completamente indefeso, totalmente dependente de amor e cuidados.’ (p. 18)

‘Numa sociedade que coloca as necessidades dos adultos no centro, as crianças não se saem muito bem.
• As crianças são evitadas.
• As crianças são mortas antes do nascimento se forem indesejadas.
• As crianças são produzidas em laboratório se forem desejadas.
• As crianças são enganadas sobre a sua linhagem.
• As crianças são congelas como embriões e usadas para investigação.
• As crianças crescem em úteros de aluguer.
• As crianças são compradas e educadas por casais do mesmo sexo.
• As crianças são entregues nas mãos de estranhos desde a infância.
• As crianças são sexualizadas logo desde o jardim-de-infância.
• As crianças são confundidas sobre a sua identidade sexual.
• As crianças são doutrinadas sexualmente desde a escola primária.
• As crianças são encorajadas a «mudar» de género.
• As crianças são expostas aos smartphones.
• As crianças são expostas à pornografia.
• Imensas crianças são vítimas de abuso sexual.
• As crianças ficam órfãs pelo divórcio.
• As crianças têm de crescer em famílias destroçadas.
• As crianças ficam tristes.
• As crianças ficam doentes.
• As crianças são «dopadas» com Ritalina.
• As crianças são despojadas da sua infância.
As crianças são o nosso futuro. As crianças são humanas. As crianças têm dignidade – logo desde o início.
Vamos devolver a infância às crianças, e o futuro novamente a todos.’ (pp. 20-21)

‘O ato de procriação dá prazer quer a animais, quer a seres humanos. O homem e a mulher são atraídos um pelo outro com uma força que pode ultrapassar a vontade e a razão, para constituírem uma união biológica. Mas existe uma grande diferença entre animais e pessoas: nos animais, essa força irresistível surge durante um ciclo anual de reprodução. Nas pessoas, a atração sexual é independente de um instinto imperativo de procriação. Isto dá liberdade para o amor esfusiante, a alegria do desejo, os dramas de partir o coração ente amor e desejo, e os abismos da perversão.’ (p. 26)

‘Como pode a humanidade – não, não é a humanidade, são os influenciadores das tendências ideológicas – comprar a ideia de que a maternidade é um mero incidente para as mulheres, algo que se pode esquecer sem mais, e sacrificar no altar da carreira e da liberdade sexual?’ (p. 30)

‘Se as mães forem respeitadas, também os seus filhos serão respeitados. Mas esta alegação é apenas motivo de troça e ridículo entre as feministas sem filhos que lutam pelo direito ao aborto. Na Alemanha, 67% das jornalistas não têm filhos. Não admira que peguem nos megafones feministas. Elas nunca foram desafiadas por filhos para deixarem de estar autocentradas. Isso não se aprende no redemoinho dos escritórios editoriais, mas no processo de afinação do casamento e da responsabilidade parental.’ (p. 31)

‘Vivemos numa época em que a liberdade individual se tornou a virtude mais importante. Queremos reinar sobre a vida e a morte, e consideramos que isso é absolutamente indispensável para a nossa liberdade. Sou eu quem decide se e quando tenho um filho – e quando não tenho. Os meus direitos e necessidades estão primeiro lugar. Não há nenhum ser mais importante do que eu.’ (p. 33)

‘A missão de vida da americana Margaret Sanger (1879-1966) foi controlar a fertilidade feminina. A sua motivação era evitar que as classes baixas – especialmente a negra – se reproduzissem, porque a sua taxa de natalidade era mais alta do que a da classe alta branca.
A isso, à ideia de tomar medidas ao nível biológico para «melhorar» a raça humana, chama-se eugenia. Legalizar a contraceção e o aborto foi a missão de vida de Margaret Sanger. Em 1921, Sanger fundou a American Birth Control League, que em 1942 passou a denominar-se International Planned Parenthood Federation (IPPF).
Hoje em dia, Margaret Sanger seria afastada e legalmente punida pelo seu racismo. Mas os seus métodos e o seu desrespeito pela dignidade humana foram adotados pela IPPF, uma organização internacional que tenta reduzir a população mundial através do aborto de milhões de crianças. ’ (pp. 39-40)

‘O sofrimento da conceção indesejada pode ser devastador. Uma mulher nesse sofrimento precisa de ajuda, e pode encontrá-la.
Numa cultura de um individualismo extremo, em que tudo gira em torno dos direitos e desejos das pessoas, há uma tentação desmesurada para procurar uma saída: «Livra-te simplesmente dele, é só um punhado de células, o seguro de saúde paga as despesas, depois de uns dias tudo terminou e a vida pode continuar normalmente.
A sério?
Eis as estatísticas: todos os anos, em todo o mundo, mais de 50 milhões de mulheres decidem matar uma criança no seu útero. Na Alemanha, segundo Gabinete Federal de Estatística, 101000 mulheres fizeram-no em 2018.’ (p. 50)

‘A 28 de maio de 1993, o Tribunal Constitucional Federal declarou […] que:
«O embrião desenvolve-se enquanto pessoa, não para ser uma pessoa.»’ (p. 53)

‘A sentença que prescreve que o aborto é «ilegal mas isento de consequências» esvazia o Estado de Direito.’ (p. 55)

‘Com racionalizações bonitas mas sofisticadas, os tribunais de todo o mundo justificam o abandono da obrigação absoluta do Estado de proteger as vidas dos seus cidadãos.’ (p. 56)

‘A ferramenta mais importante para a confusão mental e moral é a distorção sistemática da linguagem para manipular a consciencialização das pessoas.
Um exemplo disso é a palavra «igualdade». Entre que pessoas é que o aborto promove a igualdade? Entre a mulher e o homem, que não pode dar à luz? A criança seguramente não obtém a igualdade porque a vida humana lhe foi retirada.
E «aborto» - que palavra tão estranha! Opera como um tranquilizante mental para mascarar a realidade de uma criança ser morta no útero. Algo é «removido», a gravidez é «interrompida» como se pudesse recomeçar, ou é «terminada», rápida, indolor e sem consequências – ou assim se faz acreditar à mulher.
A cessação da gravidez é apenas uma meia-verdade. Ela cessa porque termina violentamente a vida da criança.
O «tecido da gravidez» ou o «punhado de células» é descartado. Para os pais que querem um filho, o «punhado de células» é desde o início um direito ao filho. Eles celebram quando o teste de gravidez é positivo. Radiantes de felicidade, contam à família e aos amigos que vem a caminho uma criança. E observam extasiados as reações dos irmãos mais velhos do bebé, quando recebem a notícia – há dúzias de vídeos no Youtube a dar conta disso. Eles mostram entusiasticamente a primeira imagem da ecografia do seu bebé: E até poderão colocá-la na porta do frigorífico, onde os filhos possam ver todos os dias o novo irmão. Nunca lhes ocorre falar de «tecido da gravidez». E como é intenso o sofrimento de toda a gente quando esse bebé se perde por um aborto espontâneo!
A organização na Alemanha que mata estes bebés no útero a troco de lucro, com apoio governamental, chama-se Pro Familia, apesar de na verdade, destruir as famílias.’ (pp. 58-59)

‘Na psicologia da comunicação, esta técnica denomina-se «reenquadrar». Quando algo é colocado num novo enquadramento, as pessoas avaliam-no de forma diferente. O que é negativo parece subitamente positivo. Por exemplo, um ato que pese na consciência de alguém com culpa é colocado no enquadramento do «direito à autodeterminação» e da «escolha autónoma». Mas isso só dura até o ato ser realizado. O que acontece a seguir é o que foi bem descrito por Goethe no seu livro Os anos de Aprendizagem de Wilhem Meister: «Despeja-se a culpa na desafortunada pessoa e a seguir deixa-se que ela sofra a dor». Isto caracteriza a síndrome pós-aborto (SPA), a grave consequência do aborto.’ (pp. 59-60)

‘Com a descoberta da fertilização in vitro, tornou-se tecnicamente possível e legalmente permitido roubar voluntária e intencionalmente o parentesco a uma pessoa.’ (p. 73)

‘A mulher, ou o casal, que recorra aos métodos de reprodução artificial embarca no que pode ser uma viagem de um ano numa montanha-russa de esperança, ansiedade, humilhação, alegria e medo, que em quatro de cada cinco casos acaba numa desilusão profunda.’ (p. 79)

‘Para crianças TRA [tecnologia reprodutiva artificial], o risco de esquizofrenia e de psicose era 27% mais elevado, de ansiedade e outras perturbações neuróticas como a anorexia, 37% mais elevado, de perturbações comportamentais, como PHDA, 40%, e de perturbações do desenvolvimento mental, como o autismo, 22%, quando comparadas com crianças geradas por meios naturais.’ (p. 84)

‘Uma criança gerada numa barriga de aluguer cresce sozinha e não é amada num útero alugado. Anteriormente, o útero duma mulher era um local idílico e seguro, que imprimia no coração humano um irreprimível anseio por uma unidade perfeita. Para a criança gerada por uma barriga de aluguer, o útero é uma masmorra escura em que não entra um único raio de amor ou de antecipação, porque a mãe sabe que tem de entregar a criança a estranhos imediatamente após o nascimento. Ela tem de se formar a não ter qualquer relacionamento com a criança que freme dentro dela. Tem de refrear a alegre afeição, porque ela se transformaria inevitavelmente numa grande dor depois do nascimento.’ (p. 87)

‘A Índia, que em tempos foi a fábrica de bebés do mundo, com 3000 clínicas de reprodução, baniu a maternidade comercial através de barrigas de aluguer em 2019, e a Tailândia em 2015. Mas o negócio é florescente na Ucrânia e na República Checa.’ (p. 89)

‘Nenhuma pessoa tem direito a um filho; o filho é que tem direito aos seus pais biológicos.’ (p. 94)

‘As mulheres podem agradecer à «libertação das mulheres» o facto de apenas valerem o que o seu emprego lhes paga. Cuidar de crianças não conta como trabalho. A mulher que o faz não recebe nenhum reconhecimento, nenhuma ajuda financeira, e nenhuma pensão de reforma adequada, mesmo estando a fazer o trabalho mais importante de todos. Não só ela dá a vida a crianças que vão financiar as pensões duma população cada vez mais envelhecida, como dela dependem o futuro de toda a sociedade, a sua mera existência, o desenvolvimento das duas capacidades e a sua personalidade.’ (p. 113)

‘Cada resistência à doutrinação sexual das crianças em idade escolar é abafada pelos meios de comunicação social, ou atribuída ao mundo obscuro dos resistentes que perderam o comboio do pós-modernismo.’ (p. 164)

‘A assunção fundamental da nova educação sexual é a ideia de que uma criança é um ser humano que desde o início tem direito à atividade sexual e a experiência de luxúria tal como os adultos têm. Qualquer que seja o documento sobre educação sexual abrangente […] em que se pegue, todos defendem o mesmo: uma nova pessoa sexualizada sem identidade de género ou identidade familiar. Essa pessoa pode mudar de género. Ele/ela/diverso reduz a sexualidade à luxúria física, desconhece limites morais para a atividade sexual, evita a procriação através da contraceção e do aborto, e encara o casamento de um homem com uma mulher como uma relíquia do tempo patriarcal.’ (p. 164)

‘A International Planned Parenthood Federation tem 151 organizações filias e representações em 180 países, e por isso imenso poder para implementar os seus programas em todo o mundo.’ (p. 169)

‘A «liberdade de escolha» de matar um bebé no útero da mãe é apresentada às mulheres e aos jovens com outra expressão codificada: «saúde e serviços reprodutivos». No obscuro jargão da ONU e da EU, o acesso universal aos contracetivos, o aborto e a educação sexual nas escolas são globalmente apresentados como «os níveis mais elevados de cuidados de saúde». Mas as promessas revelam-se novamente ciladas em prol das estratégias dos revolucionários sexuais, que fazem o oposto do prometido.
Sexo seguro é algo que não existe. O sexo promíscuo levou a uma epidemia de doenças sexualmente transmissíveis – um quarto de todas as adolescentes americanas sexualmente ativas já as contraiu. A gravidez também não pode ser evitada a 100% como um efeito secundário, indesejável do sexo, mas produz novos clientes para a indústria abortiva.’ (p. 169-170)

‘Os educadores sexuais normalmente chegam de fora e dão a impressão de serem «especialistas», mais competentes portanto do que os professores ou os pais. Simultaneamente, apresentam-se aos estudantes como amigos, pessoas de confiança e defensoras contra pais severos e as suas ideias morais fora de moda. Eles desviam as crianças e os adolescentes, cujo desejo sexual foi prematuramente estimulado, para os seus objetivos contrarrevolucionários. Eis os seus métodos:
• Descrever a sexualidade permissiva como normal e generalizada: «Toda a gente o faz»;
• Criar pressão no grupo de crianças da mesma idade;
• Destruir o sentido do pudor brincando com pénis de plástico, vaginas de peluche, preservativos, verbalizar processos sexuais em toda a turma, bem como papéis sexualmente orientados e exercícios físicos;
• Descrever pormenorizadamente o comportamento sexual, por palavras, imagens e filmes;
• Descrever as doenças sexualmente transmissíveis juntamente com a gravidez, como efeitos indesejados do sexo;
• Não mencionar o casamento e a família;
• Descrever estruturas familiares degeneradas como iguais;
• Educação paritária: treinar e utilizar adolescentes da mesma idade para a educação sexual.
Que ninguém se deixe enganar pela propaganda que se refere a esta educação sexual como moderna, esclarecida, «científica» e amiga dos jovens, e aos seus oponentes como resistentes fundamentalistas.’ (p. 171)

‘As elites políticas dos países ocidentais estão a promover a dissolução da identidade de género: o Presidente americano Barack Obama disparou o foguete da fase seguinte do LGBTIQ no dia seguinte ao da legalização do «casamento» entre pessoas do mesmo sexo pelo Supremo Tribunal, a 26 de junho de 2015. E deu início à «batalha das casas de banho» ao ordenar às escolas que permitissem aos alunos transsexuais a utilização da casa de banho ou do vestiário que preferissem. Isto significava que um rapaz que alegasse ser uma rapariga podia meter-se no chuveiro com as raparigas, por decreto presidencial.’ (p. 173)

‘Antes e depois da transformação, a taxa de suicídio para as pessoas transgénero é oito vezes mais alta do que para a média da população – 41% versus 5%.’ (p. 175)

‘Como é possível que no período de apenas uns anos a destruição da própria identidade de género duma pessoa – com consequências graves para toda a vida – se tenha tornado uma moda entre os jovens, e seja apoiada pelo Governo e pelos meios de comunicação social? Como é possível que nem os tribunais nem as autoridades médicas tenham intervindo, e evitado os graves prejuízos para as crianças?
Num manual de 65 páginas redigido por uma das maires firmas de advogados do mundo, juntamente com a Fundação Thomson Reuters (comunicação social) e uma organização da juventude LGBTIQ, foram delineadas estratégias e táticas para alterar a consciência das massas, os direitos dos pais à educação dos filhos, e a legislação. O documento intitula-se Only Adults? Good Practises in Legal Gender Recognition of Youth.
Um grande obstáculo ao direito à livre escolha do género pelas crianças e pelos jovens são os direitos dos pais que recusem o seu consentimento. O manual explica táticas experimentadas para os grupos de lobbying evitarem o surgimento de resistência, e a forma de implementar leis antes que a opinião pública saiba sequer que elas existem:
Ajam mais depressa do que o Governo e publiquem propostas legislativas progressistas antes que o Governo o faça;
Escondam a vossa campanha atrás da cortina de fumo doutra campanha que tenha aceitação em geral. Por exemplo: direitos transgéneros para as crianças no âmbito da campanha a favor dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo;
Evitem relatórios na comunicação social; em vez disso, façam lobby junto dos políticos.
Se o debate entre os grupos de interesse em causa for substituído por estratégias de manipulação sofisticadas, e os políticos e os juízes estiverem dispostos a ler pela mesma cartinha, então a democracia será esvaziada de dentro para fora até que, finalmente, deixe de existir direito à diferença de opinião ou de atuação.’ (pp. 177-178)

‘«se não lhe pedem para pagar o produto, você é o produto.»’ (p. 208)

‘O divórcio despedaça as fundações.’ (p. 222)

‘Porque é que a nossa sociedade só considera a «felicidade» dos pais, e não os sofrimentos dos filhos?’ (p. 222)

‘Porque é que a sociedade não vê mal nenhum no facto de os pais esperarem que os seus filhos aguentem tudo isto, e exigirem que eles o aceitem sem se queixar? Viver doravante com apenas um progenitor; trocar de casa de duas em duas semanas; ser o pneu sobressalente numa família patchwork; ter de aceitar o novo parceiro da mãe ou a nova parceira do pais mesmo quando isso lhe rasga o coração…
A resposta é tão simples como dissimulada: para que o problema da culpa nunca seja levantado. Muitos estados norte-americanos eliminaram o princípio do divórcio culposo por volta de 1970. Na Alemanha, basta que um casal viva separado durante um ano; depois disso, um dos parceiros pode obter o divórcio mesmo contra a vontade do outro.’ (p. 223)

‘Se olharmos para o contexto da família nos grupos de risco, a imagem é ainda mais drástica. A grande maioria dessas crianças e desses adolescentes em sofrimento vem de famílias sem pai:
63% de suicídios juvenis;
76% de abandono escolar;
74% de gravidez na adolescência;
90% de fugas de casa e de crianças sem casa;
70% de adolescentes em estabelecimentos estatais;
85% de jovens a partilharem casa;
75% de jovens em centros de reabilitação do consumo de drogas;
88% de crianças e adolescentes com problemas de inserção.’ (p. 238)

‘A família é anterior ao Estado. O Estado depende da família, e não o contrário.’ (p. 248)

‘Qualquer família saudável é luz e sal no mundo. Qualquer jovem saudável é uma pedra viva para o futuro.’ (p. 251)

‘O mundo em que vivemos – aquele em que as crianças nascem – pulverizou e expôs a arbitrariedade das decisões humanas. O que devia estar unido foi separado: o corpo da alma, o homem da mulher, a sexualidade da fertilidade, a procriação da sexualidade, a crianças dos seus pais biológicos. Não terá chegado a altura de juntarmos novamente o que deve estar junto – corpo e alma, homem e mulher, sexualidade e fertilidade, pais e filhos?’ (p. 266)


**(Título retirado de Daniel Faria, Dos líquidos, Porto, Edição Fundação Manuel Leão, 2000, p. 137)

 

E ao pó hás-de voltar… Não às cinzas estéreis e anónimas.

  Há uma sabedoria profunda, verdadeiramente divina, no ato de inumar o ‘corpo’ morto, de o devolver ao regaço adâmico de que proveio. Mas u...