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quarta-feira, maio 07, 2025

Sabes, leitor... | 17 | Marca de água do livro de Maria Margarida Teixeira, 'O que quero dizer ao morrer'

 

Rubrica ‘Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página’** | Marca de água de livros que deixam marcas profundas
Parceria: Federação Portuguesa pela Vida e Comissão Diocesana da Cultura

Luís Manuel Pereira da Silva*

O autor e a obra
Maria Margarida Teixeira, O que quero dizer ao morrer, Braga, Editorial AO, 2024.

 

Há autores que, pela densidade das palavras com que se fazem as suas obras, gostaríamos de ter conhecido antes de os conhecermos como autores da sua obra. De alguém luminoso nos falam as obras que deixam.
Não conheço Maria Margarida Teixeira, mas a autora que conheci, em ‘O que quero dizer ao morrer’, fala-me de uma pessoa brilhante, que irradia luminosidade em seu redor.
Maria Margarida Teixeira é médica oncologista. No seu livro, ficamos a saber que é, também, esposa e mãe. Acima de tudo, percebemos quanto de humanidade há no seu ser médica. A pessoa de quem nos falam as palavras escritas no livro que nos faz coabitar, amigo leitor, contemporaneamente, nestas linhas (eu, enquanto escritor, e, enquanto leitor, o caríssimo amigo ou amiga que aceitou percorrer, comigo, esta breve recensão), é alguém que, pela presença, enche de vida e esperança o entardecer das pessoas com quem se cruzou. O que nos conta é mais do que narrativas em terceira pessoa; é um dizer-se no morrer dos outros. As palavras de John Donne ganham um renovado significado ao conhecer-se o que nos conta Maria Margarida Teixeira: os sinos que dobram pelo partir de alguém são sinais do nosso próprio partir. Sem o drama do desespero: antes, com a serenidade da esperança.

Marcas de água 

(o que fica depois de se deixar o livro)

Há livros que não queríamos acabar, nunca, de ler. Acabar a sua leitura deixa-nos em luto.
Este é um deles. E soma-se ao luto resultante de nos morrer, na última página, o livro que não queríamos deixar, o próprio conteúdo do livro. Fazemos um luto porque o livro termina e fazemos o luto por cada uma das pessoas que Maria Margarida Teixeira nos apresentou e permitiu que acompanhássemos no derradeiro momento.
‘O que quero dizer ao morrer’ é um livro cheio de vida, apesar de nos falar do morrer.
Tem a originalidade que só a vida pode ter. Originalidade que encontramos na própria criatividade do título. ‘O que quero dizer ao morrer’ fala-nos, bem certo, das palavras que queremos que guardem de nós, quando morremos, mas, também, do que significa o nosso próprio morrer e do que, de algum modo, queremos dizer ao personificado momento do morrer. Muito lhe queremos dizer. Mas, principalmente, queremos mostrar-lhe que a sua ‘palavra’ não é a derradeira e definitiva. Por ser um livro de esperança, tudo nele fala da vida, apesar de o cenário ser o da morte e o do morrer.
Curiosamente, apesar de a morte ser ali apresentada como o enquadramento de todas as vidas ali descritas, fala-se, em todo o livro, do ‘morrer’. Nenhum dos ‘protagonistas’ é um ‘entregue’: todos são protagonistas do seu morrer, pela determinação com que acolhem o morrer natural, na ‘hora’.
Não são protagonistas como os que o pretendem ser pela decisão do momento do morrer. Como conta a própria Maria Margarida, em cerca de trinta anos de exercício profissional, só uma pessoa lhe falou de eutanásia, mas ocultando-se, neste seu pedido, o desejo de reencontro com a mãe, com quem se tinha desentendido e cujo amor pensava ter perdido.
Este é, por isso, um livro de humanidade e sobre como pelo modo de vivermos o morrer nos definimos enquanto humanos.
No viver o morrer se define que o morrer é viver. Sem que a autora nunca o refira, pressenti, enquanto um apaixonado pelo pensamento de Viktor Frankl, em cada página deste gigante livro (apesar das suas poucas páginas), a intuição fundamental do criador da logoterapia: aqueles que assentam a sua vida na fé (seja religiosa, explícita ou não) sobrevivem à morte, porque nela fundam a esperança.
Este livro, escrito por uma pessoa cujos pilares assentam na fé cristã, recorda que o humano que somos se distingue pela abertura ao que transcende, ao que está mais além. E daí refulge a luz para iluminar as zonas sombrias do existir.
Leia, meu bom amigo, ‘O que quero dizer ao morrer’. Aqui, vive-se para sempre…

Na mesma página que o autor (citações)

‘Há muita vida no fim de uma vida.’ (p.11)

‘Tudo se manteve inteiro, vivo e inabalável. Por isso, quando a morte por cancro chegou, compreendi por dentro que só o cancro tinha morrido.’ (p. 12)

‘[…] sem estas pessoas, eu seria uma médica muito diferente daquela que sou hoje. Não saberia valorizar como é importante dar tempo à pessoa que está a morrer, nem teria apreendido como pessoas com doença terminal e pessoas moribundas têm ainda, no tempo que lhes resta, momentos para viver, coisas para destinar, palavras para dizer, ideias para ponderar e gestos de afeto a oferecer.’ (p. 12)

‘O meu Tutor lembrava-me apenas isto: - «Nós não temos resposta para todas as interrogações do doente». […] – Deixa, sem pressa, que o doente te mostre o tamanho dos seus problemas, para que tu lhe mostres a grandeza do ato médico, porque quando parece não haver mais nada a fazer é quando tudo há a fazer.’ (p. 17-18)

‘Com o tempo, consegui perceber o que já intuía e aceitar aquilo a que, até àquele momento, eu não tinha conseguido dar voz, nem querido reconhecer. Na vida de uma interna de oncologia há uma diferença entre perguntas sem resposta e perguntas não escutadas!’ (p. 22)

‘Todos aqueles que amam ficam parecidos com Deus e nós sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos (1Jo 3,14).’ (p. 32)

‘Uma mulher com cancro não «tem» só corpo, mas «é» também o seu próprio corpo.’ (p. 35)

‘[…] há tanto para viver no fim de uma vida!’ (pp. 35-36)

‘Deixei que o seu olhar despenteasse o meu coração.’ (p. 42)

‘Durante a espera, lembre-se que a morte é como um espelho, o que nele vemos desenhado é a dignidade da vida humana’. (p. 46)

‘Certo dia, sentadas na biblioteca da Quinta das Lágrimas, a Mila coloca em cima da mesa um embrulho.
- É para si Margarida, abra.
Abri em silêncio, muito comovida. Um galheteiro de cristal. Fiquei sem palavras.
- Sabe o que significa um galheteiro?
Não respondi.
- Margarida, o galheteiro simboliza o equilíbrio. Azeite e vinagre temperam a vida.’ (p. 98)


‘- Margarida, olhe para mim, isto já não é viver… Porque não me dá a injeção letal?
- A Mila sabe que é uma pessoa muito importante para mim…
Silêncio.
- Eu não consigo dar-lhe uma injeção que eu sei que a vai matar.
Silêncio.
- Não consigo despedir-me de si dessa maneira tão brutal.
- Mas porquê, Margarida? Isto já não é viver…
- Mila, porque é que diz que já não é viver?
- Porque estou aqui deitada, sem fazer nada, não sirvo para nada, só penso, mas não chego a conclusão nenhuma…
- Ah! Afinal havia algo – pensei eu.
- Mila, em que é que pensa?
Silêncio.
- Na minha mãe… - confessou. O seu olhar era triste.
- Porque sente tanta tristeza no seu coração? – perguntei.
- A minha mãe já me trouxe a roupa que eu quero que me vistam, quando morrer… está tudo… é escusado a minha mãe voltar aqui… ela está muito cansada… Ontem discutimos… mandei-a embora…
- Mas a Mila quer voltar a ver a sua mãe antes de morrer?
Silêncio.
- Sim, Margarida.
- Muito bem, eu vou ligar à sua mãe.
E a partir desse momento, a conversa sobre eutanásia acabou.’ (pp. 99-100)

‘Alguns poderão pensar qual era o sentido desta agonia e porque não administrar a injeção. A resposta está na vontade da Mila em continuar a alimentar-se para viver. Na verdade, o seu pedido para morrer depressa escondia um medo terrível: o medo de morrer sozinha, longe da sua mãe. Assim, mas valia morrer rapidamente do que sentir essa dor dilacerante de filha abandonada.’ (p. 101)

‘Sou oncologista e a Mila foi o único pedido de eutanásia em quase trinta anos de prática clínica. Resolvi contar este caso clínico para mostrar ao leitor como os pedidos de eutanásia não são frequentes e para esclarecer como o pedido de eutanásia da Mila não era sinónimo de querer a morte. Imagine, caro leitor, que a injeção letal tinha sido administrada. Certamente, eu teria acertado no alvo errado, porque havia outra coisa que era pedida. A Mila não pedia a morte. O que desejava era o amor da sua mãe.’ (p. 102)

‘[…] permitir a chegada da morte natural é totalmente diferente de dar a morte com uma injeção letal.’ (p. 103)

‘No início deste livro, manifestei a minha crença de que o modo como enfrentamos a morte nos define. Os casos relatados mostram que todas estas pessoas não tiveram e morrer um sofrimento atroz, nem excruciante, nem intolerável. Por isso pergunto: porque é que não tiveram um morrer violento? O que terá, realmente, feito a diferença na doença e na morte destas pessoas? Na minha opinião existiram três fatores determinantes: fé, samaritanos e cuidados de saúde.’ (p. 117)

‘A fé de cada uma destas pessoas foi um raio de luz na escuridão. Mudou tudo. E foi graças a estas pessoas que eu creio que todos temos fé. Creio que todos ao longo da vida temos admiráveis coincidências, encontros felizes, acasos de sorte ou o que lhe queiramos chamar. Eu chamo a estes acontecimentos singulares «instantes de fé». Tecem uma série de redes de reconhecimento e ligação nas profundezas de cada ser humano.’ (p. 119)

‘Todos faríamos bem em fazer da história destas pessoas sementes para o caminho.’ (p. 119)

‘Foram eles [os samaritanos], com a sua amável presença, com as suas palavras serenas, com os seus gestos de ternura, que tornaram a morte do outro não apenas uma história, mas sim uma memória com identidade.’ (pp. 119-120)

‘[…] são cada vez mais os meus doentes com doença oncológica a morrer tragicamente sozinhos. Isto radiografa uma desumanidade cortante, em crescendo no nosso país. […] Contudo, recentemente, em Portugal, surgiram as cidades/comunidades compassivas – uma nova esperança para quem precisa e está só.’ (p. 120-121)

‘Sofrimento intolerável só existe quando ninguém cuida. Por isso, escrever este livro foi a forma que encontrei para partilhar um modo de morrer, pois existem diversas formas de morrer. Eu escolhi contar a morte natural acompanhada por acreditar que vale a pena morrer assim. «Valeu a pena» foram as últimas palavras que eu ouvi do meu pai quando se abandonou à transcendência e, serenamente, se deixou ir. Três palavras de esperança, três sementes para o caminho…’ (p. 122)


**(Título retirado de Daniel Faria, Dos líquidos, Porto, Edição Fundação Manuel Leão, 2000, p. 137)

sábado, outubro 19, 2024

Aborto e alargamento de prazos: impressiona tamanha insensibilidade

 

Impressiona!

Impressiona a insensibilidade com que se está a preparar um hipotético alargamento dos prazos do aborto legal. Dois projetos estão na mesa que se propõem alargar para 12 ou para 14 semanas o prazo do aborto.

Digamo-lo com verdade e honestidade. O abortamento voluntário é a morte de um filho e com essa morte, a morte, também, da sua mãe e do seu pai, pois só há mãe e pai porque há um filho.

É disto que estamos a falar.

O filho em desenvolvimento no útero da sua mãe não é uma parte desta, mas antes um alguém (ou mais do que um, se for uma situação em que estamos perante gémeos) que confia e se confia à sua mãe, durante nove meses, para poder desenvolver-se e autonomizar-se, deixando de depender dela, em exclusivo, a partir do seu nascimento. O aborto trai este ‘depósito’ tácito de confiança.

E se já é grave que seja feito, em alguns casos, em circunstâncias de pressão que obnubilam a capacidade de decidir, a sua gravidade aumenta quando a sociedade se vai insensibilizando para o que, de facto, está em causa.

Um filho, cuja dignidade de humano deveria significar que conta com todos para se saber protegido, fica à mercê das decisões conjunturais para ver garantida a sua vida, quando, numa sociedade humanista deveria contar com o ‘abraço’ e conforto de todos para poder vir a nascer.

Mas, sob a ação de campanhas de manipulação da opinião pública, a sociedade prefere fazer de conta que se trata de um assunto individual, em relação ao qual ninguém tem nada a ver, como se um filho fosse propriedade de alguém e não um indivíduo com direitos próprios, uma dignidade humana e merecedor de cuidado e proteção.

Veja-se como se afirma que mais de 1300 abortos não foram realizados por estarem fora de prazo, como se não estivesse em causa a vida de 1300 como nós.

Se pararmos para pensar, quem dá uma notícia destas está a dizer, aos que vão nascer, dentro de meses: ‘vais nascer, mas muito contra a nossa vontade. Por nós, não terias direito a nascer.’

 

Importam-se de repetir?

Mais de 1300 abortos não se terem realizado por estarem fora de prazo é motivo de tristeza? É notícia?

Impressiona-me esta indiferença para com a vida de outrem.

Impressiona-me, também, esta manipulação da opinião pública que posiciona o tema de modo a insensibilizar as ‘hostes’ de modo a que possam acolher a decisão que se avizinha no horizonte: o alargamento do prazo do aborto.

 

Impressiona-me que não incomodem os mais 250 mil abortos realizados, desde 2007, ao abrigo da lei que já existe.

Como é que não incomodam estes números?

E pretende-se o alargamento dos prazos.

O objetivo é vir a chegar a 500 mil abortos? A um milhão?

E, se forem honestos, dado que reivindicam que o aborto é legítimo sob o pretexto de que se trata de uma coisa que é parte do corpo da mulher, então, a reivindicação deve ser a de que se alargue o prazo até final da gravidez…

Não nos impressiona tamanhã insensibilidade?

E quem apoia a mulher que quer ser mãe e tem de ocultar a sua gravidez para não ser pressionada a abortar porque a lei deixou de a proteger?

E quem apoia a mulher que quer ser mãe mas a quem propõem que se desfaça do filho porque não tem condições para o sustentar?

Eu sei quem a apoia. Os que, no seu silêncio mediático, têm estado ao lado das mulheres que não desistem de ser mães porque sabem que não têm direito a tirar a vida aos seus filhos.

Eu sei quem a apoia. Os que alguns insistem em qualificar como conservadores ou já residuais, mas que, porque sabem que quem não conserva deixa estragar, não desistem do que é mais importante e reconhecem que cada vida humana é uma história única que ninguém tem direito a interromper antes de começar a narrar-se.

Há situações dolorosas em que o aborto parece ser a solução quando tudo é negro à volta? Há!

Mas não é boa opção, nessas situações, propor que a solução passe pela eliminação de um filho, quando, afinal, o que é necessário é acompanhar, dar condição para acolher e cuidar. É assim uma sociedade humanamente moderna, humanamente desenvolvida, cientificamente sustentada e validada pela factualidade de que uma gravidez não é um alargamento de um útero, não é o crescimento de uma ‘coisa’ no ventre de uma mulher, mas a história de uma vida em desenvolvimento com a proteção única da sua mãe.

Até quando continuará este processo manipulador e insensibilizador?

Cada filho abortado grita fundo nas consciências da sociedade. Mas há quem saiba muito bem abafar essa voz…

domingo, novembro 14, 2021

O escorredor da loiça e a coragem de reverter leis injustas

 

Num destes dias, entre as tarefas domésticas partilhadas entre nós, membros da família, deparei-me com uma situação que me pareceu metafórica.

Lavava, apressadamente, a loiça do jantar, e fui, descuidadamente, colocando pratos e testos no escorredor da loiça. De forma desajeitada, fui dispondo os pratos sem grande preocupação em acertar com os frisos do escorredor. Ao fim de alguma acumulação caótica, o escorredor em que caberia a loiça de várias refeições ficou preenchido, restando-me poisar sobre os pratos desalinhados o que me ia chegando às mãos, sem grande segurança e com evidente desequilíbrio.

Presumindo o desfecho (de cacos) daquele desalinho, rendi-me ao evidente. Havia que identificar onde tinha começado a colocar os pratos fora do respetivo friso, retirar toda a loiça ali disposta a partir desse ponto e, finalmente, ganhar o espaço ordenado para poder colocar toda a loiça e, como pressuposto, ainda dispor do espaço sobrante que o meu caos, motivado pelo descuido e precipitação, tinha roubado.

A força simbólica deste evento doméstico não escapou à minha atenção.

Portugal vive, desde há algumas décadas, uma crise demográfica de desastrosas consequências já denunciadas por tantos. A machadada definitiva na cultura do respeito pela vida humana na sua fase intrauterina foi dada pela legalização da interrupção voluntária da gravidez até às dez semanas, em 2007, a qual veio somar a liberalização ao que já previa a legislação desde 1984 (que já despenalizara o aborto por violação, malformação e situação de conflito entre vida da mãe e do filho…). A liberalização resultante do referendo de 11 de fevereiro de 2007 veio favorecer a consolidação de uma mentalidade que vê o filho como um bem que se possui e de que se pode prescindir quando a sua existência aparece como obstáculo. O aborto emergiu, de forma definitiva, como um (quão contraditório!) ‘contracetivo pós-conceção’, o que se reflete nos números da sua prática que, desde 2007, já supera os 215 mil. Os números oficiais indicam, até 2018 (não conseguimos encontrar os relatórios oficiais de 2019 e 2020) que se realizaram, entre 2007 e 2018, 217699 abortos, dos quais mais de 96% são a pedido da mulher, até às 10 semanas, sendo os restantes cerca de 4% por motivo de malformação (não será esta uma forma de discriminação por motivo de deficiência?) ou por violação ou conflito entre a vida da mãe e do filho. Cerca de 30% são já abortos repetidos, isto é, abortos realizados por mulheres que já realizaram outros, anteriormente.

Acrescente-se que é sabido que, todos os anos, são inúmeras as complicações para a saúde da mulher resultantes desta prática legalizada, sendo que, em 2010, morreu uma mulher na sequência de complicações graves por motivo de aborto legal.

E tudo isto é estatística… A estatística regista números, mas não permite constatar toda a mudança de mentalidade operada. É fácil apurar como é escasso o fascínio por se ser pai ou mãe entre as gerações mais jovens que olham para esta condição tão decisiva da natureza humana como se se tratasse de um fardo ou de um elemento menor na realização pessoal e como mero fator de realização individualista, sem visão no todo da comunidade a que pertencemos.

Ora, se é notório o efeito tão demolidor na cultura comum de uma decisão (a de liberalizar a prática do aborto até às dez semanas) que nunca se avaliou devidamente, talvez seja hora de olhar para o caos que está sobre o ‘escorredor da loiça’ e descobrir que este se instaurou quando decidimos que um podia ter todos os direitos enquanto ao outro cabia esperar pela generosidade individual daquele, sem ver salvaguardado sequer o direito de existir…

E quer acrescentar-se, agora, um outro fator de caos ao já anteriormente induzido: com a eutanásia, com que se pretende defender um suposto direito, estará a abrir-se nova via de disposição caótica sobre o escorredor coletivo. Com a mesma dinâmica de partir de exceções estará a introduzir-se uma nova mentalidade que olhará para a vida como descartável e ainda mais disponível. E, como é sabido que nada disto será analisado, a mais este fator caótico outros sobrevirão. Até que a loiça se estatele toda no chão, quebrando-se e deixando marcas no próprio lastro em que se abatera.

A metáfora do escorredor de loiça tem, aqui, o seu limite. Sobre o escorredor repousava, apenas, loiça. Cerâmica vulgar, afinal! No ‘escorredor’ coletivo estamos diante de vidas. Talvez tão frágeis como a loiça, mas bem mais dignas e, por isso, suscetíveis de nos suscitar um pouco mais (?) de compaixão… Até quando continuará a suportar o escorredor tamanho caos?

sexta-feira, fevereiro 19, 2021

Dignidade humana é… ser-se um fim em si mesmo, nunca meio!

 

O parlamento português está tomado por uma vertigem. E, como em todas as vertigens, parece adormecido, atónito, sem capacidade para refletir, com racionalidade e presença de espírito. O Parlamento está embevecido pela sedução do poder sem limites que lhe gera a vertigem de que falamos…

As decisões de fratura sucedem-se em catadupa, unindo-as um ponto comum: o ceticismo em relação ao que seja a dignidade humana.

Mas não duvidemos… A dignidade da pessoa humana constitui cada um de nós como um fim em si mesmo, insuscetível de ser reduzido à condição de meio. Tomar alguém como meio para um fim posterior é atentar contra a dignidade inerente a todos nós, dignidade que nos faz participantes de um ‘algo’ anterior, concomitante e posterior a nós mesmos. Ser-se humano faz-nos pertencentes a um ‘sólido’ (de que deriva a ideia de ‘solidariedade’) em que o que fazemos a um afeta todos, na medida em que afeta a natureza humana presente nesse um.

Vem isto a propósito das mais recentes decisões do Parlamento em relação a matérias que concernem ao início da vida: ‘inseminação post mortem’ e ‘maternidade de substituição’ (vulgarmente designada como ‘barrigas de aluguer’).

Ambas as decisões foram alvo de pareceres éticos negativos, mas, ainda assim, o Parlamento, [que é quem detém o poder e, por isso, se considera autorizado para decidir o que entender (!)], decidiu avançar para a sua legalização, invocando tratar-se de um avanço imparável.

Tenho-o dito muitas vezes: nada há de mais progressista do que a ética. É à ética que cabe alertar para os riscos de uma atitude conservadora e simplista que nos faz ‘fazer’ tudo o que podemos fazer. A ética diz-nos que não será sensato não subjugarmos o ‘poder’ ao que ‘é lícito fazer’, ao que ‘devemos’ fazer. Quando o ‘poder’ e o ‘dever’ se pretendem coincidentes, emergem as condições para a arbitrariedade que é má conselheira.

E é disto que se trata, nas duas situações que acima invocávamos.

Em ambos os casos estamos perante um desejo de corresponder a um pedido (em si próprio, lícito e gerador de compaixão: o de possibilitar gerar vida nova, gerar filhos), mas em que a solução se revela atentatória da indisponibilidade da dignidade de cada um. Na verdade, um olhar atento e distanciado rapidamente concluirá que, em ambas as situações, o bom fim (beneficiar da paternidade e maternidade) se faz por um mau meio, um meio que se revela instrumentalizador. O centro está, não no filho, mas no desejo de se ter filhos. O filho não é um alguém que se acolhe, é um bem que se pretende.

Bento XVI alertava, na encíclica ‘Caritas in Veritate’ (CV 3), para os perigos do amor compassivo que não respeita a verdade da natureza humana. Assim acontece, neste caso.

O filho gerado por inseminação post mortem é um filho gerado na orfandade. É um órfão no próprio momento em que é concebido. E, se a orfandade nos compadece, porque haveremos de legitimar gerar filhos já órfãos no próprio momento da sua conceção? Há algo de contraditório nisto. Uma contradição que nasce de não se respeitar que o filho não é um direito. Um filho é anterior aos nossos próprios direitos: é alguém. É uma pessoa que nos cabe acolher, amar pelo que é e não por corresponder ao desejo.

Do mesmo modo, no caso da maternidade de substituição, o filho é gerado num contexto que artificializa a relação entre mãe e filho. Sabendo-se quão relevante é o tempo de gestação na criação de vínculos, privar alguém, à partida, desses vínculos, por um motivo que se prende com o desejo dos adultos a terem um filho, desvirtua a natureza das coisas e é uma violência a que não podemos fechar os olhos. O nosso silêncio seria o de uma cumplicidade indigna por abafar o motivo de indignação. Já evidenciava Aristóteles que a virtude se opõe ao vício. O que não é virtuoso é vicioso. Se esta é uma decisão que desvirtua a natureza das coisas, não poderá pretender reconhecimento de virtude… E disso deu conta, precisamente, o Tribunal Constitucional que já se pronunciou sobre esta matéria, considerando-a inconstitucional.

Mas o Parlamento não quer saber dos que se lhe opõem. É ele que tem o poder. E quanto pode contra isso a dignidade humana?

sexta-feira, fevereiro 17, 2017

Discurso proferido na «tertúlia à quarta»

Tertúlia com o Professor Doutor Walter Osswald
CUFC, 15 de fevereiro de 2017


Apresentação do professor Walter Osswald
Professor Walter, estive muito indeciso sobre como deveria apresentá-lo. Descrever o seu extenso currículo seria insensato, por estarmos a dizer o que de todos é conhecido. Seria, ainda, indelicado! Não apresentamos quem bem conhecemos e que sentimos como um de nós, com afeto, orgulho e singular consideração!
Optei, por isso, por apresentar-lhe a si mesmo quem é para nós.
O professor Walter é, antes de mais, um sábio. Um dos gigantes da bioética, em Portugal, com um reconhecimento que excede os limites da nação. Atestam-no o reconhecimento com a Grã-Cruz da Ordem de Sant’Iago da Espada (4 de novembro 2008) atribuída pelo sr. Presidente da República, Prof. Aníbal Cavado Silva, na gloriosa companhia de outros gigantes: Prof. Daniel Serrão, Dr. Jorge Biscaia e Prof. Luís Archer; com a Comenda da Ordem de São Gregório Magno, atribuída pela Santa Sé, com doutoramento Honoris Causa, pela Universidade de Coimbra, ou, mais recentemente, com o Prémio Árvore da Vida-Padre Manuel Antunes, pelo Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, em 2016.
Devemos-lhe a criação do Instituto de Bioética da Universidade Católica (de que sou um muito grato beneficiário de um Mestrado de singular qualidade, concluído em 2007) correspondendo à vanguardista iniciativa de criação de Institutos de Bioética de matriz personalista, o registo e paradigma em que se situa e cuja salvaguarda muito lhe devemos nestes tempos tão marcados por uma diluição da consciência da específica dignidade humana.
Reconhecemos-lhe, também, o mérito de ser um erudito cultor da língua portuguesa e dotado de um inteligente humor fino. Confesso-lhe que tenho, no final de alguns dos seus livros, destaques onde registo aquilo a que chamo «Humor de Osswald» (como aquela passagem em que recorda que, segundo a sua avó, o senso comum tem uma designação errada, por ser, afinal, incomum». Subtilezas de um germânico com influências latinas!) Perdoar-me-á esta familiaridade.
Vemos em si, ainda, a autoridade. A verdadeira autoridade, aquela que deriva de «augere», «fazer crescer», «aumentar». Crescemos quando o ouvimos, quando o lemos, quando beneficiamos das suas decisões… A sua autoridade é a que vem da força do argumento e nunca do argumento da força. Aliás, a sua foi sempre uma palavra de cuidado para com a fragilidade e a vulnerabilidade.
E é por isto tudo que esta noite é singular. Tê-lo connosco é estar a realizar história, é ser privilegiado.
Como costumo recordar a propósito do meu encontro, em 2002, com o Papa João Paulo II, quando me perguntam «Viste o Papa?».
Costumo dizer «Isso não é novidade. Vemo-lo muitas vezes. Novidade é que o Papa me tenha visto a mim e eu possa ter passado pela sua vida uns demorados segundos!»
Novidade é que, por estarmos aqui, diante de si (parafraseando o título de um dos últimos livros do Professor Daniel Serrão, que também assim homenageamos), possamos ser brindados com a honra de, por breves momentos, nos cruzarmos com a sua história. Depois desta noite, saberemos que estivemos diante de um gigante que nos levou aos ombros.
E bem precisamos de quem nos alargue os horizontes, pois, ao longo dos últimos 10 anos, os horizontes andaram estreitos e rasos.

A problemática da tertúlia
No passado dia 11 de fevereiro, cumpriram-se 10 anos sobre o segundo referendo ao abortamento voluntário (vulgarmente designado como «aborto» e eufemisticamente referido como «interrupção voluntária da gravidez»). O anterior referendo tinha ocorrido em 28 de junho de 1998. Em ambos os casos, a elevada abstenção redundou na verificação do caráter não vinculativo das consultas.
O legislador decidiu, porém, vincular-se ao resultado minoritário do segundo referendo. Aliás, tudo fazia crer que, se, mais uma vez, não se deliberasse no sentido do que pretendiam os defensores do sim, haveria de se insistir até que o cansaço das populações as levasse a baixar os braços.
Decorridos dez anos sobre esses tempos de combate, já poucos se recordarão dos argumentos que então se invocaram para a legalização da prática que passou a ser sem quaisquer condições, até às dez semanas, já que, desde 1984 se praticava, a coberto da lei, o abortamento em circunstâncias e prazos definidos como a malformação, o perigo de vida para a mãe e o atentado contra a autodeterminação individual. Recordar esses argumentos seria interessante, até para se constatar como já não se está no ponto inicial.
Não será a enunciação desse argumentário que nos traz aqui, mas sim confrontarmo-nos com uma interrogação de fundo: 145 mil abortos praticados a coberto da mudança de 2007 não deveriam inquietar-nos? Não estaremos perante um real problema de saúde pública ou, no limite, de crise de sensibilidade ética, nesta sociedade líquida, marcada por uma espécie de cegueira moral, para invocar os alertas deixados pelo pensador polaco Zigmunt Bauman?
Antes de passar a palavra ao Professor Walter, não poderei deixar de recordar uma mudança do âmbito da jurisprudência europeia que veio dar outra força e legitimidade aos que sempre defenderam que o aborto é um atentado contra a vida humana.
Recordo-me bem de, em numerosos debates em que participei, quer em 1998, quer em 2007, ter ouvido defender que a legitimidade da legalização do aborto decorria de um hipotético direito da mulher a abortar, que parecia suportar-se na declaração universal dos direitos humanos. Ora, o que é certo é que, após ter-se combatido, durante cerca de uma década (entre 1998 e 2007), a dura luta da defesa da vida humana no ventre materno, o Tribunal Europeu dos Direitos humanos deliberou, sem possibilidade de recurso, em 16 de dezembro de 2010, com 11 votos a favor e 6 contra, que o aborto não é um direito humano e, por isso, é legítimo que os Estados o penalizem.
É aqui que estamos:
-169 mil abortos depois,
- perante um aparente silêncio comprometido ou já inconsciente da imprensa e da comunidade em geral,
- perante as 29% de interrupções repetidas realizadas em 2015 ( de um total de cerca de 16 mil – 15873),
- face a um Tribunal Europeu dos Direitos Humanos que vem reconhecer que o aborto não é um direito e
- perante o efeito de plano inclinado que começa na suposta compaixão e acaba na insensibilidade ou até na perseguição de quem ainda protege a vida (vejam-se os dois casos recentes ocorridos em França – em que se impediu a divulgação de um filme que fazia o elogio da vida marcada pela deficiência ou a tentativa do Parlamento francês de penalizar as instituições de defesa da vida),
Como não reconhecer que estamos perante um problema grave de saúde pública?

Professor Walter, é aos ombros de gigantes que os anões se tornam grandes. Estamos a precisar dos seus ombros…

'Os Sete Dias da Criação' |11| Luís M. P. Silva - 11 – O segundo dia… a preparar o terceiro!

  (‘Os Sete Dias da Criação’ | Rubrica dedicada ao diálogo entre ciência e religião) Artigo originalmente publicado na revista 'Mundo Ru...