quarta-feira, maio 20, 2026

'Os Sete Dias da Criação' |9| Luís M. P. Silva - Continuamos no primeiro dia: ‘Deus disse: «Faça-se a luz.» E a luz foi feita.’ A luz é criada; as trevas são separadas…

 

(‘Os Sete Dias da Criação’ | Rubrica dedicada ao diálogo entre ciência e religião)
Artigo originalmente publicado na revista 'Mundo Rural'

Luís Manuel Pereira da Silva*

 

Continuamos a refletir sobre as relações entre a ciência e a religião, seguindo os ‘sete dias da criação’.

Mantemo-nos no primeiro dia. A densidade do texto a isso nos obriga.

Na tradução da difusora bíblica (de acordo com a publicação disponibilizada em https://www.paroquias.org/biblia/), assim foi o primeiro dia: ‘Deus disse: «Faça-se a luz.» E a luz foi feita. Deus viu que a luz era boa e separou a luz das trevas. Deus chamou dia à luz, e às trevas, noite. Assim, surgiu a tarde e, em seguida, a manhã: foi o primeiro dia.’

Às inúmeras e significativas constatações que já nos foi possível fazer, a partir destes três versículos, podem acrescentar-se as que, seguidamente, enunciaremos.

Não sem antes recordar, com Gerhard von Rad, que ‘além dos dois enunciados sobre a criação aduzidos até agora (diferença de essência em relação a Deus, e dependência d’Ele), aparece mais outro que é digno de apreço: a criatura que entrou na existência é tob (boa), termo no qual mais do que um juízo estético há uma indicação de que a criatura é conforme ao seu fim, ajusta-se a ele […]’[1].

Já o tínhamos anotado, anteriormente (tínhamos sublinhado o alcance do significado da ideia de ‘criação’ e evidenciado que, na perspetiva bíblica, esta é ‘boa’, contrariamente às visões pessimistas que circundavam o povo bíblico), mas pretendemos, agora, evidenciar um aspeto de que nos dá conta Santo Agostinho, com enorme impacto e significado que só muito sumariamente aqui destacaremos.

Diz Santo Agostinho, no seu ‘Da interpretação do Génesis: dois livros contra os maniqueus’: ‘E Deus separou a luz das trevas e chamou Deus à luz dia e às trevas chamou noite. Não se diz neste passo «Deus fez as trevas» pois estas […] mais não são que a ausência de luz e, portanto, simplesmente se procedeu à separação entre ambas. De igual modo nós, gritando, produzimos a voz; e, estando calados, produzimos o silêncio, porque a cessação da voz é o próprio silêncio; e, todavia, num certo sentido, distinguimos a voz do silêncio e a uma coisa chamamos voz e a outra chamamos silêncio. Do mesmo modo que com razão dizemos «fazer silêncio», também em múltiplos passos das Divinas Escrituras com razão se diz que Deus fez as trevas porque ou não dá ou subtrai a luz àqueles momentos e lugares que pretende.[2]

Estamos perante os alicerces da visão de Santo Agostinho sobre o problema do mal. Recorde-se que esta matéria é uma daquelas em que mais notoriamente se evidencia o que o cristianismo trouxe a este genial santo. Na verdade, ele fora, durante longo período da sua vida, um maniqueu. Defendera, por isso, a ‘substancialidade’ do mal. O mal tinha, na perspetiva maniqueia, consistência ontológica, pelo que se exigia, tal como para o bem, uma origem absoluta. Para os maniqueus, o mal e o bem tinham respetivos criadores, sendo o mundo o palco desse «eterno» combate entre os dois princípios.

A leitura judaico-cristã da criação trouxe nova luz sobre esta matéria que, nesta passagem de Santo Agostinho, se torna particularmente evidente: só o bem tem consistência ontológica, porque define a natureza daquilo que é, do ser que, por existir e corresponder ao que é, é bem. O mal, a esta luz, é a insuficiência do bem, a não realização do bem, o não-ser, o nada-ser. Não carece, por isso, de uma origem absoluta que, efetivamente, não tem.

O bispo de Hipona explicita, deste modo, uma nova ponerologia (em grego, ‘ponêrós’ significa ‘mau, em mau estado, defeituoso, etc.[3]’), uma reflexão sobre o mal, compreendendo-o como a ‘insuficiência’, a ‘ausência’ do bem, o que não implica que ‘ser insuficiente’, ‘ficar-se aquém do bem que se pode realizar’ não seja sedutor e destrutivo. Mas tal deverá compreender-se como ‘não realização’ e não como uma outra criatura, originada por um criador negativo.

Tendo em conta tal abordagem, é possível concluir-se, como faz Andrés Torres Queiruga[4], que Deus é o ‘anti-mal’, intrinsecamente pensável como origem do bem e o fim último da máxima realização e não como o criador do mal, de que Ele mesmo é, afinal, o redentor, ao orientar tudo para o bem e ao compadecer-se da irrealização da Sua criatura.

As implicações para as dimensões existenciais da humanidade são inúmeras, em particular a que Von Rad deixava implícita: a realização das criaturas (entre eles, sobremaneira, o ser humano) ocorre se elas corresponderem ao fim para que foram criadas. Realizar o fim para que se foi criado é o bem. Dele desviar-se é o mal.

E assim se separa o bem (criado e pretendido por Deus) do mal, insuficiência e ausência do bem, por divergência de realização.

Concluamos esta nossa etapa da reflexão com mais uma interessante constatação, recolhida, também, de Santo Agostinho. Num seu outro livro dedicado a Génesis, o santo de Tagaste (lugar do seu nascimento) evidencia que a luz, primeira criatura de Deus[5], ‘seja corpórea ou incorpórea, é mutável’[6]. É uma intuição que antecipa, em muitos séculos, a de Einstein de que a luz é finita.

A riqueza que pode recolher-se de Génesis, se a abordagem que dele fizermos não confundir os planos e não errar nas interrogações a fazer-lhe. Pretender de Génesis que nos responda às perguntas que cabem à ciência, baralha os planos e gera conflitos que a história já nos ensinou a evitar. Perguntar-lhe sobre o sentido do mundo e da existência é encaminhar-se no sentido adequado.

Disso precisaremos, ao avançar para os dias subsequentes. Assim, por exemplo, perante o sentido literal dos versículos que se referem ao segundo dia, em que, implicitamente, se supõe uma cosmologia (leitura da ordem que o universo tem) que não é, já a nossa. Fazer uma abordagem acomodatícia, como a já descrita, em passos anteriores da nossa reflexão, pode dar-nos condições para o início de uma compreensão equilibrada, mas não é, ainda, a forma final que deveremos adotar, pois ainda supõe a análise literalista do texto bíblico. Esse será o nosso desafio, nas reflexões futuras: encontrar modos de recolher do texto bíblico toda a densidade do que tem a transmitir-nos, como sagrada escritura; no justo equilíbrio entre a redução à ciência ou a redução à Bíblia. Como bem recordava, a pretexto da condição humana, Viktor Frankl, o erro de todo o reducionismo é o de pretender que uma determinada realidade ‘nada mais é do que’… O saber, o conhecimento humano é muito mais do que só este ou aquele discurso. Muito ganhará de recolher sabedoria dos diversos discursos. Com essa meta nos propomos avançar… Outros dias virão.


Sugestões bibliográficas

Andrés Torres Queiruga, Repensar el mal: de la ponerología a la teodicea, Madrid, Editorial Trotta, 2011

  1. António Couto, O livro do Génesis, Leça da Palmeira, Letras e Coiras-livros, 2013.

Santo Agostinho, Da interpretação do Génesis: dois livros contra os maniqueus, Prior Velho, Paulinas, 2021.

Gerhard von Rad, El libro del genesis, Salamanca, Ediciones Sígueme, 19887.


[1] Gerhard von Rad, El libro del genesis, Salamanca, Ediciones Sígueme, 19887, p. 62.

[2] Santo Agostinho, Da interpretação do Génesis: dois livros contra os maniqueus, Prior Velho, Paulinas, 2021, número 15, pp. 67-68.

[3] Isidro Pereira, Dicionário grego-português e português-grego, Braga, Livraria A.I., 19908, P. 474.

[4] Cfr. Andrés Torres Queiruga, Repensar el mal: de la ponerología a la teodicea, Madrid, Editorial Trotta, 2011, pp. 263ss.

[5] Cfr. D. António Couto, O livro do Génesis, Leça da Palmeira, Letras e Coisas-livros, 2013, p. 30.

[6] Santo Agostinho, Da interpretação literal do Génesis: uma obra inacabada, Prior Velho, Paulinas, 2021, p. 158


*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano', 'Ensaios de liberdade' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'


quinta-feira, maio 07, 2026

Sabes, leitor... | 29 | Marca de água do livro de Frei Fernando Ventura e Joaquim Franco, 'Todos nós somos sendo: o primado da liberdade e a cautela da consciência'

 


Rubrica ‘Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página’** | Marca de água de livros que deixam marcas profundas
Parceria: Federação Portuguesa pela Vida e Comissão Diocesana da Cultura

Luís Manuel Pereira da Silva*

O(s) autor(es) e a obra
Frei Fernando Ventura e Joaquim Franco, Todos nós somos sendo: o primado da liberdade e a cautela da consciência, Lisboa, Contraponto, 2022.

As conversas de Frei Fernando Ventura com o jornalista Joaquim Franco deram bons livros. Excelentes livros, aliás! O esperado, afinal, quando se juntam, à mesma mesa, um notável biblista em cuja vida se juntam muitas vidas e um fino jornalista.
De ‘Do eu solitário ao nós solidário’, em 2011, a ‘Somos pobres mas somos muitos’, em 2013, ambos editados pela Verso de Kapa, até, por último, este ‘Todos nós somos sendo’, publicado em 2022, pela Contraponto, Frei Fernando Ventura e Joaquim Franco passam, a pente fino, toda a estrutura capilar a sociedade… Sem deixar escapar qualquer ‘piolho’, para explorar a metáfora implícita na expressão a que deitei mão: ‘passar a pente fino’. Assim é a escrita e a coloquialidade de Frei Fernando Ventura, na qual se percebe, a cada passo, a linguagem de um biblista de reconhecida autoridade e que repercute, no seu dizer, o modo próprio de Deus se dizer na Bíblia: narrando, contando histórias, dizendo o mundo através de imagens que são palavra a acontecer.
Na vida de Frei Fernando Ventura, há muitas vidas. Seja porque a sua é uma vida dedicada a outros (e o que se é nasce do ser-se com os outros…), seja porque a sua tem sido uma vida de muitos ‘viveres’ transformadores: desde a profundidade do homem que reflete e escreve, com uma facilidade singular (é, também, o diretor da revista mensal ‘Bíblica’), que ensina (foi docente do ISCRA, em Aveiro, onde nos conhecemos), mas também que arregaça mangas e se envolve na transformação profética do mundo.
E de Joaquim Franco pode esperar-se a pertinência das interrogações e a atenção às entrelinhas a que vai buscar novas sendas pelas quais se envereda a conversa, atenta à realidade, mas também à diversidade semântica das alusões. Pois que Frei Fernando Ventura enriquece os diálogos de conteúdos que, pela sua densidade, permitem olhares penetrantes sobre o real, tantas vezes opaco ou diluído.

 

Marcas de água 

(o que fica depois de se deixar o livro)

O título de ‘Todos nós somos sendo’ anuncia ao que se vai. Cada um dos títulos é, aliás, um programa. E, neste, na densidade teológica implícita (o título repercute a tradução que propõe Frei Fernando Ventura para o mais célebre tetragrama de sempre – YHWH: ‘Eu Sou Aquele que É, sendo!), como que dizendo, implicitamente, que, do que de Deus se pode dizer terá de se pensar da humanidade como aquela que é criada à Sua imagem e semelhança. E se de Deus o que se sabe (porque no-lo revelou) é que é um Deus-Relação, não poderá pensar-se diferente em relação à humanidade.
A este subentendido bíblico-teológico, o título também soma a surpresa do primeiro confronto com o desconcerto da formulação. Não nos pensamos, espontaneamente, como aqueles que são, sendo. Pensamo-nos como aqueles que são porque são, indivíduos isolados e autossuficientes. Esperar-se-ia um ‘todos nós somos o que somos’, repercutindo a fatalista compreensão que supõe o concomitante encolher de ombros de quem se rende à condição recebida e acabada.
Mas essa não é a linha de Frei Fernando Ventura.
‘Somos, sendo’ implica a contingência, a indigência de se saber inacabado e dependente, porque essa é, afinal, a nossa genuína condição. Dela fala, praticamente do primeiro ao último diálogo, este livro. Visão que contraria as leituras ‘de paraíso perdido’ que nos convencem da não necessidade de ninguém nem Ninguém…
É um livro feito de uma plasticidade de imagens que, para quem já ouviu Frei Fernando Ventura em intervenções públicas, confere uma naturalidade a cada página que quase nos permite reinvocar cada palavra ouvida ao vivo.
O dizer aqui escrito fala do dizer dito e do ‘dizer vivido’ de frei Fernando Ventura que joga com a surpresa e com a polissemia dos termos e das metáforas. A que soma um conhecimento detalhado das línguas bíblicas (do hebraico ao grego e, mesmo, ao aramaico), que permite levar o leitor a realizar descobertas bíblicas, no meio das problematizações sobre o viver atual.
É, ainda, um livro de coragem e liberdade, subentendidas no subtítulo – ‘o primado da liberdade e a cautela da consciência’. Com a distância própria dos profetas, os que falam a partir da experiência de Deus, que os faz ler em profundidade a realidade (do passado ao futuro, sem, porém, o ser com a atitude do adivinho, mas do homem de pés no chão e olhar no horizonte maior), Frei Fernando analisa, criticamente, as opções contemporâneas, das económicas que ‘matam’ (repercutindo o pensamento de Francisco e de S. Francisco – não fosse Frei Fernando ele próprio um franciscano!) às que se propõem, em tempos de morte pandémica, legalizar a morte suavemente designada como ‘eutanásia’ (boa morte!).
A este propósito, merecem destaque as suas palavras:
‘[…] aqueles que passaram, como eu, pela experiência de perder alguém próximo como eu perdi o meu pai, sem COVID-19, mas isolado meses a fio numa instituição de acolhimento, sabem que nada disto é normal e nada disto pode ser normalizável.
Também neste contexto se pode medir o grau de incompreensível derrapagem no «gesto» do parlamento do nosso país, que aprova a eufemisticamente chamada lei da eutanásia (boa morte), que discute condições de morte, precisamente num tempo em que saltava à evidência de todos que o que não temos são condições de vida. Ver os «senhores» deputados em pé a aprovar legislação de morte, quando tantos estavam deitados em ambulâncias à porta dos hospitais à espera da sua vez de (não) morrer, sinceramente… senti nojo!
Senti isso e, contemporaneamente, o risco de nos esquecermos de todos os outros que não foram e continuam a não ser objeto de estudo numérico, mas que engrossarão os números dos «adiados» que morrerão mais tarde, porque esquecidos, porque objetivamente, o mundo, o nosso mundo, parecia ter deixado de ter condições de vida.’ (pp. 32-33)
Em toda a realidade incide, acutilantemente, o olhar de Frei Fernando para nela descortinar os sinais de autocentramento e abandono dos que ‘nada-tendo’ são transformados em ‘nada-sendo’.
Não o faz para que a denúncia seja o fim do discurso, mas, antes, o início do percurso de transformação, pois, como diz Luís Osório, no prefácio, este é um livro ‘carregado de esperança’. Não a que nasce de um vago e alienado desejo de que seja diferente (que rapidamente poderia redundar, por ser ilusão, na maior das desilusões), mas que tem origem na consciência de que, na raiz da mais genuína esperança, está uma Aliança, que nos diz provirmos de um Deus que não é ‘sido’, mas ‘sendo’. Um tal entendimento contraria os pressupostos individualistas que fecham na convicção de se bastar a si mesmo, como se, as nossas liberdades se estorvassem umas às outras. Não!
Frei Fernando recorda uma ideia que também nós temos sublinhado, repetidamente: as nossas liberdades não se limitam umas às outras. Antes, potenciam-se umas às outras e são condição de possibilidade umas das outras. Sem os outros, poderíamos dizer, nada somos. Somos, sendo com os outros.
É por isso que podemos, também, concluir com Frei Fernando Ventura que ‘a defesa dos mais frágeis é a fasquia definidora do humanismo, é a bitola por excelência capaz de revelar a medida exata do processo de humanização e de hominização de uma sociedade e de um tempo.’ (p. 93)
Numa sociedade humanizada, verdadeiramente humanista, não uma sociedade (mundo) […] «solteira de afetos, viúva de emoções e divorciada de compromissos», mas feita de e para as pessoas, ‘só temos o direito de olhar alguém e cima para baixo quando for para o ajudar a levantar-se.’ (p. 144), ideia que o Papa Francisco veio a repetir, no ano seguinte ao da publicação deste livro, na Jornada Mundial da Juventude, em Lisboa.
É desse sonho de olhos abertos que fala este livro. O sonho de que ‘o palácio não viva no luxo e do luxo enquanto a barraca tem de viver no lixo e do lixo.’ (p. 173)
Um sonho acordado e de acordados que se reconhecem como irmãos: ‘Essa utopia resume-se a três princípios à espera desse espaço: hospitalidade, solidariedade e fraternidade; tal como toda a reflexão ética se pode resumir à gestão, em cada segundo da existência, a três palavras: quero, posso, devo. É da resposta a cada uma destas três palavras em cada segundo de existir que existo ou não existo como pessoa, como ser de relação, comigo, com os outros, com o universo e com Deus.’ (p. 38)
À maneira franciscana (do Francisco de há oitocentos anos…), falamos de um sonho em que tudo e todos são irmãos: do mundo aos Mundos. Para que, no imundo mundo se realize uma autêntica fraternidade. Pois que outra coisa é senão o reconhecimento de todos sermos irmãos?! Reconhecidos como provindo d’Aquele que nos possibilita sermo-lo. Irmãos porque provindos do Mesmo Pai, Deus-connosco, Aquele que, ‘Sendo-Connosco’, nos faz ‘Sendo-Com-Todos’.

Na mesma página que o autor (citações)

‘[…] como frei Fernando nos diz – e o papa Francisco por outras palavras – a nossa sociedade (mundo) é «solteira de afetos, viúva de emoções e divorciada de compromissos». Do prefácio, p. 11

‘É […] um livro carregado de esperança. Apesar de todos os apesares Todos Nós Somos Sendo convoca-nos para não faltarmos ao jogo decisivo de que somos todos protagonistas. Um bilhete para que possamos está à hora certa na estação onde um dia teremos a oportunidade de nos revelar por dentro. Nesse momento decisivo, a superfície não nos valerá de nada.’ Do prefácio, p. 12.

‘[…] cada ponto de chegada é, ao mesmo tempo, tem de ser, um ponto de partida. E este que vivemos é o tempo por excelência da metanoia, de ir para além de nós, para além da ponta do nosso nariz existencial, em direção ao desconfinado mundo das ideias e das relações, para encontrar sempre novas fronteiras, sempre novas metas de compreensão que há que entender e ultrapassar para ser possível, vencer o medo e os medos, o medo e os medos que matam, o medo e os medos com que nos querem «matar», porque a forma mais eficaz para controlar alguém é controlar-lhe os medos. Controlar qualquer sociedade é ter o poder de controlar e gerir os medos que tolhem e que nos fazem saltar para o primeiro colo que se apresente a oferecer acolhimento capaz de «tirar o medo». Foi sempre assim que nasceram os ditadores, foi sempre assim que se instalaram as ditaduras… este é um dos meus medos… não confio em nenhum colo dos que estão disponíveis por aí…’ (p. 28)

‘[…] aqueles que passaram, como eu, pela experiência de perder alguém próximo como eu perdi o meu pai, sem COVID-19, mas isolado meses a fio numa instituição de acolhimento, sabem que nada disto é normal e nada disto pode ser normalizável.
Também neste contexto se pode medir o grau de incompreensível derrapagem no «gesto» do parlamento do nosso país, que aprova a eufemisticamente chamada lei da eutanásia (boa morte), que discute condições de morte, precisamente num tempo em que saltava à evidência de todos que o que não temos são condições de vida. Ver os «senhores» deputados em pé a aprovar legislação de morte, quando tantos estavam deitados em ambulâncias à porta dos hospitais à espera da sua vez de (não) morrer, sinceramente… senti nojo!
Senti isso e, contemporaneamente, o risco de nos esquecermos de todos os outros que não foram e continuam a não ser objeto de estudo numérico, mas que engrossarão os números dos «adiados» que morrerão mais tarde, porque esquecidos, porque objetivamente, o mundo, o nosso mundo, parecia ter deixado de ter condições de vida.’ (pp. 32-33)

‘JF: [as] palavras de Francisco abrem-nos à utopia. Falta ver a humanidade abraçar todas as contrariedades e dar espaço à criatividade?
FV: Essa utopia resume-se a três princípios à espera desse espaço: hospitalidade, solidariedade e fraternidade; tal como toda a reflexão ética se pode resumir à gestão, em cada segundo da existência, a três palavras: quero, posso, devo. É da resposta a cada uma destas três palavras em cada segundo de existir que existo ou não existo como pessoa, como ser de relação, comigo, com os outros, com o universo e com Deus.’ (p. 38)

‘JF: Deus… casado?!
FV: Claro que sim! É a Aliança que dá sentido a tudo. Repara num detalhe aparentemente banal. Logo no início da Bíblia, no primeiro capítulo do Livro do Génesis, quando se fala da criação à luz dos critérios e conhecimentos do tempo – o autor ou autores do Génesis não querem explicar como é que o mundo foi criado, mas sim quem criou o mundo -, o texto diz que ‘o Espírito pairava sobre a superfície das águas»; logo, sozinho, «solteiro»…
Vamos agora praticamente à última frase da Bíblia, Apocalipse 22,17, vês o que lá está? «O Espírito e a esposa dizem Vem!»
É fantástico! Deus «começa» solteiro em Génesis e termina casado em Apocalipse. […]’ (p. 43)

‘Na continuidade do projeto criacional, não é já só a Ruah (o espírito, o sopro criador) de Deus que paira sozinho, solitário sobre as águas. Ao criar Adam, Deus reinventa-se num «nós» relacional. É um Deus ao contrário dos deuses…’ (p. 51)

‘Na Hungria, em setembro de 2021, o papa defendeu que o grande confronto não é entre religiosos e não religiosos, mas «entre o Deus verdadeiro e o deus que é o próprio eu». Francisco disse que «a lógica de Deus» é a do «amor humilde», que «o caminho de Deus evita qualquer imposição, ostentação e triunfalismo, visa sempre o bem dos outros, indo até ao sacrifício de si mesmo», enquanto, do outro lado, «temos o pensar segundo os homens», isto é, «a lógica do mundo, presa às honras e privilégios, tendente ao prestígio e ao sucesso».’ (p. 57)

‘Perdoa-me repetir sempre este estribilho, mas estou profundamente convencido quer da sua verdade, quer da sua urgência. Independentemente das variadas opções de vida que nos podem não separar, mas diferenciar, o sentido último do «ser em relação» é ser gente com gente, para que cada vez mais gente seja gente e nunca ninguém deixe de ser pessoa.’ (p. 67)

‘JF: O Apocalipse é um livro difícil, do qual se fazem muitas e habilidosas hermenêuticas…
FV: Porque é lido como sendo o livro das «desgraças finais», mas não é. É o livro da nova criação, da nova Jerusalém, do cumprimento definitivo da esperança. Apocalipse significa «revelação».’ (p. 70)

‘[…] hoje, mais do que nunca, são necessários profetas. É preciso continuar na mesma linha de reflexão. O profeta de ontem e de hoje não é um adivinho, muito menos um agoureiro anunciador de desgraças. O profeta não vive no passado nem no futuro. O profeta vive no hoje e em cada hoje faz memória do ontem, para descobrir e anunciar o sentido do amanhã.’ (p. 73)

‘[…] O problema é que quando o cinzento é a cor da moda, o arco-íris é visto como um insulto.

JF: Ou uma sedutora dança da cobra…
FV: Ah, pois! Esse é outro drama. A marcha dos dias não permite distinguir o arco-íris que contribui para contrariar o cinzento, de um arco de motivações obscuras, protagonizadas por lobos de falas atrevidas, disfarçados de cordeiros.’ (p. 79)

‘Como já disseste, a defesa dos mais frágeis é a fasquia definidora do humanismo, é a bitola por excelência capaz de revelar a medida exata do processo de humanização e de hominização de uma sociedade e de um tempo. Só que o mito da eterna juventude e do sucesso alicerçado no ter – que é exatamente o que é vendido pela(s) publicidade(s) com que somos continuamente matraqueados – impede justamente que aqueles que a maioria considera como «não sendo» ou «não tendo», sejam tratados precisamente como «não-seres», colocados na varanda da vida pela «borracheira» dos poderosos e não vão da escada para não estorvarem a passagem dos «bem-sucedidos» que não podem ser impedidos de subir os degraus do sucesso…’ (p. 93)

‘Estamos ainda convencidos de que justiça é tratar todos por igual… Que pobreza de raciocínio! Tratar todos por igual pode ser e é sempre uma forma suprema de injustiça disfarçada de bem.
Justiça não é nem pode ser dar exatamente a mesma coisa para todos. Isso será quando muito um igualitarismo bacoco, tão do agrado de certos ambientes pseudopolíticos. A palavra-chave terá de ser «subsidiariedade», quer dizer, em primeiro lugar respeito de mim por mim próprio e pelos outros, porque este tipo de organização social precisa de gente que tenha consciência de si, das suas necessidades, mas também das suas capacidades de contributo para o bem comum.
Eu sou responsável por mim e pelo meu irmão, seja ele quem for. Se um dia se chegasse a uma generalização de uma mentalidade deste calibre, não haveria mais ninguém a «viver à conta do orçamento». E não, não estou a falar do RSI! […] Lutar contra a injustiça e contra a exclusão é dar a cada um tudo o que precisa, mas só o que precisa, e exigir que, da sua parte, dê também o seu contributo. A sociedade deve dar tudo a quem, sem sombra de dúvida, não pode conseguir para si mesmo seja o que for, deve dar o que fizer falta a quem manifestamente se esforça por conseguir atingir os seus objetivos e não deve dar nada quer aos preguiçosos quer aos pulhas da roubalheira.’ (p. 105)

‘Só temos o direito de olhar alguém e cima para baixo quando for para o ajudar a levantar-se.’ (p. 144)

‘Não, a nossa liberdade não termina quando começa a liberdade do outro. Se cada um dos dois tiver a coragem de ir ao encontro de si próprio e para além de si próprio, dar-se-á conta disto mesmo.
Sou mais livre quanto mais somar a minha liberdade livre a outras liberdades livres para podermos fazer caminho em comum.’ (p. 152)

‘Depois de se ter já identificado como o «Deus dos teus pais», da tua família, da tua história, da tua identidade, Deus vai mais longe e toda a heresia: «Eu sou aquele que é sendo».
JF: Voltamos ao gerúndio?!
FV: Sim! A heresia está precisamente neste gerúndio… «sendo». Esta forma construída do verbo ser não se resume simplesmente a uma afirmação de Deus enquanto «existente». A tradução tem de ir mais longe, para além do simples «Eu sou aquele que sou», ao encontro da profundidade da mensagem. Eu sou Aquele que é… sendo contigo.’ (p. 158)

‘[…] a essencialidade essencial que nos define e determina como pessoas - «o ser de relação» -, persona do latim per sonum o «soar através de», a comunicação no seu sentido pleno e abrangente de construção do «próprio eu» diante de si próprio e dos outros, no seu «ser com», no seu comunicar, na sua sinodalidade relacional.’ (p. 168)

‘[O que falta é] ir à essência para sermos capazes de unir o palácio e a barraca, não por um abismo intransponível, mas pela descoberta e criação de formas novas, para que o palácio não viva no luxo e do luxo enquanto a barraca tem de viver no lixo e do lixo.
Se do pós-sínodo sairmos mais capazes de construir a consciência universal no sentido Teilhardiano do processo de hominização como espiral ascensional de complexidade de consciência, terá valido a pena o esforço e as penas porque passámos; veremos florescer o novum como continuidade e evolução, como memória que se faz história, como história que se faz vida, vida em abundância, para todos, sem excluídos, a não ser os filhos da autoexclusão.
Esta é a missão do agora, a ser proclamada e vivida na nova Ágora do tempo novo, que é o mundo todo e todo o mundo, solidamente ancorado no presente, fazendo memória do ontem, para que o amanhã possa ter sentido para todos os que se atrevem e têm a coragem de ser, sendo…’ (p. 173)


**(Título retirado de Daniel Faria, Dos líquidos, Porto, Edição Fundação Manuel Leão, 2000, p. 137)

*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Ensaios de liberdade', 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'

Imagem recolhida da BNP

Sabes, leitor... | 30 | Marca de água do livro de Daniel Cohen, 'Uma [Muito] Breve História da Economia'

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