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sexta-feira, outubro 20, 2017

500 ANOS DA REFORMA PROTESTANTE - De inimigos a irmãos

Em 31 de outubro de 1517, Martinho Lutero envia ao arcebispo de Mogúncia as 95 teses, proposições em que se distancia de práticas que ele considerava inaceitáveis na Igreja de Roma. Decorreram, precisamente, 500 anos. A este evento costuma atribuir-se o estatuto de evento fundador da Reforma Protestante. Plasticamente, é registada a força deste acontecimento através da imagem de Lutero afixando as teses na porta da Igreja de Vitemberga, uma prática, aliás, frequente entre os académicos que expunham, assim, as suas ideias, dispostos a discuti-las. No caso de Lutero, porém, o evento assume um carácter que ultrapassa a dimensão académica e configura-se como o princípio de um movimento que vem a assumir contornos de enorme relevância eclesial (conduz à rutura com Roma) e política, criando divisões no império dirigido por Carlos V a partir de 1519.
Não nos interessa aqui, porém, os dados de ordem histórica, mas reter que, felizmente, hoje, já não estamos nesse ponto. Costumo recordar aos meus alunos que, quando é estudada a Reforma e a Contrarreforma, na disciplina de História, só lhes é contado o primeiro capítulo dessa narrativa, pois, felizmente, hoje, já não estamos nessa fase do conflito que foi encontrando, em alguns eventos pacificadores, como com o édito de Nantes de 1598, alguns mais ou menos efémeros raios de conciliação. A história deste caminho fez-se, até finais do século XIX e inícios de XX, com grandes divergências e conflitos. Feridas que a história levou tempo a sarar. Católicos e protestantes olharam-se, durante tanto tempo (demasiado tempo!) como inimigos. Basta recordar que, na Irlanda do Norte, essa é uma dolorosa ferida ainda com escaras.
Ora, como bem lembra Umberto Eco, no seu livro «construir o inimigo», aquele que temos por inimigo nunca é bonito, atraente, inteligente. Essas são qualidades sempre reservadas ao nosso lado. E nesse registo terá começado este percurso de 500 anos. Chegámos a olhar-nos como inimigos.
Mas quanto perdemos com isso! Porque a diversidade não tem de ser temida, mas potenciada ao serviço da maior realização. Felizmente, hoje, já reconhecemos que esse foi um registo inaceitável. Hoje, em resultado de um caminho que tem mais de 100 anos, olhamo-nos como irmãos.
Muitos são os que afirmam que Lutero, há 500 anos, não pretendia criar uma nova igreja. Que tal foi pretensão dos que com ele fizeram o caminho.
Se foi ou não sua intenção é, agora, de menor importância. O que importa, 500 anos volvidos, é perceber que uns e outros somos diferentes, hoje, porque os irmãos na fé nos desafiam a sê-lo.
Poderia pensar-se o Catolicismo, hoje, sem o despertar que o Protestantismo constituiu?
O que dizer, aliás, da importância que o Catolicismo restituiu à Palavra de Deus, ou da afirmação do sacerdócio comum dos fiéis, ou do reconhecimento da absoluta iniciativa de Deus na salvação da humanidade e de cada Homem, ou da celebração nas línguas vernáculas, sem supor que tal poderá ter tido um impulso significativo do trabalho ecuménico com os irmãos protestantes, trabalho e caminho que encontra no documento do Vaticano II, Unitatis Redintegratio, um dos seus corolários? Ali, define-se, aliás, o critério que cria o lastro para que o caminho continue a fazer-se: estabelecer uma hierarquia de verdades, centrando o nosso olhar no que é fundamental, que, aliás, nos une, e conferir carácter de secundário ao que o é e que, em muitos momentos, terá, infelizmente, sido a causa de conflitos e divergências dolorosas.
Só se faz caminho de aproximação e efetivo diálogo se cada um dos interlocutores se dispuser a reconhecer as falhas de que é responsável, assim como a boa-fé do outro, reconhecendo a diferença, mas vendo nela uma oportunidade, em vez de um problema.

O caminho deverá fazer-se esquecendo que o outro pensa de modo diferente? De modo algum. Esse falso irenismo conduziria a um branqueamento que favoreceria novos conflitos. O caminho terá de percorrer-se tomando consciência da diversidade, mas sublinhando o que nos une. E muito é o que nos une. Em tempos tão marcados por um ateísmo reinante, por um ateísmo prático, une-nos a certeza da divindade de Jesus Cristo; une-nos a certeza de que a Palavra é eficaz e revelada; une-nos a convicção de que um só é o batismo; une-nos a confiança na iniciativa bondosa de Deus, omnipotente perante o mal; une-nos a afirmação da condição gratuita da vida, dom de Deus de que somos administradores... Tanto que nos une! Quanto vale, perante isto, o que nos divide? Muito, certamente, mas não o suficiente para que deixemos de nos reconhecer como irmãos. 

terça-feira, junho 25, 2013

Do «terrível fado» à responsabilidade…


O mundo da educação, aquele onde fermenta a minha vida quotidiana, está, muitas vezes, marcado por uma espécie de fatalismo que, frequentemente, me provoca a interrogação sobre onde ficará a liberdade e a responsabilidade pessoal. São tantas as razões invocadas para justificar o insucesso e a tibieza que parece ficar sumida a pessoa numa tempestade invencível de causas, de tal modo que o ser humano sobre quem recai o olhar se torna uma mera vítima, onde a condição de pessoa é uma miragem. Não posso deixar de sublinhar que revejo, neste fatalismo, uma espécie de reminiscência do destino trágico que definia o enredo do teatro grego, onde o herói mais não era do que uma vítima da moira, do fatum (de que vem o nosso «fado»), essa força incontrolável, que o encaminhava, sem contradição, para o fim previamente definido. Contemporaneamente, o grande Gabriel Garcia Márquez, escritor colombiano de renome mundial e vencedor do Nobel da literatura em 1982, recuperou a mesma ideia na sua «crónica de uma morte anunciada», uma espécie de versão sul-americana do «processo» de Kafka. O homem, em todos estes palcos, não é livre, não tem capacidade de romper com um destino predeterminado que ele apenas cumpre.

Ora, tal não é, nem poderá ser, a visão católica sobre a vida humana. É sabido que o protestantismo, em virtude da forte influência nominalista que recebeu, via Guilherme d’Ockham, não dispensou esta visão, que é mais vincada, porém, no calvinismo do que no luteranismo. E compreende-se porquê. A intenção de reconhecer apenas a Deus a origem da salvação humana (também o Catolicismo afirma a iniciativa de Deus, contudo) assegurava-se sumindo o papel do homem. Restava, então, atribuir a uma libérrima e inacessível vontade divina o conhecimento sobre o destino de cada um. O contributo efectivo da pessoa humana ficava, assim, silenciado. (Uma atitude genuinamente ecuménica não poderá, contudo, deixar de ter a sabedoria de colher, do protestantismo, esta condição de acolhimento gratuito dos dons de Deus e, do catolicismo, este movimento não fatalista, em vez de se fixar nos limites e extremos de uma e outra opção).
 
Não deverá, insisto, ser essa a leitura católica. Mesmo que as circunstâncias façam crer que se é vítima de um destino pré-traçado, a que nada pode opor-se, importa confiar que não é assim e que o homem é aquele com quem Deus fala «como a amigo», como refere a Dei Verbum 2.

Ilustro estas afirmações com uma história verdadeira, contada por Tim Harford, no seu recente livro de título sugestivo: «adapte-se: o sucesso começa sempre pelo fracasso».

É a história de um rapaz, nascido em 1937, em Verona, na Itália, de nome Mario Capecchi (lê-se «Mário Capéqui»). Uma história que tinha tudo para o enredo de uma tragédia de Sófocles. Ou quase tudo… Com pouco mais de 3 anos, Mario vê a sua mãe ser-lhe tirada, às mãos de soldados nazis que a levam para um campo de concentração, ficando com o seu pai, um homem violento, de quem não guarda memória de sinais de amor. Durante cerca de um ano, a vida de Mário divide-se entre a agressividade do pai e as fugas de casa, oportunidade para se refugiar na rua, onde pretendia sumir-se à violência paterna. Como recorda Tim Harford, citando o próprio Mario, «por entre os horrores da guerra, talvez a coisa que, enquanto criança, me tenha sido mais difícil de aceitar fosse ter um pai que era violento comigo». Por volta dos seus quatro anos e meio, perde o pai, vítima de um ataque aéreo, iniciando-se, aqui, um período de cinco anos em que a sua vida se faz de orfanato em orfanato, cujas condições eram terríveis: «não havia cobertores nem lençóis, as camas eram postas lado a lado, e não havia nada para comer excepto uma côdea de pão e uma chávena de chicória.». Aos nove anos, reaparece a mãe, irreconhecível, após cinco anos passados num campo de concentração. Leva-o para a América… Em 2007, Mario Capecchi recebe o prémio Nobel da medicina, por investigações na área da genética.

Num registo fatalista, a vida de Mário Capecchi teria redundado numa história de marginalidade e tristeza. Um outro registo, feito de responsabilidade pessoal, de reconhecimento de que a história se realiza no encontro entre Deus e o Homem, e não como mero cumprimento de um destino pré-traçado, permite vislumbrar sentido e conferir sentido ao que parece ser antecâmara para o abismo.

Quantas mensagens e desafios se ocultam nesta história real, nestes tempos em que a tentação de invocar o «terrível fado» parece aquietar e acomodar, como que esperando que a resposta surja espontaneamente! O Cristianismo é, porém, desafio de encarnação, isto é, de assunção de que se não se encarnar a condição humana, algo ficará por fazer… Por paradoxal que pareça, a acção de Deus não se fará sem a resposta comprometida dos humanos. Deus é espírito, sopro, não «furacão».

quinta-feira, janeiro 24, 2013

O acontecimento ecuménico de todas as semanas

Terminado o oitavário pela unidade dos cristãos, parece que se fecham as tendas de uma feira em que se expuseram boas intenções, aguardando pela mudança do calendário, como se mais nada ocorresse, entretanto. No entanto, esta é apenas uma ilusão. Na verdade, de há muito que ocorre, semana após semana, em cada ano, em cada escola deste país, pública ou particular, um discreto e pouco badalado momento permanente de ecumenismo e diálogo inter-religioso.

A surpresa desta notícia é, seguramente, para muitos, tão grande como a expectativa sobre o facto a que estarei a referir-me. Tanto maior quanto o desconhecimento sobre o precioso trabalho que a este mesmo facto se deve na causa da defesa dos mais nobres valores, dos mais sólidos alicerces de uma sociedade que se pretende plural, respeitadora, mas também capaz de assegurar o conhecimento e reconhecimento das identidades e das particularidades.

Em cada semana, mais de cinquenta por cento dos alunos de todo o ensino básico nacional fazem parte deste delicado, longo e sólido trabalho de ecumenismo que envolve, não só alunos católicos, mas também ortodoxos e protestantes dos mais diversos ramos. Descobrem o que causou as ruturas, bem certo, mas entendem, também, que, como me dizia, há dias, um aluno, essa é só a primeira parte de uma narrativa que, na disciplina de História, só lhe contam ser de conflito. Ele acabava de descobrir que, afinal, essa história era, de há mais de cem anos, uma outra história de aproximação e encontros. Nunca ouvira falar da palavra «ecumenismo», que confundia com «comunismo» e «economia», como tantas outras pessoas a quem pedi que, com os seus colegas, entrevistasse.

Esse acontecimento diário, que ocorre em todas as escolas deste país é, ao contrário do que muitos querem continuar a fazer crer, parte da solução e não do problema ecuménico em Portugal. Esse acontecimento diário, que se faz com mais de metade de todos os alunos que frequentam as nossas escolas, chama-se «educação moral e religiosa católica». Uma disciplina que, mesmo os próprios cristãos, parecem continuar a desconhecer, desconsiderando-a como menor. Uma disciplina em que se descobre a fraternidade das três religiões do Livro (7º ano), ou a unidade e diversidade do cristianismo (8º ano) ou, ainda, o que possam ter a ensinar o ateísmo e o agnosticismo, assim como as religiões orientais (9º ano). Uma disciplina que, a partir de um lugar identificado, o da matriz cristã católica, se dispõe a dialogar. Um diálogo que não acontece, apenas, enquanto desejo. Nela se realiza, de facto, o que pretende. Assim me acontece, em concreto, pois, entre os meus alunos contam-se não apenas católicos, mas também de outras confissões (mais numerosos são os ortodoxos) e, mesmo, descrentes que se sentem em busca, realidade plural que sei acontecer com tantos outros professores deste país.

Mas, nesta nação em que se cultiva o adiamento da esperança, muitos teimam em não querer reconhecer que ali, naquela disciplina dita menor, está a acontecer história.

Como dizia D. António Couto, num debate organizado pela Diocese, em Estarreja, esta é uma geração nova, mais disponível para o ecumenismo e o diálogo inter-religioso. E não duvido de que muito tem feito por isso a EMRC. Assim se queira reconhecer.



Luís Silva

E ao pó hás-de voltar… Não às cinzas estéreis e anónimas.

  Há uma sabedoria profunda, verdadeiramente divina, no ato de inumar o ‘corpo’ morto, de o devolver ao regaço adâmico de que proveio. Mas u...