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segunda-feira, julho 20, 2026

Luís Manuel P. Silva | Aborto e outras violências: O futuro é dos sonhadores!

 


Luís Manuel Pereira da Silva*


Dizem que sou um sonhador. Que esperar um mundo em que todos os filhos de humanos (mulheres ou homens, pessoas com deficiência ou sem que a tenham explícita, pobres ou ricos…) possam nascer é um sonho paradisíaco pouco irreal.

Posso sê-lo. Mas o que seria o futuro sem os sonhadores?

O cinzento não é alternativa.

Ouso fazer um pedido a cada um dos leitores deste texto: que me leia sem preconceitos; que me leia como quem está disponível para, verdadeiramente, ouvir.

Leia-me, bom leitor, como a criança a quem falam do que, realmente, está em causa.

Trago, a esse propósito, uma página de um diário de uma mulher que aceitou ser ‘barriga de aluguer’ de uma cunhada. Diz ela, na semana 15: ‘Contei aos meus filhos o que se está a passar. A minha filha perguntou: «Não me vais dar a outra pessoa, pois não?»[1]

Uma só pergunta e desaba toda a segurança sobre a bondade das ‘barrigas de aluguer’.

Uma só pergunta – ‘onde está o meu irmão que eu esperava?’ – e desaba toda a convicção de que o aborto seja um inócuo ato solitário que só a cada um diz respeito.

Acredite, caro leitor, que quem se opõe à legalização do aborto não o defende porque queira ver punidas todas as pessoas que o praticam.

Tremendo equívoco esse que pressupõe raciocínio tão curto e tão estreito.

As leis não foram feitas para que se possa punir quem as infringe. Foram, antes, feitas para proteger bens que merecem cuidado e defesa.

Dir-me-á o leitor, muito atento: ‘esqueces-te de que as leis que despenalizaram o aborto protegem um valor igualmente importante: o de nos determinarmos.’

E eu compreendo o valor que se visa proteger, mas ouso pedir um novo olhar.

O bem de que se prescinde – o da vida de um (ou vários, se forem gémeos) filho – é um valor de que não se pode prescindir de parte e permanecer com outra; ou se tem, em absoluto, ou não se tem. A vida não se possui em progressividade; ou está ou não está. Há, talvez, em muitos, o equívoco com a qualidade de vida que, essa sim, é reversível e futurível. Como a liberdade, aliás… A liberdade pode possuir-se em progressividade; ter-se em parte e ir-se desenvolvendo como, aliás, acontece com a criança que se desenvolve ou, mesmo, com alguém que depende dos outros enquanto não domina uma matéria, um assunto. Em todas estas situações, a liberdade está presente, mas nunca de forma absoluta nem totalmente ausente. Porque, por definição, ser livre é ‘ir-se libertando’. Com a vida, que integra o que poderá definir-se como valores irreversíveis (ou se possuem ou não se possuem), não é assim. A partir do momento em que se deixa de possuir, não se recupera.

Logo, é desequilibrado que se prescinda de um valor ‘irreversível’ por um outro que é sempre reversível.

Mas, poderá dizer-me, mais uma vez, o leitor, muito atento: ‘mas isso é uma decisão exclusiva da mulher que está grávida…’

A ideia é sedutora, mas, mais uma vez, nasce de um equívoco.

Um filho não é gerado por um só, pela mãe (muito menos, só pelo pai, claro!). O filho é, por natureza, um ente que une duas histórias. O homem e a mulher de quem provêm os gâmetas (que triste é que a tecnologia nos tenha obrigado a esta leitura fria e laboratorial – o frio das pipetas e das seringas… - que dissociou a geração de um ato de amor, mas é assim!…) eram dois seres sem ponto de convergência até que um filho os une, para sempre. Sublinho ‘para sempre’.

Mesmo que o queiram apagar, aquele ente une-os. Geneticamente, há algo do pai e há algo da mãe. Saibam-no ou não. Queiram ou não!

E o que fazer com o filho que ‘fala’ dos dois é, neste momento, a questão.

Sentimo-nos autorizados a decidir sobre a sua vida?

Ou reconhecemo-lo como anterior ao que nos é legítimo decidir?

E é aqui que os dois caminhos se separam.

Como o ponto após as portagens de uma autoestrada em que, para um lado, se vira para norte e, para o outro, se vira para sul.

Admitir a legitimidade do aborto é aqui que se determina.

E, a partir daqui, é importante que se perceba o que se está a determinar: se a vida do outro está ao nosso dispor, ao dispor da nossa autodeterminação, ou se não.

Se sim, então, honestamente, deveríamos ir até ao fim.

Se alguém pode determinar se a vida do outro merece ou não merece continuar, é puramente arbitrário que o seja às dez, às doze, às vinte e quatro semanas ou até ao final da gravidez… E, no limite, até que tenha capacidade de decidir por si (como permite, neste momento, a Bélgica que autoriza a eutanásia de menores, a pedido dos seus pais). Vejamos que, em termos lógicos, a Bélgica está a levar até ao limite o raciocínio.

E é por isso que devemos questionar o raciocínio. Para que não seja demasiado tarde…

Regresso ao lugar após as portagens…

Para mim é claro que a vida se impõe à liberdade de cada um (e, caríssimo leitor, se acha que sou eu o primeiro a reconhecê-lo, sugiro a leitura muito atenta do preâmbulo da Declaração Universal dos Direitos Humanos que afirma, claramente, que é o reconhecimento da dignidade humana o pressuposto da liberdade e não o contrário), por muito que me apeteça extingui-la, por muito que esteja perturbado pela notícia e pelo medo (talvez até terror) do futuro.

O que deveria, neste momento, fazer a sociedade, era dizer a cada casal, a cada mulher que se reconhece mãe: ‘estamos aqui, contigo, e temos, para ti, estes apoios e estas ajudas. Não estás só.’

Digo-lhe, caríssimo leitor, caríssima leitora, que a sociedade se tem organizado para tal, pois muitas instituições surgiram, nos últimos trinta anos, a apoiar as grávidas que se encontram sem apoio. Mas o ‘zeitgeist’, o espírito deste tempo, não tem estado atento e quase as silencia. Mas alguns milhares de crianças já nasceram, desde que o referendo ao aborto legitimou a sua prática, por ajuda destas organizações. Autênticas sobreviventes da lei do aborto. Sim, meu bom leitor, todos os que nasceram depois de 2007, são, em Portugal, sobreviventes da lei do aborto. Pois a pergunta que pode sempre fazer-se é: ‘porque tive eu direito a nascer e não os mais de 300 mil entretanto abortados?’

Confesso-lhe, caríssimo leitor, que muito me custa esta arbitrariedade em que deixaram enredar-se os ‘Estados de Direito’ ocidentais que permitiram que algo tão determinante (como a vida de alguém) dependesse da decisão de um só. Com as abrangentes implicações que tal comporta: onde ficou o pai, nesta decisão? Onde ficou o filho? Onde ficou a própria mãe que, tantas vezes, pressionada pela sociedade envolvente, é empurrada para o aborto porque a lei já não protege a sua decisão de não abortar? Onde ficou, afinal, a mensagem de que não devemos ser violentos uns com os outros?

Sim, porque se uma sociedade admite a violência da mãe sobre o seu filho, quando este mais depende dela, então, toda a violência pode ser tolerada…

A mãe que é o primeiro berço do seu filho tem de merecer toda a ajuda da sociedade, porque ela é o futuro que já mora no presente. E se queremos futuro, não o podemos esperar amanhã. É que o primeiro futuro, o futuro do passado, é o hoje. E só haverá futuro do presente se, no presente, não se extinguir a vida, não se extinguir quem existe.

Eu sei que sou um sonhador…

Mas o que será o futuro sem sonhos? Pois se não há futuro sem vida, dado que o tempo é vida que se desenrola como novelo. Mas, sem ela, é poeira ao vento.

Sonho… Sonho com uma sociedade sem violências. E sem a maior dessas violências: a dos braços que deveriam acolher a vida quando esta mais precisa do seu conforto.

Sonho… Bem sei que sonho. Mas outros sonham, já hoje, comigo e, um dia, o sonho será real. E enquanto houver sonhadores, a vida continuará a garantir amanhãs. Pois é no hoje de cada vida que germina o devir.


[1] In Gabriele Kuby, A geração abandonada, Cascais, Princípia, 2021, p. 92.


*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano', 'Ensaios de liberdade' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'

Imagem de Clive Einstein por Pixabay

segunda-feira, maio 09, 2022

Aborto: desfazer o nó górdio

O aborto será o nó górdio das sociedades ocidentais?

Talvez…

Talvez, como o célebre nó, quem o desfizer, venha a dominar o mundo… E, talvez, ainda, ele se desfaça de uma forma inesperada. Lancemos, por isso, a espada sobre a corda, à maneira de Alexandre Magno, e vejamos como, afinal, de modo simples, se detém no chão o liame que parecia ser invencível…

Não sei, ainda, se o desfazer do laço nos dará o domínio sobre o mundo, mas estou certo de que nos enredos da corda se enunciam muitos dos problemas com que se depara a nossa sociedade contemporânea.

A base da nossa sociedade não é o indivíduo, mas a relação. Se duvidamos, basta que vejamos com atenção como as decisões fundamentais não nos pressupõem, primeiro, indivíduos, mas sim seres relacionais. Para que serviria, afinal, ter uma língua oficial se não fosse para a partilhar e, em torno dela, nos unirmos? Para que serviria um hino nacional se não fosse para o darmos a ouvir e nos unirmos em torno dele com emoção e, quantas vezes, comoção?

Para que serviria obrigarem-nos à partilha do que ganhamos, através de impostos, se não fosse para nos valermos uns aos outros, mesmos aos que nunca conheceremos?

Para que serviria reconhecer associações e organizações ou a família como base da sociedade se não fosse sob o pressuposto de que somos seres que se definem na relação?

Por influência, porém, de uma visão liberal de matriz estritamente individualista, temos sido convencidos de que, entre Estado e indivíduo, nada existe…

E, ainda que assim fosse, a discussão sobre o aborto esquivar-se-ia a estes pressupostos pela razão que passarei a descrever.

Um homem e uma mulher que se envolvem num momento denso de afetividade e sensualidade são, ainda, um homem e uma mulher… A partir, porém, que da sua relação começou a gerar-se um novo ser, eles deixaram de ser apenas um homem e uma mulher. O que eram ganha nova densidade em virtude de um novo ser que os une, de modo indefetível e que, quer queiram, quer não, os unirá para sempre. Mesmo que ousem fazer de conta que não é assim.

Claro que muitos dirão que esta leitura é reacionária. Mas é curioso que se há algo de reacionário nisto é à dura realidade que o teremos de atribuir.

A partir do momento em que um humano está em gestação, aquele homem e aquela mulher já não serão, apenas, aquele homem e aquela mulher: passarão a ser, para sempre, o pai e a mãe daquele ser.

Mesmo que ousem nunca lhe dar um nome ou permitir que mostre o rosto que, desde a primeira hora, se prenuncia.

O pai e a mãe deste novo ser humano em gestação são-no em virtude dele e as suas vidas estarão, inelutavelmente, unidas.

A gestação deste novo ser cria uma nova realidade que, sendo, primeiramente, uma realidade de natureza biológica (aquele ser humano é filho deste pai e desta mãe e a genética o demonstra sem ideologias e de forma objetiva…), deveria ser, desde a primeira, hora, uma nova realidade jurídica.

Aquele homem e aquela mulher passam, a partir deste momento, a ser pai e mãe e, numa sociedade honesta, deveriam passar a ter deveres de cuidado para com aquele igual a todos nós que está, agora, a fazer-se gente e que, não antes dos seus três anos de idade, pouca consciência terá de si mesmo se não lho permitirem os demais humanos em seu redor.

É verdade - como reconheceram os abortistas que logo rasgaram as vestes quando se afigurou a possibilidade de que a história do caso Roe vs Wade se pudesse alterar (esta que é uma infeliz história de mentira e perjúrio – seja-se honesto e diga-se que a legalização do aborto, no ocidente, assentou em fake news…) - que a legislação sobre o aborto mostra a saúde democrática das nossas sociedades. Ela mostra se, de facto, os direitos de quem tem poder se sobrepõem à voz dos que não a têm porque lha impedem de vir a ter.

Um embrião ou um feto humanos é um de nós; são nós na sua/nossa primeira etapa da vida. E se é certo que se protege uma ave desde a fase do ninho, como pode pretender-se proteger um humano apenas quando ele já pode defender-se e gritar?

Voltemos atrás…

Como poderia aceitar-se que o filho fosse ‘direito’ de apenas um dos dois, pai ou mãe?

Em primeiro lugar, o filho não é um bem a que alguém tenha direito. O filho é filho. Ponto!

Cabe-nos ajudá-lo a fazer-se gente! Cuidar e cuidar e… após tudo isso, cuidar!

Se o aborto viesse a ser um direito (convém que se reconheça que, até Macron, poucos tinham sido os que afirmavam que fosse direito. Sempre se situara no âmbito da despenalização. Hoje, pretende-se considerar como direito…), os direitos de um só (a mulher; não a mãe!) prevaleceriam, de forma absoluta, sobre os direitos de dois outros: o filho e o pai.

Valerá a pena perguntar a que título passaria a estar, ao lado da parturiente, o pai: por especial concessão da mulher que determinaria que este seria o pai?

Mas o filho de que ele é pai não foi gerado no momento do nascimento, mas no primeiro momento, o da conceção!

Só por pura arbitrariedade de um legislador ‘arbitrário’ (passe a redundância) é que se pretenderia legitimar tal coisa. A realidade do filho gera o pai e a mãe no momento da sua conceção. As vidas destes três seres unem-se nesse momento. Não noutro qualquer.

Assim o determina a natureza das coisas.

Só por ideologia ou por motivos obscuros pode pretender-se que seja de outro modo.

O nó górdio desfar-se-á no dia em que, definitivamente, houver coragem para reconhecer a personalidade jurídica do ser humano em gestação, exigindo-se deveres de cuidado dos respetivos pai, mãe e sociedade que se deverá reconhecer na vida em crescimento. De outro modo, a arbitrariedade sobre quando é que uma mãe é mãe ou um pai é pai será nascente de conflitos e favorecerá litígios desnecessários.

Como poderá esperar-se a construção de uma sociedade pacífica que assenta na legitimação da violência da mãe sobre o seu próprio filho? O aborto mata o filho e, com ele, mata a mãe. Fica uma mulher em conflito consigo e com os que a rodeiam….


sábado, dezembro 07, 2019

O rasgão



Causa-me perplexidade ver a facilidade com que nos estamos a habituar à ideia de que nos é legítimo destruir os nossos só porque são nossos. Uns, de facto, outros, de direito.
De facto…
É inacreditável como se vêm avolumando as notícias de que as relações que deveriam ser de amor estão envolvidas em violência. Porquê?
É inacreditável como abandonamos e rejeitamos os mais frágeis de entre nós, seja na fase do berço, seja já adultos, fazendo desta uma sociedade que se satisfaz em proclamar princípios, mas que os contradiz, a cada instante.
Mas não deixa de ser igualmente inquietante ver como deixámos que se tornasse legítimo destruir os nossos, no plano do direito.
De direito…
Deixámos que se instalasse, de direito, a violência de uma mãe sobre o seu filho ainda não nascido. Deixámos, legitimando, aplaudindo e chegando a rejeitar os que ousam retomar a inquietude que nunca nos deveria ter abandonado.
Como podemos, depois de legitimar tal violência, ficar surpreendidos que haja outros sinais de violência quando permitimos e acolhemos como boa a violência naquele que é o último porto seguro da nossa existência: o do colo da mãe?
E, agora, depois de termos legitimado tal violência, propomo-nos dar mais um passo.
Já não nos bastava ter legitimado a violência da mãe sobre o filho. Faltava-nos legitimar a violência do filho sobre a mãe.
O Parlamento prepara-se para a legitimar, legalizando a eutanásia. De mansinho, bem certo. Já assim fora, em 1984 e nos referendos de 1998 e 2007. Os mais de 185 mil abortos entretanto realizados demonstram que a exceção se tornou banalidade.
Como, depois, poderemos ficar surpreendidos que se agudizem os sinais da violência numa sociedade que a assume como um direito?
E muitos defendem tal direito em nome de um suposto avanço. Como se não tivéssemos, ao longo da história, já percorrido tais caminhos que a vitória da civilização e da humanidade sobre a incivilização e a desumanidade tinha deixado para trás. (Não posso deixar de recordar, neste contexto, o que já repetidas vezes fui recuperando, em alguns dos meus textos: o Tribunal Europeu dos Direitos humanos deliberou, sem possibilidade de recurso, em 16 de dezembro de 2010, com 11 votos a favor e 6 contra, que o aborto não é um direito humano e, por isso, é legítimo que os Estados o penalizem.)
O que fazemos, agora, não é andar para diante: é regressar a lugares onde pensávamos já não querer voltar.
Também os gregos já abandonaram os seus idosos e abortaram e rejeitaram os seus débeis (Hipócrates, que viveu entre 460 e 370 a.C., afirmava, no seu célebre juramento: ‘não darei a nenhuma mulher uma substância abortiva’, o que permite concluir ser uma prática então existente que Hipócrates repudia); o mesmo se passava entre os povos do centro da Europa que venceram os romanos ou no Oriente longínquo e em tantas e tantas tribos daqui e dali. Mas a civilização marcadamente personalista e humanizada foi vencendo tais práticas e realizando o ideal do respeito inviolável pela pessoa humana.
O que se está, portanto, a pretender, não é avançar, mas retroceder. E se fosse um passo em frente seria semelhante ao de alguém que, vestindo um especial fato domingueiro, se apercebesse de que este ficara preso a um pequeno prego. Se der um passo adiante, tal significará abrir um rasgão provavelmente irreparável. Constatando tal obstáculo, melhor será dar um passo atrás que assegure que se desprendem as vestes de tal entrave. Avançar significará consolidar o rasgão e decretar o fim da tão amada veste.
Estamos aqui! O rasgão está a abrir-se, de forma cada vez mais profunda. Haveria que dar o passo atrás (que, como vimos, seria o verdadeiro progresso rumo à humanização da sociedade, contrariando o que muitos pretendem dizer, ao rotular de posição conservadora ou passadista!) para garantir que não se rompe, em definitivo, a solidez do nosso tecido (social). Mas insiste-se na indiferença para com o risco associado ao prego a que se prendeu o nosso fato.
Até quando continuará a abrir-se o rasgão? Até quando resistirá o tecido tão penosamente elaborado em demorado tear?


segunda-feira, agosto 28, 2017

Recomendações para depois da tempestade


Vivemos tempos de tempestade. Tempestade com muitos ventos contrários. Aliás, definida, precisamente, pela violência dos ventos antagónicos. Ora, no meio da tempestade, importa, primeiramente, sobreviver e, depois de esta passada, reconstruir a vida, procurando evitar os erros cometidos.
Em tais momentos, porém, recomenda-se a procura de lugares firmes e seguros que permitam sobreviver à investida da fúria eólica. O meu lugar já o identifiquei há muito tempo – dá-se pelo nome de «Cristianismo» - e tenho procurado permanecer-lhe fiel, pois sei ter resistido a violentas tempestades, ao longo da sua história e ser, por isso, rocha firme e de confiança. Entre os seus muitos difíceis momentos, estão, precisamente, os primeiros séculos da sua história. Já então, como bem recorda uma carta de autor anónimo de finais do século II (que Roque Frangiotti considera poder ter sido escrita por Quadrato ao imperador Adriano; carta conhecida como «carta a Diogneto»), carta que revisito com frequência, como elixir e alento, «Os cristãos não se distinguem dos demais homens, nem pela terra, nem pela língua, nem pelos costumes. Nem, em parte alguma, habitam cidades peculiares, nem usam alguma língua distinta, nem vivem uma vida de natureza singular. […] Habitam pátrias próprias, mas como peregrinos: participam de tudo, como cidadãos, e tudo sofrem como estrangeiros. Toda a terra estrangeira é para eles uma pátria e toda a pátria uma terra estrangeira. Casam como todos e geram filhos, mas não abandonam à violência os neonatos. Servem-se da mesma mesa, mas não do mesmo leito. Encontram-se na carne, mas não vivem segundo a carne. Moram na terra e são regidos pelo céu. 10 Obedecem às leis estabelecidas e superam as leis com as próprias vidas.» (Sigo, aqui, a versão da editora Alcalá).
Então, como agora, os cristãos vivem no tempo, mas não vivem do tempo, vivem no mundo, mas transcendem-no, porque sabem que a sua pátria definitiva não é esta.
Regresso a esta fonte, diante das notícias de violências várias com que se fazem os dias do estio: o terror que blasfema contra Deus; o fogo que abrasa vidas e bens, alimentado do fascínio da imagem; a violência dos que censuram e queimam livros em novas fogueiras; o estertor das novas perseguições, feitas em nome das ideologias de ilusória espontaneidade, movidas, porém, com meticulosidade, por quem domina os grandes meios com que se difundem novas verdades…
Diante destas violências, novas e velhas, não posso deixar de alentar os que se sentem vencidos. A esta vertigem outras se seguirão, porém, até que a bonança possa regressar. Mas, até aí, importa permanecer firme e fiel.
Firme e fiel a um Deus que é amor. Amor que não é um vão sentimento, mas dedicação leal, firme e constante. Firme e fiel a um Deus que ama e abomina a violência. Toda a violência! Nenhuma violência o deixa de ser a pretexto de bons motivos. Nenhuma violência pode ser exercida, menos ainda em nome de Deus. Nunca, em nome de Deus. Nem hoje, nem ontem, nem em momento algum!
Firme e fiel a uma história e a uma certeza: não temos aqui morada permanente e o que fazemos agora constrói a nossa condição de eternidade.
Firme e fiel à humanidade. Humanidade que é «húmus», fragilidade, e não Deus. Humanidade que se deve reconhecer vulnerável e em caminho nunca concluído. Mas sempre marcada pela debilidade que pode seduzir e fascinar, hoje, sob a capa dos transumanismos e pós-humanismos. Firme e fiel à esperança, diante dos que se deixam iludir pela utopia de um mundo perfeito. Todos os mundos perfeitos, aqui, redundaram na maior e totalitária imperfeição. O homem é tensão entre já estar a realizar-se e ainda não estar realizado de todo.
Firme e fiel à verdade do ser homem e mulher. Diversidade que se completa, unidade feita de alteridade. Sem medos, nem fobias, porque, em nome da fobia do diferente de si, teimam alguns em querer fechar-se no igual a si mesmo. O medo sempre impediu a liberdade. Somos feitos para o diferente. Realizar-se no igual a si encerra no mesmo e reduz o outro a espelho de si próprio. Estranho egoísmo este, disfarçado de modernidade! Arrisco ser tolhido pelas novas censuras, mas ouso partilhar a sugestão de se encontrarem renovadas razões para a esperança em Fabrice Hadjadj, no livro «A profundidade dos sexos», em Xavier Lacroix, na obra «A confusão dos géneros», ou com Aristide Fumagalli, em «A questão género». Nesta, como em tantas outras matérias, não há como iludir o modo de agir e pensar, firme e fiel. O modelo está em Jesus Cristo, perante a mulher adúltera: acolher a pessoa, denunciar o comportamento! «Quem te condenou? Eu também não te condeno. Vai e não voltes a pecar» (Jo 8,11). A pessoa é acolhida porque transcende a sua condição, o comportamento é denunciado. Só esta atitude evita os escolhos do relativismo ou do puro formalismo. A moral cristã é firme nos princípios, misericordiosa com a pessoa. A tensão que os nossos tempos querem aliviar, soltando a tensão, ora do lado da misericórdia, redundando em positivismos jurídicos (vale, apenas, o que está escrito na lei), ora do lado dos princípios, relativizando a moral dita ‘privada’. É esta tensão, porém, que torna a moral cristã exigente, mas, simultaneamente, terra firme, nestes tempos vertiginosos em que se esperam respostas rápidas e feitas à medida relativa de cada um.
Firme e fiel, enfim, à certeza de que a tempestade não durará para sempre, não poderá vencer. O fascínio da idolatria de si não poderá construir sociedades mais humanas, mas cada vez mais individualistas e insocietárias. A história demonstra que as sociedades que persistiram e resistiram foram as que souberam recuperar o que era sólido e realmente humano. As que o não souberam fazer foram tomadas por imprevistos e insuspeitos dominadores.

Muitos previram, em finais da década de 80 e inícios de 90, com F. Fukuyama à cabeça, que a nossa ideia de sociedade, liberal e individualista, era o último momento da história. Estava encontrado o modelo definitivo de sociedade. Nada mais havia a conquistar, mas apenas a transmitir (mesmo que forçadamente) aos que ainda não viviam em tal modelo de organização social. Já recuaram, porém, nessa certeza (basta ler, do mesmo autor, «As origens da ordem política»), mas tal reconhecimento ainda não chegou a todos. Quando os sinais exigirem mudança, os que permaneceram em terra firme terão o vigor da âncora procurada. Mas, até aí, a tempestade ainda poderá recrudescer. Só os mansos e humildes de coração conquistarão a Terra!

'Os Sete Dias da Criação' |11| Luís M. P. Silva - 11 – O segundo dia… a preparar o terceiro!

  (‘Os Sete Dias da Criação’ | Rubrica dedicada ao diálogo entre ciência e religião) Artigo originalmente publicado na revista 'Mundo Ru...