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sábado, fevereiro 16, 2019

‘Ai dos que escandalizam um só destes pequeninos’ (Lc 17,2) | Como foi possível?


Toda a história da Igreja é uma narrativa de fidelidade e infidelidade. Já São Paulo, numa carta escrita em finais do ano de 56, dirigida à comunidade de Corinto, abria a sua alma para confessar que «foi, pois, em grande aflição e com o coração despedaçado, que vos escrevi entre muitas lágrimas» (2Cor 2, 4).
Não nos podem, porém, servir de atenuante ou analgésico estas palavras e este reconhecimento, numa hora da história cristã tão marcada por trevas e escuridão. Seria terrível que assim fosse, dada a gravidade do que vamos descobrindo sobre práticas e comportamentos que se permitiram e consentiram, durante tempos prolongados. Necessitamos, como comunidades cristãs, de refletir, de pedir e fazer tudo para que se cumpra a justiça, de consolar os que foram doridos e permanecem inconsoláveis na chaga que lhes atinge a alma e, acima de tudo, de criar as condições para que tal nunca mais se repita. A Igreja tem de ser porto seguro! A luz para o ser não tem de o buscar fora da verdade que Jesus Cristo lhe confiou. Mas tem de lhe permanecer fiel; não procurar nesse tesouro um qualquer pretexto para se considerar invulnerável: porque a mensagem e o tesouro é singular, mas é de barro o vaso em que se transmite às gerações futuras e aos que ainda não participam deles.
É preciso ter-se consciência de que, por detrás de práticas, há sempre uma teoria, o que torna ainda mais dolorosa a interrogação sobre como foi possível. Que visão e conceção legitimaram tais práticas? Como foi possível que não nos inquietasse a palavra do Mestre que anatematizava aqueles que escandalizam os mais pequenos (Cfr. Lc 17, 1-2)? Como foi possível que não nos incomodasse mais a dor das vítimas do que o receio de denunciar os agressores? Como foi possível que as nossas comunidades considerassem intocáveis e impecáveis alguns só porque investidos de ministérios e missões, ainda que definitivos, mas participantes na missão maior que a todos toca: a de anunciar o verdadeiro amor de Deus que respeita a pessoa e a protege, na sua dignidade? Como foi possível? Como pudemos distrair-nos de sinais que nos mostravam que alguém pudesse tomar os ministérios na Igreja não como serviço mas como pretexto para meras realizações individuais? Como pudemos (e podemos continuar a) alhear-nos perante a tristeza do irmão? Como pudemos deixar que as nossas comunidades fossem mera geografia de funções e não verdadeira comunhão de irmãos?
Foi possível, bem certo, porque a Igreja é santa e pecadora, depositada, na história, pelo Mestre que é o Santo, mas feita de caminho, a caminho e no pó do caminho.
Mas isso não pode servir de pretexto para nos sossegar.
Pelo contrário, não pode ser senão motivo acrescido para que nos mantenhamos atentos. Hoje e sempre. Como deveria ter sido, ontem.
Importa ter, contudo, consciência viva de que a Igreja é maior do que o seu pecado. Não por mérito seu, mas pela ação gratuita de Deus que, mesmo em contextos de especial gravidade, concede luzeiros que permitem manter viva a esperança de que possa haver, pelo menos, um justo a cujo amor se deva que não seja destruída a mais ignominiosa cidade (Gn 18, 16-33). Importa, nesta hora de trevas, aprender, acolher, pedir perdão e renovar as razões da fé. Há tanto bem a ser feito! Há tanta esperança a ser renovada! Há tanto verdadeiro amor a gerar-se! Há tanta gente a reconciliar-se consigo, com os outros, com o mundo e com Deus, por ação da Igreja! As trevas não sairão vencedoras. O livro do Apocalipse no-lo assegura: «Depois, na visão, quando o Cordeiro abriu o primeiro dos sete selos, ouvi um dos quatro seres viventes que dizia com voz de trovão: «Vem!» E vi que apareceu um cavalo branco; o cavaleiro levava um arco e foi-lhe dada uma coroa. Depois, partiu vencedor para novas vitórias.» (Ap 6, 1-2)
Os critérios para uma sempre renovada fidelidade ao melhor da humanidade não precisamos de os procurar fora. Temo-los em grau de pureza que basta que lhes sejamos fiéis. Se o formos, cada vez com maior densidade, cumpriremos a missão de respeitar a dignidade de cada um, mas, infelizmente, chega a parecer que tiveram de nos pressionar de outros quadrantes para que despertássemos para aquilo que um olhar cristão honesto deveria ter descoberto e ter-se escandalizado. Que nesta e noutras matérias nunca percamos a coragem de procurar a verdade, de lhe sermos fiéis, sendo consequentes com o que a fé nos mostra corresponder ao desígnio de elevar o humano à estatura de Deus. Porque, afinal, será pelo que fizemos aos irmãos mais pequeninos que seremos julgados (Cfr. ‘Em verdade vos digo: Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes.’ (Mt 25, 31-46).


segunda-feira, setembro 03, 2018

A Hora… da Igreja!


O evangelista João une, sob a categoria da Hora, a morte e a ressurreição de Jesus: o fim assume um dinamismo de início que só os olhos da fé podem vislumbrar. Nenhum outro evangelista confere, tão explicitamente, este caráter libertador à crise da morte. ‘A Hora’ é sinónimo, em João, não tanto do fim, mas de um início.
É este olhar que importa renovar, neste momento, em que a Igreja Católica vive uma Hora de crise. Ler o longo caminho do seu peregrinar sobre a Terra deve permitir revitalizar-se e regressar às nascentes frescas das quais provém. Ler esse longo caminho renovará a consciência de que outras Horas emergiram nesse peregrinar, talvez mais tenebrosas, ainda, mas a que a força do Espírito concedeu novas vozes e profetas que permitiram refazer os passos.
Não poderá, porém, fazer-se essa leitura sem enfrentar, com lucidez, o que motiva a crise agora vivida, começando por fazer a devida justiça às vítimas da ação desconcertante de quantos, em atitude infiel à fé professada, desprotegeram os que tinham sob a sua guarda. Poderá haver maior dor do que a nascida da inocência perdida às mãos dos que a deviam proteger?
É esta lucidez que encontro na carta recentemente escrita (em 20 de agosto de 2018) pelo Papa Francisco ao Povo de Deus sobre os abusos sexuais perpetrados por membros da Igreja.
Leio-a e encontro um passo que me faz recuar à fase preparatória do Sínodo sobre os Jovens que a Diocese de Aveiro realizou em 2004. Numa das reuniões da equipa do secretariado diocesano da pastoral juvenil, em 2003, no centro pastoral, situado então na rua de José Estêvão, Dom António Marcelino afirmou que, se lhe perguntassem como resumiria a sua ação como bispo, a sintetizaria na ideia de que pretendia «acabar com o clericalismo na Igreja». Estas palavras suscitaram, nos que as ouviram, alguma surpresa, pois parecia contrastar com a ação que lhe era reconhecida de um pastor em quem se sentia a atitude de proteção amorosa da Igreja contra todas as investidas de algumas organizações que se designavam como ‘anticlericais’. Mas esta surpresa nascia de um equívoco: ser defensor do fim do clericalismo na Igreja não era sinónimo de se ser contra a Igreja. Pelo contrário!
Bastava, já então, ter lido, com atenção, a Constituição Dogmática do Vaticano II sobre a Igreja Lumen Gentium para perceber que os padres conciliares tinham estruturado este documento de um modo que, só por si, já transmitia uma mensagem inequívoca. Na verdade, logo após um primeiro capítulo dedicado ao Mistério da Igreja, que a define como sacramento de Cristo, o documento fala sobre a Igreja como Povo de Deus. Só depois se fala da constituição hierárquica da Igreja. Na gíria teológica, recorda-se que, em primeiro lugar, é referido o que une (sermos povo de Deus) e só depois os elementos de distinção.
É a isto que se refere o Papa Francisco quando, na carta corajosa recentemente publicada, recorda que “é impossível imaginar uma conversão do agir eclesial sem a participação ativa de todos os membros do Povo de Deus. Além disso, toda vez que tentamos suplantar, silenciar, ignorar, reduzir em pequenas elites o povo de Deus, construímos comunidades, planos, ênfases teológicas, espiritualidades e estruturas sem raízes, sem memória, sem rostos, sem corpos, enfim, sem vidas. Isto se manifesta claramente num modo anómalo de entender a autoridade na Igreja - tão comum em muitas comunidades onde ocorreram as condutas de abuso sexual, de poder e de consciência - como é o clericalismo, aquela «atitude que não só anula a personalidade dos cristãos, mas tende também a diminuir e a subestimar a graça batismal que o Espírito Santo pôs no coração do nosso povo». O clericalismo, favorecido tanto pelos próprios sacerdotes como pelos leigos, gera uma rutura no corpo eclesial que beneficia e ajuda a perpetuar muitos dos males que denunciamos hoje. Dizer não ao abuso é dizer energicamente «não» a qualquer forma de clericalismo.” (n. 2)
Tornar esta crise (todas as crises podem ser tempos de purificação, à maneira do que acontece com o ouro no crisol: liberta-se das impurezas para voltar à sua natureza autêntica!) a Hora da Igreja, fazendo-a sobreviver à morte que parece lançar sobre si a sua sombra, terá de passar por aceitar o desafio que nela se esconde: enfrentar o receio da verdade (quantas vocações mal amadurecidas e pouco vividas em comunidade!), não temendo dar o nome com que ela se apresenta; preparar os ministros das comunidades para a vida em comunidade (repensar com coragem, como a que houve, no século XVI, com o Concílio de Trento, o modelo de Seminário e de preparação dos ministros ordenados); preparar os cristãos, em caminhada catequética, não para uma religião de eventos, mas para uma religião vital, feita das perguntas e inquietações profundas da existência para as quais ela é resposta; reconfigurar as comunidades para o acolhimento das múltiplas dinâmicas que acontecem nas pequenas comunidades que fazem a grande comunidade; ler, em atitude humilde, os inúmeros sinais dos tempos, distinguindo o que é efémero do que é permanente e, acima de tudo, anunciar a salvação, porque a humanidade continua a ser humana, a viver inquieta, ainda que, nestes tempos, tantas vezes alienada em inúmeras distrações. A Igreja desta Hora terá de ser a Igreja que acolhe, que é porto de abrigo, que é comunidade, que acolhe e que se regozija com a presença alegre das crianças e dos seus pais, em cada celebração, sem os repudiar nem julgar. A Igreja desta Hora terá de ser a Igreja da Samaritana, do Nicodemos, mas também do jovem rico, terá de ser a Igreja que, à maneira do retrato feito por Rembrandt, no quadro sobre o Filho Pródigo, é, simultaneamente, mãe e pai: capaz de acolher sem ser infiel à verdade, mas sem que, por excesso de fidelidade à verdade, se torne sisuda e desprovida de afeto. A Igreja desta Hora é uma Igreja humilde porque Um só é o Mestre, a cujos pés nos sentamos, humildes e atentos, a ouvir o anúncio da certeza de que Deus não é, apenas, Aquele que tem amor: Ele é Amor! E isso basta!

E ao pó hás-de voltar… Não às cinzas estéreis e anónimas.

  Há uma sabedoria profunda, verdadeiramente divina, no ato de inumar o ‘corpo’ morto, de o devolver ao regaço adâmico de que proveio. Mas u...