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[Não me siga. Um só é Mestre e é digno de ser seguido. Venha, apenas, visitar-me, quando se lembrar e for oportuno... E que lhe seja agradável a visita!]
Mystérios lusitanos | A vinte e três (23) de cada mês, habitamos o mundo pelo imaginário de Alberto Ferreyra...
(Nos ramos da escrita, repousam, vezes sem conta, as gralhas da distração, ocultas, sob múltiplos disfarces, até que alguém as enxote. Alberto Ferreyra contou com o fino olhar da sua amiga Teresa Correia, detentora do segredo da sua identidade, para afastar ou caçar o grasnar das gralhas. Está-lhe, por isso, muito grato...)
Alberto Ferreyra*
Na rua do casal, chegados ao chafariz, pode subir-se ou descer. J. tomou o rumo da rua do bacelo. M. decidiu sentar-se e descansar. Haveriam de descer os dois, mas o momento pedia brando deleite. Do que fora, outrora, abundante bica resta, hoje, apenas, um lugar seco. Com a forma de uma ogiva e base quimérica – as quimeras da geometria que unem quadrados e hexágonos numa mistura originalmente inominável -, o chafariz de pedra guarda as memórias da família de que herdou o nome. M. sentou-se, meditativa, não se apercebendo de que J. se afastara. Um vento ligeiro desceu, macio, pelas pedras da rua. Enrolou-se em M. e levou-lhe a memória ao interior da morada do casal. O vento movia-se, brandamente. O tempo esperava. M. deixou-se tomar nos braços da brisa. Entrou, qual memória sem corpo, no interior da habitação. O chão, de soalho, rangia, como que percorrido por passos pesados. Atormentados, mas raros. Sobre um aparador, barrocamente rendilhado, repousavam fotos e livros. Amontoados como quem deixa a fermentar até vir a sorver, com deleite. Percebia-se ser gente letrada; não estavam abandonados, antes, delidos do uso. A memória de M. percorreu-os, longamente. Viu-lhes os títulos e os autores. Guardou recordação de um ‘Wilde’. Ao seu lado, entre as fotos, erguiam-se, em pose fresca, dois noivos. O olhar de M. regressou ali. Parecera-lhe perceber uma originalidade. A noiva permanecia igual ao que fora na primeira hora. A sépia, jovem, com o branco do tempo de outrora. O noivo estava rodeado de um cinzento novo e fresco – mas cinzento, sem cor - , ainda que de rosto já envelhecido. O tempo passara por ele. Guardara, para si, porém, a noiva. Jovem, como no primeiro dia. Por momentos, o vento devolveu M. à pedra do chafariz. Mas M. resistiu. Queria continuar a revisitar aquela memória. A um canto da sala, chorava-se. Pareciam as sombras de um velório. Uma voz, sem rosto, titubeava: ‘Ao menos, não morreu…’ ‘… no inverno em que viveu!’ … Um longo silêncio envolveu aquelas curtas palavras. Para se lhe seguirem outras e outras: ‘Trouxe-lhe a primavera aquela confissão da vida’. M. esperou. Haveria de compreender o significado do que ouvia. ‘Enquanto foi o ‘Terça-feira’, o seu viver foi um inverno. O da sua doce mulher, um inferno.’ De um outro lado da sala, que M. não conseguia ver, uma outra voz, também feminina, dizia, com firmeza: ‘Todos lhe chamavam o ‘Terça-feira’... Como não? Se só à terça-feira o via a pobre mulher, perdido andava ele pelas margens do existir nos outros dias do seu viver…’ E prosseguiu: ‘Viveu perdido, errante dos seus erros, sem olhar a bela mulher que decidira infernizar.’ ‘Dizem que vendera a alma ao diabo.’ – Acrescentou, cavernosa, a voz de um homem de que só se via, por detrás de uma ondulante cortina, a silhueta alta e hirta, como voz final ao desvairado Dom Juan… ‘Mas, nos derradeiros dias do seu existir, pediu-lhe a mulher que se tornasse ‘Todos os dias’. Aceitou confessar-se. Fazer a confissão de vida e reconhecer que os erros não tinham de o tornar um errante.’ ‘Viram-no entrar na igreja, de botas arrastadas, sulcando o chão. Voltaram a vê-lo, de olhar erguido, sair, horas mais tarde.’ ‘Podemos chorá-lo. Chorar todos os dias em que foi ‘Terça-feira’ e, para a mulher, ‘Dia nenhum’. ‘Mas esperar que se tenha tornado Antítono, e que o diabo lhe tenha devolvido a alma, restituindo-lhe a eternidade, com uma autêntica eterna juventude.’ – Rematou a primeira voz, regressando ao choro. Como que num teatro rematado, os cantos da sala escureceram. M. recentrou o seu olhar no aparador. Reviu os livros. Revisitou a foto. Tudo era, agora, autêntico. Entre os livros, uma mão delicada destacou um título: ‘ o gigante egoísta’. M. pareceu despertar. J. sacudia-a, levemente, esperando fazê-la regressar. J. nada lhe perguntou. Desceram, juntos, o que restava da rua do casal. De uma janela entreaberta, M. viu, sobre um amontoado de livros, uma foto a sépia. Nela, havia dois noivos. Ambos envelhecidos pelo tempo. M. olhou para J. Ia distraído nos seus pensamentos. Não o quis acordar da sua sonolência. Ou seria ela que permanecia indolente? Uma cortina agitava-se com o vento. Sobre o aparador sobre que repousava a foto, desprendia-se, de um calendário com destaques, uma folha sem indicação de mês. Um colorido e fosforescente destaque rodeava cada dia da semana; todos os dias!
*Alberto Ferreyra diz que as suas letras habitam a mente e saem da mão de alguém nascido em terras gaulesas, ainda que afirme, em sussurro, que o seu real nascimento ocorreu nas margens do Antuã, em abril de 2024. É, por isso, um prematuro autor literário, germinado da inspiração que a realidade proporciona quando se tem a companhia, nos livros, de génios como Jorge Luis Borges, Miguel Torga, Gabriel García Marquez ou personagens como Poirot ou Padre Brown.
Na sua escrita, cruzam-se o real e o imaginado, o fictício e o histórico, numa embrenhada teia em que o leitor continua a ler, mesmo já depois de fechado o conto. O real continua a fecundar histórias na mente de quem lê Ferreyra. Cada conto, feito dos mistérios desvelados, aproxima o tempo e distancia o espaço, esticando-o até ao eterno e ao infinito. Ao ler Ferreyra, faz-se 'silêncio' ('mystério' alude à etimologia grega da palavra, que remete para o 'fazer silêncio', 'emudecer-se'...) para que possam ecoar as palavras, para que possa desenovelar-se o enredo sucintamente desvelado.
J. e M., protagonistas de cada um dos contos, acompanhados, em alguns deles, pelo seu periquito 'branquinho', fazem emergir, do real em que se enredam, histórias que, nascendo da imaginação de Ferreyra, permanecem como realidades possíveis, deixando a suspeita de terem mesmo ocorrido.
Se não foi real, Ferreyra o criará, inspirado numa cosmovisão que tanto deve àquela religião que fez do encarnado a condição fundamental do existir.
A vinte e três (23) de cada mês, habitaremos o mundo pelo imaginário de Alberto Ferreyra...
Mystérios lusitanos | A vinte e três (23) de cada mês, habitamos o mundo pelo imaginário de Alberto Ferreyra...
(Nos ramos da escrita, repousam, vezes sem conta, as gralhas da distração, ocultas, sob múltiplos disfarces, até que alguém as enxote. Alberto Ferreyra contou com o fino olhar da sua amiga Teresa Correia, detentora do segredo da sua identidade, para afastar ou caçar o grasnar das gralhas. Está-lhe, por isso, muito grato...)
Alberto Ferreyra*
- As noites de outrora eram escuras; as noites de agora são longas… - M. meditava na vida. Parecia distante, mas dificilmente poderia supor-se mais presente à vida. E continuou, como se J., o seu irmão, não estivesse ali, mesmo ao pé de si. - Quando a noite é assim, escura como o breu, dou-me conta do sentido profundo das palavras bíblicas ‘o povo que andava nas trevas viu uma grande luz’. Como se anseia a luz quando o mais pequeno cascalho nos serve de escândalo, como gigante pedra de tropeço! Sabes, J.? Se Mateus decidiu voltar a pôr o profeta Isaías a repetir, séculos volvidos, as palavras que a esperança fervilhante do seu coração inspirava, para as ver confirmadas no nascimento de um pobre Menino, é, provavelmente, porque nelas se diz muito que ainda não conseguimos ver. Franziu o sobrolho e rematou: - Bem. É o que vou tentar descobrir. - Vem aí fantasia! – Rematou o irmão, correndo atrás de M., que saltara do pequeno muro da ponte chamada ‘da Senhora da Saúde’, repousada sobre o pequeno ribeiro molengão que atravessava as terras do Vouga. Correra para um lugar simbolicamente denominado ‘chão de além’. Correra como quem confia, porque a noite era densa. Uma leve neblina elevava-se, com frescura. Percorridas algumas centenas de metros, M. estacara. Sentara-se e olhava, ao longe, a luz da lua enamorada dos montes da margem esquerda do rio. Olhava, de novo perdida nas suas meditações. J. reconhecia aquele olhar. Sabia-o denunciador de uma viagem longínqua. - Vês aqueles caminhos? Por eles andou, há muito tempo, o nosso bisavô. Lembro-me de o contar o nosso pai. Numa das vezes em que fora visitar a mulher para quem falava (assim chamavam ao namoro…), a noite escura fez renascer todos os fantasmas que habitam as noites do pensamento. Só a lua o acompanhava. Mas, sob as ramadas, nem a lua servia de candeeiro. À medida que andava, parecia acompanhá-lo o caminhar de alguém. Parava e dizia, balbuciando: ‘Quem estiver aí que se mostre!’ Mas o ‘fantasma’ não só não se revelava como se silenciava. E o bisavô acelerava o passo, compassado com o medo que se abatia no coração. Após várias tentativas de convencer o tenebroso companheiro da noite, decidiu-se. Voltou-se. No momento em que o fez, deu conta de que o tacão da sua bota estava solto, provocando o ‘caminhar’ que o acompanhava. Não mais se deitou com o medo. Passaram a dormir em camas diversas. - Grande Bisa’! – Gritou J., efusivo. - Mas as noites de muitos continuam a ser o berço de inúmeros fantasmas. E os dias de alguns, noites constantes. Interrompeu-se para voltar a deliciar-se com a paisagem escura, apenas iluminada pela lua e como que edulcorada pela neblina. - Sabes o que me lembra esta colina? E fez um curto silêncio, como que a reavivar a memória para dizer, com certeza, o que o irmão esperava ouvir. - Aquela que criou o cenário em que São Francisco emoldurou o primeiro presépio da história depois do original; a bela colina de Greccio. De então para cá, a imaginação não mais se limitou e encheu de figuras o modesto presépio do início. - Mas, se da condição humana se adornou o próprio Deus?! - Que belo o que dizes, J.! Penso exatamente assim. S. Francisco bem o sabia. Toda a condição do humano pode fazer sua morada naquele modesto lugar de Belém. E eu, habitada pela imaginação franciscana, sinto-me enlevada e com perguntas que abrem novas portas à fantasia. Sempre me intrigou aquele momento. - Adivinho história… - Nunca te inquietou que só Mateus e Lucas tenham dedicado letras dos evangelhos a este momento da História do Jesus de quem Marcos e João só nos falam adulto? - O curioso é que tão tardiamente a própria história cristã tenha voltado a sua atenção para este quadro. - J., os tempos de perseguição exigiam, bem certo, um ir ao essencial, deixando, para depois da paz, a apreciação dos arcos mais distantes da espiral da fé. Celebrar o ressuscitado era o centro. O ressuscitado de quem um jovem que os primeiros discípulos não ouviram chegar falou como tendo resistido à força e ao poder da morte. - Não ouviram chegar! Que intrigante… - Sabes o que te digo? A minha imaginação diz-me que esse seu silêncio pode ter muito a dizer-nos sobre o primeiro momento. Os seus passos são como os de um Primeiro Jardineiro que, no tempo da inocência, também não ouvíamos, mas passámos a ouvir depois de termos desejado ser como deuses. O chão da eternidade não faz barulho. - Estou curioso, M. Explica-te. Não estou a perceber nada. - Porque escaparam os Magos do Oriente ao poderoso Herodes? - Não seguiram por outro caminho, M.? Não é assim que diz o evangelho? - Mas, com os seus esbirros, o grande Herodes teria sabido bem como segui-los. E não foram os sábios do Oriente guiados por uma estrela que poisou sobre a gruta onde estaria o Menino? Que melhor forma de localização? - Densificas a história com as tuas perguntas, M. Explica-te lá. - Tenho uma hipótese. O evangelho não o diz. Não tinha de nos dizer tudo. Mas deixa-nos sinais. ‘O povo que andava nas trevas viu uma grande luz.’ A estrela que poisou sobre o lugar da manjedoura era, ainda, sóbria. Sinal simples para os que dela precisavam. Localizada, porém, a morada onde decidira habitar connosco o Eterno, essa luz elevou-se e toda aquela noite se tornou um só dia. A Judeia ficou iluminada como se o sol tivesse madrugado. Os Herodes de então ficaram sem bússola. Toda a terra de Judá era, neste momento, uma noite luminosa. Entretanto, entravam naquela modesta morada os sábios que a tradição posterior identificou como sendo três – pois se três eram os presentes! –, e a quem Beda, o venerável, associou, para sempre, nomes que haveriam de dar rosto e aspeto a cada um deles. Certamente, diante daquele Menino, haveriam de descalçar o que lhes cobria os pés. Bem sabiam estar perante Deus humanado! Curvaram-se e depositaram, talvez aos pés da mãe ou, até, nas mãos do emudecido pai adotivo, aquele que unia, por gerações contínuas, ao grande rei David, as prendas com que simbolizavam a condição de rei, de sacerdote e de Homem com que se revestia aquele Menino. - Descalçaram-se? Está boa. Nunca tinha pensado em tal coisa. - Pois se Deus estava, ali, presente naquele Menino, aquele que haveria de ir ao Egito, como outrora o fora o povo submetido ao Faraó, conquistando a liberdade pela mão de Moisés, após este viver, descalço, a presença do Eterno, no Monte Sinai!? O Menino vai ao Egito… O primogénito que sobreviverá à praga que matara, séculos antes, os primogénitos súbditos do Faraó. Uma praga, já não realizada pela natureza, mas pela mão humana. A praga de um fragelante Herodes… E do Egito regressará para libertar, de vez, o povo. Já não um povo único, mas o povo que é a humanidade. - Lindo o que dizes! Jesus é o novo Moisés. Mas, M., mesmo que a estrela tenha iluminado toda a noite, os passos de um sábio do oriente são inconfundíveis. Herodes e os seus capatazes haveriam de descobrir, no chão do pó da Judeia os seus traços. O calçado de um sábio do Oriente identifica-se com facilidade. - Não há natal sem presentes. O Menino não haveria de deixar de mãos vazias os que o receberam antes de todos. - Bem. Tinha a salvação para lhes oferecer. - Certamente! Mas, ali, a salvação tinha um nome mais próximo: sobreviver ao desejo de Herodes. Os sábios já não saíram dali com o mesmo caminhar. Nos seus pés, levavam as sandálias do jardineiro inicial, as que transfiguram o chão de pó em chão do além, o chão que não guarda marca e é percorrido como passo silencioso. - Que fantasia habita a tua mente, M. - E estou certa, J…. Aos pés da cruz, trinta e três volvidos, três pares de sandálias foram depositados e entregues aos discípulos no regresso de Emaús. As mesmas sandálias que terá calçado o jovem jardineiro que lhes anunciaria que a morte tinha sido vencida. Talvez por isso depositamos na lareira do natal as sandálias que cobrem os nossos pés. Mas essas ainda se fazem do pó do chão de aquém. Calçá-las-emos, um dia… Quando o nosso for o definitivo chão do Além.
*Alberto Ferreyra diz que as suas letras habitam a mente e saem da mão de alguém nascido em terras gaulesas, ainda que afirme, em sussurro, que o seu real nascimento ocorreu nas margens do Antuã, em abril de 2024. É, por isso, um prematuro autor literário, germinado da inspiração que a realidade proporciona quando se tem a companhia, nos livros, de génios como Jorge Luis Borges, Miguel Torga, Gabriel García Marquez ou personagens como Poirot ou Padre Brown.
Na sua escrita, cruzam-se o real e o imaginado, o fictício e o histórico, numa embrenhada teia em que o leitor continua a ler, mesmo já depois de fechado o conto. O real continua a fecundar histórias na mente de quem lê Ferreyra. Cada conto, feito dos mistérios desvelados, aproxima o tempo e distancia o espaço, esticando-o até ao eterno e ao infinito. Ao ler Ferreyra, faz-se 'silêncio' ('mystério' alude à etimologia grega da palavra, que remete para o 'fazer silêncio', 'emudecer-se'...) para que possam ecoar as palavras, para que possa desenovelar-se o enredo sucintamente desvelado.
J. e M., protagonistas de cada um dos contos, acompanhados, em alguns deles, pelo seu periquito 'branquinho', fazem emergir, do real em que se enredam, histórias que, nascendo da imaginação de Ferreyra, permanecem como realidades possíveis, deixando a suspeita de terem mesmo ocorrido.
Se não foi real, Ferreyra o criará, inspirado numa cosmovisão que tanto deve àquela religião que fez do encarnado a condição fundamental do existir.
A vinte e três (23) de cada mês, habitaremos o mundo pelo imaginário de Alberto Ferreyra...
Mystérios lusitanos | A vinte e três (23) de cada mês, habitamos o mundo pelo imaginário de Alberto Ferreyra...
(Nos ramos da escrita, repousam, vezes sem conta, as gralhas da distração, ocultas, sob múltiplos disfarces, até que alguém as enxote. Alberto Ferreyra contou com o fino olhar da sua amiga Teresa Correia, detentora do segredo da sua identidade, para afastar ou caçar o grasnar das gralhas. Está-lhe, por isso, muito grato...)
Alberto Ferreyra*
- São mesmo estreitos estes degraus! Não admira que o pai aqui tenha caído, segundo nos conta, nas vésperas da sua primeira comunhão. - Outros tempos! Se fosse hoje, teríamos memórias fotográficas das inúmeras mazelas com que terá ficado. – Atalhou M. – Mas, desses tempos, só nos ficaram as palavras contadas. J. e M. percorriam o passado, visitando-o do cimo das estreitas escadas que levam até à primeira leira da casa da Mata, uma humilde casa de aldeia, da cor do salmão, com rés-do-chão e primeiro andar. Como em todas estas simples moradias de camponeses, no andar térreo, havia um modesto lagar, onde, segundo recordavam as memórias repetidas vezes narradas, se chegara a dormir de tanto cansaço. Uma exterior escada de pedra levava à parte nova da casa, onde se acrescentaram pequenos quartos para visitas, cujo chão era de soalho. Tudo rangia. Como o tempo entre as articulações de um homem. A água, sempre farta, corria, sem se deter, no pequeno tanque repousado sobre um eternizado lamaçal. Lugar perfeito para um robusto tapete de marias-moles, deleite desejado dos galináceos que por ali cirandavam. Ao fundo, percorridas algumas leiras e atravessada a estrada, o rio! Lento e demoradamente atento. O rio de todas as memórias, de hoje, do passado e do futuro. Um rio é sempre um reservatório de memórias. Se não das vetustas, das vindouras. Pois não há nascente que não apele a uma foz. Disso se faz um rio. Do cimo das escadas, ouvia-se, por isso, o som do rio. Não agreste, pois aquele não é o lugar de um leito rápido. Antes o de uma prolongada estadia. O Vouga gosta daquela margem de Pessegueiro e ali se deleita… Era, por isso, um lugar de espera e de misteriosos aconteceres. O Rio demorava-se e fazia-se sentir como serena voz das esperas. De todas as esperas. As que se viam, mas, principalmente, as que ouviam, sem que as vissem os olhos. Um tal esperar-se o tempo que se alonga não podia senão ecoar no modo de ser. O modo próprio do ser da Mata. - Como dizia, tantas vezes, a avó, duas pessoas da Mata podiam sair para a missa sem partilharem, até aos ‘Santos’, uma palavra que fosse. – Gracejou J. – Mas confiavam umas nas outras, como cegos firmes na mão que os leva. E silenciou-se, enquanto colhia pequenas violetas nascidas na sempre humedecida terra que repousava sobre o muro em que se encostavam aqueles degraus que davam para um pequeno curral. - Não era ali que estavam os coelhinhos que o pai nos disse que o levara a querer descer, apressadamente, estas estreitas escadas, quando pequeno? – Recordou M., apontando para a porta velha e mal fechada que deixava adivinhar uma longa história de sucessivas ninhadas de láparos. Uma luz, atravessando as já pronunciadas frestas daquela enrugada porta, fez parar a narrativa de M. J. continuava distraído, de olhos abertos, a apanhar violetas. Erguendo-se, como que seduzida por uma voz misteriosa, M. encaminhou-se para o fundo dos degraus. A medo, de olhos arregalados e cheios de mistério, abriu, pouco decidida, a porta que resistiu à sua parca força. Nada! A luz apagou-se. Regressou ao lugar donde saíra. - O que te mordeu? – Perguntou, com um certo tom de malícia, J. – Havia coelhos em ninhada? E voltou a dirigir os olhos para o que estava a fazer. M. ficou, porém, incomodada. Estava certa de ter visto uma luz. A reação do irmão deixara-a com a certeza da sua incompreensão. Decidiu, por isso, dispensar-se de lhe contar. Estava, porém, entre estes pensamentos quando voltou a parecer-lhe que algo luminoso parecia emergir do interior daquele sombrio curral. - J., estás a ver o mesmo que eu? J. ergueu os seus olhos das violetas e tentou perceber o que M. via. Era ele, agora, que estava atónito. De um salto, pôs-se junto à porta, de olhos assombrados. Abriu-a e, tal como acontecera com M., a luz extinguiu-se. Sem jeito, com mãos e pés trocados, subiu os degraus até junto da irmã. O seu respirar era tão trôpego como o seu andar. - Porque se apaga a luz quando abrimos a porta? Assusta-me isto. Encostaram-se um ao outro, à espera de que mais alguma coisa acontecesse. Nisto, nova luz emergiu. M., mais corajosa, decidiu-se a enfrentar aquele mistério. Compassadamente, aproximou-se da porta. A luz continuava intensa. Abriu, com cuidado, a porta. À medida que a abria, a luz ia diminuindo de intensidade. Decidiu voltar a fechá-la. A luz voltou a robustecer-se. Percebeu que, se abrisse a porta, não conseguiria que a luz se mantivesse acesa. Fechou, por momentos, os olhos para pensar, voltando costas à porta, a que se encostou. Sem se aperceber, de olhos cerrados, uma ligeira brisa abriu, vagarosamente, a porta. A luz mantinha-se acesa. Para J., porém, a luz extinguia-se. Só para M. se mantinha a luz acesa, que se voltou para o interior do curral. De olhos fechados, via que a luz iluminava aquele modesto espaço, que ganhava vida. Um vulto estava sentado a um canto, num pequeno mocho, de queixo repousado sobre um velho cajado. M. conservava os olhos fechados. Via, assim, toda aquela cena. Do cimo das escadas, J., confundido, nada percebia daqueles eventos. Aquele recanto era, para ele, apenas breu. O homem, sentado no mocho e de queixo pousado sobre o velho cajado, sussurrou ao ouvido de M.: - Só de olhos fechados se pode ver a verdade de um homem. M. abriu os olhos e tudo foi devolvido à escuridão. Subiu as escadas, até junto do irmão. M. brilhava. Todo o seu rosto, o seu corpo era luz. Abraçou o irmão, deu-lhe um suave beijo no rosto e pediu-lhe: - Olha para mim… Não! De olhos fechados!...
*Alberto Ferreyra diz que as suas letras habitam a mente e saem da mão de alguém nascido em terras gaulesas, ainda que afirme, em sussurro, que o seu real nascimento ocorreu nas margens do Antuã, em abril de 2024. É, por isso, um prematuro autor literário, germinado da inspiração que a realidade proporciona quando se tem a companhia, nos livros, de génios como Jorge Luis Borges, Miguel Torga, Gabriel García Marquez ou personagens como Poirot ou Padre Brown.
Na sua escrita, cruzam-se o real e o imaginado, o fictício e o histórico, numa embrenhada teia em que o leitor continua a ler, mesmo já depois de fechado o conto. O real continua a fecundar histórias na mente de quem lê Ferreyra. Cada conto, feito dos mistérios desvelados, aproxima o tempo e distancia o espaço, esticando-o até ao eterno e ao infinito. Ao ler Ferreyra, faz-se 'silêncio' ('mystério' alude à etimologia grega da palavra, que remete para o 'fazer silêncio', 'emudecer-se'...) para que possam ecoar as palavras, para que possa desenovelar-se o enredo sucintamente desvelado.
J. e M., protagonistas de cada um dos contos, acompanhados, em alguns deles, pelo seu periquito 'branquinho', fazem emergir, do real em que se enredam, histórias que, nascendo da imaginação de Ferreyra, permanecem como realidades possíveis, deixando a suspeita de terem mesmo ocorrido.
Se não foi real, Ferreyra o criará, inspirado numa cosmovisão que tanto deve àquela religião que fez do encarnado a condição fundamental do existir.
A vinte e três (23) de cada mês, habitaremos o mundo pelo imaginário de Alberto Ferreyra...
Mystérios lusitanos | A vinte e três (23) de cada mês, habitamos o mundo pelo imaginário de Alberto Ferreyra...
(Nos ramos da escrita, repousam, vezes sem conta, as gralhas da distração, ocultas, sob múltiplos disfarces, até que alguém as enxote. Alberto Ferreyra contou com o fino olhar da sua amiga Teresa Correia, detentora do segredo da sua identidade, para afastar ou caçar o grasnar das gralhas. Está-lhe, por isso, muito grato...)
Alberto Ferreyra*
- Deixa-me intrigada que, com dois olhos, um nariz e uma boca, se façam tantos rostos. - E as relações geométricas entre eles, a cor da pele, as simetrias e assimetrias e outras variáveis? – Atalhou, prontamente, J., desvalorizando a surpresa da irmã. E continuava, como em noite de insónia, a acompanhar cada chegada e cada partida. Aquela tarde de verão nutria de acelerados passageiros a pequena estação em que desembocava a avenida central da cidade. Diante de J. e M., sentados no único banco exterior, uma pequena rotunda homenageava os bombeiros, preenchida de ervas sem flores. A um canto, enrolado sobre si, um homem, cujo odor fétido se sentia ao longe. As barbas cobriam-lhe o peito. Sentia-se o calor que exalava daquela pele. Mas o olhar parecia ausente. Só barbas e o odor… Aquele odor!... - Bem sei. Mas não deixo de me admirar. Como um ligeiro desvio na maçã do rosto pode fazer de alguém um ‘quase-bonito’ ou, de um outro, uma autêntica Helena de Troia! E quanto se transmite num ligeiro franzir de sobrolho ou no esgar de dor! – Concluiu M., sem alongar a conversa. O silêncio preencheu os espaços. E o tempo… Subitamente, o olhar de ambos prendeu-se ao de duas mulheres. Cada um a uma mulher distinta. Ambas belas. Ambas sofridas, no olhar. Uma, de olhar negro, sulcos cavados nas redondezas dos olhos, olhava para diante, lenta, sem fixar nada. - Como diz o povo, parece uma Madalena ainda não reencontrada! – Assim rompeu M. aquele demorado silêncio. A outra mulher olhava para o mundo com a verdura dos campos. Profunda. Longa. Mas igualmente demorada. - Credo! Olha-me estes olhos! – J. acotovelou a irmã, que, de imediato, recolheu o braço, em ligeiro movimento de dor. Deslocou o seu olhar da mulher de olhos negros para a que, agora, lhe apontava o irmão. - Mas tanto sofrimento naquela beleza! – Rematou. O caminhar daquelas duas mulheres cruzou-se frente ao banco onde estavam os dois irmãos, sem que se tenham sabido contemporâneas. Seguiram o seu rumo, distantes uma da outra, a uma distância que só no olhar daqueles irmãos se anulou. Não mais se viram. Mas não mais deixaram de ser vistas, no olhar de J. e M. … e daquele triste e fétido homem, sentado no canto da estação que se ergueu de um salto, com uma energia que surpreendeu os irmãos. Sentou-se, junto deles. - Admiram-se de tantos rostos se fazerem com tão pouco? Ah, quantos rostos se fazem com o mesmo rosto! Quantos rostos já tive eu próprio! E que rosto vedes, agora? A pergunta não parecia mais do que retórica, mas M. e J. ficaram, por momentos, incomodados, como que surpreendidos pela urgência de lhe dar uma resposta. - Bem… Quer mesmo saber? – Ousou dizer M. O homem não parecia, porém, interessado em ouvir. Fechou os olhos, como quem busca, nas pálpebras, as letras de um discurso, e avançou. - Conheço estas duas mulheres de as ver e de lhes reconhecer a história pelo olhar. Ambas mulheres amadas, desejadas e a quem um dia o amor tornou mães. J. e M. estavam inquietos. Aquela conversa parecia emergir do nada. Se o homem vinha falar de olhares, era porque tinha estado atento à conversa. Recordaram, rapidamente, todo o conteúdo dos seus diálogos. A ver se alguma coisa os poderia comprometer. E aquele odor! Incomodava e quase tornava impossível acompanhar, com concentração, as palavras. Pareciam flutuar sobre lixo. Entredentes, M. tartamudeou: - Mano, mano, este homem será de confiança? Sabes quem é? - Lembro-me de o ver sair da casa que dizes ser dos megapixéis, a casa de azulejos pequenos de cores diversas que parece ser uma foto de má qualidade quando ampliada. - Bem me lembro. Mas mais parece um sem-abrigo… O homem deteve o seu discurso, esbugalhou os olhos e fixou-os nos irmãos. Um frio gélido, indiferente ao calor daquela tarde, percorreu cada osso e músculo dos seus corpos. Decidiram-se, num assentimento tácito, não mais o interromper até que considerasse chegada a hora de recolocar o selo sobre o pergaminho do seu discurso. O homem voltou a fechar os olhos. - Aqueles negros olhos são de uma mãe que do seu ventre viu nascer um amado filho. Viu-o crescer. Amou-o e viu-o ser amado até que, numa tarde em que boa notícia seria não lhe darem notícias, numa das curvas da foz a morte abrupta por acidente o levou dos seus braços. - Regressa, todos os dias, mais de vinte anos volvidos, ao sítio de onde o levaram de si para sempre. Ali deposita flores e mantém viva uma luz. Todos os dias. Todos os dias. O homem deteve-se, por um momento. Assoou-se, comovido, e prosseguiu. - Por aqui passa, dia após dia. De comboio, desce até à cidade dos canais para daí seguir até às dunas do mar, onde recolhe as flores com que leva beleza ao lugar onde tudo, para ela, se fez feio. Assim, sempre. E para sempre. As lágrimas desciam, lentas, pelo rosto de M. e J. O silêncio fez-se demora. Até que M., limpando o rosto, segredou ao ouvido do homem, cúmplice na dor. - E a mulher de olhos verdes? De que dores fala aquele olhar? O homem acomodou-se, no banco, como que finalmente recebido, pousou os cotovelos nos joelhos, repousando o queixo sobre as palmas das mãos. Fixou o olhar na rotunda onde não havia flores. Só plantas, mas nenhuma flor. - Olhai para o que tendes diante dos vossos olhos. O que vedes? A pergunta gerou estranheza em J. e M. O homem parecia querer desviar a conversa. Olharam um para o outro… - Não mais do que uma rotunda e um singelo e justo monumento de homenagem aos bombeiros. – Ousou dizer J. - Como os rostos falam, também pode ser muito sonoro o silêncio do mundo em que nos fazemos gente. Olhai com mais atenção. M. arregalou os olhos de espanto, quando lhe pareceu perceber o que aquele homem pretendia mostrar-lhes. - Vejo plantas que deveriam estar floridas, mas que não o estão. - Achais que é porque não podem florir? Digo-vos que não. Não florescem porque não as deixam florir. A mulher dos olhos verdes pôde, um dia, florescer. Foi, também ela, amada, até que, num dia que rapidamente se fez noite, uma flor começou a florescer no seu ventre. ‘Desmancha-te!’ – disseram-lhe. ‘Desmancha-te!’. Ainda resistiu, uns dias, mas a malfadada lei que diziam protegê-la por ser mulher, desprotegeu-a de ser mãe. Não conseguiu resistir e foi ao desmancho, como lhe diziam. Nesse dia, a mulher que ela era continuou a sê-lo, mas a mãe que ela fora morreu no filho que as vozes lhe pediam que desmanchasse. Nesse dia, essa mãe morreu com o seu filho. Sonha, todas as noites, nas noites da sua solidão, com o filho que não deixou nascer. Vê-lhe um rosto, sente-lhe o cheiro, ouve-o chorar. Ele assalta-lhe os sonhos como pesadelo e é neste canteiro que ela vem desmanchar a sua perda. Nenhuma flor aqui voltará a brotar enquanto ela não renascer no seu coração. M. sentiu-se revoltada… Revoltada… Queria gritar contra as vozes – sempre essas vozes, sem rosto nem nome; vozes sem olhar: o vazio! - e contra os que lhe tinham assegurado que, pela força das leis, a estavam a proteger. Mas a frieza das leis deixara-a abandonada à sua solidão. Nunca se perdoara ter impedido aquele filho de ver a luz. Deixara-o, para sempre, na noite, a escuridão da inexistência, o abandono da morte. M. desejava poder deter-se diante do profundo daquele olhar vencido. Erguê-la da derrota de um dia para, restaurada, a fazer assomar ao olhar de outras mulheres que, como ela, se enrolaram de medo, aturdidas pelas vozes que repetiam, maviosamente: «Vai ao desmancho»! «Livra-te disso!» Esta revolta cansou-a. Deixou-a perturbada, umbigada no mais profundo de si. Ela mesma, M., sentia que podia ter sido aquele filho rejeitado, recusado, ‘desmanchado’. Tomava conta do seu espírito uma certeza: - Se de um só pode depender-se assim, na fragilidade dos nossos primeiros dias, todos, então, sobrevivemos da nossa própria morte arbitrariamente evitada e vivemos vidas de um luto definitivo. M. soluçava, à medida que estes pensamentos lhe preenchiam a alma. Recomposta, exteriorizou uma pergunta com que cruzou o seu olhar com o daquele homem de sujas barbas até ao peito: - Se sabe tudo isso, porque não diz a estas duas mães que há uma dor comum às duas? - A dor da perda une-as, mas afasta-as um abismo. Uma era a mãe que queria ser e o fado impediu de continuar a sê-lo; outra foi a mãe que já o sendo desistiu de continuar a sê-lo. Antes de se encontrarem uma com a outra, terão de se encontrar cada uma consigo mesma. M. adivinhara, nas suas errâncias, esta resposta. O homem desenrolado de si concluiu: Mas, - Digo-vos! – há um segredo, neste canteiro. Entre as plantas, cresce uma biloba – era-lhe difícil o nome de ‘ginkgo biloba’! -. Mesmo que sempre a cortem, ela voltará a brotar, vezes sem conta. Até ao dia em que dará fruto, ainda que sem flores. - Sempre te disse, J., que a graça é o humor do Amor que Deus é. Nos abismos mais estéreis da existência, há sempre lugar para a esperança. O homem ergueu-se do banco. Deu três passos e voltou-se. Olhou, fixamente, primeiro, o olhar de M., e, depois, o de J. e rematou: - Muitas são as curvas com que se chega a uma foz. Mas esse não é, ainda, o lugar do fim. Todo o rio leva ao mar. E subiu, trôpego, pela avenida, deitando um ligeiro olhar sobre o canteiro reverdejante. M. e J. acompanharam-no, silenciosos, até que o perderam de vista. Fecharam os olhos. No ar, um suave perfume de flores! …e um subtil odor a maresia…
*Alberto Ferreyra diz que as suas letras habitam a mente e saem da mão de alguém nascido em terras gaulesas, ainda que afirme, em sussurro, que o seu real nascimento ocorreu nas margens do Antuã, em abril de 2024. É, por isso, um prematuro autor literário, germinado da inspiração que a realidade proporciona quando se tem a companhia, nos livros, de génios como Jorge Luis Borges, Miguel Torga, Gabriel García Marquez ou personagens como Poirot ou Padre Brown.
Na sua escrita, cruzam-se o real e o imaginado, o fictício e o histórico, numa embrenhada teia em que o leitor continua a ler, mesmo já depois de fechado o conto. O real continua a fecundar histórias na mente de quem lê Ferreyra. Cada conto, feito dos mistérios desvelados, aproxima o tempo e distancia o espaço, esticando-o até ao eterno e ao infinito. Ao ler Ferreyra, faz-se 'silêncio' ('mystério' alude à etimologia grega da palavra, que remete para o 'fazer silêncio', 'emudecer-se'...) para que possam ecoar as palavras, para que possa desenovelar-se o enredo sucintamente desvelado.
J. e M., protagonistas de cada um dos contos, acompanhados, em alguns deles, pelo seu periquito 'branquinho', fazem emergir, do real em que se enredam, histórias que, nascendo da imaginação de Ferreyra, permanecem como realidades possíveis, deixando a suspeita de terem mesmo ocorrido.
Se não foi real, Ferreyra o criará, inspirado numa cosmovisão que tanto deve àquela religião que fez do encarnado a condição fundamental do existir.
A vinte e três (23) de cada mês, habitaremos o mundo pelo imaginário de Alberto Ferreyra...