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terça-feira, abril 07, 2026

Sabes, leitor... | 28 | Marca de água do livro de Bernard Michal, 'Os julgamentos de Nuremberga'

 


Rubrica ‘Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página’** | Marca de água de livros que deixam marcas profundas
Parceria: Federação Portuguesa pela Vida e Comissão Diocesana da Cultura

Luís Manuel Pereira da Silva*

O(s) autor(es) e a obra
Bernard Michal, Os julgamentos de Nuremberga, Porto Salvo, Edições Desassossego, 2019.

Bernard Michal, o autor de ‘Os julgamentos de Nuremberga’, é um jornalista e historiador, nascido em 1932, em França, quando as nuvens da Guerra já se erguiam no horizonte, como bem se percebe, pela leitura desta obra. Tem dedicado a sua vida à investigação sobre guerras e, em particular, a Segunda Guerra Mundial. Contam-se, entre os seus mais destacados títulos, ‘A Guerra Civil Espanhola’, ‘Os grande enigmas da Segunda Guerra Mundial’, mas também ‘História das seitas e das sociedades secretas’ (em coautoria com Jean Renald), ‘Os grandes enigmas da Resistência’, ‘Os grandes enigmas da Libertação’, revelando-se um profundo conhecedor da história da conflitualidade humana. Merece referência, a confirmar esta constatação, o seu ‘As personagens malditas da história’, ainda não editado em Portugal.
Em ‘Os julgamentos de Nuremberga’, Michal mostra-se um investigador muito minucioso e um escritor extremamente atento às expectativas do leitor.
Contextualiza, explica, detalha, permitindo que não fique incompreendidas as diversas afirmações formuladas, as referências históricas mencionadas e as situações enunciadas. A leitura da obra de Bernard Michal, em geral, e desta, em particular, homenageia as vítimas silenciadas pelo estertor das armas dos fortes, assegurando a justiça possível que se pode fazer por levantar do pó do silenciamento os nomes dos inocentes caídos às balas dos cruéis.
É a experiência que se faz ao preparar os nossos passos para entrar em Auschwitz. Lia esta obra quando ali fui, entre 12 e 15 de março de 2026. Antes de atravessarmos o portão onde a ironia cruel nazi nos assegura que ‘o trabalho cria liberdade’ (traduzo, livremente, ‘arbeit macht frei’, que encima o portão principal do campo de concentração), somos conduzidos por um longuíssimo corredor de betão onde o silêncio que toma conta de nós é apenas interrompido por uma voz cadenciada que diz nomes. Os nomes das vítimas do terror que ali se levou ao zénite.
Nomes… Nomes… Apenas nomes. Porque cada nome é um mundo, uma pessoa, uma vítima. Só os delas nos é devido repetir. Os dos seus ‘carrascos’ só lembraremos para não mais esquecermos o mal que fizeram. Os das suas vítimas, porque a justiça no-lo exige.

 

Marcas de água 

(o que fica depois de se deixar o livro)

Li este livro entre 12 de março e 1 de abril de 2026. Obriguei-me a lê-lo no tempo em que, em visita de estudo, percorri os lugares de que nele se fala. Os lugares que se tornaram ‘não-lugares’ (para referir uma categoria evocada por Marc Augé).
Sempre me inquietou e perturbou a potencial resposta para a pergunta ‘como foi possível?’. A pergunta ganha densidade se pensarmos que a crueldade atingida em Auschwitz-Birkenau (Auschwitz foi prolongado para Birkenau por necessidade de aumentar os ‘não-lugares’ e prolongar a maldade até aos limites do possível) foi protagonizada por líderes políticos de um dos países onde se ergueram os maiores de entre os humanos: Bach, Beethoven, Kant, Leibniz, Haendel, Goethe, etc. foram alguns dos mais destacados de sempre entre os humanos. A Alemanha é associável ao que de maior e melhor se fez. Muita da nossa tecnologia quotidiana tem origem alemã, muito do nosso saber, muitos dos nossos conceitos, muitas das nossas ‘luzes’ são de ‘genética’ alemã. E, porém, a elevação da cultura não impediu o emergir de um regime assente na crueldade e na inumanidade e desumanidade.
Como foi possível?
E, mais densamente excruciante, ‘poderá, um dia repetir-se?’
Ao ler-se Michal, fica uma certeza: o caldo que permitiu isto é fórmula repetível, por ser fórmula disponível. O regime não nasceu em 1 de setembro de 1939. Há uma longa história que começa com a criação do partido, em 1920, onde se anuncia que há um inimigo comum e onde se define a estratégia: a violência fará parte da genética deste ‘movimento’.
Tudo sob a aparência de algo legítimo, pois evocava-se a injustiça dos tratados com que se ‘fechara’ a primeira Guerra Mundial.
Com a leitura desta obra de Michal, ficaremos na posse de muito mais do que as muitíssimas informações que ela nos faculta. Saberemos, certamente, como se organizou o partido nazi, desde as embrionárias ideias de um ‘ferreiro’ de nome Anton Drexler, em 1920, a que se associa Adolf Hitler, com a sua perturbadora personalidade, entre o fascinante e o arrasador: onde Hitler está, tudo fica terraplanado; como a cumplicidade da república de Weimar foi criando as condições para que as narrativas hitlerianas fossem germinando; saberemos o contributo, para esse germinar, do incêndio do Reichstag (1933), da ‘noite das facas longas’ (1934) e da morte de Roehm, líder das SA, ou, ainda, da ‘noite de cristal’ (1938); o que significa falar dos prisioneiros ‘noite e nevoeiro’, ou o que foi o massacre de Oradour (em 1944); compreenderemos os planos ‘branco’ (invasão da Polónia), ‘amarelo’ (invasão da Bélgica), ‘barbarossa’ (invasão da Rússia) ou a operação ‘Marita’ (da invasão da Grécia) e ‘Leão Marinho’ (da invasão de Inglaterra); surpreender-nos-emos com os números avassaladores dos mortos em campos de concentração (26 milhões), dos quais 6 milhões são só de Judeus; saberemos, ainda, os mistérios associados à detenção (tantas vezes em circunstâncias inesperadas como a de Julius Streicher, disfarçado de ‘pastor’) dos maiores criminosos nazis; o fim de Goebbels, ou Goering, ou Bormann, ou Hans Frank (o governador da Polónia sob o jugo nazi), ou Himmler ou Krupp ou Ribbentrop, etc. Saberemos tudo isso e tanto mais que Bernard Michal nos faculta, com detalhes. Mas, principalmente, deparar-nos-emos com uma constatação que podemos cunhar como Joachim Fest registou: tudo isto foi feito sob a capa de um ‘amoralismo tecnocrático’. O amoralismo foi o caldo mais profundo do nazismo.
Com esse caldo, à medida que o tempo passa, Hitler cria um polvo que atinge as mais ínfimas estruturas da sociedade, sempre sob o espectro do medo e da imprevisibilidade. Mas com a aura da legitimidade.
Os relatos minuciosamente descritos por Michal mostram-nos que Hitler é portador de uma personalidade simultaneamente sedutora e irascível. Com recurso ao isolamento dos que se lhe opõem, as suas ferozes conversas deixam atónitos os mais seguros de entre os líderes. É assim que ‘encurrala’ os presidentes ou chefes dos Estados que prevê invadir (secretamente), mas cujo respeito pelos limites fronteiriços alardeia aos quatro ventos, criando uma falsa sensação de paz e segurança, enquanto, nos bastidores, organiza a posse sempre falsamente justificada.
Amoralismo, divisão, medo, distração e a surpresa do inesperado. O caldo para que se espalhe um regime cruel.
E, claro, o silêncio e cumplicidade dos que não querem saber ou até justificam a violência.
Atordoa constatar, ainda, que, com raras exceções, os julgados (e condenados) de Nuremberga justificam as suas ações com o dever de obediência. Mas, como bem recorda Michal, ‘[mesmo] em tempo de guerra certos atos reprovados pela moral ficam dependentes da justiça e são passíveis de sanções exemplares.’ (p. 14)
Regressar a Nuremberga é corresponder ao dever de lembrar para que não se repita, mas, também, ao dever de exumar do pó da história as vítimas inocentes. Para que elas vençam e nunca os injustos e cruéis poderosos.
Para que, enfim, continue com resposta negativa a pergunta: ‘poderia, um dia, repetir-se o que os nazis fizeram?’
Não se pense que só os outros são capazes do pior. Aqueles homens eram iguais a todos os demais. Mas deixaram justificar o mal que realizaram com elevadas justificações e pretextos. É a isso que temos de permanecer atentos. Há linhas vermelhas que jamais nos admitiremos transpor. A dignidade de todo e cada ser humano e a sua inviolabilidade devem constituir-se como fronteira cuja transposição jamais nos deveremos admitir realizar. Mas há nuvens sombrias nos céus. Regressemos a Nuremberga e interroguemo-nos. Deixemos a pergunta habitar-nos até às fímbrias da alma. O grito dos inocentes pede a autêntica justiça de não se repetir a crueldade…
Nuremberga continua a ecoar como juízo na História. Não o juízo dos vencedores, mas o juízo da consciência atenta ao rosto (essa categoria ética cunhada por um judeu também perseguido pelos nazis, Emmanuel Lévinas) do outro em quem se reconhece um tu, um irmão. Um rosto, um nome humanizam. Tão bem o sabiam os nazis que todos reduziam, quando chegados aos campos, a meros números tatuados com brasa na pele.
Nuremberga é o lugar dos nomes, dos rostos… Dêmos um nome; reconheçamos cada rosto. E Auschwitz não se repetirá…

 

 

Na mesma página que o autor (citações)

‘Nuremberga, novembro de 1945, primeiro outono de paz. Três quartas partes da cidade estão destruídas. Do seu esplendor restam algumas ruínas no bairro medieval. As igrejas de S. Lourenço, de Nossa Senhora, de S. Sebaldo, o castelo imperial do século XII e a casa onde viveu Dürer foram gravemente atingidos. […] É nesta cidade que os criminosos de guerra nazis vão ser julgados. Para os quatrocentos jornalistas vindos de todos os pontos da terra, Nuremberga é, antes de tudo, a imagem da Alemanha vencida.’ (p. 13)

‘A criação do Tribunal Militar Internacional suscitou uma série de dificuldades de ordem moral e jurídica, material e diplomática. Basta que se leia o jornal Le Monde de 18 de novembro de 1945 para se tomar consciência do problema moral levantado pela instituição de um tribunal militar internacional. No seu noticiário estrangeiro, o jornal francês anota:
«Sempre houve crimes de guerra que em geral apenas foram punidos com represálias. Os processos atuais inspiram-se, portanto, num princípio novo. A saber: que em tempo de guerra certos atos reprovados pela moral ficam dependentes da justiça e são passíveis de sanções exemplares. Não se pode deixar de aderir a este princípio, que marca um progresso da consciência universal, e cuja aplicação poderá, até certo ponto, intimidar os criminosos do futuro. Há que reconhecer, no entanto, que esta suscita numerosas dificuldades.
«A primeira consiste na própria definição do crime de guerra. Seria relativamente fácil se se entendesse que crimes de guerra são apenas atos contrários à humanidade e que as necessidades da luta não justificassem. Incluem-se nesta categoria as torturas e os homicídios nos campos de concentração, as execuções maciças de certos grupos da população, tais como os judeus, os polacos, os ucranianos, ou os atos ferozes de certos chefes militares, como o da destruição de Oradour.
«Mas o processo de Nuremberga vai incluir casos de outra natureza. Sabe-se que se destina às mais altas personagens do Terceiro Reich, civis e militares.
«Estes serão por vezes incriminados por crueldades injustificáveis, como os carrascos vulgares de Dachau e de algures, mas ser-lhes-ão também imputados outros crimes. Foi decidido considerar assim a responsabilidade da guerra e inculpar a esse título aqueles que podem ser considerados seus autores ou que, pelos seus conselhos e a sua influência, tenham contribuído para a fazer deflagrar.
«Não restam dúvidas de que os juízes chamados a Nuremberga, escolhidos entre a élite da magistratura dos países aliados, vão cumprir a sua tarefa com imparcialidade e competência. É uma grande experiência a que vai ser tentada. E seria deplorável se o seu êxito não fosse completo.»’
(Pp. 14-15)

‘A 8 de agosto de 1945, o Estatuto do Tribunal Militar Internacional é estabelecido por acordo assinado entre os Aliados.
Dezoito nações aderem a esse acordo e aprovam esse estatuto.
O Tribunal Militar Internacional terá, em princípio, a sua sede em Berlim. Poderá escolher o local das suas audiências para cada processo. A Grã-Bretanha, a União Soviética, a França e os Estados Unidos escolherão um juiz cada um, mas esses juízes serão «desnacionalizados».
Em contrapartida, os ministérios públicos serão nacionais e representarão os interesses dos Estados a quem pertencem.
Antes de se iniciar o processo será constituída uma comissão de «instrução e busca dos grandes criminosos de guerra».
Os incriminados poderão escolher os seus advogados.’
(pp. 19-20)

‘Em princípios de 1920, Hitler decide organizar um comício.
Escolhe a data de 24 de fevereiro e uma sala capaz de abrigar duas mil pessoas: o salão de festas da Hofbrauhaus. Os seus companheiros não acreditam no êxito do empreendimento. Hitler ocupa-se pessoalmente dos preparativos e da propaganda.
Nessa altura, a Alemanha procura ainda um equilíbrio. Os partidos são numerosos. Todos eles suscitam, pelo menos curiosidade. Um novo partido em Munique não pode deixar as pessoas indiferentes: a sala está cheia. É o primeiro triunfo de Hitler – que não deixa de recordar em Mein Kampf:
«Há um tumulto de gritos e de violentas altercações na sala. Um grupo dos veteranos mais fiéis bate-se contra os perturbadores… comunistas e socialistas… e só pouco a pouco se consegue restabelecer a ordem. Consegui então continuar a falar. Ao fim de meia hora, os aplausos começaram a cobrir os assobios. Quando, quase quatro horas mais tarde, a sala se esvaziou, eu sabia que a partir daquele momento os princípios do nosso movimento não podiam mais ser esquecidos e que haviam de se disseminar entre o povo alemão».
Hitler acabava, com efeito, de lançar os vinte e cinco pontos do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, que iriam constituir a bíblia dos nazis até à subida ao poder, em 1933.
Esse programa referia-se a aspetos políticos por vezes muito diferentes uns dos outros, alguns dos quais de uma rara audácia para a época, dando-lhes um matizado muito diferente das cores dos outros partidos. Hitler insistira muito especialmente sobre a união de todos os Alemães numa «Grande Alemanha». É o prenúncio, com muitos anos de antecedência, da Anschluss (Anexação) e da conquista dos países sudetas na Checoslováquia. É também o anúncio, a quase vinte anos de distância, de Danzigue e do drama da agressão à Polónia. Hitler afirma desde já, nessa noite de 24 de fevereiro de 1920, que os judeus da Alemanha seriam excluídos do Exército, da Administração, da imprensa. Preconiza a abolição dos rendimentos que não fossem fruto do trabalho, a nacionalização dos cartéis, o interesse do Estado nos lucros das grandes empresas, a abolição das especulações sobre terrenos. Pede a pena de morte para os traidores, os usurários e os especuladores, a expropriação dos grandes estabelecimentos. Exige a anulação dos tratados de Versalhes e de Saint-Germain e a criação de um poder central forte.
Dois meses mais tarde, Rudolf Hess, um antigo oficial aviador que se tornara chefe dos serviços da ordem do partido, trata Hitler por «Fürher». É assim que daí em diante os membros do partido, enquanto o não faz a Alemanha em peso, passar a tratar o chefe do NSDAP.
Oito meses depois, durante o versão de 1920, aparece em Munique, durante um comício, a Svastika… a cruz gamada. A paz não tem ainda dois anos.
Abril de 1921. Hitler criar as Ordnungstruppen. Esses grupos paradesportivos usam camisas castanhas e tomam a forma de brigadas; alargam-se… A partir de outubro de 1921, passam a ser as Srturmabteilungen, as SA. Juntamente com Goering, Hitler desenha-lhes o uniforme. […] Não tardará que semeiem o terror nas reuniões públicas das outras formações políticas. […] O NSDAP está agora armado para a conquista do poder: tem um chefe, o Fürher, um emblema, a cruz gamada, os seus terroristas, as SA… Falta-lhes apenas uma palavra de ordem – que Hitler veio a lançar em 27 de janeiro de 1927, no decurso do segundo congresso do partido: «Deutschland erwache» (Alemanha, acorda).’ (Pp.43-45)

‘O libelo acusatório [apresentado pelo procurador-adjunto dos Estados Unidos] revela […] de que forma foram realizados os objetivos e os desígnios dos conspiradores [nazis]: introdução da violência no jogo político, depois penetração nas estruturas existentes com vista a chegar ao poder sob forma «legal».
Uma vez no poder, depois da ascensão de Hitler à Chancelaria, em 30 de janeiro de 1933: interdição de todos os partidos políticos e tomada da posse total de todos os sistemas de funcionamento do Estado alemão, atentado à liberdade das eleições, depuração na Administração, tutela de todos os organismos do Estado pelo partido, organização do terror civil, criação de campos de concentração, perseguições políticas e religiosas e mais particularmente dos alemães de confissão judaica. Em breve, esta destruição transformar-se-á em política oficial do Estado, fazendo mesmo apelo à violência individual.’ (p. 46)

‘Sempre dentro do primeiro ato de acusação, são analisada as diferentes medidas que, progressivamente, conduziram à guerra mundial:
- Rearmamento secreto de 1933 a 1935, em conjunto com a retirada alemã da Conferência do Desarmamento e da Sociedade das Nações em 1933.
- Criação em 1935 de força armada aérea e instituição do serviço militar obrigatório.
- Reocupação em 1936 da Renânia, em violação do Tratado de Versalhes, e depois de declarações tranquilizadoras sobre a vontade alemã de não apresentar reivindicações territoriais na Europa.
- Invasão da Áustria em 1938, e depois invasão da Checoslováquia. No dia 1 de maio de 1936, Hitler não hesitara, no entanto, em proclamar: «Torna a propagar-se a mentira de que a Alemanha, amanhã ou depois, cairá sobre a Áustria ou a Checoslováquia.»
- Enfim, de 1938 a setembro de 1939, preparação e execução do ataque contra a Polónia.’
(p. 48)

‘[O] segundo ato de acusação [trata] dos crimes contra a paz.
Depressa são passados em revista esses crimes: basta ao procurador britânico [Maxwell Fyfe] enunciar seis datas que constituem as etapas da agressão alemã:
- 1 de setembro de 1939, ataque à Polónia;
- 3 de setembro de 1939, hostilidades com a Grã-Bretanha e a França;
- 10 de maio de 1940, invasão da Bélgica, dos Países Baixos e do Luxemburgo;
- 6 de abril de 1941, assalto contra a Jugoslávia e a Grécia;
- 22 de junho de 1941, ofensiva contra a Rússia;
- 11 de dezembro de 1941, guerra contra os Estados Unidos.’
(Pp. 48-49)

‘[…] a leitura do terceiro libelo, pelo advogado francês Pierre Mournier, [é] sobre crimes de guerra.’ […]
A acusação toma a palavra:
«Desde o dia 1 de setembro de 1939 até 8 de maio de 1945, os acusados violaram as convenções internacionais e os princípios gerais de direito penal tal como derivam do direito penal de todas as nações civilizadas…
Censura-se especialmente aos acusados que tenham praticado a “guerra total”. Que tenham, com um objetivo de terror, maltratado, detido sem processo legal, torturado e assassinado elementos civis.
Os homicídios e maus-tratos eram levados a efeito por meios variados, tais como fuzilamentos em massa, enforcamentos, câmaras de gás, morte por inanição, acampamentos povoados em excesso subalimentação sistemática, etc.».’ (p. 49)

‘O partido não fora organizado para tomar o poder no Estado alemão com a assistência vitoriosa da maioria do povo alemão; fora organizado para arrebatar o poder apesar da vontade do povo.
Paralelamente, a falsificação das eleições é erigida em sistema.’ (p. 73)

‘A tomada do poder por meios legais, quer dizer sem o recurso à revolução, constitui o objetivo declarado de Hitler desde o dia seguinte ao putsch falhado de Munique [um golpe de estado falhado protagonizado pelo partido nazi, em 8/9 de novembro de 1923]. Contudo, a coberto dor espeito pela legalidade, ordena, com paciência e muita eficácia, o combate contra o regime de Weimar. A violência torna-se um sistema político controlado, uma sábia dosagem de terror, de crimes, de chantagem, misturado com propaganda e manifestações em massa.’ (p. 74)

‘A aparente fraqueza do Partido Nazi depois do putsch vai finalmente servi-lo. As autoridades bávaras estão convencidas de que ele já não representa um perigo real, e fecham os olhos às suas atividades. A 26 de fevereiro de 1925, Hitler escreve no jornal do seu partido, o Volkischer Beobachter, um editorial intitulado «Ressurreição». Anuncia uma reunião pública para o dia seguinte, 27 de fevereiro.
Quatro mil fiéis assistem ao comício. A Bürgerbräukeller, a cervejaria do putsch, é o lugar escolhido para a reunião.
Ao deixar a prisão, Hitler prometera respeitar a Constituição, mas logo nesta primeira reunião não esconde a intenção de derrubar a República. O Governo bávaro proíbe-o de usar da palavra em público. A medida é rapidamente estendida a toda a Alemanha. Demasiado tarde. O Partido Nazi passa, em quatro anos, de vinte e sete mil membros para cento e setenta e oito mil. Ao mesmo tempo, Hitler organiza a administração do partido. Adapta-lhe as estruturas às do país: divide o território em regiões, ou Gau, dirigidas por Gauleiter. Engloba nesta organização não apenas a Alemanha, mas a Áustria e Danzigue. Cada Gau é dividido em Kreise (círculos) dirigidos por Kreisleiter. Esses Kreise são, por seu turno, divididos em Ortsgruppe (secções locais). As secções urbanas são ainda subdivididas em células e em blocos; e, finalmente, em cada edifício há um responsável.
Estabelece assim uma administração paralela, pronta a substituir a administração existente. À testa do partido, organiza um autêntico Governo de substituição.
Sempre que disso tenha a possibilidade, colocará em funções oficiais aquele que as assumiu já, oficiosamente, dentro da organização.
Constitui ainda organizações de mulheres e de jovens. Terão as suas escolas, os seus jornais, os seus círculos culturais, as suas instalações desportivas e turísticas.
Arranja também a sua polícia. Foi nessa altura […] que, paralelamente às SA, cria também as SS.’ (p. 75)

‘[Por decreto de 14 de julho de 1933], Hitler conseguira que Hindenburg assinasse um decreto criando na Alemanha o regime do partido único: «O Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães constitui o único partido da Alemanha. Seja quem for que tente manter a estrutura de um outo partido político ou formar um outro partido político, será punido com uma pena que poderá ir de três anos de trabalhos forçados ou de seis meses a três anos de prisão, se o crime não for passível de um castigo mais grave nos termos de outros regulamentos.»’ (p. 83)

‘No plano interno, os outros objetivos nazis são definidos, em 11 de dezembro de 1938, pelo general Von Fritsch. Nesse dia escreve «que três batalhas foram necessárias para restabelecer o poderio da Alemanha: a batalha contra as classes trabalhadoras, a batalha contra Igreja Católica, a batalha contra os judeus.’ (p. 84)

‘Uma lei secreta, com a assinatura de Martin Bormann, é suficiente para definir o ponto de vista nazi na sua luta contra a Igreja: «Todas as influências que possam conter a influência exercida sobre o povo pelo Fürher devem ser eliminadas. Cada vez mais, o povo deve ser afastado das igrejas e dos seus representantes e pastores. Nunca mais se deverá consentir às igrejas que assumam qualquer influência sobre a direção do povo.»’ (p. 85)

‘Em Mein Kampf, Hitler critica os políticos católicos, mas tem necessidade dos seus eleitores. Agrada-lhes e faz da promessa de uma Concordata um argumento eleitoral. Efetivamente, a 20 de julho de 1933, a Igreja vê que lhe é concedido «o direito de regularizar os seus próprios assuntos». É o futuro Pio XII, Pacelli, secretário de Estado pontifício, e Von Papen que assinam a Concordata.
Cinco dias mais tarde, Hitler promulga uma lei sobre a esterilização. Dez dias mais tarde, a Liga das Juventudes Católicas é dissolvida. A seguir, o chefe da Ação Católica, Erich Klausener, é assassinado.
Em 1937, Pio XI publica a encíclica Com uma dor enorme… Nessa encíclica, acusa o Governo alemão de semear «a embriaguez da suspeição, da discórdia, do ódio, da calúnia, da hostilidade fundamental secreta e aberta ao Cristo e à sua Igreja…». E Pio XI acrescenta: «Veem-se despontar no horizonte da Alemanha nuvens ameaçadoras de guerras religiosas destruidoras que não têm outro objetivo senão o extermínio.»
Em março de 1937, quando Pio XI promulga a encíclica, os judeus já há muito tempo que são proscritos, perseguidos, presos. É verdade que, neste caso, não se trata de uma guerra religiosa, mas da realidade de um extermínio racial.’ (pp. 86-87)

‘Em 26 de agosto de 1939, enquanto se prepara par atacar a Polónia, [Hitler] manda enviar ao Rei dos Belgas, à Rainha da Holanda e ao Governo do grão-ducado do Luxemburgo uma nota na qual afirma solenemente a sua intenção de respeitar aquelas neutralidades. Nova garantia a 6 de outubro. Porém, três dias mais tarde, dita a sua diretiva para a condução da guerra e, especialmente, para a invasão daqueles três países. Esta operação recebe o nome de «Plano Amarelo».’ (pp. 180-181)

‘Desde que realizara a Anschluss, Hitler, fiel aos seus hábitos, empenhou-se em dar garantias aos países vizinhos: «Informei a Jugoslávia de que, de futuro, a nossa fronteira com esse país permaneceria inalterável e que nós não poderíamos viver senão em paz e em boa amizade.»
Mas havia já algum tempo que tinham ficado prontos os planos da agressão à Jugoslávia. Ao dar os últimos retoques no Plano Barbarossa – invasão da URSS – Hitler ordenara aos generais que previssem a segurança do flanco sul dos seus exércitos e a proteção das linhas de comunicação para a Ucrânia.’ (pp. 182-183)

‘Nuremberga já vai longe, mas a evocação dos crimes que exigiram Nuremberga permanece, bem nítida. Uma lista interminável, horrível. Uma lista que explica muitos ódios e expiações implacáveis. Crimes que, para honra dos homens, se deseja que nunca mais se repitam.’ (p. 389)


**(Título retirado de Daniel Faria, Dos líquidos, Porto, Edição Fundação Manuel Leão, 2000, p. 137)

*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Ensaios de liberdade', 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'

Foto recolhida da Biblioteca Nacional Portuguesa 

quinta-feira, março 19, 2026

Os carros, na Polónia, não têm buzina: ecos de uma visita a Cracóvia e Auschwitz

 

Acabo de regressar de visita de estudo à Polónia.

(Não pretendo, porém, fazer deste um texto de literatura de viagem. Antes, uma espécie de página rasgada de um diário de memórias…)

Ir aos locais confere-nos experiências que nenhum livro (apesar de os ter como meus fiéis companheiros) poderá, alguma vez, replicar ou substituir. Os cheiros, os ritmos, a língua falada, os tempos e os modos, são irreplicáveis.

Curiosamente, porém, o odor, esse sentido que logo coloco em alerta quando me desloco a um novo destino, desta vez, foi escassamente convidado a manifestar-se. O tempo de inverno adormece as flores e anoitece os alvoreceres perfumados.

Mas muito havia a descobrir, para além do que nos reserva o olfato, esse sentido tão carnal e corpóreo que nenhuma inteligência artificial ousará replicar.

Fui a Cracóvia e a Auschwitz. Reservarei, para um segundo momento, a emoção deste lugar singular. Deter-me-ei, primeiramente, nas impressões de Cracóvia.

Levava-me a expectativa de ver quanto de S. João Paulo II se guarda, na memória dos lugares daquela cidade.

Percebe-se que, Cracóvia, tendo no seu histórico cidadão mundial, o arcebispo Karol que, um dia, chegou a Sumo Pontífice, talvez o seu mais reputado e amado cidadão (ainda que tivesse nascido em Wadowice), a profundidade da fé católica, que define a genética daquele povo, suplanta a densidade da importância de uma só pessoa. Surpreende perceber-se a catolicidade de que se faz aquela cidade. Uma catolicidade que se torna efetiva na capacidade de universalidade que se vislumbra na importância do seu rei herói, o grande monarca Casimiro, aquele que soube acolher os abandonados desses tempos, entre eles, os sempre rejeitados judeus. Será, aliás, dessa memória que falarão os que sumamente os quiseram extinguir, os nazis. Numa tristemente célebre cena evocada no ímpar filme ‘Lista de Schindler’, Amon Goeth, o terrível chefe do campo de concentração de Plaszow, quando se preparava para esvaziar o gueto de Cracóvia (também ele um lugar visitado em dia de comemoração dos 83 anos do seu encerramento – uma coincidência que nos permitiu assistir às cerimónias adiadas por um dia, por motivo de, na efetiva data, ser Sábado – dia sagrado para os judeus) recorda que Casimiro, o Grande, dera aos judeus a liberdade que ele, Amon, se propunha, agora, extinguir para sempre. E perto estiveram os nazis de o conseguir.

Dessa terrível, temível e hedionda eficácia fala Auschwitz-Birkenau… A esse lugar ‘não-lugar’ regressarei, mais adiante.

Volto a Cracóvia.

Ir ao lugar, habitar, por algum tempo, com os que dele fazem o seu tempo, permite-nos, com a distância de quem habita e faz tempo noutros lugares, vislumbrar sinais da singularidade de cada morada.

Cracóvia é uma cidade bela. É uma cidade ampla, aberta, de espaços onde se pode peregrinar pela história sem se desistir do presente. É uma cidade que surpreende porque é ampla, como a planura da Polónia. Não via montanhas. Só planícies. As planícies que tão apetecível tornam este país e que podem ajudar a explicar porque tão difíceis foram, ao longo da história, as relações de vizinhança com alemães e russos, os seus ‘arqui-inimigos’ que muito ganhariam em, de vez, unir esforços, em vez de os dividir. A História deste povo é a história de uma luta contra os apetites vorazes dos que os rodeiam. É, por isso, uma história de resistência ao perigo do desaparecimento. Uma resistência visível na unicidade da sua língua - participei em missa dominical de que percebi pouco mais do que ‘efésios’, ‘Jesus’, ‘Jerusalém’ e muito pouco mais (Mas a virtualidade dos rituais é que a sua simbólica os torna transparentes para quem participa da sua semântica). Mas se se ousasse olhar quanto de significativo aqui se reserva! A Polónia teve, entre 1573 e 1795 reis que eram eleitos. E não se pense que só o podiam ser os que provinham das linhagens. Foram eleitos franceses, húngaros, leigos e bispos, reis e rainhas, numa diversidade que surpreende e evidencia a originalidade deste povo.

E no viver também se torna notória esta particularidade.

Surpreende a serenidade quotidiana de uma cidade com cerca de 700 mil habitantes que, não sendo exuberantes nos modos (não ouvi gargalhadas ou aparências de ‘piadas’, tanto ao gosto dos latinos. Na verdade, a única gargalhada e volumosa troca de conversas provinha de um grupo que, quando passou por mim, percebi ser de italianos…), se respeita e acolhe. Na estrada, não ouvi uma única buzinadela. Entrecruzam-se carros, elétricos, bicicletas e peões, sem que se atropelem e cedendo, espontaneamente, a passagem como se uma qualquer lei suposta tivesse demitido a presunção de que se ‘tem sempre razão’.

O sofrimento da história talvez explique a capacidade de não valorizar excessivamente o que não o merece.

Um sofrimento de que a célebre entrada de Birkenau (com a sua linha férrea dirigida ao abismo da História) ou o lema de Auschwitz (‘arbeit macht frei’) evocarão, para sempre e para todo o sempre.

No dicionário de Auschwitz-Birkenau eclipsa-se um vocábulo: ‘turista’. Outro preenche o seu lugar: ‘peregrino’.

É impossível passar por ali como quem sobrevoa um lugar. Os nossos pés ficam enlameados e presos na terra empapada de sangue.

A entrada, demorada e prolongada, antes de nos abeirarmos do portão encimado pela tristemente célebre frase feita do sarcasmo nazi (‘o trabalho liberta’), faz-nos percorrer um longo corredor onde, pausadamente, uma voz nos sussurra nomes. Um de cada vez, para que penetre, profundamente, em cada um, a memória viva de quem se quis apagar até o próprio nome, substituindo-o por um número.

Somos esmagados. Um nome. Outro nome. Outro nome… Nomes, apenas. Porque aquele percurso fora feito em sentido contrário: com o intuito de apagar qualquer nome.

Tudo em Auschwitz é maldade.

Para um judeu, que quer ser inumado, enterrado, para que possa ser devolvido à terra donde proveio, como Adão, ser cremado é a derradeira humilhação. Dessa humilhação falam os fornos crematórios. Esses definitivos ‘não-lugares’ e ‘não-tempos’.

Eram o último ato de sarcasmo nazi. Depois de despirem os recém-chegados aos campos, de os gasearem (em inúmeros casos) a pretexto de lhes proporcionarem banho, de os reduzirem a um número, de os dividirem uns contra os outros (os colaboracionistas e violentos tinham ‘benesses’ que recrudesciam as ações de uns para com os outros), de os desumanizarem até ao mais baixo possível (Birkenau é um campo composto por barracas que se destinavam a animais, transformadas em lugares para ‘amontoados de pessoas’), reduzir a fogo e cinza era o derradeiro grito sarcástico.

A humilhação pura, gratuita, decadente, desumanizante.

Auschwitz-Birkenau é silêncio. O silêncio que se abate sobre nós.

O silêncio que nos deve despertar.

Como recordava a guia, de nome ‘Aneta’, isto só foi possível porque o ‘mal e o bem se confundiram’.

E, como me recordava alguém muito próximo, quando lhe disse onde estivera, ‘Auschwitz cheira a morte’.

Li, durante os dias em que fiz esta ‘peregrinação interior’, o livro de Bernard Michal, ‘os julgamentos de Nuremberga’.

Densificou-se em mim a convicção de que não podemos estar certos de não se repetir a inumanidade de que fala Auschwitz. Exige-se que não se deixem adormecer os ‘não-violentos’. Exige-se que não deixemos de agitar a cinza sob a qual repousa o brilho. Exige-se que continuemos a ver o humano que refulge sob as rugas dos tempos e debilidades. Exige-se que mantenhamos a certeza da humanidade onde a ideia que desumaniza pretende prevalecer. Exige-se que nos mantenhamos atentos, em atitude de sentinela. A alvorada verdadeira só será a do sol, não a dos holofotes sinistros.

Os tempos são de exigente atenção.

Quem serão, hoje, os novos ‘judeus’?

Os de sempre, bem certo, e tantos novos…

Os que ninguém quer porque ainda não são; porque já não parecem ser; porque nunca poderão ser; porque serem incomoda; porque serem perturba; porque já não merecem a esperança.

Quem são os novos ‘judeus’?

Em memória dos judeus de todos os tempos exige-se que despertemos e honremos a memória dos esmagados pelas botas de ferro.

Somos todos humanos, fragilidade de Adão e só na eternidade seremos como o Eterno. Até lá, fazemo-nos de ‘terra’, de caminho juntos, de olhar que vê o humano que a deficiência habita. O verdadeiro poder não é o da humilhação, mas o do perdão que cresce e faz crescer; que acolhe e respeita.

Schindler recorda-o, no celebérrimo filme, em diálogo com Amon Goeth. O maior poder dos imperadores, diz Schindler, não era o de matar; mas o de perdoar quando o destino apontara a morte como fatalidade intransponível.

Esse é o maior poder: o de perdoar. O de se reconhecer pequeno como e com os pequenos.

Como os de Cracóvia, não precisamos de ‘buzinar’ porque nos respeitamos, reciprocamente. O outro não nos estorva: vive connosco e crescemos, juntos, com a singularidade de cada um, sem a qual somos mais pobres. A nossa verdadeira riqueza são os outros. O que é novo não nasce de nós: recebemo-lo dos outros.

Auschwitz é a negação disto; é a recusa do outro e a sua redução à condição de estorvo a abater.

Mas, sem o outro, sem o tu que o outro é, morre, também, sob a ilusão de vitória, o próprio eu. Permanece na sua loucura narcísica. Torna-se uma massa informe. A massa amorfa e sem identidade que pretendiam os nazis.

É por isso que Auschwitz terá de permanecer, para sempre, como aguilhão doloroso na pele de todos: ninguém seremos, se não ‘formos’ com os outros, únicos e singulares.

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