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segunda-feira, outubro 07, 2024

Sabes, leitor... | 10 | Marca de água do livro de Byung-Chul Han, 'A Agonia de Eros'

 

Rubrica ‘Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página’** | Marca de água de livros que deixam marcas profundas
Parceria: Federação Portuguesa pela Vida e Comissão Diocesana da Cultura

Luís Manuel Pereira da Silva*

O autor e a obra
Byung-Chul Han, A Agonia de Eros, Lisboa, Relógio d’Agua Editores, 2014.

 

Cheguei a Byung-Chul Han pela mesma porta pela qual terá entrado a maioria dos seus leitores portugueses: o seu livro ‘a sociedade do cansaço’, que me foi apresentado por um amigo (bibliófilo como eu) e que eu li em 2019. De então para cá, somei onze livros a essa primeira leitura.

Atrai, na sua escrita, a capacidade de ler o mundo em profundidade, sem medos nem receios, nestes tempos dados a cancelamentos.

Atrai, ainda, a capacidade que tem de procurar uma linguagem que diga a todos aquilo que se pode presumir poder nascer das fontes que o inspiram. A sua biografia, que o ‘faz’ nascer em Seul (Coreia do Sul), onde estudou Metalurgia, mostra um homem em busca. Da Metalurgia (estudada na Ásia) parte para a Filosofia, Teologia e Literatura Alemã, apesar de, quando chegado à Alemanha, nada saber da língua.

Percebe-se, na sua escrita e no seu pensamento, a influência dos mundos que calcorreou. Percebe-se a preocupação com as palavras (é um exímio criador de termos e de título – ‘o aroma do tempo’, ‘a salvação do belo’, ‘não-coisas’, ‘infocracia’, etc. dizem muito da sua capacidade de expressar muitíssimo em poucas palavras [como os seus ensaios, que muito dizem em poucas páginas]), influência do seu contacto com a língua alemã, ou a sua preocupação com o que é, para além do que parece, influência de Heidegger sobre o qual fez tese de doutoramento ou, ainda, a sua busca do sentido nas escolhas coletivas, influência da teologia em que se versou, em Munique.

 

Marcas de água 

(o que fica depois de se deixar o livro)

 

Li ‘A Agonia de Eros’ em dois dias: entre 26 e 28 de agosto de 2022, depois do seu ‘a sociedade da transparência’. Nos meus registos, anotei que, após este, avancei para novo livro de Byung-Chul Han, ‘No enxame’, em que reflete sobre o impacto do digital nas sociedades e nos indivíduos, linha que se cruza com o que reflete em ‘Infocracia’.

Anotei, ao acabar de ler ‘A Agonia de Eros’, o seguinte: ‘o raciocínio é magnífico. Não me centraria tanto, porém, na crítica ao capitalismo (acho que também ele é um fenómeno de outro noúmeno a descobrir’), aludindo aos pontos de coincidência e divergência que me fazem cruzar com o pensamento de Han.

Explicito…

Han é mordaz na constatação de que a sociedade se vem estruturando sobre a ideia da centralidade do indivíduo, conduzindo, com isso, à morte do ‘outro’ ou, como diz Han, neste livro, à ‘erosão do outro’. Neste ponto, aproximamo-nos. Sou um personalista de matriz comunitarista influenciado pela minha nascente cristã e, por isso, revejo-me na ideia da inconcebibilidade de se pensar o eu sem o tu, mas divirjo quando Han atribui a causa disso ao capitalismo que gera a sociedade de consumo. Considero que o capitalismo (e o liberalismo a ele associado) emerge de uma causa anterior que encontra nestes dois – capitalismo e liberalismo – epifenómenos: o egocentrismo congénito à condição humana, desde que se ‘afastou da mão de Deus’.

Salvaguardada esta divergência, recentro a atenção no pensamento e no texto de Han, onde é possível encontrar pérolas de assertividade.

A ideia fundamental de Han é a de que ‘Eros’ expressa a ideia de um amor em que as identidades não se fundem, mas se respeitam, se acolhem, permanecem ‘tus’ dialógicos. ‘O Eros dirige-se, em sentido enfático, ao outro que não é possível alcançar sob o regime do eu. […] a sociedade de consumo visa eliminar a alteridade atópica a favor de diferenças consumíveis, heterotópicas. Hoje, em todos os lados, a negatividade desaparece. Tudo se achata de modo a poder tornar-se objeto de consumo. […] Em contrapartida, Eros torna possível uma experiência do outro na sua alteridade, arrancando o eu ao seu inferno narcísico. Eros põe em ação um desconhecimento voluntário de si mesmo, um voluntário esvaziamento de si mesmo.’ (pp. 10-11)

E Han avança no seu raciocínio, levando-nos à constatação de que ‘o amor positiviza-se hoje como sexualidade, estando esta, por seu turno, submetida ao imperativo do rendimento. O sexo é rendimento. E a sensualidade é um capital que é necessário aumentar. O corpo, com o seu valor de exposição, equivale a uma mercadoria. O outro é sexualizado como objeto excitante. Despojado da sua alteridade, o outro não pode ser amado, mas tão-só consumido. Nesse sentido, o outro já não é uma pessoa, porque foi fragmentado em objetos sexuais parciais. Não há personalidade sexual. Se o outro é percebido como objeto sexual, erode-se essa ‘distância originária’ que, segundo Buber, é ‘o princípio do ser humano’ e constitui a condição transcendental de possibilidade da alteridade.’ (p. 20)

É de ficar sem fôlego perante a clareza e luminosidade destas ideias.

Não se pense, porém, que Han defenda um qualquer angelismo assexuado. Pelo contrário. Consciente da natureza sexuada do ser humano, interroga-se sobre o que ela diz sobre o mesmo ser humano e descobre a profunda tentação de, por ela, o Homem deixar de ser Homem, a pessoa deixar de ser pessoa, para, por ela, a ‘relação’ se degradar em modo de exercício de poder.

Na verdade, consequente com esta leitura, Han é coerente e conduz-nos a reconhecer que, por oposição a esta abordagem genuinamente ‘erótica’ que acolhe o outro, que o recebe e que se entrega, em alteridade não objetual, o ‘porno é os antípodas do Eros. Aniquila a própria sexualidade.’ (p. 35) porque ‘o pornográfico também não tem inerente qualquer decoro, qualquer distância. Precisamente, é pornográfica a falta de tato e de encontro com o outro []. A pornografia, deste modo, aumenta a dose narcísica do eu.’ (p. 52). Há como que uma redução do encontro a um lugar de poder… E é nisto que a tese de Han tem o seu quê de sedutora ao identificar essa ação à tentação capitalista… Mas insisto que, na minha perspetiva, a sua origem é mais profunda; origina-se na tentação que acompanha a humanidade desde sempre: a da autossuficiência que convence de tudo ser para um eu que se agiganta cada vez mais e que de tudo é senhor absoluto.

‘A Agonia de Eros’ é um conjunto de ensaios que desafiam a que se regresse à original visão sobre a sexualidade humana, que […] desperta perante o ‘rosto’, ‘no qual o outro se dá e oculta ao mesmo tempo’. O ‘rosto’ opõe-se diametralmente à face (face), que se expõe como mercadoria com uma nudez pornográfica e se entrega a uma visibilidade e a um consumo totais.’ (p. 24) Uma visão assente na genuína ideia do que seja o amor. ‘A ‘verdadeira essência do amor’ consiste em ‘renunciar à consciência de si, em esquecer-se de si mesmo, num outro mesmo.’ […] Morre-se no outro, sem dúvida, mas a essa morte segue-se um retorno a si. E o retorno reconciliado que volta do outro a si é tudo menos essa apropriação violenta do outro […]. É antes o dom do outro, precedido pela entrega, o abandono de mim mesmo.’ (p. 30-31)

Ao ler Han, não pude deixar de recordar um dos mais belos e fecundos textos sobre estas matérias saídos nos últimos tempos. Nele, também se refere algo que Han revisita, vez após vez. Diz-se, ali: ‘[…] o modo de exaltar o corpo, a que assistimos hoje, é enganador. O eros degradado a puro «sexo» torna-se mercadoria, torna-se simplesmente uma «coisa» que se pode comprar e vender; antes, o próprio homem torna-se mercadoria. Na realidade, para o homem, isto não constitui propriamente uma grande afirmação do seu corpo.’ Quem o diz é Joseph Ratzinger, já como Bento XVI, na sua luminosa encíclica ‘Deus Caritas est’ (n.5), onde o amor, nas suas expressões erótica, de amizade e agápica é analisado, para surpresa de tantos, como manifestação da real condição humana, longe de angelismos com que alguns ainda pretendem ver a leitura cristã da sexualidade.

Pela mão de Han, cabe perguntar, então, se sobreviverá o humano à tentação da sua redução a ‘coisa’. Ou, de outro modo, poderá questionar-se se Eros resistirá ao poder de Narciso. Continuará a sexualidade humana a ser lugar de encontro ou reduzir-se-á, progressivamente, à condição de ‘não-lugar’, sendo, apenas, um outro modo de se exercer poder sobre o objeto diante do degradado ‘eu’?

O pensamento de Han permite, por fim, formular uma arriscada interrogação que julgo, contudo, ser legítimo enfrentar e partilhar: uma sociedade que deixou de questionar e até faz a apologia da busca do igual (expresso, em grego, pelo prefixo ‘homo’), estará, ainda, capaz de ousar pensar a sexualidade como o tempo e o lugar da genuína abertura ao outro, diferente do eu?...

 

Na mesma página que o autor (citações)

 

‘[…] as teorias sociológicas […] desconhecem que está hoje em ação alguma outra coisa que ataca o amor mais do que a liberdade sem fim ou as possibilidades ilimitadas. Não é somente o excesso de oferta de outros outros que conduz à crise do amor, mas fá-lo também a erosão do outro, que tem lugar em todos os âmbitos da vida e está ligada a um excessivo e ensimesmado narcisismo do mesmo. Com efeito, o desaparecimento do outro é um processo dramático – mas trata-se de um processo que se desenvolve sem que, infelizmente, muitos se deem conta.

O Eros dirige-se, em sentido enfático, ao outro que não é possível alcançar sob o regime do eu. Por isso, no inferno do igual, a que a atual sociedade se assemelha cada vez mais, não há qualquer experiência erótica. Esta pressupõe a assimetria e a exterioridade do outro.’ (p. 9-10)

 

‘Tudo se achata de modo a poder tornar-se objeto de consumo.’ (p. 10)

 

‘O sujeito narcísico-depressivo está exausto e fatigado de si mesmo. É desprovido de mundo e acha-se abandonado pelo outro.’ (p. 11)

 

‘[…] Eros torna possível uma experiência do outro na sua alteridade, arrancando o eu ao seu inferno narcísico. Eros põe em ação um desconhecimento voluntário de si mesmo, um voluntário esvaziamento de si mesmo.’ (p. 11)

 

‘O sujeito do rendimento, como empresário de si mesmo, é sem dúvida livre, na medida em que não está submetido a um outro que o comande e o explore; mas não é de facto livre, porque se explora a si mesmo, por mais que o faça com inteira liberdade.’ (p. 17)

 

‘A proclamação neoliberal da liberdade manifesta-se, de facto, como um imperativo paradoxal: sê livre. Precipita o sujeito do rendimento na depressão e no esgotamento.’ (p. 18)

 

‘O amor positiviza-se hoje como sexualidade, estando esta, por seu turno, submetida ao imperativo do rendimento. O sexo é rendimento. E a sensualidade é um capital que é necessário aumentar. O corpo, com o seu valor de exposição, equivale a uma mercadoria. O outro é sexualizado como objeto excitante. Despojado da sua alteridade, o outro não pode ser amado, mas tão-só consumido. Nesse sentido, o outro já não é uma pessoa, porque foi fragmentado em objetos sexuais parciais. Não há personalidade sexual.

Se o outro é percebido como objeto sexual, erode-se essa ‘distância originária’, que, segundo Buber, é ‘o princípio do ser humano’, e constitui a condição transcendental de possibilidade da alteridade. A ‘distância originária’ impede que o outro seja reificado como um objeto, como uma ‘coisa’. O outro, enquanto objeto sexual, já não é um ‘tu’. Já não é possível qualquer relação com ele. A ‘distância originária’ é portadora do decoro transcendental, que liberta o outro na sua alteridade, e, mais do que isso, o distancia. […] O objeto sexual não tem um ‘rosto’ que constitua a alteridade – essa alteridade do outro que impõe a distância. Hoje, perdem-se cada vez mais a decência, as boas maneiras e também o distanciamento – ou seja: a capacidade de experimentar o outro no confronto com a sua alteridade.’ (p. 20)

 

‘O futuro é o tempo do outro. A totalização do presente como tempo do igual faz desaparecer essa ausência que situa o outro fora do disponível. […] O amor, na medida em que hoje não significa senão necessidade, satisfação e prazer, é incompatível com a subtração e a demora do outro. A sociedade, como máquina de procura e consumo, suprime o desejo orientado para o ausente, que, enquanto tal, não pode ser encontrado, captado e consumido. Em contrapartida, Eros desperta perante o ‘rosto’, ‘no qual o outro se dá e oculta ao mesmo tempo’. O ‘rosto’ opõe-se diametralmente à face (face), que se expõe como mercadoria com uma nudez pornográfica e se entrega a uma visibilidade e a um consumo totais. ’ (pp. 23-24)

 

‘O capitalismo elimina por toda a parte a alteridade para tudo submeter ao consumo. O Eros é, por seu turno, uma relação assimétrica com o outro. E interrompe desse modo a relação de troca. Não se pode fazer contabilidade com a alteridade, uma vez que esta não aparece no balanço de dever e haver.’ (p. 24)

 

‘O homem atual permanece igual a si mesmo e procura no outro somente a confirmação de si mesmo.’ (p. 26)

 

‘O sentimento e a paixão dão lugar a sentimentos agradáveis e a excitações sem consequências. Na época do quickie, do sexo ocasional e de distensão, também a sexualidade perde toda a negatividade. A total ausência de negatividade faz com que o amor hoje se atrofie como um objeto de consumo e de cálculo hedonista. O desejo do outro é suplantado pelo conforto do igual. Procura-se a agradável e, em última análise, confortável imanência do igual. Ao amor de hoje faltam por completo a transcendência e a transgressão.’ (p. 27)

 

‘Nem toda a conclusão é violência. Conclui-se a paz. Conclui-se (‘fecha-se’) a amizade. O amor é uma conclusão absoluta porque pressupõe a morte, a renúncia a si mesmo. A ‘verdadeira essência do amor’ consiste em ‘renunciar à consciência de si, em esquecer-se de si mesmo, num outro mesmo’. […] O amor como conclusão absoluta passa pela morte. Morre-se no outro, sem dúvida, mas a essa morte segue-se um retorno a si. E o retorno reconciliado que volta do outro a si é tudo menos essa apropriação violenta do outro, que foi falsamente elevada a figura principal do pensamento hegeliano. É antes o dom do outro, precedido pela entrega, o abandono de mim mesmo.’ (pp. 30-31)

 

‘Na relação de pode e de dominação, afirmo-me e oponho-me ao outro na medida em que o submeto. Em contrapartida, o poder de Eros implica uma impotência em que eu, em vez de me afirmar, me perco no outro ou para o outro, que de novo me alenta […].’ (p. 31)

 

‘A hipervisibilidade é acompanhada pela desmontagem dos limiares e dos limites. É a meta da sociedade da transparência. O espaço torna-se transparente depois de alisado e achatado. Os limiares e as passagens são zonas cheias de mistérios e de enigmas, onde começa o outro atópico. Juntamente com os limites e os limiares desaparecem também as fantasias relativas ao outro. A fantasia atrofia-se sem a negatividade dos limiares, sem a sua experiência. A crise atual da arte, e também da literatura, pode ser atribuída à crise da fantasia, ao desaparecimento do outro, quer dizer, à agonia de Eros.

As vedações ou muros das fronteiras que hoje se erigem já não excitam a fantasia, porque não geram o outro. Antes, atravessam de um extremo a outro o inferno do igual, que segue somente as leis económicas que separam os ricos dos pobres. É o capital que produz esses novos limites. Mas o dinheiro, em princípio, torna tudo igual. Nivela diferenças essenciais. Os limites como elementos de separação e de exclusão eliminar as fantasias relativas ao outro. Não são limiares ou passagens que conduzam a outro lugar.’ (p. 47)

 

‘Não deve confundir-se o Eros com o desejo (epithymia). É superior não só ao desejo, mas também ao Thymos. Incita-o a produzir belas ações. O Thymos é o lugar onde pode haver contacto entre Eros e política. Mas a política atual, que, além de desprovida de coragem, se desenvolve por completo sem Eros, atrofia-se e transforma-se em mero trabalho. O neoliberalismo leva a cabo uma despolitização da sociedade, na qual a substituição do Eros pela sexualidade e pela pornografia desempenha uma importante função. A sua base é o desejo (epithymia). Numa sociedade do cansaço, com sujeitos do rendimento isolados em si mesmos, o ânimo também se atrofia por completo. Torna-se impossível uma ação comum, impossível um nós.’ (p. 50)

 

‘A pornografia […] aumenta a dose narcísica do eu. Em contrapartida, o amor como acontecimento, como ‘cena do dois’, des-habitua e reduz o narcisismo. Produz uma ‘rutura’, uma ‘perfuração’ na ordem do habitual e do igual’. (p. 52)


**(Título retirado de Daniel Faria, Dos líquidos, Porto, Edição Fundação Manuel Leão, 2000, p. 137)

*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Ensaios de liberdade', 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'

 

quinta-feira, agosto 18, 2022

Na Igreja, todos têm lugar, mas nem tudo tem lugar

 

Estarmos em crise, em tensão, em busca, define-nos, enquanto humanos e, de modo particularmente denso, enquanto cristãos. Mas os tempos parecem ser de particular perplexidade e, segundo alguns, de caos.

Onde fica o cristianismo, perante a vertigem que parece tomar conta de tudo? Deverá reconhecer que nada mais tem a dizer de novo e aceitar como legítimo todo o comportamento apresentado como sinal de progresso e revolução? Deverá, porém, bastar-se em adotar uma atitude de fixação e fixidez, ‘porque sempre assim se pensou’?

Comecemos por denunciar o registo que as nossas interrogações permitem evidenciar: será muito redutor se tudo se confinar a um dualismo que se basta em rotular como sendo ‘progresso’ ou ‘tradição’, ‘progressismo’ ou ‘conservadorismo’, como se o avanço ou a conservação fossem, por si mesmos, necessariamente bondosos. Caberá sempre perguntar sobre ‘para onde progredimos’ e sobre ‘o que conservamos’. De outro modo, estaremos em simples movimentos (para diante ou para trás) que nada significam.

Esvaziemos, por isso, o dualismo e tomemos como referência outro critério: o da busca sincera da verdade. Essa, sim, coloca-nos numa tensão - o homem é um ser tensional, encaminha-se para algum lugar, encaminha-se para um horizonte… se não for assim, vive, apenas, seduzido pelo ‘aroma de um tempo flutuante’, como pertinentemente diagnostica Byung-Chul Han -, tensão que nos faz caminhar de algum lugar para outro lugar, num dinamismo digno de um verdadeiro peregrino, metáfora que considero ser das mais pertinentes para definir a condição humana, mas que a pós-modernidade vai esvaziando, subsumindo o homem na mera soma de agoras...

Ora, regressemos à ideia da busca da verdade…

Muitos são os que, hoje, defendem que o cristianismo tem de ser fiel a Jesus Cristo (e tem! Tem, mesmo!), mas tomam de Jesus Cristo o que Ele tem de agradável, ‘aromático’ (para evocar Han), mas não o tomam no todo.

Jesus Cristo revolucionou, bem certo, mas não foi um revolucionário político, como tantos pretendem. A sua revolução é a da verdadeira conversão de coração e de corações. E essa revolução ainda está a operar-se. Ninguém é proprietário dela, pelo que se impõe grande humildade (espero tê-la, ao longo desta reflexão…).

Tomemos, então, como critério a ação de Jesus Cristo.

Em matérias que respeitam ao comportamento humano, à moralidade e à relação entre o agir concreto e a normatividade, é particularmente significativa a ação de Jesus Cristo perante a mulher apanhada em adultério, como nos é contada pelo evangelista João (8,1-11).

É, com efeito, a ação de Jesus, tal como se no-la apresenta o evangelista, que mais tem suscitado discussão e dificuldades de encontro, nestes tempos em que matérias de moral (em particular de moral sexual) são descritas como sendo daquelas em que o cristianismo mais dificuldade tem evidenciado (dizem-nos) em corresponder ao que Jesus Cristo pretende dele.

Olhemos a narrativa apresentada por João que proponho que seja lida com atenção, para que seja notória a surpresa em relação ao excerto escolhido (sigo aqui a edição disponibilizada em http://www.paroquias.org/

“1*Jesus foi para o Monte das Oliveiras. 2De madrugada, voltou outra vez para o templo e todo o povo vinha ter com Ele. Jesus sentou-se e pôs-se a ensinar. 3Então, os doutores da Lei e os fariseus trouxeram-lhe certa mulher apanhada em adultério, colocaram-na no meio 4e disseram-lhe: «Mestre, esta mulher foi apanhada a pecar em flagrante adultério. 5Moisés, na Lei, mandou-nos matar à pedrada tais mulheres. E Tu que dizes?» 6Faziam-lhe esta pergunta para o fazerem cair numa armadilha e terem de que o acusar. Mas Jesus, inclinando-se para o chão, pôs-se a escrever com o dedo na terra. 7Como insistissem em interrogá-lo, ergueu-se e disse-lhes: «Quem de vós estiver sem pecado atire-lhe a primeira pedra!»  8E, inclinando-se novamente para o chão, continuou a escrever na terra. 9Ao ouvirem isto, foram saindo um a um, a começar pelos mais velhos, e ficou só Jesus e a mulher que estava no meio deles. 10Então, Jesus ergueu-se e perguntou-lhe: «Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?» 11Ela respondeu: «Ninguém, Senhor.» Disse-lhe Jesus: «Também Eu não te condeno.” […]

Muitos são os que terminam a sua análise aqui.

Se, de facto, o evangelho terminasse aqui, caberia defender um cristianismo que, em nome do acolhimento de todos, deveria acolher tudo, sem restrições.

Há, porém, que recordar, com honestidade, que o evangelho termina com a afirmação “Vai e de agora em diante não tornes a pecar.” (Jo 8,11b)

E este é o ‘detalhe’ que os tempos relativistas parecem pretender esquecer. É bom, aliás, recordar que Jesus, nesta perícope, está a ser confrontado pelos especialistas na Lei, pelo que sabia que não podia colocar em causa a lei, sem que tal comportasse para Ele custos elevados. A sua abordagem é, aliás, inteligentíssima: responde, apresenta o novo, sem, porém, colocar em causa o que lhe é transmitido pela tradição, sabedoria que a pós-modernidade parece ter perdido: responde, apresenta o novo, mas não sabe recolher o que recebe da tradição. Como recorda Lipovetsky, no seu livro ‘o império do efémero’, a categoria fundamental deste tempo é a forma ‘moda’, entendida como a busca permanente do ‘novo’, num frenesim infinito…

Não é essa, porém, a atitude de Jesus Cristo, nesta cena tão humanamente profunda: uma é a pessoa; outra bem distinta é a sua ação.

E esta é a novidade que o cristianismo tem para apresentar, neste contexto. E é isto que é difícil de entender.

Nas discussões em que se problematiza a ação do cristianismo deveria explicitar-se de que se está a falar: de leis morais? Se sim, a lei moral, no prisma cristão é clara: há atos bons e atos maus; há atos ordenados e atos desordenados; há atos humanizadores e atos desumanizadores; há atos bondosos e atos maldosos; há pecado e virtude. Se estamos no plano da discussão sobre a lei, então, o cristianismo tem a apresentar que todo o ato humano é moralmente interpretável, pois não há atos neutros e inócuos.

E, enfim, se estamos a falar das leis do Estado, então, elas devem ser abstratas, abeirar-se, tanto quanto possível, da bondade moral e, por isso, a atitude cristã deve ser clara: a lei deve ser justa, sob pena de redundar num sentimentalismo que pode gerar injustiça.

Se, porém, estamos a falar sobre a pessoa concreta que os realiza, a atitude de Jesus Cristo é a do acolhimento daquele que apresenta um coração verdadeiramente disponível para a conversão. [Mas, antes de progredirmos na reflexão, sublinhemos este detalhe: o da disponibilidade para a conversão. Na verdade, em muitas das discussões sobre matérias de natureza moral (sejam elas do âmbito da moral social - a atitude perante a pobreza, a injustiça, a desigualdade, etc. – sejam do âmbito da moral pessoal – sobre o adultério, a violência sexual, as diversas orientações, etc.), a pergunta sobre o que tem o cristianismo a dizer deveria sempre pressupor a disponibilidade para a conversão, sem a qual o cristianismo fica reduzido a um moralismo e a uma descrição normativa, por um lado, aparentando ser arrogante a atitude dos que parecem pretender ter a norma final sobre como deverá pensar-se o próprio cristianismo. A tentação é, hoje, vulgar: em lugar de acolher o desafio que Jesus Cristo faz à conversão dos comportamentos arrisca-se legitimar os comportamentos pressupondo que Jesus Cristo os legitimaria. Não o fez, em relação ao adultério; não nos parece que o fizesse em relação a outros mais modernos… Quem é acolhida é a mulher, a pessoa; não o seu ‘pecado’.]

À luz desta análise, há que concluir que o cristianismo tem a apresentar uma proposta que é, efetivamente, única, singular. É única e singular porque encontra o adequado equilíbrio entre dois extremos hoje tão radicalizados: nem, em nome da permanência da lei, se define como legalista, moralista ou indiferente à pessoa; nem, em nome do acolhimento da pessoa, redunda num relativismo.

É este, como recordava Karl Barth, o ‘terrível’ «e» católico: firmes nos princípios «e» acolhedores para com as pessoas. Nem a firmeza da lei sem o acolhimento da pessoa; nem o acolhimento sem a firmeza da lei.

Face a isto, caberá concluir que, nas comunidades cristãs, todos têm lugar, mas nem tudo tem lugar, pois há comportamentos que realizam a pessoa, na sua integralidade, na sua abertura ao outro e ao Outro, e há comportamentos que não a realizam e denunciam por si mesmos o fechamento em si próprio ou se bastam na busca do igual a si mesmo, como se o outro não nos merecesse um amor integral, mas fosse reduzido a uma condição de alter-ego.

Acolher o outro não significa, neste registo, aceitar a bondade das suas ações. Pode significar, mesmo, o dever de, em nome da correção fraterna (tão presente nas primeiras comunidades e, ainda hoje, nas ordens religiosas: porque não nas demais comunidades cristãs?), lhe evidenciar que a sua ação não é bondosa ou humanamente plena, mas que a pessoa que ele é, e sempre disponível à conversão, é acolhida por Deus, acolhimento que se expressa, de forma concreta, na comunidade.

Daqui dimana um desafio duplo: para a sociedade, aceitando este repto feito pelo cristianismo de acolher todos, ainda que problematizando os comportamentos; para as comunidades cristãs, sabendo distinguir entre o dever de evidenciar a verdade da integralidade do agir moral, sem, porém, deixar de acolher cada um que nelas procura refúgio e cuidado.

É a atitude do Bom pastor, tão belamente retratado na igreja de Santa Madalena, em Vezelay, numa das colunas onde Jesus Cristo é apresentado como carregando aos ombros o traidor e suicida Judas Iscariotes. Tomá-lo em ombros não significa legitimar a traição e o suicídio, mas permitir o ‘gotejar’ da esperança numa boca sequiosa…

E ao pó hás-de voltar… Não às cinzas estéreis e anónimas.

  Há uma sabedoria profunda, verdadeiramente divina, no ato de inumar o ‘corpo’ morto, de o devolver ao regaço adâmico de que proveio. Mas u...