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terça-feira, junho 23, 2026

25 | Alberto Ferreyra | Mystérios lusitanos [contos - texto e locução] | Mistério na casa do cruzeiro

 

Mystérios lusitanos | A vinte e três (23) de cada mês, habitamos o mundo pelo imaginário de Alberto Ferreyra...

(Nos ramos da escrita, repousam, vezes sem conta, as gralhas da distração, ocultas, sob múltiplos disfarces, até que alguém as enxote. Alberto Ferreyra contou com o fino olhar da sua amiga Teresa Correia, detentora do segredo da sua identidade, para afastar ou caçar o grasnar das gralhas. Está-lhe, por isso, muito grato...)

Alberto Ferreyra*


Hoje, a casa do cruzeiro é um suspenso monte de escombros à espera de se desmoronar logo que o permitam as teias de aranha.

Mas não foi sempre assim. A casa, de um andar, foi lugar muito vivo. Vivia, ali, a ti’ Carolina, mulher de ombros largos e olhar atento. Reservara-lhe o destino cuidar de uma sobrinha, esquiva, que, ao primeiro vento de amores, se aventurou por terras de França. E por lá ficou.
Muita vida houvera ali, portanto…
Outrora, não estava ali o cruzeiro. Após empenos e quedas provocadas que transformavam, repetidas vezes, o transepto em escabelo de pés blasfemos, encontrou, naquela curva sombria, o sossego desejado. Hoje, eleva-se ligeiramente acima do nível da estrada e resplandece, solenemente.
Saber qual é a casa do cruzeiro é, por isso, tarefa simples. Restaurada, a tinta fresca, a inscrição recupera a novidade do primeiro momento: A.L.P. – 1899.
Ali descansam, em tarde de verão de calor abafado, J. e M. em férias na casa dos avós, próxima da casa do cruzeiro. Contou-lhe o avô que morara, naquilo que, hoje, são paredes inseguras, uma bela mulher, de nome Carolina, que morrera, cega, ao cair pelas escadas interiores. Encontraram-na em dia de Santa Luzia.
Ouviram-lhe contar, também, e ao pai, as aventuras passadas naquela casa que servira de sala de baile, nos tempos de escola.
Decidem-se a subir. Forçam a porta, presa por heras que parecem mais antigas do que a criação do mundo, e sobem por umas rangentes escadas presas à parede oposta ao cruzeiro.
O primeiro andar é feito de soalho carcomido pelo tempo. Param, no cimo das escadas, para apreciar. A janela maior, sobranceira ao cruzeiro, está entreaberta. Já não tem vidros. Só madeira retorcida pelo secar e humedecer das sucessões das horas. A um canto, entre as duas únicas janelas daquele amplo salão, um baú robusto, como que ali depositado na véspera, para que J. e M. o descobrissem.
- Parece ali posto para nós. – Atalhou a curiosa M.
- E se nos reserva uma serpente das índias, tendo-se o estafeta esquecido de trazer o respetivo encantador? Não contes comigo para lhe assobiar ao ouvido!
M. soltou uma espontânea gargalhada, prontamente interrompida pela escuta de passos, no exterior da casa. Apesar das grossas paredes, as frinchas na pedra e as janelas partidas faziam daquela sala uma autêntica caixa-de-ressonância. Tudo se ouvia.
Ouviram os passos a afastarem-se…
Retomaram, cúmplices, a conversa.
- Ainda pensam que somos almas penadas…
M. sentia-se, sempre, a voz da imaginação do povo. Continuou a sua observação longa do espaço. No canto oposto ao do baú, havia um velho toucador com espelho, sobre o qual repousava uma ânfora adequada para nelas se depositarem cinzas. Na parede confinante com a casa dos Pereiras, uma parede sem janela, havia uma já esconsa lareira.
M. encaminhou-se para o baú. Silenciosa, meneou a cabeça como que pedindo a ajuda de J. no erguer da pesada tampa.
Entre papéis amarelecidos e - tantos deles! - roídos, havia uma carta fechada.
Abriram-na.
As letras pareciam mal alinhadas, como se tivessem sido escritas no escuro da noite.
Os olhos de J. e M. dirigiram-se para o fundo da carta.
Terminava, dizendo:

- ‘Não sei se a ti chegarão estas palavras, que entrego ao vento…
Tua tia,
Carolina.
12 de dezembro de 1987’

- Foi uma carta escrita pela dona desta casa.
J. ficara a cismar na data.
- 12 de dezembro! 12 de dezembro! É a véspera da Santa Luzia. Segundo nos disse o avô, a ti’ Carolina terá sido encontrada morta a 13 de dezembro, pelo que a carta foi escrita no próprio dia da sua morte. Não chegou, por isso, ao seu destino.
E é uma carta escrita por alguém que já não via. Isso explica estes desalinhamentos…
A curiosidade agigantou-se.
-‘Meu querido Afonso.
Guardei, no meu coração, os liames com que se fez a história do teu irmão que enegrecem a minha alma. Hoje, cega que estou, sinto não poder guardar para mim a verdade que o destino, teimosamente, quis contrariar.
Bem sei que o Pedro, teu irmão, vive, feliz, com a Francisca. Mas uma nuvem reside, como que eterna, sobre o seu lar. Uma nuvem de que não são conscientes responsáveis, mas inadvertidos culpados.
Há uns dez anos, à porta de minha casa, deu-se uma tragédia. Júlio caiu, morto, no primeiro luar da noite, mesmo por baixo da minha janela. Tudo fizera crer que tropeçara na pressa de chegar a casa da Francisca, sua apaixonada.
Um lenho profundo na cabeça não deixara dúvida de que, ao tropeçar, batera na esquina da casa dos Pereiras, logo ali ficando.
O sombrio manto da morte tomou conta de Francisca, de quem o teu irmão Pedro veio a enamorar-se, meses mais tarde, casando e com quem teve os teus bonitos três sobrinhos.’
J. interrompeu…
- Nestas aldeias, todos se conhecem e sabem tudo uns dos outros…
- Deixa-me continuar. – zangou-se M.
E continuou a leitura. Estava tomada de desejo de concluir… Onde a levariam as palavras caídas de ti’ Carolina?
- ‘Todos julgavam nada haver a dizer sobre o que ali acontecera. Mesmo por baixo da minha janela.
Mas o tempo reservava-me surpresas.
Quando morreu o ti Vicente, que vinha aos bailaricos que tantas vezes aqui fiz, fui visitá-lo, nas suas últimas horas.
Chamou-me e pediu que todos saíssem. Tinha uma confidência a fazer-me. Pensei que fosse alguma coita de amor. Os velhotes, quando se lhes extingue o fogo da vida, sopram sobre a brasa decadente dos amores não vividos e como que atiçam um último brasido.
Mas não.
Perguntou-me:
- Ainda te lembras do pobre Júlio? Sabes de que morreu?
Nesse dia, estavas a dar um bailarico lá em casa. Na tua janela, tinhas um pequeno vaso de petúnias azuis. Caíram, quando passava o desgraçado enamorado de Francisca. Sabes quem as fez cair?
Estava, junto a essa janela, o Pedro, de olhos fechados, dançando sozinho. Sem o saber, tocou na janela entreaberta que arrastou consigo aquele vaso de petúnias azuis…
Se todos pensavam que aquela fora uma morte sem culpado, porque haveria eu de lançar a suspeita sobre quem continuava, dançando, de olhos fechados?
Guardei para mim o que vi.
Mas, agora, a morte, esse espelho em que se desnuda a consciência, não me deixa partir sem to dizer. Guarda-o para ti, até que chegue a tua hora. Porque merece ser feliz quem não quis o mal de alguém, mesmo que o tenha, inadvertidamente, provocado.’
J. e M. emudeceram.
Uma verdade assim, trazida à luz, volvidos tantos anos, enche de negrume toda uma vida feliz.
Meu querido Afonso, a mulher que escolheu para si o teu irmão Pedro perdera o seu amado para aquele que, sem o saber, lhe causara a própria morte.
- ‘Reserva para ti mesmo, até ao último dos teus dias, esta verdade que não pode contar-se, mas perpetua, em segredo, a memória dela. Porque o destino não pode vencer-nos na sua teimosia.’
M olhou, intensamente, para J.
O que fazer com aquela carta?
Olharam, ambos, para a ânfora, no toucador.
Queimaram, nas desalinhadas pedras da lareira, aquela memória maldita, e depositaram, entre os restos do pó do tempo repousados na ânfora, as cinzas da carta.
Um olhar de promessa fez cair, com silencioso estrondo, a certeza de tudo reduzir a poeira.
E desceram, entre rangidos prolongados, encaminhando-se para o solene cruzeiro, junto ao qual rezaram, demoradamente.
Voltaram a olhar um para o outro, com assombro. Aos pés da cruz, havia uma petúnia azul.


Imagem de Tumisu por Pixabay


*Alberto Ferreyra diz que as suas letras habitam a mente e saem da mão de alguém nascido em terras gaulesas, ainda que afirme, em sussurro, que o seu real nascimento ocorreu nas margens do Antuã, em abril de 2024. É, por isso, um prematuro autor literário, germinado da inspiração que a realidade proporciona quando se tem a companhia, nos livros, de génios como Jorge Luis Borges, Miguel Torga, Gabriel García Marquez ou personagens como Poirot ou Padre Brown.
 
Na sua escrita, cruzam-se o real e o imaginado, o fictício e o histórico, numa embrenhada teia em que o leitor continua a ler, mesmo já depois de fechado o conto. O real continua a fecundar histórias na mente de quem lê Ferreyra. Cada conto, feito dos mistérios desvelados, aproxima o tempo e distancia o espaço, esticando-o até ao eterno e ao infinito. Ao ler Ferreyra, faz-se 'silêncio' ('mystério' alude à etimologia grega da palavra, que remete para o 'fazer silêncio', 'emudecer-se'...) para que possam ecoar as palavras, para que possa desenovelar-se o enredo sucintamente desvelado.
 
J. e M., protagonistas de cada um dos contos, acompanhados, em alguns deles, pelo seu periquito 'branquinho', fazem emergir, do real em que se enredam, histórias que, nascendo da imaginação de Ferreyra, permanecem como realidades possíveis, deixando a suspeita de terem mesmo ocorrido.
Se não foi real, Ferreyra o criará, inspirado numa cosmovisão que tanto deve àquela religião que fez do encarnado a condição fundamental do existir.
 
A vinte e três (23) de cada mês, habitaremos o mundo pelo imaginário de Alberto Ferreyra...

sexta-feira, maio 09, 2025

O perdão diviniza (e humaniza) um mundo geométrico

 

Artigo originalmente publicado na Agência Ecclesia

A ideia de um universo (e, com ele, de toda a realidade) geométrico, totalmente previsível, é muito sedutora. Demonstra-o a (quase) omnipresença da visão fatalista da existência nas diversas religiões, mitologias e inclusive nas leituras filosóficas (Nietzsche recupera a ideia da circularidade do tempo como evocação da ideia do eterno retorno… Tudo regressa, vez após vez, sem que o humano nada consiga fazer para o evitar!).

E, curiosamente, num tempo em que o ‘mar’ cristão reflui, as areias sobre as quais este se espraiava deixam ver a emergência regressiva das visões geométricas.

Veja-se, como ilustração disto, a cedência à ideia de ‘Karma’ ou de ‘destino’ que, paulatinamente, vai tomando conta dos espíritos, sem que, criticamente, se constatem os custos da sua aceitação.

É que, de facto, a ideia é sedutora. Torna tudo previsível e diminui o assombro do inesperado… O inesperado causa ansiedade, com a qual temos dificuldade em conviver. Queremos ter na mão as certezas e não ter de nos inquietar em procurar ajustar o rumo…

Mas poderia o ser humano sobreviver à geometricidade do mundo?

O salmista do belíssimo salmo 130 enuncia a resposta: ‘Se tiveres em conta os nossos pecados, Senhor, quem poderá resistir?’ (cito a partir da tradução da Difusora Bíblica, edição online: https://www.paroquias.org/biblia/index.php?c=Sl+130)

A ideia fatalista, geométrica, presente nas religiões orientais e na mentalidade grega, contrasta com o que emerge na visão judaico-cristã.

Em tempos em que se discutem os custos da diminuição da marca cristã na sociedade, os sinais ‘geometristas’ (crio o neologismo para evocar esta ideia da geometricidade da existência) estão diante de nós e evidenciam o real impacto para além dos custos tantas vezes já denunciados: na perda da sensibilidade ética para com os mais frágeis, na perda da ‘semântica’ cristã na iconografia e nas múltiplas expressões artísticas, na fragilização dos liames sociais, etc. Uma tal geometricidade faz do erro condição para a errância. Aquele que erra, sem a possibilidade do perdão, torna-se um errante[1].

Ao judeo-cristianismo se deve, com efeito, a emergência, na humanidade, da ideia de perdão, ideia que quebra a linearidade das consequências em relação aos atos realizados, essa inevitabilidade de se tornar errante porque se errou.

A ideia ‘jubilar’ de perdoar os erros passados, reinaugurando um novo tempo, densifica-se com a afirmação da condição paterna de Deus eterno. A ideia, que, no Antigo testamento, aparecia 11 vezes, é afirmada, no mais curto Novo Testamento, 107 vezes[2]Abba (‘paizinho’, como se se tratasse do balbuciar do nome por uma criança: ‘Ba-Ba’!) é o nome predileto de referência de Jesus Cristo a Deus.

Ilustram, de forma particularmente plástica, duas imagens que recolho da arquitetura medieval.

No tímpano da Catedral de Autun, há um detalhe particularmente belo. Retrata-se, ali, o juízo final, com toda a carga dramática que o medievo lhe associou. Mas um detalhe desconcerta. O Arcanjo Miguel aparece a ‘falsificar’ a balança, em favor do homem pecador[3]. A falsificação não é, aqui, evocação da ideia de uma ‘jogada’ pouco honesta, mas expressão da misericórdia de Deus que, por intermédio dos seus ‘mensageiros’ (aqueles que levam a Sua ‘mensagem’), põe em ação a sua ‘temperança’ e compassiva atitude de acolhimento da obra da Sua criação, marcada pela debilidade e fragilidade.

Também da idade média recolho a segunda imagem. Encontrei-a, pela primeira vez, na capa de um luminoso livro de Karl-Josef Kuschel, Talvez escute Deus alguns poetas[4]. Retrata-se, nesta imagem, o que é ‘descrito’ no capitel de uma coluna da Basílica de Santa Maria Madalena, em Vezelay, igreja edificada entre meados do século XI e inícios do século XII (foi dedicada em 1104). No lado esquerdo do capitel, há um homem enforcado que vemos ser transportado, aos ombros, no lado direito. Percebemos a densidade deste momento quando reconhecemos, no enforcado, o traidor Judas Iscariotes e, no que o leva aos ombros, o próprio Jesus. A vítima voluntária transporta, voluntariamente, o seu verdugo… Cúmulo do perdão. Cúmulo da quebra da geometricidade. Numa lógica fatalista, nada mais sobraria a Judas do que a perda eterna… (É essa a tentação e sedução maior… Queremos que a justiça prevaleça, sem complacência…)

Mas Judas podíamos ser nós.

Oh, quantas histórias o evidenciam, ao longo dos tempos!

Inquieta dar conta de como os nazis cavalgaram o monte de escombros de vítimas com a complacência de ‘iguais a nós’…

Conta Radcliffe, num dos seus sempre muito narrativos livros… ‘O norte-americano Jim Campbell foi copiloto num avião que bombardeou o Japão, durante a II Guerra Mundial. Depois da Guerra, tornou-se dominicano, mas era sempre atormentado pela sua participação na destruição de pessoas inocentes. E decidiu, por isso, ir ao Japão pedir perdão. Encontrou-se com Oshida, um dominicano japonês, numa conferência nos Estados Unidos e, por isso, foi vê-lo no Ashram de Oshida, nas encostas do Monte Fuji. Disse-lhe: ‘Padre Oshida, bombardeei o vosso povo durante a guerra. Vim pedir o vosso perdão.’ E Oshida replicou: ‘E eu, nessa altura fazia parte da força antiaérea japonesa. Tentei deitar-te abaixo e foi pena ter falhado!’ Comenta Brian Pierce OP: ‘Ambos se riram e se abraçaram!’ O modo como o padre Oshida, um santo homem, mostrara a Jim que ambos tinham participado no mesmo mal, foi muito libertador para Jim.’[5]

Desta condição nos fala, densamente, o evangelho de Lucas, ajustadamente designado como o ‘evangelho da misericórdia’. Outro mundo emergiu das páginas do evangelista médico e outro mais cinzento haveria se dele não tivéssemos recebido parábolas como a do filho pródigo (do Pai de Misericórdia) ou do bom samaritano, ou a do amigo inoportuno ou, ainda, a do juiz e da viúva, ou do homem rico e do pobre Lázaro (cujo nome é um epónimo de todos os desamparados: ‘Deus ajuda’)…

O perdão abre um novo mundo onde a circularidade do tempo ou a inevitabilidade do destino afundaria no abismo…

Deus, ao mostrar-se, pelo Cristianismo (filho do Judaísmo), como Amor e que a Criação reflete, ainda que como centelhas na noite, a marca do Criador, assegura-nos que o perdão não é um apêndice, mas a condição própria do mundo, de toda a realidade: a surpresa habita-a como possibilidade omnipresente do novo quando o envelhecido parece decrépito e sem esperança.

Perdoar faz-nos novos, faz-nos habitar, de um modo assombroso e assombrado, o tempo para nos assomarmos ao umbral do que será sempre novo.

Um Deus trinitário, que é dinamismo permanente de encontro e partida, de recomeçar sempre novo, é disto que fala e é a grande novidade cristã.

Se o mundo se esquecesse, quem o continuaria a dizer, contrariando os ecos no vazio do universo geométrico? Quem diria, em sussurro, ao ouvido dos isolados humanos que, um dia, erraram, que errar (ser errante) não tem de ser o seu destino?…

[1] Ideia que apresentamos aqui (https://teologicus.blogspot.com/2023/12/o-tempo-e-advento_4.html) e encontramos belamente desenvolvida na Nota Pastoral da Comissão Episcopal da Educação Cristã e Doutrina da Fé para a Semana Nacional da Educação Cristã 2024: «Construtores do Futuro como Peregrinos de Esperança

[2] Cfr. Timothy Radcliffe, Ir à Igreja porquê? O drama da Eucaristia, Prior Velho, Paulinas, 2010, p. 223.

[3] Cfr. Timothy Radcliffe, Imersos na vida de Deus. Viver o batismo e a confirmação, Prior Velho, Paulinas, 2013, p. 86.

[4] Karl-Josef Kuschel, Talvez escute Deus alguns poetas, A literatura enquanto desafio à fé cristã, Lisboa, Universidade Católica Editora, 2018.

[5] Timothy Radcliffe, Imersos na vida de Deus. Viver o batismo e a confirmação, Prior Velho, Paulinas, 2013, p. 150.


 

quarta-feira, setembro 25, 2024

‘Regresso a Ítaca no sonho do Éden’ | 23 | Némesis e moiras – a desmesura e o destino perante a graça e o perdão

 

Artigo originalmente publicado na revista 'Mundo Rural'

Luís Manuel Pereira da Silva*

Ulisses está no seu demorado processo de regresso. Há, nele, um profundo desejo de chegar à casa donde partiu há já demasiado tempo. Desejo que o habita e ‘arrasta’ como uma ausência a necessitar de ser preenchida. Sobre ele refletiremos, no último capítulo deste já longo ‘regresso a Ítaca no sonho do Éden’. É um desejo que se expressa como ânsia de «regresso a casa», uma ‘nostalgia’ persistente e omnipresente desde a partida feita desejo de chegada. Nela se unirão ‘regresso’ (a Ítaca) e ‘sonho’ (do Éden).

Mas ainda nos cabe enfrentar o motivo profundo pelo qual temos de voltar a partir de Ítaca, mas desejando regressar, já não a ela, mas ao Éden, que nos toma a alma como saudade e genuína nostalgia.

Ulisses é um herói, bem certo, mas um herói à maneira grega. A visão é trágica, porque, nela, dominam o limite intransponível e a sombra da maldição de nada ser ou eternamente ficar abandonado por em algum momento se ter transgredido o estabelecido.

A tentação desta leitura não está ausente da receção do cristianismo, entre o povo. Mas não é a marca definidora do ser cristão.

Expliquemo-nos…

No espírito grego, não há lugar para a ‘surpresa’, para a ‘graça’, o ‘não previsto e previsível’. Tudo é destino (moira) e determinação do limite (Némesis). O ser humano está determinado a cumprir o traçado que lhe coube em sorte. A transgressão é certeza de custo previsto.

Maria Helena da Rocha Pereira recorda-o ao analisar a história de Medeia que quer de Creonte muito mais do que uma promessa. Quer ‘um juramento formal, com a invocação precisa dos deuses envolvidos no ato, que comprometa de forma irreversível quem o presta, formule as suas obrigações e anteveja os castigos da transgressão’ [1]. Não há lugar para o inesperado. No espírito grego, tudo é previsível, antecipável e quem comete a ousadia da desmesura, submete-se à consequência esperável. Cruzam-se, nesta síntese, dois vetores que, sendo, originalmente, abstrações, se ‘personificam’ em figuras míticas: por um lado, a irrevogabilidade do destino de cada um, na ideia das ‘moiras’ ou, na redação proposta por Pierre Grimal [2], das ‘meras’, o quinhão, a parte que cabe a cada um cumprir (de felicidade e infelicidade); por outro, a ‘vingança dos deuses’, representada na ideia e na figura da Némesis, cuja representação mais famosa é a que se encontra em Ramnunte. Aqui, numa estátua hoje mutilada, representava-se uma deusa com uma arranca de maçã e um figo, e terá sido esculpido por Agoracritus, um aluno de Fídias, por volta de 430 a.C. É curioso que o figo e a maçã sejam elementos ilustrativos desta figura mítica, evocando a simbologia transcultural a eles associada. Como não recordar a interpretação do fruto proibido como sendo uma maçã (apesar de o texto bíblico não suportar essa conclusão) ou a referência à figueira como uma árvore amaldiçoada, talvez em virtude da ‘traiçoeira’ fragilidade da sua madeira, incapaz de suportar, demoradamente, o peso de um homem?

O mesmo Pierre Grimal dá suporte a esta nossa interpretação, ao recordar que as Meras ‘não têm uma lenda propriamente dita. Não são mais que a simbolização de uma conceção do mundo semifilosófica, semi-religiosa’[3], a qual, como fomos evidenciando, ao longo deste ‘regresso a Ítaca no sonho do Éden’, se mostra ora convergente, mas maioritariamente divergente do genuíno espírito cristão.

Neste, com efeito, se foram sobrevivendo, aqui e ali, marcas desta visão trágica e fatalista (de que o predestinacionismo calvinista será uma das maiores expressões), terá de ser reconhecido como tendo contribuído para emergir, no mundo, um outro olhar, em que há espaço para a ‘surpresa’, a ‘novidade’, o ‘gratuito’ (porque dado por ‘graça’), e, por isso, a possibilidade do perdão.

Esta nossa reflexão permite-nos ousar depreender na frequentemente evocada conflitualidade entre cristianismo e ciência um equívoco que nascerá destas duas visões retratadas, ao longo da reflexão feita em ‘regresso a Ítaca…’. O real ‘conflito’ não é entre cristianismo e ciência, mas entre uma visão ‘determinista’ e uma outra em que continua a haver lugar para a liberdade, para o rompimento de toda a previsibilidade e irrevogabilidade.

No limite, na visão grega, até os deuses estão submetidos às Meras. ‘Impessoal, a Mera é tão inflexível como o destino: encarna uma lei que os próprios deuses não podem transgredir sem pôr em perigo a ordem do mundo’[4], sendo que deles pode esperar-se, inclusive a vingança e sérias represálias: ‘tudo o que se eleva acima da sua condição, no bem como no mal, expõe-se a represálias dos deuses’[5].

Numa canção sobejamente conhecida e replicada de título ‘Némesis’, o cantor Clementine recorda que ‘Nemesis is, is the mother of karma’ (‘Nemesis é a mãe do Karma’), replicando uma intuição interessante e nem sempre constatada: de facto, é preciso esperar pelo judeo-cristianismo para encontrar a ideia de perdão que, fora deste registo, está sempre ausente. ‘Karma’ evoca a matriz oriental, explicitada na visão hindu.

Bono Vox, o vocalista dos U2 recorda, numa muito interessante entrevista dada a Michka Assayas, que ‘no centro de todas as religiões há a ideia de Karma. Vê bem, aquilo que fazes volta para ti: olho por olho, dente por dente, ou, na física – nas leis físicas – a cada ação equivale uma igual ou oposta. É claro para mim que o Karma está no centro do Universo. Tenho a certeza absoluta. E ainda assim, aparece igualmente este conceito de Graça para dar a volta a tudo isto «Como colhes, assim terás de semear». A Graça desafia a razão e a lógica. O amor interrompe, se quiseres, as consequências das tuas ações, o que, no meu caso, é, na verdade, muito bom, porque eu fiz muitas coisas estúpidas.[6]

O leitor atento poderá contestar-me que também a bíblia está cheia de ‘maldições’ e ‘fatalismos’. Mas não deixará de surpreender que o último livro, também ele tantas vezes lido sob um registo de mais um vademecum de maldições, termine com a esperança de que ‘A graça do Senhor Jesus esteja com todos vós.’ (Ap 22,21), depois de assegurar que a esperança definitiva será em relação a um lugar onde ‘E ali nunca mais haverá nada maldito.’ (Ap 22,3)

E erraria quem se agarrasse ao literalismo das frases. Todo o livro é uma ode à esperança, à graça, à surpresa da vitória do amor sobre os determinismos e fatalismos: «Não tenhas medo! Eu sou o Primeiro e o Último; aquele que vive. Estive morto; mas, como vês, estou vivo pelos séculos dos séculos e tenho as chaves da Morte e do Abismo!», sendo que não é despiciendo que se evidencie estarem superados os limites do espírito grego refazendo o discurso grego com um novo alfabeto que, em Cristo, a pura Graça de Deus, encontra o novo ‘alfa’ e ‘omega’ dos novos discursos…



[1] Maria Helena da Rocha Pereira, Estudos sobre a Grécia Antiga: Artigos, Coimbra, Fundação Calouste Gulbenkian e Imprensa da Universidade de Coimbra, 2014, p. 368.

[2] Cfr. Pierre Grimal, Dicionário da mitologia grega e romana, Lisboa, Antígona Editores Refractários, 2020, p. 306.

[3] Pierre Grimal, op. Cit., p. 306.

[4] Pierre Grimal, op. Cit, p. 306.

[5] Cfr., Ibidem, p. 326.

[6] Michka Assayas e Bono Vox, Bono por Bono, Lisboa, Editora Ulisseia, 2005, p. 227.

terça-feira, abril 11, 2023

Regresso a Ítaca no sonho do Éden | A Graça ou o destino?

 Rubrica 'Regresso a Ítaca no sonho do Éden’

(Artigos publicados na revista Mundo Rural - Acção Católica Rural)

Prossigamos a nossa viagem…

Regresso a Ítaca. O sonho está no Éden.

Este já longo percurso tem-nos levado a refletir sobre duas fontes estruturantes da nossa cultura ocidental: a cultura clássica, principalmente a grega, e a matriz cristã. Neste caminho, temos encontrado pontos de convergência e distinção.

Hoje, o nosso olhar deter-se-á numa das que considero ser uma das maiores dívidas do mundo ao cristianismo: a liberdade!

Para muitos, soará a paradoxal esta enunciação, pois um muito consolidado preconceito tem vincado a ideia de que liberdade e cristianismo são termos que não conjugam. 

Mas é difícil estar mais longe da verdade do que quando se defende esta preconceituosa ideia.

Na verdade, o olhar atento e honesto sobre o que nos legou e continua a legar o cristianismo não pode senão levar-nos a concluir que a liberdade é conquista definitivamente proporcionada pelo cristianismo. E percebamos, então, porquê.

Já em anteriores etapas da nossa reflexão recordei que as histórias de Édipo, de Antígona, de Cassandra, de Sísifo, etc., são marcadas por uma dimensão trágica resultante de uma visão que faz depender estas personagens de um destino que ninguém consegue contrariar.

Somo a estas constatações a ideia de que os gregos tinham a convicção de que o poder das moiras, as deusas do destino, chegava a ser superior aos próprios deuses, tudo submetendo sem apelo nem agravo. 

A visão cristã, que, infelizmente, tantas vezes, continua impura mesmo entre os cristãos, fruto de forte ambiência cultural envolvente, apresenta uma perspetiva diametralmente oposta. 

A ideia que concentra esta nova visão sobre o mundo e sobre o homem e a sua história, condensa-se na ideia de Graça. Graça deverá ser – como tantas vezes tenho recordado aos meus alunos – não tanto como um ‘substantivo’, mas como um adjetivo que qualifica a ação de Deus para com a Sua criação. Graça define essa ação como sendo ‘gratuita’, generosa, entregue sem ser devida. Puramente dada e, por isso, também puramente e gratuitamente recebida.

Recordo, para ilustrar o alcance desta visão especificamente cristã, o que afirmava, há uns anos, o vocalista dos U2, Bono Vox, um conhecido cristão de confissão católica que reflete na sua vida e arte esta perspetiva. Diz Bono Vox numa série de entrevistas de Michka  Assayas, editadas pela editora Ulisseia, em 2005: “Repara [que] no centro de todas as religiões há a ideia de Karma. Vê bem, aquilo que fazes volta para ti: olho por olho, dente por dente, ou, na física – nas leis físicas – a cada ação equivale uma igual ou oposta. É claro para mim que o karma está no centro do Universo. Tenho a certeza absoluta. E ainda assim, aparece igualmente este conceito de Graça para dar a volta a tudo isto. «Como colhes, assim terás de semear». A Graça desafia a razão e a lógica. O amor interrompe, se quiseres, as consequências das tuas ações, o que no meu caso é, na verdade, muito bom, porque eu fiz muitas coisas estúpidas.” (p. 227)

Ontem, como hoje, o grande combate do cristianismo é em relação à tentação de tudo reduzir a um destino inexorável perante o qual nada há a fazer. Veja-se como a ele sucumbem todos os determinismos (os que dizem que tínhamos de ser assim porque o determina a genética, ou o ambiente, ou a cultura, ou as pulsões ou… ou…). E onde fica a liberdade?

Só a Graça a pode garantir.

Apresentar-se Deus, ao mundo, através do Cristianismo, como Amor (não apenas como Aquele que ‘tem’ amor, mas como Aquele que ‘é’ Amor) é a sua grande novidade e, também, uma das maiores dívidas que o mundo deve reconhecer nunca ter devidamente saldado. 

É curioso constatar como a tentação de regressar à escravidão (à ditadura do destino), pela via da manipulação do futuro (pelas necromancias, quiromancias, magias, astrologias ou outras técnicas), é sedutora e regressa, vez após vez, como se as moiras recebessem renovados convites dos humanos para habitarem na sua casa e desde a primeira hora a estes convites esteve atento o cristianismo. 

É que o mundo não é, para a religião cristã, mero cenário onde se representa história previamente traçada e a cumprir: é o real lugar do encontro das liberdades – as humanas e a divina. 

Liberdades, sim, e não enredos já definidos e traçados. 



terça-feira, abril 27, 2021

O perdão redime a ‘trágica’ existência humana

 

(Amigo/a leitor/a, convido-o/a a olhar, com atenção, a imagem que ilustra este texto 

[Pode encontrá-la aqui: https://angelusnews.com/wp-content/uploads/2019/09/3dhgsq1dr_Pope_Feature_1_.jpg]. 

Observe-a, com cuidado, e procure interpretá-la. Sugiro que, só depois de o fazer, inicie a leitura…)


O mundo tem grande dívida para com o cristianismo. Dívida que vai muito para além de todo o impacto visível em obras arquitetónicas, literárias, pictóricas ou outras igualmente observáveis e mensuráveis. Há dívidas que não se podem pesar, calcular e medir. Escapam e são de uma enorme densidade e profundidade. Mas, entretanto, demorará até que reconheça quanto lhe deve, de facto.

Antes de me adentrar no que pretendo aqui analisar, deixo uma sugestão de leitura. ‘O que a civilização ocidental deve à Igreja Católica’, de Thomas E. Woods, Jr (Ed. Alêtheia), é um livro de justiça. Não é um livro de direito. Nem por sombras. É um livro de justiça, isto é, trata-se de uma obra que faz justiça. Costumo sugerir, com ironia, que deveria ser colocado, nas livrarias, na secção de finanças, dado que contribui para se perceber como saldar parte da dívida (enorme!) que o mundo tem para com o Cristianismo.

Feita esta sugestão, regressemos à linha que vínhamos seguindo.

 

‘Pessoa’: uma das dimensões da dívida

Há, de facto, nessa dívida, dimensões que escapam à mensurabilidade. Entre elas, está, por exemplo, o conceito de pessoa. ‘Pessoa’ é um conceito que nasce no contexto das discussões sobre a natureza trinitária de Deus. Não servindo a ideia de ‘indivíduo’, a teologia trinitária forjou o conceito que permitisse evidenciar, por um lado, a dimensão ‘individualizante’, mas sem que tal significasse que Deus era, então, três ‘indivíduos’. Era preciso um conceito que salvaguardasse a identidade sem a isolar e sem a conceber fechada em si. O conceito de ‘Pessoa’ foi o que, resultando de prolongada reflexão, permitiu dizer que Deus é diverso, em si, sem que tal signifique que cada ‘parte’ da diversidade possa pensar-se sem ser em relação com a unidade e a relação. Pessoa diz, precisamente, a identidade que se define na relação e no encontro diante do outro. Deus é Pai no preciso ‘momento’ em que gera o Filho e, no preciso ‘momento’, também, em que a ‘geração, no amor, se possibilita. Desta forma muito plástica descrevemos a densidade que nos possibilita o conceito de ‘Pessoa’.

 

Da visão trágica à confiança no perdão

Mas ainda não chegámos ao núcleo do que pretendemos, nesta reflexão.

Há, sem dúvida, a dívida da arte, da cultura, dos conceitos, mas, antes, durante e depois de todas estas, há a dívida sobre o modo de olhar a existência.

Para percebermos esta dimensão da ‘divida’, importa recordar como era ‘trágica’ a visão que antecedeu a emergência da visão cristã.

Recordemos que a expressão pública e reconhecida do cristianismo só começa a operar-se, de forma definitiva, a partir do ano de 313, ano do édito de Milão que, pela ação do Imperador Constantino, possibilita que o império romano tolere esta nova religião.

Até aí, a visão vigente era a que conformara o ocidente, por influência da visão grega, chegada pela mão dos romanos.

 

A visão trágica dos gregos

E o que nos evidenciava essa visão?

A vida era, na visão grega, tragédia, fundamentalmente, tragédia. Tragédia que se tornava visível na convicção de que, acima dos próprios deuses estava a ‘moira’, o destino (o ‘fatum’ que deu, em português, a ideia de ‘fado’ – destino; ideia presente na palavra ‘fatalidade’). Os próprios deuses estavam submetidos à força de um destino impessoal, cruel, sem piedade…

Tal conceção é particularmente expressiva e densa nas célebres tragédias dos grandes autores clássicos. Entre elas, podíamos recordar a história do Rei Édipo, mas pretendemos incidir o nosso olhar na história de Antígona, uma história que bem conhecem os alunos de Educação Moral e Religiosa Católica, a quem ela é apresentada, na unidade de ‘Política, ética e religião’: um serviço inestimável que a Igreja Católica presta à educação, em Portugal.

O que nos diz a história de Antígona?

O rei Creonte proíbe esta filha do incestuoso casamento de Édipo com Jocasta de enterrar um dos dois irmãos (Etéocles e Polinices) que se tinham combatido um ao outro até à morte. A Etéocles, o rei Creonte oferece honras fúnebres majestosas, mas decide que Polinices seja deixa insepulto. Antígona opõe-se a esta decisão de Creonte, que era seu tio, e enterra, obedecendo ao que lhe impunha a sua consciência e o seu dever religioso. Após fazê-lo, suicida-se, sendo que nos diz a trama trágica que, entretanto, Creonte tinha desistido da decisão e mandara um mensageiro comunicar-lho. Tarde demais…

Assim é, em tantas das tragédias gregas. O destino fora mais forte do que a compaixão.

Esta não é a visão cristã sobre a existência.

 

O perdão e a graça é que redimem

No centro da visão cristã, está o perdão que encontro plasticamente representado numa obra que convido o leitor a observar com atenção.

Refiro-me a um capitel de uma coluna da Basílica de Santa Madalena, em Vezelay, uma igreja do início do século XII.

Um olhar atento deste capitel permite-nos ver, do lado esquerdo, um enforcado. (Aparentemente, de novo, a dimensão trágica da existência…) Porém, o capitel reserva-nos uma surpresa, do lado direito.

Na verdade, facilmente reconhecemos, no enforcado, o traidor Judas, aquele que entregou Jesus Cristo.

Mas o lado direito evidencia-nos a dimensão redentora com que o Cristianismo olha a existência. Ali, o enforcado é levado aos ombros… de Jesus Cristo. No levar aos ombros aquele que o entregou à morte, mostra a densidade do amor de Jesus Cristo. Recordo-me de, na década de noventa, ouvir da boca do sr. D. Manuel de Almeida Trindade, meu bispo e padre conciliar, o espanto ao constatar que, ao longo da história, nunca a Igreja ter ousado dizer que alguém, em concreto, estava em Inferno ou tinha sido abandonado por Deus. Dizia-me o sr D. Manuel: ‘Repara, Luís, que a Igreja sempre nos apontou o exemplo de Santos, mas nunca nos disse que este ou aquele em concreto não podia participar da felicidade eterna de Deus.’

O perdão é, com efeito, a resposta à dimensão aparentemente trágica da existência, pois, a Fonte donde tudo provém é Amor. Não apenas ‘tem’ amor; É amor. E se é amor, então, o limite, a fragilidade, a vulnerabilidade, são assumidos e redimidos, para sempre, dando-nos a certeza de que a Vida é mais forte do que a Morte. Como pode concluir-se da leitura de uma recente obra sobre ‘o sofrimento de Deus’, da autoria do Pe. Rui Mendes de Sousa, a resposta ao sofrimento do mundo está na certeza de que a ‘Paixão de Cristo é efetiva compaixão de Deus’.

E como poderiam recusar perdoar os que sabem que o mundo nasce do amor que perdoa?

(Artigo publicado na revista 'Mundo Rural)


terça-feira, junho 25, 2013

Do «terrível fado» à responsabilidade…


O mundo da educação, aquele onde fermenta a minha vida quotidiana, está, muitas vezes, marcado por uma espécie de fatalismo que, frequentemente, me provoca a interrogação sobre onde ficará a liberdade e a responsabilidade pessoal. São tantas as razões invocadas para justificar o insucesso e a tibieza que parece ficar sumida a pessoa numa tempestade invencível de causas, de tal modo que o ser humano sobre quem recai o olhar se torna uma mera vítima, onde a condição de pessoa é uma miragem. Não posso deixar de sublinhar que revejo, neste fatalismo, uma espécie de reminiscência do destino trágico que definia o enredo do teatro grego, onde o herói mais não era do que uma vítima da moira, do fatum (de que vem o nosso «fado»), essa força incontrolável, que o encaminhava, sem contradição, para o fim previamente definido. Contemporaneamente, o grande Gabriel Garcia Márquez, escritor colombiano de renome mundial e vencedor do Nobel da literatura em 1982, recuperou a mesma ideia na sua «crónica de uma morte anunciada», uma espécie de versão sul-americana do «processo» de Kafka. O homem, em todos estes palcos, não é livre, não tem capacidade de romper com um destino predeterminado que ele apenas cumpre.

Ora, tal não é, nem poderá ser, a visão católica sobre a vida humana. É sabido que o protestantismo, em virtude da forte influência nominalista que recebeu, via Guilherme d’Ockham, não dispensou esta visão, que é mais vincada, porém, no calvinismo do que no luteranismo. E compreende-se porquê. A intenção de reconhecer apenas a Deus a origem da salvação humana (também o Catolicismo afirma a iniciativa de Deus, contudo) assegurava-se sumindo o papel do homem. Restava, então, atribuir a uma libérrima e inacessível vontade divina o conhecimento sobre o destino de cada um. O contributo efectivo da pessoa humana ficava, assim, silenciado. (Uma atitude genuinamente ecuménica não poderá, contudo, deixar de ter a sabedoria de colher, do protestantismo, esta condição de acolhimento gratuito dos dons de Deus e, do catolicismo, este movimento não fatalista, em vez de se fixar nos limites e extremos de uma e outra opção).
 
Não deverá, insisto, ser essa a leitura católica. Mesmo que as circunstâncias façam crer que se é vítima de um destino pré-traçado, a que nada pode opor-se, importa confiar que não é assim e que o homem é aquele com quem Deus fala «como a amigo», como refere a Dei Verbum 2.

Ilustro estas afirmações com uma história verdadeira, contada por Tim Harford, no seu recente livro de título sugestivo: «adapte-se: o sucesso começa sempre pelo fracasso».

É a história de um rapaz, nascido em 1937, em Verona, na Itália, de nome Mario Capecchi (lê-se «Mário Capéqui»). Uma história que tinha tudo para o enredo de uma tragédia de Sófocles. Ou quase tudo… Com pouco mais de 3 anos, Mario vê a sua mãe ser-lhe tirada, às mãos de soldados nazis que a levam para um campo de concentração, ficando com o seu pai, um homem violento, de quem não guarda memória de sinais de amor. Durante cerca de um ano, a vida de Mário divide-se entre a agressividade do pai e as fugas de casa, oportunidade para se refugiar na rua, onde pretendia sumir-se à violência paterna. Como recorda Tim Harford, citando o próprio Mario, «por entre os horrores da guerra, talvez a coisa que, enquanto criança, me tenha sido mais difícil de aceitar fosse ter um pai que era violento comigo». Por volta dos seus quatro anos e meio, perde o pai, vítima de um ataque aéreo, iniciando-se, aqui, um período de cinco anos em que a sua vida se faz de orfanato em orfanato, cujas condições eram terríveis: «não havia cobertores nem lençóis, as camas eram postas lado a lado, e não havia nada para comer excepto uma côdea de pão e uma chávena de chicória.». Aos nove anos, reaparece a mãe, irreconhecível, após cinco anos passados num campo de concentração. Leva-o para a América… Em 2007, Mario Capecchi recebe o prémio Nobel da medicina, por investigações na área da genética.

Num registo fatalista, a vida de Mário Capecchi teria redundado numa história de marginalidade e tristeza. Um outro registo, feito de responsabilidade pessoal, de reconhecimento de que a história se realiza no encontro entre Deus e o Homem, e não como mero cumprimento de um destino pré-traçado, permite vislumbrar sentido e conferir sentido ao que parece ser antecâmara para o abismo.

Quantas mensagens e desafios se ocultam nesta história real, nestes tempos em que a tentação de invocar o «terrível fado» parece aquietar e acomodar, como que esperando que a resposta surja espontaneamente! O Cristianismo é, porém, desafio de encarnação, isto é, de assunção de que se não se encarnar a condição humana, algo ficará por fazer… Por paradoxal que pareça, a acção de Deus não se fará sem a resposta comprometida dos humanos. Deus é espírito, sopro, não «furacão».

'Os Sete Dias da Criação' |11| Luís M. P. Silva - 11 – O segundo dia… a preparar o terceiro!

  (‘Os Sete Dias da Criação’ | Rubrica dedicada ao diálogo entre ciência e religião) Artigo originalmente publicado na revista 'Mundo Ru...