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quinta-feira, outubro 30, 2025

Habituámo-nos à morte…

 

Há algo de trágico e dramático em ter-se uma boa resposta, mas não se lhe encontrar pergunta correspondente. Como a chave caída na calçada, à qual só um acaso poderá vir a restituir utilidade, ao encontrar-se de novo a porta em que encaixava e que permitia abrir.

Parece-me residir, aqui, a mais profunda causa da crise das religiões tradicionais. Possuem sábias e demoradas respostas para interrogações entretanto sumidas.

Soma-se, porém, à tragicidade original e essencial daqui decorrente um segundo nível trágico: as perguntas nunca deveriam ter-se sumido, dada a sua natureza de condição necessária à existência do perguntador. Se não pergunta sobre si mesmo e a permanência de si aquele que pergunta, sobre o que perguntará? Bastar-se-á nas perguntas efémeras?

Não é, por isso, apenas trágico para as religiões constatarem que possuem respostas para perguntas que, entretanto, se esfumaram. É-o, principalmente, pela natureza das perguntas sumidas. De outro modo: a verdadeira tragicidade está em que o sujeito humano tenha desistido de se interrogar, tenha desistido de se perguntar sobre si, tenha desistido, afinal, de ser humano.

A história da emergência evolutiva do ser humano pode fazer-se a partir da capacidade de o humano se deixar interpelar pela unicidade e inevitabilidade da morte. No processo evolutivo, sabemos estar perante comunidades humanas porque as vemos associadas a (mesmo que rudimentares) sinais do culto dos mortos. Há humanos onde há a interrogação sobre a ‘questionabilidade’ do morrer. Os animais não têm culto dos mortos. Não se interrogam sobre o que é morrer.

Um olhar fino percebe a concomitância entre a interrogação sobre o morrer e a resposta que é viver. A lenta, mas consolidada história, do reconhecimento da dignidade do que é ser-se humano faz-se do confronto perante a inevitabilidade, unicidade e incontornabilidade da morte, perante a qual se torna necessário assegurar condições de proteção. É que a essas notas com que se afigura a morte soma-se uma última: a irreversibilidade.

O reconhecimento da necessidade de se proteger esse ‘algo’ considerado ‘dignidade humana’ encontra o seu berço neste inconsciente confronto com a impossibilidade de reverter a ação da morte.

Ora, os tempos em que vivemos trazem-nos uma radical novidade que a história da humanidade nunca ousara permitir-se: ‘desdensificou’ (anulou a densidade) a morte.

Hoje, morre-se como se já não se vivesse: sem drama! Acresce a isto um salto para a frente: pretende-se, não só não evitar a morte, mas, inclusive, assegurar que se pode pretendê-la e obtê-la. A morte ficou ao alcance da ‘mão que embala o berço’, do desejo feito direito sussurrado sob a capa da compaixão.

Sucumbem, assim, de uma só tirada, a dramaticidade da morte e a inviolabilidade do viver.

Deveriam incomodar-nos as mortes solitárias, na ordem das centenas, que são levadas à terra, sem a companhia de qualquer familiar. (Ouvir https://rr.pt/fotoreportagem/renascenca-reportagem/2025/10/17/ha-cada-vez-mais-nomes-estrangeiros-imigrantes-sao-quase-um-quarto-dos-funerais-solitarios-em-lisboa/444114/)

Deveriam pôr-nos em sobressalto os números dos suicídios por solidão (https://youtu.be/wKSIN7hIi0Y), nas sociedades do bem-estar e modernas. A modernidade favoreceu a emergência de um modo de nos pensarmos radicalmente solipsista, autossuficiente, visão que venho designando como intrinsecamente ‘inumana’, pois o humano é, por natureza, um ser dependente, nascido sempre de dois, necessitado de mais do que de dois para se saber existente, carente dos outros para ter uma cultura, uma língua, um chão para pisar. Mas uma certa modernidade (não tinha de ser assim! A modernidade esqueceu-se de que a autonomia é a interiorização da lei e não a capacidade de o sujeito ‘criar a lei’) tomou o rumo de nos isolar, negando-nos como ‘pastores do ser’ (Heidegger), como aqueles que recebem o ser que devem proteger e cuidar. Iludimo-nos, pensando-nos originariamente ‘eus’ sem ‘tus’. Mas a génese dos sujeitos é a invertida a esta: primeiro, está o ‘tu’, diante do qual emerge e nasce o ‘eu’.

A morte é, assim, enquanto experiência antecipada no morrer dos outros, ocasião de densa interrogação sobre o viver. No morrer dos outros, reconhecidos como ‘tus’, renascemos como humanos que regressam à fonte de todas as perguntas. Se perdemos a capacidade de nos deixarmos incomodar com o morrer, se tornamos asséptica a morte, não é apenas a morte que deixa de o ser, mas o próprio viver.

É, por isso, urgente ‘desabituarmo-nos’ da morte. Há que devolver-lhe a sua unicidade, a sua dramaticidade, a sua condição de lugar de inquietude. ‘Nenhuma pergunta é proibida’ – assim deverá manter-se, perante a morte, como dizem os dominicanos, na sua academia de Bagdad.

Em cada morrer, em cada morte, cria-se a cova de um berço de um renascimento: regressamos à humanidade, à condição do ser feito de ‘húmus’, frágil, vulnerável, e disso sempre consciente. Não alienado ou distraído de si. Presente a si! Densamente perturbado pela morte para, na resposta da esperança, buscar a quietude nunca acomodada ou sossegada.

Como diz o poeta José Rui Teixeira, no seu ‘Hitoritabi’:

‘Disseram-me que foi uma morte súbita.

A morte é sempre um processo, pensei.

E a esperança lastimou em faúlhas,

do outro lado do arame farpado,

esse modo tão esbranquiçado do frio.

 

                Tenho-me convencido das minhas incertezas.

A fé é uma ferramenta sem descanso.’

sábado, janeiro 15, 2022

Regresso a Ítaca no sonho do Éden | A pedra de Sísifo já repousa

 

Rubrica 'Regresso a Ítaca no sonho do Éden’

(Artigos publicados na revista Mundo Rural - Acção Católica Rural)

 

Regresso a Ítaca e o meu pensamento, o meu sonho, ilumina-se no Éden.

Este tem sido o nosso caminho ao longo deste percurso que atinge, com este texto, a sua décima segunda etapa. Em todas elas, o nosso objetivo foi colocar em diálogo e, eventualmente, em confronto, duas das principais raízes do pensamento ocidental: a influência grega e a marca cristã.

Ítaca é aqui, o sinónimo da viagem de Ulisses de regresso a casa, Ítaca, após a sua participação na guerra de Troia.

Éden é a expressão do sonho com que Deus criou o mundo e à luz do qual toda a criação, na sua fragilidade histórica, deve ser refletida e iluminada.

Neste passo do nosso caminho, centramos a nossa atenção na visão trágica da vida que os gregos nos deixaram como herança que continua a ‘queimar-nos as mãos’. De facto, a visão trágica continua, múltiplas vezes, a ganhar terreno em relação à visão sustentada na esperança, marca indelével do cristianismo no ocidente. Muitos são os que daquela se reivindicam herdeiros, sem dela quererem abdicar, mesmo quando a esperança lhes mostrou fazer sentido.

Nestes tempos de discussão sobre a eutanásia, estas duas visões cruzam-se, de forma radical e quase que inconciliável.

Evoca essa visão trágica da vida o mito de Sísifo.

Sobre Sísifo impende uma maldição lançada por Zeus: a de que arrastará, monte acima, uma enorme pedra que, prestes a ser depositada no alto, volta a rolar, uma e outra vez, monte abaixo. Perante esta visão trágica e esta circularidade e repetitividade do tempo, o cristianismo fez rolar a pedra, com efeito, mas para a deixar, definitivamente, onde deveria permanecer.

São muitas as alusões bíblicas à pedra. O Vocabulário de teologia bíblica, coordenado por Xavier Léon-Dufour (Editora Vozes) recorda que a pedra simbolizava, nas culturas envolventes ao povo bíblico, o poder mágico, proibido em Israel. Esse significado vem, porém, a ser superado pela simbologia que à permanência e durabilidade da pedra se associará como expressão de fidelidade e permanência de Deus fiel à Sua Palavra.

A pedra já não será, então, um sinal negativo (nem mágico, nem trágico), mas o símbolo de que à Palavra caberá a última decisão sobre o rumo vertiginoso e efémero do mundo.

É a esse significado que aludirão as ideias de ‘pedra angular’, da escolha de Cefas como ‘pedra’ da Igreja ou, ainda, a própria referência a Cristo como ‘pedra de tropeço’, numa alusão não trágica (como se o que acontece fosse resultado de uma fatalidade), mas sim voluntária e livre: são os homens que, pelas suas decisões, veem em Cristo motivo de tropeço; não é o resultado de um qualquer poder fatalista ou determinação involuntária.

Em qualquer destas simbologias, há uma marca de liberdade, por um lado, e de sentido, por outro.

A pedra exprime que o Deus da História é vencedor e a Sua Palavra atrai a Si o rumo dessa mesma História. É pela Sua ação que Moisés faz jorrar água do rochedo, da pedra que, no deserto, era seca e árida. Onde há tragédia, onde há circularidade fatal e insuperável, o Deus da História faz emergir o sentido, a Palavra que dá rumo e quebra a circularidade eterna de um fastidioso rumor de abismo.

E o sinal definitivo desse sentido encontramo-lo no rolar de uma pedra que não voltará a deslocar-se: a pedra do sepulcro que, rolada uma vez, se depositou como ‘pedra’ sobre o assunto ‘morte’; a ressurreição é a Palavra que faz repousar, de uma vez por todas, sobre o monte, a pedra roliça de Sísifo.

E, por isso, se parecia ter razão Albert Camus, autor francês de origem argelina que escreveu um livro que se propõe enfrentar e sustentar o absurdo da existência humana, a que deu o título de ‘o mito de sísifo’ e que começa com a afirmação de que “só há um problema filosófico verdadeiramente sério: é o suicídio” (Albert Camus, O mito de Sísifo, Edição «livros do Brasil», p. 13), a nossa constatação, porém, de que o autor acabou o livro sem levar até ao limite a seriedade filosófica permite-nos perceber que a pedra rolou de uma vez por todas e que podemos, por fim, deixar descansar Sísifo.

O cristianismo não expressa o mero desejo de que assim seja; não é uma teoria, uma discussão. Parte de um evento, de um acontecimento que, começando no tempo da História, se prolonga para além da história. O monte sobre o qual Sísifo fazia rolar a pedra permanecia totalmente na História. E, na História, não pode encontrar-se o sentido definitivo: só eventuais antecipações provisórias do Sentido ou, para utilizar terminologia de W. Pannenberg, manifestações ‘prolépticas’ (antecipadoras) do Último Sentido que nos é concedido por Deus, a Realidade que tudo determina, não como destino sem liberdade, mas, antes como atração que chama e convida.

O verdadeiro e definitivo Sentido está para além da História. E dessa permanência última são sinais as efémeras, mas duráveis, rochas que, ainda assim, se desgastam e pulverizam: elas são símbolo. O Eterno só transparece na História, mas não é a História: ‘já não está aqui’! O que ficam são os sinais antecipadores.

Esta é a linha que separa as duas visões: uma busca o sentido definitivo aqui, na História, mas o que encontra é um eterno circular do tempo que se desfaz e pulveriza; a outra encaminha-se para o além, do qual volta a olhar o tempo, mas sabendo-o o primeiro momento do rumo último para que o agora se encaminha.

Sísifo está só.

Já Aquele que dá sentido está sempre acompanhado, pois, enquanto Amor, é, em si mesmo, encontro e relação.

Sísifo pode, por fim, descansar, se livremente aceitar não se submeter ao poder de um destino trágico.

Aceitarão isso os seus herdeiros?

E ao pó hás-de voltar… Não às cinzas estéreis e anónimas.

  Há uma sabedoria profunda, verdadeiramente divina, no ato de inumar o ‘corpo’ morto, de o devolver ao regaço adâmico de que proveio. Mas u...