quinta-feira, julho 23, 2026

26 | Alberto Ferreyra | Mystérios lusitanos [contos - texto e locução] | Mistério na rua do casal

 

Mystérios lusitanos | A vinte e três (23) de cada mês, habitamos o mundo pelo imaginário de Alberto Ferreyra...

(Nos ramos da escrita, repousam, vezes sem conta, as gralhas da distração, ocultas, sob múltiplos disfarces, até que alguém as enxote. Alberto Ferreyra contou com o fino olhar da sua amiga Teresa Correia, detentora do segredo da sua identidade, para afastar ou caçar o grasnar das gralhas. Está-lhe, por isso, muito grato...)

Alberto Ferreyra*



Na rua do casal, chegados ao chafariz, pode subir-se ou descer. J. tomou o rumo da rua do bacelo. M. decidiu sentar-se e descansar. Haveriam de descer os dois, mas o momento pedia brando deleite.
Do que fora, outrora, abundante bica resta, hoje, apenas, um lugar seco. Com a forma de uma ogiva e base quimérica – as quimeras da geometria que unem quadrados e hexágonos numa mistura originalmente inominável -, o chafariz de pedra guarda as memórias da família de que herdou o nome.
M. sentou-se, meditativa, não se apercebendo de que J. se afastara.
Um vento ligeiro desceu, macio, pelas pedras da rua. Enrolou-se em M. e levou-lhe a memória ao interior da morada do casal.
O vento movia-se, brandamente.
O tempo esperava.
M. deixou-se tomar nos braços da brisa.
Entrou, qual memória sem corpo, no interior da habitação.
O chão, de soalho, rangia, como que percorrido por passos pesados. Atormentados, mas raros.
Sobre um aparador, barrocamente rendilhado, repousavam fotos e livros. Amontoados como quem deixa a fermentar até vir a sorver, com deleite. Percebia-se ser gente letrada; não estavam abandonados, antes, delidos do uso.
A memória de M. percorreu-os, longamente. Viu-lhes os títulos e os autores. Guardou recordação de um ‘Wilde’.
Ao seu lado, entre as fotos, erguiam-se, em pose fresca, dois noivos.
O olhar de M. regressou ali. Parecera-lhe perceber uma originalidade.
A noiva permanecia igual ao que fora na primeira hora. A sépia, jovem, com o branco do tempo de outrora. O noivo estava rodeado de um cinzento novo e fresco – mas cinzento, sem cor - , ainda que de rosto já envelhecido.
O tempo passara por ele.
Guardara, para si, porém, a noiva. Jovem, como no primeiro dia.
Por momentos, o vento devolveu M. à pedra do chafariz.
Mas M. resistiu. Queria continuar a revisitar aquela memória.
A um canto da sala, chorava-se.
Pareciam as sombras de um velório.
Uma voz, sem rosto, titubeava:
‘Ao menos, não morreu…’
‘… no inverno em que viveu!’

Um longo silêncio envolveu aquelas curtas palavras.
Para se lhe seguirem outras e outras:
‘Trouxe-lhe a primavera aquela confissão da vida’.
M. esperou. Haveria de compreender o significado do que ouvia.
‘Enquanto foi o ‘Terça-feira’, o seu viver foi um inverno. O da sua doce mulher, um inferno.’
De um outro lado da sala, que M. não conseguia ver, uma outra voz, também feminina, dizia, com firmeza:
‘Todos lhe chamavam o ‘Terça-feira’... Como não? Se só à terça-feira o via a pobre mulher, perdido andava ele pelas margens do existir nos outros dias do seu viver…’
E prosseguiu:
‘Viveu perdido, errante dos seus erros, sem olhar a bela mulher que decidira infernizar.’
‘Dizem que vendera a alma ao diabo.’ – Acrescentou, cavernosa, a voz de um homem de que só se via, por detrás de uma ondulante cortina, a silhueta alta e hirta, como voz final ao desvairado Dom Juan…
‘Mas, nos derradeiros dias do seu existir, pediu-lhe a mulher que se tornasse ‘Todos os dias’. Aceitou confessar-se. Fazer a confissão de vida e reconhecer que os erros não tinham de o tornar um errante.’
‘Viram-no entrar na igreja, de botas arrastadas, sulcando o chão. Voltaram a vê-lo, de olhar erguido, sair, horas mais tarde.’
‘Podemos chorá-lo. Chorar todos os dias em que foi ‘Terça-feira’ e, para a mulher, ‘Dia nenhum’.
‘Mas esperar que se tenha tornado Antítono, e que o diabo lhe tenha devolvido a alma, restituindo-lhe a eternidade, com uma autêntica eterna juventude.’ – Rematou a primeira voz, regressando ao choro.
Como que num teatro rematado, os cantos da sala escureceram.
M. recentrou o seu olhar no aparador.
Reviu os livros. Revisitou a foto. Tudo era, agora, autêntico.
Entre os livros, uma mão delicada destacou um título: ‘ o gigante egoísta’.
M. pareceu despertar. J. sacudia-a, levemente, esperando fazê-la regressar.
J. nada lhe perguntou.
Desceram, juntos, o que restava da rua do casal.
De uma janela entreaberta, M. viu, sobre um amontoado de livros, uma foto a sépia.
Nela, havia dois noivos. Ambos envelhecidos pelo tempo.
M. olhou para J. Ia distraído nos seus pensamentos.
Não o quis acordar da sua sonolência.
Ou seria ela que permanecia indolente?
Uma cortina agitava-se com o vento. Sobre o aparador sobre que repousava a foto, desprendia-se, de um calendário com destaques, uma folha sem indicação de mês. Um colorido e fosforescente destaque rodeava cada dia da semana; todos os dias!

 


Imagem de Tumisu por Pixabay


*Alberto Ferreyra diz que as suas letras habitam a mente e saem da mão de alguém nascido em terras gaulesas, ainda que afirme, em sussurro, que o seu real nascimento ocorreu nas margens do Antuã, em abril de 2024. É, por isso, um prematuro autor literário, germinado da inspiração que a realidade proporciona quando se tem a companhia, nos livros, de génios como Jorge Luis Borges, Miguel Torga, Gabriel García Marquez ou personagens como Poirot ou Padre Brown.
 
Na sua escrita, cruzam-se o real e o imaginado, o fictício e o histórico, numa embrenhada teia em que o leitor continua a ler, mesmo já depois de fechado o conto. O real continua a fecundar histórias na mente de quem lê Ferreyra. Cada conto, feito dos mistérios desvelados, aproxima o tempo e distancia o espaço, esticando-o até ao eterno e ao infinito. Ao ler Ferreyra, faz-se 'silêncio' ('mystério' alude à etimologia grega da palavra, que remete para o 'fazer silêncio', 'emudecer-se'...) para que possam ecoar as palavras, para que possa desenovelar-se o enredo sucintamente desvelado.
 
J. e M., protagonistas de cada um dos contos, acompanhados, em alguns deles, pelo seu periquito 'branquinho', fazem emergir, do real em que se enredam, histórias que, nascendo da imaginação de Ferreyra, permanecem como realidades possíveis, deixando a suspeita de terem mesmo ocorrido.
Se não foi real, Ferreyra o criará, inspirado numa cosmovisão que tanto deve àquela religião que fez do encarnado a condição fundamental do existir.
 
A vinte e três (23) de cada mês, habitaremos o mundo pelo imaginário de Alberto Ferreyra...

segunda-feira, julho 20, 2026

Luís Manuel P. Silva | Aborto e outras violências: O futuro é dos sonhadores!

 


Luís Manuel Pereira da Silva*


Dizem que sou um sonhador. Que esperar um mundo em que todos os filhos de humanos (mulheres ou homens, pessoas com deficiência ou sem que a tenham explícita, pobres ou ricos…) possam nascer é um sonho paradisíaco pouco irreal.

Posso sê-lo. Mas o que seria o futuro sem os sonhadores?

O cinzento não é alternativa.

Ouso fazer um pedido a cada um dos leitores deste texto: que me leia sem preconceitos; que me leia como quem está disponível para, verdadeiramente, ouvir.

Leia-me, bom leitor, como a criança a quem falam do que, realmente, está em causa.

Trago, a esse propósito, uma página de um diário de uma mulher que aceitou ser ‘barriga de aluguer’ de uma cunhada. Diz ela, na semana 15: ‘Contei aos meus filhos o que se está a passar. A minha filha perguntou: «Não me vais dar a outra pessoa, pois não?»[1]

Uma só pergunta e desaba toda a segurança sobre a bondade das ‘barrigas de aluguer’.

Uma só pergunta – ‘onde está o meu irmão que eu esperava?’ – e desaba toda a convicção de que o aborto seja um inócuo ato solitário que só a cada um diz respeito.

Acredite, caro leitor, que quem se opõe à legalização do aborto não o defende porque queira ver punidas todas as pessoas que o praticam.

Tremendo equívoco esse que pressupõe raciocínio tão curto e tão estreito.

As leis não foram feitas para que se possa punir quem as infringe. Foram, antes, feitas para proteger bens que merecem cuidado e defesa.

Dir-me-á o leitor, muito atento: ‘esqueces-te de que as leis que despenalizaram o aborto protegem um valor igualmente importante: o de nos determinarmos.’

E eu compreendo o valor que se visa proteger, mas ouso pedir um novo olhar.

O bem de que se prescinde – o da vida de um (ou vários, se forem gémeos) filho – é um valor de que não se pode prescindir de parte e permanecer com outra; ou se tem, em absoluto, ou não se tem. A vida não se possui em progressividade; ou está ou não está. Há, talvez, em muitos, o equívoco com a qualidade de vida que, essa sim, é reversível e futurível. Como a liberdade, aliás… A liberdade pode possuir-se em progressividade; ter-se em parte e ir-se desenvolvendo como, aliás, acontece com a criança que se desenvolve ou, mesmo, com alguém que depende dos outros enquanto não domina uma matéria, um assunto. Em todas estas situações, a liberdade está presente, mas nunca de forma absoluta nem totalmente ausente. Porque, por definição, ser livre é ‘ir-se libertando’. Com a vida, que integra o que poderá definir-se como valores irreversíveis (ou se possuem ou não se possuem), não é assim. A partir do momento em que se deixa de possuir, não se recupera.

Logo, é desequilibrado que se prescinda de um valor ‘irreversível’ por um outro que é sempre reversível.

Mas, poderá dizer-me, mais uma vez, o leitor, muito atento: ‘mas isso é uma decisão exclusiva da mulher que está grávida…’

A ideia é sedutora, mas, mais uma vez, nasce de um equívoco.

Um filho não é gerado por um só, pela mãe (muito menos, só pelo pai, claro!). O filho é, por natureza, um ente que une duas histórias. O homem e a mulher de quem provêm os gâmetas (que triste é que a tecnologia nos tenha obrigado a esta leitura fria e laboratorial – o frio das pipetas e das seringas… - que dissociou a geração de um ato de amor, mas é assim!…) eram dois seres sem ponto de convergência até que um filho os une, para sempre. Sublinho ‘para sempre’.

Mesmo que o queiram apagar, aquele ente une-os. Geneticamente, há algo do pai e há algo da mãe. Saibam-no ou não. Queiram ou não!

E o que fazer com o filho que ‘fala’ dos dois é, neste momento, a questão.

Sentimo-nos autorizados a decidir sobre a sua vida?

Ou reconhecemo-lo como anterior ao que nos é legítimo decidir?

E é aqui que os dois caminhos se separam.

Como o ponto após as portagens de uma autoestrada em que, para um lado, se vira para norte e, para o outro, se vira para sul.

Admitir a legitimidade do aborto é aqui que se determina.

E, a partir daqui, é importante que se perceba o que se está a determinar: se a vida do outro está ao nosso dispor, ao dispor da nossa autodeterminação, ou se não.

Se sim, então, honestamente, deveríamos ir até ao fim.

Se alguém pode determinar se a vida do outro merece ou não merece continuar, é puramente arbitrário que o seja às dez, às doze, às vinte e quatro semanas ou até ao final da gravidez… E, no limite, até que tenha capacidade de decidir por si (como permite, neste momento, a Bélgica que autoriza a eutanásia de menores, a pedido dos seus pais). Vejamos que, em termos lógicos, a Bélgica está a levar até ao limite o raciocínio.

E é por isso que devemos questionar o raciocínio. Para que não seja demasiado tarde…

Regresso ao lugar após as portagens…

Para mim é claro que a vida se impõe à liberdade de cada um (e, caríssimo leitor, se acha que sou eu o primeiro a reconhecê-lo, sugiro a leitura muito atenta do preâmbulo da Declaração Universal dos Direitos Humanos que afirma, claramente, que é o reconhecimento da dignidade humana o pressuposto da liberdade e não o contrário), por muito que me apeteça extingui-la, por muito que esteja perturbado pela notícia e pelo medo (talvez até terror) do futuro.

O que deveria, neste momento, fazer a sociedade, era dizer a cada casal, a cada mulher que se reconhece mãe: ‘estamos aqui, contigo, e temos, para ti, estes apoios e estas ajudas. Não estás só.’

Digo-lhe, caríssimo leitor, caríssima leitora, que a sociedade se tem organizado para tal, pois muitas instituições surgiram, nos últimos trinta anos, a apoiar as grávidas que se encontram sem apoio. Mas o ‘zeitgeist’, o espírito deste tempo, não tem estado atento e quase as silencia. Mas alguns milhares de crianças já nasceram, desde que o referendo ao aborto legitimou a sua prática, por ajuda destas organizações. Autênticas sobreviventes da lei do aborto. Sim, meu bom leitor, todos os que nasceram depois de 2007, são, em Portugal, sobreviventes da lei do aborto. Pois a pergunta que pode sempre fazer-se é: ‘porque tive eu direito a nascer e não os mais de 300 mil entretanto abortados?’

Confesso-lhe, caríssimo leitor, que muito me custa esta arbitrariedade em que deixaram enredar-se os ‘Estados de Direito’ ocidentais que permitiram que algo tão determinante (como a vida de alguém) dependesse da decisão de um só. Com as abrangentes implicações que tal comporta: onde ficou o pai, nesta decisão? Onde ficou o filho? Onde ficou a própria mãe que, tantas vezes, pressionada pela sociedade envolvente, é empurrada para o aborto porque a lei já não protege a sua decisão de não abortar? Onde ficou, afinal, a mensagem de que não devemos ser violentos uns com os outros?

Sim, porque se uma sociedade admite a violência da mãe sobre o seu filho, quando este mais depende dela, então, toda a violência pode ser tolerada…

A mãe que é o primeiro berço do seu filho tem de merecer toda a ajuda da sociedade, porque ela é o futuro que já mora no presente. E se queremos futuro, não o podemos esperar amanhã. É que o primeiro futuro, o futuro do passado, é o hoje. E só haverá futuro do presente se, no presente, não se extinguir a vida, não se extinguir quem existe.

Eu sei que sou um sonhador…

Mas o que será o futuro sem sonhos? Pois se não há futuro sem vida, dado que o tempo é vida que se desenrola como novelo. Mas, sem ela, é poeira ao vento.

Sonho… Sonho com uma sociedade sem violências. E sem a maior dessas violências: a dos braços que deveriam acolher a vida quando esta mais precisa do seu conforto.

Sonho… Bem sei que sonho. Mas outros sonham, já hoje, comigo e, um dia, o sonho será real. E enquanto houver sonhadores, a vida continuará a garantir amanhãs. Pois é no hoje de cada vida que germina o devir.


[1] In Gabriele Kuby, A geração abandonada, Cascais, Princípia, 2021, p. 92.


*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano', 'Ensaios de liberdade' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'

Imagem de Clive Einstein por Pixabay

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