sexta-feira, setembro 11, 2026

E ao pó hás-de voltar… Não às cinzas estéreis e anónimas.

 

Há uma sabedoria profunda, verdadeiramente divina, no ato de inumar o ‘corpo’ morto, de o devolver ao regaço adâmico de que proveio. Mas uma onda vertiginosa está a fazer-nos regressar aos fornos crematórios.

Inquietante…

Bem sei que a longa tradição oriental, particularmente a de origem hindu, encerra a vida terrena no ato de cremar. Mas há uma conceção que a justifica, sustentada numa visão escatológica (sobre o pós-vida) muito distinta da judaico-cristã: nesta, a vida de cada um permanecerá uma identidade, depois da vida terrena; na visão oriental, todos nos fundiremos num uno, no cosmos.

Hoje, porém, a raiz dessa justificação está ausente dos motivos que assistem ao avolumar de números de pedidos de cremação, no contexto ocidental, em particular, no europeu.

 

Este texto nasce da confluência de três experiências: uma visita de estudo a Cracóvia e aos campos de concentração de Auschwitz-Birkenau; peregrinação a Santiago de Compostela e a leitura de um livro.

Na visita de estudo que realizei a Auschwitz-Birkenau, tomei consciência (essa consciência que arregala os olhos de pestanas queimadas por longas leituras, a que resulta de se ser surpreendido pelo óbvio que os livros nunca deixaram transparecer) de que a crueldade nazi para com os judeus não se bastara em humilhar, em vida, cada uma das suas vítimas. A ação nazi ia desde o despir integral, desonrando, pela nudez, cada um dos que chegavam aos campos de concentração, passando pela despersonalização reduzida ao número tatuado no corpo (deixava-se, para sempre, o nome com que se adquire uma identidade única) e pelas mortes arbitrárias (porquê este ou porquê aquele eram questões vazias. Morria-se porque assim o determinava a vontade de poder, a vontade dos que tinham o poder…). Os nazis reservavam para o fim a suprema humilhação: um judeu quer voltar à terra de que proveio, a terra que dá o nome à condição adâmica. Somos ‘adam’ porque somos feitos de ‘adamah’; como poderíamos constatar ser ‘humanos’ por nos fazermos do ‘húmus’. Reduzir a cinzas é a negação final da identidade, o culminar de uma ‘solução final’ que se faz do desejo malvado de apagar da história todo um povo e, com ele, cada um dos seus. Para o judeu (como, aliás, para o cristão), o corpo deve regressar à terra que clama por ele. Inumar o cadáver, devolvê-lo ao berço de origem, é respeitar a história que se enlaçou com o suporte corporal da identidade de cada um. O corpo não é apêndice; é parte visível de uma densa identidade que penetra na interioridade invisível. Reduzir a cinzas o que é visível é propiciar a destruição da identidade ali visibilizada.

É isto que torna inquietante o incremento de uma cultura da cremação.

Uma cultura feita de ‘sem-nomes’, de pessoas que, no seu viver ‘funcional’ e ‘útil’, querem fazer-se perder para sempre, sem lugar nem memória.

Senti isto, na peregrinação a Santiago, ao aproximar-me de Padrón, pela madrugada.

No percurso, passei pelo grande crematório/tanatório. Senti, ao ver aquele edifício soturno, anonimizado, o rigor frio da morte. Aquele crematório faz parte de um grande complexo associado ao morrer. Para quem faz o caminho em direção a Padrón, o primeiro que vê é, precisamente, o crematório/tanatório. Após o silencioso e anónimo edifício, segue-se um grande cemitério.

A diferença não podia ser maior. Ao anonimato do crematório - um lugar sem nomes, sem memórias-, segue-se o terreno dos nomes: o cemitério, com as suas cruzes e lápides cheias de nomes e memórias.

No silêncio do meu caminhar, lembrei-me do que faziam os nazis, nos seus campos, cuja porta de saída eram os fornos crematórios: reduzir a nada a vida de cada um dos que faziam parte da ‘solução final’.

E somei outras constatações: tatuámo-nos com imagens sem conteúdo, ocultando, sob tintas já sem narrativas, a cor das nossas peles, como se quiséssemos deixar de nos ser; queremos apagar a memória do que somos e fomos, mudando o nosso género e, com ele, a nossa identidade que pretendemos substituir pelo que a nossa vontade de poder entender determinar.

Iludimo-nos na busca da felicidade, como se ela fosse a meta e não a consequência de amarmos, verdadeiramente. Vivemos gravitando em torno de nós mesmos, desistindo de querer ser como Deus nos pretende para nos determinarmos, ficando em becos sem saída e sem rumo, por nos descobrirmos (talvez sós e sem ninguém que nos acompanhe) que, afinal, a quem sempre buscámos foi a nós mesmos. Por tudo isso, sobra reduzirmo-nos ao ‘sem-nome’, porque só Deus poderia garantir que permanecêssemos nós mesmos. Mas se já nada quisemos com Deus!?… O que poderia sobrar, então?

Nem nós mesmos, obviamente.

A história do pensamento já o adivinhara: se Deus morre, o sujeito humano extingue-se, também.

Mas parecemos gostar da ideia.

Vivemos numa condição assética, sem luta sem superações reais. Não vamos para lado nenhum, pois não nos sabemos ‘chamados’ porque recusamos que Alguém pudesse, sequer, chamar.

Resulta daqui, como bem recorda, Bourgninaud, no seu livro ‘Contra a aversão do homem pelo homem’, um estranho e absurdo movimento de repulsa do Homem para consigo próprio. Quando gravitamos em torno de nós mesmos, à inicial força centrípeta (de sedutora atração por si mesmo) segue-se um movimento oposto, gerador de uma força centrífuga. Voltámo-nos tão intensamente para nós mesmos que nos cansámos de nós. Byung Chul-Han constata, por isso, estarmos a construir uma sociedade do cansaço, na linha, aliás, do que também Lipovetsky identifica como sendo a ‘hipermodernidade’: uma cultura da deceção.

Regressar à terra, à fragilidade que somos, que nos identifica como únicos, como imperfeitos e, por isso, perfetíveis, é, assim, condição necessária e urgente para que possa sobreviver a humanidade. Haverá que pedir que se afixe, nas portas das casas que habitamos, o convite a um novo humanismo. E que voltemos a desejar regressar à terra da qual provimos, para que sobre ela possam caminhar, seguros, os nossos passos de humanos imperfeitos.

sexta-feira, setembro 04, 2026

Santiago de Compostela: Um homem e o seu caminho

 

A condição de peregrino é das que mais belamente expressam o que é ‘ser-se humano’.

Gabriel Marcel percebeu-o, ao designar o Homem como ‘homo viator’, ‘aquele que caminha’, que ‘faz caminho’… Bem poderia tê-lo dito, cunhando-o como ‘homo peregrinante’. Um qualquer dicionário de latim ajuda-nos a perceber que a densidade do que se diz, neste termo, é maior do que a primeira vista permite vislumbrar. O ‘peregrino’ é aquele que ‘atravessa os campos’, anda ‘pelo campo’, não tanto o ‘campo rural’ (ainda que a ideia não esteja totalmente ausente), mas com o alcance de ‘campo estrangeiro’. O peregrino faz uma ‘longa viagem’. É, de algum modo, estrangeiro em toda a terra, ainda que em toda a terra se demore. É muito distinto do turista, que se acelera, de lugar em lugar, para ver, ver, ver. (Ah, como bem o sabia o autor da carta a Diogneto, no século II, que assim falava da condição cristã como a de quem é estrangeiro em toda a terra, ao mesmo tempo que cidadão da mesma!)

O peregrino, pelo contrário, habita e é habitado. Demora-se, nos espaços e nos tempos, ainda que se saiba não pertencente àquele lugar. Não anda errante, porque o erro não o impede de se encaminhar para a meta que o move.

É por isso que, por se fazer ao caminho, por entre os campos que lhe são estrangeiros, acomoda os pés, prepara o seu coração, mune do fundamental o seu alforge e se faz à vida sem sucumbir às adversidades.

Fiz-me ‘à vida’ com o desejo de não sucumbir às adversidades, entre os dias 18 e 22 de agosto de 2026, percorrendo o caminho português, a partir de Valença.

Não pretendo, porém, com esta partilha, apresentar-me como exemplo (Um só é o Mestre!), mas soprar, com estas palavras, sobre as cinzas que, tantas vezes, repousam, tornando-a opaca, sobre a esperança e mostrar como são muitos os mundos de que se faz um ‘Homem’.

Percorri, num grupo de doze, os mais de 120 kms que separam Valença de Santiago de Compostela. No princípio, éramos um mais um mais um mais um… até aos doze: seis do grupo de jovens de Estarreja (AM, DH, AV, RM, JM e eu, Luís) e seis jovens da ‘Missão País’ (CM, HA, DC, MF, FF e SC)! Acabámos ‘um-que-se-faz-de-doze’: gente de fibra, autênticos ‘buscadores de Deus’. É que o ‘caminho’ entrelaça as histórias e faz com que, no mesmo tempo, se vivam muitas vidas simultâneas: as de todos os que, connosco, caminham o caminho, que jamais voltarão a ser as mesmas, após o entrelaçar caminhado. As dores de uns são as dores de todos. As superações de um alegram o coração de todos.

Doze histórias diferentes de doze mundos distintos, com tempos diversos. Uns mais novos (a grande maioria!), outros mais distanciados do tempo do seu nascer. Encontrámos, no caminho, novos, velhos, coxos e trôpegos, doridos e frescos… Os ombros de uns serviam de apoio à insegura cabeça de outros. É assim o caminho.

Deixámo-nos conduzir, ao longo dos cinco dias, pelos cinco capítulos da carta de São Tiago: um capítulo por dia. A carta em que Tiago nos recorda que a fé sem obras é morta…

Entre as muitas histórias e motivos que levam a que se faça o caminho, há narrativas mais simples, há outras mais densas.

Encontrei, em Padrón, uma das mais marcantes que ouvi, nos últimos tempos.

Este texto é, também, exteriorização da minha profunda unidade de coração com a dor que nela se conta.

Aguardávamos pela hora de abertura do albergue público. A entrada era feita pela ordem de chegada. Tínhamos, por isso, saído muito cedo de Briallos. Havíamos vivido um susto, logo no primeiro albergue, e não queríamos repeti-lo.

Chegados, por volta das seis horas e trinta minutos da madrugada, a Padrón, cujo albergue público tem lotação máxima de 47 lugares, já ali aguardavam dez peregrinos. Fizéramos bem em sair cedinho. A nossa decisão de não marcar lugares e confiar obrigava-nos a este sacrifício suplementar. Talvez, no futuro, venhamos a rever tal opção...

Mas, neste ano, nada havia a fazer e restava confiar. Não deixar reservas (só possível nos albergues privados) densificava a nossa condição de peregrinos. A nossa era uma ‘via’ que, verdadeiramente, depositava toda a confiança no Senhor.

Confirmando que tínhamos vaga, fomos instalando, na pedra fria da calçada exterior ao albergue, os nossos alforges e sacos-camas, preparando-nos para algum descanso até à abertura do alojamento.

Entretanto, chegou A.

(Este meu texto é homenagem àquela que levou A. a realizar o seu décimo quinto caminho, diferente de todos os anteriores…)

A. era português, vindo da margem sul.

Este caminho já fora antecedido de muitos outros, mas era único. Como me disse, perdera a irmã, quinze dias antes, por doença oncológica prolongada. Pudera despedir-se e preparar-se.

Prometera-lhe, no leito de morte, que faria o caminho e que a levaria consigo. (Na história da sua irmã refletia-se a história do meu pai, em luta contra um cancro…)

Trazia, por isso, na sua carteira, duas credenciais de peregrino: a sua e a da sua irmã.

Esperava que lhe emitissem, em nome da irmã, o diploma de peregrino, pois também ela fizera caminho ao seu lado ou, melhor, no seu coração. Sabia-a consigo. Ela fazia caminho com o seu cajado e o seu alforge.

Chorei com ele.

Chorei mais do que uma vez e comovo-me, de cada vez que lembro a sua história.

Disse-me, com a sabedoria de quem sente sem amargura, que estava ali, após ter tentado vários albergues públicos, sempre ocupados. Caminhara quinze horas seguidas (mais de sessenta quilómetros), antes de encontrar aquele albergue. Sabia que não encontrara lugar porque, como me disse, o caminho é feito por peregrinos, mas também por ‘turegrinos’ que ultrapassam outros, através de expedientes pouco coerentes com o ‘caminho’. (Infelizmente, também nisto o ‘caminho’ explicita a condição humana, feita de ‘espertezas’ e sombras.)

A. estava cansado, mas percebia-se-lhe a felicidade. Este era o último albergue, antes da etapa final que o levaria ao regaço do Apóstolo.

Quando parti, no grupo dos ‘doze’, do albergue, A. ainda dormia. Deixei-lhe, sobre a mochila, uma curta mensagem, escrita em papel.

Não sabemos, um do outro, nada mais do que o nome. Mas as nossas vidas jamais serão iguais porque o ‘caminho’ nos entrelaçou.

É assim a condição humana. Somos entrelaçados nas vidas uns dos outros, um entrelaçar que tantos peregrinos visibilizam nos símbolos que guardam e de que nunca mais se desfazem (as pulseiras, as conchas, o chapéu de peregrinos…).

Mas os tempos querem desenlaçar-nos, como se pudéssemos existir e viver sem os demais. Triste ilusão!

Ao pórtico da Glória só se chegará, porém, com os outros, na comunhão dos santos. E quantas lágrimas se derramam, sem que as consigamos estancar, quando nos abraça o Apóstolo! A alegria assume a forma de lágrima fecunda de nova luz sobre o nosso caminhar. É-nos dado, para sempre, um novo caminhar!

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