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quarta-feira, outubro 07, 2026

Migalheiro de leituras | 1 | Migalhas da leitura de DICASTÉRIO PARA A DOUTRINA DA FÉ, Una caro: elogio da monogamia

 

Migalheiro de leituras | Fragmentos do pão servido à voz da alma: um convite à leitura integral
‘Migalhas também são pão’, assim nos diziam as nossas avós, assegurando-nos, por um lado, a identidade entre umas e outro, mas, igualmente, por via de um insumível ‘também’, que o pão é uma realidade maior do que a soma das migalhas. Uma identidade sem coincidências.
Assim será este ‘migalheiro de leituras’. Nele, guardar-se-ão as ‘migalhas’ de quem primeiro leu, sabendo, porém, que falam de uma realidade maior, para que remetem e que nunca deverão substituir.
Pretende o autor de ‘migalheiro de leituras’ que ninguém se sinta satisfeito (ou, pior, ainda, enfartado) por se servir das migalhas, mas que, ao saboreá-las, muito se agigante o desejo de, um dia – se possível, muito brevemente! -, se servir do pão…
Parceria: Federação Portuguesa pela Vida e Comissão Diocesana da Cultura

Luís Manuel Pereira da Silva*

 

Dicastério para a doutrina da fé, Una caro: elogio da monogamia – nota doutrinal sobre o valor do matrimónio como união exclusiva e pertença recíproca, Prior Velho, Paulinas, 2026.

 


Percebe-se o silêncio que se abateu sobre este documento. Falar de monogamia é, nestes tempos, um convite ao silêncio. Ao silêncio da contemplação, por um lado, mas, principalmente, ao silêncio da indiferença. Os tempos parecem ser outros.

Mas não se pense, por isso, que esta é uma obra (‘nota doutrinal’, assim lhe chama o Dicastério para a Doutrina da fé) de polémica. A palavra ‘polémica’ é, aqui, particularmente significativa para compreendermos porque considero que não pretende ser uma obra de ‘polémica’. O dicionário de grego-português, do jesuíta Isidro Pereira (edição da livraria Apostolado da Imprensa), define ‘pólemos’ como ‘choque, tumulto de combate, batalha, guerra’.

Não é, de modo algum, esse o intuito deste documento. E essa é a primeira ‘migalha’ a reter da leitura. Este é um documento que se propõe fazer, como evidencia o próprio subtítulo, o ‘elogio’ da monogamia. Não ‘contra’ alguém ou ‘contra’ outras abordagens, mas evidenciando a sua singularidade.

E curioso, ainda, que o faça com uma honestidade que desarma. Logo na apresentação, o prefeito do Dicastério, o Cardeal Victor Fernández fala ao leitor destes tempos e diz-lhe que a intenção é ‘propositiva’. É anunciar, não ‘confrontar’. Para tal, com a mesma honestidade, diz, abertamente, ao mesmo leitor, que, se o seu tempo for escasso, poderá avançar diretamente para o último capítulo (que ‘transparência’!), mas assegurando-lhe que, se não o fizer, irá sentir-se na companhia de alguns dos grandes poetas, pensadores, teólogos, que fizeram a ode da monogamia.

A estas sumarentas migalhas poderá acrescentar-se, por fim, a mais decisiva, o fragmento maior. Com efeito, esta reflexão não se fará concentrando o olhar na ideia da ‘indissolubilidade’ que poderia vincar a dimensão moralista que, prontamente, se associa à questão da monogamia, mas, antes, vincando a dimensão da ‘unidade’ (o tempo dirá se foi uma opção acertada ou se demasiado arriscada…). Ouso constatar, contudo, nesta opção, a marca da chamada ‘moral do indicativo’, típica do pensamento paulino (aliás, profusamente citado, assim como autores de confissões cristãs diversas – é interessante a presença de autores ortodoxos, em particular, na reflexão sobre a condição de ‘pessoa’ e a sua distinção do conceito de ‘indivíduo’ ): antes de se enunciar a dimensão moral, faz-se a proposta (indicativo) de que decorre a moral.

Formalmente, é uma dinâmica muito fecunda e que, em tempos de reserva em relação ao discurso cristão, deverá valorizar-se e recuperar-se…

Sublinhar a dimensão da unidade faz da monogamia um caminho, um processo, assentando numa relação que é dinâmica, ‘fazendo-se’, consequente, aliás, com a ideia de que o matrimónio acontece e vai acontecendo, é uma realidade em si, mas também em ‘fazer-se’…

Sem a recusar (de modo algum!), esta nota desloca, ligeiramente, o centro, da dimensão jurídica para a dimensão dinâmica, ao olhar a monogamia como construção ativa de unidade. Insisto. Não abandona a dimensão jurídica, mas desloca o olhar para o aspeto mais relacional e dinâmico da unidade entre duas pessoas que, pela sua natureza, se torna aberta (ao mundo, aos outros, ao futuro, nos filhos, a Deus).

E realiza esta deslocação do olhar com desafios realistas e oportunos. Não posso deixar de repercutir a densidade da afirmação que vinca que ‘a educação para a monogamia não constitui uma coerção moral, mas uma iniciação à grandeza de um amor que transcende a imediatez. Ela orienta a energia erótica para uma sabedoria da durabilidade e para uma abertura ao divino. A monogamia não é arcaísmo, mas profecia: ela revela que o amor humano, vivido na sua plenitude, antecipa, de algum modo, o próprio mistério de Deus.’ (n.107).

É, pelo dito e pelo subentendido, pelo pão de que falam estas migalhas, uma nota que ajudará a iluminar as sombras com que os olhares observam o ‘sonho’ da vida em casal monogâmico.

Não lhe falta luz. Queiram os olhar buscar o sol…

 

*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Ensaios de liberdade', 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'

Imagem de https://www.paulinas.pt/produto/una-caro-%E2%80%92-elogio-da-monogamia/

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