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terça-feira, agosto 06, 2024

Do jogo e do jogar: alegoria de um futuro mais humano

 

A história da relação entre o cristianismo e o jogo não será das mais positivas entre as que dois mil anos de muitos encontros e desencontros poderão contar.

O risco de a homenagem aos vencedores poder resvalar para um qualquer indisfarçável culto do corpo e a marca veterotestamentária de uma vincada recusa do culto idolátrico poderão ter contribuído, de forma profunda, para essa desconfiança.

Por contraste, contudo, poderiam ter-se encontrado, de modo semelhante, iguais motivos de desconfiança para com a comensalidade, mas tal não impediu que o banquete tenha sido, ao longo da história da salvação, uma das mais frequentes metáforas da relação entre Deus e a humanidade; ou para com o lugar do tálamo, desvirtuado, tantas vezes, por infidelidades e violências, sem que tal tenha obstruído a que Cristo pensasse a sua relação com a Igreja como a de um Esposo com a sua Esposa.

Não mereceu igual ‘oportunidade’ o jogo, porém. Uma rápida procura pelos textos bíblicos permitir-nos-á verificar que é palavra ausente da terminologia sagrada. ‘Jogar’ parece não fazer parte da relação entre Deus e o homem. Talvez disso já se tivesse apercebido o judeu (de nascimento) Einstein, ao reconhecer que ‘Deus não joga aos dados’. (Não era a isto que se referia, bem certo, mas à natureza ‘determinística’ e não aleatória da realidade, mas não deixa de ser interessante recordá-lo, nesta circunstância!)

Mas não será de se dar ‘nova oportunidade’ ao jogo?

O fundador do escutismo, Baden-Powell, percebeu-o, no já distante 1907, ao conferir ao jogo uma condição central na pedagogia do movimento por si fundado nessa altura.

Diz a história da recuperação dos jogos olímpicos que o próprio Pierre de Coubertin, que estudou num colégio jesuíta, se inspirou num livro escrito pelo padre dominicano e pedagogo Thomas Arnold para a criação dos jogos olímpicos da era moderna. Percebera o papel do desporto no desenvolvimento da pessoa e na sua integração na vida em sociedade e na compreensão de si mesma. 1500 anos depois, seria pela via da influência cristã que se recuperaria uma longa omissão da história (é preciso, bem certo, compreender a conotação que os jogos olímpicos tinham quando Teodósio os extinguiu, no século IV, sendo associados ao paganismo e ao culto idolátrico e politeísta. As circunstâncias político-sociais ajudam a compreender a determinação em pôr fim ao que simbolizava um passado de que se pretendia partir…).

Constatada, então, a utilidade e nunca suficiente tarefa de recuperar-se dessa história de desconfiança, ousemos fazemos uma ‘ludologia’, uma abordagem do jogo a partir da natureza que dele pode colher-se para a compreensão do humano mais profundo.

A procura do que define o humano e do que o distingue dos demais seres, em particular, dos animais, está, hoje, envolvida em enormes ambiguidades.

Recordo, porém, sempre, quando esta é a matéria em discussão, a constatação de Chesterton: ‘Aquilo que tem de ser explicado não é a semelhança, é a monstruosa escala da dissemelhança. Que o homem é parecido com os animais é, em certo sentido, um truísmo; mas que, sendo tão parecidos, eles sejam tão inconcebivelmente diferentes, isso é que é um choque e um enigma’. (Ortodoxia, Alêtheia, 2008, p. 205)

E, na minha perspetiva, se tivermos de procurar o que, de facto, nos distingue, teremos de o encontrar no que há de comum à sua capacidade de criar linguagem, de partir em busca do eterno, de ousar perdoar, de chorar diante de uma foto ou, simplesmente, de um nome, de criar um ritual e de o repetir, sucessivamente, com significado e comoção.

Entre todas estas ações, há algo em comum: a capacidade de ‘representar’ o ausente. A essa capacidade, que consiste em unir duas partes – uma ausente que se torna presente em algo distinto -, damos o nome de ‘simbologia’ ou, melhor, ao ‘algo’ que torna presente uma realidade ausente chamamos ‘símbolo’. Devemos esta palavra ao grego que, com o verbo ‘simballein’ (sün+ballein), quer dizer ‘lançar junto, em conjunto’, expressando a ideia de unir duas partes que estavam separadas. Curiosamente, o oposto é o verbo ‘dia+ballein’ (que exprime a ideia contrária de ‘atirar em separado’, ‘cindir o que está unido’ (‘quebrar o que está junto’), que deu, em português, o termo ‘diabo’.

Ora, o jogo é, pela sua natureza, uma representação. Torna presente uma realidade ausente. Representa a violência, através de ‘rituais’ que não são violência em si mesmos.

Recordo bem as palavras de um nosso selecionador, Luís Felipe Scolari, quando, no emotivo ‘Euro 2004’, se referia às fases de eliminatórias como sendo de ‘mata-mata’.

No futebol, pode dizer-se que há ‘mata-mata’, pois a ‘morte’ do adversário é puramente simbólica, isto é, está presente mas ausente; ou, melhor, está ausente mas presente, simbolicamente, apenas. O golo que derrota o adversário é ‘como’ lança cravada no seu peito. Mas não lhe é letal. No final, podemos abraçar-nos e ‘beber um copo juntos’.

É esse o poder do símbolo.

É esse o poder do jogo, enquanto realidade criada, única e singularmente, pelos seres humanos.

E é por isso, também, que, quando a violência deixa de ser simbólica e passa a real, o jogo deixa de o ser. (Aliás, confesso que sou um defensor de que não têm natureza de jogo aquelas modalidades em que o objetivo é deixar KO o adversário. A realidade representada deixa de ser re-presentada para passar a ser real. O símbolo extingue-se pela confusão entre o representante e o representado…)

Entusiasmados com estes rudimentos de ludologia, poderíamos arriscar pedir aos homens do poder que sonhem o mundo como um grande jogo e procurem resolver, num real tabuleiro de xadrez, os problemas de território ou de domínio. Se, afinal, ganhar uma guerra é uma questão de estratégia, melhor será o político que mantiver protegido o seu rei do xeque-mate adversário! E com muito menos custos de vidas humanas. Os peões tombados, que ladeiam o tabuleiro, podem voltar a erguer-se para novo jogo, em sucessivas batalhas e xeques-mates.

Não poderá erguer-se, porém, do campo real de batalha, cada soldado tombado e chorado. Porque a guerra não é um jogo!

domingo, julho 28, 2024

Sentir-se ofendido é respeitável

 

Começaram os jogos olímpicos de Paris.

Sou um apreciador do espírito olímpico e do ideal que lhe subjaz.

Reconheço no jogo, enquanto metáfora, simulada e simbólica, da «vitória» sobre o outro sem o derrotar existencialmente, uma das mais inteligentes descobertas da humanidade. Aliás, estará entre algumas das especificidades humanas.

Precisamente por tudo isto, em tempos de tantos conflitos, espera-se que os Jogos Olímpicos sirvam o objetivo para que foram recuperados do esquecimento e consigam evocar os mais sólidos valores em que todos nos reconhecemos. ‘Citius, Altius, Fortius’ são interpelações à constante superação, dinamismo que, aliás, o cristianismo sempre promoveu, ainda que consciente de que a humanidade, por si só, não é suficientemente capaz de o atingir. A meta é sempre Deus, que atrai, e a Quem a humanidade responde.

A história guarda, também, memória de que, nos tempos que rodeavam os jogos olímpicos, as cidades-estados gregas suspendiam as guerras, criando uma trégua olímpica, desafio tantas vezes repetido pelo Papa Francisco. Bem se espera que esta seja uma oportunidade não perdida, para que se possa, de facto, fazer jus à história.

Os jogos Olímpicos de Paris abriram com uma cerimónia cheia de luz e simbolismo. A magnitude dos meios e a densidade dos símbolos não deixaram ninguém indiferente, pelo que maior é a proporção e o alcance das opções seguidas.

Não podemos, por isso, deixar de nos associar às muitas vozes que sentiram que, a pretexto de certas opções culturais, os organizadores da cerimónia consideraram ser legítimo ridicularizar símbolos cristãos. O povo diz, e bem, que ‘quem não se sente não é filho de boa gente’. A indiferença seria a opção mais conveniente, mas uma certa cristofobia progressivamente implantada e já diagnosticada por pensadores insuspeitos como o judeu Joseph Weiler, obriga a que não se permaneça indiferente, no mesmo momento em que, por causa da fé, em muitos quadrantes deste planeta que se diverte e joga, tantos são mortos e continuam a ser feitos mártires.

Sentir-se ofendido é um sentimento meritório e digno de respeito. Em tempos que tanto valorizam a imagem e as simbólicas associadas às linguagens, seria, aliás, estranho ou inquietante que os cristãos não se tivessem manifestado.

Acusam-nos de o fazermos por sermos conservadores, como se isso, por si, fosse um erro. Mas vale a pena recordar que quem não conserva deixa estragar…

Evocar a memória cristã que fundamenta valores como os que preconizam os jogos olímpicos poderia ter sido feito com um espírito que elevasse ‘mais alto, mais longe e mais profundamente’. Essa não foi a opção e isso entristece-nos. Quem nos pode impedir de o sentir? E quem nos pode impedir de pensar que, a pretexto da defesa da diversidade, se pretende promover uma certa imoralidade, ao arrepio, aliás, do que está plasmado na própria legislação dos países?

Não pode haver liberdade autêntica sem o respeito pela dignidade própria e dos demais.

Sejam estes jogos uma oportunidade para elevar mais alto a humanidade, em torno dos valores mais nobres, mais densos, autenticamente mais construtores de uma genuína fraternidade que se fundamenta no reconhecimento (implícito ou explícito) de que um Pai comum a todos é que nos faz irmãos.

Viva o autêntico espírito olímpico!

'Os Sete Dias da Criação' |11| Luís M. P. Silva - 11 – O segundo dia… a preparar o terceiro!

  (‘Os Sete Dias da Criação’ | Rubrica dedicada ao diálogo entre ciência e religião) Artigo originalmente publicado na revista 'Mundo Ru...