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domingo, junho 07, 2026

Sabes, leitor... | 30 | Marca de água do livro de Daniel Cohen, 'Uma [Muito] Breve História da Economia'

 


Rubrica ‘Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página’** | Marca de água de livros que deixam marcas profundas
Parceria: Federação Portuguesa pela Vida e Comissão Diocesana da Cultura

Luís Manuel Pereira da Silva*

O(s) autor(es) e a obra
Daniel Cohen, Uma [Muito] Breve História da Economia, Lisboa, Penguin Random House Grupo Editorial, 2025.

Daniel Cohen foi um muito prolífico e destacado economista francês, nascido em junho de 1953, na Tunísia. Sendo autor de uma vastíssima obra do âmbito da economia, não deixa de ser curioso verificar que lhe são atribuídos, pelos sites portugueses de livros, títulos de um outro autor francês homónimo. É-lhe, erradamente, atribuído o livro ‘Os genes da esperança’, da autoria de um outro Daniel Cohen, médico e geneticista que liderou o projeto ‘Genoma’.
Não precisa, porém, o ‘nosso’ Daniel Cohen de obras suplementares, pois é suficientemente vasto e relevante o seu labor de escrita, abruptamente interrompido, em agosto de 2023, pouco tempo depois de completar setenta anos, a idade em que o ‘U’ que configura a curvatura da felicidade volta a subir, como refere no último capítulo deste seu livro.
Confesso que descobri Daniel Cohen (o economista) com a leitura deste livro. E fico com pena de não lhe poder dizer, nesta vida, quanto isso me agradou. Terei de esperar (porque assim o espero…) pela eternidade (porque sou alguém que, como ele pede, no final do livro, acredito em ‘alguma coisa’…) para lho assegurar.
Esta é, por isso, uma obra póstuma que ele deixara alinhavada e que, em boa hora, a família decidiu levar ao prelo, ainda que sendo de aguardar que, como diz o irmão, Michel Cohen, no posfácio, esta obra venha a ser vertida para versão em banda desenhada, lembrando o que já tem ocorrido com outros ensaios.
Neste livro, Cohen mostra grande erudição e verve. Escreve e pensa muito bem. Domina, com a simplicidade dos especialistas (só um especialista consegue dizer, de modo simples, a complexidade dos grãos do conhecimento que a mó do tempo ajuda a mastigar e transformar em fina farinha).
Ilustra estas minhas palavras uma constatação muito simples. Eu comprara esta obra, no dia 27 de março, na feira do livro realizada na minha escola. Tomei-a em mãos, após ler excertos dos ‘escritos de teologia’, de Rahner, no dia 9 de abril, terminando a leitura no dia seguinte, 10 de abril. Deixei-me levar pela mão de Cohen em apenas dois dias. E fiquei tomado pela capacidade que revela de pôr a economia ao serviço da transformação do mundo.
É uma leitura muito recomendável.
Uma síntese que penso fazer justiça ao que Cohen evidencia neste seu livro é a que poderemos reunir na ideia de que a economia deve ser pensada como um instrumento, um meio de realização humana e nunca como um fim em si mesma. Uma ideia que, sendo comum na ética personalista e cristã (que sempre sublinha que só a pessoa é fim; tudo o mais é meio ao seu serviço…), não deixa de ser interessante encontrar num autor que não se presumindo ser cristão (não o perguntei, ao ler o livro, nem me deixei condicionar pela busca de o confirmar), poderia muito bem, na linha de Karl Rahner – que eu lera, antes desta incursão por ‘Uma [Muito] Breve História da Economia’ -, ser assumido como um ‘cristão anónimo’…

Marcas de água 

(o que fica depois de se deixar o livro)

Este é um livro de economia. Mas não é, apenas, um livro de economia. É um livro sobre a vida dos humanos de que fala a economia.
Deixa transparecer esta singela conclusão reparar que começa com a frase ‘O crescimento económico é a religião do mundo moderno’ (na Introdução) e termina com ‘Compete-nos agora repensar a ideia que temos de um mundo em harmonia consigo mesmo, que nos faça sentir «o prenúncio da felicidade e da paz»’.
De facto, Cohen mostra não ser um economista que se basta em projetar sobre o seu objeto de estudo e análise a técnica e a ciência adquiridas. Pretende, com elas, criar condições para o surgir de um mundo melhor.
Curiosamente, é exatamente o que pode constatar-se ao ver que o lema da ‘Paris School of Economics’, de que foi um dos fundadores, é ‘a ciência económica ao serviço da sociedade’.
Vislumbra-se este mesmo espírito, nos títulos das suas obras: ‘homo numericus’, ‘homo oeconomicus’, ‘a prosperidade do vício: uma introdução à economia’, etc. Obras que não se resumem a descrever economia, mas a ler o seu impacto na vida dos humanos.
Marcas omnipresentes nestes fascinante ensaio (de 158 páginas) onde, a pretexto da descrição da sumária história da economia, em que não se esquiva a desmontar preconceitos (como o de que as sociedades recolectores não tinham a ideia de acumulação de riqueza –à maneira das conceções de Rousseau e outros que vincaram, entre os nossos mais frequentes mitos, o do ‘bom selvagem’, totalmente desprendido e sem qualquer vínculo aos bens terrenos e efémeros), Cohen lança um fino olhar sobre as relações humanas, desvirtuadas do núcleo que deveria ser compreendermo-nos como pessoas e não objetos. E não deixa de olhar, enquanto percorre o fio da história, para as mais íntimas relações (inclusive as de natureza sexual) alertando para o custo de, por efeito da inveja e da digitalização afetiva, a vivência da sexualidade passar a acontecer sem atender à «bagagem emocional do outro».
É interessante, ainda, o modo como o faz. Cohen tem páginas repletas de dados, histórias, curiosidades, que acompanham, de um modo muito plástico, o que vai dizendo. Suscita uma dupla curiosidade: a de saber e a de informar. Cohen estruturou um ensaio cheio de dinamismo, em que recupera as lições da história (como a que concerne à do desenvolvimento e queda da ilha da Páscoa) para nos projetar para um futuro em que, tendo superado a lei de Malthus (que nos assegurava que, em períodos de crescimento, a população também cresceria, criando nova fase de quebra – vivemos um período de inverno demográfico), somos confrontados com o paradoxo de Easterlin, que nos evidencia que, apesar de estarmos mais ricos, não estamos mais felizes.
Talvez Cohen possa, com o conteúdo destas páginas, facultar-nos um oportuno contributo para que possamos encontrar, pela via da humanização das relações, a autêntica felicidade, via com que poderíamos, finalmente, construir as mais sólidas ‘leis da nossa casa’. A autêntica ‘economia’ (‘lei da casa’).

 

Na mesma página que o autor (citações)

‘[…] ao perdermos as relações humanas, perdemos a razão de ser das nossas atividades e, sem dúvida, a nossa própria razão de ser. Um robô de pele bem macia nunca será capaz de substituir uma enfermeira que cuida com carinho de uma pessoa idosa.’ (Do Prefácio, p. 15)

‘Em vez de desesperarmos com a ideia de que, se os chineses e os norte-americanos não mudarem de comportamento, é inútil mudarmos o nosso, devemos começar por mudar o que podemos mudar, à nossa escala. E isso não só, ou talvez nem sequer primordialmente, para mudarmos o mundo exterior, mas sobretudo para nos mudarmos a nós próprios. ’ (Do Prefácio, p. 15)

‘[…] Keynes afirmava destemidamente que, em 2030, as pessoais poderiam trabalhar três horas por dia e dedicar-se às tarefas verdadeiramente importantes: arte, cultura, metafísica. Infelizmente, a cultura e os problemas metafísicos não se tornaram as questões principais do nosso tempo. As sociedades modernas continuam a buscar mais do que nunca a prosperidade material, apesar de se terem tornado seis vezes mais ricas do que na altura em que Keynes escrevia.’ (Da Introdução, p. 22)

‘O crescimento deixou de ser um meio para atingir um fim, para se tornar um fim em si mesmo, que permite às pessoas escaparem do tormento da existência.’ (Da Introdução, p. 22)

‘Para sair do subemprego, o remédio keynesiano é […] simples: temos de gastar, gastar a todo o curso, mesmo que seja necessário contratar desempregados para, à tarde, taparem os buracos que eles próprios abriram nesse dia de manhã.’ (pp. 66-67)

‘No auge da guerra, Churchill encomenda, em novembro de 1940, um relatório para combater tanto as consequências sociais da crise dos anos 1930 como as provocadas pela guerra. O relatório será tornado público em 1942. William Beveridge define os princípios que hoje em dia são os nossos. O Estado tem a responsabilidade de lutar contra as cinco pragas da humanidade: «a doença, a ignorância, a dependência, a decadência e os bairros de lata».’ (p. 67)

‘Numa empresa das décadas de 1950 e 1960, o refeitório, a vigilância, a limpeza e a contabilidade estavam a cargo de funcionários da mesma. Com a revolução financeira dos anos 1980, nenhum destes serviços continua a ser prestado internamente, ficando os prestadores de serviços sujeitos às leis da concorrência. Sonha-se com empresas sem funcionários.’ (p. 80)

‘A crise do subprime foi desencadeada por várias bombas-relógio. Em primeiro lugar, no período que antecedeu a crise, houve um facto que saltou rapidamente à vista: a qualidade dos créditos deteriorou-se bastante, mesmo tendo em conta a nova clientela a que se dirigiam. A solvência dos clientes foi sistematicamente sobrevalorizada pelos intermediários responsáveis pela distribuição dos empréstimos. […]
Com a ajuda das agências de notação, os investidores fabricaram então instrumentos considerados livres de risco, classificados como AAA.’ (p. 84)

‘A história da China ilustra bem esta mutação do capitalismo moderno: é o exemplo acabado de um país que foi, durante muito tempo, o mais poderoso do mundo, a seguir um dos mais pobres, e que volta a ser um dos mais ricos.’ (p. 95)

‘Dos treze aos dezoito anos, 6 horas e 45 minutos por dia são dedicados a estes aparelhos [tablets e telemóveis]. Por isso, chegámos a um número em que os adolescentes dedicam 40% do tempo que passam acordados em frente a um ecrã! A vida psíquica e afetiva destes jovens é marcada por vagas de melancolia e euforia, o que se reflete em efeitos prejudiciais na alimentação e em riscos frequentes de obesidade. A atenção dos adolescentes é gravemente afetada pelo zapping, pela impulsividade, pela impaciência… A leitura de um livro, que pressupõe dar o ao autor tempo para instalar personagens ou um raciocínio, é constantemente impedida por uma relação compulsiva com o telemóvel, o que torna impossível manter o foco em qualquer outra coisa.’ (p. 116)

‘A consulta compulsiva do telemóvel é rotulada com um termo agora famoso: o FOMO, o Fear Of Missing Out, que exprime esta inquietante preocupação de perder algum coisa, quer se trate de «informação», de um fofoca, de uma oportunidade. A capacidade de atenção dos adolescentes em relação ao mundo real atingiu o seu mínimo histórico.’ (p. 117)

‘[…] a sexualidade na era digital dispensa o incómodo de ter de gerir «a bagagem emocional do outro». O sexo sem amanhã cria um estado psíquico em que cada um dos dois parceiros se considera com total domínio, sem dependência do outro, o que é quase o oposto do que uma relação romântica implica. O amor, de acordo com o Tinder, causa um vaio existencial que o interessado deve preencher multiplicando os encontros numa fuga para a frente, que é perfeitamente representativa dos comportamentos de dependência provocada pela sociedade. […] Ao distinguir radicalmente entre sexo e sentimento amoroso, a sexualidade digital faz-nos perder a capacidade de reconhecer o outro na sua integralidade, como pessoa, numa relação em que todos esperam que o ente querido abra as portas de uma vida a inventar.’ (pp. 119-120)

‘Em trinta anos, em França, o consumo de drogas psicotrópicas aumentou seis vezes. Nos Estados Unidos, os indicadores de bem-estar diminuíram quase 30% em comparação com o nível atingido na década de 1950. Estudos sucessivos apontam para o mesmo resultado: a felicidade regride ou estagna nas sociedades ricas, em França como noutros países.’ (p. 137)

‘O economista Richar Easterin publicou, em 1974, um estudo que teve grande repercussão e que iria atrair a atenção dos economistas […]. Acompanhando durante trinta anos as respostas à pergunta: «É feliz?», mostrou que não se observava nenhuma variação ao longo do tempo, apesar de ter havido um extraordinário enriquecimento durante esse período. É o que os economistas denominarão paradoxo de Easterlin. Os franceses são incomparavelmente mais ricos em 1975 do que em 1945, mas não são mais felizes. Porquê?’
[…] o consumo é viciante. O prazer que proporciona é efémero, mas o desespero é imenso quando ficamos privados dele.’ (pp. 138-139)

‘[…] Um dos segredos da felicidade pode ser resumido de forma bastante simples: compare-se com quem tem menos.[…]
Ganhe dinheiro, mas sem fazer disso uma doença. […]
Envelheça com elegância. […]
Não se compare com os demais em termos de beleza. […]
«Acredite nalguma coisa: Deus, a justiça social ou a beleza da Natureza; é preciso um meaning of life para ser feliz e fugir de si próprio.
Ajude os demais: o altruísmo afasta-o de si próprio, o que é benéfico […]
Controle os seus desejos. […]
Preserve os seus amigos: são os tesouros mais preciosos, mesmo que sejam os menos visíveis.
Viva integrado num casal, porque a solidão não é benéfica.
Aceite quem é e faça uma gestão radical das suas fraquezas.’ (pp. 149-150)


**(Título retirado de Daniel Faria, Dos líquidos, Porto, Edição Fundação Manuel Leão, 2000, p. 137)

*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Ensaios de liberdade', 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'

Imagem recolhida do site da Penguin

quinta-feira, maio 07, 2026

Sabes, leitor... | 29 | Marca de água do livro de Frei Fernando Ventura e Joaquim Franco, 'Todos nós somos sendo: o primado da liberdade e a cautela da consciência'

 


Rubrica ‘Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página’** | Marca de água de livros que deixam marcas profundas
Parceria: Federação Portuguesa pela Vida e Comissão Diocesana da Cultura

Luís Manuel Pereira da Silva*

O(s) autor(es) e a obra
Frei Fernando Ventura e Joaquim Franco, Todos nós somos sendo: o primado da liberdade e a cautela da consciência, Lisboa, Contraponto, 2022.

As conversas de Frei Fernando Ventura com o jornalista Joaquim Franco deram bons livros. Excelentes livros, aliás! O esperado, afinal, quando se juntam, à mesma mesa, um notável biblista em cuja vida se juntam muitas vidas e um fino jornalista.
De ‘Do eu solitário ao nós solidário’, em 2011, a ‘Somos pobres mas somos muitos’, em 2013, ambos editados pela Verso de Kapa, até, por último, este ‘Todos nós somos sendo’, publicado em 2022, pela Contraponto, Frei Fernando Ventura e Joaquim Franco passam, a pente fino, toda a estrutura capilar a sociedade… Sem deixar escapar qualquer ‘piolho’, para explorar a metáfora implícita na expressão a que deitei mão: ‘passar a pente fino’. Assim é a escrita e a coloquialidade de Frei Fernando Ventura, na qual se percebe, a cada passo, a linguagem de um biblista de reconhecida autoridade e que repercute, no seu dizer, o modo próprio de Deus se dizer na Bíblia: narrando, contando histórias, dizendo o mundo através de imagens que são palavra a acontecer.
Na vida de Frei Fernando Ventura, há muitas vidas. Seja porque a sua é uma vida dedicada a outros (e o que se é nasce do ser-se com os outros…), seja porque a sua tem sido uma vida de muitos ‘viveres’ transformadores: desde a profundidade do homem que reflete e escreve, com uma facilidade singular (é, também, o diretor da revista mensal ‘Bíblica’), que ensina (foi docente do ISCRA, em Aveiro, onde nos conhecemos), mas também que arregaça mangas e se envolve na transformação profética do mundo.
E de Joaquim Franco pode esperar-se a pertinência das interrogações e a atenção às entrelinhas a que vai buscar novas sendas pelas quais se envereda a conversa, atenta à realidade, mas também à diversidade semântica das alusões. Pois que Frei Fernando Ventura enriquece os diálogos de conteúdos que, pela sua densidade, permitem olhares penetrantes sobre o real, tantas vezes opaco ou diluído.

 

Marcas de água 

(o que fica depois de se deixar o livro)

O título de ‘Todos nós somos sendo’ anuncia ao que se vai. Cada um dos títulos é, aliás, um programa. E, neste, na densidade teológica implícita (o título repercute a tradução que propõe Frei Fernando Ventura para o mais célebre tetragrama de sempre – YHWH: ‘Eu Sou Aquele que É, sendo!), como que dizendo, implicitamente, que, do que de Deus se pode dizer terá de se pensar da humanidade como aquela que é criada à Sua imagem e semelhança. E se de Deus o que se sabe (porque no-lo revelou) é que é um Deus-Relação, não poderá pensar-se diferente em relação à humanidade.
A este subentendido bíblico-teológico, o título também soma a surpresa do primeiro confronto com o desconcerto da formulação. Não nos pensamos, espontaneamente, como aqueles que são, sendo. Pensamo-nos como aqueles que são porque são, indivíduos isolados e autossuficientes. Esperar-se-ia um ‘todos nós somos o que somos’, repercutindo a fatalista compreensão que supõe o concomitante encolher de ombros de quem se rende à condição recebida e acabada.
Mas essa não é a linha de Frei Fernando Ventura.
‘Somos, sendo’ implica a contingência, a indigência de se saber inacabado e dependente, porque essa é, afinal, a nossa genuína condição. Dela fala, praticamente do primeiro ao último diálogo, este livro. Visão que contraria as leituras ‘de paraíso perdido’ que nos convencem da não necessidade de ninguém nem Ninguém…
É um livro feito de uma plasticidade de imagens que, para quem já ouviu Frei Fernando Ventura em intervenções públicas, confere uma naturalidade a cada página que quase nos permite reinvocar cada palavra ouvida ao vivo.
O dizer aqui escrito fala do dizer dito e do ‘dizer vivido’ de frei Fernando Ventura que joga com a surpresa e com a polissemia dos termos e das metáforas. A que soma um conhecimento detalhado das línguas bíblicas (do hebraico ao grego e, mesmo, ao aramaico), que permite levar o leitor a realizar descobertas bíblicas, no meio das problematizações sobre o viver atual.
É, ainda, um livro de coragem e liberdade, subentendidas no subtítulo – ‘o primado da liberdade e a cautela da consciência’. Com a distância própria dos profetas, os que falam a partir da experiência de Deus, que os faz ler em profundidade a realidade (do passado ao futuro, sem, porém, o ser com a atitude do adivinho, mas do homem de pés no chão e olhar no horizonte maior), Frei Fernando analisa, criticamente, as opções contemporâneas, das económicas que ‘matam’ (repercutindo o pensamento de Francisco e de S. Francisco – não fosse Frei Fernando ele próprio um franciscano!) às que se propõem, em tempos de morte pandémica, legalizar a morte suavemente designada como ‘eutanásia’ (boa morte!).
A este propósito, merecem destaque as suas palavras:
‘[…] aqueles que passaram, como eu, pela experiência de perder alguém próximo como eu perdi o meu pai, sem COVID-19, mas isolado meses a fio numa instituição de acolhimento, sabem que nada disto é normal e nada disto pode ser normalizável.
Também neste contexto se pode medir o grau de incompreensível derrapagem no «gesto» do parlamento do nosso país, que aprova a eufemisticamente chamada lei da eutanásia (boa morte), que discute condições de morte, precisamente num tempo em que saltava à evidência de todos que o que não temos são condições de vida. Ver os «senhores» deputados em pé a aprovar legislação de morte, quando tantos estavam deitados em ambulâncias à porta dos hospitais à espera da sua vez de (não) morrer, sinceramente… senti nojo!
Senti isso e, contemporaneamente, o risco de nos esquecermos de todos os outros que não foram e continuam a não ser objeto de estudo numérico, mas que engrossarão os números dos «adiados» que morrerão mais tarde, porque esquecidos, porque objetivamente, o mundo, o nosso mundo, parecia ter deixado de ter condições de vida.’ (pp. 32-33)
Em toda a realidade incide, acutilantemente, o olhar de Frei Fernando para nela descortinar os sinais de autocentramento e abandono dos que ‘nada-tendo’ são transformados em ‘nada-sendo’.
Não o faz para que a denúncia seja o fim do discurso, mas, antes, o início do percurso de transformação, pois, como diz Luís Osório, no prefácio, este é um livro ‘carregado de esperança’. Não a que nasce de um vago e alienado desejo de que seja diferente (que rapidamente poderia redundar, por ser ilusão, na maior das desilusões), mas que tem origem na consciência de que, na raiz da mais genuína esperança, está uma Aliança, que nos diz provirmos de um Deus que não é ‘sido’, mas ‘sendo’. Um tal entendimento contraria os pressupostos individualistas que fecham na convicção de se bastar a si mesmo, como se, as nossas liberdades se estorvassem umas às outras. Não!
Frei Fernando recorda uma ideia que também nós temos sublinhado, repetidamente: as nossas liberdades não se limitam umas às outras. Antes, potenciam-se umas às outras e são condição de possibilidade umas das outras. Sem os outros, poderíamos dizer, nada somos. Somos, sendo com os outros.
É por isso que podemos, também, concluir com Frei Fernando Ventura que ‘a defesa dos mais frágeis é a fasquia definidora do humanismo, é a bitola por excelência capaz de revelar a medida exata do processo de humanização e de hominização de uma sociedade e de um tempo.’ (p. 93)
Numa sociedade humanizada, verdadeiramente humanista, não uma sociedade (mundo) […] «solteira de afetos, viúva de emoções e divorciada de compromissos», mas feita de e para as pessoas, ‘só temos o direito de olhar alguém e cima para baixo quando for para o ajudar a levantar-se.’ (p. 144), ideia que o Papa Francisco veio a repetir, no ano seguinte ao da publicação deste livro, na Jornada Mundial da Juventude, em Lisboa.
É desse sonho de olhos abertos que fala este livro. O sonho de que ‘o palácio não viva no luxo e do luxo enquanto a barraca tem de viver no lixo e do lixo.’ (p. 173)
Um sonho acordado e de acordados que se reconhecem como irmãos: ‘Essa utopia resume-se a três princípios à espera desse espaço: hospitalidade, solidariedade e fraternidade; tal como toda a reflexão ética se pode resumir à gestão, em cada segundo da existência, a três palavras: quero, posso, devo. É da resposta a cada uma destas três palavras em cada segundo de existir que existo ou não existo como pessoa, como ser de relação, comigo, com os outros, com o universo e com Deus.’ (p. 38)
À maneira franciscana (do Francisco de há oitocentos anos…), falamos de um sonho em que tudo e todos são irmãos: do mundo aos Mundos. Para que, no imundo mundo se realize uma autêntica fraternidade. Pois que outra coisa é senão o reconhecimento de todos sermos irmãos?! Reconhecidos como provindo d’Aquele que nos possibilita sermo-lo. Irmãos porque provindos do Mesmo Pai, Deus-connosco, Aquele que, ‘Sendo-Connosco’, nos faz ‘Sendo-Com-Todos’.

Na mesma página que o autor (citações)

‘[…] como frei Fernando nos diz – e o papa Francisco por outras palavras – a nossa sociedade (mundo) é «solteira de afetos, viúva de emoções e divorciada de compromissos». Do prefácio, p. 11

‘É […] um livro carregado de esperança. Apesar de todos os apesares Todos Nós Somos Sendo convoca-nos para não faltarmos ao jogo decisivo de que somos todos protagonistas. Um bilhete para que possamos está à hora certa na estação onde um dia teremos a oportunidade de nos revelar por dentro. Nesse momento decisivo, a superfície não nos valerá de nada.’ Do prefácio, p. 12.

‘[…] cada ponto de chegada é, ao mesmo tempo, tem de ser, um ponto de partida. E este que vivemos é o tempo por excelência da metanoia, de ir para além de nós, para além da ponta do nosso nariz existencial, em direção ao desconfinado mundo das ideias e das relações, para encontrar sempre novas fronteiras, sempre novas metas de compreensão que há que entender e ultrapassar para ser possível, vencer o medo e os medos, o medo e os medos que matam, o medo e os medos com que nos querem «matar», porque a forma mais eficaz para controlar alguém é controlar-lhe os medos. Controlar qualquer sociedade é ter o poder de controlar e gerir os medos que tolhem e que nos fazem saltar para o primeiro colo que se apresente a oferecer acolhimento capaz de «tirar o medo». Foi sempre assim que nasceram os ditadores, foi sempre assim que se instalaram as ditaduras… este é um dos meus medos… não confio em nenhum colo dos que estão disponíveis por aí…’ (p. 28)

‘[…] aqueles que passaram, como eu, pela experiência de perder alguém próximo como eu perdi o meu pai, sem COVID-19, mas isolado meses a fio numa instituição de acolhimento, sabem que nada disto é normal e nada disto pode ser normalizável.
Também neste contexto se pode medir o grau de incompreensível derrapagem no «gesto» do parlamento do nosso país, que aprova a eufemisticamente chamada lei da eutanásia (boa morte), que discute condições de morte, precisamente num tempo em que saltava à evidência de todos que o que não temos são condições de vida. Ver os «senhores» deputados em pé a aprovar legislação de morte, quando tantos estavam deitados em ambulâncias à porta dos hospitais à espera da sua vez de (não) morrer, sinceramente… senti nojo!
Senti isso e, contemporaneamente, o risco de nos esquecermos de todos os outros que não foram e continuam a não ser objeto de estudo numérico, mas que engrossarão os números dos «adiados» que morrerão mais tarde, porque esquecidos, porque objetivamente, o mundo, o nosso mundo, parecia ter deixado de ter condições de vida.’ (pp. 32-33)

‘JF: [as] palavras de Francisco abrem-nos à utopia. Falta ver a humanidade abraçar todas as contrariedades e dar espaço à criatividade?
FV: Essa utopia resume-se a três princípios à espera desse espaço: hospitalidade, solidariedade e fraternidade; tal como toda a reflexão ética se pode resumir à gestão, em cada segundo da existência, a três palavras: quero, posso, devo. É da resposta a cada uma destas três palavras em cada segundo de existir que existo ou não existo como pessoa, como ser de relação, comigo, com os outros, com o universo e com Deus.’ (p. 38)

‘JF: Deus… casado?!
FV: Claro que sim! É a Aliança que dá sentido a tudo. Repara num detalhe aparentemente banal. Logo no início da Bíblia, no primeiro capítulo do Livro do Génesis, quando se fala da criação à luz dos critérios e conhecimentos do tempo – o autor ou autores do Génesis não querem explicar como é que o mundo foi criado, mas sim quem criou o mundo -, o texto diz que ‘o Espírito pairava sobre a superfície das águas»; logo, sozinho, «solteiro»…
Vamos agora praticamente à última frase da Bíblia, Apocalipse 22,17, vês o que lá está? «O Espírito e a esposa dizem Vem!»
É fantástico! Deus «começa» solteiro em Génesis e termina casado em Apocalipse. […]’ (p. 43)

‘Na continuidade do projeto criacional, não é já só a Ruah (o espírito, o sopro criador) de Deus que paira sozinho, solitário sobre as águas. Ao criar Adam, Deus reinventa-se num «nós» relacional. É um Deus ao contrário dos deuses…’ (p. 51)

‘Na Hungria, em setembro de 2021, o papa defendeu que o grande confronto não é entre religiosos e não religiosos, mas «entre o Deus verdadeiro e o deus que é o próprio eu». Francisco disse que «a lógica de Deus» é a do «amor humilde», que «o caminho de Deus evita qualquer imposição, ostentação e triunfalismo, visa sempre o bem dos outros, indo até ao sacrifício de si mesmo», enquanto, do outro lado, «temos o pensar segundo os homens», isto é, «a lógica do mundo, presa às honras e privilégios, tendente ao prestígio e ao sucesso».’ (p. 57)

‘Perdoa-me repetir sempre este estribilho, mas estou profundamente convencido quer da sua verdade, quer da sua urgência. Independentemente das variadas opções de vida que nos podem não separar, mas diferenciar, o sentido último do «ser em relação» é ser gente com gente, para que cada vez mais gente seja gente e nunca ninguém deixe de ser pessoa.’ (p. 67)

‘JF: O Apocalipse é um livro difícil, do qual se fazem muitas e habilidosas hermenêuticas…
FV: Porque é lido como sendo o livro das «desgraças finais», mas não é. É o livro da nova criação, da nova Jerusalém, do cumprimento definitivo da esperança. Apocalipse significa «revelação».’ (p. 70)

‘[…] hoje, mais do que nunca, são necessários profetas. É preciso continuar na mesma linha de reflexão. O profeta de ontem e de hoje não é um adivinho, muito menos um agoureiro anunciador de desgraças. O profeta não vive no passado nem no futuro. O profeta vive no hoje e em cada hoje faz memória do ontem, para descobrir e anunciar o sentido do amanhã.’ (p. 73)

‘[…] O problema é que quando o cinzento é a cor da moda, o arco-íris é visto como um insulto.

JF: Ou uma sedutora dança da cobra…
FV: Ah, pois! Esse é outro drama. A marcha dos dias não permite distinguir o arco-íris que contribui para contrariar o cinzento, de um arco de motivações obscuras, protagonizadas por lobos de falas atrevidas, disfarçados de cordeiros.’ (p. 79)

‘Como já disseste, a defesa dos mais frágeis é a fasquia definidora do humanismo, é a bitola por excelência capaz de revelar a medida exata do processo de humanização e de hominização de uma sociedade e de um tempo. Só que o mito da eterna juventude e do sucesso alicerçado no ter – que é exatamente o que é vendido pela(s) publicidade(s) com que somos continuamente matraqueados – impede justamente que aqueles que a maioria considera como «não sendo» ou «não tendo», sejam tratados precisamente como «não-seres», colocados na varanda da vida pela «borracheira» dos poderosos e não vão da escada para não estorvarem a passagem dos «bem-sucedidos» que não podem ser impedidos de subir os degraus do sucesso…’ (p. 93)

‘Estamos ainda convencidos de que justiça é tratar todos por igual… Que pobreza de raciocínio! Tratar todos por igual pode ser e é sempre uma forma suprema de injustiça disfarçada de bem.
Justiça não é nem pode ser dar exatamente a mesma coisa para todos. Isso será quando muito um igualitarismo bacoco, tão do agrado de certos ambientes pseudopolíticos. A palavra-chave terá de ser «subsidiariedade», quer dizer, em primeiro lugar respeito de mim por mim próprio e pelos outros, porque este tipo de organização social precisa de gente que tenha consciência de si, das suas necessidades, mas também das suas capacidades de contributo para o bem comum.
Eu sou responsável por mim e pelo meu irmão, seja ele quem for. Se um dia se chegasse a uma generalização de uma mentalidade deste calibre, não haveria mais ninguém a «viver à conta do orçamento». E não, não estou a falar do RSI! […] Lutar contra a injustiça e contra a exclusão é dar a cada um tudo o que precisa, mas só o que precisa, e exigir que, da sua parte, dê também o seu contributo. A sociedade deve dar tudo a quem, sem sombra de dúvida, não pode conseguir para si mesmo seja o que for, deve dar o que fizer falta a quem manifestamente se esforça por conseguir atingir os seus objetivos e não deve dar nada quer aos preguiçosos quer aos pulhas da roubalheira.’ (p. 105)

‘Só temos o direito de olhar alguém e cima para baixo quando for para o ajudar a levantar-se.’ (p. 144)

‘Não, a nossa liberdade não termina quando começa a liberdade do outro. Se cada um dos dois tiver a coragem de ir ao encontro de si próprio e para além de si próprio, dar-se-á conta disto mesmo.
Sou mais livre quanto mais somar a minha liberdade livre a outras liberdades livres para podermos fazer caminho em comum.’ (p. 152)

‘Depois de se ter já identificado como o «Deus dos teus pais», da tua família, da tua história, da tua identidade, Deus vai mais longe e toda a heresia: «Eu sou aquele que é sendo».
JF: Voltamos ao gerúndio?!
FV: Sim! A heresia está precisamente neste gerúndio… «sendo». Esta forma construída do verbo ser não se resume simplesmente a uma afirmação de Deus enquanto «existente». A tradução tem de ir mais longe, para além do simples «Eu sou aquele que sou», ao encontro da profundidade da mensagem. Eu sou Aquele que é… sendo contigo.’ (p. 158)

‘[…] a essencialidade essencial que nos define e determina como pessoas - «o ser de relação» -, persona do latim per sonum o «soar através de», a comunicação no seu sentido pleno e abrangente de construção do «próprio eu» diante de si próprio e dos outros, no seu «ser com», no seu comunicar, na sua sinodalidade relacional.’ (p. 168)

‘[O que falta é] ir à essência para sermos capazes de unir o palácio e a barraca, não por um abismo intransponível, mas pela descoberta e criação de formas novas, para que o palácio não viva no luxo e do luxo enquanto a barraca tem de viver no lixo e do lixo.
Se do pós-sínodo sairmos mais capazes de construir a consciência universal no sentido Teilhardiano do processo de hominização como espiral ascensional de complexidade de consciência, terá valido a pena o esforço e as penas porque passámos; veremos florescer o novum como continuidade e evolução, como memória que se faz história, como história que se faz vida, vida em abundância, para todos, sem excluídos, a não ser os filhos da autoexclusão.
Esta é a missão do agora, a ser proclamada e vivida na nova Ágora do tempo novo, que é o mundo todo e todo o mundo, solidamente ancorado no presente, fazendo memória do ontem, para que o amanhã possa ter sentido para todos os que se atrevem e têm a coragem de ser, sendo…’ (p. 173)


**(Título retirado de Daniel Faria, Dos líquidos, Porto, Edição Fundação Manuel Leão, 2000, p. 137)

*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Ensaios de liberdade', 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'

Imagem recolhida da BNP

E ao pó hás-de voltar… Não às cinzas estéreis e anónimas.

  Há uma sabedoria profunda, verdadeiramente divina, no ato de inumar o ‘corpo’ morto, de o devolver ao regaço adâmico de que proveio. Mas u...