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quinta-feira, outubro 23, 2025

Alberto Ferreyra | Mystérios lusitanos [contos - texto e locução] | 17 | Mistério na quinta dos bichos

 

Mystérios lusitanos | A vinte e três (23) de cada mês, habitamos o mundo pelo imaginário de Alberto Ferreyra...

(Nos ramos da escrita, repousam, vezes sem conta, as gralhas da distração, ocultas, sob múltiplos disfarces, até que alguém as enxote. Alberto Ferreyra contou com o fino olhar da sua amiga Teresa Correia, detentora do segredo da sua identidade, para afastar ou caçar o grasnar das gralhas. Está-lhe, por isso, muito grato...)

Alberto Ferreyra*



Os olhos fechados… Tudo é realidade que entra pelas narinas.
J. e M. sentem, no rosto, o afago da natureza que se estende diante de si. Sob as pálpebras corridas, cheiram, ao longe, as rumorejantes águas do rio Vouga, lento e demorado. Uma suave brisa embala o lânguido movimento do baloiço onde descansam. Só os dois e o mundo! O mundo e a solidão acompanhada.
Com o vento preguiçoso, os odores do tempo.
Alfazema…
Laranjeira…
Alecrim…
Jasmim…
Os olhos não veem, mas o encanto do tempo assoma-lhes, pelas narinas despertas, ao mais íntimo de si.
Sonham que o mundo é só perfume, sem poder possuir-se em recipiente que contém e retém. Um ondular sem corpo…
Nisto, J. desperta M., dando-lhe para a mão um vaso de barro cru. Pede-lhe que volte a fechar os olhos e aproxime o vaso do seu nariz.
- O que vê o teu nariz?
Perplexa, M. hesita, como se tomada por um súbito pavor. Pareceu-lhe ver, com clareza, um rosto de uma memória já longínqua.
- Não te assustes. – Insistiu J. – Volta a fechar os olhos e vê o que sentes…
M. anuiu.
Fechou, de novo, com força, os olhos, aproximou, do seu rosto, o vaso de barro cru, e deixou-se transportar.
Sentia-se levada por subtis perfumes a que se ligavam vivências de que se esquecera ou que nem sua memória eram. Eram memórias contidas nos cheiros do fluir do tempo. Cada odor era um lugar, uma pessoa, um tempo, uma sombra ou uma luz… O seu ser era só odores! Tudo era cheiros, perfumes ou desprezíveis odores fétidos.
J. apreciava…
As rugas na testa de M. faziam supor momentos nebulosos a que se seguiam longos tempos de testa lisa. Os tempos sucediam-se.
No interior de M., apenas odores.
- Sonhamos poder conter com cheiros o que vivemos, mas o olfato é o mais espiritual dos sentidos. Nada o consegue reter.
J. parecia estar a pensar em alta voz.
E continuou…
- Sempre desejámos prendê-lo, gravá-lo e reproduzi-lo, mas o esquivo sabor do ser esvai-se por entre os dedos… Pelas narinas, para ser mais preciso! Quem o puder, um dia, conter, saberá qual o cheiro do Céu. Mas, até lá, restará este vaso de barro cru.
M. pareceu acordar de um sonho.
- Onde o encontraste?
- Há, aqui perto, uma pequena quinta. Não é bem uma quinta, fechada e retida. É uma escassa língua de terra entre a estrada e o rio. É atravessada por um pequeno curso de água onde dizem ter-se saciado, em tempos longínquos, um afamado ciclista nacional, em prova muito aplaudida. É uma espécie de oásis num deserto de eucaliptos. Resoluta contra o fogo, a vegetação faz-se de árvores já longevas, resistentes a toda a violência e fúria. Assim o decidira o seu dono, renitente em abater as memórias que lhe vinham dos seus antepassados que ali deixaram crescer robustas recordações em formas verdes. Em boa hora o determinara. Naquele escasso recanto, resistia-se. E, sob a folhagem rasteira, verde, sempre verde, fervilha vida em nutritiva terra de que se recolheu o barro com que se fez este vaso. Nele, os odores retêm-se para poderem reproduzir-se. Aprecia!
M. voltou a fechar os olhos. E novas memórias lhe assomaram à mente. Vivas... Muito vivas!
O viver transfigurava-se em odores muito firmes, determinados, quase carnais. Sentia-os como se vivesse cada momento, agora. Agora, mesmo! Odores de tempos vividos, uns por si mesma, outros como memórias de família, tangidas de dores e sofrimentos.
Ao longe (num longe feito tempo, que não espaço…), sente o odor das primeiras chuvas que enchem do sabor a terra as entranhas da alma. Regressa ao lugar que fez a infância dos avós.
Sente um seco odor a pó que a leva a voar até ao lugar onde se vota, em tempos de ditadura, num general que o regime derrubará à lei da bala.
Assaltam-lhe a mente as memórias contadas pelo seu avô.
O odor seco do pó leva-a ao interior da sala de soalho de madeira onde se vota.
Por entre as frinchas do soalho, caem os votos dos opositores, para que a contagem confirme a permanência dos autocratas.
- Sr. Cruz, e se falássemos do fontanário tantas vezes adiado?! – Interroga o representante do regime ao delegado da oposição, levando-o para longe do lugar onde se fazem as contas de uma enviesada eleição.
Esfuma-se a memória e continua a voar pelas ondas do odor…
Sente o cheiro das águas calmas do rio, ladeado de perfumados laranjais.
Deixa-se levar ao tempo de um século passado em que um renomado abade, de nome Santiago, pagou, com oito mil cruzados, a ponte, não distante dali, que continua a unir o que estava separado, como o pretendera o homem da igreja. Pois de que se faz a missão de um eclesiástico senão de unir o que está separado?!
Vai, ainda, ondulando pelos odores das laranjeiras, ao tempo em que um homem, de nome Severi, governava aquelas terras, mal sabendo que do seu nome restaria marca perene na toponímia da região.
Odores! Só odores!
Sente, muito impregnado nas fímbrias da alma, o clamoroso odor de sangue de inocente derramado às mãos de um cruel pai rei ciumento dos amores do filho por uma donzela de nome Inês.
O seu viajar pelos odores leva-a ao mosteiro onde se tumulam os amores subitamente derrotados ao fio da espada. E vê, sob o túmulo da donzela, os rostos dos carrascos sobre que fizeram o escultor repousar o túmulo, como sinal da vitória do bem sobre o mal. Alcobaça perpetuaria, no transepto da sua Igreja monasterial, a imagem de que os cruéis do mundo não sairão vencedores… Mas o odor do sangue inocente é penetrante!
Profundas rugas se cavam sobre os olhos de M. É perturbadora aquela imagem, ainda que esquiva, como os odores que a provocam.
Tão esquivos são os odores! Como se escapam qual almas incontíveis!
Tudo ali, naquele vaso.
J. estava feliz. Sentia, no rosto de M., o fascínio de fruir do milagre a que a humanidade estava impedida de aceder: conter e reproduzir os odores de outros tempos e lugares.
Quando o conseguirá fazer um novo Galileu, já não do sentido a que acedemos pelo olhar, mas do olfato que nos antecede?
J. recolheu, das mãos de M., o vaso.
Logo se lhe abriram, de novo, os olhos.
Brilhava como a visão do transfigurado.
Não pretendia, porém, ali armar nova tenda. Havia que descer à quinta de onde recolhera a terra para fazer aquele miraculoso vaso.
Correram…
Não deram conta de como com eles correra, também, o tempo.
Após curvas, muitas curvas, chegaram à pequena quinta dos bichos. Bem lhes apetecia mudar-lhe o nome. O ‘lugar adâmico’, melhor seria.
Como se daquela fecunda terra se tivesse feito corpo de Adão, reservando-lhe Deus o poder de guardar na sua inacessível memória os cheiros de que se faria a sua vida.
M. parecia ouvir, no rumorejar das águas que desciam em direção ao Vouga, a cadência de um versículo ausente de Génesis: ‘Ficará, como sinal da tua vergonha, a maldição de não poderes tornar acessíveis os perfumes do teu viver.’
J. fez rolar, pelas águas do pequeno ribeiro, o vaso que logo se dissolveu, como se sal para salgar.
Recordava-se de que, pelas narinas, Deus insuflara o Seu espírito…
Nos perfumes do mundo, reavivar-se-ia, para sempre, a memória do primeiro momento. Para sempre inacessível o mundo dos cheiros. Como memória de que o homem se faz de corpo e alma. De um corpo que não consegue conter toda a alma…

 


Imagem de Tumisu por Pixabay


*Alberto Ferreyra diz que as suas letras habitam a mente e saem da mão de alguém nascido em terras gaulesas, ainda que afirme, em sussurro, que o seu real nascimento ocorreu nas margens do Antuã, em abril de 2024. É, por isso, um prematuro autor literário, germinado da inspiração que a realidade proporciona quando se tem a companhia, nos livros, de génios como Jorge Luis Borges, Miguel Torga, Gabriel García Marquez ou personagens como Poirot ou Padre Brown.
 
Na sua escrita, cruzam-se o real e o imaginado, o fictício e o histórico, numa embrenhada teia em que o leitor continua a ler, mesmo já depois de fechado o conto. O real continua a fecundar histórias na mente de quem lê Ferreyra. Cada conto, feito dos mistérios desvelados, aproxima o tempo e distancia o espaço, esticando-o até ao eterno e ao infinito. Ao ler Ferreyra, faz-se 'silêncio' ('mystério' alude à etimologia grega da palavra, que remete para o 'fazer silêncio', 'emudecer-se'...) para que possam ecoar as palavras, para que possa desenovelar-se o enredo sucintamente desvelado.
 
J. e M., protagonistas de cada um dos contos, acompanhados, em alguns deles, pelo seu periquito 'branquinho', fazem emergir, do real em que se enredam, histórias que, nascendo da imaginação de Ferreyra, permanecem como realidades possíveis, deixando a suspeita de terem mesmo ocorrido.
Se não foi real, Ferreyra o criará, inspirado numa cosmovisão que tanto deve àquela religião que fez do encarnado a condição fundamental do existir.
 
A vinte e três (23) de cada mês, habitaremos o mundo pelo imaginário de Alberto Ferreyra...

sexta-feira, março 15, 2024

'Regresso a Ítaca no sonho do Éden' | De Ícaro a Pelágio: asas de cera que elevam o orgulho humano

                   Rubrica 'Regresso a Ítaca no sonho do Éden’

(Artigos publicados na revista Mundo Rural - Acção Católica Rural)

 

‘Regresso a Ítaca no sonho do Éden’ tem-nos levado, pela mão de Ulisses que regressa a casa, em Ítaca, depois de dez anos da guerra de Troia, a estabelecer pontes ou identificar abismos entre aqueles que são dois dos mais robustos pilares da cultura ocidental: a antiguidade grega e romana e a cultura de matriz cristã.

Gregos e cristãos unem-se no reconhecimento dos riscos e perigos do orgulho humano, ainda que a apreciação desse vício não coincida totalmente entre as duas matrizes.

Voemos com Ícaro, para a leitura da apreciação grega, e comparemo-la com o que nos chega da história de Pelágio e do seu polémico confronto com Agostinho de Hipona (o grande S. Agostinho).

Conta-nos Pierre Grimal, no seu ‘dicionário da mitologia grega e romana’[1], que Ícaro é filho de Dédalo (aliás, o mito é sempre contado como sendo de ‘Dédalo e Ícaro’) e de Náucrate. Pai e filho foram encarcerados, por Minos, por vingança, no mesmo labirinto do qual tinham ensinado Ariadne a sair (‘seguir o fio de Ariadne’ é expressão que vem deste mito) e permitido que Teseu entrasse e saísse, matando o Minotauro. Ali presos, mas dados os muitos engenhos de Dédalo, criaram umas asas de cera com que se tornou possível escaparem. Antes, porém, de se elevarem nos céus, Dédalo recomendou ao filho, Ícaro, que se mantivesse num justo equilíbrio: nem demasiado afastado nem demasiado próximo do sol. O orgulho e a arrogância de Ícaro fizeram-no, porém, entusiasmar-se, aproximando-se demasiado do sol. Derreteram as asas e Ícaro despenhou-se, desamparado, no mar que circunda a ilha de Samos. (O mito será, provavelmente, uma etiologia para o nome desse mar, Icário, género também frequente nos próprios textos bíblicos que, pela via de uma história, nos ‘explicam’ a origem de um facto, de um nome, de um modo de ser…)

Demos um salto no tempo em relação à época que entregou à humanidade esta história. Avancemos para finais do século IV e inícios do século V depois de Cristo, ao tempo de Santo Agostinho. Por essa altura, um monge nascido, em 354, na Grã-Bretanha, Pelágio, via difundirem-se, com grande projeção, as suas ideias. (O nome ‘Pelágio’ cria uma simbólica coincidência com o mito de Dédalo e Ícaro, pois ‘pélagos’, em grego, significa ‘mar alto’, ‘um mar determinado’, mas, também, figurativamente, ‘perigo’[2]). A sua ideia fundamental era a de que a natureza humana não era tocada pelo pecado original, sendo capaz, por si própria, de evitar o pecado, pelo que, ‘sem necessidade de nenhum auxílio sobrenatural, evitar todos os pecados e praticar todas as obras boas’[3], não sendo, por isso, necessária a salvação oferecida por Deus, através de Jesus Cristo.

A heresia pelagiana difundiu-se com grande rapidez, dado o seu poder sedutor (ainda hoje, o tique pelagianista continua a atrair, afirmando-se como um otimismo antropológico que parece pensar o ser humano como isento de mácula e atribuindo à sua liberdade a fonte de toda a moralidade…), tendo, mesmo, atraído, num primeiro momento, a adesão do Papa Zózimo que, porém, por intervenção de S. Agostinho, vem a rever a sua posição, na célebre carta Tractoria (418). As teses pelagianas são sucessivamente condenadas no sínodo de Cartago (411), no de Diáspole (415), por Inocêncio I (em 417) e, como dissemos, pelo Papa Zózimo, na carta Tractoria. A condenação definitiva das teses pelagianas ocorre em abril de 418, em Jerusalém. O que ficava em causa, com o pelagianismo, saltava à vista. Se o homem, por si só, consegue obter a sua salvação, que lugar caberia a Deus? E onde ficaria a missão de Jesus Cristo: não seria mais do que um exemplo, escapando-lhe o poder redentor?

A tese fundamental de Pelágio expressava-se de forma particularmente acutilante neste aforismo recolhido de uma das suas cartas: ‘Está em meu pode fazer o bem, sou eu a gerir a minha liberdade.’ (Epist. 216,5)

Ao lê-la, os nossos ouvidos parecem reconhecer os ditames do paradigma contemporâneo. O sol nunca será demasiado próximo para os Ícaros de hoje.

Dédalo continua, porém, a sussurrar-lhe que não ouse elevar-se demasiado, porque são de cera as suas asas.

Mas o homem continua a elevar-se até não ser mais do que um ponto negro no horizonte… Mas convencido de que só a si cabe salvar-se.

O cristianismo, porém, continua a recordar-lhe que a condição humana, na história, está marcada pela debilidade e pela fragilidade, enquanto criatura, debilidade a que Paul Ricoeur, no seu ‘o homem falível’[4], chama ‘falha existencial’. A perda desta consciência é e tem sido causa de arrogância que faz do Homem ‘homini lupus’[5] (homem lobo do homem).

Os voos com asas de cera são, assim, muito mais do que metáforas de um desejo: são a tentação permanente de se arvorar em Deus, abandonando a condição de criatura.

Distingue a leitura grega da cristã a definição da ‘missão’ de Deus perante esta arrogância. Os gregos projetavam nos próprios deuses o orgulho que assomava à alma dos humanos, eternizando a arrogância; o cristianismo liberta o homem, confinando ao ‘território’ da história o poder do orgulho. Na morte de Jesus Cristo, o Humilde por antonomásia, o orgulho é derrotado e fica o reconhecimento da condição ‘indigente’ de quem ama: quem ama não é orgulhoso, não é arrogante – é todo ele abertura ao outro; é todo ele acolhimento do outro.

Mesmo sendo altamente sedutora a tese pelagiana, ela não pode vencer: a afirmação do ‘pecado original’, clarificada com a polémica entre Agostinho e Pelágio, permanece urgente como garante do reconhecimento do limite intrínseco à condição criatural, não porque seja desejada por Deus (que, pelo contrário, dela a redime), mas porque, como reconhece Andrés Torres Queiruga, não poderia ser de outro modo, dado que, na história, o limite é intrínseco[6]. Negar o limite, presumindo-se a ‘ilimitude’ de cada criatura, é fonte de males que vitimizam o próprio humano, desumanizando-o…

Regressa, Ícaro, ao chão de que nasceste, porque és Adão![7]



[1] Sigo a edição portuguesa da Antígona Editores, publicada em 2020.

[2] Isidro Pereira, Dicionário de grego-português e português-grego, Braga, Livraria A.I., 19908.

[3] Cfr. Roque Frangiotti, História das heresias: conflitos ideológicos dentro do cristianismo, São Paulo, Paulus, 1995, p. 114.

[4] Paul Ricoeur, o homem falível, Lisboa, Edições 70, 2019.

[5] Thomas Hobbes, Leviatã.

[6] Andrés Torres Queiruga, Recuperar a salvação: por uma interpretação libertadora da experiência cristã, São Paulo, Paulus, 1999, pp. 97 ss.

[7] ‘O pecado de Adão torna-se ao mesmo tempo a figura do drama humano na sua generalidade e a sua representação simbólica do acontecimento original que é seu ponto de partida.’ (Bernard Sesboüé, História dos dogmas, Tomo 2, O homem e sua salvação, S. Paulo, Edições Loyola, 2003, p. 227)

'Os Sete Dias da Criação' |11| Luís M. P. Silva - 11 – O segundo dia… a preparar o terceiro!

  (‘Os Sete Dias da Criação’ | Rubrica dedicada ao diálogo entre ciência e religião) Artigo originalmente publicado na revista 'Mundo Ru...