Mostrar mensagens com a etiqueta encarnação. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta encarnação. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, julho 06, 2023

Ah, quanto se espera do cristianismo! | A encarnação diante dos novos gnosticismos

 (Artigo publicado na Agência Ecclesia - 3 de julho de 2023)

Nas décadas que antecederam o Concílio do Vaticano II, foi-se consolidando uma convicção (que tivera no movimento litúrgico já notória expressão) de que o encontro fecundo entre a Igreja e a sociedade (e o mundo) não poderia fazer-se sem um retorno às fontes. É, aliás, nesse dinamismo que é criada, pela mão de Daniélou, Lubac e Mondésert, em Lyon, em 1943, a célebre coleção ‘Sources Chrétiennes’.

Este modus cogitandi (modo de pensar), dada a sua fecundidade, deve ser retomado, vez após vez, em particular, em tempos de maior dificuldade em discernir onde se encontra o equilíbrio entre a fidelidade ao que deve propor o cristianismo e a fidelidade ao Homem a quem se dirige. Pela sua natureza tensional, este método comporta um equilíbrio entre dois pontos que asseguram que a tensão não é perdida, sendo que a retirada de um dos pontos quebra a mesma tensão, com custos, seja para a fidelidade ao Homem, seja para a fidelidade ao cristianismo.

Vivemos um desses tempos…

Exige-se, por isso, o regresso às fontes, não para nelas permanecer (perder-se-ia a tensão com prejuízo para a fidelidade ao Homem e ao seu tempo, com consequente infidelidade ao próprio cristianismo que se define como religião de salvação da Humanidade…), mas para que o cristianismo seja significativo, permanecendo fiel a si e sendo-o, também, ao Humano para quem é anúncio de salvação.

Regressemos, por isso, às fontes…

Os nossos tempos trazem desafios ‘generosos’ ao cristianismo, perante os quais a tentação da desistência se agiganta. O regresso às fontes permite, porém, constatar que, feitas as devidas adequações, os desafios recuperam encontros já havidos, no tempo das fontes.

Veja-se que o primeiro desafio do próprio cristianismo foi o do confronto entre a sua emergência localizada, precisamente situada na quase incógnita Palestina, e o cosmopolitismo do helenismo com que se encontra, de forma particularmente exigente, São Paulo. Logo nesse encontro se define com precisão a necessidade do estabelecimento de critérios de fidelidade: distinguir o essencial do acidental é um desses critérios estruturantes. Eram acidentais os rituais herdados do judaísmo; era fundamental a afirmação da encarnação. E veja-se como este elemento fundamental (a encarnação) não se afigurava como marca de fácil conformação ao pensamento vigente. Pelo contrário.

Se estudarmos, com detenção, esses primeiros tempos, percebemos que o primeiro grande embate do cristianismo que – defendo-o desde há muito – se retoma, hoje, no transumanismo e na ideologia de género, é, precisamente, o que resulta dessa afirmação: Deus encarnou!

O helenismo trazia consigo um modo de pensar de influência platónica que veio a seduzir as primeiras comunidades cristãs, num amplo movimento designado como gnosticismo. No dizer de Roque Frangiotti, no seu livro ‘história das heresias’, “os gnósticos […] caracterizam-se pelo menosprezo da matéria, da carne e superestimam a alma-espírito. Para eles, a matéria é má em si mesma, incapaz e desnecessária para a salvação. Mais ainda: a matéria é radicalmente oposta ao espírito. São realidades contraditórias. Por isso, Deus, o espírito perfeitíssimo, transcendente, imutável e impassível, não pode, por nenhuma razão, assumir qualquer parcela de matéria.” (Roque Frangiotti, p. 27)

Não será difícil constatar que com esta mentalidade se confrontou o próprio S. João que, nas suas cartas, escritas em finais do primeiro século ou início do segundo, alerta para a centralidade da encarnação.

Afirma, em 1jo 1,1 (sigo a recente tradução que vem sendo disponibilizada pela Conferência Episcopal): “O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplámos e as nossas mãos tocaram, no que respeita à Palavra da vida: é isso que vos anunciamos. Pois a vida manifestou-se, nós vimo-la e disso damos testemunho: anunciamos-vos a vida eterna, que estava junto do Pai e que se manifestou a nós.”

Assim também em 1jo 4,1-31: “Amados meus, não acrediteis em todos os espíritos, mas examinai-os para ver se são de Deus, porque no mundo surgiram muitos falsos profetas. É nisto que reconhecereis o Espírito de Deus: todo o espírito que confessa Jesus Cristo, que veio na carne, é de Deus; e todo o espírito que não confessa Jesus não é de Deus. Esse é o espírito do anticristo, aquele que ouvistes dizer que estava para vir; pois bem, agora já está no mundo.

E, ainda, em 2jo7: “É que surgiram no mundo muitos impostores, que não confessam que Jesus Cristo veio na carne. É esse o impostor e o anticristo!”

A uma leitura menos fina, poderá parecer que o gnosticismo estará longe do que hoje são os desafios do cristianismo. Na minha perspetiva, esta conclusão será precipitada, pois uma das consequências evidentes do gnosticismo foi a relativização da corporeidade, dispensando, por isso, o corpo da sua natureza de entidade intrinsecamente moralizável. O corpo, para o gnosticismo, não é parte da condição humana, escapa-se-lhe e é, por isso, exterior à própria economia salvífica. Só o espiritual se salvará. E, logo, o corpo escapa à moral e à ética, podendo-se fazer ‘com’ e ‘nele’ o que bem se entende. O Homem que somos, na mentalidade de matriz gnóstica, nada tem a ver com o corpo, que lhe é exterior e alheio.

Veja-se como não estamos longe de uma matriz vigente que exclui o corpo do ser que somos, transumanizando-o e reduzindo o Homem ao pensamento que nele apenas ‘reside’. (Como se não pensássemos tudo o que vivemos, isto é, como se não fosse o nosso pensamento a repercussão do que vivemos enquanto corpo que somos!... Pelo contrário, o que pensamos é, na linha de Merleau-Ponty, “corpo vivido”….).

E como respondeu, no tempo das fontes, o cristianismo?

Reconheceu, com Santo Ireneu, no seu Adversus Hereses (livro IV, 11,2) que ‘Deus faz, o homem é feito’, sublinhando a progressividade e carácter desenvolvimental do ser humano, condição inerente à natureza de ser corpóreo, sublinhando que “a glória de Deus é o homem vivente” (Livro IV, 20,7 – sigo tradução não editada do saudoso Pe. Doutor Franclim Pacheco). Não, parte do Homem, mas, sim, a totalidade do Homem.

Uma análise detida das implicações desta ideologia diante da qual se espera o anúncio da encarnação, por parte do cristianismo, permitir-nos-á verificar que, sem a afirmação de que o corpo faz transparecer a pessoa que somos, estaremos diante de uma antropologia solipsista, em que o que aparece, diante dos outros, é opaco e indecifrável. É, por isso, necessário retomar a centralidade do princípio ‘encarnação’ e reafirmar, aos nossos tempos, que quem somos se vislumbra, ainda que provisoriamente e sempre como mistério a descobrir, mais e mais, no corpo que somos.

O regresso às fontes permite-nos recuperar a esperança de que estes não são os últimos tempos e de que muito se espera do cristianismo: que salve o Homem de se fechar em si mesmo, tentação tão densamente descrita no relato do paraíso. O Adão que quer fechar-se e ser autossuficiente continua, dia após dia, a ouvir os passos, no jardim, e a esconder-se por vergonha… Ou talvez já nem vergonha tenha, mas continuará, certamente, a sentir o som dos passos. E é preciso não ter medo de percorrer o caminho do Éden e dar a ouvir os passos que nos dizem que estamos nus.

quarta-feira, dezembro 14, 2022

Natal | Uma graça de Deus

 Habituámo-nos à ideia de que o que respeita à teologia é da ordem do ‘dever ser’. Aliás, um dos conceitos que a filosofia mais associa à ideia de Deus é a de ‘necessidade’ compreendida como o que ‘é e não pode não ser’.

O Natal tem, perante esta ideia de Deus, uma novidade que nunca se esgota. (Como, aliás, acontece com o que a sabedoria cristã sempre designa como mistério: tocamos nele, mas muito nos escapa, tamanha é a sua densidade.)

E essa novidade designamos como ‘uma graça de Deus’.

Poucas línguas permitem o subentendido que nos reserva este aforismo: ‘uma graça de Deus’.

Prontamente, lemos ‘um dom que Deus nos oferece, sem que o mereçamos’. E é-o, de facto. Mas considerar o Natal ‘uma graça de Deus’ tem, na língua portuguesa, uma outra linha semântica que nos passa, por vezes, despercebida. O Natal é ‘um gracejo de Deus’, uma ‘graça’, como quem nos desconcerta. Um momento de ‘humor’ que nos ilumina um beco sem saída. Tal como o humor, aliás!

Sim, o Natal é também um sinal do ‘humor’ de Deus.

O humor com que tantas vezes se nos propõe que enfrentemos a realidade dura e sombria. O humor com que, perante a teimosia de Jonas, Deus transforma o mar num cenário de uma comédia de ‘escapo e apanhas-me!’. O humor daquela anedota judaica que me chegou pela mão de Tomas Halík, no seu mais recente ‘a tarde do cristianismo’.

“[…] uma mulher reclama por Deus durante anos não ter respondido às suas petições para ganhar a lotaria. Diz-lhe o rabino: «Mas Deus já te respondeu! A Sua resposta foi ‘não’.” (T. Halík, A Tarde do cristianismo, Paulinas Editora, p. 249). Deus quer que aceitemos o seu Humor, mas nós temos mau humor e só queremos que Ele faça como exigimos…

Não procuro, aqui, fazer um jogo fácil de palavras, concluindo que Deus seja, não apenas, Amor, mas também Humor.

Sê-lo-á, certamente, não porque deva reduzir-se o mundo a uma grande anedota, mas guardando, antes, do humor o que ele tem de mais essencial e crucial: o humor é sempre o desconcertante, o que desperta a alegria, o que faz disponibilizar, para o inesperado, o coração empedernido.

O humor com que Deus desbrava a escuridão da noite do mundo, para se fazer nascer, frágil e despojado, numa manjedoura, não é apenas um ‘é assim porque tinha de ser’. É, antes, uma surpresa, uma desbragada gargalhada perante os fortes do tempo e do mundo, convencidos de que tudo teria de permanecer como sempre fora até então.

O Natal de Belém, o verdadeiro Natal, é um acontecer da surpresa, porque o que é ‘graça’ é ‘de graça’. Pois, como dirá, pouco mais tarde, S. Paulo, ‘onde abundou o pecado superabundou a graça’. Deus dá gratuitamente… e sorri, porque sabe que as sombras e o abismo não vencerão.

O humor do Natal é, por provir de Deus que é Criador, uma afirmação da condição do mundo criado. O dinamismo do mundo faz-se do gerar coisas novas onde há surpresa. O novo emerge como um momento de humor, de desconcerto.

Veja-se o eclodir da vida. Cada novo rebento é um sinal de júbilo, um desconcerto de vitória sobre a morte.

Na linha de um grande pensador e teólogo do século XX, Teilhard de Chardin, poderíamos afirmar que toda a evolução, que se encaminha para a Cristogénese, só é possível se houver este acontecer de momentos de novo, de desconcerto que surpreende e em que a novidade pode eclodir. Até a física contemporânea evidencia, com as teorias do caos, - que, na aparência se afiguravam a negação do lugar do transcendente, - abre caminho a um outro olhar sobre a realidade que é, afinal, um estado de permanente milagre.

O mundo espanta… O mundo surpreende… O mundo desconcerta… E emerge o novo!

A criatura participa da realidade de Deus que é novidade constante e que, no tempo, e num tempo concreto, desconcertou, rebaixando-se à condição da criatura para lhe revelar Quem era e quem ela própria era, afinal.

E será fácil, então, percebermos que Deus também seja humor porque o Amor que Ele é (não apenas ‘tem’) gera sempre coisas novas, porque o amor é fecundo em si mesmo.

O emergir de coisas novas é ‘graça’ que faz inundar de riso o mundo e o tempo.

E o mal, a escuridão e o abismo já não terão a última palavra nem voz.

Porque Alguém, antes de todos os outros, ‘achou graça’ e deixou-se encher da Graça!

terça-feira, novembro 30, 2021

Da tragédia de Édipo à esperança do presépio

 Eis-nos no caminho de Troia para Ítaca, no sonho do Éden… Temo-lo feito, ora com uma mão em Ulisses, ora com a outra em Adão. A mão de Ulisses sua de tragédia, goteja, mesmo! Nela, só parece haver sangue e desilusão. Nada podemos fazer, no caminho grego, contra a voracidade e vertigem do destino. Preserva-se no adágio ‘fatal como o destino’ um resquício dessa rendição.

Mas Adão não é o homem da tragédia.

Sucumbiu (e continua a sucumbir), bem certo, à tentação e, com ela, veio a dramaticidade da vida. Mas ele já não é rendido ao poder de um destino inexorável. O horizonte do Novo Adão redime-o e reconfigura-o como imagem da esperança.

O percurso tem-nos mostrado, por isso, que à densidade trágica não temos de somar tragédia. Mas disso se convenceram os gregos e, com eles, tantos dos nossos contemporâneos.

A história humana é marcada pela tragédia. Mas não há que render-se-lhe como se nada mais restasse do que aceitar que assim é e não poderá ser de outro modo.

Também os gregos vislumbraram, fugazmente, que pudesse não ser assim quando colocaram, num recôndito e escondido recanto da caixa de Pandora, a esperança. Mas a tragédia grega parece mais forte do que a esperança.

Terá de se esperar pelo Cristianismo para fazer germinar e tornar frondosa a árvore bem robusta da esperança

Mas a mão de Ulisses parece querer prender-nos e agarrar-nos, não nos deixando acolher os dedos de Adão.

Em tantos momentos se expressa esta visão trágica!

Particularmente notória é a sua presença quando a vida se dramatiza.

Dela são densas narrativas o mito de Édipo e a singeleza do presépio.

Édipo (já aqui falámos dele, pois virá a ser o pai de Antígona, Polinices, Etéocles e Isménia) é filho de Laio e Jocasta, reis de Tebas.

Quem no-lo conta é o eterno Sófocles, nas suas tragédias Rei Édipo e Édipo em Colono, seguindo-o, aqui, pela pena de Luc Ferry, no seu livro ‘a sabedoria dos mitos’ [edição da Temas e debates, 2014].

Um oráculo prenuncia que aquele filho, Édipo, matará o pai e tomar-se-á de amores pela mãe.

Ontem, como hoje, o parricídio e o incesto incluem-se nos mais hediondos comportamentos humanos. Para não sucumbirem ao fatídico vaticínio, decidem entregar o pequeno príncipe à sorte, deixando que um dos seus servos, um pastor, o leve para um bosque onde possa ser devorado pelas feras. No caminho, encontra os servos de um rei vizinho que não conseguia ter filhos. Propõem-lhe tomar a criança para a tornarem príncipe de outro rei. Só já adolescente conhece, numa disputa de crianças, que não será, efetivamente, filho do pai, uma vez mais, no oráculo de Delfos, onde os seus verdadeiros pais já tinham concluído que sobre ele impendia aquela maldição.

Decide fugir da cidade onde vivia, dirigindo-se para (pois está claro!) Tebas. (Tudo é trágico, nesta descrição, e nada há a fazer…) No seu caminho vem o rei de Tebas, dirigindo-se ao mesmo oráculo de Delfos, para saber o que fazer, pois a sua cidade era assolada por uma epidemia. Os destinos de ambos cruzam-se sem que nenhum deles possa fazer nada senão dar os passos certeiros para que ele se cumpra…

Do mito para a realidade…

No início da nossa era, também uma outra criança parece ver recair sobre ela oráculos trágicos (como parecem ecoar os gregos as palavras do velho Simeão!). Mas na história desta criança o fado, o terrível fado não tem a última palavra.

O pai foge da perseguição cruel de um Herodes a quem a história chamou ‘grande’. E sobrevive. Não sucumbe.

E mesmo a predição da morte cruel que atravessará o próprio coração da sua mãe é prenúncio de uma esperança que superará a tragédia.

Dos oráculos de Delfos ‘refulge’ a sombra da tragédia.

Da humildade do presépio dimana a refulgência de uma luz infinita.

E é por isso que, enquanto os gregos expunham os seus filhos ‘malditos’, jamais os cristãos expuseram os seus filhos, como disso é retrato intemporal o dizer do anónimo autor da carta a Diogneto, em finais do século II. Diz ele dos cristãos (segundo edição da Alcalá, de 2001) que «habitam pátrias próprias, mas como peregrinos: participam de tudo, como cidadãos, e tudo sofrem como estrangeiros. Toda a terra estrangeira é para eles uma pátria e toda a pátria uma terra estrangeira.» Mas (nota que mostra a novidade que o cristianismo trouxe ao mundo e permanece, hoje, como escândalo, quando tantos continuam a expor os seus recém-nascidos ou ainda não nascido…) «casam como todos e geram filhos, mas não abandonam à violência os neonatos.»

Édipo continua a fascinar, mas a sua sombra denuncia uma luz de que ele não é origem: a esperança cristã! Hoje, como nos primeiros séculos, o brilho cristão incomoda porque alguns continuam a habitar num reino de sombras. E as sombras falam de uma luz que ofusca e não se quer olhar.

O brilho que inunda o mundo é humilde e suave, mas inabalável. Adão fez-se Novo Adão. Já não estilhaçado pela tentação, mas ainda exposto pelo mundo que o abandona e não quer ver. Mas Deus já não é alguém rendido ao trágico, ao inexorável: liberta e liberta para sempre. Não há, por isso, que temer a fragilidade. Ela já não é uma maldição: é um caminho de superação, em que o próprio Deus encarna, para dela se compadecer e, assim, a elevar. O sonho do Éden está totalmente presente na singeleza luminosa do estábulo frágil e só aparentemente abandonado.

(Artigo publicado na revista 'Mundo Rural')

quarta-feira, dezembro 23, 2020

Natal: ‘Amor’ ou ‘necessidade’?


O mundo, a realidade existente, nasce de uma longa, longa história de amor… do Amor.

Não considerar esta convicção como fundamento de tudo entrega toda a realidade à determinação de anónimas forças que tornam inexplicável o surgimento da consciência de si e da capacidade de decidir livremente. Do nada nada vem, sendo que o que existe só pode nascer no quadro da possibilidade de vir a ser, sem ter de o ser.

E só o amor possibilita a liberdade. Só o amor possibilita que o que é possa realizar-se ou, de todo, possa decidir-se a não existir. Mas é nesse mesmo lugar que do nada o Amor faz nascer nova vida e vida nova.

Quando, em 1970, o bioquímico francês Jacques Monod pretendeu resumir na disjunção ‘acaso ou necessidade’ o que estava em causa, quando nos dispomos a interpretar o mundo, o seu olhar fez-nos tomar como insofismável esta conclusão. Mas a redução não está na disjuntiva que ele nos ofereceu. Esta disjuntiva ainda não atingiu o cerne do olhar alternativo sobre a realidade.

No Natal, no mistério do Natal, percebemos que a alternativa não está entre os anónimos, e «a-subjetivos», ‘acaso’ ou ‘necessidade’, forças impessoais e sem vontade ou ‘rosto’. Como poderia possibilitar-se o surgimento da liberdade se a natureza do que é não passasse de um dos dois fundamentos aqui apresentados em alternativa?

Mas essa não é, de facto, a raiz do que existe. A alternativa não está aí.

O mal e o bem só se podem iluminar se o Amor for o fundamento do que é. De outro modo, nem o bem existe [tudo não passa de um ‘ter de ser casual ou predeterminado] nem o mal, como possibilidade de não realização pode ser chamado assim. Não passará de um outro rosto do acontecer impessoal e anónimo.

A tentação de, por antecipação e anacronicamente, ‘regressar’ à disjuntiva de Monod é profunda e emergiu, com frequência, na própria tradição cristã. A linha que colocou no centro da Encarnação de Deus a função de reparar o mal que a criatura provocara (designada como Hamartiocentrismo), linha que encontrou em S. Anselmo (ca. 1033-1109) o seu apogeu, padeceu deste mal. A encarnação (o Natal) parecia ter acontecido por ‘necessidade’ (exigência!) de reparação, como se o centro fosse cedido ao mal, ao pecado. Tentação somada à primeira tentação.

Outro modo nos interpela o Natal que adotemos. Toda a realidade, nascida do Amor e por isso com a têmpera do próprio amor (livre, aberta ao outro, em dinamismo de autorrealização frangível e em estreita dependência do outro…), é, desde o seu primeiro momento, sinal e marcada pela anterioridade do amor. Deus salva ao criar; Deus cria ao salvar. No criar e no salvar, a anterioridade está no Amor, não no acaso, nem na necessidade. Total anterioridade ao amor. Do que falava, aliás, Paulo ao dizer que ‘onde abundou o pecado superabundou a graça’ (Rom 5,20)? Graça é, aqui, o outro nome para um Amor que se define como pura gratuidade.

Não será o acaso o rosto, a máscara, o disfarce do Amor gratuito que surpreende e tem a imprevisibilidade própria da liberdade?

No Menino do Presépio resume-se toda a história do mundo: na sua fragilidade está descrita a natureza ‘agápica’ (de ‘Amor’) da realidade.

quinta-feira, dezembro 21, 2017

Natal: e a Transcendência transfigura a opacidade em Transparência


 A realidade é opaca. Parece incontornavelmente opaca e insuscetível de leitura. Demonstra-o a dificuldade em descortinar-lhe um sentido. Se assim não fosse, seria, porém e de modo paradoxal, difícil que se pudesse assegurar espaço para a liberdade. A obviedade do sentido não deixaria margem para a decisão. Mas, de facto, a realidade é, na aparência, opaca.
Caberá à decisão conferir-lhe um sentido e proporcionar-lhe transparência.
É este o quadro para o âmbito do que celebramos, no Natal. Nada é determinado, nada é óbvio. Tudo é resultante da decisão da liberdade. Primeiro, da liberdade de Deus; depois, da liberdade humana.
E isto é que torna tão brilhante e luminoso o que celebramos, em cada Natal. Não o determinismo e a inevitabilidade, mas a perene e surpreendente novidade da liberdade.
A opacidade da realidade pode ser a responsável por, naquilo que não diz respeito ao que é humano, termos a ilusão de que podemos determinar, com toda a precisão, as causas e prever, sem margem para erro, as consequências. Essa é uma ilusão que se vai apropriando de todos nós, numa sociedade tão incomodada com a novidade e a imprevisibilidade. Queremos tudo determinar; estamos seguros de que somos determinados (pelo sangue, pelos genes, pelas circunstâncias, etc…). Mas o Natal é a afirmação de que o humano transcende os determinismos. Vive numa realidade que o condiciona, mas é-lhe transcendente. Esta é uma das afirmações nucleares do mistério natalício. Sim, porque mistério não é, para a teologia, sinónimo de um enigma indecifrável que alguém acabará por reduzir a banalidade; mistério é, para a teologia, a condição densa da realidade que faz dela algo que podemos descortinar, mas que sempre nos escapa e que captamos, pouco a pouco, mas sempre indeterminável.
Ao encarnar na realidade mundana, Deus afirma, não só que não é Deus à maneira grega (impassível, distante e não confundível com o concreto), mas, pelo contrário, que é amor como, aliás, o é, de forma finita, o próprio ser humano. Se, como afirma Romano Guardini, «quem sabe de Deus conhece o homem», então, partindo dessa premissa, teremos de perceber que Deus não pode ser tão distinto da realidade que nada tenha a ver com ela. A natureza da realidade, enquanto criada por um Deus que concede à humanidade a condição de criatura à Sua «imagem e semelhança», faz com que algo do que o homem é tenha de provir de Deus. E esse algo é a sua condição de amor e liberdade, duas condições que se exigem, mutuamente: sem liberdade, não há amor verdadeiro; sem amor, não há liberdade, mas puro arbítrio.

Ao encarnar, afirmando-se como um Deus que não é, meramente, pura necessidade, Deus transfigura a realidade, respeitando a sua aparência de opacidade, mas concedendo ao Homem que a olha a capacidade de nela descortinar o que ela parece ocultar. Como bem recorda Leonardo Boff, no seu livro sobre «os sacramentos da vida; a vida dos sacramentos», a realidade, depois da encarnação de Deus, já não se satisfaz em respeitar a transcendência de Deus; ela própria transparece o dinamismo divino. E talvez essa seja a maior exigência do Natal para estes tempos: superar a convicção de que a liberdade esteja ausente da realidade. Quando novos gnosticismos parecem querer reduzir o homem a pura alma e esquecer a corporeidade, como se esta fosse a origem do mal; quando os transumanismos se propõem afundar a humanidade num esvaziamento de si, prescrevendo que a história real não faz parte da identidade, o nascimento de Deus na singeleza de um lugar concreto, com nome e história reais desafia a reconquistar a densidade da realidade e a respeitar a sua condição de identidade. Não somos seres abstratos; somos e realizamo-nos na concretude de cada agora. Nascemos num aqui e agora que nos concretizam. E isto faz da realidade uma transparência: na história dos homens transparece a história do encontro entre Deus e as suas criaturas. A realidade não é vítima de umas quaisquer forças ocultas e deterministas: é uma história de encontros de liberdades. O Natal é a boia de salvação da humanidade face a toda a tentativa de desumanizar o mundo e de o tornar opaco. O opaco da realidade já não é uma efetiva condição insuperável, mas a condição da liberdade e do respeito pela decisão. Mas há quem queira que ela permaneça opaca e devedora de ocultos determinismos. Celebrar o Natal é celebrar a certeza de que o mundo transparece o Amor e, com ele, a Liberdade. Celebrar o Natal é proteger o Homem concreto, realizado no aqui e agora da história, de todas as utopias vagas e vãs que esmagam em nome de um Abstrato humano, ainda não realizado. Como bem recordava Gabriel Marcel, o que somos é «homo Viator», homem em caminho, peregrino, ainda e sempre incompleto. Destruir o homem concreto em virtude de um idealizado Homem abstrato é desrespeitar a condição peregrinante da humanidade. Queríamos ser sem termos de ainda não ser. Mas o que somos realiza-se como um realizar-se em caminho. Porque a encarnação deu-se no concreto de uma criança, acolhida numa família e nela realizada em respeito pelo caminho próprio de cada humano. O fazer-se é já parte da realização. Não há, por isso, Páscoa sem Natal. Não há ressurreição sem o acolhimento da condição (quase) opaca do mundo; porque é na opacidade do mundo que transparece a densidade da realidade para os olhos que a olhem como quem se sabe peregrino e a caminho.

quinta-feira, dezembro 24, 2015

Uma parábola do Natal - Encarnação: quando Deus inundou a humanidade





Havia um homem que nunca vira o mar. Era esta a sua maior tristeza. Mas temia, também, que, de vê-lo, com ele tanto se fascinasse que já não desejasse regressar.
E essa tristeza avolumava-se-lhe na alma.
Já bebera de muitas águas, já vira muitos rios, já se fascinara com belos lagos. Mas nunca se satisfizera com tal, porque nenhum deles era o mar.
Os seus amigos, de tanto lhe ouvirem esta tristeza, decidiram trazer-lhe o próprio mar, a tornarem-no presente, na sua vida, pois também eles já sabiam o que era o mar. Já outros se tinham decidido a mostrar-lhes quão belo ele era. E nunca mais desejaram nada que fosse menos do que o mar.
Juntos, deslocaram-se a uma das praias, levando uma grande tina que mergulharam nas águas calmas de uma baía. Com a água, vieram, também a areia, pequenos peixes, algas e o odor. Ah, o odor do mar!
Com cuidado, para que a grande tina de água não se entornasse, regressaram à casa do amigo.
Como se lhe abriram os olhos! A água era brilhante, cheia de cores e brilhos a que o sol conferia matizes diversos. E o cheiro a iodo... E os peixes e todo um manancial de vida salgada... Tudo aquilo era mar. Nada lhe faltava.
Do mar só precisava, agora, de conhecer a imensidão porque ali estava tudo o que era o mar. O encontro com a imensidão ficava, porém, reservado para quando a vida, de tão inebriada com a memória do mar, se cansasse e se decidisse a regressar ao infinito oceano. Até aí, restava viver com a saudade de uma memória do futuro: a do eterno.
E era Natal!

quarta-feira, abril 17, 2013

Religiosidade em tempos de crise



Não há como ocultar. Quando a crise toma conta das nossas vidas, a religiosidade assume uma visibilidade que parece ofuscar-se nos momentos de opulência e fortuna. A coincidência tem dado a muitos argumento para defenderem que, sendo assim, a religião (que é identificada, de forma simplista, com estas manifestações) não é mais do que uma resposta à necessidade humana de sossego e aquietação, contribuindo para a distração em relação ao que é a sua identidade, gerando, assim, aquilo a que chamaram «alienação». Por esta caraterística, defendia-se então que a religião distanciava o Homem da sua própria identidade e essência, alheando-o do que ele próprio era. Foi o que entenderam muitos (Feuerbach, Freud, e tantos outros) no século XIX e continuam a defender tantos outros ainda nos nossos tempos. Contudo, não há que ceder, tão facilmente, a esta tentadora argumentação.
Em primeiro lugar, importa separar os conceitos que, sem precisão utilizámos no primeiro parágrafo: os de «religiosidade» e de «religião». Por religiosidade, deveremos entender todas as manifestações, de origem popular, que, sem preocupação de rigor e coerência, expressam as vivências de um determinado povo acerca do sublime e do inominado; são expressões mais ou menos espontâneas acerca daquilo a que Rudolf Otto chamava o «santo», e que desperta na humanidade «atitude de temor e tremor». A religião, por seu turno, sendo uma resposta à interpelação do divino, configura-se de modo coerente e estruturado, em constante dinamismo de autocorreção. Poderíamos, sem mais cuidado, dizer que entre a religiosidade e a religião existe uma relação semelhante à que existe entre o diamante bruto e o polido.
Ora, sendo certo que tal definição nos ajuda a distinguir, desde já, âmbitos diversos, mantém, porém, a validade da interrogação inicial. Em situações de crise, não é apenas a religiosidade que se torna mais «exuberante». Também a religião avoluma a sua presença coletiva. Tais factos devolvem-nos a pergunta. A que se deve tal fenómeno?
Sou dos que não partilham da resposta que dera o século XIX e o próprio século XX. A relação entre o crescimento pessoal e sociológico da religião e as crises não se deve à natureza alienante da religião, mas pelo contrário, na minha perspetiva, devido ao facto oposto. A opulência, a fortuna são, sim, a causa da verdadeira alienação humana. A natureza do homem é intrinsecamente frágil. A fragilidade é um traço definidor do que é a humanidade. Aliás, «humano» vem de «húmus», terra, tal como «adão» provém de «adamah» (terra vermelha, fértil), constatações etimológicas que denunciam a natureza do objeto definido. Quando o ser humano perde esta consciência é que pensa ser o que não é. Ora, em nosso entender, os momentos de crise são momentos de devolução de consciência. Na sua etimologia, a crise quer dizer, precisamente, purificação, tal como o «ouro no crisol».
Bem, mas esta constatação, por si só, não é suficiente para se depreenderem todas as implicações decorrentes da verificação do laço existente entre crise e crescimento da religiosidade e da manifestação religiosa. Importa compreender como, também, num plano pastoral, se observam, aqui, desafios a ter em conta.

Desafios pastorais

Ao longo da história, a relação entre a «religião cristã» e a «religiosidade popular» nem sempre foi pacífica. Pelo seu caráter espontâneo, a religiosidade popular tende a absorver, acriticamente, expressões estranhas, exóticas e, por vezes, pouco conformadas com o quadro conceptual cristão. E diante disto, duas atitudes se foram configurando: a da rejeição, pura e simples; a da «cristianização». Como em tantos âmbitos, a justeza está no equilíbrio. No caso em estudo, o equilíbrio passa, não apenas por, como sugeria o Papa Gregório Magno, «ser necessário evitar destruir os templos dos ídolos; basta eliminar os ídolos e, depois, com água benta, aspergir os templos, construir altares e colocar relíquias» (ap. Enciclopédia Christos), mas, seguramente, por um trabalho mais lento e dedicado de formação e criação de tradições capazes de suplantar as marcas idolátricas. Na verdade, julgo que nem tudo é suscetível de «cristianização», necessitando, mesmo de ser suplantado. Os sinais de reemergência dos ídolos clássicos cartomânticos, astrológicos, etc., obrigam a uma reflexão cuidadosa, que desperte a criatividade cristã e a torne capaz de gerar novos símbolos que unam a fé cristã à vida real das pessoas do século XXI. Nesta última afirmação, formulo um programa que tem um pressuposto teológico. A fé cristã estrutura-se em torno do eixo que é a fé na encarnação que, em termos de conteúdo afirma a realidade da presença do divino na finitude da história, o que se constitui, também, como um princípio formal: a fé cristã deve expressar-se em manifestações concretas. Quando tal não acontece, a religiosidade espontânea, muitas vezes de origem pagã, ocupa o lugar de uma resposta que resulta da natureza frágil e incompleta da humanidade, expressão última de uma sede que fala, por si só, que existe «água», mesmo que não se queira reconhecer. A sede não é, regressando ao início do nosso texto, uma alienação, mas a manifestação de que há uma nascente da qual se provém e que, se ausente, deixa um vazio. A religiosidade e a religião, em tempos de crise mais não são, afinal, do que a afirmação da natureza intrínseca da humanidade. Estar em crise será, então, a oportunidade brilhante para o homem se «re-humanizar»!

Luís Silva

domingo, dezembro 02, 2012

Jesus, presente de Deus



Se é verdade - como diz Pessoa, o poeta que tão genialmente soube fazer da alteridade a condição para se dizer a si mesmo - que a língua portuguesa é nossa pátria, valha-nos, nesta hora de tantas crises, a riqueza do idioma para compensar outras pobrezas. Na realidade, em nenhuma outra língua das que se nos disponibilizam se conseguiria exprimir com tal força a densidade que pretendemos reunir no título que serve de pretexto a este texto. Se o quiséssemos dizer em francês, em inglês, em espanhol ou uma outra das que se nos acercam, não saberíamos se dizer «présent», «presente», «present» (para exprimir a dimensão temporal) ou se cadeau, regalo ou gift (para repercutir a dimensão de «dom» e «oferta»). Mas, na nossa pátria, é impossível fazer-se a oferta sem se lhe associar a nossa presença, que é tempo e lugar de acontecimento.
Tal densidade linguística parece conferir à nossa língua o estatuto de idioma teológico, por tão resolutamente reunir a densidade do acontecer salvífico.
O acontecer, na história, da doação de Deus enquanto oferta não devida, mas de vida, expressa o desejo de Deus de pretender tornar-se contemporâneo do homem, não apenas rebaixando-se, mas, mais ainda, elevando o homem. É na glorificação do homem que se manifesta a divindade e não pela sua aniquilação. Apesar de tantas vezes negada pela prática de muitos cristãos, que se convenceram de que a afirmação de Deus teria de operar-se pela negação do humano (incorrendo num adopcionismo latente), esta é uma verdade que faz parte do núcleo cristão que, desde a primeira hora, reconheceu no homem Jesus a presença e manifestação do Cristo divino. Assim, o acontecer da encarnação não expressa a anulação do que há de humano para o substituir a fim de que aconteça o divino, mas antes a afirmação em cinzel de que a «glória de Deus é o homem vivo» (Santo Ireneu).
O acontecer da encarnação se é, por isso, uma autêntica manifestação de quem é Deus, enquanto ser que se relaciona (que é marcado pela pessoalidade, que se define como ser de relação, como amor, como trindade), é ainda mais acontecimento que revela a enorme dignidade do humano, repto para tempos que pretendem fundir no indiferente e na mera individualidade não relacional.
Assim o expressa, de forma inigualável Andrés Torres Queiruga, num seu texto sobre a ressurreição, recolhido no livro ‘Quem é/quem foi Jesus Cristo?’, recentemente publicado: «Entre as categorias de que dispõe o pensamento humano, só as pessoais podem ajudar a compreender – ainda que de bem longe – esse mistério pelo qual a máxima comunhão com Deus não conduz à dissolução do indivíduo, mas à sua máxima afirmação. Trata-se dessa única e maravilhosa dialéctica do amor que tão bem exprimiu Hegel, ao afirmar que consiste numa relação estranha, na qual «ser no outro» constitui a verdadeira forma de estar consigo mesmo; que diferencia e afirma na mesma medida em que une; que faz com que quanto mais se dá mais se tem. E o mesmo tinha dito, com mais intensidade, se possível São João da Cruz, falando ousadamente de uma reciprocidade tão absoluta entre Deus e a criatura que, assim como a pessoa humana se recebe de Deus, também Deus se recebe dela.»
O presente temporal de Deus dá pelo nome de bem-aventurança eterna, sendo «graça» o nome com que se reconhece o presente oferecido por Deus. Termos que desmontam toda a tentação de sustentar este encontro no dever ou na obrigação. A sua matriz é, antes, o amor, que só o é se for graça – tão gratuito como pleno de humor, pois tal nos permite descortinar a nossa pátria Língua! O humor da felicidade definitiva!

Luís Manuel Pereira da Silva

E ao pó hás-de voltar… Não às cinzas estéreis e anónimas.

  Há uma sabedoria profunda, verdadeiramente divina, no ato de inumar o ‘corpo’ morto, de o devolver ao regaço adâmico de que proveio. Mas u...