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sábado, fevereiro 07, 2026

Sabes, leitor... | 26 | Marca de água do livro 'Identidade e Família'

 

Rubrica ‘Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página’** | Marca de água de livros que deixam marcas profundas
Parceria: Federação Portuguesa pela Vida e Comissão Diocesana da Cultura

Luís Manuel Pereira da Silva*

O(s) autor(es) e a obra
António Bagão FÉLIX, Paulo OTERO, Pedro AFONSO e Victor GIL (Coord.), Identidade e Família: entre a consistência da tradição e as exigências da modernidade, Alfragide, Oficina do Livro, 20243.


‘Identidade e família: entre a consistência da tradição e as exigências da modernidade’ é uma obra coletiva. Reúne, após uma luminosa introdução, 22 artigos de algumas das mais destacadas personalidades nacionais. Qualquer dos nomes dispensa nota curricular. Cada nome é, por si, um currículo. A este mérito associa-se a coerência da obra; apesar de coletiva e de ter uma temática comum, surpreende que as abordagens não se sobreponham, dada a originalidade de cada linha de pensamento. Mérito dos autores, bem certo, mas também da coordenação bem articulada e que resulta, como é explicitamente referido, de intenção de corresponder à missão do ‘Movimento Acção Ética – Vida, Humanismo e Ciência’. O tema exigia, com efeito, que se olhasse a problemática da família sob múltiplos prismas.
Acresce a tudo isto uma virtualidade a sublinhar: os artigos dizem muito, argumentam com a clareza exigível, em curto espaço, equilibradamente definido e respeitado pelos autores.
Ora, a tudo isto se deve a ‘celeuma’ que a saída deste livro suscitou, em particular entre os indivíduos e movimentos que dizem não se identificar com a matriz presente neste livro. E a matriz pode enunciar-se de modo sintético: secundar o reconhecimento de que a família, instituição prévia ao Estado e que este deve reconhecer e proteger, nasce de uma condição natural do ser humano – nasce-se de um pai e uma mãe e a essa referência natural deverá reportar-se o ponto de partida para a discussão sobre o que é ser família.
Esta síntese que, há muito poucas décadas, soaria a ‘lugar-comum’ que rotularia como ‘banal e vulgar’ qualquer artigo, obviando a dispensa da continuidade da leitura, é, hoje, fonte de conflitos e prontamente etiquetada no armário das ‘conservas’ (sem que se apercebam, porém, de que o verdadeiro progresso da humanidade se pode resumir à história de como conservar o que, de outro modo, se esfumaria: conservámos na escrita a volatilidade da coloquialidade; conservámos em papel, em pergaminho e em tantos outros suportes a volatilidade dos registos; conservámos a energia porque a sua volatilidade nos impedia de poder continuar a beneficiar dela; conservámos os alimentos em arcas e frigoríficos para que a voragem do tempo não nos impedisse de os poder consumir por mais tempo; conservámos, conservámos, conservámos para poder ter futuro… De outro modo, tudo seria passado! Irónico, pois quem acusam de serem passadistas é aos conservadores, mas são eles, afinal, que garantem que possa haver futuro. A não ser assim, todo o presente rapidamente se torna passado. Conservando o que é importante, o presente pode aspirar a ter futuro!)
Mas a diversidade das origens dos autores e a lucidez das suas reflexões exigem que se seja mais prudente em tão pronta ‘etiquetagem’.
Apesar, porém, do nosso desejo sincero de que assim seja (que não se arrede da vista um livro conotado…), estamos em tempos em que se pretende ver a ‘bula’ do remédio para a sede de leitura antes de o ingerir. E já não o lemos ‘virgens’ de preconceitos, porque de preconceitos nos pretendíamos dispensar e libertar.
É este um dos maiores paradoxos do nosso tempo: de tanto se pretender despreconceituoso, nunca tanto deles dependemos e por eles nos dispensámos de ler o que caiu sob o rótulo de que deles enfermava.
Sabendo bem disso, os que perceberam perigo neste livro prontamente se encarregaram de sobre ele lançar a ‘lama’ de que seria um livro padecente de preconceitos para que, contaminado, dele não se abeirassem os que, por seu efeito, pudessem vir a ficar ‘enfermiços’.
Mas a obra ficou… A qualidade está ao alcance da leitura e do reconhecimento que aceite conferir-lhe o leitor honesto.

Marcas de água 

(o que fica depois de se deixar o livro)

A leitura, após a polémica que se gerou em torno deste livro, recordou-me o mito clássico de Cassandra.
Sobre Cassandra impende uma bênção e uma maldição. Tem o poder de prever o futuro (um dom reservado a muito poucos…), mas está amaldiçoada pela impossibilidade de ser ouvida e seguida pelos que a ouvirem. Previu que os gregos entrariam em Troia e avisou que o cavalo de madeira ‘estacionado’ junto às muralhas da cidade seria o instrumento com que aqueles entrariam e destruiriam a cidade, mas a sua visionária denúncia só recebeu indiferença. Não só não lhe ligaram como arrastaram para o interior da cidade o cavalo, tomando-o por ‘coroa de glória’ dos deuses…
A denúncia de que a família, que pede o ordenamento internacional que seja protegida, vive ‘sob ameaça’ por efeito de uma ‘liquidificação’ do conceito (expressão minha, mas que corresponde à abordagem defendida ao longo do livro) e por ação de ideologias que, por meios muito eficazes, têm conduzido aos resultados que estão diante de todos – crise demográfica, diluição dos laços familiares, aumento do número de nascimentos fora do contexto da estabilidade matrimonial, diminuição da taxa de nupcialidade e aumento da de divorcialidade, etc. – parece soar a discurso de uns ‘irredutíveis gauleses’ que, mais cedo do que tarde, serão vencidos. Mas os números não se referem a questões marginais, antes à própria solidez da condição humana como seres intrinsecamente relacionais e à garantia dos liames que estruturam a sociedade. Em causa está que, a diluir-se, em definitivo, a estrutura familiar, nos reduzamos ‘à imensa solidão das multidões’ (Manuel Monteiro), pois ‘numa sociedade em que a família perde o valor central, não há habitantes, mas, sim, gente.’ (Manuela Ramalho Eanes)
É por isso que este livro não é, apenas, um livro: é um candelabro erguido sobre o monte em noite sem luar.
Dramático?
Verdadeiramente dramático é nascer-se órfão de uma orfandade legitimada pela lei que, para atender a putativos direitos dos adultos a terem filhos como um objeto que se pode obter, se seja impedido de saber quem é o pai ou a mãe.
Dramático é não poder ver respeitado o direito a nascer numa família com a presença do pai e da mãe porque a lei liquefez os vínculos e permitiu que fosse mais fácil romper laços do que construí-los.
Dramático é nascer-se e permanecer-se filho único porque um idealismo quase platónico nos impede de aceitar que possamos não dar todas as coisas para que possamos dar muito mais daquilo que não se reduz à condição de coisa: a possibilidade de construir uma fraternidade.
Dramático é confundir desejos com direitos. Nem todo o desejo é, só por si, direito. Um direito nunca o poderá ser sobre a pessoa do outro. Dramático é, por isso, a redução dos outros à condição de objetos gerados para satisfação de desejos individuais. Essa é a rampa que despersonaliza e desumaniza. E parece que já nos decidimos, coletivamente, a deixarmo-nos deslizar por ela.
Este livro é, porém, nas suas propostas, também um luzeiro de esperança. São inúmeras as sugestões a tomar como sementes de futuro: da difusão do selo de reconhecimento de empresas familiarmente responsáveis à regulamentação do cuidador informal, dos modos de articulação entre gerações à ‘receita’ maternal contra o individualismo, são muitas as vias para que se opere a revolução que a família permitirá consumar.
Porque, como é recordado, cumprir-se-á Portugal quando se cumprir a família! (Cfr. Gonçalo Portocarrero de Almada)

 

Na mesma página que o autor (citações)

’Como disse o Conselho Pontifício Justiça e Paz, «a família encontra a sua legitimação na natureza humana e não no reconhecimento do Estado. A família não é, portanto, para a sociedade e para o Estado, antes a sociedade e o Estado são para a família».’ (Introdução, p. 14)

‘A família tem sabido, com mais ou menos obstáculos, conjugar três aspetos nucleares: evolução, plasticidade e unidade. Sendo o barómetro social que melhor transmite a tensão e a transição dos tempos, o seu ideal e a sua aspiração não mudaram, porém, na sua essência.’ (Introdução, p. 15)

‘Ultimamente, posições radicais e mediaticamente potenciadas pretendem desdenhar da instituição familiar, vista até como uma instituição ultrapassada. Existe uma indisfarçável pressão ideológica e económica para forçar o indivíduo a uma desvinculação familiar, retirando-lhe todo o sentido da pertença. O lema é «tu poder ser aquilo que tu queres».
Este radicalismo individualista é levado ao limite através da chamada ideologia de género. Sem qualquer base científica, esta ideologia defende que o género é construído apenas pela identidade psicológica de género do indivíduo, negando ou relativizando totalmente a identidade biológica. Esta, porém, não é atribuível, antes é parte integrante do indivíduo na sua diversidade e especificidade. Estamos assim perante um movimento ideológico com impacto na família, na educação, na socialização, na comunicação. A ideologia de género não é promotora da liberdade ou acolhedora da diferença, mas impositora de um novo modelo de pensamento único, comprometendo o desenvolvimento humano fundado em valores, formado na liberdade e autonomia e vocacionado para a felicidade.’ (Introdução, p. 16)

‘Esta obra tem tudo para constituir um livro-semente. Um livro que, queremos, faça despertar, sobretudo nas gerações jovens, desassossegos virtuosos em vez de indiferentismos viciosos. Um livro que nos ajude a germinar perguntas e a colher respostas. Um livro para sempre e não um livro de momento, tão mais significativo quando (sic) vivemos tempos de presentismo obsessivo e descartável.’ (Introdução, p. 17)

‘O ataque à família tradicional é uma estratégia política comum a todas as tiranias, já que a família fomenta uma relação harmoniosa e solidária entre os seus membros que se propaga na sociedade, contrariando os propósitos dos regimes totalitários. Fragilizar a família é comprometer a estabilidade social e a promoção de um bem comum.’ (Pedro Afonso, p. 22)

‘[…] a educação tem de ser realizada com base em três aspetos essenciais: amor, coerência e valores.’ (Pedro Afonso, p. 24)

‘A família é a primeira escola das virtudes sociais: onde se estabelecem relações de interdependência e solidariedade geracional. Ela também é um porto seguro em períodos de crise, de doença ou de qualquer infortúnio, oferecendo um apoio sólido, desinteressado e incondicional. Por isso é que a família deve ser valorizada e protegida pelo Estado, pois uma sociedade que não protege a família compromete o seu futuro.’ (Pedro Afonso, p. 31)

‘Do latim dignitas, dignitatis, que significa substancialmente merecimento, valor, nobreza, o termo dignidade refere-se ao valor em si que uma entidade tem, não equiparável, sem equivalente, portanto não transacionável. Este mesmo significado foi, aliás, sublinhado pelo Papa Francisco, poucos meses depois da sua eleição, ao dizer aos médicos de todo o mundo que «as coisas têm um preço e podem ser vendidas, mas as pessoas têm uma dignidade, valem mais do que as coisas e não têm preço».
Já a Comissão Teológica Internacional, em documento publicado em finais de Abril de 2019, se refere a este «valor em si, nunca transacionável, contido na noção de dignidade humana: «Num sentido muito geral, a dignidade remete para a inalienável perfeição do ser-sujeito na ordem ontológica, moral ou social. A noção emprega-se na ordem moral das relações intersubjetivas [e, portanto, também dentro da família] para designar aquilo que possui um valor em si mesmo e, portanto, não pode jamais ser tratado como se fosse um simples meio. A dignidade é assim uma propriedade inerente à pessoa enquanto tal.»’ (João Duarte Bleck, pp. 37-38)

‘Uma criança que cresce a ser «querida» vai internalizar um sentimento de pertença e de autoestima que lhe dará ferramentas para enfrentar as fases da vida que se seguem e que poderão trazer algumas provações…’ (Pureza de Mello, p. 45)

‘Compreender a importância da família na formação da identidade é, pois, uma exigência não negociável e não transmissível, que nenhum poder político pode ignorar ou corromper.’ (Manuel Monteiro, p. 53)

‘[…] a relação do Estado com as famílias deve nortear-se pelo princípio da subsidiariedade. A defesa deste princípio não implica, como é óbvio, a retirada do Estado de um dos fins que justifica a sua existência – o bem-estar social – implica apenas que o Estado saiba que pode melhor alcançar esse fim se deixar as famílias agir como famílias. Não se trata de lhes dar, bem pelo contrário, trata-se somente de lhes restituir o que nunca lhes deveria ter sido retirado: a liberdade com compromisso e com sentido de responsabilidade. É certo que esta atitude obriga a mudanças de pensamento, mas não é menos certo que sem essa mudança de pensamento todos continuaremos a caminhar para a imensa solidão das multidões.’ (Manuel Monteiro, p. 55)

‘[…] tudo isso que constitui a cultura como herança não-biológica do Homem é na família que primordialmente cada um a recebe; e é em família que consequentemente cada um explora dialogicamente essa cultura, cada um começa a participar na transformação interactiva dessa cultura interactivamente, ao passo que a sua consciência cognoscente e constituinte a vai sustentando criticamente em equação com os seus parâmetros axiológicos e éticos.’ (José Carlos Seabra Pereira, p. 63)

‘Este ataque à família não é virtual, pois as consequências estão já bem à vista: queda drástica da taxa matrimonial, que em Portugal de 1999 a 2019 caiu para metade, descida da taxa de natalidade e, mais significativo, subida espantosa da percentagem de nascimento fora do casamento, que em 1980 era 9%, em 2000 22%, mas já estava acima dos 60% em 2022. É isto, e nãos os esforços das «ideologias de género», que representa o verdadeiro descalabro da família.
A verdade, porém, é que os seres humanos, dentro de si, estão exatamente iguais ao que sempre foram; e nada daquilo que o exterior nos possa dar consegue substituir o amor, o calor, o conforto da família. A família não precisa de defesa, porque ela é nuclear, indispensável, insubstituível. Aquilo que temos de nos esforçar por defender é a sanidade e equilíbrio de tantos dos nossos que, deslumbrados pela ilusão urbana, destroem o seu coração. Quem precisa da nossa ajuda são, não as famílias, mas os pobres tontos que lutam contra e, por isso, contra si mesmos.’ (João César das Neves, p. 71)

‘Nas chamadas «culturas urbanas», sobretudo no mundo ocidental, encontramos ainda três outras atitudes que confrontam a noção de família tradicional. 1.ª – A existência e a promoção de «famílias alternativas», ou seja, por opção, sem pai ou sem mãe, ou com dois pais ou duas mães, ou ainda conjugações mais complexas. 2.ª – A noção ou convicção de que tudo o que a técnica é capaz de fazer (por exemplo, a cirurgia plástica e a engenharia genética…) se poder fazer. […] 3.ª – Tende a instalar-se a ideologia de género, como um dogma que não se pode contradizer. Porém, esta ideologia, embora seja apresentada como cura de traumas bio-psico-sociais não resolvidos, desvaloriza e rejeita a realidade biológica, propondo identidade subjetiva, emotiva, que levam a viver na mentira. Como se o sexo e o corpo fossem coisas que se tem e não um modo próprio de ser. Não temos corpo, somos corporais; não temos sexo, somos sexuados e em processo de maturação desde o pensamento à mais pequena célula onde os cromossomas se mantêm, masculinos ou femininos, apesar das maiores plásticas e de sofisticadas cirurgias e adaptações psíquica e sociais.’ (Vasco Pinto de Magalhães, pp. 76-77)

‘A família daqueles que me-amam-na-verdade é o lugar em que a identidade humana se desenvolve.‘ (Isabel Almeida e Brito, p. 88)

‘É na Família que tem origem o princípio da personalização, como evolução do ser humano para um ser pessoal. Numa sociedade em que a família perde o valor central, não há habitantes, mas, sim, gente. A Família aporta segurança, liberdade e felicidade aos seus membros, por esta ordem, porque não há felicidade sem liberdade, nem liberdade sem segurança.’ (Manuela Ramalho Eanes, p. 92)

‘«As mães são o antídoto mais forte contra o propagar-se do individualismo egoísta. “Indivíduo” quer dizer “que não se pode dividir”. As mães, ao contrário, “dividem-se”, a partir do momento que hospedam um filho para o dar à luz e fazer crescer.»’ (Papa Francisco, A família gera o mundo. Catequeses sobre a família, Lisboa, Paulus, 2016, p. 13) – Citado por Manuel Clemente, p. 100.

‘O Papa é muito sensível a este ponto e questiona: «…pergunto-me se a chamada teoria do género não é também expressão de uma frustração e resignação que visa anular a diferença sexual porque não se sabe confrontar com ela. Sim, corremos o risco de dar um passo atrás. Com efeito, a remoção da diferença é o problema, não a solução. Ao contrário, para resolver a suas problemáticas de relação, o homem e a mulher devem falar mais entre si, ouvir-se e conhecer-se mais, amar-se mais.»’ (Manuel Clemente, p. 102)

‘Perante tudo isto, o Papa acabará por conclamar: «Chegou a hora de os pais e as mães voltarem do seu exílio – porque se autoexilaram da educação dos próprios filhos – e recuperarem a sua função educativa» (p. 70).’ (Manuel Clemente, p. 103)

‘Tal como a infelicidade, a felicidade tem as suas histórias. Tal como a transgressão, a conformidade tem muitas variantes. As famílias felizes não são todas iguais nem são felizes da mesma maneira.’ (Jaime Nogueira Pinto, p. 110)

‘Reféns do subjetivismos contemporâneo, pode parecer-nos que estamos de mãos e pés atados. Mas talvez a família possa ser mais que o mero lugar em que a crise cultural aparece. Ela tem em si mesma, estou também eu seguro disso, o dinamismo de um caminho que pode proporcionar um novo grito – um novo cântico! – do humano. É que, nela, se mostra a essência do Homem e o próprio rosto de Deus.’ (Nuno Brás da Silva Martins, p. 118)

‘A evidência do tempo que passa deixa cada vez mais claro que vivemos uma época solteira de afectos, viúva de emoções e cada vez mais divorciada de compromissos.’ (Fernando Ventura, p. 121)

‘Teimamos em afirmar que a minha liberdade termina, quando começa a liberdade do outro… Será que nos damos conta, agora mais do que nunca, que é preciso ir mais longe? A ser assim, e a ser só assim, o outro é só uma barreira para a minha liberdade, alguém que de uma forma ou outra eu tenho de destruir, tenho de matar para ser livre….
Quando um dia entendermos que a nossa liberdade se pode alargar sempre que for unida à liberdade do outro, teremos entendido o mundo como um mosaico de diferentes cada um com as suas riquezas e os seus limites e, aí sim, poderemos ver nascer um mundo organizado no respeito pelo outro, que comigo é construção de uma liberdade sem fim.’ (Fernando Ventura, pp. 123-124)

‘A solidão maior não é a de não termos ninguém que goste de nós… a solidão maior é a de nós não termos ninguém a quem amar, ninguém a quem dizer todos os dias, pelo menos, eu gosto de ti.’ (Fernando Ventura, p. 125)

‘A sociedade democrática pressupõe a liberdade e a igualdade, a igualdade e a diferença e o valor inviolável da dignidade humana. Essa realidade inicia-se na família, encarada como instituição mediadora por excelência, fator de paz e de diálogo.’ (Guilherme D’Oliveira Martins, p. 130)

‘O social privado e o social público obrigam à consideração de mediadores sociais, capazes de regular os conflitos e de garantir uma função emancipadora, sendo a família reino do amor e a cidade reino do direito, devendo as duas realidades convergir e completar-se.’ (Guilherme D’Oliveira Martins, p. 133)

‘Se é verdade que todos os cristãos, e todos os homens de boa vontade, se devem sentir comprometidos com esta guerra de paz, é sobretudo à família que compete cerrar fileiras e avançar, sem medo, no caminho das reformas que se impõem. Neste sentido, hoje, mais do que nunca, há que promover o associativismo familiar, a participação cívica dos pais, bem como a intervenção política dos representantes das famílias.
A família é, verdadeiramente, a revolução que falta. […]
Nesta hora difícil para a instituição familiar, a ninguém é lícita uma passiva cumplicidade com as injustiças existentes, porque os tempos actuais são de acção e não de omissão.
Falta cumprir a família, falta cumprir Portugal!’ (Gonçalo Portocarrero de Almada, pp. 142.143)

‘Diz [a Constituição]: «Os pais têm o direito e o dever de educação dos filhos.» E acrescenta: «Incumbe ao Estado para protecção da família cooperar com os pais na educação dos filhos.» E remata: «Os pais e as mães têm direito á protecção da sociedade e do Estado na realização da sua insubstituível acção em relação aos filhos, nomeadamente quanto à sua educação.» Qual é a dúvida? Quanto à educação dos filhos, o primado é dos pais. É um direito natural constitucionalmente protegido. O Estado tem, na educação, uma função subsidiária.’ (José Ribeiro e Castro, p. 148)

‘[…] a conciliação entre a vida familiar e o trabalho constitui um factor fundamental do crescimento individual de cada colaborador assim como do sucesso das organizações.’ (Rui Diniz, p. 159)

‘Há evidência científica, como sabemos, de que a solidão mata mais do que muitas doenças; de que as redes sociais não substituem a presença, a expressão dos afetos, o olhar e o toque, embora, em tempos de pandemia, tenham ajudado a aproximar os que estavam longe; enfim… não pode ser delegada na tecnologia a substituição de quem quer que seja e a verdadeira proximidade.’ (Margarida Cordo, p. 164)

‘Os cuidadores informais, que são milhares no nosso país e a quem expressamos o nosso reconhecimento, não podem tornar-se invisíveis para os sistemas de saúde. Depende de todos nós, como sociedade, garantir que possam cumprir o seu papel com o apoio necessário e correcto. Importa que saibam e sintam que não estão sozinhos.
Não nos cansaremos de repetir que só uma sociedade que cuida dos mais frágeis e dos que deles cuidam se pode afirmar como uma sociedade avançada e moderna. Oxalá assim possa ser.’ (Isabel Galriça Neto, pp. 174-175)

‘A família é a primeira e mais básica das instituições sociais, antes de mais porque assegura a renovação das gerações. Podemos dizer que a primeira função de qualquer comunidade é assegurar a sua própria sobrevivência e renovação.’ (Pedro Vaz Patto, p. 180)

‘A família assente na riqueza da diferença e complementaridade entre as dimensões masculina e feminina, que só em conjunto compõem a riqueza integral do humano. Esta «unidade na diversidade» (a unidade a partir da mais básica e fundamental das diferenças) marca a família e, a partir dela e através da sua missão de educação das novas gerações, deve marcar toda a sociedade, que, toda ela, deve beneficiar da riqueza da diferença e complementaridade das dimensões masculina e feminina do humano.’ (Pedro Vaz Patto, p. 181)

‘Não se vence a crise demográfica sem vencer a crise da família. A rejeição do casamento como doação total e compromisso definitivo não pode deixar de traduzir-se na rejeição da natalidade. A fuga diante de escolhas definitivas, o viver projectado apenas no imediato, sem um projecto que envolva toda a vida, leva também à recusa da que é, talvez, a mais irreversível das opções: a de ter filhos.’ (Pedro Vaz Patto, p. 183)

‘Para superar a crise demográfica, importa, pois, contrariar a mentalidade que acentua o individualismo e rejeita os incómodos e sacrifícios que os filhos necessariamente acarretam. Mas há também uma mentalidade de aparente altruísmo que importa contrariar. A que se nota em expressões como esta: «Aos meus filhos quero dar o melhor, e só posso dar o melhor a um.» O melhor que se pode dar aos filhos é, porém, a possibilidade de conviver com vários irmãos, e assim beneficiar da melhor escola de socialidade (com as dificuldades inerentes a qualquer socialidade – é certo).
Saber que a vida é sempre um dom que compensa todos os sacrifícios – só com esta consciência pode ser vencida a crise de natalidade.’ (Pedro Vaz Patto, p. 184)

‘[…] Direito é Ética devem complementar-se […]’ (Raquel Brízida Castro, p. 192)

‘Não será exagero afirmar que as relações intrafamiliares nos preparam para a vivência em sociedade, tal como as disfuncionalidades intrafamiliares criam cicatrizes na identidade psíquica dos indivíduos que se projetam na sua conduta social.
A família torna-se, em suma, fonte da identidade de cada um: se a identidade biológica nos torna homens ou mulheres, a família modela os afetos, a educação e, por absorção ou antagonismo, os padrões axiológicos de convivência social.’ (Paulo Otero, p. 200)

‘Se destruir o modelo tradicional de família é a bandeira de certos grupos políticos apostados na instauração de uma nova ordem mundial de cariz totalitário, usando até o sistema educativo para doutrinar ou instrumentalizando a lei penal para criminalizar quem pensa diferente, defender esse modelo de família, denunciando as manobras atentatórias, e lutar pela sua dignificação como «núcleo natural e fundamental da sociedade» é imperativo de todos os Estados e uma vinculação de cada um de nós.
Pela salvaguarda de um tal modelo de família passa hoje a legítima defesa da nossa identidade e da nossa civilização – o próprio direito de resistência pode ser chamado a intervir, se a objeção de consciência não for suficiente.’ (Paulo Otero, p. 202)

‘Uma ciência e uma tecnologia que deixem de estar ao serviço da dignidade da pessoa humana, sem limites éticos, arrisca-se a tornar-se coveira da própria identidade humana e, por essa via, da nossa inserção no contexto da «família humana» - aqui reside, provavelmente, o maior desafio dos tempos modernos a esta nova forma de totalitarismo recriador de mitos hitlerianos.’ (Paulo Otero, p. 207)

 


**(Título retirado de Daniel Faria, Dos líquidos, Porto, Edição Fundação Manuel Leão, 2000, p. 137)

*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Ensaios de liberdade', 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'

Foto recolhida da Almedina

sábado, setembro 07, 2024

Sabes, leitor... | 9 | Marca de água do livro de Gabriele Kuby, 'A revolução sexual global'

 

Rubrica ‘Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página’** | Marca de água de livros que deixam marcas profundas
Parceria: Federação Portuguesa pela Vida e Comissão Diocesana da Cultura

Luís Manuel Pereira da Silva*

O autor e a obra
Gabriele Kuby, A revolução sexual global: destruição da liberdade em nome da liberdade, Cascais, Princípia Editora, 2019.

Gabriele Kuby revela, em ‘a revolução sexual global’, o olhar fino do sociólogo que percebe os liames com que se enlaça o tecido social. Faz jus à sua formação de base, somando-lhe o desejo vincado de respeito pela verdade, que foi buscar ao catolicismo, a que se converteu, em 1997. Nesta obra, acrescenta à autoridade do que diz, que sempre fundamenta com precisão, a companhia de destacadas figuras da cultura mundial que lhe reconhecem o mérito. A edição portuguesa reúne prefácios da edição italiana, escrito pelo Cardeal Cafarra, do filósofo alemão Robert Spaemann, e de D. Nuno Brás (específico desta edição portuguesa), sendo sabido que também o Papa Bento XVI nutria por esta oradora e escritora grande apreço, repercutido em nota recolhida nesta edição: ‘A sra Kuby é uma corajosa guerreira contra ideologias que, em última instância, resultam na destruição do Homem.’

O livro é de leitura altamente recomendável que, somada à que, nesta rubrica, já fui analisando, permite ao leitor ler em profundidade as opções que estão a ser adotadas no sentido de uma reconstrução antropológica que é necessário perceber para questionar e, concluindo-se essa oportunidade, travar e reverter.

O que está em causa não são aspetos acessórios da condição humana, mas a própria condição humana, pois falar sobre a sexualidade não é mencionar um aspeto marginal da condição de se ser Homem, mas dimensão que, pelo seu carácter sistémico, afeta o todo do ser corpóreo. Aliás, a interrogação (em espelho) fundamental que estas linhas nos deixam refere-se, precisamente, ao lugar do corpóreo na definição do que se é enquanto humano: Quanto de humano há no corpóreo e quanto de corpóreo é o humano?

 

Marcas de água (o que fica depois de se deixar o livro)

Gabriele Kuby revela-se, neste livro, como reconhece o Papa Bento XVI, uma autora corajosa. Lemo-la com o coração apertado, solidário com as ameaças que adivinhamos (Os tempos são dados a ‘cancelamentos’ – a que, no passado, se chamava ‘censura’!) impenderem, certamente, sobre quem ousa dizer que o ‘rei vai nu’. É o que Kuby faz, neste livro: denuncia que o rei vai nu e que todos estão a vê-lo, assobiando para o lado.

O título anuncia ao que vai: descreve como está a processar-se, na ordem mundial, diante de todos, uma revolução sexual, sob a capa da liberdade, mas pretendendo cercear a liberdade autêntica.

A liberdade que se defende, nesta revolução, confunde a condição livre com a indeterminação da vontade. Ser livre é, para a revolução em curso, poder fazer tudo o que se quer. O humano da revolução em andamento não é corpo (tem-no e dispõe dele como objeto), não tem limites nem condicionamentos, vive como se fosse só pensamento, sem história e sem memória, tendo abandonado a busca da verdade, por nela ver um impedimento a realizar-se. Realizar-se é, para esta revolução, fruir e sentir, num turbilhão de sucessivas sensações que se acumulam. O sujeito desta revolução não é; tem! Possui!

Gabriele Kuby não defende qualquer teoria conspiracionista, qualificativo tantas vezes utilizado pelos que desistiram de pensar diante de alguém que possa estar a propor rever-se o que vai sendo decidido. Kuby observa, lê, reúne informação. A leitura do seu livro permite constatar como se está a processar esta ‘revolução’, seja nos âmbitos internacionais, seja nos âmbitos educacionais mais restritos. A leitura deste livro ajuda a compreender como o modelo se reproduz, país a país, como se de uma cartilha se tratasse.

No âmbito internacional, Kuby recorda que a mudança de metodologia, no processo de tomada de decisões, nas conferências internacionais, em que se passou da votação e decisão por maioria (respeitando as maiorias e expondo as divisões) para o modelo de busca de consensos que nivela as divergências, sob a capa de um apaziguamento, tem, afinal, permitido veicular, sem o explicitar, conceções e ideias que, em votação aberta, seriam reprovadas e recusadas. E evidencia como, nas conferências internacionais referentes à demografia e população, se tem vindo a estruturar, em nome de bondosas intenções, toda uma agenda que se propõe isolar o indivíduo, separando-o da família que o protegeria das agressões exteriores.

Kuby não refere, apenas. Não fica na simples enunciação de teses. Ao longo dos dezasseis capítulos que compõem este livro, não é apenas defendida uma ideia, mas é desenvolvida com dados, com informação objetiva, com muitos elementos estatísticos, com muitas citações de documentação. Nela aborda, de modo frontal e muito bem argumentado e fundamentado, temas como ‘o aborto como pretenso direito humano’, a ideologia de género, as estratégias de hipersexualização do ensino, as políticas contra a natalidade, etc. O leitor sente-se profundamente respeitado. E termina incomodado… Os dados com ele partilhados geram desconcerto e perturbação, desafiando-o a posicionar-se para a reescrita do subtítulo: ‘a construção da liberdade através da autêntica liberdade’.

Sublinhe-se que esta reconstrução encontra, neste livro, muitos motivos de esperança, pois um dos capítulos enuncia sinais de esperança, referindo como políticas nacionais de alguns países e a própria singularidade da atuação cristã vêm permitindo travar a ‘destruição da liberdade em nome da liberdade’.

O sonho de uma humanidade que se constrói no respeito pela sua dignidade permanece vivo…

 

Na mesma página que o autor (citações)

‘O Papa Francisco aponta […] pois à «ideologia gender» - ou «ideologia de género» - quatro problemas essenciais: 1) Ela nega a diferença e a reciprocidade natural de homem e mulher; 2) Ela esvazia a base antropológica da família com inevitáveis efeitos sociais; 3) Ela desvincula a identidade pessoal da diversidade biológica; 4) Ela é habitualmente a imposição colonizadora de um pensamento.’ (D. Nuno Brás, Prefácio à edição portuguesa, p. 10)

‘[…] a cultura contemporânea, segundo o Papa Francisco, «exalta o individualismo narcisista, uma conceção da liberdade separada da responsabilidade pelo outro, um aumento da indiferença em relação ao bem comum» (25 de outubro de 2016).’ (D. Nuno Brás, Prefácio à edição portuguesa, p. 15)

‘[…] o Papa Francisco sublinha a necessidade de «ajudar a aceitar o seu [próprio]corpo como foi criado», com apreço pela sua feminilidade ou masculinidade, «para se poder reconhecer a si mesmo no encontro com o outro que é diferente» - o mesmo é dizer, para abandonar práticas e tendências egoístas e individualistas. Com efeito, é deste modo apenas que «é possível aceitar com alegria o dom específico do outro ou da outra, obra de Deus criador, e enriquecer-se mutuamente», «perdendo o medo à [sic] diferença». E acrescenta: «A edução sexual deve ajudar a aceitar o próprio corpo, de modo que a pessoa não pretenda “cancelar a diferença sexual, porque já não sabe confrontar-se com ela”» (AL, n.º285).’ (D. Nuno Brás, Prefácio à edição portuguesa, pp. 15-16)

‘David Hume escreveu que os factos são teimosos: teimosamente, contestam qualquer ideologia.’ (Cardeal Carlo Caffarra, Prefácio à edição italiana, p. 21)

‘A expressão gender mainstreaming («ideologia de género») não é familiar para a maioria das pessoas. Por isso, elas também desconhecem o facto de, durante anos, os governos, as autoridades europeias e uma parte dos media terem vindo a submetê-las a um programa de reeducação cujo nome elas próprias desconhecem. O que essa reeducação pretende remover das nossas cabeças é um hábito milenar da humanidade: o hábito de distinguir entre homens e mulheres. Isso implica extinguir a verdade fundamental de que a atração sexual mútua entre um homem e uma mulher constitui a base da existência atual e futura da humanidade.’ (Robert Spaemann, Prefácio, p. 23)

‘O conceito de liberdade política foi cunhado na Antiga Grécia e inicialmente significava permitir que as pessoas vivessem de acordo com os seus costumes. Tirano era quem impedia as pessoas de fazerem isso, quem queria «reeduca-las». Este livro trata dessa tirania. É um livro esclarecedor. Ilumina o que está a acontecer connosco agora, os métodos que os «reeducadores» usam e que represálias aguardam aqueles que se opõem a esse projeto. E isso inclui não só aqueles que tomam parte na discussão, mas também, como mostra este livro, todos aqueles que já defenderam a liberdade de expressar a sua opinião sobre estes assuntos numa discussão aberta.’ (Robert Spaemann, Prefácio, p. 24)

‘O conceito de normalidade é indispensável quando se trata de lidar com processos vitais. Os erros neste âmbito ameaçam a vida da humanidade. Gabriele Kuby tem a coragem de mostrar que a nossa liberdade está ameaçada por uma ideologia anti-humana. E merece os nossos agradecimentos por nos esclarecer com o seu trabalho. O maior número possível de pessoas deve ler este livro, para que possam estar cientes do que devem esperar caso não reajam.’ (Robert Spaemann, Prefácio, p. 25)

‘A premissa-base deste livro é que o fantástico dom da sexualidade precisa de ser educado, caso se destine a permitir que as pessoas tenham uma vida e relações bem-sucedidas. O oposto – a grosseira passagem à realização de todos os desejos – distorce a pessoa e a cultura.’ (Gabriele Kuby, p. 33)

‘[os] processos são globais e conduzidos por lobbies influentes em instituições internacionais. O núcleo desta revolução cultural global é o desmantelamento das normas sexuais. A supressão de limitações morais à sexualidade poderia dar a ideia de aumentar a liberdade das pessoas, mas dá lugar a indivíduos desenraizados, conduz à dissolução da estrutura social e origina caos social.’ (Gabriele Kuby, p. 38)

‘A ONU espera que a população mundial atinga os 8900 milhões até 2050 e, em seguida, comece a decrescer. Pela primeira vez, a ONU assume que a fertilidade na maioria dos países em desenvolvimento cairá para baixo de 2,1 filhos por mulher no século XXI. Espera-se que fique abaixo do nível de substituição em três de quatros países em desenvolvimento até 2050. Esta é a estimativa da Divisão de População das Nações Unidas na sua revisão de 2002 das projeções oficiais para a população mundial das Nações Unidas (ONU, 2002).’ (Gabriele Kuby, p. 46)

‘Margaret Sanger (1879-1966) desempenhou um papel decisivo no controlo da população. Assumiu como missão da sua vida a eliminação dos elementos supostamente indesejáveis da população mediante a contraceção, a esterilização e o aborto. Nos Estados Unidos, o clima era adequado para a ideologia eugénica.’ (Gabriele Kuby, p. 47)

‘Em 1921, Sanger fundou a American Birth Control League («Liga Americana para o Controlo da Natalidade»), que defendia abertamente a eugenia com propósitos racistas. No mesmo ano, Marie Stopes abria uma clínica de controlo da natalidade em Londres. Hoje, a Marie Stopes International é uma das maiores organizações abortistas do mundo.’ (Gabriele Kuby, p. 48)

‘A aplicação desta política social exigiu uma palavra nova, porque a linguagem não se limita a refletir a realidade – cria-a. A palavra mágica foi género. Tinha de se substituir a palavra sexo. Porque, antes disso, se alguém perguntasse pelo sexo, a resposta seria uma de duas: masculino ou feminino.’ (Gabriele Kuby, p. 79)

‘A pioneira da teoria de género foi Judith Butler, nascida em 1956. [Para ela] não existem «homens» nem «mulheres». O sexo é uma fantasia, algo em que só acreditamos porque nos foi repetido com frequência. O género não está associado ao sexo biológico, que não desempenha nenhum papel – apenas surge porque foi criado pela linguagem e porque as pessoas acreditam no que ouvem repetidamente. Do ponto de vista de Butler, a identidade é flexível e fluída. Não há masculino nem feminino, mas apenas um determinado desempenho, ou seja, um comportamento que pode ser alterado a qualquer momento.’ (Gabriele Kuby, p. 82)

‘No centro de tudo isto está o direito do indivíduo autónomo à livre escolha. A palavra liberdade é truncada, divorciada da verdade, da responsabilidade, do bem dos outros e do bem comum. O egoísmo faz com que o indivíduo autónomo seja facilmente seduzido por estes novos direitos.’ (Gabriele Kuby, p. 93)

‘A ONU e a União Europeia são seletivas no seu empenho em proteger certos grupos de pessoas contra a discriminação. Hoje, as minorias religiosas perseguidas não recebem nem uma pequena parte da atenção que as instituições internacionais dedicam à discriminação baseada na orientação sexual. Atualmente os cristãos são o grupo mais perseguido do mundo. Há povoações inteiras no Médio Oriente, África e Ásia que estão a ser despovoadas de cristãos, que se veem privados de condições de vida decentes; as suas igrejas são incendiadas e os fiéis são expulsos ou perseguidos, muitas vezes até à morte. Mas, em contraste com a comparativamente pequena minoria de pessoas LGBTI, não há programas na ONU nem na União Europeia para proteger os cristãos.’ (Gabriele Kuby, p. 117)

‘O êxito da revolução sexual em todo o mundo requer […] que se gere confusão até ao ponto de não-retorno, até que toda a oposição seja suprimida. A confusão é gerada de três formas:

- Através de um presunção falsa de autoridade e legitimidade;

- Mediante a utilização de termos indefinidos e ambíguos;

- Através de uma falsa pretensão de concordância com as leis internacionais existentes.’ (Gabriele Kuby, p. 117)

‘O lobby LGBTI considera que a investigação sobre as causas da homossexualidade (LGBTI) e a oferta de assistência terapêutica para os que sofrem com as suas tendências sexuais são «discriminatórias» e pretende suprimi-las, ainda que sejam as próprias pessoas afetadas a desejar aceder a essa ajuda.’ (Gabriele Kuby, p.125)

‘O que aconteceu ao sentido de responsabilidade dos líderes políticos e de todos os que dele dependem para que os temas LGBTI se tenham tornado áreas políticas-chave? Não teremos outros problemas, tais como o inverno demográfico, a morte de milhões e bebés por nascer, a crise da imigração, o colapso das famílias, com o seu alto custo para a felicidade, a saúde e a educação da próxima geração, o desemprego e a instabilidade económica global? Por que razão tantos políticos deixaram de ter o bem comum como nobre motivação para a sua procura do poder?’ (Gabriele Kuby, p. 149)

‘[…] a perspetiva de género vai muito para além da promoção da igualdade entre homens e mulheres. Ela implica uma fabricação da igualdade através da «desconstrução» da ordem hierárquica binária de género para chegar a uma diversidade de géneros com igual valor e iguais direitos.

O programa do género inclui aspetos como:

- plena igualdade (equivalência) entre homem e mulher;

- desconstrução das identidades masculina e feminina;

- luta contra a normatividade heterossexual, o que significa providenciar plena igualdade legal e social – ou, na prática, privilegiar todos os modos de vida não heterossexuais;

- aborto como «direito humano», apresentado como direito reprodutivo;

- sexualização das crianças e dos adolescentes através da educação sexual como disciplina obrigatória;

- privação material e empobrecimento das famílias.’ ’ (Gabriele Kuby, p. 152)

‘Quem acredita que existe um limite para a derrocada dos valores morais deverá tomar nota da última decisão da Deutscher Ethikrat (Comissão de Ética Alemã).

A 24 de setembro de 2014, o conselho decidiu que a lei que criminalizava o incesto deveria ser revogada e o incesto consensual (relações sexuais entre irmãos a partir dos 14 anos) deveria ser permitido se eles viverem longe da família.’ ’ (Gabriele Kuby, p. 158)

‘Para onde quer que se olhe – política, meios de comunicação, fundações, tribunais, empresas, escolas, infantários – a ideologia de género é o caminho para o progresso pós-moderno. É a ideologia dominante à qual ninguém se pode opor sem ser rejeitado e difamado. Ninguém se atreve a submeter a ideologia de género ao «teste do stress» para determinar as consequências e adequação ao futuro. Em vez disso, todas as leis são examinadas em relação à medida em que contribuem para a incorporação da perspetiva ideológica de género. Um documento do Senado de Berlim declara que «a introdução é feita de cima para baixo, ou seja, o chefe político de uma organização compromete-se com a implementação da perspetiva de género e decide como os processos devem ser orientados e avaliados».’ ’ (Gabriele Kuby, p. 158)

‘O que o materialismo dialético foi outrora para as universidades sob ditaduras comunistas é hoje a ideologia de género para as universidades ocidentais, onde a próxima geração de estudantes está a ser preparada para assumir posições de liderança na sociedade.’ ’ (Gabriele Kuby, p. 160)

‘«A perversão da relação com a realidade» e a «perversão do caráter comunicativo» tornam a palavra inapropriada para o diálogo. Neste processo, podem ser distinguidas quatro características:

- Termos que exprimem valores tradicionais tornam-se suspeitos e são descartados. Por exemplo: «castidade»;

- Termos com conotações positivas recebem um novo conteúdo e são depois explorados. Exemplo: «diversidade»;

- São inventados novos termos para transmitir novas ideologias. Exemplo: «poliamor»;

- São introduzidos novos termos para difamar os opositores. Exemplo: «homofobia».’ (Gabriele Kuby, p. 172)

Discrimen é a palavra latina para «distinção» ou «diferença». A pessoa dotada de livre-arbítrio deve distinguir entre o certo e o errado, o bem e o mal, para lidar com a sua liberdade de forma a ter sucesso na sua própria vida e não causar danos aos outros seres humanos. Para a pessoa que sabe que tem de responder perante Deus, esta distinção entre o bem e o mal é essencial para a sua salvação eterna. Se lhe for proibido fazer esta distinção – e se lhe for proibido passar esse critério para que a geração seguinte possa fazê-lo também -, então a liberdade religiosa será de facto banida. Serão destruídas as raízes da cultura cristã.

Distinguir entre o bem e o mal não é discriminar as pessoas. Cada pessoa, independentemente da sua orientação sexual, é igual em dignidade, e cada pessoa goza de proteção legal contra a difamação, a perseguição e a exclusão. Julgar o comportamento de uma pessoa, no entanto, não é uma ofensa à sua dignidade, mas torna possível a coexistência, a qual não pode acontecer sem princípios morais.’ (Gabriele Kuby, p. 178)

‘Diferentes tarefas e papéis entre homens e mulheres são denegridos como «estereótipos» que devem ser eliminados pelas autoridades políticas. A ideologia das diferenças de género «socialmente construídas» provou ser resistente aos resultados da investigação em biologia, medicina, sociologia, psicologia, neurociências, que descrevem, cada vez com maior precisão, as diferenças entre homens e mulheres e as causas destas diferenças.’ (Gabriele Kuby, p. 179)

‘O termo «homofobia» é um neologismo cunhado no final dos anos 60 pelo psicanalista e ativista homossexual George Weinberg, para fazer com que as pessoas que rejeitam a homossexualidade parecessem doentes mentais. Uma fobia é um medo neurótico que é tratado terapeuticamente, tal como o medo de aranhas (aracnofobia), de multidões (agorafobia), de espaços fechados (claustrofobia), do número 13 (triscaidecafobia), etc. Com a sua perspicaz perceção de psicanalista, Weinberg pretendia demonstrar que as pessoas que sentem repulsa pela homossexualidade, na realidade, apenas receiam as próprias tendências homossexuais. A profunda rejeição do estilo de vida homossexual por motivos antropológicos, psicológicos, médicos, sociais ou religiosos foi condenada pelo termo geral «homofobia» e por isso classificada como um medo neurótico. Escusado será dizer que insultar, ou até utilizar formas violentas de rejeição, são atitudes estigmatizadas nas interações diárias, inclusive, claro está, contra pessoas com tendências homossexuais.

Em relação aos homossexuais, a Igreja Católica tem de se opor à dissolução da antropologia cristã e à moral sexual que daí derivou, se quiser conservar o seu depósito de fé. O Catecismo da Igreja Católica (CIC) diz aos crentes que «devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza. Evitar-se-á, em relação a eles, qualquer sinal de discriminação injusta» (CIC 2358). As palavras de Santo Agostinho a este respeito tornaram-se proverbiais: «Ama o pecador, detesta o pecado».’ (Gabriele Kuby, p. 180)

‘Uma investigação pública em larga escala, a National Health and Social Life Survey, divulgada pelo Center for Disease Control and Prevention em julho de 2014, descobriu que, ao contrário do que comummente se pensa, apenas 1,6% da população se identifica como homossexual, enquanto 96,6% dizem ser heterossexuais. Isto está em nítido contraste com uma pesquisa do Gallup de 2011. Nela se dizia que 52% dos americanos acreditavam que 25% da população era gay ou lésbica. Apenas 4% das pessoas pesquisadas na época acreditavam que a população homossexual era inferior a 5%. O fosso entre a realidade e a opinião pública prova quão incrivelmente bem-sucedida é a campanha de desinformação e propaganda do movimento LGBTI, apoiada pela maioria dos media.’ (Gabriele Kuby, p. 217)

‘[…] Os grupos de interesse LGBTI e os partidos alinhados com eles tentam culpar a «discriminação homofóbica» pelos elevados riscos do estilho de vida homossexual. Mas isso é contrariado pelo facto de estes números serem semelhantes em todos os países ocidentais, independentemente de quão liberal e tolerante seja cada um deles. Um estudo recente realizado na Holanda, um dos países mais liberais do mundo, mostra que as mulheres homossexuais apresentam uma maior taxa de abuso de substâncias e que os homens homossexuais revelam uma maior taxa de perturbações de ansiedade.’ (Gabriele Kuby, p. 225)

‘Numa altura em que o casamento entre um homem e uma mulher é cada vez menos associado ao conceito de fundação da família, e cada vez mais filhos são criados por mães solteiras, está em curso a batalha pela plena igualdade jurídica entre uniões entre pessoas do mesmo sexo e o casamento. Os libertadores sexuais do final da década de 1960 consideraram o casamento sufocante e antiquado, uma relíquia da possessividade burguesa. Isso revela uma contradição evidente: o mesmo grupo social que luta para enfraquecer a instituição do casamento está agora a lutar para que o casamento seja estendido às relações entre pessoas do mesmo sexo. E isso é proclamado como um «direito humano». A batalha cultural imposta ao mundo pelos poderes políticos ocidentais está em curso em todas as nações e a legislação está a mudar rapidamente.’ (Gabriele Kuby, p. 233)

‘[…] o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem decidiu em dois julgamentos (Schalk & Kopf vs. Áustria, 2010 e Chapin e Charpentier vs. France, 2016) que não há nenhum direito internacional vinculativo ao «casamento» de pessoas do mesmo sexo. Isso é regulado pela legislação nacional dos Estados-membros.’ (Gabriele Kuby, p. 239)

‘Uma investigação efetuada na [sic] Inglaterra com 1600 crianças menores de 10 anos mostra como as crianças sofrem com os divórcios dos pais. Quando lhes perguntaram o que mudariam se fossem um rei ou uma rainha e pudessem promulgar novas leis, a resposta mais frequente foi: «Proibia o divórcio».’ (Gabriele Kuby, p. 242)

‘Até que ponto é humana uma sociedade que premeia o «direito ao filho» nos adultos, mas debilita o direito que o filho tem a ter um pai e uma mãe que o criaram e são responsáveis por ele? Muitos estudos demonstraram que uma criança cresce melhor com os seus pais, sempre que não sejam excessivamente negligentes nos seus deveres.

Quando o Estado legitima a adoção por parte de pares do mesmo sexo, situa os pretensos direitos de uma minoria de adultos acima do bem-estar da criança. Isto contradiz toda a tradição jurídica do Ocidente. Nem sequer os pais biológicos são «donos» dos seus filhos, mas meros «depositários» da tarefa de lhes providenciar as melhores condições possíveis para que alcancem a sua singular individualidade.’ (Gabriele Kuby, p. 246)

‘Durante muito tempo houve quem pensasse que a batalha pelo «casamento» entre pessoas do mesmo sexo só tinha a ver com os direitos da minoria homossexual, mas isso é uma ilusão. Nada é suficiente para os agentes da revolução sexual, porque eles não conseguem encontrar paz em si próprios. Desde que o Supremo Tribunal dos Estados Unidos decidiu legalizar o «casamento» do mesmo sexo, em junho de 2015, o «tsunami transgénero» foi posto em marcha pela Administração Obama. A mensagem é: pode-se mudar de sexo voluntariamente, basta afirmar a sua vontade. Sem diagnóstico médico, sem medidas terapêuticas ou médicas, sem cirurgias.’ (Gabriele Kuby, p. 249)

‘A grande maioria dos jovens quer famílias. Mas o Estado, todo o sistema educativo e quase todas as organizações que têm alguma coisa a ver com a juventude deixaram de ensinar às crianças como amar e se relacionar.’ (Gabriele Kuby, p. 298)

‘O maior agente global no campo do aborto e da desregulação da sexualidade é a International Planned Parenthood Federation (IPPF), que tem organizações subsidiárias em 180 países. No seu relatório anual de 2010, a IPPF orgulha-se de:

- ter evitado 22 milhões de gravidezes;

- ter disponibilizado 131 milhões de serviços contracetivos;

- ter prestado 25 milhões de serviços relacionados com HIV;

- ter efetuado 38 milhões de CYP (distribuição de contracetivos);

- ter distribuído 621 milhões de preservativos;

- ter prestado 80 milhões de serviços a jovens.

A IPPF não só realiza milhões de abortos em todo o mundo, mas também vende partes intactas de corpos fetais obtidos através do procedimento ilegal do aborto por nascimento parcial. Isto foi revelado através de uma série de vídeos secretos divulgados a partir de julho de 2015.

A IPPF alega, enganadoramente, no seu Relatório Anual de Desempenho de 2007-2008, que o acesso ao aborto legal seguro é um imperativo de saúde pública e do respeito pelos direitos humanos. Mas isso é uma mentira crassa, Nenhum documento internacional vinculativo da ONU ou da EU reconhece o aborto como parte da saúde sexual e reprodutiva (SPH), e muito menos como um direito humano. O relatório anula da IPPF de 2010 diz que a União Europeia é o maior doador para o desenvolvimento internacional e que tem historicamente defendido a saúde e os direitos sexuais e reprodutivos. A Rede Europeia da IPPF lidera os esforços para garantir que a saúde sexual e reprodutiva permaneça no centro da política de desenvolvimento da EU.

Como revela um relatório de março de 2012 da European Dignity Watch, os programas de aborto que a IPPF e a Marie Stopes International conduzem nos países em desenvolvimento são financiados pela EU, apensar de não haver base legal para isso. O principal grupo-alvo da IPPF são os adolescentes: «Nos últimos cinco anos, a IPPF passou de uma organização que trabalha com jovens para uma que tem o seu enfoque na juventude e onde a participação dos jovens é um princípio para a prestação de serviços de saúde sexual e reprodutiva de qualidade».’

Para a IPPF, os direitos sexuais dos jovens não ser limitados pela lei, nem pelas normas sociais ou religiosas. O relatório dos cinco anos diz, orgulhosamente, que a IPPF fez 238 alterações legais em 119 países a favor dos direitos reprodutivos e sexuais, dos quais 52 envolvem a liberalização do aborto. A IPPF forneceu 3,9 milhões de serviços relacionados com o aborto, 41,7% deles a jovens, o que corresponde a um aumento de 22%.

A Pro Familia, a sucursal alemã da International Planned Parenthood Federation (IPPF), implementa a sua estratégia a nível nacional e local. A Planned Parenthood foi fundada em 1942 por Margaret Sanger nos Estados Unidos e a Pro Familia em 1952 por Hans Ludwig Friedrich Harmsen. Como já tivemos ocasião de referir, Sanger e Harmsen viam-se como eugenistas que queriam reduzir o «património genético inferior na população» com o objetivo de promover um património genético «digno» para apoio ao Estado. Harmsen foi fundador e presidente da Pro Familia até 1962 e seu presidente emérito até 1984. Nunca se distanciou da sua posição sobre a eugenia. De 1973 a 1983, o marxista Jürgen Heinrichs foi presidente da associação. O nome Pro Famili sugere o oposto do que a organização, patrocinada pelo Estado, na realidade promove.’ (Gabriele Kuby, p. 301-303)

‘[…] Quase todas as organizações nacionais e internacionais que têm algo a ver com crianças ou jovens investem o seu poder e os seus recursos na sexualização das crianças desde o nascimento e no afastamento dos limites morais à atividade sexual. As organizações juvenis de movimentos cristãos são uma exceção, mas, infelizmente, muitas delas estão também a ser engolidas pela perspetiva dominante. A mensagem é que a sexualidade serve apenas para o prazer. Os efeitos colaterais indesejáveis, como a geração de uma nova vida humana, devem ser evitados pela contraceção ou eliminados pelo aborto. Os danos psicológicos causados por relações desfeitas e o perigo das DST são banalizados e ignorados.’ (Gabriele Kuby, p. 304)

‘Um estudo recente da Universidade de Harvard mostra que a incerteza acerca da identidade de género em crianças com menos de 11 anos aumenta a probabilidade de abuso sexual, físico e psicológico e de transtornos de stress traumático duradouros. A desconstrução da identidade de género através da «educação diversificada» e da dissolução dos «estereótipos de género» é uma experimentação irresponsável em crianças indefesas.’ (Gabriele Kuby, p. 330)

‘[…] quem beneficia com a sexualização das crianças e adolescentes e com a sua educação para a «diversidade»? Vários intervenientes vêm à cabeça:

- Aqueles que querem produzir pessoas desenraizadas, que possam ser manipuladas para fins estratégicos globais;

- Aqueles que têm interesse em reduzir o crescimento da população global sem mudar a distribuição global da riqueza;

- Aqueles que têm interesse em ver as nações ocidentais afundarem-se num «inverno demográfico»;

- Aqueles que têm interessem eliminar a religião, especialmente o Cristianismo;

- Aqueles que sofrem sob a «normatividade heterossexual» e desejam obter reconhecimento por meio da sua dissolução.’ (Gabriele Kuby, p. 335-336)

‘A propaganda mediática e política cria a impressão de que as famílias constituídas por pais casados e seus filhos são uma estrutura social desgastada do passado. Se assim for, então os números do Eurostat de 2008 sobre estilos de vida na União Europeia […] são uma surpresa. Segundo o Eurostat, em 2008, em toda a EU, 74% de todas as crianças com menos de 18 anos viviam com pais casados, 11,5% com dois pais em união estável e apenas 13,6% com apenas um dos pais. Estes números mostram quão robusta é a família, como base natural da sociedade humana. Apesar de décadas de políticas destrutivas da família, três quartos das crianças na Europa ainda vivem com pais casados.

Os jovens anseiam pelo verdadeiro amor e pela fidelidade. Mais de três quartos dos adolescentes acreditam que «é preciso uma família para se ser verdadeiramente feliz».’ [Nota de rodapé: Como Frank Schirrmacher demonstrou, nas crises que ameaçam a vida, as hipóteses de sobrevivência das famílias são maiores do que as dos indivíduos, mesmo se estes forem homens jovens cheios de vitalidade. Ver Frank Schirrmacher, Minimum, Munique, Karl Blessing Verlag, 2006.]’ (Gabriele Kuby, p. 337)

‘A autora Gabriele Kuby e outras quatro mulheres, todas conservadoras e líderes de opinião na Alemanha, foram retratadas como «zombies saídas da tumba em 1945» numa peça de teatro chamada «FEAR» da autoria de Folk Rixe, no teatro alemão Schaubühne. Para destruir esses «zombies» era necessário «dar-lhes um tiro na cabeça». As fotografias das quatros mulheres eram mutiladas pelos atores em palco. Citações de Gabriele Kuby foram manipuladas, rearranjadas e emitidas com a sua voz para a retratar como fascista. Gabriele Kuby moveu ações legais e perdeu na primeira instância com o argumento de que se tratava de «liberdade artística».’ (Gabriele Kuby, p. 360)


**(Título retirado de Daniel Faria, Dos líquidos, Porto, Edição Fundação Manuel Leão, 2000, p. 137)

*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Ensaios de liberdade', 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'

 

terça-feira, outubro 17, 2023

Conferência | A busca da construção da identidade perante os desafios de uma ideologia que abandona na solidão. Ideologia de género: uma cultura que pede salvação!

 

A busca da construção da identidade perante os desafios de uma ideologia que abandona na solidão.

Ideologia de género: uma cultura que pede salvação!

 

 (Conferência proferida no Simpósio 'Lugares da afetividade e da sexualidade na configuração da identidade pessoal | 28 e 29 de janeiro de 2023 - Coimbra | Publicada pela UCE)

Saudações (também eu sou, - porque fui, durante 11 anos – escuteiro.)

Saúdo o CNE, uma grandíssima escola de formação. Nele, descobri que, pelo jogo, podemos aprender porque o jogo é metáfora e símbolo que une realidade e imaginação. Muito do que sou, como professor, deve às vivências que fiz e à experiência que guardei.

 

Nota introdutória

Deram-me 5 minutos.

Como é um tempo muito curto, sugiro que, quando eu tiver cumprido os 5 minutos, todos parem os respetivos relógios. Quando eu acabar, voltem a olhar para o relógio. Repararão que só passaram os tais 5 minutos…

Se virdes bem, eu podia acabar a minha intervenção aqui…

O que acabei de vos sugerir utiliza a matriz da ideologia de género que não se confronta com a realidade e não a assume, com os seus limites, mas muda, apenas, a perceção sobre ela, convencendo-se de que essa perceção é a própria realidade.

 

A questão

É impossível analisar, criticamente, a enorme pressão exercida sobre os movimentos e organizações cristãs para que reconfigurem o seu discurso e práticas em matérias de leitura da sexualidade sem atender ao paradigma cultural emergente, habitualmente designado como ‘ideologia de género’. Uma ideologia pressionante, convincente e que exclui quem a ela não adere, retirando atitude crítica e distância racional que sempre se exige, em tempos de vertigem. O próprio Papa Francisco nos recorda as características desta ideologia, alertando para os riscos da promoção de projetos educativos que cedam a esta pressão[1].

A consciência desta pressão e desta ideologia não pode, porém, apagar o dever amar e acolher cada pessoa, desafio com que se depara cada cristão, no seu quotidiano, decorrendo do reconhecimento de se nascer do Amor que é o próprio Deus.

A articulação entre a leitura ético-moral proposta pela ideologia de género e a antropologia e ética cristãs é, por isso, exigente e difícil, sendo que o problema se adensa quando nos perguntamos sobre a atuação pastoral diante de tudo isto.

 

Metodologia que seguirei

Pois bem, consciente desta dificuldade, proponho-me enfrentá-la.

Para isso, seguirei duas linhas:

- Uma primeira incidirá sobre os desafios que coloca a ideologia de género à visão cristã.

- Uma segunda abrirá linhas e critérios para uma atuação pastoral.

Considero que, para abordar estas duas linhas, teremos de nos confrontar com interrogações para as quais procurarei esboçar alguma linha de resposta:

- acreditamos, verdadeiramente, na liberdade humana perante os determinismos? Quanto há de liberdade numa orientação sexual e nos atos realizados no contexto dessa orientação?

- acreditamos, verdadeiramente, no perdão e na capacidade da conversão?

- acreditamos, verdadeiramente, que o cristianismo tem uma proposta de salvação para todos os homens e para o homem todo?

- acreditamos, verdadeiramente, no amor como a força mais radical da realidade e como a sua fonte?

- Mas, em que liberdade e em que amor acreditamos? E o que significa ‘salvar’ os homens todos e todo o homem? E que caminho e papel deve ter cada Homem em direção à salvação? Está fora desta equação sobre a salvação o que fazemos enquanto seres sexuados? A nossa sexualidade não participa da história da salvação? É terreno neutro?

Não irei responder a todas as perguntas, mas a sua enunciação já abre caminhos de discussão…

 (Esta conferência está publicada, integralmente, em Américo PEREIRA (coord.), Lugares de afetividade e de sexualidade na configuração da identidade pessoal, Lisboa, UCP  Editora, 2023. )

quinta-feira, julho 06, 2023

Ah, quanto se espera do cristianismo! | A encarnação diante dos novos gnosticismos

 (Artigo publicado na Agência Ecclesia - 3 de julho de 2023)

Nas décadas que antecederam o Concílio do Vaticano II, foi-se consolidando uma convicção (que tivera no movimento litúrgico já notória expressão) de que o encontro fecundo entre a Igreja e a sociedade (e o mundo) não poderia fazer-se sem um retorno às fontes. É, aliás, nesse dinamismo que é criada, pela mão de Daniélou, Lubac e Mondésert, em Lyon, em 1943, a célebre coleção ‘Sources Chrétiennes’.

Este modus cogitandi (modo de pensar), dada a sua fecundidade, deve ser retomado, vez após vez, em particular, em tempos de maior dificuldade em discernir onde se encontra o equilíbrio entre a fidelidade ao que deve propor o cristianismo e a fidelidade ao Homem a quem se dirige. Pela sua natureza tensional, este método comporta um equilíbrio entre dois pontos que asseguram que a tensão não é perdida, sendo que a retirada de um dos pontos quebra a mesma tensão, com custos, seja para a fidelidade ao Homem, seja para a fidelidade ao cristianismo.

Vivemos um desses tempos…

Exige-se, por isso, o regresso às fontes, não para nelas permanecer (perder-se-ia a tensão com prejuízo para a fidelidade ao Homem e ao seu tempo, com consequente infidelidade ao próprio cristianismo que se define como religião de salvação da Humanidade…), mas para que o cristianismo seja significativo, permanecendo fiel a si e sendo-o, também, ao Humano para quem é anúncio de salvação.

Regressemos, por isso, às fontes…

Os nossos tempos trazem desafios ‘generosos’ ao cristianismo, perante os quais a tentação da desistência se agiganta. O regresso às fontes permite, porém, constatar que, feitas as devidas adequações, os desafios recuperam encontros já havidos, no tempo das fontes.

Veja-se que o primeiro desafio do próprio cristianismo foi o do confronto entre a sua emergência localizada, precisamente situada na quase incógnita Palestina, e o cosmopolitismo do helenismo com que se encontra, de forma particularmente exigente, São Paulo. Logo nesse encontro se define com precisão a necessidade do estabelecimento de critérios de fidelidade: distinguir o essencial do acidental é um desses critérios estruturantes. Eram acidentais os rituais herdados do judaísmo; era fundamental a afirmação da encarnação. E veja-se como este elemento fundamental (a encarnação) não se afigurava como marca de fácil conformação ao pensamento vigente. Pelo contrário.

Se estudarmos, com detenção, esses primeiros tempos, percebemos que o primeiro grande embate do cristianismo que – defendo-o desde há muito – se retoma, hoje, no transumanismo e na ideologia de género, é, precisamente, o que resulta dessa afirmação: Deus encarnou!

O helenismo trazia consigo um modo de pensar de influência platónica que veio a seduzir as primeiras comunidades cristãs, num amplo movimento designado como gnosticismo. No dizer de Roque Frangiotti, no seu livro ‘história das heresias’, “os gnósticos […] caracterizam-se pelo menosprezo da matéria, da carne e superestimam a alma-espírito. Para eles, a matéria é má em si mesma, incapaz e desnecessária para a salvação. Mais ainda: a matéria é radicalmente oposta ao espírito. São realidades contraditórias. Por isso, Deus, o espírito perfeitíssimo, transcendente, imutável e impassível, não pode, por nenhuma razão, assumir qualquer parcela de matéria.” (Roque Frangiotti, p. 27)

Não será difícil constatar que com esta mentalidade se confrontou o próprio S. João que, nas suas cartas, escritas em finais do primeiro século ou início do segundo, alerta para a centralidade da encarnação.

Afirma, em 1jo 1,1 (sigo a recente tradução que vem sendo disponibilizada pela Conferência Episcopal): “O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplámos e as nossas mãos tocaram, no que respeita à Palavra da vida: é isso que vos anunciamos. Pois a vida manifestou-se, nós vimo-la e disso damos testemunho: anunciamos-vos a vida eterna, que estava junto do Pai e que se manifestou a nós.”

Assim também em 1jo 4,1-31: “Amados meus, não acrediteis em todos os espíritos, mas examinai-os para ver se são de Deus, porque no mundo surgiram muitos falsos profetas. É nisto que reconhecereis o Espírito de Deus: todo o espírito que confessa Jesus Cristo, que veio na carne, é de Deus; e todo o espírito que não confessa Jesus não é de Deus. Esse é o espírito do anticristo, aquele que ouvistes dizer que estava para vir; pois bem, agora já está no mundo.

E, ainda, em 2jo7: “É que surgiram no mundo muitos impostores, que não confessam que Jesus Cristo veio na carne. É esse o impostor e o anticristo!”

A uma leitura menos fina, poderá parecer que o gnosticismo estará longe do que hoje são os desafios do cristianismo. Na minha perspetiva, esta conclusão será precipitada, pois uma das consequências evidentes do gnosticismo foi a relativização da corporeidade, dispensando, por isso, o corpo da sua natureza de entidade intrinsecamente moralizável. O corpo, para o gnosticismo, não é parte da condição humana, escapa-se-lhe e é, por isso, exterior à própria economia salvífica. Só o espiritual se salvará. E, logo, o corpo escapa à moral e à ética, podendo-se fazer ‘com’ e ‘nele’ o que bem se entende. O Homem que somos, na mentalidade de matriz gnóstica, nada tem a ver com o corpo, que lhe é exterior e alheio.

Veja-se como não estamos longe de uma matriz vigente que exclui o corpo do ser que somos, transumanizando-o e reduzindo o Homem ao pensamento que nele apenas ‘reside’. (Como se não pensássemos tudo o que vivemos, isto é, como se não fosse o nosso pensamento a repercussão do que vivemos enquanto corpo que somos!... Pelo contrário, o que pensamos é, na linha de Merleau-Ponty, “corpo vivido”….).

E como respondeu, no tempo das fontes, o cristianismo?

Reconheceu, com Santo Ireneu, no seu Adversus Hereses (livro IV, 11,2) que ‘Deus faz, o homem é feito’, sublinhando a progressividade e carácter desenvolvimental do ser humano, condição inerente à natureza de ser corpóreo, sublinhando que “a glória de Deus é o homem vivente” (Livro IV, 20,7 – sigo tradução não editada do saudoso Pe. Doutor Franclim Pacheco). Não, parte do Homem, mas, sim, a totalidade do Homem.

Uma análise detida das implicações desta ideologia diante da qual se espera o anúncio da encarnação, por parte do cristianismo, permitir-nos-á verificar que, sem a afirmação de que o corpo faz transparecer a pessoa que somos, estaremos diante de uma antropologia solipsista, em que o que aparece, diante dos outros, é opaco e indecifrável. É, por isso, necessário retomar a centralidade do princípio ‘encarnação’ e reafirmar, aos nossos tempos, que quem somos se vislumbra, ainda que provisoriamente e sempre como mistério a descobrir, mais e mais, no corpo que somos.

O regresso às fontes permite-nos recuperar a esperança de que estes não são os últimos tempos e de que muito se espera do cristianismo: que salve o Homem de se fechar em si mesmo, tentação tão densamente descrita no relato do paraíso. O Adão que quer fechar-se e ser autossuficiente continua, dia após dia, a ouvir os passos, no jardim, e a esconder-se por vergonha… Ou talvez já nem vergonha tenha, mas continuará, certamente, a sentir o som dos passos. E é preciso não ter medo de percorrer o caminho do Éden e dar a ouvir os passos que nos dizem que estamos nus.

terça-feira, agosto 27, 2019

O mito da mudança sempre ditosa



A sociedade portuguesa vive sob o peso de um mito que nos tem levado a adotar medidas que a história demonstrará não serem acertadas sendo que, nas próprias circunstâncias, já havia elementos para concluir que o caminho não era por ali. O peso desse mito é, porém, tão opressivo que a ousadia de alertar para a sua influência é logo arredada, sob a suspeita de se estar perante mais um indivíduo padecente de uma qualquer teoria da conspiração.
Mas o mito existe e é eficaz.
Esse mito pode definir-se como a «convicção da permanente bondade de toda a mudança». Aliás, é frequente ouvir-se que ‘mudar é sempre bom’.
Uma certa forma de relatar a história parece dar razão aos que defendem que esse não é um mito, mas uma constatação a aceitar sem reticências. A força impressiva do relato de como se foram conquistando terrenos ao inculto território do desrespeito dos direitos humanos parece somar razões a essa convicção.
Há, porém, que ler com atenção a história. Nem toda a mudança foi sempre no sentido da humanização e da realização máxima das possibilidades da humanidade. Um dos casos mais exemplares de como o caminho nem sempre foi de conquista e de que o ‘progresso’ nem sempre significou crescimento da humanidade é o que se esconde por detrás das decisões políticas eugénicas, nos inícios do século XX, em nome da ciência e da aplicação das possibilidades que as descobertas da genética colocavam na mão dos decisores políticos. Essa é uma história poucas vezes contada, mas que importa fazer emergir à memória viva para que, antes das mudanças, se tenha a coragem de formular a pergunta sobre se crescemos como humanos ao tomar determinada decisão.
O eugenismo não foi, contrariamente ao que se pretende fazer crer, um exclusivo do nazismo. A prática infame deste regime totalitário foi sendo ‘preparada’ por todo o mundo através de um real efeito de «rampa deslizante» que começa com o inebriamento perante as conquistas que a descoberta da seleção natural (em meados do século XIX) proporcionava quanto ao conhecimento sobre como funcionava a evolução das espécies até às descobertas de como manipulando a genética se poderia melhorar determinada espécie. Perante o fascínio legítimo que a ciência ia proporcionando, logo foram emergindo cenários de oportunidade quanto à sua aplicação à humanidade. E o que poderia haver de melhor do que tornar a humanidade perfeita, num momento em que, afinal, já podíamos dispor de meios técnicos para isso? Este tinha sido o momento certo para constatar o que a ética personalista recorda, permanentemente: a da não coincidência entre ‘poder fazer’ e a ‘legitimidade ética para o fazer’ (‘dever fazer’). Quando se perde esta noção, tudo se torna resvaladiço.
Somou-se a isto um outro dado. A relativização do conceito de dignidade.
É curioso constatar, com André Pichot, no seu livro ‘o eugenismo: geneticistas apanhados pela filantropia’, que o eugenismo quase não se manifestou, neste período de final do século XIX até meados do século XX, em países católicos, dado o reconhecimento de que a dignidade humana confere caráter de inviolabilidade a todos e cada ser humano. Nos países anglo-saxónicos, de influência liberal mais acentuada, o eugenismo ganhou terreno significativo, como é particularmente contado por Matt Ridley, no seu livro ‘Genoma: autobiografia de uma espécie em 23 capítulos’
Como conta este autor, no referido livro, que replico em ‘Bem-nascido… Mal-nascido…’ (livro editado pela Tempo Novo), «em 1901, o Estado do Indiana, nos Estados Unidos da América, aprovou a primeira lei de esterilização obrigatória dos deficientes mentais, criminosos e violadores. Entre 1910 e 1935, trinta Estados da União apresentavam, no seu quadro jurídico, leis de esterilização obrigatória. A lei da restrição da imigração (Immigration Restriction Act) de 1924 limitava a entrada nos Estados Unidos de sujeitos provenientes do Leste ou do Sul da Europa por serem considerados «biologicamente inferiores», enquanto favorecia a admissão de pessoas provenientes do Norte e Oeste da Europa. Não se confinando a este período, houve Estados que mantiveram leis e políticas de atuação eugénica até períodos muito próximos de nós. Destaquemos o caso do Estado da Virgínia que manteve, até à década de 70 do século XX, práticas de esterilização compulsiva de doentes mentais, contribuindo, deste modo, para as cerca de 100000 pessoas que terão sido esterilizadas, nos Estados Unidos da América, invocando-se razões como as que invocara o Juiz Oliver Wendell Holmes, no processo «Buck versus Bell», de que resultou a esterilização de Carrie, que vivia com a respetiva progenitora e era, então, mãe de uma menina de 7 meses: «três gerações de imbecis são suficientes». […] «A América, o bastião da liberdade individual, esterilizou mais de 100000 pessoas por serem débeis mentais com base em mais de 30 leis estaduais e federais aprovadas entre 1910 e 1935. Mas, embora a América fosse a pioneira, seguiram-se outros países. A Suécia esterilizou 60000. O Canadá, a Noruega, a Finlândia, a Estónia e a Islândia colocaram leis de esterilização coerciva nos seus livros e utilizaram-nas.» (Cfr. Ridley, Matt – Genoma: autobiografia de uma espécie em 23 capítulos. Lisboa: Gradiva, 2001, 300).
Esta vertigem eugenística influenciou grande parte do mundo de então, «não lhe resistindo países como o Canadá, a Noruega, a Finlândia, a Estónia, a Islândia ou a Suécia, para além, naturalmente, da Alemanha Nazi que, em apenas dezoito meses, gaseou 70000 doentes psiquiátricos entretanto já esterilizados. (Cfr. estas e outras informações em Ridley, Matt – Genoma: autobiografia de uma espécie em 23 capítulos. Lisboa: Gradiva, 2001, 300-301, e em Vidal, Marciano – Moral de Actitudes, II-I parte: Moral de la persona y bioetica teologica. Madrid: Editorial Perpétuo Socorro, 19918, pp.698-704).
Esta é uma história negra que deveria fazer-nos pensar. Mudar nem sempre é bom! Particularmente quando a mudança belisca a intocabilidade da dignidade humana.
Também a forma como os Estados ocidentais adotaram, de 1973 para cá, leis pró-abortistas é outra narrativa que a História demonstrará ser uma réplica do que já ocorrera, no início do século XX com as leis eugénicas. Mas a memória é curta.
O mito de que quem se opõe ou obriga a pensar perante estas mudanças é ‘Velho do Restelo’ entrou profundamente na mentalidade portuguesa, mas deveria ser articulado com um outro mito: o de Cassandra. Cassandra é uma figura da mitologia clássica que padece de uma maldição. Tem a capacidade de antecipar o futuro, mas está amaldiçoada com o impedimento de que os outros acreditem nela. Quando alerta os troianos para os perigos do Cavalo de Troia que os gregos lhes colocaram junto às muralhas, as suas palavras soam vãs e são rejeitadas pelos seus concidadãos que fazem com que os gregos entrem dentro da sua fortaleza através da armadilha por eles próprios montada. Quando os troianos dão conta de que Cassandra dizia verdade, já é tarde e os gregos tomam conta da cidade.
Não defendo a imutabilidade e o imobilismo, mas a abordagem crítica de todas as possibilidades, sem censuras nem preconceitos (os mais recorrentes, hoje, socorrem-se de epítetos como os de ‘conservadores’, ‘ultraconservadores’ ou outros termos de igual pendor) em particular porque toda a decisão e ação implica uma leitura ética. E, contrariamente ao que costuma pensar-se, nada há de mais progressista do que a ética, pois, perante uma possibilidade imediata de solução, a ética interroga sobre se, no futuro, essa opção se constituiu como uma resposta positiva ou se mais negativa do que a solução que pretendia ser, no momento imediato.
Veja-se o que significarão, no futuro, as aparentemente bondosas barrigas de aluguer, os filhos da reprodução heteróloga (com gâmetas de fora do casal), a educação num registo de ideologia de género que expressa uma falta de amor por si mesmo e pelo outro tal como é desde a sua origem, educando para a confusão e a indiferença, defendendo-se o absoluto da autodeterminação solipsista… veja-se o que significará cada uma destas opções quando cada um se sentir só, isolado, e num registo de conflitualidade progressiva. Aquilo que parecia ser bondosa solução afigurar-se-á como promotor de novos e mais entranhados conflitos. Nessa hora, já ninguém lembrará a voz de Cassandra, nem ali estarão já os que defenderam a bondade das decisões avulsas tomadas outrora.
Estes tempos exigem tempo, exigem ponderação. Decidir no meio da tempestade nunca foi sinal de sensatez. E estamos em tempos de tempestade. Há que ter a sensatez de não seguir rumos que se afigurem irreversíveis e sem retorno.
Mas quem quer ouvir Cassandra?

sexta-feira, março 29, 2019

A propósito do azul masculino e do rosa feminino… | Igualdade de género ou igualdade entre os sexos?


Começo este artigo com uma nota de ordem cultural.
Conta-nos Homero, na Odisseia, que Ulisses, na viagem de regresso a Ítaca, pediu aos seus companheiros de viagem que o prendessem ao mastro do seu barco, pois sabia que teria dificuldade em passar junto às sereias que conseguiam, com os seus melodiosos cantos, seduzir até os mais resistentes. Aos companheiros mandou que tapassem os seus ouvidos com cera, para que eles próprios não as ouvissem. Ulisses mostra, nesta cena, a sabedoria dos homens visionários que, mesmo diante de discursos melodiosos e inebriantes, pedem para que os prendam ao mastro do navio a fim de que não sucumbam. Uma sabedoria que, hoje, rareia. Muitos são os que se deixaram seduzir pelo discurso melodioso de uma ideologia que nos propomos, neste artigo, denunciar, com a agravante de a cera ter derretido e já não parecer haver companheiros de viagem.
Ulisses vive, hoje, provavelmente, o drama de uma outra figura da mitologia clássica, Cassandra, que tinha o poder de prever o futuro, mas era vítima de uma maldição: ninguém acreditava nela.
Hoje, os que ousam pensar por si e denunciar que ‘o rei vai nu’ parecem levar o barco de Ulisses sem companhia e denunciar uma verdade em que já ninguém parece querer acreditar.
Feitas estas notas preambulares, analisemos o assunto chamado a título.

Azul para menino e rosa para menina: o que está em causa?
Têm sido frequentes as notícias de gente que se insurge e censura artigos ou livros em que se referem distinções entre meninos e meninas, considerando-as ultrapassadas e destituídas de sentido.
O mais recente caso prendeu-se com um livro em que se recordava o hábito de associar o azul aos rapazes e o cor-de-rosa às meninas.
Não me interessa, aqui, entrar no detalhe da discussão sobre a relevância ou não de associar o azul aos meninos e o cor-de-rosa às meninas, mas à agressividade e à minúcia com que se está a orquestrar toda uma estratégia que se propõe, não apenas, nem primeiramente, a igualdade entre os sexos, mas sim a igualdade entre os géneros.
Não temos aqui espaço para grandes desenvolvimentos, mas importa, no imediato, sublinhar, primeiramente, que se assiste a um movimento internacional que, como bem recorda a Carta Pastoral ‘a propósito da ideologia de género’ (14 de novembro de 2013), tem em curso um processo que vai da modificação da linguagem à defesa de uma certa ideologia.
Clarifiquemos, antes de mais, que, em nome da dignidade humana, é legítimo, justo, necessário e nunca totalmente concretizado, o desejo de assegurar a igualdade entre o homem e a mulher. Não é disto que falamos, agora. A igualdade entre homem e mulher não poderá, nunca, porém, consistir em não os distinguir, na sua identidade, mas em não discriminar naquilo em que ambos desempenham funções iguais. Feita esta ressalva, regressemos ao que está aqui em causa.

Uma ideologia que começa na linguagem
Como acima se referia, a estratégia da ideologia de género começa na linguagem. Repare-se que não se fala de ‘sexos’, mas de ‘géneros’, sendo que, se se consultarem autores que analisaram esta matéria com detalhe (Aristide Fumagalli, Xavier Lacroix, etc.), poderemos concluir que a mudança linguística veicula uma intenção: falar de ‘sexo’ vincula ao aspeto natural e biológico, enquanto ao falar de ‘género’ (tradução pouco ajustada do termo inglês ‘gender’) se está a referir uma construção mental e cultural. O que se pretende, dizendo-o de modo simples, é desvincular a identidade (neste caso, sexual) da dimensão herdada que é o corpo, a natureza fisicamente observável. Parecendo puro jogo de palavras, a realidade demonstra que não é só isso. Basta ver que são de considerar dois sexos – masculino e feminino -, enquanto a ideologia de género vem aumentando o número de géneros identificados, referindo, já, 92 géneros (!). Não será difícil concluir que, se a lógica vingar, atendendo a que o género é do âmbito da construção mental, poderemos sempre continuar a aumentar o número destes géneros até ao limite do número de humanos sobre a Terra.
As consequências disto são muitas, mas poderemos sublinhar, fundamentalmente, três:
- o ser humano fica reduzido à sua condição individualista (sou eu que me faço e nada devo aos outros ou a algo ou alguém anterior a mim);
- a humanidade é apenas a sua dimensão de pensamento e não a sua história;
- nada devemos à família (somos apenas o indivíduo).

«Quem não distingue confunde!»
Tive um professor de Filosofia no ISET (Coimbra), José de Oliveira Branco, autor de ‘O brotar da criação’, ‘o Deus que não temos’, ‘a pergunta de Job’, ‘O humanismo crítico de António Sérgio’, etc. que recordava, frequentemente, que ‘quem não distingue confunde’. Há, na defesa da indistinção entre o sexo masculino e o sexo feminino, de facto, uma intenção de não distinguir para gerar a confusão. Uma confusão que ganha a muitos, principalmente aos que, desde sempre, quiseram promover os ‘ideais’ do anarquismo e que pretenderam eliminar toda a influência do Cristianismo na matriz ocidental.
Essa eliminação passa, no nosso entendimento, pelas três dimensões que acima referíamos:
- Reduzir o ser humano à sua mera individualidade, contra a visão personalista e relacional com que o cristianismo sempre definiu a condição humana;
- Eliminar da identidade pessoal a influência do corpo, como se o ser humano fosse, apenas, o seu pensamento. É muito curioso verificar que esta perspetiva recupera a lógica do gnosticismo, um dos primeiros adversários com que o cristianismo se depara e que pretendia, inclusive, logo nos primeiros séculos, defender que Jesus Cristo não tinha encarnado, pois isso era indigno de Deus. Hoje, estamos de novo aí. Reduzir o homem ao seu pensamento, à sua alma, e negar que a corporeidade faz parte da sua identidade é cair num novo platonismo, visão que tem origem no pensador grego, Platão, e que contribuiu para que alguns movimentos defendessem que o mundo, a matéria, eram a causa do mal, e não boa criação, como se pode depreender da leitura do livro do Génesis.
- Tornar irrelevante a missão e função da família na construção da identidade pessoal. Neste passo, não resisto a reproduzir aquilo que nos conta Orlando Figes, no seu livro Sussurros, publicado pela Alêtheia, que nos descreve o que pretendia a revolução russa (onde se inspiram muitos destes movimentos que estamos, aqui, a denunciar): ‘Os bolcheviques estavam convencidos de que, obrigando as pessoas a partilhar o espaço vital, conseguiriam torná-las mais comunistas no modo de pensar e nos comportamentos. Os espaços privados e a propriedade privada acabariam por desaparecer, a vida familiar seria substituída pela fraternidade e organização comunista, e a vida privada do indivíduo seria submetida à vigilância mútua e ao controlo da comunidade.’ E porque é que a visão revolucionária atua deste modo? Por causa da visão que tem sobre a família monogâmica. Uma visão pessimista que serve de base à ação da revolução. Nada melhor do que pôr a falar os próprios revolucionários. Diz A. F. Shishkin, autor de ética marxista: «O primeiro antagonismo de classes que surge na história coincide com o desenvolvimento do antagonismo entre homem e mulher na monogamia; e a primeira opressão de classes, a do sexo feminino pelo sexo masculino.»
Uma tal visão das coisas terá de resultar, naturalmente, na decisão de que é urgente combater aquela que é considerada a causa de tal opressão: a família.
Muitas tentativas efetivas foram feitas para concretizar este objetivo, mas, até hoje, o grau de eficácia tem sido diminuto. A família pareceu resistir, com segurança. Mas a ideologia de género conseguiu atingir o âmago do problema e está a revelar-se mais eficaz do que qualquer outra estratégia. Passou por legitimar que a construção da identidade não passa por cada um se reconhecer num contexto concreto e situado, em que a família representava o lastro em que cada um se constrói, mas por cada um ser o criador da sua própria identidade. Muitos recordam que a ideia que subjaz à ideologia de género se cunhou na expressão de Simone de Beauvoir que defendia que «ninguém nasce mulher; faz-se mulher».
A pergunta que cabe fazer é se o futuro da realidade poderá compaginar-se com este individualismo extremo. Imagine-se o que seria cada um construir o seu próprio idioma, ou definir as leis à sua medida, ou estabelecer o que lhe caberá dar à sociedade, etc.
O que está em causa é, por isso, muito mais do que a cor de identificação de menino ou menina, mas se ainda poderemos continuar a pensar-nos de acordo com a nossa corporeidade. Não temos, apenas, um corpo; somos corpo! Negá-lo significa construir uma humanidade desencarnada. Mas talvez esse seja o objetivo dos que estão tão eficazmente a levar por diante a ideologia de género. Enquanto os restantes se deixam embalar pelas vozes de sereias…

'Os Sete Dias da Criação' |11| Luís M. P. Silva - 11 – O segundo dia… a preparar o terceiro!

  (‘Os Sete Dias da Criação’ | Rubrica dedicada ao diálogo entre ciência e religião) Artigo originalmente publicado na revista 'Mundo Ru...