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quinta-feira, novembro 07, 2024

Sabes, leitor... | 11 | Marca de água do livro de Fabrice Hadjadj, 'A profundidade dos sexos: para uma mística da carne'

 

Rubrica ‘Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página’** | Marca de água de livros que deixam marcas profundas
Parceria: Federação Portuguesa pela Vida e Comissão Diocesana da Cultura

Luís Manuel Pereira da Silva*

O autor e a obra
Fabrice Hadjadj, A profundidade dos sexos: para uma mística da carne, Prior Velho, Paulinas Editora, 2010.

Fabrice Hadjadj é um pensador difícil de imitar e ainda mais difícil de sintetizar. Lemo-lo e percebemos que estamos diante de um texto de Hadjadj, mas não é fácil transmitir a quem nunca o leu a unicidade do seu modo de pensar e de transmitir o que pensa. A sua escrita faz lembrar, pelo recurso aos paradoxos e à surpresa do humor, o igualmente inimitável G. K. Chesterton.

Acedi ao mundo de Hadjadj pela via de uma sua conferência no Porto, em 2015, no âmbito do II Congresso Nacional de Leigos, em que refletiu sobre ‘recolocar o Homem no centro: desafio antropológico’, iniciando a sua intervenção de modo paradoxal, ao recordar que este recentrar no Homem tem de acontecer no momento em que corresponde ao desafio do Papa Francisco de ir para as periferias. Periferias e ‘recentrar’ parecem não encaixar… Mas é esta a marca de Hadjadj: o paradoxo que obriga a pensar e nos ‘põe de orelhas guiadas’, à espera do que aí vem.

Habituado a este humor hadjadjiano, mandei vir de Espanha, em 2018, um dos seus livros mais teológicos [F. Hadjadj é filósofo, mas, em virtude do seu percurso de convertido tardio, depois de um judaísmo ‘não praticante’ e um ateísmo militante, não se priva de reflexões teológicas sempre bem fundamentadas e intencionalmente desconcertantes…]. O título pareceu-me suspeito. Desconfiei de que a tradução espanhola teria vincado dedo editorial. Na edição de editora solene, o título do livro era ‘Ressurreição: experiência de vida em Cristo ressuscitado’.

Desconfiado, fui ver o título original. Não podia ser mais hadjadjiano: ‘Ressurreição: modo de utilização’.

Isto é Hadjadj!...

Quem é que se iria lembrar de refletir sobre coisa tão séria como a ressurreição como quem fala de um frigorífico? Mas, com esta forma desconcertante, Hadjadj dá-nos logo a entender ao que vai, antes mesmo de abrirmos o livro: teremos de conviver com a experiência da ressurreição como quem se prepara para abrir a porta de um frigorífico: tem de fazer parte do nosso quotidiano, para que não seja algo estranho e opaco. E, já agora, encontrando nela a frescura para manter vivo o que perderia vigor e robustez…

Para os que se sentirem fascinados ou interpelados a descobrir Hadjadj, deixo uma terceira sugestão de leitura, também em tradução portuguesa: a peça de teatro ‘Job ou a tortura pelos amigos’, que revisita, em modo de teatro contemporâneo, a dramática experiência do sofredor bíblico. Com a marca de Hadjadj, é uma peça a levar à vida do palco, para que se possa beneficiar da mordacidade e ousadia hadjadjiana em modo de drama.

Marcas de água 

(o que fica depois de se deixar o livro)

 

O livro que, agora, apresento ao leitor, vive desta mesma energia e ousadia. Como não ver o paradoxo que dimana do contraste entre o título e o subtítulo? Há uma certa malícia em ‘a profundidade dos sexos’ que contrasta com a elevação de ‘para uma mística da carne’.

Não é, por isso, surpreendente que Jean Sévillia, no seu monumental ‘La France Catholique’, o inclua, como ‘judeu de nome árabe e confissão católica’, num capítulo dedicado à ideia de que ‘muitos grandes filósofos franceses são católicos’, e o identifique como um dos que fazem parte da vaga de continuadores de nomes maiores da história contemporânea da filosofia e da teologia, como Rémi Brague, René Girard, Jean-Luc Marion, etc.

A ironia com que escreve parece habitar a história do próprio Hadjadj cuja narrativa de conversão é contada pelo Cardeal Tolentino de Mendonça no prefácio com que abre a edição que tenho em mãos. Desafio a leitor a lê-la. Perceberá o leitor que um escritor não se faz humorado sem deter o seu olhar de humor sobre a realidade em que germina.

O humor de Hadjadj já não é, porém, o do ‘riso de Voltaire’, que goza sem se comprometer. É o riso desbragado de quem percebe que, nas ironias da vida e nas ironias sobre a vida se descobre o humor do sentido que Deus deposita na existência.

Hadjadj deve ser lido porque revela que, contrariando os inúmeros preconceitos com que o catolicismo é tantas vezes brindado (inclusive o de que é preconceituoso quando, se haveria alguma coisa de que o poderiam acusar, era de superabundância de conceitos…), o catolicismo é, afinal, uma enorme irreverência contra as inundantes reverências do nosso tempo.

Sim, este é um livro irreverente e em que o mais puro ‘dogma’ sobre como deverá ler-se a sexualidade humana, em registo católico, é dito de forma muito pouco dogmática.

É essa a genialidade de Hadjadj: a de dizer levar o leitor a refletir sobre coisas muito, muito sérias, mas com um humor que se sustém ativo, da primeira á última página.

Logo na introdução, Hadjadj reconhece que ‘falar de profundidade, assim de imediato, leva a pensar em produtos domésticos. Explicam-nos que este detergente «limpa superfícies em profundidade». E isso alimenta o sonho. A dona de casa não suspeitava que o seu pavimento fosse um tal abismo. O técnico de superfície sente-se quase igual ao explorador em batíscafo. O termo é, pois, muito publicitário. Foi de propósito que o escolhi: A profundidade dos sexos – achei que isto vendia. Mas os leitores mais atinados, aqueles que já não caem nessa, logo se aperceberam da artimanha.’ (p. 15)

Ficamos certos de que a surpresa nos espera ao virar da página, se não for antes mesmo de o fazermos, ainda no rodapé da que estamos prestes a findar.

E essa surpresa pode dar-se, bem certo, como tenho vindo a dizer, no modo como diz o que nos quer dizer, mas também pelo que diz.

Hadjadj é muito criativo, original e consegue encontrar, neste livro, formas singulares de dizer o que sempre reconhecemos e tomámos como o correto e sensato.

E, nestes tempos propensos a cancelamentos e novas censuras, Hadjadj não teme que o cancelem. Pensa livremente, olhando, com assombro, para a realidade, como ela se apresenta ao olhar inteligente.

É com esta agudeza que enfrenta matérias como a ambiguidade da ideia de amor, o eugenismo, a eutanásia, o aborto, a homossexualidade, o individualismo, os novos totalitarismos, a teoria de género, etc., opondo-se quer aos angelismos, quer às sacralizações da sexualidade. Hadjadj olha para o Homem e vê-o sempre imperfeito e perfetível, uma unidade indissolúvel de alma-corpo, e, por isso, incompleto e só na dualidade totalmente humano. As dualidades, em Hadjadj, não são sinónimas de dualismo que, aliás, supera, com mestria. As dualidades são marca de tensão da unidade que quer romper-se, mas não pode perder-se…

Ao definir a sua posição, Hadjadj enfrenta as questões com que, habitualmente, são ‘desmanchadas’ as posições natalistas ou defensoras de que existe um nexo intrínseco entre a sexualidade humana e a sua abertura à vida. Hadjadj não recusa enfrentar as teorias demográficas com que se esconde o malthusianismo que recusa a natalidade por em perigo estar o mundo. E fá-lo de um modo de facto único: não diz tudo; deixa subentendidos que o leitor calcorreia, concluindo por si mesmo. É, por isso, um livro em que, havendo uma tese muito clara, uma ideia de sexualidade que é mordaz para com a teoria de género e para com uma conceção de sexualidade que condescende com a ‘cerebralização’ do sexo, a abordagem é inteligente e intrigante. Somos levados a fazer o caminho. O autor não o faz por nós… E isso também é Hadjadj.

 

Na mesma página que o autor (citações)

‘O método [do trocadilho] é criticável. […] É uma promessa de ligeireza que depressa vira falta de graça. Mas é também busca de espírito na matéria sonora das palavras. Eis porque os autores bíblicos a ele recorrem com frequência (as nossas traduções impedem que de tal nos demos conta): mostram que o Verbo não despreza a carne da língua. O seu procedimento aproxima-se assim do que será a minha tese principal: a matéria do homem está atulhada de espírito: e o seu sexo, longe de ser um resquício animalesco, é uma espécie de exorbitante relicário.’ (p. 14)

 

‘Meditar sobre a profundidade dos sexos é também poupar-se à tarefa ingrata de ter de explicitar a sua diferença (e a sua eventual confusão). Que é que caracteriza o temperamento da mulher por oposição ao do homem? Provém ela de Vénus e ele de Marte? Será verdade que ela não lê tão bem os mapas das estradas? Deseja ele o acto físico e brutal, ao passo que ela busca, acima de tudo, a ternura que protege? Perante estas questões, confesso de bom grado a minha preguiça. É que a minha mulher lê os mapas das estradas muito melhor do que eu. Além disso, sou do signo Virgem. Neste registo psicologizante, há apenas uma coisa que tenho por garantida: os homens abotoam a sua roupa à direita, enquanto as mulheres o fazem à esquerda. A não ser que seja o contrário.

Interessa-me, pois, menos a diferença dos sexos do que a sua ordenação recíproca. O homem torna-se tanto mais viril quanto mais se vira para a mulher, e a mulher tanto mais feminina quanto mais se volta para o homem.’ (p. 16)

 

‘Encontrar Deus, indo para o mosteiro, é uma coisa bastante óbvia. Mas encontrar Deus, indo ter com a Micheline, que acabou mesmo agora de esturrar o seu guisado de vitela, eis algo que permanece assaz inexplicável.’ (p. 18)

 

‘Esta mística da carne será, apesar de tudo, uma moral, mas uma moral trocista, zombadora, numa palavra, dramática.’ (p. 19)

 

‘O anarquista coerente começa por ultrapassar os limites e acaba a lançar bombas.’ (p. 22)

 

‘A sexualidade remonta ao século XIX. A prova está no dicionário: antes, a palavra não existia. Devido à contaminação desta «sexualidade», que reveste uma noção muito vaga, é que o sexo, agora identificado com ela, se tornou indefinido.

[…]

E hoje? Os pulmões continuam a servir para respirar. Ao estômago ninguém contesta a sua função digestiva. Mas o sexo? Asno seria quem respondesse que a sua finalidade é a procriação. E as suas outras funções também não se aguentam. Poderá dizer-se que ele se reduz à relação entre homem e mulher? Será mesmo possível crer que ele implica sobretudo a carne? Deverá então concluir-se que existe apenas para provocar em nós perguntas? Tudo isso não passa de hipóteses. O sexo é, sem dúvida, usado como um órgão, como uma arma, como uma cruz. Mas, sobretudo, desapareceu…’ (p. 30)

 

‘Com o advento da psicologia, a sexualidade já não se encontra, primeiro, nos sexos, mas no cérebro, ou no inconsciente, ou no livre arbítrio, ou na língua, ou nas convenções sociais. Deixámos de nos entender.’ (p. 32)

 

‘Discutimos tão-só o sexo dos anjos - sem carne nem gravidez, sem história nem privacidade, para lá do feminino e do masculino, longe do casamento e da circuncisão (um espírito puro não tem prepúcio). Mas os anjos têm ainda demasiada consistência. E, ademais, já não acreditamos neles. Comparemos antes o nosso sexo `famosa faca de Lichtenberg, «sem lâmina, e já sem cabo» - uma faca que não corta nada.’ (p. 37)

 

‘O que me agrada no corpo, disso me apercebo de repente, é a sua unidade vibrante, a sua presença indecomponível e, por último – digamo-lo sem medo -, a alma que transpira em todo o seu ser.’ (p. 38)

 

‘A mulher é o único ser humano que em si pode trazer outro. O seu corpo é habitável.’ (p. 128)

 

‘A diferença dos sexos é, de qualquer modo, tão profunda que as sexualidades que pensam ter-se dela libertado se limitam a reproduzi-los por interiorização ou por redistribuição dos papéis.’ (p. 143)

 

‘Pode compreender-se o choque de Pasolini, em 1975: «Fico traumatizado com a legislação sobre o aborto porque, juntamente com outros, vejo nela uma legalização do homicídio. Nos meus sonhos e no meu comportamento quotidiano – eis algo de comum a todos os homens – vivo a minha vida pré-natal, a minha feliz imersão nas águas maternais: sei que aí eu estava vivo». (p. 158)

 

‘Um útero circundou todos os heróis da história. Também todos os imbecis (entre os quais me incluo).’ (p. 159)

‘O psicologismo, com as suas cataplasmas contra o baby blues, esforça-se por esconder esta ocorrência. Promove, por gentileza, uma degradação universal: apartar o homem da tragédia para o emboscar no romance burguês – que ele sonhe encharcado em água de rosas. E desemboca, inevitavelmente, na negação do real. O grande perigo é, para ele, o traumatismo infantil; por isso, feitas as contas, é melhor suprimir o filho na altura em que ainda é puro, antes de ser pervertido ou esmagado diante dos nossos olhos. O paradoxo da nossa época encontra aqui a sua explicação: nunca a criança foi tão protegida e nunca houve tantos abortos. O seu sentimentalismo é a causa da sua rejeição do nascituro. A eliminação é, de facto, a mais segura e eficaz proteção dos menores.’ (p. 177)

 

‘[…] a coisa mais absurda nesta aventura [refere-se à história de Moisés] é que o seu rapazinho é adoptado pela filha do Faraó, ou seja, do Führer. E esta dá-lhe o nome de Moisés: «retirado das águas», são é salvo da inundação e extermínio. O prometido à morte certa tornar-se-á o libertador do seu povo. O mundo mortífero e senil renovar-se-á graças a este petiz, que passou pelas malhas. Se a sua mãe, para lhe poupar o horror, se não atrevesse a tê-lo, o horror apenas poderia perdurar.’ (p. 179)

 

‘É muito duro ser um filho desejado. A tua existência fica toda suspensa pela decisão dos pais. Os seus desejos são ordens. Se te permites qualquer desvio, cautela; chovem as lambadas, suprimem-se as sobremesas, culpabilizar-te-ão até ao tutano as recriminações lacrimosas, e não só até ao tutano, mas até à medula, até aos gâmetas que tem deram para viver.’ (p. 183)

 

‘Tenho boas razões para pensar que os infanticídios e os parricídios hão-de aumentar com o eugenismo.’ (p. 184)

 

‘[…] se for desejável outorgar ao projeto parental todas as garantias, eu recomendo ao legislador o alargamento desse prazo muito para além das doze semanas, digamos, até aos quarenta anos.’ (p. 185)

 

‘Um mundo perfeito, onde os petizes aparecessem sem turbulência, conformes às instruções do fabricante, seria pior do que um inverno nuclear. As crianças estariam congeladas desde o núcleo da sua primeira célula. Nasceriam velhas, com todos os nossos rancores e todos os nossos cuidados. A sua primavera já conseguiria perfurar a crosta das nossas preocupações. Teríamos perdido, para sempre, o espírito de infância… É-nos forçoso, então, chegar à conclusão que proibiria o fechar-se e o pronunciar-se em vez de outro: em vez de um super-homem, conforme aos estudos de mercado do homem velho, vale mais uma pequena Flor, polichinelo que salta da caixa, deficiente mental, sem dúvida, dolorosamente incapaz de entrar na maturidade consciente, mas mais apta para nos arrancar ao nosso triste horizonte produtivista, mais dotada para nos levar a rememorar a surpresa de ser e a alegria de amar.’ (p. 187-188)

 

‘Aquele que, há pouco, cantava tão alto os órgãos internos cai num subjetivismo descarnado. As determinações que a vinda ao mundo impõe, a partir do sexo, afiguram-se-lhe oprimentes. Em vez de apoio, os vínculos do corpo seriam, para ele, uma tumba. O pequeno Sartre imagina arrojar-se ao mundo a partir do seu próprio pensamento, fora das particularidades sombrias de uma conceção física, das suas escandalosas desigualdades, a fim de ser à medida do universo, ou seja, do universal. Ter nascido de Anne-Marie Schweitzer e de Jean-Baptiste Sartre não deve contar para nada. O que importa, a partir desta copulação fortuita, é nascer a cada instante das suas próprias escolhas, ex nihilo. A existência dimana, agora, não da carne, mas do nada.’ (p. 194)

 

‘O casamento é, ao mesmo tempo, um contrato e mais do que um contrato. Tendo por fim excessivo a comunhão das pessoas e o nascimento dos filhos, apresenta a estranha propriedade de não poder ser rompido sem uma íntima violência, mesmo quando as duas partes querem separar-se em termos amigáveis. A comunhão pressuposta pelo «Amo-te» interdiz toda a ruptura: o seu termo é o outro, e não esta ou aquela sua qualidade. Se eu tivesse dito apenas: «Amo o teu traseiro» ou «Amo o teu êxito», poderia desembaraçar-me, logo que o meu cônjuge depare com o fracasso ou as suas nádegas se tornem frouxas e moles. Mas eu disse: «Amo-te», ou seja, a tua pessoa na sua totalidade sucessiva, o que ela é hoje, mas também o que ela será amanhã e que ainda não conheço. Não é como num contrato com uma empresa, que posso rescindir, se eu estiver dececionado ou se o objetivo foi atingido.

Por outro lado, esta união amadurece um fruto natural. O filho não é apenas um ato de papel. Não é rasgável. Mesmo se eu já não quisesse estar com a sua mãe, sou forçado a ver os dois, a sua mãe e eu, na sua figura. Este estranho contrato produz assim uma realidade que excede as liberdades que o estabeleceram, de tal modo que elas não podem desfazê-lo, tal como o concluíram. O casamento é, ao mesmo tempo, natural e livre: é uma escolha sobre o fundo natural da ordenação recíproca dos sexos; é uma naturalização da liberdade mediante a realização desta escolha na criança.’ (p. 198)

 

‘[…] na década de noventa, só na região do Sudeste asiático, o tráfico em vista do proxenetismo fez três vezes mais deportados do que o comércio de escravos africanos, durante vários séculos.’ (p. 210)

 

‘«O sujeito ideal do regime totalitário não é o nazi ou o comunista convicto, mas o homem para quem a distinção entre facto e ficção (ou seja, a realidade da experiência) e a distinção entre o verdadeiro e o falso (isto é, as regras do pensamento) já não existem».’ [citando Hannah Arendt] (p. 217)

 

‘O individualismo é, assim, a base do totalitarismo, e não o seu inimigo principal, como tantas vezes se pensa. Requerem-se seres isolados, «desapontados», sem fortes vínculos familiares ou religiosos, portando dispostos a fundir-se numa massa: «O isolamento é pré-totalitário. Os homens isolados não têm, por definição, qualquer poder. […] Estar desenraizado pode ser a condição preliminar da superfluidade».’ [citando Hannah Arendt] (p. 217)

 

‘No romance 1984, é normal vaporizar os avós. Todo o avozinho, enquanto tal, resiste. Constitui uma autoridade histórica e memorial, que ameaça o monopólio da Doutrina. Tenta opor-lhe as abordagens de uma sabedoria de experiência. A experiência, que arcaísmo! A ideologia possui o Saber absoluto. Tem na sua mão a lei da Natureza ou da História. É a Providência do mundo. Por esta razão, cabe-lhe antecipar as eliminações que, de qualquer maneira, o curso previsível das coisas levaria a cabo. Por gentileza; por eutanasismo, por assim dizer. Não pode, de facto, apadrinhar nenhum crime, mas tão-só «uma morte muito doce».’ (p. 217)

 

‘O facto de eu ser macho, e portanto destinado à fêmea, recorda-me que não sou, por mim mesmo, o Homem integral, e que só me torno tal ao virar-me para o outro sexo em vista de uma fecundidade comum. […] Descubro, atónito, que o meu órgão masculino é feito para órgão feminino, de modo que me pertence menos a mim do que a esta mulher: que seria uma chave sem a fechadura? E vejo também que os nossos sexos juntos existem para que o seu beijo floresça numa terceira pessoa: que seria da chave e da fechadura sem uma porta que se abre? Esta coisa da carne revela-se uma dupla desapropriação e empenha-me num terna comunhão. O meu sexo só se encontra a si mesmo no outro. E os dois, ao encontrarem-se, fazem brotar de si ainda outro (e em corpo).’ (p. 258 e 260)


**(Título retirado de Daniel Faria, Dos líquidos, Porto, Edição Fundação Manuel Leão, 2000, p. 137)


quinta-feira, novembro 30, 2023

É impreciso falar-se de ‘direitos dos animais’ | Melhor seria falar-se de ‘deveres assumidos pelos humanos para com aqueles’

 

Estamos num tempo em que, imprecisão após imprecisão, se vão consolidando ideologias que percebemos não serem corretas ou ajustadas, mas a que nós próprios nos vamos ajustando, para não divergirmos dos demais. Mas lá chega o momento em que a consciência nos acusa de não termos ousado dizer o que se impunha…

Há muito que a reflexão sobre a matéria que se adianta no título se me vem impondo, mas tenho-lhe resistido. A circunstância de ter lido o enunciado de um teste a que respondeu um dos meus filhos, no contexto escolar, onde estas matérias apareciam todas baralhadas, despertou-me para a necessidade de enfrentar o assunto.

Enfrentemo-lo, então…

Desenvolvo esta reflexão a partir de uma ideia que ouvi, pela primeira vez, ao eminente e sábio professor Walter Osswald.

Vamos, então, ao assunto…

O reconhecimento da condição de se ser portador de direitos é um exclusivo de sujeitos morais, capazes (ou potencialmente capazes…) da sua reivindicação.

Facilmente compreenderemos que a possibilidade da definição e reivindicação de direitos é, pelo que se acaba de dizer, exclusiva do ser humano, sujeito que, por reunir as condições para ser reconhecido como detentor de direitos é, também, igualmente, sujeito portador de deveres. Uns e outros, direitos e deveres, são as duas faces de uma mesma moeda.

O progresso no reconhecimento destes direitos é, dada a potencialidade também incluída na definição acima enunciada, extensível a todos os humanos, estejam eles ou não na efetiva e atual posse das capacidades plenas de reivindicação ou, por circunstâncias mais ou menos efémeras, impossibilitados de as exercer.

Ora, face a esta clara definição das condições necessárias (e não só suficientes) para o reconhecimento de que um sujeito é portador de direitos, facilmente se concluirá que, no caso dos animais (ou, mais extensamente, no caso da natureza), só impropriamente se lhes poderá aplicar a designação de ‘direitos’ para se referir a condições de proteção destes perante os restantes seres.

Primeiro, porque não se poderia imputar a outros sujeitos (que não aos humanos) o dever de respeitar os putativos direitos dos animais em caso de desrespeito (como reivindicar, por exemplo, à natureza que respeitasse os direitos dos animais exigindo-se-lhe determinados deveres?) e, em segundo lugar, porque os animais não são, eles próprios, sujeitos morais, capazes (ou sequer potencialmente capazes) de assunção de responsabilidade ou de reivindicação dos seus hipotéticos direitos.

Como, então, colocar a questão aqui suposta?

Naturalmente, o único modo preciso de abordar a questão é a partir dos sujeitos morais, já anterior e exclusivamente identificados com os sujeitos humanos.

A estes pode exigir-se-lhes responsabilidades, deveres que decorrerão, não do reconhecimento de direitos inerentes àqueles que vimos não serem sujeitos morais, mas de uma assunção de compromisso, da parte dos sujeitos morais (os humanos) de não causar dano ou mal indevido porque esse dano ou mal é gratuito e denunciador de uma atitude intrinsecamente violenta.

Percebamos que a abordagem que vem cavalgando a ideia de que existam ‘direitos dos animais’ ou ‘direitos da natureza’ tem pressupostos que ainda não denunciámos mas de que importa ter consciência.

 

Pode a ciência fundamentar a ética?

Para o fazermos, comecemos por recordar o que afirmava Albert Einstein, num conjunto de textos por si publicados entre 1939 e 1941, dedicados à discussão sobre a relação entre ciência e religião. (Seguimos, aqui, a edição da Relógio D’água, publicada em 2005).

Diz Albert Einstein: ‘[…] a ciência pode apenas indagar aquilo que é, mas não o que devia ser, e fora do seu domínio permanece toda a esfera dos juízos de valor, cuja necessidade ninguém discute.’ (p. 275)

Esta citação é muito relevante para a reflexão, pois vinca com clareza que não compete à ciência fundamentar o domínio ético, o domínio dos valores.

Está, porém, no pensamento dos defensores de que existam ‘direitos dos animais’, um pressuposto diretamente recolhido da ciência, sem qualquer filtro. Na verdade, os defensores desta ‘causa’ sustentam a sua reivindicação na ideia de que a evolução das espécies demonstraria que, entre os humanos e os demais animais, não haveria uma distinção fundamental, essencial, mas uma pura circunstância a superar. Como bem observa Johannes Hartl, no seu luminoso livro ‘A cultura do Éden’ (ediciones Rialp, 2023), todo o reducionismo consiste em definir os humanos como não sendo ‘mais do que…’.

Se é verdade que há muitos aspetos de semelhança entre os animais e os humanos, o que espanta, porém, é aquilo em que se distinguem e que os distancia abissalmente, como genialmente registou o grande Chesterton, na sua obra Ortodoxia (sigo a edição da Alêtheia, 2008, p. 205): ‘Aquilo que tem de ser explicado não é a semelhança, é a monstruosa escala da dissemelhança. Que o homem é parecido com os animais é, em certo sentido, um truísmo; mas que, sendo tão parecidos, eles sejam tão inconcebivelmente diferentes, isso é que é um choque e um enigma’.

É, aliás, nesse fundamento que assenta o reconhecimento da intrínseca dignidade humana, com todas as implicações que daí decorrem.

Com isto, esvaziamos um dos pressupostos ocultos na reivindicação da existência de supostos ‘direitos dos animais’: a sua base científica.

 

Oriente e ocidente: dois modos distintos de ver a realidade

Mas há um outro pressuposto igualmente implícito: o da fusão das identidades numa unidade cósmica indiferenciada.

Para enfrentar este pressuposto, recordo que esta visão nos chega do oriente. Cabe, por isso, consciencializar que, entre o ocidente e o oriente, há duas linhas que caminham em paralelo, mas que não se chegam a cruzar. Muito há em comum entre o oriente e o ocidente e muito há a receber, reciprocamente. Mas há um elemento que os distingue e que dificilmente poderá conciliar-se: o oriente jamais seria capaz de gerar o conceito de pessoa, nascido no ocidente, da convicção de que o mundo se realiza no encontro das diversidades. O oriente supõe que o universo nasce e caminho para o uno, numa fusão absoluta. O ocidente pressupõe que tudo nasce da diversidade (Deus é trino) e caminha para o encontro definitivo nas identidades diversas…

Estes dois pressupostos antagónicos refletem-se nesta questão dos supostos ‘direitos dos animais’. A distinção é ocidental; a fusão é oriental.

Os reivindicadores dos putativos ‘direitos dos animais’ pressupõem que, entre os humanos e os animais, tudo se fundirá, pelo que a indistinção é reivindicada como condição de existência. O ocidente, gerador da ideia de pessoa, da individualidade relacional, pressupõe, sempre, a distinção.

Distinção que se expressa, também, na distinta condição dos humanos perante o resto da criação, pela qual são responsáveis e a qual estão incumbidos de cuidar, mas sabendo que, entre eles e o resto da criação, há uma condição hierarquicamente distinta. Só esta condição hierarquicamente distinta os pode, também, responsabilizar, pois se tudo é indistinto, ninguém é responsável por nada.

Parece ser essa a intenção dos que reivindicam as indistintas condições humana e animal: concluir-se que ao homem nada mais possa e deva pedir-se do que o que se poderia pedir ao ‘inimputável’ animal. Inquieta-me que alguns vão preparando o terreno (ainda só teórico e num horizonte que parece distante, mas, até quando?...) para que, um dia, aos próprios animais se aplique o (outro conceito impreciso) estatuto de ‘pessoas’…

É por isso que é preciso afirmar que a verdadeira responsabilidade (deve e) nasce do reconhecimento do único sujeito moral, o humano, o único capaz de ser autêntico portador de direitos, mas também o exclusivo detentor de deveres, cabendo concluir-se que, ao falar das matérias aqui abordadas, é impreciso e incorreto falar de ‘direitos dos animais’ ou ‘direitos da natureza’, devendo-se, antes, afirmar-se estar perante deveres assumidos pelos humanos em relação à natureza e aos animais.

 

domingo, agosto 06, 2023

As JMJ e a via da beleza (via pulchritudinis)


Os ecos das JMJ ecoam no coração de todos os que participaram, ao longe ou perto! Um dos maiores erros na abordagem de tudo o que foi ali vivido seria reduzir à interrogação sobre ‘para quem eram as mensagens do Papa Francisco’, em busca de um destinatário que aliviasse a dor da transformação que elas exigem de quem as ouve.

Mas, de facto, as palavras de Francisco não são, apenas, para outros (sê-lo-ão, certamente, e por isso, podem conduzir a mudanças profundas), mas, principalmente, para os que ousarem ouvi-las como sendo para si mesmos.

Eu estou nessa disposição e muitas interrogações me têm 'assaltado', ao longo destes dias. Não como uma tomada de bens sem consentimento, mas como um 'assalto' que consinto que conduza ao meu próprio despojamento.

Como presidente da comissão diocesana da cultura, olho para tudo o que foi vivido e vejo o poder da beleza, a via pulchritudinis, em ação.

Estas JMJ foram, para além de tudo, lugares de beleza. ‘Fazei das vossas vidas lugares de beleza’, recordou, já em outros momentos, em visita a Portugal, um dos sucessores de Pedro, repercutindo como, perante o caos, Deus é o que ordena e organiza (faz, do 'caos', 'cosmos'), como, perante o que cinde e divide (em grego, ‘diabolos’), Deus é o que une (é ‘símbolo’), como, perante o decadente e informe, Deus é o Belo e a fonte da beleza. Aliás, assim começam os textos sagrados: por dizer-nos que o poder criador e ‘cósmico’ de Deus se confirma nas palavras do narrador que nos dá consciência de que o Criador vê que tudo era bom… Uma bondade que começa por ser expressa na beleza e harmonia com que o mundo se afigura.

A dança, a pintura e o canto, a música e as formas da arquitetura dos espaços, as próprias palavras, foram cuidados, nestas JMJ, para proporcionar caminho para o sublime, contrariando a ideia de uma juventude satisfeita com o caos e o ruído.

A música, dirigida por quem se percebia viver o que expressava musicalmente, a maestrina Joana Carneiro, evocou o que de melhor a história da música foi proporcionando à humanidade em resultado deste encontro entre a fé e a arte.

Ao ouvi-la, lembrei, bem certo, os ecos da longa e profunda história da música sacra, que terá, provavelmente, em Palestrina, em Bach, em Mozart, em Allegri, em Buxtehude, etc. alguns dos seus expoentes máximos, cuja memória poderá, porém, gerar a impressão de uma nascente que já secou.

Este encontro continua fecundo. Que o digam nomes como Arvo Pärt, Henrik Odegaard, Penderecki, Messiaen, Gubaidulina, Carrapatoso, etc., expressões contemporâneas da ininterrupta relação entre religião e arte e, em particular, entre o cristianismo e a cultura.

Do mesmo modo, poderíamos olhar para outros vetores de fecundidade deste encontro, como, por exemplo, para a literatura, com Chesterton, C. S. Lewis, Tolkien, ou, para a arquitetura, com Gaudí, ou, para a escultura, em Portugal, com Paulo Neves, ou para... ou para...

As JMJ mostraram ao mundo que a busca do sublime não tem de ser iconoclasta e que a fé não tem de temer a cultura, mas a sublimizá-la, levá-la a recuperar a consciência de que nos deve encaminhar em direção ao sublime que nos sara as feridas que a vida, tantas vezes caótica, nos abre na ‘pele’ da alma.

Ouço, enquanto escrevo, ‘Meditações sobre o banquete de Santa Madalena em Nidaros’, de Henrik Odegaard, compositor que tem dedicado parte significativa da sua obra à música sacra.

A escuta desta obra, em que se sente a densidade do encontro entre o gregoriano e o contemporâneo, serve-me, não apenas para deleite estético, mas, por evocar a figura de Santa Maria Madalena, faz reavivar em mim a memória de uma obra escultórica dedicada a esta santa e que é particularmente grata ao Papa Francisco. Refiro-me a um capitel da Igreja de Santa Madalena (século XI), em Vezelay, cuja foto repousa na secretária do sumo Pontífice.

E o que retrata esta foto, este capitel, que serve de ilustração a este artigo?

Retrata, à esquerda, um enforcado, e à direita, alguém que o transporta aos ombros. Neste densa cena, descreve-se, pela arte, aquela que terá sido mensagem fundamental do Papa Francisco, ao longo destes dias de JMJ.

O enforcado é Judas Iscariotes, arrependido. À direita, retrata-se Jesus que o leva aos ombros.

A misericórdia de Deus é, aqui, densamente representada numa cena que nos comove.

O ‘todos, todos, todos’ que o Papa Francisco pediu aos jovens que repetissem e que continua a ecoar aos nossos ouvidos, encontra suporte na mais longa e profunda história da teologia e da arte cristãs: seremos julgados no encontro com o Amor, diante do qual, como em tempos me recordava uma aluna de escatologia, baixaremos os olhos por nos sentirmos impuros diante do Amor de Deus. Não será Deus a julgar-nos, mas sim nós mesmos a ‘julgarmo-nos’ perante o Amor que Deus é.

Recordo, a este propósito, o que me disse, nos idos de 90, o saudoso sr. D. Manuel de Almeida Trindade, Bispo emérito de Aveiro, numa das várias conversas que tive o privilégio de partilhar com ele, no Seminário de Coimbra, que frequentei até 1996: 'repara, Luís, como a Igreja sempre nos disse que havia santos que podíamos imitar e invocar, mas nunca ousou dizer de ninguém que estaria em Inferno, por acreditar no poder da misericórdia de Deus'.

É desta misericórdia sem limite que deverão falar-nos a arte e a cultura fermentadas de cristianismo, misericórdia que não nos acomoda no que já somos, mas que nos desafia a ‘partirmos apressadamente’. A tentação que sinto, múltiplas vezes, porém, é a de me aquietar na certeza da misericórdia, como se ela não me interpelasse à conversão. O lema das JMJ fala, contudo, de um outro estado e condição perante a vida: Maria não se aquietou, não se acomodou – ‘partiu apressadamente’. Importa recordar que essa certeza da ultimidade da misericórdia foi fonte de uma subtil tentação, em alguns tempos da história da Igreja, como ocorreu com Orígenes (séc. II-III), que defendeu uma apocatástase, uma restauração de tudo e todos sem a participação dos mesmos, como se a misericórdia não envolvesse os sujeitos e se operasse ao arrepio da sua própria vontade e conversão. A misericórdia é encontro, é relação, não imposição. Interpela, faz partir de si, convida a caminhar, a ‘partir apressadamente’.

A arte que fala do sublime convida a transcender os ‘caos’ da vida, não a permanecer neles…

Palavras para mim. Não para outros…

 

sexta-feira, março 04, 2016

A crise de valores denuncia a crise do homem sábio

Nenhuma ação humana pode realizar-se sem ser movida por algum valor. Todo o homem que age (e até quando decide não agir) fá-lo em nome (consciente ou inconscientemente) de valores. Neste contexto, a amoralidade é uma possibilidade meramente abstrata. Assim, quando se fala de crise de valores, do que se está a falar é de uma inversão ou, mesmo, perversão da hierarquia dos valores. Aqueles que deveriam ser os valores prioritários são secundarizados, em nome de outros que, de segundos, passam a primeiros. Este é o enquadramento que permite, por exemplo, no contexto português, analisar como foi decidida a adoção de leis sobre o aborto ou como está a ser discutida a possibilidade de legalizar a eutanásia. Em ambas as discussões, os decisores políticos deixaram prevalecer valores secundários em relação a valores mais fundamentais e estruturantes.
À luz deste enquadramento, valerá a pena recuperar a ideia de que esta crise de valores tem uma outra crise latente, sobre a qual vale a pena refletir.
É que a inversão dá-se concedendo prioridade a valores mais imediatos em relação a outros que, por serem mais radicais, exigem que se reflita sobre eles e sobre a sua importância. E tal exige prescindir de seguir as emoções momentâneas para dar tempo ao raciocínio e à reflexão. E aí nasce o problema.
Na realidade, os grandes nomes da reflexão detida e serena, entre os quais poderemos invocar a autoridade dos Papas mais recentes (Bento XVI deu particular importância a esta matéria), mas também outros de quadrantes diferentes (Giovanni Sartori, Gilles Lipovetsky, Alain de Botton) vêm dizendo que vivemos uma crise que atinge o âmago do que nos define como homo sapiens. A nossa evolução distintiva fez de nós seres que souberam transcender as emoções, os instintos, em nome da razão e da reflexão cuidada e tranquila e, por isso, distante da intensidade dos acontecimentos. Esse é o papel que se espera, aliás, do direito e da justiça: conferir distância crítica para ajuizar bem. E «bem» é dando prevalência aos valores fundamentais em relação aos secundários.
Mas retomemos o fio do raciocínio. Para tal, recuperemos dados da reflexão de Giovanni Sartori que afirma que, se deixássemos alguém ser educado pela televisão ou pelos meios de comunicação social, essa pessoa seria incapaz de pensar com lógica, perderia, por isso, a dimensão de «sapiens», substituindo-a pela dimensão do «ver». O homo sapiens cederia o lugar ao «homo videns». Outros, ainda, na linha de Huizinga, reduzem o homem à dimensão do divertimento, designando-o como «homo ludens», o homem que joga, que se diverte. É, aliás, neste registo que Gilles Lipovetsky analisa esta fase da história em que estamos e a considera como «hipermoderna», uma era de deceção, em que nos distraímos para ocultar a interrogação sobre a vida. Esta hipermodernidade cria seres que desistem de viver a sua vida e se divertem a imitar idades que já não têm. Chama a estes indivíduos adultos, que se distraem sendo adolescentes, os «adultescentes». O que há de comum a todos estes retratos é algo inquietante. Estamos num tempo que desistiu de parar para pensar e interrogar-se sobre o sentido das suas ações, das suas decisões, enfim, da sua vida! É, aliás, este o desafio fundamental da ação e missão da Igreja, hoje. A Igreja tem respostas, a Igreja tem uma proposta de salvação para a humanidade; contudo, vale a pena saber se a humanidade se sabe perdida! Ter respostas quando não há perguntas cria um diálogo surdo. O grande repto é, sem dúvida, suscitar a interrogação, fazê-la emergir, pôr a pensar sobre a vida, e não dar como certo que o que muitos dizem ser aceitável corresponderá ao que é verdadeiro e certo. É de justiça, neste contexto, recuperar as sábias palavras do sempre oportuno Chesterton, no seu livro «Ortodoxia»: «Um homem deve ter dúvidas sobre si mesmo, mas não deve ter dúvidas sobre a verdade; ora, o que se passa hoje é exatamente o inverso» E este era um retrato do que se passava no início do século XX. Mas os gérmenes já lá estavam. Hoje, a convicção de que já não valerá a pena continuar a procurar a verdade gerou a certeza de que ela não existe. E, com a morte da verdade, a ética fica moribunda.
É curioso, por isso, constatar que, hoje, poucos terão feito tanto pela verdade e pela ética como a Igreja, ainda que muitos a pretendam acantonar num preconceito de obscurantismo e irracionalidade. O já referido Chesterton, agora pela boca de uma das personagens das suas obras de ficção policial, o Padre Brown, reconhecia exatamente o mesmo: «eu sei que as pessoas acusam a Igreja de diminuir a razão, mas o que sucede é o inverso. Na Terra, somente a Igreja atribui verdadeira supremacia à razão. Na Terra, somente a Igreja afirma que o próprio Deus está sujeito à razão.» E assim é, com efeito. É bom lembrar que nunca a Igreja cedeu ao nominalismo ou à visão arbitrária sobre as decisões divinas. A Igreja nunca subscreveu, por exemplo, as abordagens predestinacionistas, que defendiam que nada nos podia permitir saber qual o caminho da salvação.
E hoje, mais do que nunca, é necessário reconhecer que, sem o respeito pela verdade, pela busca insaciável do que ‘é’ e ‘deve ser’, geram-se as condições para a arbitrariedade que fará regredir o homem ao antes de si. «As pessoas que começam a lutar contra a Igreja em nome da liberdade e da humanidade acabam por combater a liberdade e a humanidade para poderem lutar contra a Igreja». Chesterton, de novo!
Neste retrato, fica evidente que a crise de valores expressa uma latente crise de verdade, de lógica, de pensamento, de razão e de lucidez. Como sempre, desde a sua origem, espera-se da Igreja, hoje, que continue a salvar a humanidade. E salvá-la, hoje, é continuar a exigir-lhe que reflita e que não decida sem refletir. Porque «sem verdade, cai-se numa visão empirista e cética da vida, incapaz de se elevar acima da ação porque não está interessada em identificar os valores — às vezes nem sequer os significados — pelos quais julgá-la e orientá-la.» (Bento XVI, Caritas in Veritate 9). A verdade é esse horizonte que permite discernir e interpretar os sinais dos tempos. De outro modo, como reconhecia o estoico latino Séneca, não haverá ventos favoráveis por andarmos sem destino. Pois, se andarmos e persistirmos no erro, sem com tal nos inquietarmos, andaremos errantes! Errar far-nos-á errantes! 

segunda-feira, julho 29, 2013

O desafio de Francisco

É sabido que, na escolha do seu nome, cada Papa (Pai) afirma como que um programa para o seu pontificado. Assim ficou claro com os antecessores do Cardeal Bergoglio que, enquanto Bento, João, Paulo ou João Paulo, pretenderam situar-se na senda dos que ostentaram cada um destes nomes. Ao escolher o nome de «Francisco», o cardeal que foi trazido quase do fim do mundo definiu as marcas que se tem provado pretenderem, desde a primeira hora, marcar o código genético do Pontificado. Na verdade, é difícil encontrar nome de santo que suscite, no imediato, tanto apreço e cumplicidade junto de todos e cada cristão. Nele se reconhecem a coragem, o humor, o desprendimento, a coragem, o desejo de reformar a Igreja de Jesus. Um desejo que, nas ruínas da destruída igreja de S. Damião, em Assis, se expressou através de uma voz em que Francesco Bernardone reconheceu o desafio de Jesus Cristo: «Francisco, não vês que a minha casa está em ruínas? Vai reconstruí-la.»
A densidade deste nome é tal que os próprios brasileiros decidiram atribuí-lo àquele que é conhecido, entre eles, como o rio da unidade nacional: S. Francisco. Quando o ouvi anunciado, na tarde de 13 de março de 2013, a surpresa que o seu significado fazia emergir e o desconhecimento sobre quem seria o cardeal eleito fizeram-me duvidar se outros não seriam os Franciscos aludidos: Francisco de Sales? Francisco Marto? Francisco Xavier? Quereria dar um sinal sobre a importância da educação (São Francisco de Sales é o patrono dos salesianos), sobre o seu sentido mariano (Francisco Marto) ou sobre a nova evangelização da Ásia (S. Francisco Xavier é considerado o «apóstolo do oriente»)?
Mas o sentido era o que a primeira surpresa parecia denunciar. A hora era de reforma, de reconstrução da igreja. Uma reforma que começa por fazer-se pela capacidade de surpreender, quer pelo humor, quer pela simplicidade e humildade. Aliás, não será sem sentido ver proximidade etimológica entre «humor» e «humildade». Só se ri de si quem tem a capacidade de se reconhecer no seu limite. Recordo, a pretexto disto, uma cena de humor que é contada pelo grande Chesterton (um inglês de inícios do século XX, convertido ao catolicismo cuja leitura devia ser obrigatória, tal a sua genialidade) na biografia que ele publicou sobre «S. Francisco de Assis e que retrata belissimamente muito do comportamento cristão necessitado de reforma. Conta Chesterton que um certo bispo se queixava de que um não-conformista [reformador dentro da Igreja Anglicana nos séculos XVI-XVIII] chamava “Paulo” ao Apóstolo em vez de o tratar por “São Paulo”. E acrescentava o bispo: “Podia ao menos tratá-lo por Sr. Paulo”.
Esta é a familiaridade que Francisco, o Papa, parece pretender trazer para o seio da Igreja. Uma familiaridade e humildade que temo que muitos estejam a pretender confinar à cúria romana, necessitada, seguramente, de uma «eminentíssima reforma» (para usar palavras do nosso Frei Bartolomeu dos Mártires, que João Paulo II elevou aos altares, fazendo-o beato). Na verdade, muitos parecem continuar a não reconhecer que quando dizemos que a Igreja necessita de reforma é a toda a Igreja que tal se refere. Toda inclui todos e cada um dos cristãos. O estado de permanente renovação e conversão é condição cristã. Estamos sempre na tensão do «já» e «ainda não», essa dinâmica que, sendo marca da escatologia cristã, face às outras escatologias, expressa o ADN do ser-se cristão. Não é só Roma que necessita de reforma. Quantas comunidades continuam presas a supostas tradições que impedem que se renovem os caminhos? Quantos cristãos ameaçam bater com a porta só porque não é feita a sua vontade? Quantos de nós continuamos a pretender uma Igreja à nossa medida, como se fôssemos nós mesmos sacerdotes autoinstituídos? A Igreja necessita daquela verdadeira reforma em que se reconhece, toda ela, não o fim para onde todos devem caminhar, mas, como diz a oração publicada em 1916 e designada como oração de S. Francisco, «o instrumento da paz» de Jesus Cristo. É este o desafio de Francisco: devolver o centro àquele que o deve ocupar.

E ao pó hás-de voltar… Não às cinzas estéreis e anónimas.

  Há uma sabedoria profunda, verdadeiramente divina, no ato de inumar o ‘corpo’ morto, de o devolver ao regaço adâmico de que proveio. Mas u...