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segunda-feira, dezembro 23, 2024

Natal: 2000 anos depois, o escândalo continua…

 

Artigo originalmente publicado no Correio do Vouga

Luís Manuel Pereira da Silva*

‘Não temais, pois anuncio-vos uma grande alegria que o será para todo o povo: hoje, na cidade de David, nasceu-nos um Salvador que é o Messias Senhor!’ (Lc 2, 10)

A frequência da escuta embotou-nos os ouvidos que já amenizaram o escândalo, como se de um lugar-comum tratassem as palavras que recordam o mistério. (Ou teremos levado tão a sério o convite a que não tivéssemos medo que, efetivamente, o superámos?)

Mistério evoca sempre a ideia de uma realidade diante da qual cabe fazer silêncio, emudecer-se. Mas o mistério cristão, escandaloso como sempre, já não é, apenas, uma realidade diante da qual cabe fazer silêncio. É um desvendar da realidade que, de tão denso, nos interpela a reler a existência e reconfigurar o nosso olhar. O mistério cristão define-se, essencialmente, como realidade que, de tão densa, é paulatinamente desvendável, mas nunca suficientemente abarcável: tomamos parte mas muito mais é o que nos escapa. O que se capta, porém, é já suficientemente significativo para nos dar novo sentido à existência.

Deste modo de pensar o mistério se trata ao falar do da Encarnação.

Dois mil anos volvidos, o que aconteceu em Belém continua, aos ouvidos atentos de hoje, a ser motivo de escândalo e estonteamento.

Ao tempo, fora-o para judeus, incapazes de aceitar que o distantíssimo Deus, de que só nos poderíamos acercar pela Sua Lei, pudesse tornar-se humano. Essa kenose, tão sublimemente enunciada pelo também judeu Paulo de Tarso, no seu hino cristológico feito epístola aos Filipenses, era inaceitável para os ouvidos judaicos. Não o era porque a corporeidade não pudesse ser abarcável pela sua compreensão de Deus, mas pela insignificância do humano, perdido desde o paraíso e errante pelo mundo. Ver a Deus era de todo impossível. Encarnar era, então, inadmissível.

Fora-o, também, para os gregos e todos os que, na senda do espírito helénico, reduziam o homem ao seu espírito, encarcerado que estava num corpo material, essencialmente mau e de que se pretendia a libertação.

As duas reticências permaneceram, ao longo da história… A reticência judaica e a reticência grega.

A encarnação, para os que não a anestesiam sob a capa da habituação, constituiu-se, ao longo dos tempos, escândalo maior, seja pela via judaica, seja pela grega.

Pela judaica, pela natureza de Deus; pela via grega, pela natureza do homem.

Hoje, o pêndulo continua a oscilar entre os dois ímanes.

Tende, porém, a ser mais fortemente atrativo o íman grego, nestes tempos que voltam a reduzir, gnosticamente, o homem ao seu pensamento e à sua alma.

A encarnação e a sua celebração como natal continua a escandalizar estes tempos para quem alguns de entre nós dizem habitar corpos que não são os seus. Como se não nos fizéssemos do encontro indissociável entre matéria e forma, impossibilitada que é a existência de uma essência (forma) sem a sua materialização (matéria).

Hoje, celebrar o Natal volta (continua, talvez!) a escandalizar porque se aceitou como verdadeira a afirmação de que alguém pudesse pensar-se sem se pensar no aqui e agora. O poder que tem o pensamento de voar convenceu alguns de que o voo fosse uma abstração e não movimento do pensamento concreto de alguém, situado e situável. O pensamento é sempre de alguém, com toda a sua história, feita de chão e habitar lugares concretos. É identidade feita caminho, feita de história, de tempos e lugares finitos de que se guardam lugares vividos, para abrir, antecipando, lugares a poder viver. Mas é um sujeito concreto, real, corporeamente real, que mora o passado, o presente e se lança para o futuro. É indissociável do seu realizar-se concreto.

Mas o íman grego continua a atrair…

O escândalo cristão continua a dar atualidade ao anúncio de que ‘hoje nasceu-vos o Salvador’, que é o verdadeiro ‘Emanuel’, ‘Deus connosco’. Apesar de instados a não temer, continuamos a ter medo e a recusar…

Aos nossos olhos de vidas tão curtas, 2000 anos já seriam tempo suficiente para se esperar que o escândalo se tivesse suplantado. Mas Deus é paciente e, aos seus olhos, nunca é tarde.

Deus continuará a precisar de nos anunciar, pela voz daquele que traz a mensagem, que, de uma só vez, Ele mesmo encarnou. Não como quem reencarna, para o repetir vezes sem conta, mas como quem assume, de uma só vez, de forma singular e irrepetível, a história única do encontro entre o Eternamente Outro e aquele em quem quis refletir-se como imagem e Sua semelhança. Os primeiros cristãos sabiam da natureza escandalosa de tão denso mistério e das suas implicações para o reconhecimento da unidade indissolúvel do humano. Por isso o quarto evangelho utiliza o termo grego ‘lógos’ (cuja tradução para português por ‘Verbo’ – do termo latino ‘verbum’– atenuou a força do significado), em que se congregam ideias como a de ‘palavra’, ‘pensamento’, mas também ‘ação’ e, numa densificação da etimologia, podemos chegar à ideia de ‘reunir’, ‘recolher’, ‘juntar’ (‘Logos’, in Logos, vol. 3, p. 475). João sabe que Aquele que ‘recolhe’, junta, reúne’ é, Ele mesmo o ‘Reunido’.

No mistério do Natal, afirma-se, enfim, que a realidade é toda ela - face às forças que pretendem cindir, separar, dividir - intrinsecamente simbólica, isto é, agregadora, unitiva. O Natal supera, por isso, a tentação de Adão: queria ser, unidimensionalmente – só ele, fechado em si, autossuficiente, uma só dimensão. O Natal é a explicitação de que a realidade se define, essencialmente, como unidade da alteridade, como encontro, como ‘lançar juntamente’ e não como separação.

É por isso (e precisamente por isso!) que a religião que nasceu deste mistério fundamental foi a criadora da ideia de pessoa. Não somos indivíduos fechados, autossuficientes, mas ‘pessoas’, seres intrinsecamente definíveis a partir do encontro, do ver-se e compreender-se a partir do tu.

Tudo isto está em causa, nestes tempos em que o Natal voltou a densificar-se como escândalo.

Verdadeiramente, é preciso voltar a anunciar que um Salvador nos nasceu, de uma vez por todas, para nos salvar do risco e da tentação da divisão, da dissolução da unidade incindível que define o ser humano, feito de ‘húmus’, de terra, de pés no chão real… Somos o que Deus quis ao criar-nos como Adão: imagem e semelhança no facto de sermos relação, encontro, real e feito do pó e da terra onde nos realizamos. Somos um fazer-se… Não um pensamento e alma imutável e definitivamente realizada e implantada num corpo.

O Natal restaura a humanidade como humana, contra a sedução dos ímanes judaico e grego.

quarta-feira, dezembro 14, 2022

Natal | Uma graça de Deus

 Habituámo-nos à ideia de que o que respeita à teologia é da ordem do ‘dever ser’. Aliás, um dos conceitos que a filosofia mais associa à ideia de Deus é a de ‘necessidade’ compreendida como o que ‘é e não pode não ser’.

O Natal tem, perante esta ideia de Deus, uma novidade que nunca se esgota. (Como, aliás, acontece com o que a sabedoria cristã sempre designa como mistério: tocamos nele, mas muito nos escapa, tamanha é a sua densidade.)

E essa novidade designamos como ‘uma graça de Deus’.

Poucas línguas permitem o subentendido que nos reserva este aforismo: ‘uma graça de Deus’.

Prontamente, lemos ‘um dom que Deus nos oferece, sem que o mereçamos’. E é-o, de facto. Mas considerar o Natal ‘uma graça de Deus’ tem, na língua portuguesa, uma outra linha semântica que nos passa, por vezes, despercebida. O Natal é ‘um gracejo de Deus’, uma ‘graça’, como quem nos desconcerta. Um momento de ‘humor’ que nos ilumina um beco sem saída. Tal como o humor, aliás!

Sim, o Natal é também um sinal do ‘humor’ de Deus.

O humor com que tantas vezes se nos propõe que enfrentemos a realidade dura e sombria. O humor com que, perante a teimosia de Jonas, Deus transforma o mar num cenário de uma comédia de ‘escapo e apanhas-me!’. O humor daquela anedota judaica que me chegou pela mão de Tomas Halík, no seu mais recente ‘a tarde do cristianismo’.

“[…] uma mulher reclama por Deus durante anos não ter respondido às suas petições para ganhar a lotaria. Diz-lhe o rabino: «Mas Deus já te respondeu! A Sua resposta foi ‘não’.” (T. Halík, A Tarde do cristianismo, Paulinas Editora, p. 249). Deus quer que aceitemos o seu Humor, mas nós temos mau humor e só queremos que Ele faça como exigimos…

Não procuro, aqui, fazer um jogo fácil de palavras, concluindo que Deus seja, não apenas, Amor, mas também Humor.

Sê-lo-á, certamente, não porque deva reduzir-se o mundo a uma grande anedota, mas guardando, antes, do humor o que ele tem de mais essencial e crucial: o humor é sempre o desconcertante, o que desperta a alegria, o que faz disponibilizar, para o inesperado, o coração empedernido.

O humor com que Deus desbrava a escuridão da noite do mundo, para se fazer nascer, frágil e despojado, numa manjedoura, não é apenas um ‘é assim porque tinha de ser’. É, antes, uma surpresa, uma desbragada gargalhada perante os fortes do tempo e do mundo, convencidos de que tudo teria de permanecer como sempre fora até então.

O Natal de Belém, o verdadeiro Natal, é um acontecer da surpresa, porque o que é ‘graça’ é ‘de graça’. Pois, como dirá, pouco mais tarde, S. Paulo, ‘onde abundou o pecado superabundou a graça’. Deus dá gratuitamente… e sorri, porque sabe que as sombras e o abismo não vencerão.

O humor do Natal é, por provir de Deus que é Criador, uma afirmação da condição do mundo criado. O dinamismo do mundo faz-se do gerar coisas novas onde há surpresa. O novo emerge como um momento de humor, de desconcerto.

Veja-se o eclodir da vida. Cada novo rebento é um sinal de júbilo, um desconcerto de vitória sobre a morte.

Na linha de um grande pensador e teólogo do século XX, Teilhard de Chardin, poderíamos afirmar que toda a evolução, que se encaminha para a Cristogénese, só é possível se houver este acontecer de momentos de novo, de desconcerto que surpreende e em que a novidade pode eclodir. Até a física contemporânea evidencia, com as teorias do caos, - que, na aparência se afiguravam a negação do lugar do transcendente, - abre caminho a um outro olhar sobre a realidade que é, afinal, um estado de permanente milagre.

O mundo espanta… O mundo surpreende… O mundo desconcerta… E emerge o novo!

A criatura participa da realidade de Deus que é novidade constante e que, no tempo, e num tempo concreto, desconcertou, rebaixando-se à condição da criatura para lhe revelar Quem era e quem ela própria era, afinal.

E será fácil, então, percebermos que Deus também seja humor porque o Amor que Ele é (não apenas ‘tem’) gera sempre coisas novas, porque o amor é fecundo em si mesmo.

O emergir de coisas novas é ‘graça’ que faz inundar de riso o mundo e o tempo.

E o mal, a escuridão e o abismo já não terão a última palavra nem voz.

Porque Alguém, antes de todos os outros, ‘achou graça’ e deixou-se encher da Graça!

quarta-feira, dezembro 23, 2020

Natal: ‘Amor’ ou ‘necessidade’?


O mundo, a realidade existente, nasce de uma longa, longa história de amor… do Amor.

Não considerar esta convicção como fundamento de tudo entrega toda a realidade à determinação de anónimas forças que tornam inexplicável o surgimento da consciência de si e da capacidade de decidir livremente. Do nada nada vem, sendo que o que existe só pode nascer no quadro da possibilidade de vir a ser, sem ter de o ser.

E só o amor possibilita a liberdade. Só o amor possibilita que o que é possa realizar-se ou, de todo, possa decidir-se a não existir. Mas é nesse mesmo lugar que do nada o Amor faz nascer nova vida e vida nova.

Quando, em 1970, o bioquímico francês Jacques Monod pretendeu resumir na disjunção ‘acaso ou necessidade’ o que estava em causa, quando nos dispomos a interpretar o mundo, o seu olhar fez-nos tomar como insofismável esta conclusão. Mas a redução não está na disjuntiva que ele nos ofereceu. Esta disjuntiva ainda não atingiu o cerne do olhar alternativo sobre a realidade.

No Natal, no mistério do Natal, percebemos que a alternativa não está entre os anónimos, e «a-subjetivos», ‘acaso’ ou ‘necessidade’, forças impessoais e sem vontade ou ‘rosto’. Como poderia possibilitar-se o surgimento da liberdade se a natureza do que é não passasse de um dos dois fundamentos aqui apresentados em alternativa?

Mas essa não é, de facto, a raiz do que existe. A alternativa não está aí.

O mal e o bem só se podem iluminar se o Amor for o fundamento do que é. De outro modo, nem o bem existe [tudo não passa de um ‘ter de ser casual ou predeterminado] nem o mal, como possibilidade de não realização pode ser chamado assim. Não passará de um outro rosto do acontecer impessoal e anónimo.

A tentação de, por antecipação e anacronicamente, ‘regressar’ à disjuntiva de Monod é profunda e emergiu, com frequência, na própria tradição cristã. A linha que colocou no centro da Encarnação de Deus a função de reparar o mal que a criatura provocara (designada como Hamartiocentrismo), linha que encontrou em S. Anselmo (ca. 1033-1109) o seu apogeu, padeceu deste mal. A encarnação (o Natal) parecia ter acontecido por ‘necessidade’ (exigência!) de reparação, como se o centro fosse cedido ao mal, ao pecado. Tentação somada à primeira tentação.

Outro modo nos interpela o Natal que adotemos. Toda a realidade, nascida do Amor e por isso com a têmpera do próprio amor (livre, aberta ao outro, em dinamismo de autorrealização frangível e em estreita dependência do outro…), é, desde o seu primeiro momento, sinal e marcada pela anterioridade do amor. Deus salva ao criar; Deus cria ao salvar. No criar e no salvar, a anterioridade está no Amor, não no acaso, nem na necessidade. Total anterioridade ao amor. Do que falava, aliás, Paulo ao dizer que ‘onde abundou o pecado superabundou a graça’ (Rom 5,20)? Graça é, aqui, o outro nome para um Amor que se define como pura gratuidade.

Não será o acaso o rosto, a máscara, o disfarce do Amor gratuito que surpreende e tem a imprevisibilidade própria da liberdade?

No Menino do Presépio resume-se toda a história do mundo: na sua fragilidade está descrita a natureza ‘agápica’ (de ‘Amor’) da realidade.

quinta-feira, dezembro 21, 2017

Natal: e a Transcendência transfigura a opacidade em Transparência


 A realidade é opaca. Parece incontornavelmente opaca e insuscetível de leitura. Demonstra-o a dificuldade em descortinar-lhe um sentido. Se assim não fosse, seria, porém e de modo paradoxal, difícil que se pudesse assegurar espaço para a liberdade. A obviedade do sentido não deixaria margem para a decisão. Mas, de facto, a realidade é, na aparência, opaca.
Caberá à decisão conferir-lhe um sentido e proporcionar-lhe transparência.
É este o quadro para o âmbito do que celebramos, no Natal. Nada é determinado, nada é óbvio. Tudo é resultante da decisão da liberdade. Primeiro, da liberdade de Deus; depois, da liberdade humana.
E isto é que torna tão brilhante e luminoso o que celebramos, em cada Natal. Não o determinismo e a inevitabilidade, mas a perene e surpreendente novidade da liberdade.
A opacidade da realidade pode ser a responsável por, naquilo que não diz respeito ao que é humano, termos a ilusão de que podemos determinar, com toda a precisão, as causas e prever, sem margem para erro, as consequências. Essa é uma ilusão que se vai apropriando de todos nós, numa sociedade tão incomodada com a novidade e a imprevisibilidade. Queremos tudo determinar; estamos seguros de que somos determinados (pelo sangue, pelos genes, pelas circunstâncias, etc…). Mas o Natal é a afirmação de que o humano transcende os determinismos. Vive numa realidade que o condiciona, mas é-lhe transcendente. Esta é uma das afirmações nucleares do mistério natalício. Sim, porque mistério não é, para a teologia, sinónimo de um enigma indecifrável que alguém acabará por reduzir a banalidade; mistério é, para a teologia, a condição densa da realidade que faz dela algo que podemos descortinar, mas que sempre nos escapa e que captamos, pouco a pouco, mas sempre indeterminável.
Ao encarnar na realidade mundana, Deus afirma, não só que não é Deus à maneira grega (impassível, distante e não confundível com o concreto), mas, pelo contrário, que é amor como, aliás, o é, de forma finita, o próprio ser humano. Se, como afirma Romano Guardini, «quem sabe de Deus conhece o homem», então, partindo dessa premissa, teremos de perceber que Deus não pode ser tão distinto da realidade que nada tenha a ver com ela. A natureza da realidade, enquanto criada por um Deus que concede à humanidade a condição de criatura à Sua «imagem e semelhança», faz com que algo do que o homem é tenha de provir de Deus. E esse algo é a sua condição de amor e liberdade, duas condições que se exigem, mutuamente: sem liberdade, não há amor verdadeiro; sem amor, não há liberdade, mas puro arbítrio.

Ao encarnar, afirmando-se como um Deus que não é, meramente, pura necessidade, Deus transfigura a realidade, respeitando a sua aparência de opacidade, mas concedendo ao Homem que a olha a capacidade de nela descortinar o que ela parece ocultar. Como bem recorda Leonardo Boff, no seu livro sobre «os sacramentos da vida; a vida dos sacramentos», a realidade, depois da encarnação de Deus, já não se satisfaz em respeitar a transcendência de Deus; ela própria transparece o dinamismo divino. E talvez essa seja a maior exigência do Natal para estes tempos: superar a convicção de que a liberdade esteja ausente da realidade. Quando novos gnosticismos parecem querer reduzir o homem a pura alma e esquecer a corporeidade, como se esta fosse a origem do mal; quando os transumanismos se propõem afundar a humanidade num esvaziamento de si, prescrevendo que a história real não faz parte da identidade, o nascimento de Deus na singeleza de um lugar concreto, com nome e história reais desafia a reconquistar a densidade da realidade e a respeitar a sua condição de identidade. Não somos seres abstratos; somos e realizamo-nos na concretude de cada agora. Nascemos num aqui e agora que nos concretizam. E isto faz da realidade uma transparência: na história dos homens transparece a história do encontro entre Deus e as suas criaturas. A realidade não é vítima de umas quaisquer forças ocultas e deterministas: é uma história de encontros de liberdades. O Natal é a boia de salvação da humanidade face a toda a tentativa de desumanizar o mundo e de o tornar opaco. O opaco da realidade já não é uma efetiva condição insuperável, mas a condição da liberdade e do respeito pela decisão. Mas há quem queira que ela permaneça opaca e devedora de ocultos determinismos. Celebrar o Natal é celebrar a certeza de que o mundo transparece o Amor e, com ele, a Liberdade. Celebrar o Natal é proteger o Homem concreto, realizado no aqui e agora da história, de todas as utopias vagas e vãs que esmagam em nome de um Abstrato humano, ainda não realizado. Como bem recordava Gabriel Marcel, o que somos é «homo Viator», homem em caminho, peregrino, ainda e sempre incompleto. Destruir o homem concreto em virtude de um idealizado Homem abstrato é desrespeitar a condição peregrinante da humanidade. Queríamos ser sem termos de ainda não ser. Mas o que somos realiza-se como um realizar-se em caminho. Porque a encarnação deu-se no concreto de uma criança, acolhida numa família e nela realizada em respeito pelo caminho próprio de cada humano. O fazer-se é já parte da realização. Não há, por isso, Páscoa sem Natal. Não há ressurreição sem o acolhimento da condição (quase) opaca do mundo; porque é na opacidade do mundo que transparece a densidade da realidade para os olhos que a olhem como quem se sabe peregrino e a caminho.

quinta-feira, dezembro 24, 2015

Uma parábola do Natal - Encarnação: quando Deus inundou a humanidade





Havia um homem que nunca vira o mar. Era esta a sua maior tristeza. Mas temia, também, que, de vê-lo, com ele tanto se fascinasse que já não desejasse regressar.
E essa tristeza avolumava-se-lhe na alma.
Já bebera de muitas águas, já vira muitos rios, já se fascinara com belos lagos. Mas nunca se satisfizera com tal, porque nenhum deles era o mar.
Os seus amigos, de tanto lhe ouvirem esta tristeza, decidiram trazer-lhe o próprio mar, a tornarem-no presente, na sua vida, pois também eles já sabiam o que era o mar. Já outros se tinham decidido a mostrar-lhes quão belo ele era. E nunca mais desejaram nada que fosse menos do que o mar.
Juntos, deslocaram-se a uma das praias, levando uma grande tina que mergulharam nas águas calmas de uma baía. Com a água, vieram, também a areia, pequenos peixes, algas e o odor. Ah, o odor do mar!
Com cuidado, para que a grande tina de água não se entornasse, regressaram à casa do amigo.
Como se lhe abriram os olhos! A água era brilhante, cheia de cores e brilhos a que o sol conferia matizes diversos. E o cheiro a iodo... E os peixes e todo um manancial de vida salgada... Tudo aquilo era mar. Nada lhe faltava.
Do mar só precisava, agora, de conhecer a imensidão porque ali estava tudo o que era o mar. O encontro com a imensidão ficava, porém, reservado para quando a vida, de tão inebriada com a memória do mar, se cansasse e se decidisse a regressar ao infinito oceano. Até aí, restava viver com a saudade de uma memória do futuro: a do eterno.
E era Natal!

quinta-feira, dezembro 19, 2013

Natal: iniciativa gratuita de Deus


Um dos termos fundamentais de toda a teologia cristã é o de «graça». Graça poderia ser considerada como que a adjetivação de toda a ação divina; definida como gratuita, sem ser devida a qualquer mérito. Apesar desta centralidade da graça, tendemos a ver os núcleos da fé cristã num registo em que a ação divina parece ir a reboque de motivos que parecem colocar a iniciativa divina em segundo plano. Assim aconteceu, ao longo da história, com a interpretação da encarnação de Jesus Cristo. Uma linha teológica, que teve em S. Anselmo o seu máximo expoente, designada como «hamartiocentrismo», colocou no centro de toda a ação divina a reparação do mal feito pelo pecado. A ação de Deus, neste quadro, parecia dever-se, não a iniciativa sua, mas à necessidade de corrigir o que o pecado destruíra. A graça parecia ficar subjugada à força do pecado. O pecado tornava a ação de Deus um dever e não um desígnio de amor. Mais ainda; esta linha de interpretação, que ainda continua muito presente em alguma reflexão cristã, a ação criadora parecia um acontecimento diverso do processo salvífico, como se criar não fosse, já por si, manifestação amorosa de Deus e, por isso, salvação. Na conceção hamartiocêntrica, um era o processo criador, outro o processo salvífico, reduzido à dimensão de redenção. Bem certo que muitos e grandes nomes da teologia se situaram neste registo, porém, a dinâmica bíblica situa-nos noutro quadro. Na verdade, particularmente desde o momento do exílio babilónico, o povo bíblico toma consciência de que o Deus da salvação é, simultaneamente, o Deus criador.

Devemos ao beato e teólogo Duns Scoto, franciscano dos séculos XIII-XIV, reconhecido como «doutor subtil», a pertinência de situar o acento onde sempre deveria ter estado. Não é ao pecado que se deve a ação salvífica de Deus. A encarnação, como expressão máxima da bondade de Deus, não é devida ao pecado, mas ao enorme amor de Deus, que expressa, deste modo ímpar, a gratuitidade da sua ação. Duns Scoto chega a supor que, mesmo que o pecado não tivesse sido originado, desde que o homem é humano, a encarnação continuava a fazer sentido, pois a sua motivação não é, primeiramente, a redenção, mas a manifestação da salvação definitiva que é a participação do amor de Deus.

Esta reflexão pode afigurar-se, para muitos, como uma subtileza teológica, porém, as suas implicações são enormes, se tivermos em conta que a práxis, a ação da Igreja denuncia convicções teológicas. O centro da sua ação deve ser o anúncio do amor de Deus, antes de ser uma proposta moral, mesmo que tal se depreenda. É, aliás, este o registo da perspetiva da moral paulina, designada como moral do indicativo. A moral é um segundo momento, pois o primeiro é o anúncio. Uma tarefa que nem sempre esteve clara, na ação missionária da Igreja, como é bem visível nos relatos da dificuldade com que se depararam os missionários, no século XIX, quando se encontraram perante tribos onde não era clara a noção de «culpa». Porque o centro estava no pecado, o desafio parecia intransponível e o anúncio impossível. Mas, se o centro estivesse no anúncio do amor de Deus, tal dificuldade deixava de fazer sentido.

Este é o centro onde deve colocar-se, em cada Natal, a contemplação do presépio. Ali, não se expressa, primeiramente, um remendo de Deus, mas a iniciativa absoluta do amor que não é exigido por nada. Assim deverá entender-se o adágio paulino de que «onde abundou o pecado, superabundou a graça»., não como quem constata que foi ao pecado que se deveu a força da graça, mas, sim como quem verifica que, antes do pecado, a graça já o era como tal: gratuita. Dizem-no, de modo claro, os místicos: não é por nos sentirmos pecadores que nos aproximamos de Deus, mas antes, perante a grandeza e gratuitidade do amor de Deus que nos sentimos pequenos e frágeis, pecadores.

Se este for o centro, o Natal renovará, em cada um, no hoje da celebração, o reconhecimento de que, como criaturas de Deus-Amor, fomos feitos para o amor. E quando o amor não é o código genético da nossa natureza e ação, então, desumanizámo-nos.

Luís Manuel Silva

domingo, dezembro 02, 2012

Jesus, presente de Deus



Se é verdade - como diz Pessoa, o poeta que tão genialmente soube fazer da alteridade a condição para se dizer a si mesmo - que a língua portuguesa é nossa pátria, valha-nos, nesta hora de tantas crises, a riqueza do idioma para compensar outras pobrezas. Na realidade, em nenhuma outra língua das que se nos disponibilizam se conseguiria exprimir com tal força a densidade que pretendemos reunir no título que serve de pretexto a este texto. Se o quiséssemos dizer em francês, em inglês, em espanhol ou uma outra das que se nos acercam, não saberíamos se dizer «présent», «presente», «present» (para exprimir a dimensão temporal) ou se cadeau, regalo ou gift (para repercutir a dimensão de «dom» e «oferta»). Mas, na nossa pátria, é impossível fazer-se a oferta sem se lhe associar a nossa presença, que é tempo e lugar de acontecimento.
Tal densidade linguística parece conferir à nossa língua o estatuto de idioma teológico, por tão resolutamente reunir a densidade do acontecer salvífico.
O acontecer, na história, da doação de Deus enquanto oferta não devida, mas de vida, expressa o desejo de Deus de pretender tornar-se contemporâneo do homem, não apenas rebaixando-se, mas, mais ainda, elevando o homem. É na glorificação do homem que se manifesta a divindade e não pela sua aniquilação. Apesar de tantas vezes negada pela prática de muitos cristãos, que se convenceram de que a afirmação de Deus teria de operar-se pela negação do humano (incorrendo num adopcionismo latente), esta é uma verdade que faz parte do núcleo cristão que, desde a primeira hora, reconheceu no homem Jesus a presença e manifestação do Cristo divino. Assim, o acontecer da encarnação não expressa a anulação do que há de humano para o substituir a fim de que aconteça o divino, mas antes a afirmação em cinzel de que a «glória de Deus é o homem vivo» (Santo Ireneu).
O acontecer da encarnação se é, por isso, uma autêntica manifestação de quem é Deus, enquanto ser que se relaciona (que é marcado pela pessoalidade, que se define como ser de relação, como amor, como trindade), é ainda mais acontecimento que revela a enorme dignidade do humano, repto para tempos que pretendem fundir no indiferente e na mera individualidade não relacional.
Assim o expressa, de forma inigualável Andrés Torres Queiruga, num seu texto sobre a ressurreição, recolhido no livro ‘Quem é/quem foi Jesus Cristo?’, recentemente publicado: «Entre as categorias de que dispõe o pensamento humano, só as pessoais podem ajudar a compreender – ainda que de bem longe – esse mistério pelo qual a máxima comunhão com Deus não conduz à dissolução do indivíduo, mas à sua máxima afirmação. Trata-se dessa única e maravilhosa dialéctica do amor que tão bem exprimiu Hegel, ao afirmar que consiste numa relação estranha, na qual «ser no outro» constitui a verdadeira forma de estar consigo mesmo; que diferencia e afirma na mesma medida em que une; que faz com que quanto mais se dá mais se tem. E o mesmo tinha dito, com mais intensidade, se possível São João da Cruz, falando ousadamente de uma reciprocidade tão absoluta entre Deus e a criatura que, assim como a pessoa humana se recebe de Deus, também Deus se recebe dela.»
O presente temporal de Deus dá pelo nome de bem-aventurança eterna, sendo «graça» o nome com que se reconhece o presente oferecido por Deus. Termos que desmontam toda a tentação de sustentar este encontro no dever ou na obrigação. A sua matriz é, antes, o amor, que só o é se for graça – tão gratuito como pleno de humor, pois tal nos permite descortinar a nossa pátria Língua! O humor da felicidade definitiva!

Luís Manuel Pereira da Silva

'Os Sete Dias da Criação' |11| Luís M. P. Silva - 11 – O segundo dia… a preparar o terceiro!

  (‘Os Sete Dias da Criação’ | Rubrica dedicada ao diálogo entre ciência e religião) Artigo originalmente publicado na revista 'Mundo Ru...