(‘Os Sete Dias da Criação’ | Rubrica dedicada ao diálogo entre ciência e religião)
Artigo originalmente publicado na revista 'Mundo Rural'
Luís Manuel Pereira da Silva*
Avancemos para o segundo dia….
Dia que nos reserva algumas curiosidades habitualmente não constatadas.
Em primeiro lugar, observa-se – como refere G. V. Rad – que se sobrepõem, no relato deste dia, as características de duas tradições narrativas: numa, mais antiga, a obra criadora é realizada, diretamente por Deus – ‘Deus fez o firmamento’-, enquanto na mais recente, a obra realiza-se por ação da palavra – ‘Deus disse’[1].
Um segundo detalhe curioso só pode constatar-se ao cruzar a leitura desta narrativa com a leitura de narrativas contemporâneas desta, mas escritas pelos povos envolventes (exercício que já temos vindo a realizar…). Nesse cruzar de leituras, observa-se que ‘em Enuma Elish [mito da criação babilónico que, certamente, os autores bíblicos conheciam] Marduk [o Deus mais poderoso de todo o panteão babilónico] criou o céu como uma abóbada, usando os despojoso da deusa primordial Tiamat como material de construção. Esta abóbada retém, por cima dela, águas que de vez em quando se precipitam através dela, em forma de chuva. O Génesis também concebe o céu como uma abóbada, mas para a criar, Deus não teve de matar ninguém. Bastou a sua palavra.[2]’
O segundo dia reserva-nos, para além disto, uma particularidade que se constatará ao concluir a leitura de toda a narrativa do autor sacerdotal[3] (Gn1,1-2,4a). Para dar conta dessa particularidade, repare-se que, ao fim do terceiro dia (o seguinte), o autor bíblico diz que ‘Deus viu que isto era bom.’(v.12); no quarto dia, diz ‘E Deus viu que isto era bom.’ (v.18); no quinto dia, diz, duas vezes: ‘E Deus viu que isto era bom.’ (v.21 e 25); e, no sexto, após completar a obra, que inclui a humanidade, dirá: ‘Deus, vendo toda a sua obra, considerou-a muito boa.’ (v.31).
Curiosamente, porém, após concluir a obra do segundo dia, o autor bíblico não qualifica a obra de Deus. O autor não refere que Deus constate que a obra é boa…
Santo Agostinho regista, a propósito deste passo da obra criadora: ‘Não me recordo de que os maniqueus costumem criticar este passo.’ (Este silêncio dos maniqueus é interessante. Talvez eles próprios se sentissem surpreendidos com a expectativa deixada pelo autor bíblico que omite apreciação da obra de Deus…)
E acrescenta o Bispo de Hipona: ‘No entanto, […] tendo a matéria informe sido designada pelo nome água, esta divisão das águas, colocando algumas acima do firmamento e outras abaixo, não significa outra coisa, creio, que a separação feita pelo firmamento do céu entre a matéria corporal das coisas visíveis e a matéria incorpórea das coisas invisíveis.[4]’
Como interpretar, então, esta ausência de qualificação da obra?
D. António Couto, que nos propõe tradução sempre muito cuidada dos termos, repercutindo o espírito concreto da língua hebraica[5], recorda, em nota de rodapé que ‘a exegese judaica explica assim esta ausência da anotação da bondade na obra do segundo dia: «Não foi neste dia que a obra da água ficou acabada!»[6]’. Como o mesmo D. António refere, ainda está em curso da ‘engenharia da água’, que só se completará no terceiro dia.
Cruzando todos estes dados em jogo, acima enumerados, podemos recolher, para a análise que temos em curso, alguns elementos significativos.
Não basta que haja uma separação clara entre o âmbito divino e o humano para que a ordem seja assegurada. Só concluída a obra de separação entre as águas e a terra seca, no lugar onde o Homem pousará os seus pés, é que a ordem ficará estabelecida. Dito de outro modo: não basta que se separem o sagrado e o profano; será necessário que, no âmbito do profano também se cumpra a ordem devida.
Um segundo elemento interessante a reter tem a ver com a cosmologia (o modo de pensar o mundo) implícito nesta narrativa. O autor bíblico não pretende vincular o leitor a uma determinada compreensão (quase científica). A ser assim, teríamos de ficar vinculados à cosmologia que tão claramente nos descreve D. António Couto (referida na anota abaixo). O autor bíblico repercute a cosmologia do povo bíblico para, com ela, enunciar, por um lado, que ‘habitamos um mundo bom, criado por um Deus bom. A substância última de tudo o que existe não é a violência, mas a bondade insuflada pelo ato criador de Deus. Podemos viver felizes nesta Terra. Deus não supõe nenhuma ameaça.’[7], mas também que, por outro lado, não basta constatar a bondade desejada por Deus: é necessário que, no acontecer real, se preserve a ordem, seja a vertical (entre Céu e Terra), mas também a horizontal (entre ás águas e a terra seca). Sendo esta a mensagem a colher, é preciso, então, ter em conta que, ‘separadas as águas entre o sagrado e o profano’, à ciência e à teologia caberão missões distintas, mas que a nossa reflexão permitirá perceber que não são indiferentes, conflituantes ou, sequer contrastantes, mas convergentes e complementares. ‘A ciência investiga os processos pelos quais o universo se foi desenvolvendo e como a vida evoluiu no planeta Terra: pergunta-se como sucederam e sucedem as coisas. Filósofos e teólogos interrogam-se porquê. Como se perguntava o matemático, físico e filósofo Leibniz há mais de trezentos anos, «por que razão existe alguma coisa em vez de nada?»[8].’
Sugestões bibliográficas
D. António Couto, O livro do Génesis, Leça da Palmeira, Letras e Coisas-livros, 2013.
Gerhard von Rad, El libro del Génesis, Salamanca, Ediciones Sígueme, 19887.
Alberto de Mingo Kaminouchi, A Bíblia do princípio ao fim: um guia de leitura para hoje, Apelação, Paulus Editora, 2021.
Santo Agostinho, Da interpretação do Génesis: dois livros contra os maniqueus, Prior Velho, Paulinas, 2021.
Xavier Léon-Dufour, Vocabulário de Teologia Bíblica, Petrópolis, Vozes, 20027.
[1] Cfr. Gerhard von Rad, El libro del Génesis, Salamanca, Ediciones Sígueme, 19887, p. 63.
[2] Alberto de Mingo Kaminouchi, A Bíblia do princípio ao fim: um guia de leitura para hoje, Apelação, Paulus Editora, 2021, p. 54.
[3] ‘Autor sacerdotal é expressão com que os exegetas designam os redatores da passagem bíblica que estamos a analisar. Obtém a sua designação do facto de se atribuir a sacerdotes (eventualmente regressados do exílio, na Babilónia) e que terão redigido partes significativas do livro de Génesis e de outros livros do Pentateuco, no século VI-V a.C.. Este ‘autor’ (não é, certamente, um autor individual, mas uma ‘escola’) é, muitas vezes, identificado com ‘P’, aludindo à palavra alemã ‘Priester’ (sacerdote).
[4] Santo Agostinho, Da interpretação do Génesis: dois livros contra os maniqueus, Prior Velho, Paulinas, 2021, p. 69.
[5] ‘«Firmamento» diz-se, na língua hebraica, raqia’, que deriva do verbo raqa’, na forma qal, que é considerado como a pele de uma tenda ou uma lâmina trabalhada de cristal reluzente, mas que o mais das vezes significa «tornar sólido», que é o significado que tem nesta passagem. E é «firmamento», «firme», porque se apoia em colunas sólidas, «colinas» ou «montes eternos», que o sustentam (Jb 26,11; cf. Dt 33,15; Hab 3,6). Sobre o formamento estão as águas superiores, conservadas em reservatórios (Jb 38,22), de onde podem sair através de comportas (‘arbôt), formndo a chuva. Quando o firmamento se apresenta sereno, tem uma cor azul, que deriva das águas de cima. Sobre o mar celeste, eleva-se uma vasta cúpula, formada de três, sete ou dez céus, chamada «os céus dos céus» (shemê hashshamaîm) (Dt 10,14), habitação inacessível de Deus. Segundo a mentalidade dos mestres do Talmud, estes céus formam a chamada «escada cósmica». A espessura de cada céu é igual a uma viagem de 500 anos, e Deus senta-se no sétimo céu, ou último céu, caso se trate de mais. Em suma, os Hebreus vêem o universo como uma casa composta de três partes: o plano subterrâneo forma o she’ôl: o plano terreno a superfície terrestre; as paredes as «colinas eternas»; o tecto a cúpula celeste; o terraço o «céu dos céus». Mas a engenharia das águas continua no terceiro dizer de Deus. Também por isso a menção da bondade da obra feita é diferida para o final do terceiro dizer de Deus.’ D. António Couto, O livro do Génesis, Leça da Palmeira, Letras e Coisas-livros, 2013., pp. 31-32
[6] Cfr. Ibidem, nota 77, p. 31.
[7] Alberto de Mingo Kaminouchi, A Bíblia do princípio ao fim: um guia de leitura para hoje, Apelação, Paulus Editora, 2021, p. 58.
[8] Ibidem, p. 59.
*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano', 'Ensaios de liberdade' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'