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sábado, dezembro 07, 2024

Sabes, leitor... | 12 | Marca de água do livro de Mariolina Ceriotti Migliarese, 'O casal imperfeito: e se também os defeitos fossem um ingrediente do amor?'

 

Rubrica ‘Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página’** | Marca de água de livros que deixam marcas profundas
Parceria: Federação Portuguesa pela Vida e Comissão Diocesana da Cultura

Luís Manuel Pereira da Silva*

O autor e a obra
Mariolina Ceriotti Migliarese, O casal imperfeito: e se também os defeitos fossem um ingrediente do amor?, Apelação, Paulus Editora, 2022.

Mariolina Ceriotti Migliarese conjuga dimensões raramente reunidas na mesma pessoa: o suporte científico (é médica, neuropsiquiatra infantil e psicoterapeuta de adultos e casais), o realismo de quem conhece o ‘barro de que somos feitos’ (é casada desde 1973 e mãe de seis filhos), uma consolidada base teórica de antropologia [refletida na sua prolífica obra publicada: em português, encontro edições de ‘O casal imperfeito’ e de ‘erótica e materna: viagem ao universo feminino’, mas contam-se, ainda, entre os seus títulos, ‘Querido médico. Respostas a famílias imperfeitas’ (2013), ‘Masculino. Força, eros, ternura’ (2017), ‘Casa comigo, novamente!’ (2020), ‘Alfabeto dos Afetos’ (2021), ‘Perfeitos imperfeitos’ (2022) e ‘Pais e Filhos’ (2023). É coautora dos livros ‘Apoiando a Paternidade’ (Franco Angeli, 2011), ‘Pré-adolescência’ (Franco Angeli, 2013), ‘Ser Mulher líder’ (SDA Bocconi, 2017)], e a atitude de sonho de quem não se rende ao já conquistado e adquirido (é crente!).

Conheci esta obra de Migliarese, que li entre os dias 6 e 16 de setembro de 2022, quando escrevia a unidade letiva dedicada a ‘o Amor e o Amar’, editada pela Fundação SNEC, e na qual fiz eco de ideias e citações. Revi-me e regozijei-me por ver, com a força de letra gravada em texto escrito, muitas das ideias que venho consolidando no meu pensamento e, inclusive, escrevendo.

Entre elas, a ideia estruturante de que devemos pensar-nos a partir da finitude e da fragilidade, como defendi, em 2008, em tese de mestrado e que repercuti no livro ‘bem-nascido… mal-nascido…’ (edição da Tempo Novo, 2019). Essa é uma das ideias-alicerces deste livro: somos imperfeitos e é a partir da imperfeição que devemos pensar-nos e pensar as nossas decisões. Muito do que hoje nos ‘deprime’ nasce da ilusão da perfeição já real.

Grande ponto de partida!

Marcas de água 

(o que fica depois de se deixar o livro)

 

Migliarese resiste, neste livro, àquela que considero ser a ‘grande tentação’, a que chamarei ‘sedução’, do nosso tempo… Entre as grandes ‘seduções’ dos discursos contemporâneos está a presunção da descoberta d’a’ resposta numa dimensão por si absolutizada e elevada à condição de ‘resposta definitiva’. O Homem ou é ‘corpo’, ou é ‘espírito, pensamento; o Homem ou é o agora (a emoção, o sentimento), ou é a sua história (o que foi, o seu passado) ou o que há-de ser (o seu futuro, o projeto). OU… Ou…
Talvez a esta condição contemporânea se deva a tão acentuada clivagem dos discursos. Valerá a pena recordar o que a história do cristianismo de matriz católica sempre evidenciou perante esses discursos. Viu-os como ‘escolha’, mas, como ‘escolha’ que absolutizava uma só dimensão, não reconhecendo neles o mérito de ‘ortodoxia’, ‘opinião correta, acertada’. Olhou-os por isso como ‘haeresis’, isto é, escolhas, opções, mas com os limites próprios dessas escolhas de apenas partes. Era preciso olhar o todo.
Migliarese olha o todo.
Não olha para o ser humano apenas em parte de si. Não escolhe o ‘espírito’ contra a carne (a corporeidade) ou a carne contra o espírito, sedutoras tentações de todos os tempos e hoje revisitadas como transumanismo e outros poderosos movimentos antropológicos, essencialmente desencarnados, ou como monismos materialistas que reduzem o humano à horizontalidade do visível.
Antes, vê o Homem como um todo, projetado para além de si, mas também essencialmente imperfeito.
Não o olha só enquanto presente… ou enquanto apenas passado… ou, ainda, como apenas futuro!
O humano de MIgliarese reside na tensão entre os três vetores do tempo. É memória, atualizada na decisão que se repercute, necessariamente, em consequências. Donde, a responsabilidade!
E é por isso que o texto de Migliarese nos contagia e prende.
Vemos, nas histórias que conta, as mil e uma histórias de reais mil e uma noites de luz e treva que domiciliam as nossas existências. Histórias em que o realismo de nos sabermos finitos, frágeis, débeis, imperfeitos, poderia ser a resposta perante as ilusões e idealizações em que o ‘sonho’ redundou em pesadelo. Aceitarmo-nos imperfeitos e, por isso, carentes do real perdão que deve fazer parte das histórias que se querem para sempre, é condição para que se construam histórias perfectíveis e, por isso, nunca suficientemente perfeitas.
É particularmente belo o que diz sobre o perdão, que não é ‘esquecimento’ (denunciando mitos tantas vezes difundidos e responsáveis por tantos fracassos), nem minimização, nem um regressar ao ponto anterior, mas reconhecimento da gravidade da ofensa como condição para que o mal feito não continue a fazer-nos mal.
Neste livro, mora dois pressupostos que tenho vindo a repercutir em muito do que escrevo (e, por isso, tanto me revi nestas páginas): que a liberdade não é um exercício de legitimação do que pretende a vontade, mas a determinação de transcender o que se quer e que o amor é muito mais do que um sentimento, mas o envolvimento da pessoa toda, compreendida como inteligência, vontade e afeto, em que amar é a decisão profunda de acolher o outro e o pretender fazer feliz, sendo feliz nessa decisão.
Este livro, porque fala de casamento e da constituição da família, é, como seria de esperar, um convite. Não o convite para um momento efémero e fugaz, mas um convite a transcender a efemeridade de uma hora, sabendo que é na revisitação da decisão primeira, alimentada em cada dia, que se assegura a verdade do amor para toda a vida e de toda a vida.

 

Na mesma página que o autor (citações)

‘Quando nos apaixonamos, todos fazemos a experiência de que o amor pede um horizonte de eternidade: disso são sinais simples todas as poesias de amor e todas as canções, forma hodierna de poesia, que ontem como hoje nos acompanham sem mudanças substanciais, apesar do tempo que passa. Hoje, como no passado, canções e poesias falam do desejo de um amor que desafia o tempo, que nos faça sentir acolhidos por aquilo que somos, que vá além das aparências; falam do sofrimento profundo de quem é deixado, falam da aspiração profunda de um coração abandonado, mas confiante no outro.

Porque é que então é tão difícil mover-se no sulco deste desejo? Porque é que os casamentos não duram e se rompem tão facilmente? Mais ainda: porque é que nos estamos a encaminhar para um mundo em que as pessoas até renunciam ao casamento, preferindo fazer apenas investimentos modestos em pequenas histórias, em que cada um está muito atento em não se entregar demasiadamente ao outro para não ser ferido no futuro?

O casamento parece ter perdido o seu forte significado de promessa e de novidade e é visto pela maioria das pessoas como algo superado, inútil, se não mesmo falso e prejudicial para o amor entre duas pessoas. Considera-se que só em pouquíssimos casos particularmente afortunados seja possível continuar a amar-se durante toda a vida e que depois de um certo número de anos o mais provável que pode acontecer a duas pessoas casadas é manterem-se juntas «apenas por causa dos filhos», ou «porque se habituaram», cultivando uma estranheza progressiva em que cada um dos dois procura noutro lugar a verdadeira resposta aos seus desejos. Nesta lógica, parece que as pessoas mais honestas são as que não fazem promessas ventureiras de amor eterno, porque, se foram tão temerárias em se casar, tiveram depois «a coragem de se separar» assim que o sentimento se enfraqueceu ou se apagou.

Este livro nasceu do desejo de fornecer reflexões para se voltar a entender o sentido pleno de uma «relação para sempre» que o casamento deveria representar, e que infelizmente se perdeu: creio, com efeito, que não existe aventura humana mais profunda, envolvente e apaixonante do que a que se pode desenvolver na vida de duas pessoas que decidem seriamente unir-se até à morte.’ (pp. 14-15)

‘Hoje, o verdadeiro risco é o desaparecimento de todo o sentido da profundidade das coisas, privilegiando a quantidade das experiências em prejuízo da sua intensidade, e esta falta de espessura da experiência torna tudo mais aborrecido e frágil.’ (p. 16)

‘A vulnerabilidade das coisas, bem como das pessoas, é parte integrante da sua preciosidade e deveria levar-nos a procurar multiplicar as nossas capacidades para amá-las e delas cuidar. O medo, pelo contrário, leva-nos a afastar o olhar do que é frágil, a esconder o que é imperfeito em nós e a evitá-lo quando o reconhecemos presente no outro.’ (p. 16)

‘Nada daquilo que é complexo pode encontrar uma solução adequada se não aprendermos primeiro a alargar o olhar além do imediato e do contingente, para orientar os nossos passos para uma meta.’ (p. 19)

‘Encontrei uma frase perfeita para sintetizar o que é o coração do desafio que o casamento representa: unir, no quotidiano, os aspetos mais práticos e prosaicos da nossa vida com os mais elevados e espirituais. Não será este um desafio especial?’ (p. 22)

‘Hoje, como no passado, os filhos continuam a ter necessidade de que os adultos saibam tomar posição sobre questões importantes, não para homologar-se a eles, mas para ter um ponto de partida e de referência para poder amadurecer de modo adulto o seu pensamento. Os filhos devem conhecer os nossos valores e por que razão os consideramos importantes: isto permitirá evitar eventuais contestações, e obriga-los a pensar em vez de seguir simplesmente o que está na moda.’ (p. 28)

‘[…] nos últimos decénios modificámos as nossas imagens mentais e o nosso modo de «sentir» sobre muitos argumentos cruciais, e muitas das nossas opiniões sobre casamento, família, identidade sexual, valor do corpo e do sexo, valor da vida e da pessoas, se foram formando mais por sugestões progressivas do que através de uma verdadeira e aprofundada reflexão, capaz de nos levar a convicções realmente motivadas.’ (p. 33)

‘A carne liga-nos e determina-nos, mas também nos manifesta. Nós somos mais do que a nossa carne, mas também não podemos existir sem ela. O conhecimento que os outros têm de nós é sobretudo conhecimento da nossa carne, entendida como o que de nós aparece e se põe sensivelmente em contacto com o outro, com os seus lados agradáveis, mas também com os menos agradáveis.’ (p. 38)

‘O corpo que desejamos deveria ser inodoro, incolor e insípido: o corpo verdadeiro resulta embaraçante, e causa-nos preocupação pela sua neutralização para não termos que dele nos envergonhar. Usamo-lo como se fosse uma vestimenta, em vez de o habitar e o viver. […] «Somos» o nosso corpo ou «temos» o nosso corpo?’’ (p. 39)

‘[…] na vida das pessoas cada decisão e cada gesto colocam-se sempre dentro de uma história: nada se faz que não tenha em si o gérmen das suas consequências. Entre as coisas que se podem fazer, há gestos com consequências reversíveis, e há gestos definitivos, em que não se pode voltar atrás. A relação sexual é, por essência, um destes: o que acontece nunca mais pode ser cancelado, aquilo que dei nunca mais pode ser retirado. Se a relação com o outro fosse interrompida, o desconforto de ter entregado a minha intimidade a alguém que será conotado como um estranho permaneceria em mim.’ (p. 48)

‘A nossa cultura […] não gosta do que é definitivo e que empenha, e define como aborrecido e pesado tudo o que cria ligações e parece dificultar a mudança; é por isso que progressivamente se trabalhou para separar o sexo de qualquer possível consequência, para que seja possível vivê-lo como um ato reversível, não definitivo, nem empenhativo, e por isso mesmo «ligeiro» e divertido, com valências de tipo exclusivamente expressivas e lúdicas.’ (p. 49)

‘[…] a afirmação tão cativante e à primeira vista convincente segundo a qual devemos «ser livres de seguir o instinto» contém em si uma contradição terminológica: como era bem evidente às grandes culturas que nos precederam, não é na verdade necessária nenhuma capacidade particular nem exercício de liberdade para seguir os próprios instintos, que são biologicamente determinados e que biologicamente nos determinam. O instinto sexual, o instinto de conservação ou o de sobrevivência possuem uma força intrínseca tal que segui-los não exige nenhum exercício de liberdade.

O verdadeiro e difícil exercício reside no desenvolver a capacidade de dominar os instintos, para se ser, então sim, realmente livres de os seguir quando e como considerarmos uma coisa boa fazê-lo.’ (p. 53)

‘Aquilo a que somos chamados a aceitar responsabilidades diz respeito àquilo que voluntariamente fazemos como resposta a estas solicitações e a estes desejos: este é o verdadeiro campo no qual exercer de modo inteligente a nossa liberdade.’ (p. 54)

‘O homem e a mulher são muito diferentes até mesmo na sua expressividade sexual, no modo de experimentar o desejo e no modo de experimentar o prazer.’ (p. 56)

‘«Promessa» é uma palavra de grandíssimo valor na civilização ocidental: sobre esta palavra baseia-se toda a civilização judaico-cristã e o modelo antropológico que dela deriva, que se construíram nos séculos precisamente a partir de uma Promessa e da esperança confiante da sua realização. […] Com a perda progressiva do consenso à volta do modelo de antropologia cristã, também o valor das promessas, da confiança recíproca, do vínculo constituído pela palavra dada e recebida foram-se extinguindo e perdendo peso: o valor da promessa (ligado à partilha de uma posição ética que vê a pessoa no centro de toda a relação) foi sendo substituído pelo valor do contrato (que põe no centro não já a pessoa, mas o valor de um bem), e o sentido de culpabilidade por ter infringido uma promessa (punição «interna» que nós mesmos nos infligimos quando faltamos a um dever que sabemos ser objetivamente importante) muitas vezes não parece já necessário, porque se considera suficiente, perante a quebra de um contrato, pagar ao outro com recompensas de natureza económica.

Mas poderá uma compensação económica pagar real e plenamente a quem é vítima da quebra unilateral de um acordo importante?’ (pp. 70-71)

‘[…] escolher é o que nos faz livres, mas escolher é algo muito mais envolvente e complexo do que seguir um impulso, porque compreende em si sentimento, inteligência e vontade.’ (p. 98)

‘De um ponto de vista psicológico, a escolha de assinalar com um rito publicamente partilhado a passagem a um «nós» reveste uma importância crucial, porque comporta uma mudança decisiva do centro afetivo da relação: enquanto a relação entre o eu e o tu do casal permanecer confinada à esfera privada, de facto, todo o acento é posto sobre cada um individualmente e joga-se à volta de identidades individuais; a escolha de torna pública a ligação e de exigir um reconhecimento social coloca o acento sobre a nova e pequena comunidade, marcando o nascimento de um novo sujeito que é, ao mesmo tempo, social e afetivo.’ (p. 106)

‘[…] entre as muitíssimas mudanças da nossa época há uma fundamental, sobre a qual nem sempre se refletiu bastante: trata-se da revolução copernicana constituída pela difusão exponencial de instrumentos contracetivos e de como isto modificou radicalmente o nosso modo de aproximação ao tema do amor e ao tema da procriação.’ (p. 117)

‘Desde sempre […] o início de uma gravidez é acompanhado de vivências ambivalente, sobretudo pela mãe, que, por um lado, é quem mais sente a inexorabilidade da união e sente o risco de ser sonegada pelo seu filho, e, por outro, poder ter sofrimentos inevitáveis numa futura separação.

Mas como estabelecer se e quando dar espaço a um filho na nossa vida?

A própria possibilidade de fazer esta escolha, pelo facto de nos parecer tão totalmente em nossas mãos, expõe-nos a dificuldades psicológicas novas e imprevistas, porque lança sobre nós uma responsabilidade difícil de aguentar e desconhecida pelas gerações precedentes, que podiam muitas vezes contar, por vezes com alívio, com a chegada de filhos quase por acaso.’ (p. 119)

‘Poderemos dizer que existem duas diferentes modalidades psicológicas em relação a um novo nascimento, projetado ou não: há as crianças «acolhidas» e as crianças «pretextos», e estes dois modos diferentes dão lutar a duas modalidades diferentes de encontro entre pai e filho. A criança «pretexto» é a que foi trazida ao mundo para completar a vida dos seus pais, como algo que foi acrescentado no momento oportuno a todos os outros objetivos que nos propusemos atingir. É uma criança que corresponde à realização de um nosso projeto, e enquanto tal o seu êxito ou o seu falhanço serão inevitavelmente um sinal do nosso êxito ou do nosso falhanço. Mas precisamente por este motivo, trata-se normalmente de crianças que suscitam em nós uma ânsia maior e com quem a relação educativa é mais difícil desde o início, porque tendemos a carrega-las de expectativas demasiado grandes.

Muito diferente é o encontro que se verifica com o novo rebento se a vivência dos seus pais for de acolhimento da vida como dom precioso e imerecido: embora com todas as naturais e inevitáveis expectativas, prevalecerá nos confrontos deste filho curiosidade e abertura, e será possível fazer prevalecer neste caso uma atitude mais serena.’ (pp. 122-123)

‘[…] o matrimónio, se quiser ser realmente um casamento, é por sua necessidade «indissolúvel», e deve definir-se como uma aliança pronta a bater-se a todo o custo para resistir a tudo o que o quiser dissolver e desagregar, minando o acordo de confiança entre as pessoas que o contraíram.’ (p. 137)

‘A família […] constitui um sujeito específico dotado de uma identidade própria; ao mesmo tempo, porém, podemos defini-la, também como um sistema complexo, formado por pessoas dotadas, cada uma, de uma identidade pessoal e que se influenciam reciprocamente de maneira circular: cada componente interage com os outros com uma força diferente em relação ao grau de união. Este sistema complexo desenvolver-se à volta de dois eixos principais, que podemos imaginar dispostos em sentido espacial: o primeiro é um eixo horizontal, constituído pela relação do casal; o segundo é um eixo que se cruza com o primeiro de modo vertical, e é constituído por ligações que o casal tece com outras pessoas que no tempo o precedem (os pais) e que o seguem (os filhos). Para que uma família, e nela cada um dos seus membros, se desenvolva e cresça de modo psicologicamente saudável, é indispensável que entre os dois eixos se estabeleça um equilíbrio válido, em que o eixo horizontal constitua o ponto de união estável do eixo vertical. O casal, se e quando sabe construir e desenvolver a sua relação no tempo, pode tornar-se capaz de cuidar de modo preciso tanto da geração que o precede como da geração que dele toma origem e que o continua no tempo.’ (p. 139)

‘Da psicologia aprendemos que há algumas regras fundamentais para garantir aos filhos um bom crescimento e saúde mental: entre estas são cruciais a capacidade de respeitar o seu limite psicofísico e a capacidade de manter em relação a eles uma distância relacional correta, colocando-os na posição justa no interior das relações familiares. Isto significa, em primeiro lugar, ter o conhecimento claro de que um filho não nos pertence, mas é-nos simplesmente confiado pela vida para que cuidemos dele e o acompanhemos com respeito e se impulsividade em relação ao seu futuro.’ (p. 140)

‘Ainda há uma coisa que é sempre possível fazer na nossa vida, e é aprender a aproveitar tudo o que nos aconteça, até mesmo uma coisa negativa e dolorosa. Ser traídos, receber verdadeiras ofensas, sentir-se pouco apreciados, são evidentemente coisas muito negativas e à primeira vista inaceitáveis. No entanto, se o quisermos, até mesmo coisas como estas podem tornar-se para nós ocasião de crescimento, de desenvolvimento, de afinamento da personalidade. […] ninguém fora de nós pode encontrar a chave de sermos felizes, tal como ninguém pode realmente tornar-nos felizes s enão não lho permitirmos.’ (p. 165)

‘[…] como pude aprender com um jovem colega psiquiatra que estava para se casar, «não existe a pessoa certa, existe só a pessoa que escolhi». E a pessoa que escolhi é sempre única.’ (p. 168)

‘Quando nos apaixonamos por alguém, fazemos a experiência especial de intuir algo do seu Eu: intuímos que o outro é único, mas também o que pode vir a ser, o que nele se pode vir a desenvolver. É uma perceção sintética, difícil de dizer por palavras, mas muito importante: é parecida com a capacidade de rêverie dos pais sobre os filhos, quando intuem no filho a presença in nuce do homem ou da mulher que podem vir a ser.’ (p. 169)


**(Título retirado de Daniel Faria, Dos líquidos, Porto, Edição Fundação Manuel Leão, 2000, p. 137)

*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Ensaios de liberdade', 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'

 

quarta-feira, novembro 04, 2015

Sobre a adoção de crianças por «casais» homossexuais - Podem mudar as leis, mas não perdemos o direito a pensar



Nesta era da (in)comunicação social, a informação passa, muitas vezes, mais pelo que se supõe do que pelos conteúdos transmitidos de modo explícito. Tal exige uma atitude crítica e particularmente desperta, o que é singularmente difícil, num tempo sem tempo. Na verdade, sob a capa da cientificidade ou da «voz do povo», fazem-se passar ideias e valores que, afinal, mais não são do que a opinião de quem as profere e que procura legitimar-se através de uma autoridade oculta e incontestável. Quem não se interrogou já sobre quem são os autores dos «estudos científicos» tantas vezes invocados para suportar comentários sobre os mais diversos assuntos? «Estudos científicos demonstram» é o que ouvimos, tantas vezes.
 E quem não se perguntou, também, sobre quem estará por detrás da opinião muitas vezes escondida sob a capa de que «dizem por aí»?
Vem isto a propósito da fortíssima campanha preparatória da legalização da adoção de crianças por homossexuais, forjada em alguma imprensa de tiragem nacional. Um olhar atento ao que se diz no que não se diz e se faz supor permite concluir que a estratégia é a de sempre: multiplicam-se as notícias, cria-se a sensação de que o que é dito tem suporte científico e escuda-se a opinião dos autores sob a capa da multidão. Ficam, assim, criados os condimentos para que o leitor se sinta isolado e, como ninguém quer estar do lado dos perdedores, ceda, acriticamente, a sua opinião à força da suposta multidão que, afinal, se cria com os muitos que pensavam o contrário, mas que se unem para não se sentirem ultrapassados.
Li, há dias, na mesma página de um jornal nacional, três notícias sobre o mesmo tema: a suposta felicidade de crianças adotadas por dois pais ou por duas mães. As mesmas autoras das notícias assinavam as três. Juntá-las na mesma página obedeceu a uma intenção: criar a sensação de que muito se fala sobre o assunto. Mais facilmente se exercerá, assim, sobre o leitor a suposição de que está só na sua opinião contrária. De seguida, recorre-se ao método de sempre quando se trata desta matéria: invocam-se estudos científicos. Ora, o leitor não tem tempo para apurar se os referidos estudos são feitos com base em critérios de cientificidade e dá como boa a informação que lhe transmitem. Contudo, se o leitor já tiver o hábito de ler criticamente o que a imprensa lhe pretende veicular, verificará dois factos muito curiosos:
- um - os autores invocados para o estudo são os mesmos de há 20 anos para cá. Entre eles, destaca-se Charlotte Patterson que, como conta Xavier Lacroix, no seu livro «a confusão dos géneros», é invocada, desde a década de 90, como a autora de estudos sobre os quais se baseiam muitas das opiniões que agora são apresentadas como novidade. Uma novidade com mais de 20 anos!
- dois - os supostos estudos científicos são sempre baseados numa amostra que não resistiria a qualquer critério de cientificidade. Por exemplo, nestes estudos que o referido jornal nacional menciona, foram consultadas, num caso, cerca de 315 famílias para se retirarem conclusões para a realidade australiana, que tem uma população de mais de 23 milhões de habitantes e, num outro, foram estudadas 100 famílias para se retirarem conclusões para o universo da realidade norte-americana, que tem mais de 318 milhões de habitantes. Isto é, a partir de 315 famílias, num universo de 23 milhões de pessoas, e de 100 casais, num universo de 318 milhões de cidadãos, conclui-se, «cientificamente» uma verdade apresentada como conclusiva. Tão escassa amostra 'permitiu', dizem estes 'estudos', concluir que - cito - «crianças educadas por homossexuais são mais saudáveis»... Por pura sorte, dado o fraco rigor científico, não se concluiu que todos temos de ser homossexuais para que os nossos filhos sejam saudáveis e felizes... Dispensamo-nos de mais comentários. O leitor conclua por si mesmo sobre a honestidade dos referidos estudos.
A surpresa com estas verificações só ocorre, porém, se se achar que as mudanças em curso são espontâneas e correspondem a efetivos direitos que devem, mais cedo ou mais tarde, ser reconhecidos. Não é assim, contudo, em nosso entender. Na verdade, a discussão sobre o suposto direito de um «casal» homossexual adotar não deve ser confundida com situações ocorridas no passado e com as quais se pretende, sempre, compará-la. Muitos pretendem que esta mudança seja equivalente a tantas outras mudanças ocorridas, em que direitos fundamentais não eram reconhecidos.
No nosso entender, esta é uma como tantas outras confusões em que se enreda esta discussão para que se atinjam os fins pretendidos.
Na verdade, basta ler o que dizem quer a declaração universal dos direitos humanos (1948), no seu artigo 16º, quer a convenção sobre os direitos da criança (1989), no seu artigo 7º, para se entender que ali se preconiza que esta discussão tem de partir da certeza de que o que deve estar em causa é o «superior interesse da criança», que tem direito a uma família que, como se sustenta no número 16 da DUDH, é constituída a partir da relação entre «um homem e uma mulher» que, citamos a declaração dos direitos humanos «A partir da idade núbil, [...] têm o direito de casar e de constituir família». Quem o afirma é a declaração universal dos direitos humanos. Fora disto, trata-se de experimentalismo social, cujos resultados não temos direito a obter ao arrepio dos direitos mais fundamentais da criança e fazendo dela cobaia de experiência. Se o superior interesse da criança for acautelado, não serão ideologias que se sobreporão a este reconhecimento fundamental de que ela tem direito a que tudo se faça para que beneficie de um pai e de uma mãe. Essa é a referência. Outras opções são como que um decreto de orfandade legitimada: orfandade de mãe ou orfandade de pai.
Mais ainda. Tenha-se em conta que, por definição, por natureza e de facto, a relação homossexual é infecunda. Sendo assim, introduzir na discussão a possibilidade de filhos é acrescentar um elemento que lhe é estranho e que, só por profundo desrespeito pela opção feita, poderá ser chamado ao assunto. Se não bastassem todos os argumentos já invocados, valeria recordar que a tentativa de acrescentar a possibilidade de filhos à opção homossexual é desrespeito pela natureza da própria opção. Acrescenta-lhe um dado que ela rejeita como opção, pois é uma escolha natural e voluntariamente infecunda.
Contudo, ao arrepio da lógica, da verdade, da honesta cientificidade, muitos querem gerar a ilusão de que não é assim e nada há a fazer senão aceitar o que, afinal, não é mais do que ideologia pura a passar como se se tratasse do reconhecimento de um direito. Antes, sim, trata-se da confusão entre direitos e desejos. Ora, o direito não assenta sobre desejos, mas sobre realidades efetivamente devidas. A não ser assim e se o critério for que qualquer motivo individual possa ser aceite, então poderemos sempre perguntar-nos por que motivo deveremos discriminar outras orientações sexuais e ficarmo-nos pela homossexual. Pois há outras orientações que poderão reivindicar os mesmos direitos. E, no limite, se se aceitar que qualquer opção individual é admissível, poderá, sempre, perguntar-se se ainda tem sentido haver leis de família. Se não se respeitar o critério objetivo referido na declaração dos direitos humanos e na convenção dos direitos da criança, só de forma arbitrária e discricionária se ficará por estas orientações o reconhecimento do direito de adotar. Quando o direito deveria ser, sim, a ser adotado por uma família, no respeito pelo seu superior interesse e não pelo suposto legítimo direito de ver satisfeito um determinado desejo. A criança não é um objeto do desejo humano. É-lhe superior e transcendente, porque é portadora de uma dignidade inviolável, enquanto pessoa.

sexta-feira, setembro 04, 2015

A civilização do efémero - das decisões pessoais à construção da sociedade


No final da década de 80, um dos mais influentes sociólogos franceses, Gilles Lipovetsky, publicava uma das suas muitas obras marcantes: «o império do efémero». Ali, defendia que, desde o maio de 68, o que movia as vontades já não eram motivos profundos ou, sequer, motivos, mas o simples desejo de mudar. Chamava ele a essa categoria da «mudança pela mudança» simplesmente «moda».

O mesmo autor foi prosseguindo a sua análise, ao longo dos tempos, e constata, hoje, que vivemos na sociedade hipermoderna, isto é, a sociedade marcada pela deceção. Do efémero, que parecia ser a definitiva libertação de todas as tradições, chegámos aqui: à deceção.

Portugal ainda irá, provavelmente, a meio do tabuleiro desta ponte. Muitos são os que ainda vivem fascinados pela mudança enquanto mudança, mesmo que ela não leve para lado nenhum.

Denuncia, na minha perspetiva, tal visão, o que as estatísticas (segundo o Pordata) revelam sobre a capacidade ou incapacidade que evidenciamos de nos comprometer com projetos de longa duração. Permitem concluir isto, por exemplo, as taxas de nupcialidade nacionais, isto é, o número de casamentos por 1000 residentes. Se olharmos para o que as estatísticas revelam, verificamos que 2014 foi o ano em que Portugal apresentou a mais baixa taxa de nupcialidade de sempre, com 3 em cada mil, o que permite verificar que, em 14 anos, esta reduziu para metade (em 2000, era de 6,2). Se juntarmos a isto que, de 2000 para cá, a taxa de divorcialidade (o número de divórcios por 100 casamentos) aumentou mais de 100%, passando de 30% em 2000 para 70,4% em 2013, os dados tornar-se-ão ainda mais preocupantes. Desafio, aliás, o caríssimo/a leitor ou leitora a percorrer os olhos pelos últimos números do Terras do Vouga e a verificar que, em cada mês, muito poucos são os casamentos celebrados nas nossas comunidades paroquiais... Não merecerá isto uma reflexão? Que futuro se poderá esperar de uma sociedade que não protege a família, reconhecida, no artigo 16º da declaração universal dos direitos humanos, como «elemento natural e fundamental da sociedade tendo direito à proteção desta e do Estado»?

Não no fixemos, porém, na estatística. Interessa, aqui, uma outra ordem de análise: olhar para estes números num registo pastoral, num registo de leitura cristã. Que inquietude cristã deverá colher-se da análise destes números?

Sem querer dramatizar o que, já por si, deveria ser lido com olhos «esbugalhados», não podemos deixar de verificar que, de algum modo, por uma via silenciosa e subtil, estes números permitem constatar que alguma coisa está a falhar no anúncio cristão e um progressivo diminuir da marca cristão na cultura do povo, entendida aqui a cultura como a constelação dos valores decisivos na vida de uma determinada comunidade.

Na verdade, se formos ao âmago do que é o cristianismo, ele não é, primeiramente, uma proposta moral ou ética, uma forma de pensar a política e o mundo, mas sim, a afirmação da certeza de que o amor vence e é fiel. Perante uma sociedade divorcista, não se pode senão constatar que a mensagem não está a ser transmitida com eficácia e a sua capacidade de levedar a cultura está diminuída.

Apetece recordar a tristemente célebre afirmação de Afonso Costa, proferida em 23 de março de 1911 e reproduzida por Amadeu Gomes de Araújo, em «um erro de Afonso Costa», editado, recentemente, pela Alêtheia: «está admiravelmente preparado o povo para acolher essa lei (da separação); e a ação da medida será tão salutar que em duas gerações Portugal terá eliminado completamente o Catolicismo, que foi a maior causa da desgraçada situação em que caiu.» Afonso Costa errou, em termos estatísticos, pois continuamos a ser uma ernome maioria católica, porém, parece que se quer que ele tenha razão no que é essencial. Hoje, a influência cristã nas decisões pessoais e coletivas parece reduzir-se à celebração de grandes eventos multitudinários, em que os compromissos e as implicações pessoais não são tidos como determinantes mas meramente acessórios. Vale a pena recordar que os dados que se reúnem nas estatítiscas coligem em bloco aquilo que, afinal, é somatório de decisões individuais. Vale de pouco criticar a sociedade individualista quando, ao chegar a nossa vez de tomar uma decisão que nos diz respeito, somos, afinal, igualmente individualistas.

É bom recordar que a matéria que diz respeito ao casamento e à relação com os filhos não é acessória na vivência cristã. Desde cedo os cristãos se aperceberam de que a sua coerência como fiéis se evidenciava neste tipo de opção. Recordemos um excerto da célebre carta a Diogneto, que os mais recentes estudos (segundo Roque Frangiotti) atribuem a Quadrato, por volta de 120 d.C. e eventualmente dirigida ao imperador Adriano (que recebia o título de Diogneto): «Os cristãos, de facto, não se distinguem dos outros homens, nem pela sua terra, nem pela sua língua ou costumes. Com efeito, não moram em cidades próprias, nem falam uma língua estranha, nem têm algum modo especial de viver. A sua doutrina não foi inventada por eles, graças ao talento e à especulação de homens curiosos, nem professam, como outros, algum ensinamento humano. Pelo contrário, vivendo em casas gregas e bárbaras, conforme a sorte de cada um, e adaptando-se aos costumes do lugar quanto à roupa, ao alimento e ao resto, testemunham um modo de vida admirável e, sem dúvida, paradoxal. Vivem na sua pátria, mas como forasteiros; participam de tudo como cristãos e suportam tudo como estrangeiros.Toda a pátria estrangeira é pátria deles, e cada pátria é estrangeira. Casam-se como todos e geram filhos, mas não abandonam os recém-nascidos. Põem a mesa em comum, mas não o leito; estão na carne, mas não vivem segundo a carne; moram na terra, mas têm a sua cidadania no céu; obedecem às leis estabelecidas, mas com sua vida ultrapassam as leis; amam a todos e são perseguidos por todos; são desconhecidos e, apesar disso, condenados; são mortos e, deste modo, é-lhes dada a vida; são pobres e enriquecem a muitos; carecem de tudo e têm abundância de tudo; são desprezados e, no desprezo, tornam-se glorificados; são amaldiçoados e, depois, proclamados justos; são injuriados, e bendizem; são maltratados, e honram; fazem o bem, e são punidos como malfeitores; são condenados, e alegram-se como se recebessem a vida. Pelos judeus são combatidos como estrangeiros, pelos gregos são perseguidos, àqueles que os odeiam não saberiam dizer o motivo do ódio.»

O que Portugal tem vivido, nas últimas décadas, não difere muito daquilo com que já se debatiam os primeiros cristãos. Ontem, como hoje, eles sabiam que a sua fé se repercutia nas suas escolhas individuais e isso construiu uma civilização diferente, em que a pessoa é pessoa e não mero indivíduo. E essa civilização está em risco se cada um se reduzir à sua individualidade e se se esquecer de que é um com os outros e, com eles, um diante do Outro, totalmente Outro.

Se, hoje, o autor da carta a Diogneto voltasse a escrever aos imperadores de agora, seria ainda capaz de recordar em que se distinguem os cristãos dos demais? Ou até os cristãos já cederam à civilização do efémero?




quarta-feira, julho 01, 2015

Sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo - Distinguir para não confundir

Casamento: a que nos referimos?
Antes de exprimir qualquer outra ideia, e correndo o risco de perder potenciais leitores antes mesmo de o serem, começo por afirmar o ponto de partida da minha reflexão: falar de casamento, no quadro da matriz civilizacional em que nos encontramos, é falar da união entre um homem e uma mulher, estável e protegida pela lei e pela sociedade, porque sobre ela a mesma sociedade deposita expectativas de futuro que carecem de proteção e confiança.
Eis uma matéria em que perdemos a liberdade para pensar, para refletir e para emitir a nossa opinião. Este é um novo tabu das sociedades modernas. De tal modo que, para alguns que se ficaram por estas primeiras linhas ou, simplesmente, pelo título, mesmo antes de eu exprimir as razões que justificam a minha reflexão, este será um texto classificado como homofóbico. Uma tal conclusão, por precipitada, evidencia a emotividade em que se enreda esta discussão, má conselheira do bom discernimento.

Distinguir não é o mesmo que discriminar
É bom, desde já, clarificar que falar de discriminação refere-se ao impedimento do acesso a um legítimo direito, à criação de dificuldades de usufruto de um bem que é devido. Tal obriga, assim, a explicitar, neste passo, que considero, efetivamente, que há discriminação quando se impede, por exemplo, o acesso a uma atividade, a um tipo de trabalho, a uma função de liderança ou outra, justificando tal impedimento com motivações que concernem, por exemplo, às vivências sexuais do indivíduo. Não se pergunta, por exemplo, a um candidato a gestor se é adúltero ou algo semelhante. Seria invocar um fator estranho à tarefa como critério para impedir o seu acesso. Neste quadro, em que não se invocam razões de mérito ou de capacidade de cumprimento da função para impedir a atribuição da função, estaremos, claramente, perante um comportamento discriminatório.
Vale a pena, feito este esclarecimento, verificar se tal se aplica à recusa de que a união entre pessoas do mesmo sexo seja um casamento.
Invoquemos a declaração universal dos direitos humanos...
Analisando, com atenção, o conteúdo do artigo 16º deste documento fundante, que serve de ponto de referência para a elaboração das constituições que se pretende que estruturem um Estado de direito e não um Estado discricionário, verificamos, talvez com surpresa, a clareza na definição do conceito de casamento que ali aparece. Diz-se, no ponto 1 do referido artigo: «a partir da idade núbil, o homem e a mulher têm o direito de casar e de constituir família, sem restrição alguma de raça, nacionalidade ou religião.» Muitos poderão dizer que homem e mulher são aqui referidos em abstrato, não se presumindo ser «um com o outro».
Tal interpretação não colhe, porém, pois o mesmo número diz, de seguida: «durante o casamento e na altura da sua dissolução, ambos têm direitos iguais». Este «ambos» não pode ser mais claro. O modelo de casamento aqui apresentado não é outro senão o da união entre um homem e uma mulher.
Acresce a este primeiro reconhecimento, que abala muita da argumentação dos que pretendem estar do lado da defesa dos direitos humanos, a constatação de que, se se tratasse de discriminação o não reconhecimento do estatuto de casamento à união entre duas pessoas do mesmo sexo, por se considerar que se deve respeitar a orientação sexual e legitimá-la, então, valeria a pena perguntar por que razão não se legitimam outras orientações. Por exemplo, porque se deverá discriminar quem é bissexual? Ou quem é adúltero e vive uma situação de duplicidade? Não é difícil constatar que a mudança introduzida com a admissão de que a união entre pessoas do mesmo sexo seja um casamento criou um plano inclinado que desce sem que se saiba até onde. Talvez seja, aliás, essa a intenção, tal a clareza com que se relativiza a condição fundamental da família, esvaziando o seu conteúdo original. De que se falará ao dizer «família» se não for claro o ponto de referência? Tudo parecerá caber sob a capa de «família». «Família» correrá o risco de ser um termo sem conceito correspondente, um «flatus vocis», como diziam os escolásticos, um mero som a que não se sabe o que corresponde.
É fácil verificar que, se se «desblinda» o critério definido na declaração universal dos direitos humanos, então, tudo se torna arbitrário e dependente da vontade discricionária das maiorias. E é porque tal não tem capacidade de sustentar um Estado de direito, se se tornar vulnerável, nas suas bases, à vontade maioritária, que tantos continuam a dizer, e entre eles me situo eu próprio, que a aceitação de que a união entre duas pessoas do mesmo sexo seja um casamento é a modificação da matriz civilizacional em que nos enquadramos. Por muito humor e sátira que possam fazer alguns sobre este reconhecimento, tal não retira a validade ao que está a ser denunciado.

Distinguir para não confundir
Como afirmava, repetidamente, um dos meus professores de filosofia, quem não distingue confunde. E é de confusão que se trata, quando falamos do assunto aqui em análise.
Confusão entre «não discriminar» e «não distinguir o que é diferente». Confusão entre «desejar» e «ter direito a». Confusão entre «compadecer-se» e «legitimar». Distinguir não é discriminar. E é preciso reconhecer que o círculo não é um quadrado. Chamar casamento ao que não o é redunda numa quadratura do círculo. O casamento não é uma mera relação de afetos, é uma instituição, reconhecida juridicamente, porque nela se depositam expectativas de futuro. A segurança dos dois, mas também a possibilidade dos filhos, são bens indissociáveis. Os filhos são um horizonte legitimamente esperado. O que se verifica ser manifestamente impossível na união homossexual. A estabilidade da estrutura «casamento» é necessária em razão dos dois motivos, indissociavelmente.

O fim da ingenuidade: estas mudanças não são espontâneas; respondem a uma estratégia
A matéria aqui em análise está envolvida em inúmeras sombras e faltas de esclarecimento. É intencional que não se conclua se a orientação sexual é uma determinação genética ou se uma deliberação pessoal. E é fácil perceber por que motivos não se pretende retirar conclusões claras: se for uma determinação genética, então, rapidamente se concluiria pelo caráter patológico; se for apenas uma deliberação pessoal, então, cairia por terra o argumento de que se deveria respeitar o caráter «natural» da condição homossexual. Por isso, é útil a ambiguidade.
Mas esclareço que, pessoalmente, não creio num qualquer determinismo genético, pois todo o determinismo é o oposto da afirmação da liberdade humana. Sempre restará a última palavra do ser humano livre. Sendo assim, é ainda mais claro que esta discussão manifesta a cedência para o individualismo que recusa que possa haver valores que transcendam a mera determinação individual. De facto, contra esta visão, sublinho que, com efeito, não é o sujeito que cria os valores. Eles são-lhe anteriores. E é isso que não aceitam os defensores do casamento homossexual: que possa haver valores a que o sujeito deva submeter-se. Pelo contrário, para eles, é o sujeito que os cria. Mas, se isto for verdade, o que ficará da sociedade? A sociedade não passará de soma de indivíduos, nunca se configurando como comunidade de pessoas.
É bom, aliás, que se tenha em conta que esta matéria não aparece de forma espontânea, nas nossas sociedades ocidentais. Como recorda Michael Medved (em artigo publicado no site www.aceprensa.com), um analista e crítico de cinema norte-americano, estão definidas, desde 1984, as linhas de atuação da causa gay no cinema. Desde então, ficou definido que seriam adotadas três linhas de atuação: insensibilizar o público, gerando a impressão de que a homossexualidade é uma normalidade muito difundida; vitimizar os homossexuais, gerando a convicção de que são perseguidos; diabolizar os que se opõem à causa, tendo para tal dado um especial contributo a designação de que são homofóbicos. A descoberta da definição desta estratégia permite ultrapassar a ingenuidade de que as mudanças em curso são espontâneas e correspondem a uma transformação inelutável. É bom, na posse destes dados, manter uma atitude de sã clarividência que permita distinguir entre a recusa das mudanças que se propõem introduzir na matriz ocidental os defensores da causa «gay» e o acolhimento da pessoa concreta que viva em si mesma a dificuldade em gerir as manifestações da sua afetividade. São dois planos distintos. E confundi-los é o que pretendem os que se afirmam defensores da equiparação da união entre duas pessoas do mesmo sexo ao casamento.

Muito mais do que uma questão entre direita e esquerda, entre conservadores e progressistas, entre crentes e não crentes, esta é uma questão de lógica. É preciso distinguir para não confundir!

quarta-feira, outubro 02, 2013

«l’État» somos nós


O momento de eleições é sempre um excelente pretexto e contexto para refletirmos sobre como nos vemos enquanto sociedade. Se como mera soma de indivíduos ou se como uma autêntica comunidade, se como uma mera convergência de interesses ou se como uma comum unidade de história e cultura, em dinâmica de construção coletiva para um futuro melhor.

Tendo sempre para o segundo fator de cada um destes binómios, mas reconheço-me, muitas vezes, quase ultrapassado pela realidade, que parece teimar em impor-me que já não há lugar para esperanças e ideais. Mas, como me apraz repetir, posso não mudar o mundo, mas espero morrer com a consciência tranquila de que tentei fazer a minha parte.

A frase que serve de título a esta reflexão partilha autorias. No seu original, atribuído ao Rei-Sol, Luís XIV, pronunciada, muito provavelmente, em 1655, a frase dizia «l’État c’est moi» (O Estado sou eu) como manifestação do despotismo iluminado, que encontrou a sua expressão máxima, entre nós, em D. João V, em D. José e no seu ministro, Sebastião José de Carvalho e Melo, que ficou para a história como Marquês de Pombal. O Estado parecia confundir-se com uma pessoa, o que o tornou uma entidade distante e pouco geradora de simpatias e cumplicidades.

O tempo passou, mas as marcas dessa visão do Estado permanecem. O Estado continua, para muitos, a ser uma entidade longínqua e distante, algo abstrata. Tal visão, acrescida da carga totalitária mais recente com que determinados movimentos quiseram conotá-la, tem favorecido a perda daquele que deveria ser o sentido genuíno e ético do Estado moderno, que pretendo consubstanciar na nova formulação da afirmação: o Estado somos nós. E temos a particular sorte de estarmos num momento em que já se distanciam no tempo as conotações ideológicas e revolucionárias que poderiam trazer carga pejorativa à afirmação quase panfletária. Esta frase, dita, há cinquenta ou sessenta anos, poderia conotar-se com os ideais totalitários de algumas revoluções marcadamente ideológicas e pouco disponíveis para uma reflexão tranquila e serena como a que nos propomos fazer, agora. Conceção nada coincidente com a nossa visão do que deva ser o Estado e de como deva relacionar-se com a sociedade civil. Sou devedor, pelo contrário, da perspetiva cristã que sustenta que esta relação entre Estado e sociedade deve reger-se pelo princípio da subsidiariedade, que defende, desde Pio XI, na sua encíclica «Quadragesimo Anno», que, se uma estrutura mais próxima das pessoas pode garantir as respostas justas, não deve ser uma instância superior a fazê-lo. Neste registo, o Estado deve ser o garante de que a sociedade funciona e se baseia em valores estruturantes, sem, porém, ocupar todo o espaço que cabe à mesma sociedade. De outro modo, seria um Estado totalitário.

Concluir que o Estado somos nós é, neste momento, um repto fortíssimo, pois, se o Estado somos nós, de facto, o que a todos diz respeito por todos deve ser tratado com cuidado e especial dedicação. Tal afirmação exige uma outra atitude da parte de todos. Uma atitude que comece por compreender que dizer «Estado» não é o mesmo que dizer «governo», pois deste se espera que faça a boa gestão daquele, ainda que aquele o transcenda. Feita esta aclaração, decorre daqui uma exigência sempre nova: a de que cada um compreenda que o que é de todos a todos deve pertencer e por todos deve ser bem tratado. Uma exigência que é, primeiramente, ética, moral. A de cada um contribuir com o que é devido para que, na hora de beneficiar, receba o que é de direito. Verifica-se, porém, que, como se fosse reminiscência daquela visão distante do Estado, cada cidadão parece mais apto a exigir o que é de direito do que a cumprir o que é devido. Tal posição desequilibra a balança da relação, pervertendo-a.

Se se pretende maior lisura da parte dos políticos ela deve verificar-se, também, entre os cidadãos. Aliás, é importante notar que a política não é um exercício de alguns, mas, originalmente, a condição de quem vive em sociedade, na cidade (em grego, pólis). A cidadania é, aliás, uma outra forma de dizer esta mesma condição (em latim, civitatem, de que vem «cidadania», quer dizer «cidade»). Como podem pretender reivindicar mais moralidade entre os «políticos» aqueles que fogem à sua obrigação de pagar os impostos devidos, com mentiras sobre a sua real condição, agindo fraudulentamente para com todos, muitas vezes com o argumento de que sobre a sua vida privada nada têm a ver os outros? Como vivemos em sociedade, todos os nossos atos têm repercussões coletivas, pelo que devem ser bem refletidos.

A este propósito, Camões dizia que «o rei fraco torna fraca a forte gente», porém, o contrário também é verdade. Se «a gente» está na mentira, pactua mais facilmente com a mentira de quem gere a coisa pública. Merecem reflexão, neste contexto, os números recentemente publicados por um estudo feito pela faculdade de economia do Porto que referem que existirá uma economia paralela correspondente a cerca de 26% do PIB, perfazendo um volume de mais de 44 mil milhões de euros. Números que devem fazer refletir. Se o Estado somos nós, como podemos estar-nos a fazer isto?

É certo que os incentivos vão em sentido contrário. Parece ser mais compensador dizer-se a inverdade de que não se está casado quando até se está, como se tal pudesse ser uma legítima estratégia de gestão fiscal, sendo, afinal, um modo imoral de escapar ao dever de pagar impostos. Casar parece ser, em termos fiscais, mais penalizador do que não se estar, matéria em que o Estado dá, ele mesmo, um sinal perigoso para a sua própria sustentabilidade futura. Ou afirmar que se tem um rendimento inferior pois - diz-se - o dinheiro dos nossos impostos «vai sempre para os mesmos». Ou tantas outras estratégias dissimuladas usadas para abafar a consciência.

Se não ousarmos combater esta ideia tão enraizada de que o Estado seja um alvo longínquo a abater, em vez de o entendermos como a organização necessária da sociedade, será difícil que o próprio Estado não avolume a sua desconfiança em relação aos próprios cidadãos, sinal que vem, também, sendo dado e motivador de particular preocupação. É esta confiança que serve de base à ideia da presunção da inocência até prova em contrário. Tal princípio não se pressupõe nas ditaduras. Se os cidadãos não fizerem tudo para manter essa confiança, poderão estar a reunir as condições para que regimes desconfiados tomem conta dos seus destinos. Vale a pena o sacrifício, para que possamos continuar a dizer que «l’État» somos nós.

E ao pó hás-de voltar… Não às cinzas estéreis e anónimas.

  Há uma sabedoria profunda, verdadeiramente divina, no ato de inumar o ‘corpo’ morto, de o devolver ao regaço adâmico de que proveio. Mas u...