quarta-feira, maio 20, 2026

'Os Sete Dias da Criação' |9| Luís M. P. Silva - Continuamos no primeiro dia: ‘Deus disse: «Faça-se a luz.» E a luz foi feita.’ A luz é criada; as trevas são separadas…

 

(‘Os Sete Dias da Criação’ | Rubrica dedicada ao diálogo entre ciência e religião)
Artigo originalmente publicado na revista 'Mundo Rural'

Luís Manuel Pereira da Silva*

 

Continuamos a refletir sobre as relações entre a ciência e a religião, seguindo os ‘sete dias da criação’.

Mantemo-nos no primeiro dia. A densidade do texto a isso nos obriga.

Na tradução da difusora bíblica (de acordo com a publicação disponibilizada em https://www.paroquias.org/biblia/), assim foi o primeiro dia: ‘Deus disse: «Faça-se a luz.» E a luz foi feita. Deus viu que a luz era boa e separou a luz das trevas. Deus chamou dia à luz, e às trevas, noite. Assim, surgiu a tarde e, em seguida, a manhã: foi o primeiro dia.’

Às inúmeras e significativas constatações que já nos foi possível fazer, a partir destes três versículos, podem acrescentar-se as que, seguidamente, enunciaremos.

Não sem antes recordar, com Gerhard von Rad, que ‘além dos dois enunciados sobre a criação aduzidos até agora (diferença de essência em relação a Deus, e dependência d’Ele), aparece mais outro que é digno de apreço: a criatura que entrou na existência é tob (boa), termo no qual mais do que um juízo estético há uma indicação de que a criatura é conforme ao seu fim, ajusta-se a ele […]’[1].

Já o tínhamos anotado, anteriormente (tínhamos sublinhado o alcance do significado da ideia de ‘criação’ e evidenciado que, na perspetiva bíblica, esta é ‘boa’, contrariamente às visões pessimistas que circundavam o povo bíblico), mas pretendemos, agora, evidenciar um aspeto de que nos dá conta Santo Agostinho, com enorme impacto e significado que só muito sumariamente aqui destacaremos.

Diz Santo Agostinho, no seu ‘Da interpretação do Génesis: dois livros contra os maniqueus’: ‘E Deus separou a luz das trevas e chamou Deus à luz dia e às trevas chamou noite. Não se diz neste passo «Deus fez as trevas» pois estas […] mais não são que a ausência de luz e, portanto, simplesmente se procedeu à separação entre ambas. De igual modo nós, gritando, produzimos a voz; e, estando calados, produzimos o silêncio, porque a cessação da voz é o próprio silêncio; e, todavia, num certo sentido, distinguimos a voz do silêncio e a uma coisa chamamos voz e a outra chamamos silêncio. Do mesmo modo que com razão dizemos «fazer silêncio», também em múltiplos passos das Divinas Escrituras com razão se diz que Deus fez as trevas porque ou não dá ou subtrai a luz àqueles momentos e lugares que pretende.[2]

Estamos perante os alicerces da visão de Santo Agostinho sobre o problema do mal. Recorde-se que esta matéria é uma daquelas em que mais notoriamente se evidencia o que o cristianismo trouxe a este genial santo. Na verdade, ele fora, durante longo período da sua vida, um maniqueu. Defendera, por isso, a ‘substancialidade’ do mal. O mal tinha, na perspetiva maniqueia, consistência ontológica, pelo que se exigia, tal como para o bem, uma origem absoluta. Para os maniqueus, o mal e o bem tinham respetivos criadores, sendo o mundo o palco desse «eterno» combate entre os dois princípios.

A leitura judaico-cristã da criação trouxe nova luz sobre esta matéria que, nesta passagem de Santo Agostinho, se torna particularmente evidente: só o bem tem consistência ontológica, porque define a natureza daquilo que é, do ser que, por existir e corresponder ao que é, é bem. O mal, a esta luz, é a insuficiência do bem, a não realização do bem, o não-ser, o nada-ser. Não carece, por isso, de uma origem absoluta que, efetivamente, não tem.

O bispo de Hipona explicita, deste modo, uma nova ponerologia (em grego, ‘ponêrós’ significa ‘mau, em mau estado, defeituoso, etc.[3]’), uma reflexão sobre o mal, compreendendo-o como a ‘insuficiência’, a ‘ausência’ do bem, o que não implica que ‘ser insuficiente’, ‘ficar-se aquém do bem que se pode realizar’ não seja sedutor e destrutivo. Mas tal deverá compreender-se como ‘não realização’ e não como uma outra criatura, originada por um criador negativo.

Tendo em conta tal abordagem, é possível concluir-se, como faz Andrés Torres Queiruga[4], que Deus é o ‘anti-mal’, intrinsecamente pensável como origem do bem e o fim último da máxima realização e não como o criador do mal, de que Ele mesmo é, afinal, o redentor, ao orientar tudo para o bem e ao compadecer-se da irrealização da Sua criatura.

As implicações para as dimensões existenciais da humanidade são inúmeras, em particular a que Von Rad deixava implícita: a realização das criaturas (entre eles, sobremaneira, o ser humano) ocorre se elas corresponderem ao fim para que foram criadas. Realizar o fim para que se foi criado é o bem. Dele desviar-se é o mal.

E assim se separa o bem (criado e pretendido por Deus) do mal, insuficiência e ausência do bem, por divergência de realização.

Concluamos esta nossa etapa da reflexão com mais uma interessante constatação, recolhida, também, de Santo Agostinho. Num seu outro livro dedicado a Génesis, o santo de Tagaste (lugar do seu nascimento) evidencia que a luz, primeira criatura de Deus[5], ‘seja corpórea ou incorpórea, é mutável’[6]. É uma intuição que antecipa, em muitos séculos, a de Einstein de que a luz é finita.

A riqueza que pode recolher-se de Génesis, se a abordagem que dele fizermos não confundir os planos e não errar nas interrogações a fazer-lhe. Pretender de Génesis que nos responda às perguntas que cabem à ciência, baralha os planos e gera conflitos que a história já nos ensinou a evitar. Perguntar-lhe sobre o sentido do mundo e da existência é encaminhar-se no sentido adequado.

Disso precisaremos, ao avançar para os dias subsequentes. Assim, por exemplo, perante o sentido literal dos versículos que se referem ao segundo dia, em que, implicitamente, se supõe uma cosmologia (leitura da ordem que o universo tem) que não é, já a nossa. Fazer uma abordagem acomodatícia, como a já descrita, em passos anteriores da nossa reflexão, pode dar-nos condições para o início de uma compreensão equilibrada, mas não é, ainda, a forma final que deveremos adotar, pois ainda supõe a análise literalista do texto bíblico. Esse será o nosso desafio, nas reflexões futuras: encontrar modos de recolher do texto bíblico toda a densidade do que tem a transmitir-nos, como sagrada escritura; no justo equilíbrio entre a redução à ciência ou a redução à Bíblia. Como bem recordava, a pretexto da condição humana, Viktor Frankl, o erro de todo o reducionismo é o de pretender que uma determinada realidade ‘nada mais é do que’… O saber, o conhecimento humano é muito mais do que só este ou aquele discurso. Muito ganhará de recolher sabedoria dos diversos discursos. Com essa meta nos propomos avançar… Outros dias virão.


Sugestões bibliográficas

Andrés Torres Queiruga, Repensar el mal: de la ponerología a la teodicea, Madrid, Editorial Trotta, 2011

  1. António Couto, O livro do Génesis, Leça da Palmeira, Letras e Coiras-livros, 2013.

Santo Agostinho, Da interpretação do Génesis: dois livros contra os maniqueus, Prior Velho, Paulinas, 2021.

Gerhard von Rad, El libro del genesis, Salamanca, Ediciones Sígueme, 19887.


[1] Gerhard von Rad, El libro del genesis, Salamanca, Ediciones Sígueme, 19887, p. 62.

[2] Santo Agostinho, Da interpretação do Génesis: dois livros contra os maniqueus, Prior Velho, Paulinas, 2021, número 15, pp. 67-68.

[3] Isidro Pereira, Dicionário grego-português e português-grego, Braga, Livraria A.I., 19908, P. 474.

[4] Cfr. Andrés Torres Queiruga, Repensar el mal: de la ponerología a la teodicea, Madrid, Editorial Trotta, 2011, pp. 263ss.

[5] Cfr. D. António Couto, O livro do Génesis, Leça da Palmeira, Letras e Coisas-livros, 2013, p. 30.

[6] Santo Agostinho, Da interpretação literal do Génesis: uma obra inacabada, Prior Velho, Paulinas, 2021, p. 158


*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano', 'Ensaios de liberdade' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'


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