Migalheiro de leituras | Fragmentos do pão servido à voz da alma: um convite à leitura integral
‘Migalhas também são pão’, assim nos diziam as nossas avós, assegurando-nos, por um lado, a identidade entre umas e outro, mas, igualmente, por via de um insumível ‘também’, que o pão é uma realidade maior do que a soma das migalhas. Uma identidade sem coincidências.
Assim será este ‘migalheiro de leituras’. Nele, guardar-se-ão as ‘migalhas’ de quem primeiro leu, sabendo, porém, que falam de uma realidade maior, para que remetem e que nunca deverão substituir.
Pretende o autor de ‘migalheiro de leituras’ que ninguém se sinta satisfeito (ou, pior, ainda, enfartado) por se servir das migalhas, mas que, ao saboreá-las, muito se agigante o desejo de, um dia – se possível, muito brevemente! -, se servir do pão…
Parceria: Federação Portuguesa pela Vida e Comissão Diocesana da Cultura
Luís Manuel Pereira da Silva*
Véronique Bourgninaud, Contra a aversão do homem pelo homem: em defesa da pessoa humana, Braga, Frente e verso, 2026.
O mundo está em rápida mudança. Mudar é, aliás, a condição dos seres na história. Somos imperfeitos, por isso, perfetíveis. Não é a mudança que está, por isso, em causa, mas, sim, saber para onde se está a mudar. Essa é, verdadeiramente, a questão. E a resposta inquieta. Assistimos ao agigantar de uma onda de mudança que se propõe a extinção (mesmo voluntária, como preconiza Les Knight) da humanidade. E isso, que deveria perturbar os espíritos atentos, parece estar a ser aceite como se se tratasse de um desfecho impossível de contrariar.
Livros como este são oportunos despertadores de uma indolência coletiva que conjuga a convicção de, primeiro, se tratar de um movimento espontâneo e natural (este livro desmonta esse ‘preconceito’), e, segundo, que o desfecho tenha de ser aceite sem que nada se possa fazer contra ele (este livro tem uma proposta).
Bourgninaud incide a sua atenção em três movimentos e faz um retrato minucioso das suas origens: o transumanismo, os estudos de género (a objetividade da sua reflexão fá-la evitar a expressão ‘ideologia de género’, mas o retrato que faz é insofismável: estamos perante uma muito bem montada ideologia) e o antiespecismo.
O transumanismo encontra o seu húmus num registo eugenístico que se propõe, desde que, em 1883, Francis Galton cunhou o termo (e, com ele, o conceito) repercutir, na sociedade humana o que Charles Darwin identificara na natureza: que os mais fortes permaneciam e os mais fracos ficavam para trás. O transumanismo eleva isto à condição de meta moral: é bom superar a fragilidade humana, se necessário (e entende que o é…), superando, mesmo, o humano, avizinhando-se, por isso, do que preconiza o pós-humanismo, que já não se basta em superar os limites do humano, mas defende, mesmo que o mundo precisa de que os humanos o abandonem. Esta aversão de nós por nós mesmos é perturbadora e é a matéria que este livro se propõe enfrentar.
Uma aversão que se repercute na recusa do que recebemos, do que herdamos, em particular, a nossa condição natural. Os estudos de género fazem tábua rasa de quem somos, biologicamente falando. Para os estudos de género, o sexo é objetivo, mas o género (que é o que lhes interessa) é um constructo social e cultural, pelo que cabe a cada um determinar qual é o seu, ao arrepio do que pretendem impor-nos. O indivíduo torna-se a medida de todas as coisas, como se não recebesse nada, mas de tudo fosse o seu próprio criador.
Nesta espiral que se avoluma e tudo absorve, soma-se, ainda, o antiespecismo que recusa a especificidade do ser humano perante os demais seres, em particular, os seres sencientes. Adotando critérios que ganharam particular densidade com o pensamento (altamente influente nos agentes políticos) de Peter Singer, os antiespecistas deixam de olhar para o ser humano como portador de uma dignidade que devemos reconhecer como anterior, para passar a defender que a dignidade está intrinsecamente associada ao facto de se estar em condições de sentir a ação dos outros sobre nós. Quando tal condição deixa de existir, é legítimo agir sobre esse sujeito ‘não senciente’. É, por isso, que Peter Singer chega a defender que ‘Os bebés humanos não possuem nascem com autoconsciência nem com a capacidade de compreender que existem no tempo. Não são pessoas. Os animais, porém, têm autoconsciência e, por conseguinte, a vida de um recém-nascido tem menos valor do que a de um porco, de um cão ou de um chimpanzé.’ (Questões de ética prática, 1997)
Tais declarações deveriam ter feito soar todos os alarmes. Curiosamente, porém, não só não fizeram, como Peter Singer foi sendo acolhido e, o seu pensamento, seguido.
Para os mais incautos, recordemos como a visão clássica prontamente identificava, nesta síntese de Singer, um sofisma a denunciar: o facto de um bebé não ter autoconsciência, em ato, não implica que não a tenha, em potência, autoconsciência total que os animais, nem em ato, nem em potência, possuem. Ideia a que deve somar-se o reconhecimento de que, ao falar-se de dignidade humana, está a referir-se um ‘algo’ prévio a toda a ação e condição conjuntural, que faz daquele ente alguém merecedor de proteção e acolhimento. O conceito de dignidade, tão demoradamente cunhado pela humanidade, está em risco, com estas três ‘ondas’ gigantes: com elas, não passa de um conceito que se refere ao que o sujeito determina, tornando-o resvaladiço e disponível para todas as manipulações. Manipulações que não se ficarão pelo âmbito dos conceitos, mas com profundas repercussões na realidade. Sem um conceito blindado de ‘dignidade’, o humano está em risco.
É desses inúmeros riscos que fala este livro. E, para que não seja demasiado tarde, lê-lo e dar-lhe vida é altamente recomendável.
Das migalhas da sua leitura ficará um pão que saciará…
*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Ensaios de liberdade', 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'
Imagem recolhida de https://redemundialdeoracaodopapa.pt/produto/contra-a-aversao-do-homem-pelo-homem/
