Mystérios lusitanos | A vinte e três (23) de cada mês, habitamos o mundo pelo imaginário de Alberto Ferreyra...
(Nos ramos da escrita, repousam, vezes sem conta, as gralhas da distração, ocultas, sob múltiplos disfarces, até que alguém as enxote. Alberto Ferreyra contou com o fino olhar da sua amiga Teresa Correia, detentora do segredo da sua identidade, para afastar ou caçar o grasnar das gralhas. Está-lhe, por isso, muito grato...)
Alberto Ferreyra*
Diz-se da Ti’Helena que casou mas nunca se deixou casar. Vivera triste, enquanto morara, sob o mesmo teto, com Américo.
Levara-o uma noite de apanha da lampreia.
Nos tempos das cheias, os pretendidos ciclóstomos subiam o rio para desovar. Era um robusto manancial de riqueza. Na tristeza da noite, multiplicavam-se as bateiras que, rio acima, acompanhavam o ondular das caudas da lampreias presas à pedra. O rio tinha, porém, as suas variações de humor. Numa das suas oscilações, levara-lhe o homem. Nunca o encontraram. Só à bateira, presa a uns galhos da margem, de proa partida e de casco para o ar.
Ti’Helena – nascida ‘Maria’, mas que à sua beleza devia o nome, evocando a de Tróia – pôs longo luto. Não que lhe nascesse da alma, mas porque lho pediam as vozes do povo.
O peso do negro tomou-lhe o espírito e o corpo.
Curvou-se até não se lhe ver o rosto. Um belo rosto!
Uma dor de coluna, cada vez mais lancinante e permanente, inclinara-lhe o olhar para o chão, levando-lhe todo o corpo. Passara a ver apenas os pés, lentos e demorados. Fazia-se o mundo, agora, na sua mente, do que ouvia. Ouvia, apenas. Descobria o que acontecia em seu redor, ouvindo. Ouvindo, somente. Como que dispensando o olhar, de cuja beleza e equilíbrio das formas do rosto só podia testemunhar, já, o chão que percorria.
- Olá, Ti’Helena! – Diziam-lhe, sem parar para a verem, os miúdos da escola, empurrando o arco que lhes corria, adiante, sem parar. Nem davam conta da sua beleza. Era, para eles, a triste Ti’Helena, uma viúva sem rosto.
As lágrimas corriam-lhe em sulcos, pelas rugas feitas de tempo, enquanto sumia um soluço.
Vivia na casa da rocha.
Casa e pedra pareciam ter nascido gémeas das mãos do Criador, sem fissura e de um só gesto. Uma casa simples, de um branco esmaecido, pousada sobre a rocha coberta de líquenes e musgos. A casa parecia comprimir a rocha, causando-lhe uma ligeira barriga, descaída sobre a estrada. Coisas de relações antigas…
Do outro lado da estrada, tinham vivido, em tempos, os Pereiras. Outrora, uma casa farta, cheia da vida que lhe trazem as crianças. Hoje, cobrem-lhe os jardins heras e silvas. Um entristecer-se toma conta de quem olha, com o ver de outros tempos, para aquele lugar, um demolido oásis encravado entre estradas.
Ti’Helena sobe, demoradamente, pelo caminho que a levará a casa.
Ouve, ao longe, junto ao largo da pequena loja da aldeia, um ligeiro alvoroço.
Ouve… Escuta… Reconhece vozes.
Entre elas, a de um homem robusto.
Estaca.
O chão olha-a, admirado.
Está de rosto branco, sem sangue. Lívida!
Bem sabe de quem é aquela voz arrastada, gutural, sedutora. Voz de um homem de encantos. A voz que a prendeu, antes de a desiludir. A voz que a fez cativa sem a cativar. A voz que a prendeu, tomando-lhe a liberdade sob a promessa de a tornar absoluta. Mas esse dia jamais viria. Só quando as águas lhe levaram a voz de uma sereia varão se desfez a prisão que lhe tolhera as asas e a impedira de voar, anos a fio.
Só com o luto regressou ao voo que desejara, mas o corpo já não quisera corresponder.
Antes do enlace, quisera parar, desviar a sua história da de Américo. Junto ao túmulo do seu pai, Américo pedira-lhe, porém, que não desistisse de si e ousasse com ele lançar-se à aventura de um casamento que haveria de ser duradouro e feliz.
Helena compadeceu-se. Deixou-se casar, tomada pela compaixão de o ver triste.
A desilusão haveria de vir, em breve e longamente.
Helena permanecera fiel, até aos últimos soluços das águas que o haveriam de levar. ‘Para sempre’, pensara.
Ouvia-o, agora, regressado e procurando-a.
‘Porque partira e se fizera ausente, se tanto dizia amá-la?’
Helena afastou-se das vozes. Entrou em casa e trocou o negro pelo branco.
Não mais se ouviu falar daquele homem de voz gutural que só Helena reconhecera.
O povo diz, agora, que não foi Helena que não se deixou casar; Américo, sim, casou sem se deixar casar. Casara-se consigo mesmo e isso anula todo o consentimento perante homens e Deus.
A história de Helena e Américo perde-se na memória dos tempos. Não sabe o povo se viveram ou se habitam como imaginação pura perdida no tempo. Mas, em cada manhã, um véu de neblina, como de noiva casta, se ergue sobre a casa da rocha.
Dizem que nela mora a memória da esposa que se deixou casar com o marido que, casando-se, nunca se deixou casar.