Artigo publicado na Agência Ecclesia
E se os desafios
de hoje puderem ser iluminados pelos dos primeiros tempos do Cristianismo?
A
história e os tempos são únicos e irrepetíveis. A permanência, porém, das inquietações
humanas, permite revisitar, amiudadamente, as soluções que, vez após vez, se
vão revelando insuficientes, como é próprio da condição humana na história. Por
este motivo, é necessário manter o olhar atento e vivo, desperto para todas as
soluções que se apresentem como ‘fim da história’ e o definitivo resolver dos
elementos de tensão próprios da condição humana.
Em
tudo o que somos, há uma dualidade. Dualidade responsável pelas situações de
tensão próprias do existir. Colocam-nos em condição de ‘crise’ constante.
Perante
a dualidade não pode resultar, porém, a cedência à tentação do dualismo que tem
a pretensão de resolver esta tensão, reduzindo o humano a uma só das suas
dimensões.
Recordava,
com sábia leitura, Viktor Frankl, o criador da logoterapia e pensador luminoso,
infelizmente, ainda pouco lido entre nós (mas merecedor de uma tese de
doutoramento por parte do eminente bispo de Bragança-Miranda, D. Nuno Almeida),
cujas conclusões foram fermentadas na dura experiência de quatro campos de concentração
por que passou, que a tentação é, muitas vezes, a de reduzir o humano ao ‘não
mais do que’: ‘O niilismo de ontem ensinava o «nada». O reducionismo de hoje
prega o «não é mais do que» […] há diferenças dimensionais que o reducionismo
ignora e minimiza. (Viktor Frankl, A voz
que grita por um sentido, p. 57.) ’[1]
Esta
tentação teve um particular impulso, ao longo da era de que ainda não teremos,
definitivamente, saído (ainda que seja possível sentir o emergir do paradigma
‘pós-moderno’, que se caracteriza pela volatilização da razão e a prevalência
da sensibilidade e do afeto), designada como ‘modernidade’. Entre os
contributos mais marcantes para este impulso está, certamente, o de Descartes.
Para
um leitor menos avisado, poderá parecer que estou a ir demasiado longe, ao
invocar o pensamento de um autor dos já longínquos séculos XVI e XVII… Valerá a
pena, porém, lembrar que, de algum modo, hoje, os nossos legisladores e,
afinal, todos nós, são (somos), de algum modo, discípulos de Descartes.
E
sê-lo-emos por um de dois motivos: pelo seu dualismo ou pelo seu individualismo
solipsista.
António
Damásio, no seu célebre e oportuno ‘erro de Descartes’[2],
identifica no dualismo cartesiano o seu erro fundamental. E concordo que essa é
parte de um diagnóstico a reter, ainda que a valorização da dimensão emocional,
que Damásio parece sustentar como a escolha alternativa, não me mereça igual
subscrição. Mas vale a pena reter a ideia de que o dualismo é uma das suas
marcas e que ainda hoje a notamos, entre nós.
Ousaria,
porém, acrescentar um outro erro.
Descartes
adota um modus cogitandi (um modo de
pensar) que ainda hoje temos, entre nós. Descartes anda em busca de ‘ideias
claras e distintas’, puras, isoladas da história. Essa sua busca fá-lo procurar
uma primeiríssima certeza que ele encontra e sintetiza no seu lapidar ‘cogito’:
‘penso, logo existo’. A primeira certeza do sujeito cartesiano é a de que pensa
e, por isso, existe. O outro, os outros, são, assim, acidentais e acessórios
para a definição da identidade do sujeito cartesiano.
O
sujeito cartesiano (e, com ele, o que pensam os discípulos de Descartes) é
autossuficiente, pensa-se prescindindo dos demais.
Regressar às
fontes cristãs: a certeza de que o gnosticismo não vence…
Paremos,
aqui, momentaneamente, a nossa reflexão para introduzir um elemento da história
recente que cruzaremos com o percurso reflexivo feito até aqui.
Em
2022, o Papa Francisco proclamou Santo Ireneu de Lyon como Doutor da Igreja,
com o título de ‘doctor unitatis’ (‘doutor da Unidade’). Francisco sabe quanto
significa esta escolha. Uma das principais batalhas de Santo Ireneu, em finais
do século II, tem muito em comum com os traços da atualidade. Na sua obra mais
conhecida, ‘Adversus Haereses’, Ireneu enfrenta os desafios do gnosticismo,
poderoso modo de pensar que foi, qual hidra, emergindo na história de um e
outro modo. Então, como hoje, o humano ficava reduzido ao anímico e o corpo
parecia ser prescindível, não fazia parte da identidade… Veja-se como pensam a
‘teoria de género’ ou os diversos transumanismos que se propõem reduzir o
humano à sua ‘alma’, ao seu ‘pensamento’. O corpo, nesta visão, nada é… Agora,
como outrora! E, agora, como outrora, o corpo, reduzido à condição de não
essencial, fica ‘imune’ à abordagem ética: tudo pode fazer-se sobre ele, pois
não estará em causa o humano.
Perante
a sedução gnóstica, Ireneu foi contundente: ‘A glória de Deus é o homem vivente’ (Santo Ireneu de Lyon, Adversus Haereses, 20,7[3], evidenciando que é a
unidade corpo-alma que reflete a bondade da criação e não, apenas, uma parte
das duas. Aliás, toda a escatologia cristã evidencia e sustenta-se neste
princípio ‘encarnação’, sem o qual não temos o homem todo, ‘alvo’ da salvação
com que Deus brinda a sua criação.
Os
tempos [em] que vivemos pedem, por isso, que correspondamos ao desafio
conciliar, ainda não totalmente cumprido, de ‘[…] um contínuo regresso às fontes de toda a vida cristã’ (Perfectae Caritatis, 2)
- ‘E porquê?’ -
Poderemos perguntar.
O Pe. José Miguel
Cardoso, na sua muito aclamada tese de doutoramento, defendida em Roma e em boa
hora editada em Portugal, responde a esta interrogação, sabendo-se que o
assunto em análise, ali, são, precisamente, as matérias de escatologia: ‘Por
que razão o período patrístico é crucial para toda a reflexão teológica (e
escatológica)? Porque é o período que nos oferece o “alfabeto teológico”, cujas
[…] formulações iniciais determinarão todo o azimute teológico’[4]
Pede-se, por isso,
que nos ‘alfabetizemos’, vez após vez, no ‘idioma cristão’ para que não
percamos o norte, o azimute, quando o mundo parece desnorteado.
Mas – dizem alguns –
com que legitimidade pode o cristianismo falar, quando tantos erros cometeram
os cristãos, ao longo da sua história?
Nicolái Berdiáiev
responde, com a ironia que perpassa toda a sua obra e que faz, tantas vezes,
lembrar Chesterton: ‘Como pode condenar-se o cristianismo em função da
indignidade dos cristãos quando ao mesmo tempo se repreendem os mesmos cristãos
por faltarem à dignidade do cristianismo?’[5]
Talvez quem mais
necessite de ouvir estas palavras de Berdiáiev sejam os próprios cristãos,
tantas vezes titubeantes e inseguros sobre a qualidade do tesouro que lhes foi
confiado…
Regressemos, mais seguros, ao ponto da
reflexão sobre ‘Cartesius’.
Dizíamos que
Descartes deixou uma longa sombra de dualismo, já sobejamente identificada e
recordada por António Damásio. Mas identificámos um outro erro que se lhe pode
apontar, não menor no grau de impacto sobre as convicções e axiomas em que
assenta a modernidade que temos construído: o sujeito cartesiano parece ter
nascido sem pai nem mãe. Fundando um solipsismo teórico, mas com profundo
impacto sistémico, Descartes convenceu-nos de que a primeira certeza de que nos
damos conta é da nossa existência, contrariando a nossa própria natureza de seres
umbilicais. No centro do nosso abdómen, está a marca que Descartes quis
ofuscar: o sinal inequívoco de que não nascemos de nós. O umbigo é a marca
insofismável de que dependemos de um outro, na fase mais decisiva do nosso
existir. Por isso, antes da certeza de que existimos, está a certeza de que
existem os outros. Sem eles, nunca a potencial consciência que nos habita como
possibilidade poderia tornar-se atual e efetiva. São os humanos que nos
antecedem (os inúmeros ‘tus’ de quem herdamos a vida, a cultura, a língua) que
criam as condições para que o ‘eu’ possa consciencializar-se de si.
Dessa condição de
intrínseca indigência e relacionalidade do humano nos falam todos os mistérios
cristãos e, entre eles, o da própria Trindade que diz que a natureza de Deus é
Amor, isto é, o amor com que Deus se expressa não é um acidente, mas a
expressão de Si Mesmo. E, sendo o humano criado à imagem e semelhança de Deus,
é enquanto amor que o ser humano se realiza. Sendo o egoísmo o contrário do
amor!... O pecado de Adão (o outro nome de toda a humanidade) que outra coisa é
senão o solipsismo e a ilusão de se bastar a si mesmo?
Do cristianismo
espera-se, por isso, que continue a ser, ainda que em contracorrente com a
ilusão da solidão espelhada em si mesmo, a bússola do azimute certo: o de que
só chegamos à meta, juntos. Não nos geramos a nós mesmos, não podemos pensar
uma autonomia que dispensa os outros; verdadeira autonomia não é anomia e falta
de referências, como se o sujeito isolado gerasse as leis e as normas, e o
mundo começasse, então. A liberdade em que queremos sustentar as nossas
sociedades é uma ilusão: a do solipsista que se concebe como absoluto e sem
dependências. Isso é algo, mas não será, certamente, humano. Sem os outros, não
haverá o eu, porque somos ‘pessoas’, seres racionais e relacionais, conceito
gerado pelo cristianismo; uma dívida nunca saldada pelo mundo que não seria o
mesmo se tal conceito não o tivesse criado esta religião que faz da relação o
seu traço definidor. Somos enquanto somos com os outros. Morremo-nos na solidão
e na ilusão de nos bastarmos.
[1]
Viktor Frankl, A voz que grita por um sentido, Alfragide, Lua de papel, 2021, p.
57.
[2] António Damásio, O Erro de Descartes: Emoção, razão e cérebro humano, Mem Martins, Publicações Europa-América, 199818, pp. 253ss.
[3] Sigo a tradução feita pelo saudoso biblista, Pe. Doutor Franclim Pacheco, em edição publicada em https://diocese-aveiro.pt/cultura/
[4] José Miguel Cardoso, Para uma escatologia sapiencial: A herança escatológica de Karl Rahner e Johann Baptist Metz, Braga, Livraria DM, 2023, p. 97.
[5] Nicolái Berdiáiev, Contra a indignidade dos cristãos: Por um cristianismo de criação e liberdade, Salamanca, Ediciones Sígueme, 2019, p. 134.