segunda-feira, dezembro 23, 2024

A gambiarra de Natal e os pontos de fixação…


O país anda em polvorosa com as ações policiais. Encontrei a lupa para a sua análise numa situação simples do meu quotidiano.

Por sugestão da minha filha, estendi, ao longo da parede da minha sala, uma gambiarra de natal. Fixei-a em sete ou oito pontos, com recurso a pastilha de fixação (vulgarmente designada, por efeito do frequente fenómeno de ‘colagem’ de uma marca ao produto, como ‘bostik’). O efeito luminoso cadenciado entusiasmou-nos e tudo parecia estar preparado para que os enfeites de natal ficassem para durar.

Após a primeira noite, porém, a gambiarra foi parar ao chão. Um dos pontos de fixação cedera e arrastara toda a estrutura, ponto após ponto, por efeito da lei da gravidade, cujo imposto pagamos com a dificuldade em voar.

Na segunda noite, estive atento. Quando o primeiro ponto cedeu, reforcei a dose de ‘bostik’ e assim se manteve até agora. A estrutura não voltou a ceder.

A situação não podia ser mais exemplificativa do que a realidade portuguesa pedia que visse.

Somou-se, curiosamente, a esta situação quotidiana, a convergência de uma conversa em sala de professores. Contava-me uma colega que, dias antes, percorrera uma das ruas da cidade e encontrara, num troço de uma calçada portuguesa, uma pequena pedra levantada. Decidira repô-la no sítio.

Dias mais tarde, regressara ao mesmo ponto. A pedra que colocara tinha sido, entretanto, retirada e arrastara, entropicamente, outras que, pela sua deslocação, tinham deixado aberta uma ‘progressiva’ cova no chão tipicamente português (não sei se a calçada ou a falta de conservação são o que melhor ilustra o espírito português, mas serve-me, para aqui, a ambiguidade da expressão…).

Ambas as situações são ilustrativas e suficientemente exemplares para que delas se retirem as implicações de múltiplas ordens.

Veja-se como a sua aplicação pode fazer-se ao âmbito pedagógico.

É melhor e mais eficaz evitar a acumulação de problemas e dúvidas e ‘atalhar’ as dificuldades de aprendizagem quando elas se apresentam, em vez de esperar pela acumulação de progressivas dificuldades em que já só planos profundamente transformadores poderão permitir alguma resposta, mas com enormes custos em termos de recursos e com expectativa menor de resultado positivo.

Já Steven Levitt e Stephen Dubner, no seu livro ‘freakonomics’[1], tinham feito uma constatação coincidente com estas intuições. Nos Estados Unidos, os estados com molduras penais mais pesadas (com pena de morte, por exemplo), não são, necessariamente, os que têm menos crimes. A inibição dos crimes não se faz com a ameaça de penas mais pesadas, mas com a eficácia no combate aos pequenos delitos. Se sei que o pequeno delito será punido, isso inibe o progresso para crimes mais graves. Se, pelo contrário, só se ameaça com penas pesadas, os que têm ‘tentação’ do crime confiarão, sempre, na sorte e na expectativa de que não lhes chegue a ser aplicada essa pena.

Ora, é notório, com estes dados, que, mesmo que, politicamente, tragam menos benefícios eleitorais a prevenção e inibição do crime pela punição dos delitos logo no seu emergir, é o método mais eficaz para que se possa garantir uma sociedade pacífica. E, bem certo que, numa democracia que vive dos resultados eleitorais, a tentação será a de mostrar resultados de grande monta, em vez de se dedicar a cuidar e conservar, evitando o avolumar perigoso do peso do ponto de fixação que cede… Mas o que queremos, como sociedade?

Recupero, para a consolidação desta resposta, o que conta Baltasar Garzón, o super-juiz espanhol entretanto caído em desgraça, no seu livro ‘Um mundo sem medo’[2]. Recorda este juiz que o combate ao crime organizado precisa de gente corajosa, que não se deixa vencer pelo medo (onde há medo, não há liberdade!), mas que, para que essa gente corajosa possa atuar, precisa de receber sinais da sociedade. No caso do combate contra a máfia italiana, a operação ‘mãos limpas’ precisou do envolvimento do povo, cansado do crime e da insegurança e que, pouco a pouco, foi dando pequenos sinais (atirar uma pequena moeda para o chão, quando se aproximava um mafioso…) para se agregar em torno da causa que veio a limpar a Itália da influência mafiosa. A operação veio a ser desencadeada após a morte do incorruptível Juiz Guiseppe Falcone, assassinado com a família, pela Máfia, durante uma viagem de carro.

Para os que se interessam com resultados eleitorais, deixar avolumar os problemas permite tornar mais visíveis as respostas, com custos cifráveis e fotografáveis. Mas uma sociedade justa, equilibrada e assente na autêntica paz, que não se faz com recurso ao aumento do som das armas, é feita de decisões pouco visíveis, mas que asseguram a tranquilidade e impedem o que muitos designam como ‘mexicanização’ das sociedades.

O sonho está nas nossas mãos. O ponto de fixação soltou-se? É preciso voltar a fixá-lo… A gravidade não perdoará se deixarmos que outro ponto vacile.



[1] Steven Levitt e Stephen Dubner, Freakonomics: o estranho mundo da economia, Lisboa, Presença, 2006.

[2] Baltasar Garzón, Um mundo sem medo, Porto, Ambar, 2006.

Natal: 2000 anos depois, o escândalo continua…

 

Artigo originalmente publicado no Correio do Vouga

Luís Manuel Pereira da Silva*

‘Não temais, pois anuncio-vos uma grande alegria que o será para todo o povo: hoje, na cidade de David, nasceu-nos um Salvador que é o Messias Senhor!’ (Lc 2, 10)

A frequência da escuta embotou-nos os ouvidos que já amenizaram o escândalo, como se de um lugar-comum tratassem as palavras que recordam o mistério. (Ou teremos levado tão a sério o convite a que não tivéssemos medo que, efetivamente, o superámos?)

Mistério evoca sempre a ideia de uma realidade diante da qual cabe fazer silêncio, emudecer-se. Mas o mistério cristão, escandaloso como sempre, já não é, apenas, uma realidade diante da qual cabe fazer silêncio. É um desvendar da realidade que, de tão denso, nos interpela a reler a existência e reconfigurar o nosso olhar. O mistério cristão define-se, essencialmente, como realidade que, de tão densa, é paulatinamente desvendável, mas nunca suficientemente abarcável: tomamos parte mas muito mais é o que nos escapa. O que se capta, porém, é já suficientemente significativo para nos dar novo sentido à existência.

Deste modo de pensar o mistério se trata ao falar do da Encarnação.

Dois mil anos volvidos, o que aconteceu em Belém continua, aos ouvidos atentos de hoje, a ser motivo de escândalo e estonteamento.

Ao tempo, fora-o para judeus, incapazes de aceitar que o distantíssimo Deus, de que só nos poderíamos acercar pela Sua Lei, pudesse tornar-se humano. Essa kenose, tão sublimemente enunciada pelo também judeu Paulo de Tarso, no seu hino cristológico feito epístola aos Filipenses, era inaceitável para os ouvidos judaicos. Não o era porque a corporeidade não pudesse ser abarcável pela sua compreensão de Deus, mas pela insignificância do humano, perdido desde o paraíso e errante pelo mundo. Ver a Deus era de todo impossível. Encarnar era, então, inadmissível.

Fora-o, também, para os gregos e todos os que, na senda do espírito helénico, reduziam o homem ao seu espírito, encarcerado que estava num corpo material, essencialmente mau e de que se pretendia a libertação.

As duas reticências permaneceram, ao longo da história… A reticência judaica e a reticência grega.

A encarnação, para os que não a anestesiam sob a capa da habituação, constituiu-se, ao longo dos tempos, escândalo maior, seja pela via judaica, seja pela grega.

Pela judaica, pela natureza de Deus; pela via grega, pela natureza do homem.

Hoje, o pêndulo continua a oscilar entre os dois ímanes.

Tende, porém, a ser mais fortemente atrativo o íman grego, nestes tempos que voltam a reduzir, gnosticamente, o homem ao seu pensamento e à sua alma.

A encarnação e a sua celebração como natal continua a escandalizar estes tempos para quem alguns de entre nós dizem habitar corpos que não são os seus. Como se não nos fizéssemos do encontro indissociável entre matéria e forma, impossibilitada que é a existência de uma essência (forma) sem a sua materialização (matéria).

Hoje, celebrar o Natal volta (continua, talvez!) a escandalizar porque se aceitou como verdadeira a afirmação de que alguém pudesse pensar-se sem se pensar no aqui e agora. O poder que tem o pensamento de voar convenceu alguns de que o voo fosse uma abstração e não movimento do pensamento concreto de alguém, situado e situável. O pensamento é sempre de alguém, com toda a sua história, feita de chão e habitar lugares concretos. É identidade feita caminho, feita de história, de tempos e lugares finitos de que se guardam lugares vividos, para abrir, antecipando, lugares a poder viver. Mas é um sujeito concreto, real, corporeamente real, que mora o passado, o presente e se lança para o futuro. É indissociável do seu realizar-se concreto.

Mas o íman grego continua a atrair…

O escândalo cristão continua a dar atualidade ao anúncio de que ‘hoje nasceu-vos o Salvador’, que é o verdadeiro ‘Emanuel’, ‘Deus connosco’. Apesar de instados a não temer, continuamos a ter medo e a recusar…

Aos nossos olhos de vidas tão curtas, 2000 anos já seriam tempo suficiente para se esperar que o escândalo se tivesse suplantado. Mas Deus é paciente e, aos seus olhos, nunca é tarde.

Deus continuará a precisar de nos anunciar, pela voz daquele que traz a mensagem, que, de uma só vez, Ele mesmo encarnou. Não como quem reencarna, para o repetir vezes sem conta, mas como quem assume, de uma só vez, de forma singular e irrepetível, a história única do encontro entre o Eternamente Outro e aquele em quem quis refletir-se como imagem e Sua semelhança. Os primeiros cristãos sabiam da natureza escandalosa de tão denso mistério e das suas implicações para o reconhecimento da unidade indissolúvel do humano. Por isso o quarto evangelho utiliza o termo grego ‘lógos’ (cuja tradução para português por ‘Verbo’ – do termo latino ‘verbum’– atenuou a força do significado), em que se congregam ideias como a de ‘palavra’, ‘pensamento’, mas também ‘ação’ e, numa densificação da etimologia, podemos chegar à ideia de ‘reunir’, ‘recolher’, ‘juntar’ (‘Logos’, in Logos, vol. 3, p. 475). João sabe que Aquele que ‘recolhe’, junta, reúne’ é, Ele mesmo o ‘Reunido’.

No mistério do Natal, afirma-se, enfim, que a realidade é toda ela - face às forças que pretendem cindir, separar, dividir - intrinsecamente simbólica, isto é, agregadora, unitiva. O Natal supera, por isso, a tentação de Adão: queria ser, unidimensionalmente – só ele, fechado em si, autossuficiente, uma só dimensão. O Natal é a explicitação de que a realidade se define, essencialmente, como unidade da alteridade, como encontro, como ‘lançar juntamente’ e não como separação.

É por isso (e precisamente por isso!) que a religião que nasceu deste mistério fundamental foi a criadora da ideia de pessoa. Não somos indivíduos fechados, autossuficientes, mas ‘pessoas’, seres intrinsecamente definíveis a partir do encontro, do ver-se e compreender-se a partir do tu.

Tudo isto está em causa, nestes tempos em que o Natal voltou a densificar-se como escândalo.

Verdadeiramente, é preciso voltar a anunciar que um Salvador nos nasceu, de uma vez por todas, para nos salvar do risco e da tentação da divisão, da dissolução da unidade incindível que define o ser humano, feito de ‘húmus’, de terra, de pés no chão real… Somos o que Deus quis ao criar-nos como Adão: imagem e semelhança no facto de sermos relação, encontro, real e feito do pó e da terra onde nos realizamos. Somos um fazer-se… Não um pensamento e alma imutável e definitivamente realizada e implantada num corpo.

O Natal restaura a humanidade como humana, contra a sedução dos ímanes judaico e grego.

O elogio do assentimento | Para uma sociedade da confiança!

 Artigo originalmente publicado na Agência Ecclesia

(Caríssimo leitor, antes de iniciar a leitura deste artigo, solicito-lhe que verifique a sua respiração. Dê-se conta de que respira.

Assegurado dessa condição, pode, então, prosseguir, lendo esta reflexão…)

 

A modernidade, particularmente após a convicção cartesiana de que precisamos de nos certificar, em cada momento, da verdade das nossas convicções, gerou na humanidade uma atitude de desconfiança constante.

Para mais, Descartes, não satisfeito com essa pretensa segurança, deslocou a fonte da certeza e da confiança para o sujeito individualmente considerado e solipsisticamente isolado.

O filósofo francês lançou, de uma assentada, um duplo envenenamento na estrutura mais basilar da condição humana: gerou-lhe, por um lado, uma condição, não de dúvida metódica, como dizia pretender, mas de dúvida sistemática, e, por outro, convenceu-nos de que a sua resolução só poderia operar-se rompendo os laços com os demais.

Ficou o sujeito isolado, na sua dúvida e busca de certezas.

 

(Caríssimo leitor, recordo que deverá assegurar-se das boas condições respiratórias. Inspire… Expire…

Verificadas as condições, prossiga com a leitura.)

 

Sobrou uma solidão suicida, em que os outros se afiguram como estorvo e impedimento. Se a dúvida só se resolve na busca interna de ideias claras e distintas, o outro, diante de mim, para além de poder ser nada mais do que uma projeção, é dispensável e, no limite, um autêntico obstáculo à minha busca de me realizar, sendo, no dizer de Sartre, muitos séculos depois, um inferno (‘o inferno são os outros’, concluía…).

Os esforços por resolver este nó górdio que herdámos de René Descartes têm falhado, muito provavelmente porque se propõem desfazê-lo mantendo a convicção mais estruturante do pensamento cartesiano. Quem procura desfazer o nó mantém-se convicto de que o pensamento humano só é seguro se for cético, se partir, a cada momento, da estaca zero, sem nada pressupor como merecedor de confiança.

 

(Meu bom amigo leitor, não avance sem voltar a verificar que respira. Inspire… Expire…

Agora, avance…)

 

Um tal quadro promoveu a convicção societária de que a autêntica convivência entre os humanos só poderia garantir-se, já não assente em pressupostos tomados como seguros e universalmente aceitáveis, mas sobre uma neutralidade a-histórica considerada a única condição possível para que sujeitos isolados pudessem entender-se, pois de nenhum se pressupõe o que quer que seja.

O corolário deste processo está diante de todos.

Vivemos em sociedades em que nem a história pessoal de cada indivíduo, mesmo quando acompanhado pelos seus progenitores que o viram nascer (menino ou menina), mas que desconhecem em que ‘ideias claras e distintas’ vai assentar a sua vida, pode ser tomada como pressuposta ou confiável. O sujeito, isolado e solitário, é que tem o poder de dizer que identidade o define. Os outros não lhe podem aceder, oculto que está no seu pensamento fechado e hermeticamente enclausurado.

 

(Amigo leitor, faça uma última verificação da sua respiração. Inspire… Expire…

Pode avançar…)

 

O percurso, presumível desde o início, pois as sementes permitiam vislumbrar a natureza da árvore que delas brotaria, deveria ser suficiente para que as sociedades devessem ter há muito abandonado os pressupostos cartesianos aqui enunciados.

Nenhum ser humano se estrutura, saudavelmente, sobre os pressupostos em que Descartes fez assentar a (sua) modernidade.

Uma outra modernidade deveria tê-la suplantado, imediatamente.

Uma outra assente sobre a ‘ideia clara e distinta’ – sim! – de que a primeira certeza que temos é a da existência dos outros. Eles estão aí, diante de nós, e é deles que herdamos todas as sementes que, em nós, germinarão com os traços que lhes acrescentaremos, com o avançar da nossa existência.

Herdamos deles a biologia, a nossa base psicológica, a descoberta do ‘tu’ diante do qual nos tornamos ‘eu’, a língua, a cultura, etc.

Herdamos e é diante da herança que nos diferençamos e não, como Descartes pressupõe, somos uma tábua rasa em que, posteriormente, se ‘colam’ os elementos vindos do exterior.

Nós somos nó de encontros e, nesse pressuposto, distinguimo-nos, num segundo momento (num movimento de exteriorização).

O primeiro momento não é, por isso, o da reflexão ‘clara e distinta’. O primeiro momento é o do assentimento, o da anuência, o do acolhimento do que recebemos e diante do qual, num segundo momento, nos distinguimos.

Uma sociedade assim, uma sociedade do assentimento, é uma sociedade baseada na confiança, ao invés da sociedade cartesiana, estruturada sobre a desconfiança e a dúvida sistemática.

Como defendi, já há algum tempo, urge inverter a ‘dúvida metódica’ para um registo de ‘confiança metódica’, o assentimento que pressupõe que o outro não só não é um inferno, como é, inclusive, a condição de possibilidade de existirmos.

Sem o outro, diante do qual nos tornamos ‘eu’, jamais emergiria a consciência de nós mesmos.

Esse assentimento não é, porém, fruto de uma reflexão discursiva, racional, mas é meta-racional, anterior à própria racionalidade.

É, aliás, semelhante ao que acontece, biologicamente, com cada ser humano.

Não estamos, permanentemente, a verificar a nossa respiração (como ‘teimosamente’, fui solicitando, ao longo deste texto). Só quando estamos doentes ou a precisar de reparar desvirtuações é que nos detemos no respirar. Que o digam os que, por doenças pulmonares, precisam de auxílio para este tão básico ato! Quanto desejam não ter de pensar no respirar!

Mas, sem ser por situação patológica, a nossa existência não precisa de estar a racionalizar o seu respirar. Pressupõe-no!

Dir-nos-á esta necessidade cartesiana de sempre pôr em causa os pressupostos, com tantos custos societários, que esta é, afinal, uma ‘modernidade’ doente?

Exigem-nos que sempre nos fixemos na ‘inspiração’ – ‘expiração’… Quando poderemos, afinal, viver como humanos?...

Só quando aceitarmos que a vida se baseia, afinal, num genuíno e ‘metódico’ assentimento, o reconhecimento de que, para sermos acolhidos temos de estarmos dispostos a acolher o outro.

Respire fundo, caro leitor. Pode, finalmente, viver!

EDUCADORES COMO AUTÊNTICOS PEREGRINOS DA ESPERANÇA | O PEREGRINO, O ALFORGE, O CAJADO E A META

 Conferência proferida online em 26 de outubro de 2024


1 | O PEREGRINO

Sabe que não tem aqui morada permanente, mas habita os tempos e os lugares, ao invés do turista que passa e não os habita nem se deixa habitar.


Este dinamismo do peregrino é dos mais fecundos para se compreender a educação. Educar não é entreter. É fazer caminho, não como quem vê e sobrevoa as coisas, mas como quem se constrói em cada experiência. 

Um dos grandes desafios de EMRC, na escola de hoje, é o de fazer dos nossos alunos peregrinos quando tudo os desafia a que sejam meros turistas. 

E, para mim, uma das causas deste ‘turistizar’ da educação está no facto de pressupormos que o desafio da tolerância e do respeito signifique o silenciamento das identidades.

Esta foi a matriz, durante muito tempo, por influência da perspetiva francesa da laicidade, que entendia que o lugar público era um lugar de neutralidade, na senda da teoria da secularização de autores como Peter Berger.

Uma perspetiva que, no caso português, era reforçada na convicção equívoca de que a constituição da III República defendia uma laicidade à francesa. Esta visão é, como disse, equívoca. A nossa constituição, ao omitir, intencionalmente, a referência à laicidade, e ao defender, no artigo 41º, número 4, que «As igrejas e outras comunidades religiosas estão separadas do Estado e são livres na sua organização e no exercício das suas funções e do culto.», está a defender, não uma neutralidade e indiferença do Estado para com as igrejas, mas, pelo contrário, a sustentar que, em primeiro lugar, está a liberdade religiosa.

Foi este entendimento que permitiu que, em 1987 e 1993, quando se pronunciou de modo claro sobre a nossa disciplina, o tribunal constitucional não tenha encontrado sinais de inconstitucionalidade na oferta desta disciplina, no sistema educativo público. Isto deveria acabar de uma vez com as dúvidas sobre a legitimidade da nossa disciplina que encontra, ainda, mais respaldo, no direito prioritário dos pais à educação e, naturalmente, para além disto, no direito concordatário que também só é possível porque a constituição o permite.


Ora, mas regressemos a Peter Berger.

A perspetiva deste e outros autores que fizeram escola era a de que as identidades, em particular as de matriz religiosa, iriam tender a desaparecer. Ficaria um espaço comum, sem identidades.

Peter Berger, um dos grandes gurus desta visão, veio, nos últimos anos, rever a sua tese. 

No livro ‘os numerosos altares da modernidade’, Berger vem reconhecer que estava errado. O futuro não será o do silenciamento das identidades e das religiões, mas o da convivência entre as diversidades religiosas.

É precisamente isso que temos, hoje, nas nossas escolas.

E o que deve fazer uma identidade específica, neste contexto, por exemplo, uma identidade como a da disciplina de Educação Moral e Religiosa Católica? 

Deve adotar duas atitudes simultâneas: reconhecer a sua identidade e (como propõe o documento Unitatis Redintegratio) formular uma hierarquia das verdades em que seja notório o que é fundamental, mas dispor-se, também e simultaneamente, ao diálogo. 

Sem uma destas duas condições – identidade e disponibilidade para o diálogo – o diálogo não pode existir. Não pode existir se não houver identidades – há monólogos ou discursos vazios – não pode existir se não houver disponibilidade para o diálogo – cada identidade permanece fechada em si. Só restará o conflito.

Ora, diante destas constatações, é fácil perceber que uma disciplina como EMRC não só tem a sua legitimidade reforçada, mas também pode ser um fator de criação de pontes.



 2| O ALFORGE

Não pode encher-se de ‘coisas’ pois sabe que o impedem de caminhar. Centra-se no ser.

Gostava de iniciar este ponto recordando um bom amigo, padre, que lutou contra um cancro, e partiu em setembro de 2023. Organizei, com ele, ainda ele desconhecia a doença, a passagem dos símbolos da JMJ por uma das escolas que ficava numa das paróquias dele.

Morreu como viveu toda a vida: muito sereno.

Num dos últimos telefonemas que lhe fiz, perguntei-lhe: ‘Padre Zé Augusto, como consegues viver, com esta serenidade, estes dias?’

Respondeu-me:

- – ‘Luís, há, no tratamento uma parte que depende de mim. Estou a fazê-la. Outra parte que depende dos médicos. Estou certo de que estão a fazê-la. E há uma parte que não depende, nem de mim, nem dos médicos. É o lugar da confiança. Confio-me…’


Esta é a atitude de quem tem o alforge de peregrino.

Percebe, com clareza, que há âmbitos que dependem de si. Não os transfere para outros. Responsabiliza-se por eles. 

[Faço aqui uma pequena deriva. Uma confidência. Entendo, interiormente, que o agrupamento onde estou é a minha terra de missão. Sinto-me como que uma presença do pastor (que não sou, bem certo) que não abandona as suas ovelhas. No início de cada ano, verificando que houve desistências, vou conversar com os alunos que não renovaram a matrícula. E lanço uma iniciativa de convites aos que nunca frequentaram. Neste ano, esta dinâmica já fez com que 32 alunos novos ou regressados se inscrevessem…]


Voltemos ao ponto de análise da resposta do meu amigo…

Há outros aspetos que dependem dos que estão próximos de si. Incentiva-os, pergunta-lhes, interpela-os. Acompanha para que não baixem os braços e cumpram o que lhes é devido.

Mas, por fim, sabe que há partes que não lhe cabe a si determinar. Confia. 

Não se angustia. 

E não confia no vazio. Confia em Deus amor.

Quanto mais tempo tenho de professor de EMRC, mais confirmo a necessidade que os nossos alunos têm de que, na reflexão, lhes falemos do amor que Deus é. Isto não trai a distinção entre EMRC e a catequese, mas seria uma traição à disciplina e aos alunos não o fazer.

Conto-vos uma situação passada com um aluno que não era batizado, não frequentava a catequese.

O único contacto dele com o cristianismo era através de EMRC.

Na unidade sobre as origens, eu tinha insistido na ideia de que somos seres criados à imagem e semelhança de Deus. Sublinhei como a nossa capacidade de amar, a liberdade, a nossa capacidade de nos abrirmos ao transcendente eram marcas dessa condição icónica do ser humano.

Um aluno, de nome Leonardo, diz-me: ‘professor, posso acrescentar uma conclusão: se somos seres feitos à imagem e semelhança de Deus, e se Deus é Criador, então, também é sinal de sermos à sua imagem o facto de conseguirmos criar.’


Eles precisam de olhar o mundo de um outro modo, o modo que EMRC tem para lhes propor.

Para aqueles de nós que possam pensar que a identidade religiosa de EMRC possa ser uma menos-valia, recordo o livro de Alain de Botton, ‘religião para ateus’, um livro escrito por um descrente que olha com admiração para as religiões (que, para ele, não passam de construções humanas; parte que custa a ler, neste livro!) e que afirma que, até hoje, a humanidade nunca foi capaz de superar a eficácia que as religiões conseguem, numa série de áreas: nas motivações morais, na solidariedade, na arte, na educação, etc.

Ler este livro poderia ajudar a perceber que relativizar a identidade da disciplina é um erro e um retrocesso.

Um erro e um retrocesso para a disciplina, mas também para a educação.

Veja-se como é difícil para cidadania e desenvolvimento fundamentar porque haveremos de cuidar dos outros, de acolher os outros, cuidar do ambiente.

Normalmente, a fundamentação faz-se ou com base no medo (ai que estão aí as alterações climáticas; ai que estamos na iminência do fim do mundo, ai… ai…) ou com base na lei positiva (está escrito aqui e ali… Na convenção A, na declaração B…).

EMRC fundamenta e diz-nos porquê e só EMRC o pode dizer: o mundo é dom e o outro é meu irmão.

No diálogo com filosofia, é também notório em que medida EMRC é imprescindível: a filosofia pergunta e deixa os alunos vazios e enredados em perguntas. 

EMRC pergunta, bem certo (isso tem sido reforçado), mas não se fica pela pergunta. Os alunos, como sujeitos humanos, sujeitos de sentido, procuram resposta. EMRC aponta resposta.


3 | O CAJADO

O peregrino está consciente de que não é omnipotente; sabe que cairá muitas vezes. O cajado é símbolo do perdão: irá errar mas não se tornará errante.

O cajado expressa a ideia de que somos seres que, no peregrinar, irão cair e precisarão de se levantar.

É, hoje, no contexto escolar, das «águas» de que mais se necessita. Os nossos alunos (mas também os professores e assistentes operacionais) vivem, muitas vezes, a angústia de um dia terem ‘errado’. Muitos deles, por causa disso, tornaram-se ‘errantes’.

EMRC e o professor de EMRC tem uma missão única, na escola. A mensagem de que o erro não tem de significar uma errância permanente é forte e necessária. 

Um aluno que reprovou, uma vez, não tem de se considerar um falhado.

Confidencio-vos que foi conversa que tive, com vários alunos, no início deste ano.

Ouvirem um professor dizê-lo é, para eles, uma surpresa.

E uma surpresa que só a experiência cristã do perdão pode dar solidez.

A esta experiência de perdão que surpreende associo uma nota que não posso deixar de fazer. Nas minhas aulas, um dos sinais deste perdão é o humor. 

Deus é amor, mas também é humor.

O humor que acontece quando nos enganamos ou quando queremos repreender de forma original e com uma ‘graça’ surpreende.

E, ao humor, acrescento o jogo. 

Os meus alunos estão, muitas vezes, em dinâmica de jogo. Integram um jogo, da primeira à última aula: o jogo ‘um por todos e todos por um’. 

Um jogo que os compromete uns com os outros (posso explicar, se o tempo o permitir).


4 | A META

Os seus pés pisam o chão e sobre ele habita, mas o seu coração aponta-lhe a meta: aí vai buscar a fonte da esperança.

Face às correntes de mindfulness e outras correntes que, bem-intencionadas, rapidamente esbarram na verificação de que o sujeito só se está a encontrar a si mesmo, num narcisismo fechado que só adia a depressão e a tristeza, EMRC é um oásis, no espaço escolar, que suplanta as miragens e diz que a esperança não é uma vaga utopia ou um subjetivo desejo. 

A esperança de que falamos nasce de um acontecimento, de um real encontro pessoal, não de um efeito de espelho que reflete o sujeito apenas um pouco para fora de si. 

Só este pressuposto permite que se fale do amor como algo maior do que um mero sentimento voltado sobre o sujeito. Só EMRC pode falar do amor como o oposto ao egoísmo. Só emrc pode falar, aliás, de egoísmo. Ninguém arrisca, noutros contextos, falar de tal coisa.

Só EMRC arrisca falar de real fraternidade e não, como fez a revolução francesa, fala de fraternidade, mas, primeiro, mata o Pai comum para instaurar, a seguir, uma orfandade…

EMRC olha para o outro como irmão.

EMRC fala aos alunos de um sonho e é com base nesse sonho que olha para o mundo e cuida dele. Não como quem tem medo, mas como alguém que, movido pela esperança, protege, trata bem. 

EMRC dá os fundamentos que outros estão impedidos, por causa da ‘neutralidade’ vazia, de facultar…

É por tudo isto que as palavras de Jesus que estão entre as mais frequentes dos evangelhos – ‘Não temais’ – continuam a ser-nos dirigidas, nestes tempos.

Não temais!

Temos, orgulhosamente, motivos para a esperança e, nestes tempos de tantos desesperos, se não a levarmos, alguns continuarão a ‘turistar’ quando poderiam tornar-se peregrinos.


sábado, dezembro 07, 2024

Sabes, leitor... | 12 | Marca de água do livro de Mariolina Ceriotti Migliarese, 'O casal imperfeito: e se também os defeitos fossem um ingrediente do amor?'

 

Rubrica ‘Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página’** | Marca de água de livros que deixam marcas profundas
Parceria: Federação Portuguesa pela Vida e Comissão Diocesana da Cultura

Luís Manuel Pereira da Silva*

O autor e a obra
Mariolina Ceriotti Migliarese, O casal imperfeito: e se também os defeitos fossem um ingrediente do amor?, Apelação, Paulus Editora, 2022.

Mariolina Ceriotti Migliarese conjuga dimensões raramente reunidas na mesma pessoa: o suporte científico (é médica, neuropsiquiatra infantil e psicoterapeuta de adultos e casais), o realismo de quem conhece o ‘barro de que somos feitos’ (é casada desde 1973 e mãe de seis filhos), uma consolidada base teórica de antropologia [refletida na sua prolífica obra publicada: em português, encontro edições de ‘O casal imperfeito’ e de ‘erótica e materna: viagem ao universo feminino’, mas contam-se, ainda, entre os seus títulos, ‘Querido médico. Respostas a famílias imperfeitas’ (2013), ‘Masculino. Força, eros, ternura’ (2017), ‘Casa comigo, novamente!’ (2020), ‘Alfabeto dos Afetos’ (2021), ‘Perfeitos imperfeitos’ (2022) e ‘Pais e Filhos’ (2023). É coautora dos livros ‘Apoiando a Paternidade’ (Franco Angeli, 2011), ‘Pré-adolescência’ (Franco Angeli, 2013), ‘Ser Mulher líder’ (SDA Bocconi, 2017)], e a atitude de sonho de quem não se rende ao já conquistado e adquirido (é crente!).

Conheci esta obra de Migliarese, que li entre os dias 6 e 16 de setembro de 2022, quando escrevia a unidade letiva dedicada a ‘o Amor e o Amar’, editada pela Fundação SNEC, e na qual fiz eco de ideias e citações. Revi-me e regozijei-me por ver, com a força de letra gravada em texto escrito, muitas das ideias que venho consolidando no meu pensamento e, inclusive, escrevendo.

Entre elas, a ideia estruturante de que devemos pensar-nos a partir da finitude e da fragilidade, como defendi, em 2008, em tese de mestrado e que repercuti no livro ‘bem-nascido… mal-nascido…’ (edição da Tempo Novo, 2019). Essa é uma das ideias-alicerces deste livro: somos imperfeitos e é a partir da imperfeição que devemos pensar-nos e pensar as nossas decisões. Muito do que hoje nos ‘deprime’ nasce da ilusão da perfeição já real.

Grande ponto de partida!

Marcas de água 

(o que fica depois de se deixar o livro)

 

Migliarese resiste, neste livro, àquela que considero ser a ‘grande tentação’, a que chamarei ‘sedução’, do nosso tempo… Entre as grandes ‘seduções’ dos discursos contemporâneos está a presunção da descoberta d’a’ resposta numa dimensão por si absolutizada e elevada à condição de ‘resposta definitiva’. O Homem ou é ‘corpo’, ou é ‘espírito, pensamento; o Homem ou é o agora (a emoção, o sentimento), ou é a sua história (o que foi, o seu passado) ou o que há-de ser (o seu futuro, o projeto). OU… Ou…
Talvez a esta condição contemporânea se deva a tão acentuada clivagem dos discursos. Valerá a pena recordar o que a história do cristianismo de matriz católica sempre evidenciou perante esses discursos. Viu-os como ‘escolha’, mas, como ‘escolha’ que absolutizava uma só dimensão, não reconhecendo neles o mérito de ‘ortodoxia’, ‘opinião correta, acertada’. Olhou-os por isso como ‘haeresis’, isto é, escolhas, opções, mas com os limites próprios dessas escolhas de apenas partes. Era preciso olhar o todo.
Migliarese olha o todo.
Não olha para o ser humano apenas em parte de si. Não escolhe o ‘espírito’ contra a carne (a corporeidade) ou a carne contra o espírito, sedutoras tentações de todos os tempos e hoje revisitadas como transumanismo e outros poderosos movimentos antropológicos, essencialmente desencarnados, ou como monismos materialistas que reduzem o humano à horizontalidade do visível.
Antes, vê o Homem como um todo, projetado para além de si, mas também essencialmente imperfeito.
Não o olha só enquanto presente… ou enquanto apenas passado… ou, ainda, como apenas futuro!
O humano de MIgliarese reside na tensão entre os três vetores do tempo. É memória, atualizada na decisão que se repercute, necessariamente, em consequências. Donde, a responsabilidade!
E é por isso que o texto de Migliarese nos contagia e prende.
Vemos, nas histórias que conta, as mil e uma histórias de reais mil e uma noites de luz e treva que domiciliam as nossas existências. Histórias em que o realismo de nos sabermos finitos, frágeis, débeis, imperfeitos, poderia ser a resposta perante as ilusões e idealizações em que o ‘sonho’ redundou em pesadelo. Aceitarmo-nos imperfeitos e, por isso, carentes do real perdão que deve fazer parte das histórias que se querem para sempre, é condição para que se construam histórias perfectíveis e, por isso, nunca suficientemente perfeitas.
É particularmente belo o que diz sobre o perdão, que não é ‘esquecimento’ (denunciando mitos tantas vezes difundidos e responsáveis por tantos fracassos), nem minimização, nem um regressar ao ponto anterior, mas reconhecimento da gravidade da ofensa como condição para que o mal feito não continue a fazer-nos mal.
Neste livro, mora dois pressupostos que tenho vindo a repercutir em muito do que escrevo (e, por isso, tanto me revi nestas páginas): que a liberdade não é um exercício de legitimação do que pretende a vontade, mas a determinação de transcender o que se quer e que o amor é muito mais do que um sentimento, mas o envolvimento da pessoa toda, compreendida como inteligência, vontade e afeto, em que amar é a decisão profunda de acolher o outro e o pretender fazer feliz, sendo feliz nessa decisão.
Este livro, porque fala de casamento e da constituição da família, é, como seria de esperar, um convite. Não o convite para um momento efémero e fugaz, mas um convite a transcender a efemeridade de uma hora, sabendo que é na revisitação da decisão primeira, alimentada em cada dia, que se assegura a verdade do amor para toda a vida e de toda a vida.

 

Na mesma página que o autor (citações)

‘Quando nos apaixonamos, todos fazemos a experiência de que o amor pede um horizonte de eternidade: disso são sinais simples todas as poesias de amor e todas as canções, forma hodierna de poesia, que ontem como hoje nos acompanham sem mudanças substanciais, apesar do tempo que passa. Hoje, como no passado, canções e poesias falam do desejo de um amor que desafia o tempo, que nos faça sentir acolhidos por aquilo que somos, que vá além das aparências; falam do sofrimento profundo de quem é deixado, falam da aspiração profunda de um coração abandonado, mas confiante no outro.

Porque é que então é tão difícil mover-se no sulco deste desejo? Porque é que os casamentos não duram e se rompem tão facilmente? Mais ainda: porque é que nos estamos a encaminhar para um mundo em que as pessoas até renunciam ao casamento, preferindo fazer apenas investimentos modestos em pequenas histórias, em que cada um está muito atento em não se entregar demasiadamente ao outro para não ser ferido no futuro?

O casamento parece ter perdido o seu forte significado de promessa e de novidade e é visto pela maioria das pessoas como algo superado, inútil, se não mesmo falso e prejudicial para o amor entre duas pessoas. Considera-se que só em pouquíssimos casos particularmente afortunados seja possível continuar a amar-se durante toda a vida e que depois de um certo número de anos o mais provável que pode acontecer a duas pessoas casadas é manterem-se juntas «apenas por causa dos filhos», ou «porque se habituaram», cultivando uma estranheza progressiva em que cada um dos dois procura noutro lugar a verdadeira resposta aos seus desejos. Nesta lógica, parece que as pessoas mais honestas são as que não fazem promessas ventureiras de amor eterno, porque, se foram tão temerárias em se casar, tiveram depois «a coragem de se separar» assim que o sentimento se enfraqueceu ou se apagou.

Este livro nasceu do desejo de fornecer reflexões para se voltar a entender o sentido pleno de uma «relação para sempre» que o casamento deveria representar, e que infelizmente se perdeu: creio, com efeito, que não existe aventura humana mais profunda, envolvente e apaixonante do que a que se pode desenvolver na vida de duas pessoas que decidem seriamente unir-se até à morte.’ (pp. 14-15)

‘Hoje, o verdadeiro risco é o desaparecimento de todo o sentido da profundidade das coisas, privilegiando a quantidade das experiências em prejuízo da sua intensidade, e esta falta de espessura da experiência torna tudo mais aborrecido e frágil.’ (p. 16)

‘A vulnerabilidade das coisas, bem como das pessoas, é parte integrante da sua preciosidade e deveria levar-nos a procurar multiplicar as nossas capacidades para amá-las e delas cuidar. O medo, pelo contrário, leva-nos a afastar o olhar do que é frágil, a esconder o que é imperfeito em nós e a evitá-lo quando o reconhecemos presente no outro.’ (p. 16)

‘Nada daquilo que é complexo pode encontrar uma solução adequada se não aprendermos primeiro a alargar o olhar além do imediato e do contingente, para orientar os nossos passos para uma meta.’ (p. 19)

‘Encontrei uma frase perfeita para sintetizar o que é o coração do desafio que o casamento representa: unir, no quotidiano, os aspetos mais práticos e prosaicos da nossa vida com os mais elevados e espirituais. Não será este um desafio especial?’ (p. 22)

‘Hoje, como no passado, os filhos continuam a ter necessidade de que os adultos saibam tomar posição sobre questões importantes, não para homologar-se a eles, mas para ter um ponto de partida e de referência para poder amadurecer de modo adulto o seu pensamento. Os filhos devem conhecer os nossos valores e por que razão os consideramos importantes: isto permitirá evitar eventuais contestações, e obriga-los a pensar em vez de seguir simplesmente o que está na moda.’ (p. 28)

‘[…] nos últimos decénios modificámos as nossas imagens mentais e o nosso modo de «sentir» sobre muitos argumentos cruciais, e muitas das nossas opiniões sobre casamento, família, identidade sexual, valor do corpo e do sexo, valor da vida e da pessoas, se foram formando mais por sugestões progressivas do que através de uma verdadeira e aprofundada reflexão, capaz de nos levar a convicções realmente motivadas.’ (p. 33)

‘A carne liga-nos e determina-nos, mas também nos manifesta. Nós somos mais do que a nossa carne, mas também não podemos existir sem ela. O conhecimento que os outros têm de nós é sobretudo conhecimento da nossa carne, entendida como o que de nós aparece e se põe sensivelmente em contacto com o outro, com os seus lados agradáveis, mas também com os menos agradáveis.’ (p. 38)

‘O corpo que desejamos deveria ser inodoro, incolor e insípido: o corpo verdadeiro resulta embaraçante, e causa-nos preocupação pela sua neutralização para não termos que dele nos envergonhar. Usamo-lo como se fosse uma vestimenta, em vez de o habitar e o viver. […] «Somos» o nosso corpo ou «temos» o nosso corpo?’’ (p. 39)

‘[…] na vida das pessoas cada decisão e cada gesto colocam-se sempre dentro de uma história: nada se faz que não tenha em si o gérmen das suas consequências. Entre as coisas que se podem fazer, há gestos com consequências reversíveis, e há gestos definitivos, em que não se pode voltar atrás. A relação sexual é, por essência, um destes: o que acontece nunca mais pode ser cancelado, aquilo que dei nunca mais pode ser retirado. Se a relação com o outro fosse interrompida, o desconforto de ter entregado a minha intimidade a alguém que será conotado como um estranho permaneceria em mim.’ (p. 48)

‘A nossa cultura […] não gosta do que é definitivo e que empenha, e define como aborrecido e pesado tudo o que cria ligações e parece dificultar a mudança; é por isso que progressivamente se trabalhou para separar o sexo de qualquer possível consequência, para que seja possível vivê-lo como um ato reversível, não definitivo, nem empenhativo, e por isso mesmo «ligeiro» e divertido, com valências de tipo exclusivamente expressivas e lúdicas.’ (p. 49)

‘[…] a afirmação tão cativante e à primeira vista convincente segundo a qual devemos «ser livres de seguir o instinto» contém em si uma contradição terminológica: como era bem evidente às grandes culturas que nos precederam, não é na verdade necessária nenhuma capacidade particular nem exercício de liberdade para seguir os próprios instintos, que são biologicamente determinados e que biologicamente nos determinam. O instinto sexual, o instinto de conservação ou o de sobrevivência possuem uma força intrínseca tal que segui-los não exige nenhum exercício de liberdade.

O verdadeiro e difícil exercício reside no desenvolver a capacidade de dominar os instintos, para se ser, então sim, realmente livres de os seguir quando e como considerarmos uma coisa boa fazê-lo.’ (p. 53)

‘Aquilo a que somos chamados a aceitar responsabilidades diz respeito àquilo que voluntariamente fazemos como resposta a estas solicitações e a estes desejos: este é o verdadeiro campo no qual exercer de modo inteligente a nossa liberdade.’ (p. 54)

‘O homem e a mulher são muito diferentes até mesmo na sua expressividade sexual, no modo de experimentar o desejo e no modo de experimentar o prazer.’ (p. 56)

‘«Promessa» é uma palavra de grandíssimo valor na civilização ocidental: sobre esta palavra baseia-se toda a civilização judaico-cristã e o modelo antropológico que dela deriva, que se construíram nos séculos precisamente a partir de uma Promessa e da esperança confiante da sua realização. […] Com a perda progressiva do consenso à volta do modelo de antropologia cristã, também o valor das promessas, da confiança recíproca, do vínculo constituído pela palavra dada e recebida foram-se extinguindo e perdendo peso: o valor da promessa (ligado à partilha de uma posição ética que vê a pessoa no centro de toda a relação) foi sendo substituído pelo valor do contrato (que põe no centro não já a pessoa, mas o valor de um bem), e o sentido de culpabilidade por ter infringido uma promessa (punição «interna» que nós mesmos nos infligimos quando faltamos a um dever que sabemos ser objetivamente importante) muitas vezes não parece já necessário, porque se considera suficiente, perante a quebra de um contrato, pagar ao outro com recompensas de natureza económica.

Mas poderá uma compensação económica pagar real e plenamente a quem é vítima da quebra unilateral de um acordo importante?’ (pp. 70-71)

‘[…] escolher é o que nos faz livres, mas escolher é algo muito mais envolvente e complexo do que seguir um impulso, porque compreende em si sentimento, inteligência e vontade.’ (p. 98)

‘De um ponto de vista psicológico, a escolha de assinalar com um rito publicamente partilhado a passagem a um «nós» reveste uma importância crucial, porque comporta uma mudança decisiva do centro afetivo da relação: enquanto a relação entre o eu e o tu do casal permanecer confinada à esfera privada, de facto, todo o acento é posto sobre cada um individualmente e joga-se à volta de identidades individuais; a escolha de torna pública a ligação e de exigir um reconhecimento social coloca o acento sobre a nova e pequena comunidade, marcando o nascimento de um novo sujeito que é, ao mesmo tempo, social e afetivo.’ (p. 106)

‘[…] entre as muitíssimas mudanças da nossa época há uma fundamental, sobre a qual nem sempre se refletiu bastante: trata-se da revolução copernicana constituída pela difusão exponencial de instrumentos contracetivos e de como isto modificou radicalmente o nosso modo de aproximação ao tema do amor e ao tema da procriação.’ (p. 117)

‘Desde sempre […] o início de uma gravidez é acompanhado de vivências ambivalente, sobretudo pela mãe, que, por um lado, é quem mais sente a inexorabilidade da união e sente o risco de ser sonegada pelo seu filho, e, por outro, poder ter sofrimentos inevitáveis numa futura separação.

Mas como estabelecer se e quando dar espaço a um filho na nossa vida?

A própria possibilidade de fazer esta escolha, pelo facto de nos parecer tão totalmente em nossas mãos, expõe-nos a dificuldades psicológicas novas e imprevistas, porque lança sobre nós uma responsabilidade difícil de aguentar e desconhecida pelas gerações precedentes, que podiam muitas vezes contar, por vezes com alívio, com a chegada de filhos quase por acaso.’ (p. 119)

‘Poderemos dizer que existem duas diferentes modalidades psicológicas em relação a um novo nascimento, projetado ou não: há as crianças «acolhidas» e as crianças «pretextos», e estes dois modos diferentes dão lutar a duas modalidades diferentes de encontro entre pai e filho. A criança «pretexto» é a que foi trazida ao mundo para completar a vida dos seus pais, como algo que foi acrescentado no momento oportuno a todos os outros objetivos que nos propusemos atingir. É uma criança que corresponde à realização de um nosso projeto, e enquanto tal o seu êxito ou o seu falhanço serão inevitavelmente um sinal do nosso êxito ou do nosso falhanço. Mas precisamente por este motivo, trata-se normalmente de crianças que suscitam em nós uma ânsia maior e com quem a relação educativa é mais difícil desde o início, porque tendemos a carrega-las de expectativas demasiado grandes.

Muito diferente é o encontro que se verifica com o novo rebento se a vivência dos seus pais for de acolhimento da vida como dom precioso e imerecido: embora com todas as naturais e inevitáveis expectativas, prevalecerá nos confrontos deste filho curiosidade e abertura, e será possível fazer prevalecer neste caso uma atitude mais serena.’ (pp. 122-123)

‘[…] o matrimónio, se quiser ser realmente um casamento, é por sua necessidade «indissolúvel», e deve definir-se como uma aliança pronta a bater-se a todo o custo para resistir a tudo o que o quiser dissolver e desagregar, minando o acordo de confiança entre as pessoas que o contraíram.’ (p. 137)

‘A família […] constitui um sujeito específico dotado de uma identidade própria; ao mesmo tempo, porém, podemos defini-la, também como um sistema complexo, formado por pessoas dotadas, cada uma, de uma identidade pessoal e que se influenciam reciprocamente de maneira circular: cada componente interage com os outros com uma força diferente em relação ao grau de união. Este sistema complexo desenvolver-se à volta de dois eixos principais, que podemos imaginar dispostos em sentido espacial: o primeiro é um eixo horizontal, constituído pela relação do casal; o segundo é um eixo que se cruza com o primeiro de modo vertical, e é constituído por ligações que o casal tece com outras pessoas que no tempo o precedem (os pais) e que o seguem (os filhos). Para que uma família, e nela cada um dos seus membros, se desenvolva e cresça de modo psicologicamente saudável, é indispensável que entre os dois eixos se estabeleça um equilíbrio válido, em que o eixo horizontal constitua o ponto de união estável do eixo vertical. O casal, se e quando sabe construir e desenvolver a sua relação no tempo, pode tornar-se capaz de cuidar de modo preciso tanto da geração que o precede como da geração que dele toma origem e que o continua no tempo.’ (p. 139)

‘Da psicologia aprendemos que há algumas regras fundamentais para garantir aos filhos um bom crescimento e saúde mental: entre estas são cruciais a capacidade de respeitar o seu limite psicofísico e a capacidade de manter em relação a eles uma distância relacional correta, colocando-os na posição justa no interior das relações familiares. Isto significa, em primeiro lugar, ter o conhecimento claro de que um filho não nos pertence, mas é-nos simplesmente confiado pela vida para que cuidemos dele e o acompanhemos com respeito e se impulsividade em relação ao seu futuro.’ (p. 140)

‘Ainda há uma coisa que é sempre possível fazer na nossa vida, e é aprender a aproveitar tudo o que nos aconteça, até mesmo uma coisa negativa e dolorosa. Ser traídos, receber verdadeiras ofensas, sentir-se pouco apreciados, são evidentemente coisas muito negativas e à primeira vista inaceitáveis. No entanto, se o quisermos, até mesmo coisas como estas podem tornar-se para nós ocasião de crescimento, de desenvolvimento, de afinamento da personalidade. […] ninguém fora de nós pode encontrar a chave de sermos felizes, tal como ninguém pode realmente tornar-nos felizes s enão não lho permitirmos.’ (p. 165)

‘[…] como pude aprender com um jovem colega psiquiatra que estava para se casar, «não existe a pessoa certa, existe só a pessoa que escolhi». E a pessoa que escolhi é sempre única.’ (p. 168)

‘Quando nos apaixonamos por alguém, fazemos a experiência especial de intuir algo do seu Eu: intuímos que o outro é único, mas também o que pode vir a ser, o que nele se pode vir a desenvolver. É uma perceção sintética, difícil de dizer por palavras, mas muito importante: é parecida com a capacidade de rêverie dos pais sobre os filhos, quando intuem no filho a presença in nuce do homem ou da mulher que podem vir a ser.’ (p. 169)


**(Título retirado de Daniel Faria, Dos líquidos, Porto, Edição Fundação Manuel Leão, 2000, p. 137)

*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Ensaios de liberdade', 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'

 

sexta-feira, novembro 15, 2024

‘Regresso a Ítaca no sonho do Éden’ | 24 [último texto da rubrica] | Ulisses e Adão: peregrinos de um regresso único e universal

 

‘Regresso a Ítaca no sonho do Éden’ | Parceria com a revista 'Mundo Rural'

Luís Manuel Pereira da Silva*

 

Cerca de duas décadas passaram desde que o rei Ulisses partiu de Ítaca, deixando Telémaco, o filho, ainda pequeno (com uns três anos), e Penélope, a sua ‘nunca-viúva’ fiel, esperançosa do seu (mesmo que tardio, mas nunca inesperado) regresso. Os pretendentes abundam e esperam pela hora em que se acabe de tecer a condição de disponibilidade sempre adiada.

Regresso…

Fizemos este caminho de vinte e quatro passos (tantos quantas as letras do alfabeto grego) sob a inspiração da ideia de ‘regresso’.

Explorámos a ambiguidade de ‘regresso’ – entre o verbo que nos envolve a todos e o substantivo que confina a narrativa à história de um sujeito concreto, neste caso, Ulisses – para que dela pudéssemos retirar elementos de confluência ou divergência entre as influências clássica e cristã, na cultura que inspiramos e expiramos.

Chegámos ao momento de, com Ulisses, fruir (com) a chegada… Muitos são os elementos a guardar deste regresso.

Como observa Maria Helena da Rocha Pereira, a ideia do regresso é relevante, facto observável, imediatamente, na frequência do termo (ou palavras da família) que supera a centena[1] de aparições no texto homérico. Não é despiciendo, também, constatar que, dos vinte e quatro cantos da Odisseia (ou ‘rapsódias’, segundo algumas edições), doze (metade, portanto) tenham por cenário a Ítaca tão pretendida e onde Ulisses já se encontra, mas em que o encobrimento do protagonista que só progressivamente vai sendo desvelado, torna densa e tensa a tarefa da efetiva chegada. Ulisses está em Ítaca, mas vai chegando, pouco a pouco. Só mesmo no último canto se obtém, finalmente, a pretendida paz.

Há algo de universalmente transferível deste ‘regresso’ de Ulisses.

Esta universalidade e caráter simbólico e permanente traz-nos à memória a também universal condição violenta da humanidade, genialmente descrita em breve texto de Jorge Luís Borges:

 “In memoriam J.F.K.

Esta bala é antiga.

Em 1897 disparou-a contra o presidente do Uruguai um rapaz de Montevideu, Arredondo, que passara muito tempo sem ver ninguém para que o soubessem sem cúmplices. Trinta anos antes, o mesmo projéctil matou Lincoln, por obra criminosa ou mágica de um actor que as palavras de Shakespeare tinham convertido em Marco Bruto, assassino de César. Em meados do século XVII a vingança serviu-se dela para dar morte a Gustavo Adolfo da Suécia, a meio da pública hecatombe de uma batalha.

Antes, a bala foi outras coisas, porque a transmigração pitagórica não é apenas própria dos homens. Foi o cordão de seda que no Oriente recebem os vizires, foi a fuzilaria e as baionetas que destroçaram os defensores do Álamo, foi o punhal triangular que ceifou o colo de uma rainha, foi os obscuros cravos que atravessaram a carne do Redentor e o lenho da Cruz, foi veneno que o chefe cartaginês guardava num anel de ferro, foi a serena taça que Sócrates bebeu num entardecer.

No dealbar do tempo foi a pedra que Caim lançou contra Abel e será muitas coisas que hoje nem sequer imaginamos e que poderão acabar com os homens e com o seu prodigioso e frágil destino.”[2]

No regresso de Ulisses, está essa ‘bala antiga’, de sempre. A ‘bala’ que é, aqui, a condição de ser indigente, sedento de uma água tantas vezes substituída e tão raras vezes autenticamente descoberta.

No regresso de Ulisses, habita o sonho do Éden, essa marca profunda e que inunda, presente, como condição escondida e tão indecifrável, no desejo de Deus manifesto sob tantos disfarces.

O ‘nóstos’, o regresso demorado de Ulisses, mora no coração humano como sinal indelével da origem, múltiplas vezes negada ou equivocadamente identificada. De tão inundante, chega a expressar-se como ânsia inapagável de regresso, ‘nostalgia’ de uma morada original a que se pretende voltar.

No primeiro passo de cada um, morava já o último, como esperança regenerada, sonho de um paraíso que se opõe ao ditame que repousa à entrada do Inferno de Dante: ‘Abandonai toda a esperança os que aqui entrais’.

Mas, como com Ulisses, o regresso faz-se encoberto, irreconhecível e a exigir duro combate sobre pretendentes aguerridos.

Esperar-nos-á, porém, Penélope, fiel e, com ela, o futuro sempre aberto, densamente simbolizado no filho que cresceu e se torna robusto.

O regresso, tornado desejo de chegada, expressa-se como sede profunda. Sede que alguns homens do século XIX e seus herdeiros (Feuerbach, Marx, Nietzsche, etc.) interpretaram, de forma equívoca, como sendo a responsável pela realidade desejada. Do equívoco partiram em direção à negação de tudo o que dizia respeito à fonte geradora da sede. Daí à perseguição por consideração de que a religião, que nos religa à fonte original (e nos faz reler o mundo com o novo olhar nascido dessa religação), não mais era do que um ópio ou uma alienação, foram curtos passos.

Não é a sede, porém, que origina a água, mas a ausência da água a ‘fonte’ da sede.

Contrariamente ao que presumiram os homens desistentes dos últimos dois séculos, o sonho que habita o homem e que o Cristianismo nomeia, à luz da Revelação, ‘abarca tanto o esperado como o esperar’[3]. No esperar, na sede ainda sem nome, aninha-se o prometido, o esperado, não nascido do esperar, mas nele feito emergência, um incontrolado emergir.

Bem o sabem os homens que leram o Homem como poucos: ‘o nosso coração vive inquieto, enquanto não repousa em Vós [Deus Criador]’[4].

A ‘bala’ da violência é uma só. O regresso a Ítaca um só, também.

Ulisses e Adão encontram-se no partir e no voltar, como seres de um regresso ao eterno. O tempo caminha para a paz definitiva e autêntica felicidade aqui só analógica e provisoriamente visitadas.

Ítaca é, na história de Ulisses, imagem do Éden por que ansiamos e a que esperamos regressar: a mão de Deus em que fomos desejados perfeitos e a cuja perfeição retornaremos.


[1] Cfr. Maria Helena da Rocha Pereira, Estudos sobre a Grécia Antiga: Artigos, Coimbra, Fundação Calouste Gulbenkian e Imprensa da Universidade de Coimbra, 2014, p.155.

[2] Jorge Luís Borges, Obras Completas, II: 1952-1972, S/L, Editorial Teorema, 1998, p. 229.

[3] Jürgen Moltmann, Teología de la esperanza, Salamanca, Ediciones Sígueme, 1989, p. 20.

[4] Santo Agostinho, Confissões, Porto, Editorial A.I., 198411, n.º1, p. 27.



quinta-feira, novembro 07, 2024

Sabes, leitor... | 11 | Marca de água do livro de Fabrice Hadjadj, 'A profundidade dos sexos: para uma mística da carne'

 

Rubrica ‘Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página’** | Marca de água de livros que deixam marcas profundas
Parceria: Federação Portuguesa pela Vida e Comissão Diocesana da Cultura

Luís Manuel Pereira da Silva*

O autor e a obra
Fabrice Hadjadj, A profundidade dos sexos: para uma mística da carne, Prior Velho, Paulinas Editora, 2010.

Fabrice Hadjadj é um pensador difícil de imitar e ainda mais difícil de sintetizar. Lemo-lo e percebemos que estamos diante de um texto de Hadjadj, mas não é fácil transmitir a quem nunca o leu a unicidade do seu modo de pensar e de transmitir o que pensa. A sua escrita faz lembrar, pelo recurso aos paradoxos e à surpresa do humor, o igualmente inimitável G. K. Chesterton.

Acedi ao mundo de Hadjadj pela via de uma sua conferência no Porto, em 2015, no âmbito do II Congresso Nacional de Leigos, em que refletiu sobre ‘recolocar o Homem no centro: desafio antropológico’, iniciando a sua intervenção de modo paradoxal, ao recordar que este recentrar no Homem tem de acontecer no momento em que corresponde ao desafio do Papa Francisco de ir para as periferias. Periferias e ‘recentrar’ parecem não encaixar… Mas é esta a marca de Hadjadj: o paradoxo que obriga a pensar e nos ‘põe de orelhas guiadas’, à espera do que aí vem.

Habituado a este humor hadjadjiano, mandei vir de Espanha, em 2018, um dos seus livros mais teológicos [F. Hadjadj é filósofo, mas, em virtude do seu percurso de convertido tardio, depois de um judaísmo ‘não praticante’ e um ateísmo militante, não se priva de reflexões teológicas sempre bem fundamentadas e intencionalmente desconcertantes…]. O título pareceu-me suspeito. Desconfiei de que a tradução espanhola teria vincado dedo editorial. Na edição de editora solene, o título do livro era ‘Ressurreição: experiência de vida em Cristo ressuscitado’.

Desconfiado, fui ver o título original. Não podia ser mais hadjadjiano: ‘Ressurreição: modo de utilização’.

Isto é Hadjadj!...

Quem é que se iria lembrar de refletir sobre coisa tão séria como a ressurreição como quem fala de um frigorífico? Mas, com esta forma desconcertante, Hadjadj dá-nos logo a entender ao que vai, antes mesmo de abrirmos o livro: teremos de conviver com a experiência da ressurreição como quem se prepara para abrir a porta de um frigorífico: tem de fazer parte do nosso quotidiano, para que não seja algo estranho e opaco. E, já agora, encontrando nela a frescura para manter vivo o que perderia vigor e robustez…

Para os que se sentirem fascinados ou interpelados a descobrir Hadjadj, deixo uma terceira sugestão de leitura, também em tradução portuguesa: a peça de teatro ‘Job ou a tortura pelos amigos’, que revisita, em modo de teatro contemporâneo, a dramática experiência do sofredor bíblico. Com a marca de Hadjadj, é uma peça a levar à vida do palco, para que se possa beneficiar da mordacidade e ousadia hadjadjiana em modo de drama.

Marcas de água 

(o que fica depois de se deixar o livro)

 

O livro que, agora, apresento ao leitor, vive desta mesma energia e ousadia. Como não ver o paradoxo que dimana do contraste entre o título e o subtítulo? Há uma certa malícia em ‘a profundidade dos sexos’ que contrasta com a elevação de ‘para uma mística da carne’.

Não é, por isso, surpreendente que Jean Sévillia, no seu monumental ‘La France Catholique’, o inclua, como ‘judeu de nome árabe e confissão católica’, num capítulo dedicado à ideia de que ‘muitos grandes filósofos franceses são católicos’, e o identifique como um dos que fazem parte da vaga de continuadores de nomes maiores da história contemporânea da filosofia e da teologia, como Rémi Brague, René Girard, Jean-Luc Marion, etc.

A ironia com que escreve parece habitar a história do próprio Hadjadj cuja narrativa de conversão é contada pelo Cardeal Tolentino de Mendonça no prefácio com que abre a edição que tenho em mãos. Desafio a leitor a lê-la. Perceberá o leitor que um escritor não se faz humorado sem deter o seu olhar de humor sobre a realidade em que germina.

O humor de Hadjadj já não é, porém, o do ‘riso de Voltaire’, que goza sem se comprometer. É o riso desbragado de quem percebe que, nas ironias da vida e nas ironias sobre a vida se descobre o humor do sentido que Deus deposita na existência.

Hadjadj deve ser lido porque revela que, contrariando os inúmeros preconceitos com que o catolicismo é tantas vezes brindado (inclusive o de que é preconceituoso quando, se haveria alguma coisa de que o poderiam acusar, era de superabundância de conceitos…), o catolicismo é, afinal, uma enorme irreverência contra as inundantes reverências do nosso tempo.

Sim, este é um livro irreverente e em que o mais puro ‘dogma’ sobre como deverá ler-se a sexualidade humana, em registo católico, é dito de forma muito pouco dogmática.

É essa a genialidade de Hadjadj: a de dizer levar o leitor a refletir sobre coisas muito, muito sérias, mas com um humor que se sustém ativo, da primeira á última página.

Logo na introdução, Hadjadj reconhece que ‘falar de profundidade, assim de imediato, leva a pensar em produtos domésticos. Explicam-nos que este detergente «limpa superfícies em profundidade». E isso alimenta o sonho. A dona de casa não suspeitava que o seu pavimento fosse um tal abismo. O técnico de superfície sente-se quase igual ao explorador em batíscafo. O termo é, pois, muito publicitário. Foi de propósito que o escolhi: A profundidade dos sexos – achei que isto vendia. Mas os leitores mais atinados, aqueles que já não caem nessa, logo se aperceberam da artimanha.’ (p. 15)

Ficamos certos de que a surpresa nos espera ao virar da página, se não for antes mesmo de o fazermos, ainda no rodapé da que estamos prestes a findar.

E essa surpresa pode dar-se, bem certo, como tenho vindo a dizer, no modo como diz o que nos quer dizer, mas também pelo que diz.

Hadjadj é muito criativo, original e consegue encontrar, neste livro, formas singulares de dizer o que sempre reconhecemos e tomámos como o correto e sensato.

E, nestes tempos propensos a cancelamentos e novas censuras, Hadjadj não teme que o cancelem. Pensa livremente, olhando, com assombro, para a realidade, como ela se apresenta ao olhar inteligente.

É com esta agudeza que enfrenta matérias como a ambiguidade da ideia de amor, o eugenismo, a eutanásia, o aborto, a homossexualidade, o individualismo, os novos totalitarismos, a teoria de género, etc., opondo-se quer aos angelismos, quer às sacralizações da sexualidade. Hadjadj olha para o Homem e vê-o sempre imperfeito e perfetível, uma unidade indissolúvel de alma-corpo, e, por isso, incompleto e só na dualidade totalmente humano. As dualidades, em Hadjadj, não são sinónimas de dualismo que, aliás, supera, com mestria. As dualidades são marca de tensão da unidade que quer romper-se, mas não pode perder-se…

Ao definir a sua posição, Hadjadj enfrenta as questões com que, habitualmente, são ‘desmanchadas’ as posições natalistas ou defensoras de que existe um nexo intrínseco entre a sexualidade humana e a sua abertura à vida. Hadjadj não recusa enfrentar as teorias demográficas com que se esconde o malthusianismo que recusa a natalidade por em perigo estar o mundo. E fá-lo de um modo de facto único: não diz tudo; deixa subentendidos que o leitor calcorreia, concluindo por si mesmo. É, por isso, um livro em que, havendo uma tese muito clara, uma ideia de sexualidade que é mordaz para com a teoria de género e para com uma conceção de sexualidade que condescende com a ‘cerebralização’ do sexo, a abordagem é inteligente e intrigante. Somos levados a fazer o caminho. O autor não o faz por nós… E isso também é Hadjadj.

 

Na mesma página que o autor (citações)

‘O método [do trocadilho] é criticável. […] É uma promessa de ligeireza que depressa vira falta de graça. Mas é também busca de espírito na matéria sonora das palavras. Eis porque os autores bíblicos a ele recorrem com frequência (as nossas traduções impedem que de tal nos demos conta): mostram que o Verbo não despreza a carne da língua. O seu procedimento aproxima-se assim do que será a minha tese principal: a matéria do homem está atulhada de espírito: e o seu sexo, longe de ser um resquício animalesco, é uma espécie de exorbitante relicário.’ (p. 14)

 

‘Meditar sobre a profundidade dos sexos é também poupar-se à tarefa ingrata de ter de explicitar a sua diferença (e a sua eventual confusão). Que é que caracteriza o temperamento da mulher por oposição ao do homem? Provém ela de Vénus e ele de Marte? Será verdade que ela não lê tão bem os mapas das estradas? Deseja ele o acto físico e brutal, ao passo que ela busca, acima de tudo, a ternura que protege? Perante estas questões, confesso de bom grado a minha preguiça. É que a minha mulher lê os mapas das estradas muito melhor do que eu. Além disso, sou do signo Virgem. Neste registo psicologizante, há apenas uma coisa que tenho por garantida: os homens abotoam a sua roupa à direita, enquanto as mulheres o fazem à esquerda. A não ser que seja o contrário.

Interessa-me, pois, menos a diferença dos sexos do que a sua ordenação recíproca. O homem torna-se tanto mais viril quanto mais se vira para a mulher, e a mulher tanto mais feminina quanto mais se volta para o homem.’ (p. 16)

 

‘Encontrar Deus, indo para o mosteiro, é uma coisa bastante óbvia. Mas encontrar Deus, indo ter com a Micheline, que acabou mesmo agora de esturrar o seu guisado de vitela, eis algo que permanece assaz inexplicável.’ (p. 18)

 

‘Esta mística da carne será, apesar de tudo, uma moral, mas uma moral trocista, zombadora, numa palavra, dramática.’ (p. 19)

 

‘O anarquista coerente começa por ultrapassar os limites e acaba a lançar bombas.’ (p. 22)

 

‘A sexualidade remonta ao século XIX. A prova está no dicionário: antes, a palavra não existia. Devido à contaminação desta «sexualidade», que reveste uma noção muito vaga, é que o sexo, agora identificado com ela, se tornou indefinido.

[…]

E hoje? Os pulmões continuam a servir para respirar. Ao estômago ninguém contesta a sua função digestiva. Mas o sexo? Asno seria quem respondesse que a sua finalidade é a procriação. E as suas outras funções também não se aguentam. Poderá dizer-se que ele se reduz à relação entre homem e mulher? Será mesmo possível crer que ele implica sobretudo a carne? Deverá então concluir-se que existe apenas para provocar em nós perguntas? Tudo isso não passa de hipóteses. O sexo é, sem dúvida, usado como um órgão, como uma arma, como uma cruz. Mas, sobretudo, desapareceu…’ (p. 30)

 

‘Com o advento da psicologia, a sexualidade já não se encontra, primeiro, nos sexos, mas no cérebro, ou no inconsciente, ou no livre arbítrio, ou na língua, ou nas convenções sociais. Deixámos de nos entender.’ (p. 32)

 

‘Discutimos tão-só o sexo dos anjos - sem carne nem gravidez, sem história nem privacidade, para lá do feminino e do masculino, longe do casamento e da circuncisão (um espírito puro não tem prepúcio). Mas os anjos têm ainda demasiada consistência. E, ademais, já não acreditamos neles. Comparemos antes o nosso sexo `famosa faca de Lichtenberg, «sem lâmina, e já sem cabo» - uma faca que não corta nada.’ (p. 37)

 

‘O que me agrada no corpo, disso me apercebo de repente, é a sua unidade vibrante, a sua presença indecomponível e, por último – digamo-lo sem medo -, a alma que transpira em todo o seu ser.’ (p. 38)

 

‘A mulher é o único ser humano que em si pode trazer outro. O seu corpo é habitável.’ (p. 128)

 

‘A diferença dos sexos é, de qualquer modo, tão profunda que as sexualidades que pensam ter-se dela libertado se limitam a reproduzi-los por interiorização ou por redistribuição dos papéis.’ (p. 143)

 

‘Pode compreender-se o choque de Pasolini, em 1975: «Fico traumatizado com a legislação sobre o aborto porque, juntamente com outros, vejo nela uma legalização do homicídio. Nos meus sonhos e no meu comportamento quotidiano – eis algo de comum a todos os homens – vivo a minha vida pré-natal, a minha feliz imersão nas águas maternais: sei que aí eu estava vivo». (p. 158)

 

‘Um útero circundou todos os heróis da história. Também todos os imbecis (entre os quais me incluo).’ (p. 159)

‘O psicologismo, com as suas cataplasmas contra o baby blues, esforça-se por esconder esta ocorrência. Promove, por gentileza, uma degradação universal: apartar o homem da tragédia para o emboscar no romance burguês – que ele sonhe encharcado em água de rosas. E desemboca, inevitavelmente, na negação do real. O grande perigo é, para ele, o traumatismo infantil; por isso, feitas as contas, é melhor suprimir o filho na altura em que ainda é puro, antes de ser pervertido ou esmagado diante dos nossos olhos. O paradoxo da nossa época encontra aqui a sua explicação: nunca a criança foi tão protegida e nunca houve tantos abortos. O seu sentimentalismo é a causa da sua rejeição do nascituro. A eliminação é, de facto, a mais segura e eficaz proteção dos menores.’ (p. 177)

 

‘[…] a coisa mais absurda nesta aventura [refere-se à história de Moisés] é que o seu rapazinho é adoptado pela filha do Faraó, ou seja, do Führer. E esta dá-lhe o nome de Moisés: «retirado das águas», são é salvo da inundação e extermínio. O prometido à morte certa tornar-se-á o libertador do seu povo. O mundo mortífero e senil renovar-se-á graças a este petiz, que passou pelas malhas. Se a sua mãe, para lhe poupar o horror, se não atrevesse a tê-lo, o horror apenas poderia perdurar.’ (p. 179)

 

‘É muito duro ser um filho desejado. A tua existência fica toda suspensa pela decisão dos pais. Os seus desejos são ordens. Se te permites qualquer desvio, cautela; chovem as lambadas, suprimem-se as sobremesas, culpabilizar-te-ão até ao tutano as recriminações lacrimosas, e não só até ao tutano, mas até à medula, até aos gâmetas que tem deram para viver.’ (p. 183)

 

‘Tenho boas razões para pensar que os infanticídios e os parricídios hão-de aumentar com o eugenismo.’ (p. 184)

 

‘[…] se for desejável outorgar ao projeto parental todas as garantias, eu recomendo ao legislador o alargamento desse prazo muito para além das doze semanas, digamos, até aos quarenta anos.’ (p. 185)

 

‘Um mundo perfeito, onde os petizes aparecessem sem turbulência, conformes às instruções do fabricante, seria pior do que um inverno nuclear. As crianças estariam congeladas desde o núcleo da sua primeira célula. Nasceriam velhas, com todos os nossos rancores e todos os nossos cuidados. A sua primavera já conseguiria perfurar a crosta das nossas preocupações. Teríamos perdido, para sempre, o espírito de infância… É-nos forçoso, então, chegar à conclusão que proibiria o fechar-se e o pronunciar-se em vez de outro: em vez de um super-homem, conforme aos estudos de mercado do homem velho, vale mais uma pequena Flor, polichinelo que salta da caixa, deficiente mental, sem dúvida, dolorosamente incapaz de entrar na maturidade consciente, mas mais apta para nos arrancar ao nosso triste horizonte produtivista, mais dotada para nos levar a rememorar a surpresa de ser e a alegria de amar.’ (p. 187-188)

 

‘Aquele que, há pouco, cantava tão alto os órgãos internos cai num subjetivismo descarnado. As determinações que a vinda ao mundo impõe, a partir do sexo, afiguram-se-lhe oprimentes. Em vez de apoio, os vínculos do corpo seriam, para ele, uma tumba. O pequeno Sartre imagina arrojar-se ao mundo a partir do seu próprio pensamento, fora das particularidades sombrias de uma conceção física, das suas escandalosas desigualdades, a fim de ser à medida do universo, ou seja, do universal. Ter nascido de Anne-Marie Schweitzer e de Jean-Baptiste Sartre não deve contar para nada. O que importa, a partir desta copulação fortuita, é nascer a cada instante das suas próprias escolhas, ex nihilo. A existência dimana, agora, não da carne, mas do nada.’ (p. 194)

 

‘O casamento é, ao mesmo tempo, um contrato e mais do que um contrato. Tendo por fim excessivo a comunhão das pessoas e o nascimento dos filhos, apresenta a estranha propriedade de não poder ser rompido sem uma íntima violência, mesmo quando as duas partes querem separar-se em termos amigáveis. A comunhão pressuposta pelo «Amo-te» interdiz toda a ruptura: o seu termo é o outro, e não esta ou aquela sua qualidade. Se eu tivesse dito apenas: «Amo o teu traseiro» ou «Amo o teu êxito», poderia desembaraçar-me, logo que o meu cônjuge depare com o fracasso ou as suas nádegas se tornem frouxas e moles. Mas eu disse: «Amo-te», ou seja, a tua pessoa na sua totalidade sucessiva, o que ela é hoje, mas também o que ela será amanhã e que ainda não conheço. Não é como num contrato com uma empresa, que posso rescindir, se eu estiver dececionado ou se o objetivo foi atingido.

Por outro lado, esta união amadurece um fruto natural. O filho não é apenas um ato de papel. Não é rasgável. Mesmo se eu já não quisesse estar com a sua mãe, sou forçado a ver os dois, a sua mãe e eu, na sua figura. Este estranho contrato produz assim uma realidade que excede as liberdades que o estabeleceram, de tal modo que elas não podem desfazê-lo, tal como o concluíram. O casamento é, ao mesmo tempo, natural e livre: é uma escolha sobre o fundo natural da ordenação recíproca dos sexos; é uma naturalização da liberdade mediante a realização desta escolha na criança.’ (p. 198)

 

‘[…] na década de noventa, só na região do Sudeste asiático, o tráfico em vista do proxenetismo fez três vezes mais deportados do que o comércio de escravos africanos, durante vários séculos.’ (p. 210)

 

‘«O sujeito ideal do regime totalitário não é o nazi ou o comunista convicto, mas o homem para quem a distinção entre facto e ficção (ou seja, a realidade da experiência) e a distinção entre o verdadeiro e o falso (isto é, as regras do pensamento) já não existem».’ [citando Hannah Arendt] (p. 217)

 

‘O individualismo é, assim, a base do totalitarismo, e não o seu inimigo principal, como tantas vezes se pensa. Requerem-se seres isolados, «desapontados», sem fortes vínculos familiares ou religiosos, portando dispostos a fundir-se numa massa: «O isolamento é pré-totalitário. Os homens isolados não têm, por definição, qualquer poder. […] Estar desenraizado pode ser a condição preliminar da superfluidade».’ [citando Hannah Arendt] (p. 217)

 

‘No romance 1984, é normal vaporizar os avós. Todo o avozinho, enquanto tal, resiste. Constitui uma autoridade histórica e memorial, que ameaça o monopólio da Doutrina. Tenta opor-lhe as abordagens de uma sabedoria de experiência. A experiência, que arcaísmo! A ideologia possui o Saber absoluto. Tem na sua mão a lei da Natureza ou da História. É a Providência do mundo. Por esta razão, cabe-lhe antecipar as eliminações que, de qualquer maneira, o curso previsível das coisas levaria a cabo. Por gentileza; por eutanasismo, por assim dizer. Não pode, de facto, apadrinhar nenhum crime, mas tão-só «uma morte muito doce».’ (p. 217)

 

‘O facto de eu ser macho, e portanto destinado à fêmea, recorda-me que não sou, por mim mesmo, o Homem integral, e que só me torno tal ao virar-me para o outro sexo em vista de uma fecundidade comum. […] Descubro, atónito, que o meu órgão masculino é feito para órgão feminino, de modo que me pertence menos a mim do que a esta mulher: que seria uma chave sem a fechadura? E vejo também que os nossos sexos juntos existem para que o seu beijo floresça numa terceira pessoa: que seria da chave e da fechadura sem uma porta que se abre? Esta coisa da carne revela-se uma dupla desapropriação e empenha-me num terna comunhão. O meu sexo só se encontra a si mesmo no outro. E os dois, ao encontrarem-se, fazem brotar de si ainda outro (e em corpo).’ (p. 258 e 260)


**(Título retirado de Daniel Faria, Dos líquidos, Porto, Edição Fundação Manuel Leão, 2000, p. 137)


domingo, outubro 27, 2024

Cidadania e desenvolvimento - O explícito e o implícito… Paremos para pensar.


 

A discussão sobre a disciplina (e a estratégia) de ‘cidadania e desenvolvimento’ regressou à ribalta. A animosidade com que a matéria tem sido abordada evidencia muitos elementos implícitos e muitos pressupostos, pelo que se exige centrar a atenção no que, verdadeiramente, está em causa.

Para contribuir para esta reflexão, proponho-me iniciar com uma parábola.

 

Uma parábola…

Imagine-se uma escola em que é transmitida, aos professores, a informação de que há uma ou duas crianças de anos iniciais cujos pais se descobriu, recentemente, que não serão quem elas pensaram sempre ser e que essas crianças estão em vias de o descobrir, prevendo-se que seja para breve.

É guardada reserva sobre esta matéria, não sendo conhecida a identidade das crianças com quem tal vai ocorrer.

A escola começa a organizar-se para encontrar formas de minorar os efeitos dessa ‘demolidora’ informação nas respetivas crianças.

Há, porém, um professor que decide criar uma estratégia mais ampla de abordagem.

Propõe-se – diz – diminuir o efeito daquela dolorosa mensagem.

Começa a criar dinâmicas com a sua turma através das quais suscita dúvidas em todas as crianças sobre se os seus pais serão, efetivamente, quem elas pensam ser. Dinâmica após dinâmica, texto após texto, dramatização após dramatização, as dúvidas vão-se avolumando em todas as crianças, ‘garantindo’, assim, - diz aquele professor – que todas perceberão o que o seu ‘ainda desconhecido’ colega irá passar. Com que custo, porém? – Perguntamos nós.

Qual o efeito de tal estratégia? É a estratégia adequada para o problema a enfrentar?

É a única forma de se ser compassivo para com quem vive uma situação dolorosa?

 

A parábola, aplicada à ‘cidadania e desenvolvimento’

Feitas as devidas salvaguardas, a disciplina de ‘cidadania e desenvolvimento’ que está estreitamente associada à ‘estratégia nacional de educação para a cidadania‘ parte do mesmo equívoco do professor da nossa parábola.

Vejamos porquê.

A estratégia nacional de educação para a cidadania define três grupos de domínios: ‘o primeiro, obrigatório para todos os níveis e ciclos de escolaridade (porque se trata de áreas transversais e longitudinais), o segundo, pelo menos em dois ciclos do ensino básico, o terceiro com aplicação opcional em qualquer ano de escolaridade’ (ver https://www.dge.mec.pt/sites/default/files/Projetos_Curriculares/Aprendizagens_Essenciais/estrategia_cidadania_original.pdf).

 

1.º Grupo:

Direitos Humanos (civis e políticos, económicos, sociais e culturais e de solidariedade);

Igualdade de Género;

Interculturalidade (diversidade cultural e religiosa);

Desenvolvimento Sustentável;

Educação Ambiental;

Saúde (promoção da saúde, saúde pública, alimentação, exercício físico).

2.º Grupo:

Sexualidade (diversidade, direitos, saúde sexual e reprodutiva);

Media;

Instituições e participação democrática.

Literacia financeira e educação para o consumo;

Segurança rodoviária;

Risco.

3.º Grupo:

Empreendedorismo (na suas vertentes económica e social);

Mundo do Trabalho;

Segurança, Defesa e Paz;

Bem-estar animal;

Voluntariado.

Outras (de acordo com as necessidades de educação para a cidadania diagnosticadas pela escola e que se enquadre no conceito de EC proposto pelo Grupo).

 

Uma leitura ‘inocente’ destes domínios poderá não compreender as dúvidas dos que a criticam.

Terá de se ouvir, por um lado, a palavra dos decisores políticos que, por exemplo, em contexto de marchas do orgulho gay, em Lisboa, afirmaram, antes de esta estratégia estar definida, que haveria de se fazer chegar às escolas o que ali se celebrava (declarações proferidas pela então secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade, Catarina Marcelino, em junho de 2017: “não chega só mudar a lei, é necessário ter educação para a cidadania nas escolas” – ver aqui: https://dezanove.pt/catarina-marcelino-hoje-marchei-com-1093201).

A esta primeira constatação, que evidencia a intenção, terá de se juntar a leitura mais fina dos documentos.

Um olhar já com a inocência mais burilada constatará que a estratégia define domínios como obrigatórios em todos os anos e ciclos, os do primeiro grupo, que, incluindo temas com que todos concordarão, enuncia a ‘igualdade de género’ que, na interpretação de muitos, será o esforço de aproximação de direitos entre homens e mulheres. Seria ótimo!

Mas os ‘guias de educação género e cidadania’, a começar no pré-escolar (ver aqui: https://www.cig.gov.pt/wp-content/uploads/2015/10/398_15_Guiao_Pre_escolar.pdf) não deixam margem para dúvida.

Parece ter sido o professor da nossa parábola a definir a estratégia. Ele não quer, apenas, que se suscite solidariedade e ‘compaixão’ para com quem se encontra em dúvidas sobre a sua condição sexuada. Quer que todos as tenham por igual. Quer gerar a confusão em todos para que, assim, a compaixão de todos seja por solidariedade na desgraça…

Veja-se o que se afirma, na página 12. Cito sem cortes…

«No sentido de clarificar a ideia de que as diferenças observadas entre os sexos não se justificam simplesmente pela pertença da pessoa a uma categoria biológica presente à nascença, mas que resultam sobretudo de construções culturais, Ann Oakley propôs, em 1972, que se efetuasse a distinção entre os termos sexo e género, distinção essa que passou a servir de referência para as Ciências Sociais. Em seu entender, o sexo com que nascemos diz respeito às características anatómicas e fisiológicas que legitimam a diferenciação, em termos biológicos, entre masculino e feminino. Por seu turno, o género que desenvolvemos envolve os atributos psicológicos e as aquisições culturais que o homem e a mulher vão incorporando, ao longo do processo de formação da sua identidade, e que tendem a estar associados aos conceitos de masculinidade e de feminilidade. Assim, o termo sexo pertence ao domínio da biologia e o conceito de género inscreve-se no domínio da cultura e remete para a construção de significados sociais.»

Destaco «os sexos não se justificam simplesmente pela pertença da pessoa a uma categoria biológica presente à nascença, mas que resultam sobretudo de construções culturais».

Fica claro que os géneros serão todos os que forem pensáveis e não os que, biologicamente, forem observáveis e que são a base da organização da sociedade atual (progressivamente a ser revolucionariamente transformada…).

 

A obsessão dos ‘estereótipos’ e a contradição na própria estratégia

Somado a este pressuposto teórico, que dissolve qualquer ligação entre biologia e género, acrescente-se toda a estratégia marxista da luta contra os estereótipos, no pressuposto de que todo o estereótipo é necessariamente errado, devendo ser erradicado.

Como se a escola não fosse, ela mesma, um lugar carregado de estereótipos (os nerds, os góticos, os dreds, etc.) que, curiosamente, não são enfrentados nesta disciplina, nem abordados pela estratégia nacional. Quantos custos resultam, por exemplo, do estereótipo de que estudar é para ‘ratos de biblioteca’! (Não deveria reservar-se-lhe destacado lugar na referida estratégia?)

Acrescente-se a estas já suficientemente esclarecedoras constatações que é significativo verificar esta incidência obsessiva nos estereótipos de género quando não são enunciados outros que, se a intenção era combater todos os estereótipos, deveriam ser integrados.

Por exemplo, sendo Portugal um país com crise demográfica, quantos estereótipos recaem, com custos, sobre as famílias numerosas (Coitados! Irresponsáveis!); ou sobre os católicos que são a maioria, nas escolas portuguesas (são todos uns pedófilos ou inquisidores!) ou sobre os empresários (só pensam no lucro!) ou sobre os que professam uma religião (padecem de uma patologia e infantilidade!) … ou…

Quer se queira, quer não, os estereótipos fazem parte da nossa condição de seres gregários que, muitas vezes, para se entenderem sem necessitarem de explicitar tudo, têm agendas subentendidas.

Esta obsessão marxista com os estereótipos, para mais apenas de um tipo, gera uma atitude moralista de censura permanente que retira a naturalidade na relação e ficciona todas as dimensões da vida.

E se isto não é ideologia!...

É a sedução de construir um ‘Homem novo’ sem vínculo à realidade, à sua corporeidade, o que, curiosamente, contradiz o documento estruturante da escolaridade obrigatória – o PASEO (Perfil do Aluno – seguramente, também é das alunas! - à saída da escolaridade obrigatória – ver aqui: https://dge.mec.pt/sites/default/files/Curriculo/Projeto_Autonomia_e_Flexibilidade/perfil_dos_alunos.pdf) – que inclui, entre as suas áreas de competências, ‘a consciência e domínio do corpo’, em que se prevê que uma das competências seja a de «ter consciência de si próprios a nível emocional, cognitivo, psicossocial, estético e moral por forma a estabelecer consigo próprios e com os outros uma relação harmoniosa e salutar.»

Alguém que recusa o seu corpo revela esta competência? E se essa recusa é promovida pela própria estratégia, não é uma estratégia contraditória em si mesma?

Não deveriam ter deixado o professor da nossa parábola com a missão de definir esta estratégia de cidadania. Ele não se compadece dos seus alunos sofredores (que nem sabe quem são!); lança sobre todos o mesmo sofrimento, pensando estar, assim, erradamente, a diminuir a dor dos sofredores.

Ser solidário e ser bom cidadão não é isto. É acolher o outro, mesmo podendo divergir dele e das suas opções, que estão sempre sujeitas a possível escrutínio.

O insubstituível papel do cristianismo. Superando o outro ‘erro’ de Descartes.

  Artigo publicado na Agência Ecclesia   E se os desafios de hoje puderem ser iluminados pelos dos primeiros tempos do Cristianismo? ...