quarta-feira, setembro 25, 2024

‘Regresso a Ítaca no sonho do Éden’ | 23 | Némesis e moiras – a desmesura e o destino perante a graça e o perdão

 

Artigo originalmente publicado na revista 'Mundo Rural'

Luís Manuel Pereira da Silva*

Ulisses está no seu demorado processo de regresso. Há, nele, um profundo desejo de chegar à casa donde partiu há já demasiado tempo. Desejo que o habita e ‘arrasta’ como uma ausência a necessitar de ser preenchida. Sobre ele refletiremos, no último capítulo deste já longo ‘regresso a Ítaca no sonho do Éden’. É um desejo que se expressa como ânsia de «regresso a casa», uma ‘nostalgia’ persistente e omnipresente desde a partida feita desejo de chegada. Nela se unirão ‘regresso’ (a Ítaca) e ‘sonho’ (do Éden).

Mas ainda nos cabe enfrentar o motivo profundo pelo qual temos de voltar a partir de Ítaca, mas desejando regressar, já não a ela, mas ao Éden, que nos toma a alma como saudade e genuína nostalgia.

Ulisses é um herói, bem certo, mas um herói à maneira grega. A visão é trágica, porque, nela, dominam o limite intransponível e a sombra da maldição de nada ser ou eternamente ficar abandonado por em algum momento se ter transgredido o estabelecido.

A tentação desta leitura não está ausente da receção do cristianismo, entre o povo. Mas não é a marca definidora do ser cristão.

Expliquemo-nos…

No espírito grego, não há lugar para a ‘surpresa’, para a ‘graça’, o ‘não previsto e previsível’. Tudo é destino (moira) e determinação do limite (Némesis). O ser humano está determinado a cumprir o traçado que lhe coube em sorte. A transgressão é certeza de custo previsto.

Maria Helena da Rocha Pereira recorda-o ao analisar a história de Medeia que quer de Creonte muito mais do que uma promessa. Quer ‘um juramento formal, com a invocação precisa dos deuses envolvidos no ato, que comprometa de forma irreversível quem o presta, formule as suas obrigações e anteveja os castigos da transgressão’ [1]. Não há lugar para o inesperado. No espírito grego, tudo é previsível, antecipável e quem comete a ousadia da desmesura, submete-se à consequência esperável. Cruzam-se, nesta síntese, dois vetores que, sendo, originalmente, abstrações, se ‘personificam’ em figuras míticas: por um lado, a irrevogabilidade do destino de cada um, na ideia das ‘moiras’ ou, na redação proposta por Pierre Grimal [2], das ‘meras’, o quinhão, a parte que cabe a cada um cumprir (de felicidade e infelicidade); por outro, a ‘vingança dos deuses’, representada na ideia e na figura da Némesis, cuja representação mais famosa é a que se encontra em Ramnunte. Aqui, numa estátua hoje mutilada, representava-se uma deusa com uma arranca de maçã e um figo, e terá sido esculpido por Agoracritus, um aluno de Fídias, por volta de 430 a.C. É curioso que o figo e a maçã sejam elementos ilustrativos desta figura mítica, evocando a simbologia transcultural a eles associada. Como não recordar a interpretação do fruto proibido como sendo uma maçã (apesar de o texto bíblico não suportar essa conclusão) ou a referência à figueira como uma árvore amaldiçoada, talvez em virtude da ‘traiçoeira’ fragilidade da sua madeira, incapaz de suportar, demoradamente, o peso de um homem?

O mesmo Pierre Grimal dá suporte a esta nossa interpretação, ao recordar que as Meras ‘não têm uma lenda propriamente dita. Não são mais que a simbolização de uma conceção do mundo semifilosófica, semi-religiosa’[3], a qual, como fomos evidenciando, ao longo deste ‘regresso a Ítaca no sonho do Éden’, se mostra ora convergente, mas maioritariamente divergente do genuíno espírito cristão.

Neste, com efeito, se foram sobrevivendo, aqui e ali, marcas desta visão trágica e fatalista (de que o predestinacionismo calvinista será uma das maiores expressões), terá de ser reconhecido como tendo contribuído para emergir, no mundo, um outro olhar, em que há espaço para a ‘surpresa’, a ‘novidade’, o ‘gratuito’ (porque dado por ‘graça’), e, por isso, a possibilidade do perdão.

Esta nossa reflexão permite-nos ousar depreender na frequentemente evocada conflitualidade entre cristianismo e ciência um equívoco que nascerá destas duas visões retratadas, ao longo da reflexão feita em ‘regresso a Ítaca…’. O real ‘conflito’ não é entre cristianismo e ciência, mas entre uma visão ‘determinista’ e uma outra em que continua a haver lugar para a liberdade, para o rompimento de toda a previsibilidade e irrevogabilidade.

No limite, na visão grega, até os deuses estão submetidos às Meras. ‘Impessoal, a Mera é tão inflexível como o destino: encarna uma lei que os próprios deuses não podem transgredir sem pôr em perigo a ordem do mundo’[4], sendo que deles pode esperar-se, inclusive a vingança e sérias represálias: ‘tudo o que se eleva acima da sua condição, no bem como no mal, expõe-se a represálias dos deuses’[5].

Numa canção sobejamente conhecida e replicada de título ‘Némesis’, o cantor Clementine recorda que ‘Nemesis is, is the mother of karma’ (‘Nemesis é a mãe do Karma’), replicando uma intuição interessante e nem sempre constatada: de facto, é preciso esperar pelo judeo-cristianismo para encontrar a ideia de perdão que, fora deste registo, está sempre ausente. ‘Karma’ evoca a matriz oriental, explicitada na visão hindu.

Bono Vox, o vocalista dos U2 recorda, numa muito interessante entrevista dada a Michka Assayas, que ‘no centro de todas as religiões há a ideia de Karma. Vê bem, aquilo que fazes volta para ti: olho por olho, dente por dente, ou, na física – nas leis físicas – a cada ação equivale uma igual ou oposta. É claro para mim que o Karma está no centro do Universo. Tenho a certeza absoluta. E ainda assim, aparece igualmente este conceito de Graça para dar a volta a tudo isto «Como colhes, assim terás de semear». A Graça desafia a razão e a lógica. O amor interrompe, se quiseres, as consequências das tuas ações, o que, no meu caso, é, na verdade, muito bom, porque eu fiz muitas coisas estúpidas.[6]’

O leitor atento poderá contestar-me que também a bíblia está cheia de ‘maldições’ e ‘fatalismos’. Mas não deixará de surpreender que o último livro, também ele tantas vezes lido sob um registo de mais um vademecum de maldições, termine com a esperança de que ‘A graça do Senhor Jesus esteja com todos vós.’ (Ap 22,21), depois de assegurar que a esperança definitiva será em relação a um lugar onde ‘E ali nunca mais haverá nada maldito.’ (Ap 22,3)

E erraria quem se agarrasse ao literalismo das frases. Todo o livro é uma ode à esperança, à graça, à surpresa da vitória do amor sobre os determinismos e fatalismos: «Não tenhas medo! Eu sou o Primeiro e o Último; aquele que vive. Estive morto; mas, como vês, estou vivo pelos séculos dos séculos e tenho as chaves da Morte e do Abismo!», sendo que não é despiciendo que se evidencie estarem superados os limites do espírito grego refazendo o discurso grego com um novo alfabeto que, em Cristo, a pura Graça de Deus, encontra o novo ‘alfa’ e ‘omega’ dos novos discursos…



[1] Maria Helena da Rocha Pereira, Estudos sobre a Grécia Antiga: Artigos, Coimbra, Fundação Calouste Gulbenkian e Imprensa da Universidade de Coimbra, 2014, p. 368.

[2] Cfr. Pierre Grimal, Dicionário da mitologia grega e romana, Lisboa, Antígona Editores Refractários, 2020, p. 306.

[3] Pierre Grimal, op. Cit., p. 306.

[4] Pierre Grimal, op. Cit, p. 306.

[5] Cfr., Ibidem, p. 326.

[6] Michka Assayas e Bono Vox, Bono por Bono, Lisboa, Editora Ulisseia, 2005, p. 227.

segunda-feira, setembro 23, 2024

Alberto Ferreyra | Mystérios lusitanos [contos - texto e locução] | 4 | Mistério nos esteiros

 

Mystérios lusitanos | A vinte e três (23) de cada mês, habitamos o mundo pelo imaginário de Alberto Ferreyra...

(Nos ramos da escrita, repousam, vezes sem conta, as gralhas da distração, ocultas, sob múltiplos disfarces, até que alguém as enxote. Alberto Ferreyra contou com o fino olhar da sua amiga Teresa Correia, detentora do segredo da sua identidade, para afastar ou caçar o grasnar das gralhas. Está-lhe, por isso, muito grato...)

Alberto Ferreyra*




- Não me digas que este é o avô… – J. olhava, com assombro, para uma foto recolhida de uma pilha de cartas e papéis antigos. Fotos não havia muitas, e todas com uma cor que M. lhe dissera ser ‘sépia’.
No seu imaginário, a cor sépia gerava um ambiente em que tudo era a preto e branco…
Vendo-a com aquele olhar vazio, J. imaginou o que ia na cabeça da irmã e, com um estalar de dedos, acordou-a do torpor.
- Não, menina M., naquele tempo também havia cor. Não era tudo preto ou branco ou amarelecido. Os registos é que são a preto e branco ou… a sépia, como dizes. A realidade devia ser muito colorida e cheia de aventuras. Que foto é essa?
O avô aparecia preso pelos dois braços, levado por dois soldados da GNR.
- Não sabia que o avô se tinha metido em sarilhos.
Surpreendidos com a foto, não descansaram enquanto a mãe não os lançou em busca de um novo desafio.
- A história do vosso avô dava um romance… Do vosso avô e da vossa avó.
Mas o vosso tio Pedro é que sabe a história com detalhe.
O tio Pedro seguira as pisadas do pai, como fiel de armazém.
Na zona dos esteiros, junto a um dos mais finos ‘cabelos’ da ria de Aveiro, perto da estação de Estarreja, ficava o armazém onde a azáfama de hoje apenas aludia à de outros tempos. Ali, chegavam e partiam, em grande rebuliço, carradas de bacalhau.
Fiel no armazém como fora o fiel companheiro dos portugueses, Pedro aprendera com o pai a contornar os limites que o regime impunha.
Conhecia, por isso, os alçapões onde se abria uma outra cidade, fresca, mas seca para que, depois de preparado, o bacalhau pudesse ficar distante dos olhares da polícia que sempre pesava e continha os limites permitidos por lei.
Uma espécie de lei seca impunha rigorosos limites ao armazenamento.
Ultrapassá-los significava prisão.
O pai de Pedro, Joaquim, sempre seguira, à risca, as instruções do sr. Francisco, proprietário do armazém.
- O que vier a mais segue o rumo dos alçapões…
Impossível adequar mais o título de ‘fiel de armazém’ do que o que se atribuíra a Joaquim. Ninguém lhe ouvira, jamais, falar de alçapões ou outras cidades escondidas.
Mas a mentira tem perna curta.
Em meados da década de cinquenta, pleno período de ‘chumbo’ que o Estado Novo impusera ao armazenamento de bacalhau, Joaquim e Francisco escondiam, numa outra cidade só deles conhecida, o que sobrava e lhes chegava para além dos limites.
Chamavam-lhe bacalhau da ‘terra velha’ (da ‘Terra Nova vinha o bacalhau; na ‘Terra velha’ se escondia) e logo se procedia como combinado.
Alguém, porém, descobrira a história.
Ao amanhecer de uma quinta-feira, como que aludindo a uma outra, em que de cravos se fez a liberdade do regime controlador, o armazém abriu, mas já ninguém entrou nem saiu.
Só Francisco se encontrava, àquela hora, nas instalações.
E era a ele que a polícia queria, pois Joaquim só obedecia a ordens.
Sob ameaça, tentaram saber onde se escondia a cidade chamada ‘terra velha’.
Francisco chorava… Sabia o que o esperava.
Entretanto, Joaquim chegou.
Abeirou-se da GNR e encetou conversa que fez libertar Francisco.
Logo ali ficou detido Joaquim, que, porém, pediu que o levassem a Francisco.
Da conversa, só ficou um registo que Joaquim escreveu e entregou, assinado pelos dois, em papéis semelhantes.
E foi levado para Peniche…
Volvidos três anos, Joaquim regressou e procurou Francisco.
De papel na mão, barba comprida e desalinhada, somava à leveza dos movimentos uma alegria no rosto que a todos surpreendeu.
- Não vinha o homem da prisão de Peniche? Bem certo que obras recentes tinham transformado aquela numa prisão com melhores condições, mas prisão era prisão…
O tempo tudo traz e tudo esclarece.
Um ano volvido, tudo se esclareceria, quando os sinos da Igreja anunciaram novas núpcias…
- O vosso avô guardara o papel assinado pelos dois, Francisco e Joaquim, e apresentara-o, no regresso da prisão.
No papel se desvendava todo aquele novelo:
- Irei no seu lugar, para a prisão, se me prometer que, ao sair dela, casarei com a sua filha Olinda…
A assinatura de ambos chancelara o futuro…
- Que história, M.! Um avô assim é um autêntico herói de um ‘Romeu e Julieta’ da Ria de Aveiro… Quanta cor há, afinal, num retrato a sépia!


 


*Alberto Ferreyra diz que as suas letras habitam a mente e saem da mão de alguém nascido em terras gaulesas, ainda que afirme, em sussurro, que o seu real nascimento ocorreu nas margens do Antuã, em abril de 2024. É, por isso, um prematuro autor literário, germinado da inspiração que a realidade proporciona quando se tem a companhia, nos livros, de génios como Jorge Luis Borges, Miguel Torga, Gabriel García Marquez ou personagens como Poirot ou Padre Brown.
 
Na sua escrita, cruzam-se o real e o imaginado, o fictício e o histórico, numa embrenhada teia em que o leitor continua a ler, mesmo já depois de fechado o conto. O real continua a fecundar histórias na mente de quem lê Ferreyra. Cada conto, feito dos mistérios desvelados, aproxima o tempo e distancia o espaço, esticando-o até ao eterno e ao infinito. Ao ler Ferreyra, faz-se 'silêncio' ('mystério' alude à etimologia grega da palavra, que remete para o 'fazer silêncio', 'emudecer-se'...) para que possam ecoar as palavras, para que possa desenovelar-se o enredo sucintamente desvelado.
 
J. e M., protagonistas de cada um dos contos, acompanhados, em alguns deles, pelo seu periquito 'branquinho', fazem emergir, do real em que se enredam, histórias que, nascendo da imaginação de Ferreyra, permanecem como realidades possíveis, deixando a suspeita de terem mesmo ocorrido.
Se não foi real, Ferreyra o criará, inspirado numa cosmovisão que tanto deve àquela religião que fez do encarnado a condição fundamental do existir.
 
A vinte e três (23) de cada mês, habitaremos o mundo pelo imaginário de Alberto Ferreyra...

sábado, setembro 07, 2024

Sabes, leitor... | 9 | Marca de água do livro de Gabriele Kuby, 'A revolução sexual global'

 

Rubrica ‘Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página’** | Marca de água de livros que deixam marcas profundas
Parceria: Federação Portuguesa pela Vida e Comissão Diocesana da Cultura

Luís Manuel Pereira da Silva*

O autor e a obra
Gabriele Kuby, A revolução sexual global: destruição da liberdade em nome da liberdade, Cascais, Princípia Editora, 2019.

Gabriele Kuby revela, em ‘a revolução sexual global’, o olhar fino do sociólogo que percebe os liames com que se enlaça o tecido social. Faz jus à sua formação de base, somando-lhe o desejo vincado de respeito pela verdade, que foi buscar ao catolicismo, a que se converteu, em 1997. Nesta obra, acrescenta à autoridade do que diz, que sempre fundamenta com precisão, a companhia de destacadas figuras da cultura mundial que lhe reconhecem o mérito. A edição portuguesa reúne prefácios da edição italiana, escrito pelo Cardeal Cafarra, do filósofo alemão Robert Spaemann, e de D. Nuno Brás (específico desta edição portuguesa), sendo sabido que também o Papa Bento XVI nutria por esta oradora e escritora grande apreço, repercutido em nota recolhida nesta edição: ‘A sra Kuby é uma corajosa guerreira contra ideologias que, em última instância, resultam na destruição do Homem.’

O livro é de leitura altamente recomendável que, somada à que, nesta rubrica, já fui analisando, permite ao leitor ler em profundidade as opções que estão a ser adotadas no sentido de uma reconstrução antropológica que é necessário perceber para questionar e, concluindo-se essa oportunidade, travar e reverter.

O que está em causa não são aspetos acessórios da condição humana, mas a própria condição humana, pois falar sobre a sexualidade não é mencionar um aspeto marginal da condição de se ser Homem, mas dimensão que, pelo seu carácter sistémico, afeta o todo do ser corpóreo. Aliás, a interrogação (em espelho) fundamental que estas linhas nos deixam refere-se, precisamente, ao lugar do corpóreo na definição do que se é enquanto humano: Quanto de humano há no corpóreo e quanto de corpóreo é o humano?

 

Marcas de água (o que fica depois de se deixar o livro)

Gabriele Kuby revela-se, neste livro, como reconhece o Papa Bento XVI, uma autora corajosa. Lemo-la com o coração apertado, solidário com as ameaças que adivinhamos (Os tempos são dados a ‘cancelamentos’ – a que, no passado, se chamava ‘censura’!) impenderem, certamente, sobre quem ousa dizer que o ‘rei vai nu’. É o que Kuby faz, neste livro: denuncia que o rei vai nu e que todos estão a vê-lo, assobiando para o lado.

O título anuncia ao que vai: descreve como está a processar-se, na ordem mundial, diante de todos, uma revolução sexual, sob a capa da liberdade, mas pretendendo cercear a liberdade autêntica.

A liberdade que se defende, nesta revolução, confunde a condição livre com a indeterminação da vontade. Ser livre é, para a revolução em curso, poder fazer tudo o que se quer. O humano da revolução em andamento não é corpo (tem-no e dispõe dele como objeto), não tem limites nem condicionamentos, vive como se fosse só pensamento, sem história e sem memória, tendo abandonado a busca da verdade, por nela ver um impedimento a realizar-se. Realizar-se é, para esta revolução, fruir e sentir, num turbilhão de sucessivas sensações que se acumulam. O sujeito desta revolução não é; tem! Possui!

Gabriele Kuby não defende qualquer teoria conspiracionista, qualificativo tantas vezes utilizado pelos que desistiram de pensar diante de alguém que possa estar a propor rever-se o que vai sendo decidido. Kuby observa, lê, reúne informação. A leitura do seu livro permite constatar como se está a processar esta ‘revolução’, seja nos âmbitos internacionais, seja nos âmbitos educacionais mais restritos. A leitura deste livro ajuda a compreender como o modelo se reproduz, país a país, como se de uma cartilha se tratasse.

No âmbito internacional, Kuby recorda que a mudança de metodologia, no processo de tomada de decisões, nas conferências internacionais, em que se passou da votação e decisão por maioria (respeitando as maiorias e expondo as divisões) para o modelo de busca de consensos que nivela as divergências, sob a capa de um apaziguamento, tem, afinal, permitido veicular, sem o explicitar, conceções e ideias que, em votação aberta, seriam reprovadas e recusadas. E evidencia como, nas conferências internacionais referentes à demografia e população, se tem vindo a estruturar, em nome de bondosas intenções, toda uma agenda que se propõe isolar o indivíduo, separando-o da família que o protegeria das agressões exteriores.

Kuby não refere, apenas. Não fica na simples enunciação de teses. Ao longo dos dezasseis capítulos que compõem este livro, não é apenas defendida uma ideia, mas é desenvolvida com dados, com informação objetiva, com muitos elementos estatísticos, com muitas citações de documentação. Nela aborda, de modo frontal e muito bem argumentado e fundamentado, temas como ‘o aborto como pretenso direito humano’, a ideologia de género, as estratégias de hipersexualização do ensino, as políticas contra a natalidade, etc. O leitor sente-se profundamente respeitado. E termina incomodado… Os dados com ele partilhados geram desconcerto e perturbação, desafiando-o a posicionar-se para a reescrita do subtítulo: ‘a construção da liberdade através da autêntica liberdade’.

Sublinhe-se que esta reconstrução encontra, neste livro, muitos motivos de esperança, pois um dos capítulos enuncia sinais de esperança, referindo como políticas nacionais de alguns países e a própria singularidade da atuação cristã vêm permitindo travar a ‘destruição da liberdade em nome da liberdade’.

O sonho de uma humanidade que se constrói no respeito pela sua dignidade permanece vivo…

 

Na mesma página que o autor (citações)

‘O Papa Francisco aponta […] pois à «ideologia gender» - ou «ideologia de género» - quatro problemas essenciais: 1) Ela nega a diferença e a reciprocidade natural de homem e mulher; 2) Ela esvazia a base antropológica da família com inevitáveis efeitos sociais; 3) Ela desvincula a identidade pessoal da diversidade biológica; 4) Ela é habitualmente a imposição colonizadora de um pensamento.’ (D. Nuno Brás, Prefácio à edição portuguesa, p. 10)

‘[…] a cultura contemporânea, segundo o Papa Francisco, «exalta o individualismo narcisista, uma conceção da liberdade separada da responsabilidade pelo outro, um aumento da indiferença em relação ao bem comum» (25 de outubro de 2016).’ (D. Nuno Brás, Prefácio à edição portuguesa, p. 15)

‘[…] o Papa Francisco sublinha a necessidade de «ajudar a aceitar o seu [próprio]corpo como foi criado», com apreço pela sua feminilidade ou masculinidade, «para se poder reconhecer a si mesmo no encontro com o outro que é diferente» - o mesmo é dizer, para abandonar práticas e tendências egoístas e individualistas. Com efeito, é deste modo apenas que «é possível aceitar com alegria o dom específico do outro ou da outra, obra de Deus criador, e enriquecer-se mutuamente», «perdendo o medo à [sic] diferença». E acrescenta: «A edução sexual deve ajudar a aceitar o próprio corpo, de modo que a pessoa não pretenda “cancelar a diferença sexual, porque já não sabe confrontar-se com ela”» (AL, n.º285).’ (D. Nuno Brás, Prefácio à edição portuguesa, pp. 15-16)

‘David Hume escreveu que os factos são teimosos: teimosamente, contestam qualquer ideologia.’ (Cardeal Carlo Caffarra, Prefácio à edição italiana, p. 21)

‘A expressão gender mainstreaming («ideologia de género») não é familiar para a maioria das pessoas. Por isso, elas também desconhecem o facto de, durante anos, os governos, as autoridades europeias e uma parte dos media terem vindo a submetê-las a um programa de reeducação cujo nome elas próprias desconhecem. O que essa reeducação pretende remover das nossas cabeças é um hábito milenar da humanidade: o hábito de distinguir entre homens e mulheres. Isso implica extinguir a verdade fundamental de que a atração sexual mútua entre um homem e uma mulher constitui a base da existência atual e futura da humanidade.’ (Robert Spaemann, Prefácio, p. 23)

‘O conceito de liberdade política foi cunhado na Antiga Grécia e inicialmente significava permitir que as pessoas vivessem de acordo com os seus costumes. Tirano era quem impedia as pessoas de fazerem isso, quem queria «reeduca-las». Este livro trata dessa tirania. É um livro esclarecedor. Ilumina o que está a acontecer connosco agora, os métodos que os «reeducadores» usam e que represálias aguardam aqueles que se opõem a esse projeto. E isso inclui não só aqueles que tomam parte na discussão, mas também, como mostra este livro, todos aqueles que já defenderam a liberdade de expressar a sua opinião sobre estes assuntos numa discussão aberta.’ (Robert Spaemann, Prefácio, p. 24)

‘O conceito de normalidade é indispensável quando se trata de lidar com processos vitais. Os erros neste âmbito ameaçam a vida da humanidade. Gabriele Kuby tem a coragem de mostrar que a nossa liberdade está ameaçada por uma ideologia anti-humana. E merece os nossos agradecimentos por nos esclarecer com o seu trabalho. O maior número possível de pessoas deve ler este livro, para que possam estar cientes do que devem esperar caso não reajam.’ (Robert Spaemann, Prefácio, p. 25)

‘A premissa-base deste livro é que o fantástico dom da sexualidade precisa de ser educado, caso se destine a permitir que as pessoas tenham uma vida e relações bem-sucedidas. O oposto – a grosseira passagem à realização de todos os desejos – distorce a pessoa e a cultura.’ (Gabriele Kuby, p. 33)

‘[os] processos são globais e conduzidos por lobbies influentes em instituições internacionais. O núcleo desta revolução cultural global é o desmantelamento das normas sexuais. A supressão de limitações morais à sexualidade poderia dar a ideia de aumentar a liberdade das pessoas, mas dá lugar a indivíduos desenraizados, conduz à dissolução da estrutura social e origina caos social.’ (Gabriele Kuby, p. 38)

‘A ONU espera que a população mundial atinga os 8900 milhões até 2050 e, em seguida, comece a decrescer. Pela primeira vez, a ONU assume que a fertilidade na maioria dos países em desenvolvimento cairá para baixo de 2,1 filhos por mulher no século XXI. Espera-se que fique abaixo do nível de substituição em três de quatros países em desenvolvimento até 2050. Esta é a estimativa da Divisão de População das Nações Unidas na sua revisão de 2002 das projeções oficiais para a população mundial das Nações Unidas (ONU, 2002).’ (Gabriele Kuby, p. 46)

‘Margaret Sanger (1879-1966) desempenhou um papel decisivo no controlo da população. Assumiu como missão da sua vida a eliminação dos elementos supostamente indesejáveis da população mediante a contraceção, a esterilização e o aborto. Nos Estados Unidos, o clima era adequado para a ideologia eugénica.’ (Gabriele Kuby, p. 47)

‘Em 1921, Sanger fundou a American Birth Control League («Liga Americana para o Controlo da Natalidade»), que defendia abertamente a eugenia com propósitos racistas. No mesmo ano, Marie Stopes abria uma clínica de controlo da natalidade em Londres. Hoje, a Marie Stopes International é uma das maiores organizações abortistas do mundo.’ (Gabriele Kuby, p. 48)

‘A aplicação desta política social exigiu uma palavra nova, porque a linguagem não se limita a refletir a realidade – cria-a. A palavra mágica foi género. Tinha de se substituir a palavra sexo. Porque, antes disso, se alguém perguntasse pelo sexo, a resposta seria uma de duas: masculino ou feminino.’ (Gabriele Kuby, p. 79)

‘A pioneira da teoria de género foi Judith Butler, nascida em 1956. [Para ela] não existem «homens» nem «mulheres». O sexo é uma fantasia, algo em que só acreditamos porque nos foi repetido com frequência. O género não está associado ao sexo biológico, que não desempenha nenhum papel – apenas surge porque foi criado pela linguagem e porque as pessoas acreditam no que ouvem repetidamente. Do ponto de vista de Butler, a identidade é flexível e fluída. Não há masculino nem feminino, mas apenas um determinado desempenho, ou seja, um comportamento que pode ser alterado a qualquer momento.’ (Gabriele Kuby, p. 82)

‘No centro de tudo isto está o direito do indivíduo autónomo à livre escolha. A palavra liberdade é truncada, divorciada da verdade, da responsabilidade, do bem dos outros e do bem comum. O egoísmo faz com que o indivíduo autónomo seja facilmente seduzido por estes novos direitos.’ (Gabriele Kuby, p. 93)

‘A ONU e a União Europeia são seletivas no seu empenho em proteger certos grupos de pessoas contra a discriminação. Hoje, as minorias religiosas perseguidas não recebem nem uma pequena parte da atenção que as instituições internacionais dedicam à discriminação baseada na orientação sexual. Atualmente os cristãos são o grupo mais perseguido do mundo. Há povoações inteiras no Médio Oriente, África e Ásia que estão a ser despovoadas de cristãos, que se veem privados de condições de vida decentes; as suas igrejas são incendiadas e os fiéis são expulsos ou perseguidos, muitas vezes até à morte. Mas, em contraste com a comparativamente pequena minoria de pessoas LGBTI, não há programas na ONU nem na União Europeia para proteger os cristãos.’ (Gabriele Kuby, p. 117)

‘O êxito da revolução sexual em todo o mundo requer […] que se gere confusão até ao ponto de não-retorno, até que toda a oposição seja suprimida. A confusão é gerada de três formas:

- Através de um presunção falsa de autoridade e legitimidade;

- Mediante a utilização de termos indefinidos e ambíguos;

- Através de uma falsa pretensão de concordância com as leis internacionais existentes.’ (Gabriele Kuby, p. 117)

‘O lobby LGBTI considera que a investigação sobre as causas da homossexualidade (LGBTI) e a oferta de assistência terapêutica para os que sofrem com as suas tendências sexuais são «discriminatórias» e pretende suprimi-las, ainda que sejam as próprias pessoas afetadas a desejar aceder a essa ajuda.’ (Gabriele Kuby, p.125)

‘O que aconteceu ao sentido de responsabilidade dos líderes políticos e de todos os que dele dependem para que os temas LGBTI se tenham tornado áreas políticas-chave? Não teremos outros problemas, tais como o inverno demográfico, a morte de milhões e bebés por nascer, a crise da imigração, o colapso das famílias, com o seu alto custo para a felicidade, a saúde e a educação da próxima geração, o desemprego e a instabilidade económica global? Por que razão tantos políticos deixaram de ter o bem comum como nobre motivação para a sua procura do poder?’ (Gabriele Kuby, p. 149)

‘[…] a perspetiva de género vai muito para além da promoção da igualdade entre homens e mulheres. Ela implica uma fabricação da igualdade através da «desconstrução» da ordem hierárquica binária de género para chegar a uma diversidade de géneros com igual valor e iguais direitos.

O programa do género inclui aspetos como:

- plena igualdade (equivalência) entre homem e mulher;

- desconstrução das identidades masculina e feminina;

- luta contra a normatividade heterossexual, o que significa providenciar plena igualdade legal e social – ou, na prática, privilegiar todos os modos de vida não heterossexuais;

- aborto como «direito humano», apresentado como direito reprodutivo;

- sexualização das crianças e dos adolescentes através da educação sexual como disciplina obrigatória;

- privação material e empobrecimento das famílias.’ ’ (Gabriele Kuby, p. 152)

‘Quem acredita que existe um limite para a derrocada dos valores morais deverá tomar nota da última decisão da Deutscher Ethikrat (Comissão de Ética Alemã).

A 24 de setembro de 2014, o conselho decidiu que a lei que criminalizava o incesto deveria ser revogada e o incesto consensual (relações sexuais entre irmãos a partir dos 14 anos) deveria ser permitido se eles viverem longe da família.’ ’ (Gabriele Kuby, p. 158)

‘Para onde quer que se olhe – política, meios de comunicação, fundações, tribunais, empresas, escolas, infantários – a ideologia de género é o caminho para o progresso pós-moderno. É a ideologia dominante à qual ninguém se pode opor sem ser rejeitado e difamado. Ninguém se atreve a submeter a ideologia de género ao «teste do stress» para determinar as consequências e adequação ao futuro. Em vez disso, todas as leis são examinadas em relação à medida em que contribuem para a incorporação da perspetiva ideológica de género. Um documento do Senado de Berlim declara que «a introdução é feita de cima para baixo, ou seja, o chefe político de uma organização compromete-se com a implementação da perspetiva de género e decide como os processos devem ser orientados e avaliados».’ ’ (Gabriele Kuby, p. 158)

‘O que o materialismo dialético foi outrora para as universidades sob ditaduras comunistas é hoje a ideologia de género para as universidades ocidentais, onde a próxima geração de estudantes está a ser preparada para assumir posições de liderança na sociedade.’ ’ (Gabriele Kuby, p. 160)

‘«A perversão da relação com a realidade» e a «perversão do caráter comunicativo» tornam a palavra inapropriada para o diálogo. Neste processo, podem ser distinguidas quatro características:

- Termos que exprimem valores tradicionais tornam-se suspeitos e são descartados. Por exemplo: «castidade»;

- Termos com conotações positivas recebem um novo conteúdo e são depois explorados. Exemplo: «diversidade»;

- São inventados novos termos para transmitir novas ideologias. Exemplo: «poliamor»;

- São introduzidos novos termos para difamar os opositores. Exemplo: «homofobia».’ (Gabriele Kuby, p. 172)

‘Discrimen é a palavra latina para «distinção» ou «diferença». A pessoa dotada de livre-arbítrio deve distinguir entre o certo e o errado, o bem e o mal, para lidar com a sua liberdade de forma a ter sucesso na sua própria vida e não causar danos aos outros seres humanos. Para a pessoa que sabe que tem de responder perante Deus, esta distinção entre o bem e o mal é essencial para a sua salvação eterna. Se lhe for proibido fazer esta distinção – e se lhe for proibido passar esse critério para que a geração seguinte possa fazê-lo também -, então a liberdade religiosa será de facto banida. Serão destruídas as raízes da cultura cristã.

Distinguir entre o bem e o mal não é discriminar as pessoas. Cada pessoa, independentemente da sua orientação sexual, é igual em dignidade, e cada pessoa goza de proteção legal contra a difamação, a perseguição e a exclusão. Julgar o comportamento de uma pessoa, no entanto, não é uma ofensa à sua dignidade, mas torna possível a coexistência, a qual não pode acontecer sem princípios morais.’ (Gabriele Kuby, p. 178)

‘Diferentes tarefas e papéis entre homens e mulheres são denegridos como «estereótipos» que devem ser eliminados pelas autoridades políticas. A ideologia das diferenças de género «socialmente construídas» provou ser resistente aos resultados da investigação em biologia, medicina, sociologia, psicologia, neurociências, que descrevem, cada vez com maior precisão, as diferenças entre homens e mulheres e as causas destas diferenças.’ (Gabriele Kuby, p. 179)

‘O termo «homofobia» é um neologismo cunhado no final dos anos 60 pelo psicanalista e ativista homossexual George Weinberg, para fazer com que as pessoas que rejeitam a homossexualidade parecessem doentes mentais. Uma fobia é um medo neurótico que é tratado terapeuticamente, tal como o medo de aranhas (aracnofobia), de multidões (agorafobia), de espaços fechados (claustrofobia), do número 13 (triscaidecafobia), etc. Com a sua perspicaz perceção de psicanalista, Weinberg pretendia demonstrar que as pessoas que sentem repulsa pela homossexualidade, na realidade, apenas receiam as próprias tendências homossexuais. A profunda rejeição do estilo de vida homossexual por motivos antropológicos, psicológicos, médicos, sociais ou religiosos foi condenada pelo termo geral «homofobia» e por isso classificada como um medo neurótico. Escusado será dizer que insultar, ou até utilizar formas violentas de rejeição, são atitudes estigmatizadas nas interações diárias, inclusive, claro está, contra pessoas com tendências homossexuais.

Em relação aos homossexuais, a Igreja Católica tem de se opor à dissolução da antropologia cristã e à moral sexual que daí derivou, se quiser conservar o seu depósito de fé. O Catecismo da Igreja Católica (CIC) diz aos crentes que «devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza. Evitar-se-á, em relação a eles, qualquer sinal de discriminação injusta» (CIC 2358). As palavras de Santo Agostinho a este respeito tornaram-se proverbiais: «Ama o pecador, detesta o pecado».’ (Gabriele Kuby, p. 180)

‘Uma investigação pública em larga escala, a National Health and Social Life Survey, divulgada pelo Center for Disease Control and Prevention em julho de 2014, descobriu que, ao contrário do que comummente se pensa, apenas 1,6% da população se identifica como homossexual, enquanto 96,6% dizem ser heterossexuais. Isto está em nítido contraste com uma pesquisa do Gallup de 2011. Nela se dizia que 52% dos americanos acreditavam que 25% da população era gay ou lésbica. Apenas 4% das pessoas pesquisadas na época acreditavam que a população homossexual era inferior a 5%. O fosso entre a realidade e a opinião pública prova quão incrivelmente bem-sucedida é a campanha de desinformação e propaganda do movimento LGBTI, apoiada pela maioria dos media.’ (Gabriele Kuby, p. 217)

‘[…] Os grupos de interesse LGBTI e os partidos alinhados com eles tentam culpar a «discriminação homofóbica» pelos elevados riscos do estilho de vida homossexual. Mas isso é contrariado pelo facto de estes números serem semelhantes em todos os países ocidentais, independentemente de quão liberal e tolerante seja cada um deles. Um estudo recente realizado na Holanda, um dos países mais liberais do mundo, mostra que as mulheres homossexuais apresentam uma maior taxa de abuso de substâncias e que os homens homossexuais revelam uma maior taxa de perturbações de ansiedade.’ (Gabriele Kuby, p. 225)

‘Numa altura em que o casamento entre um homem e uma mulher é cada vez menos associado ao conceito de fundação da família, e cada vez mais filhos são criados por mães solteiras, está em curso a batalha pela plena igualdade jurídica entre uniões entre pessoas do mesmo sexo e o casamento. Os libertadores sexuais do final da década de 1960 consideraram o casamento sufocante e antiquado, uma relíquia da possessividade burguesa. Isso revela uma contradição evidente: o mesmo grupo social que luta para enfraquecer a instituição do casamento está agora a lutar para que o casamento seja estendido às relações entre pessoas do mesmo sexo. E isso é proclamado como um «direito humano». A batalha cultural imposta ao mundo pelos poderes políticos ocidentais está em curso em todas as nações e a legislação está a mudar rapidamente.’ (Gabriele Kuby, p. 233)

‘[…] o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem decidiu em dois julgamentos (Schalk & Kopf vs. Áustria, 2010 e Chapin e Charpentier vs. France, 2016) que não há nenhum direito internacional vinculativo ao «casamento» de pessoas do mesmo sexo. Isso é regulado pela legislação nacional dos Estados-membros.’ (Gabriele Kuby, p. 239)

‘Uma investigação efetuada na [sic] Inglaterra com 1600 crianças menores de 10 anos mostra como as crianças sofrem com os divórcios dos pais. Quando lhes perguntaram o que mudariam se fossem um rei ou uma rainha e pudessem promulgar novas leis, a resposta mais frequente foi: «Proibia o divórcio».’ (Gabriele Kuby, p. 242)

‘Até que ponto é humana uma sociedade que premeia o «direito ao filho» nos adultos, mas debilita o direito que o filho tem a ter um pai e uma mãe que o criaram e são responsáveis por ele? Muitos estudos demonstraram que uma criança cresce melhor com os seus pais, sempre que não sejam excessivamente negligentes nos seus deveres.

Quando o Estado legitima a adoção por parte de pares do mesmo sexo, situa os pretensos direitos de uma minoria de adultos acima do bem-estar da criança. Isto contradiz toda a tradição jurídica do Ocidente. Nem sequer os pais biológicos são «donos» dos seus filhos, mas meros «depositários» da tarefa de lhes providenciar as melhores condições possíveis para que alcancem a sua singular individualidade.’ (Gabriele Kuby, p. 246)

‘Durante muito tempo houve quem pensasse que a batalha pelo «casamento» entre pessoas do mesmo sexo só tinha a ver com os direitos da minoria homossexual, mas isso é uma ilusão. Nada é suficiente para os agentes da revolução sexual, porque eles não conseguem encontrar paz em si próprios. Desde que o Supremo Tribunal dos Estados Unidos decidiu legalizar o «casamento» do mesmo sexo, em junho de 2015, o «tsunami transgénero» foi posto em marcha pela Administração Obama. A mensagem é: pode-se mudar de sexo voluntariamente, basta afirmar a sua vontade. Sem diagnóstico médico, sem medidas terapêuticas ou médicas, sem cirurgias.’ (Gabriele Kuby, p. 249)

‘A grande maioria dos jovens quer famílias. Mas o Estado, todo o sistema educativo e quase todas as organizações que têm alguma coisa a ver com a juventude deixaram de ensinar às crianças como amar e se relacionar.’ (Gabriele Kuby, p. 298)

‘O maior agente global no campo do aborto e da desregulação da sexualidade é a International Planned Parenthood Federation (IPPF), que tem organizações subsidiárias em 180 países. No seu relatório anual de 2010, a IPPF orgulha-se de:

- ter evitado 22 milhões de gravidezes;

- ter disponibilizado 131 milhões de serviços contracetivos;

- ter prestado 25 milhões de serviços relacionados com HIV;

- ter efetuado 38 milhões de CYP (distribuição de contracetivos);

- ter distribuído 621 milhões de preservativos;

- ter prestado 80 milhões de serviços a jovens.

A IPPF não só realiza milhões de abortos em todo o mundo, mas também vende partes intactas de corpos fetais obtidos através do procedimento ilegal do aborto por nascimento parcial. Isto foi revelado através de uma série de vídeos secretos divulgados a partir de julho de 2015.

A IPPF alega, enganadoramente, no seu Relatório Anual de Desempenho de 2007-2008, que o acesso ao aborto legal seguro é um imperativo de saúde pública e do respeito pelos direitos humanos. Mas isso é uma mentira crassa, Nenhum documento internacional vinculativo da ONU ou da EU reconhece o aborto como parte da saúde sexual e reprodutiva (SPH), e muito menos como um direito humano. O relatório anula da IPPF de 2010 diz que a União Europeia é o maior doador para o desenvolvimento internacional e que tem historicamente defendido a saúde e os direitos sexuais e reprodutivos. A Rede Europeia da IPPF lidera os esforços para garantir que a saúde sexual e reprodutiva permaneça no centro da política de desenvolvimento da EU.

Como revela um relatório de março de 2012 da European Dignity Watch, os programas de aborto que a IPPF e a Marie Stopes International conduzem nos países em desenvolvimento são financiados pela EU, apensar de não haver base legal para isso. O principal grupo-alvo da IPPF são os adolescentes: «Nos últimos cinco anos, a IPPF passou de uma organização que trabalha com jovens para uma que tem o seu enfoque na juventude e onde a participação dos jovens é um princípio para a prestação de serviços de saúde sexual e reprodutiva de qualidade».’

Para a IPPF, os direitos sexuais dos jovens não ser limitados pela lei, nem pelas normas sociais ou religiosas. O relatório dos cinco anos diz, orgulhosamente, que a IPPF fez 238 alterações legais em 119 países a favor dos direitos reprodutivos e sexuais, dos quais 52 envolvem a liberalização do aborto. A IPPF forneceu 3,9 milhões de serviços relacionados com o aborto, 41,7% deles a jovens, o que corresponde a um aumento de 22%.

A Pro Familia, a sucursal alemã da International Planned Parenthood Federation (IPPF), implementa a sua estratégia a nível nacional e local. A Planned Parenthood foi fundada em 1942 por Margaret Sanger nos Estados Unidos e a Pro Familia em 1952 por Hans Ludwig Friedrich Harmsen. Como já tivemos ocasião de referir, Sanger e Harmsen viam-se como eugenistas que queriam reduzir o «património genético inferior na população» com o objetivo de promover um património genético «digno» para apoio ao Estado. Harmsen foi fundador e presidente da Pro Familia até 1962 e seu presidente emérito até 1984. Nunca se distanciou da sua posição sobre a eugenia. De 1973 a 1983, o marxista Jürgen Heinrichs foi presidente da associação. O nome Pro Famili sugere o oposto do que a organização, patrocinada pelo Estado, na realidade promove.’ (Gabriele Kuby, p. 301-303)

‘[…] Quase todas as organizações nacionais e internacionais que têm algo a ver com crianças ou jovens investem o seu poder e os seus recursos na sexualização das crianças desde o nascimento e no afastamento dos limites morais à atividade sexual. As organizações juvenis de movimentos cristãos são uma exceção, mas, infelizmente, muitas delas estão também a ser engolidas pela perspetiva dominante. A mensagem é que a sexualidade serve apenas para o prazer. Os efeitos colaterais indesejáveis, como a geração de uma nova vida humana, devem ser evitados pela contraceção ou eliminados pelo aborto. Os danos psicológicos causados por relações desfeitas e o perigo das DST são banalizados e ignorados.’ (Gabriele Kuby, p. 304)

‘Um estudo recente da Universidade de Harvard mostra que a incerteza acerca da identidade de género em crianças com menos de 11 anos aumenta a probabilidade de abuso sexual, físico e psicológico e de transtornos de stress traumático duradouros. A desconstrução da identidade de género através da «educação diversificada» e da dissolução dos «estereótipos de género» é uma experimentação irresponsável em crianças indefesas.’ (Gabriele Kuby, p. 330)

‘[…] quem beneficia com a sexualização das crianças e adolescentes e com a sua educação para a «diversidade»? Vários intervenientes vêm à cabeça:

- Aqueles que querem produzir pessoas desenraizadas, que possam ser manipuladas para fins estratégicos globais;

- Aqueles que têm interesse em reduzir o crescimento da população global sem mudar a distribuição global da riqueza;

- Aqueles que têm interesse em ver as nações ocidentais afundarem-se num «inverno demográfico»;

- Aqueles que têm interessem eliminar a religião, especialmente o Cristianismo;

- Aqueles que sofrem sob a «normatividade heterossexual» e desejam obter reconhecimento por meio da sua dissolução.’ (Gabriele Kuby, p. 335-336)

‘A propaganda mediática e política cria a impressão de que as famílias constituídas por pais casados e seus filhos são uma estrutura social desgastada do passado. Se assim for, então os números do Eurostat de 2008 sobre estilos de vida na União Europeia […] são uma surpresa. Segundo o Eurostat, em 2008, em toda a EU, 74% de todas as crianças com menos de 18 anos viviam com pais casados, 11,5% com dois pais em união estável e apenas 13,6% com apenas um dos pais. Estes números mostram quão robusta é a família, como base natural da sociedade humana. Apesar de décadas de políticas destrutivas da família, três quartos das crianças na Europa ainda vivem com pais casados.

Os jovens anseiam pelo verdadeiro amor e pela fidelidade. Mais de três quartos dos adolescentes acreditam que «é preciso uma família para se ser verdadeiramente feliz».’ [Nota de rodapé: Como Frank Schirrmacher demonstrou, nas crises que ameaçam a vida, as hipóteses de sobrevivência das famílias são maiores do que as dos indivíduos, mesmo se estes forem homens jovens cheios de vitalidade. Ver Frank Schirrmacher, Minimum, Munique, Karl Blessing Verlag, 2006.]’ (Gabriele Kuby, p. 337)

‘A autora Gabriele Kuby e outras quatro mulheres, todas conservadoras e líderes de opinião na Alemanha, foram retratadas como «zombies saídas da tumba em 1945» numa peça de teatro chamada «FEAR» da autoria de Folk Rixe, no teatro alemão Schaubühne. Para destruir esses «zombies» era necessário «dar-lhes um tiro na cabeça». As fotografias das quatros mulheres eram mutiladas pelos atores em palco. Citações de Gabriele Kuby foram manipuladas, rearranjadas e emitidas com a sua voz para a retratar como fascista. Gabriele Kuby moveu ações legais e perdeu na primeira instância com o argumento de que se tratava de «liberdade artística».’ (Gabriele Kuby, p. 360)


**(Título retirado de Daniel Faria, Dos líquidos, Porto, Edição Fundação Manuel Leão, 2000, p. 137)

*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Ensaios de liberdade', 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'

 

sexta-feira, agosto 23, 2024

Alberto Ferreyra | Mystérios lusitanos [contos - texto e locução] | 3 | Mistério na porta do sol

 

Mystérios lusitanos | A vinte e três (23) de cada mês, habitamos o mundo pelo imaginário de Alberto Ferreyra...

(Nos ramos da escrita, repousam, vezes sem conta, as gralhas da distração, ocultas, sob múltiplos disfarces, até que alguém as enxote. Alberto Ferreyra contou com o fino olhar da sua amiga Teresa Correia, detentora do segredo da sua identidade, para afastar ou caçar o grasnar das gralhas. Está-lhe, por isso, muito grato...)

Alberto Ferreyra*



A noite desce, com as águas do Fervença, no planalto onde repousa Bragança.
As águas do rio guardam mistérios que o seu marulhar segreda aos ouvidos mais atentos.
A Carlos foi dado o dom de os ouvir… Mas a maldição que o obriga a esconder-se impede-o de os contar.
O frio vem com o cair da noite.
Carlos senta-se onde sempre fez leito na sua já vetusta vida: nas ameias que encimam a porta do sol.
Ao longe, o Fervença…
Das suas águas, como se de um Moisés de agora, foi recolhido, depois de nelas abandonado pela mãe, horrorizada com a sua descomunal cabeça de fartas sobrancelhas.
Nem a sua espontânea e precoce simpatia o livrou do maldito fado.
Nas águas pouco profundas, foi deitado à sorte que levou até às mãos já enrugadas da ti’ Matilde ‘Riscada’. A sua face marcada por um rosado sinal valia-lhe a alcunha e afastamento.
Raramente era vista…
Na sua casita, perdida na margem esquerda do rio, afastava-se dos que do seu ‘riscado’ rosto gracejavam.
Por isso, quando a sua casa se encheu do choro de uma criança abandonada de novo amada (ou, talvez, amada pela primeira vez…) ninguém notou.
E Carlos cresceu.
Nos poucos tempos que durou a sua passagem pelos bancos da escola, cunharam-lhe a alcunha com que passou a encobrir-se: ‘Carletos’ para rimar com ‘caretos’…
O tempo tudo traz e, com ele, a sorte, a morte e a idade, bem certo!
Ti’ Matilde partiu e Carlitos – ‘Carletos’… - recolheu-se à sombra da ausência do burgo dos humanos, para se encobrir no lugar dos mistérios.
Sob a capa dos caretos com que o quiseram comparar, fez a sua própria máscara e nela se enfantasmou…
O seu novo lar fez-se das ameias do cerco castelar onde a vida decorria sob o seu atento olhar.
- ‘Entre os humanos que se têm sem máscara, muitas são as caretas de que se faz o viver’, parecia pensar Carlitos sempre que por ‘carletos’ se fazia passar.
Do alto da sua morada, assistiu ao discutir e afogar de uma desavença de amor.
Já sem vida, o corpo da rejeitada foi entregue às águas, para que, no seu murmurejar, se ocultasse o crime.
Detentor do segredo, mas impedido, por maldição, de o contar, sob a careta de Carletos, todos os pensamentos se moveram a mais vertiginosa velocidade do que as águas do rio.
- Como dizer de que mãos se fez aquele finar?
A cabeça pousada sobre a mão escondida na capa e manto de careto, logo ali viu como mostrar a todos que criminoso quisera fazer crer que o afogamento fora acidental.
Dos farrapos de que se vestiam os seus andrajos, foi retirando, tira a tira, os sinais que depositava no local onde tudo se passara.
Quando todos dormiam, descia do seu lar e depositava, na margem do rio, um pedaço – um farrapo, afinal – que, conjugado a outros, começava a tomar a forma de um corpo.
Carletos estava a deixar um sinal.
Neste entretanto, a família de J. e M. fora de férias ao planalto transmontano.
Curiosa, como sempre, M., com o seu branquinho (o periquito detetive que sempre trazia consigo…) no ombro, vinha com o desejo de ouvir esta história que lhe tinham dito ser mistério insolúvel.
M. pediu aos pais que os levassem à margem do rio.
Ali, encontraram a forma de um ‘careto’ que não parecia findar de se acrescentar. Em cada dia, ao amanhecer, mais farrapos apareciam somados aos do dia anterior.
M. reparara, porém, que a cor do careto construído por enigmática sombra ou fantasma da noite não seguia os habituais padrões garridos. Era azul e amarelo…
Aquele detalhe intrigara-a e aguçara a sua curiosidade.
Passou a noite, inquieta.
Nada parecia ajudar a desvendar aquele enigma que o seu misterioso cúmplice parecia querer deixar-lhe nas mãos.
De cabeça em água, acompanhava os pais pelas ruas de Braganças, quase ausente. O corpo ia, mas a mente não estava.
Frente ao Domus Municipalis, onde tanto desejava ir, estava como se de um fantasma se tratasse.
- Espera! O que é isto?
Uma bandeira da cidade agitava-se ao vento.
O brasão repousava sobre o azul e amarelo.
Seria aquilo uma coincidência?
Só havia um modo de confirmar: visitar a sede da Câmara.
Estava o parceiro misterioso a encaminhá-la para o local onde estas cores são símbolo coletivo?
- Vamos à Câmara. – pediu M.
Branquinho saiu-lhe do ombro e antecedia-os. Parecia compreender que estavam perto de desfazer o nó.
O coração batia-lhe velozmente, no peito, e parecia querer sair-lhe pela boca.
Ao chegarem ao destino, o parceiro silencioso facilitara-lhes a vida.
Dois farrapos azuis e amarelos enfeitavam o carro do presidente da autarquia.
Hoje, na margem do rio Fervença, o local onde o parceiro misterioso tecera o careto silenciosamente eloquente está vazio.
Ninguém sabe para onde foi levado…
Mas Carlitos tem, agora, uma muda mas fiel companhia no seu encoberto lar.
Antes de o sol se pôr sobre a sua porta, duas longas sombras se estendem até a rio.
…Nunca ninguém viu aqueles dois por quem a luz se enrola e abafa, gerando sombra, mas todos sabem que lá moram.

 


 


*Alberto Ferreyra diz que as suas letras habitam a mente e saem da mão de alguém nascido em terras gaulesas, ainda que afirme, em sussurro, que o seu real nascimento ocorreu nas margens do Antuã, em abril de 2024. É, por isso, um prematuro autor literário, germinado da inspiração que a realidade proporciona quando se tem a companhia, nos livros, de génios como Jorge Luis Borges, Miguel Torga, Gabriel García Marquez ou personagens como Poirot ou Padre Brown.
 
Na sua escrita, cruzam-se o real e o imaginado, o fictício e o histórico, numa embrenhada teia em que o leitor continua a ler, mesmo já depois de fechado o conto. O real continua a fecundar histórias na mente de quem lê Ferreyra. Cada conto, feito dos mistérios desvelados, aproxima o tempo e distancia o espaço, esticando-o até ao eterno e ao infinito. Ao ler Ferreyra, faz-se 'silêncio' ('mystério' alude à etimologia grega da palavra, que remete para o 'fazer silêncio', 'emudecer-se'...) para que possam ecoar as palavras, para que possa desenovelar-se o enredo sucintamente desvelado.
 
J. e M., protagonistas de cada um dos contos, acompanhados, em alguns deles, pelo seu periquito 'branquinho', fazem emergir, do real em que se enredam, histórias que, nascendo da imaginação de Ferreyra, permanecem como realidades possíveis, deixando a suspeita de terem mesmo ocorrido.
Se não foi real, Ferreyra o criará, inspirado numa cosmovisão que tanto deve àquela religião que fez do encarnado a condição fundamental do existir.
 
A vinte e três (23) de cada mês, habitaremos o mundo pelo imaginário de Alberto Ferreyra...

quinta-feira, agosto 15, 2024

‘Regresso a Ítaca no sonho do Éden’ | 22 | Orfeu e a descida aos infernos

 

Artigo originalmente publicado na revista 'Mundo Rural'

Luís Manuel Pereira da Silva*

 

‘Regresso a Ítaca no sonho do Éden’ faz-se, neste passo, ao som da lira de Orfeu, instrumento a que, segundo as tradições míticas, ele próprio acrescentou mais duas cordas, perfazendo nove, como o número das musas, filhas de Mnemósine e de Zeus, a quem se atribuía a origem das diversas artes: Calíope, musa da poesia, Clio, musa da história, Érato, musa da lírica coral, Euterpe, musa da flauta e, por isso, da música, Melpómene, musa da tragédia, Polímnia (ou Poliímnia), musa da pantomima, Terpsícore, musa da poesia ligeira e da dança, Talia, musa da comédia e Urânia, musa da astronomia.

E onde nos leva Orfeu?

O mito de Orfeu e Eurídice é dos mais fecundos da história clássica e tantas vezes repercutido nas múltiplas artes, entre as quais merecerá particular destaque a singular ópera (1762) de Gluck, de título homónimo. Mas não apenas da história principal se guardam memórias que se tornaram intemporais. As referências com que o decoraram as penas de Virgílio e Ovídio mantêm-se até hoje. Gil Vicente, no seu auto da barca do Inferno, recorda Caronte e o seu papel na travessia do rio Aqueronte. No Natal do sr. Scrooge, o forreta protagonista da história coloca uma moeda em cada olho do seu finado sócio. Alusões ao que do mito se mantém, na memória coletiva.

Mas de Orfeu não ficou só a curiosidade. Ficou um denso mito de que vale a pena fazer memória e cruzar, neste caminho de regresso a Ítaca sob o sonho do Éden, as interseções e divergências entre a cultura clássica e o cristianismo.

Sigamos, no nosso relato, o que nos contam Pierre Grimal[1] e Luc Ferry[2].

Orfeu está apaixonado por Eurídice, uma ninfa ou filha de Apolo. Esta, fugindo de Aristeu, que a pretendia seduzir, pisa uma serpente que, mortalmente, a pica. Orfeu decide descer aos infernos para a recuperar para a vida. Ali, seduz, com a sua lira de nove cordas, todos os seres, até os mais empedernidos de todos, superando, mesmo, todas as maldições: ‘a roda de Ixíon deixa de girar, a pedra de Sísifo equilibra-se por si própria imobilizando-se, Tântalo esquece a fome e a sede, as Danaides já não tentam encher de água o tonel perfurado’ (Pierre Grimal, p. 341). Consegue convencer Hades e Perséfone que consentem em deixá-los partir, mas com a condição de que Orfeu não se volte para trás, antes de sair dos Infernos.

À boa maneira grega, a maldição atualiza-se, porque a humanidade de Orfeu o faz sucumbir e desrespeitar a condição.

Não nos interessa, aqui, discutir a que se deverá esta tentação última de Orfeu (que já estava perto de cumprir o desejo de sair dos Infernos), e que Luc Ferry atribui a uma insanável coexistência entre o amor e a morte.

Numa perspetiva cristã, não só não há essencial coexistência entre o amor e a morte como a própria tradição repercutiu que o amor supera e transcende a morte, ao colocar, no próprio símbolo dos apóstolos, a referência à descida de Jesus Cristo aos infernos.

A tradução portuguesa do Catecismo da Igreja Católica, reproduzida a partir da edição típica latina, refere que ‘Jesus Cristo […] desceu à mansão dos mortos’, uma tradução atualizada do conceito que, no original, se afirmava, desde a primeira vez em que este credo passou a incluí-la, como ‘descendit ad inferna’, o que poderá à letra, traduzir-se por ‘desceu aos lugares inferiores’, pois assim o pensava a cosmologia de então. O lugar da morte estava na parte inferior do universo. Descia-se para o ‘Hades’, o ‘Sheol’, sendo pensado como o lugar sem memória, aliás, numa evocação da ideia de ‘letes’, o rio cujas águas faziam esquecer, apagar toda a memória (curiosamente, uma das palavras gregas para ‘verdade’ era ‘alêtheia’ que, à letra, significa ‘não perder a memória’).

Faço uma breve deriva para voltarmos a regressar a este ponto.

O símbolo dos apóstolos, proposto como um dos credos a proferir nas eucaristias dominicais (sendo mais frequente, porém, o nicenoconstantinopolitano), foi, como recorda Denzinger, no seu Enchiridion, tido, durante muitos séculos, como um símbolo construído, literalmente, pelos doze apóstolos, tendo cada um deles ditado um dos doze artigos. Os vestígios mais antigos desta ‘lenda’ são de 390, numa carta enviada pelo Sínodo de Milão (presidido por Santo Ambrósio) ao Papa Sirício, sendo o primeiro documento em que se fala de ‘credo apostólico’.

Sabemos, porém, hoje, que não foi assim, sendo que este credo se foi construindo, como processo de amadurecimento eclesial (hoje, diríamos ‘sinodal’), por duas vias. A mais antiga, a romana, terá iniciado em finais do século II, sendo transmitida em grego e latim. A mais recente terá surgido no século VII, no sul da Gália (atual França), tendo sido prontamente acolhida por Roma. Este processo ficou concluído e fechado com a edição do catecismo romando, em 1566 e com o breviário romano, em 1568.

Curiosamente, pode constatar-se que a inclusão do artigo ‘desceu aos infernos’, em símbolos de fé ‘ortodoxos’ (isto é, não heréticos, como acontecia com os arianos ou semiarianos) só ocorre em 404, em ‘expositio’ da autoria de Tyrannius Rufinus[3].

Esta constatação parece-me contradizer a tese de significativa influência do orfismo no cristianismo, como pretendem, por exemplo, Luc Ferry e o próprio Pierre Grimal, podendo-se acrescentar que as divergências entre as duas narrativas abundam.

Orfeu desce aos infernos, fruto de um amor de natureza conjugal. Jesus Cristo desce aos infernos (à mansão dos mortos) como ação de libertação universal.

Do mito de Orfeu e Eurídice permanece um resquício de ‘maldição’: Eurídice regressa uma segunda vez, aos Infernos.

Da descida de Jesus Cristo advém uma definitiva certeza de que os homens são ‘responsáveis pela sua própria sorte […] o seu céu descansa na liberdade [pois] até [a]os condenados deixa o direito de querer a sua condenação’[4].

Deus propõe, na perspetiva cristã, a salvação para todos. A liberdade de a aceitar torná-la-á eficaz.

Esta síntese torna atual a afirmação feita no símbolo dos apóstolos. Na sua morte e, como recorda Hans Küng, em estreita união com a sua ressurreição[5], Jesus opera uma salvação para todos, mas em que a possibilidade da perda e condenação definitiva continua em aberto, não já como uma maldição, na linha do mito de Orfeu, mas como uma decisão de não acolher a salvação.

Mas o Deus Cristão não é o das maldições: é o da redenção e da salvação. É ‘A’ Salvação!


[1] Cfr. Pierre Grimal, Dicionário de mitologia grega e romana, Lisboa, Antígona Editores, 2020, pp. 340-342.

[2] Luc Ferry, A sabedoria dos mitos, Lisboa, Temas e Debates/Círculo de Leitores, 2014, pp. 227-234.

[3] Cfr. Heinrich Denzinger e Peter Hünermann, El Magisterio de la Iglesia: Enchiridion symbolorum definitionum et declarationum de rebus fidei et morum, Barcelona, Herder Editorial, 1999, n. 16.

[4] Cfr. Joseph Ratzinger, Escatología: la muerte yla vida eterna, Barcelona, Herder Editorial, 2008, pp. 233.

[5] Hans Küng afirma que ‘se este artigo da fé se entende simbolicamente vinculado à ressurreição, não tem, pois, porque oferecer dificuldades ao homem de hoje.’ – Hans Küng, Credo: El Símbolo de los Apóstoles explicado al hombre de nuestro tiempo, Madrid, Editorial Trotta, 1994,, p. 104.


quarta-feira, agosto 07, 2024

Sabes, leitor... | 8 | Marca de água do livro de Michael J. Sandel, 'O que o dinheiro não pode comprar'

 

Rubrica ‘Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página’** | Marca de água de livros que deixam marcas profundas
Parceria: Federação Portuguesa pela Vida e Comissão Diocesana da Cultura

Luís Manuel Pereira da Silva*

O autor e a obra
Michael J. Sandel, O que o dinheiro não pode comprar: os limites morais dos mercados, Barcarena, Editorial Presença, 2015.

Michael Sandel é professor de filosofia na Universidade de Harvard, e convidado na Universidade de Sorbonne, Paris. Tem a maioria dos seus livros traduzidos em Portugal editados pela Presença. Uma aposta certeira, evidente no facto de que, apesar de se tratar de livros de filosofia, rapidamente são reeditados. Em Portugal, estão traduzidos os seus ‘O Liberalismo e os Limites da Justiça’, editado pela Fundação Calouste Gulbenkian, e, pela Presença, ‘Justiça - Fazemos o que Devemos?’, cuja base é, em grande parte, o seu muito procurado curso sobre Justiça, ‘A Tirania do Mérito - O que aconteceu ao bem comum?’ e, mais recentemente, o seu ‘O Descontentamento da Democracia - Por que razão vivemos tempos perigosos e o que temos de fazer para mudar’.
Quando se lê Sandel, rapidamente se percebe a causa do seu sucesso. O seu pensamento é claro, partindo de perguntas que adivinham as inquietações do leitor, expresso numa escrita que parece ser um diálogo com o distante leitor, como se o levasse pela mão até à solução que nos propõe.
Mesmo quando nos apresenta uma solução com que podemos não concordar, como a que formula no seu livro ‘a tirania do mérito’, em que sugere que o sorteio pudesse ser uma solução para evitar a meritocracia que exclui, a sua argumentação é poderosa e envolvente, deixando no leitor honesto a sensação de um profundo respeito, dada a clareza da exposição.
Um pensador a ler e acompanhar…

 

Marcas de água (o que fica depois de se deixar o livro)

Para quem me lê, deixo, antes da descrição sobre o que fica da leitura deste livro, uma nota muito ilustrativa do interesse que suscita este livro. Comecei a lê-lo em 24 de setembro de 2016. Acabei de o ler a 2 de outubro, entre os inúmeros afazeres, próprios de qualquer início de ano letivo. A fluidez do pensamento, a transparência da escrita prendera-me. O entusiasmo que me suscitou fez-me comprar, logo após terminar esta leitura, o seu ‘Justiça’, que também li num fôlego.
Sandel é, não só claro, como defensor de uma linha de pensamento com que, como personalista cristão, me identifico. O centro do pensamento de Sandel é claro: há valores que não são redutíveis à lógica da compra e venda. Como que poderíamos sintetizar que, apesar de o dinheiro tudo querer comprar, nem tudo pode ser vendido. Como o próprio Sandel afirma, ‘quando decidimos que determinados bens podem ser comprados e vendidos, estamos a decidir, pelo menos de forma implícita, que é apropriado tratá-los como mercadorias, como instrumentos de lucro e uso. Mas nem todos os bens são devidamente valorizados desta forma. O exemplo mais óbvio são os seres humanos.’ (p. 19)
A centralidade que coloca na pessoa humana, repercutindo uma matriz com grandes pontos de coincidência com a leitura cristã (ainda que o autor não o explicite, mas sem deixar, porém, de citar, quando necessário, o próprio Magistério pontifício), leva-o a interrogar sobre se ‘queremos uma ‘economia de mercado ou uma sociedade de mercado’ (p. 20), ideia que a nós, portugueses, invoca uma outra interrogação formulada por D. José Policarpo sobre a laicidade do Estado em que recordava que, sendo certo que o Estado é laico (ainda que a Constituição da República nunca utilize este termo), a sociedade não o era. Agora, a questão é entre a economia e o todo da sociedade. E Sandel deixa clara a sua linha. A lógica de mercado deve confinar-se ao que é mundo específico da economia, não deixando que tudo se reduza a lógica de compra e venda.
O filósofo de Harvard defende, por isso, que é preciso assumir a consciência de que todas as ações humanas são suscetíveis de apreciação moral (não há amoralidade prática), o que o leva a concluir que, dada a relevância da política na vida em comum, há que constatar que ‘o problema da política não reside no excesso mas sim na carência de argumentação moral. A nossa política é inflamada porque é essencialmente vaga, vazia de conteúdo moral e espiritual. Não abarca as grandes questões que preocupam as pessoas.’ (p. 23)
Com estes pressupostos, Sandel constrói uma narrativa construída com uma articulação densa e fluentemente conduzida de argumentos e factos que conduzem o leitor ao reconhecimento de que nem tudo é redutível à lógica da compra e venda. Num tempo em que tudo é reduzido à ordem do útil, o discurso de Sandel está em contracorrente, ousando dizer-nos que há valores que estão para além do tangível. ‘[…] assim que vemos como os mercados e o comércio alteram o caráter dos bens em que tocam, temos de perguntar a que esferas os mercados pertencem – e não pertencem. E não podemos responder a esta pergunta sem deliberarmos sobre o significado e o propósito dos bens e os valores que deveriam regê-los.’ (p. 209)
Num tempo tão propenso a ‘cancelamentos’ e silenciamentos, Sandel não tem medo de afirmar que ‘por receio de suscitarmos discórdia, hesitamos em expor as nossas convicções morais e espirituais na praça pública. Mas o facto de nos esquivarmos a estas questões não as faz deixar por decidir. Significa apenas que os mercados as decidirão por nós.’ (p. 209)
A pergunta com que termina é revisitável, no contexto português: ‘queremos uma sociedade onde tudo está à venda? Ou existirão determinados bens morais e cívicos que os mercados não honram nem respeitam e que o dinheiro não pode comprar?’ (p. 210)
Pergunto eu, sem comprometer Sandel: estão à venda os valores fundamentais, dependentes de quem, com poder económico, pode manipular os média e ‘vendê-los bem vendidos’ ou podemos contar com decisores políticos que protegem os valores fundamentais, mesmo quando isso pode custar no mercado eleitoral?
Temas como a proteção da família, da vida humana nos seus extremos, a liberdade religiosa, a proteção do direito da família à liberdade de educação estão em risco no mercado dos valores eleitorais. Sucumbirão ao peso dos diversos ‘mercado’? Ou permanecerão valores (algo que consideramos valer e merecer proteção) distinguindo-se o que vale do que não vale?

Na mesma página que o autor (citações)

‘Hoje, a lógica da compra e venda já não se aplica apenas a bens materiais, mas domina cada vez mais todos os aspetos da vida. Está na altura de perguntarmos se queremos viver desta forma.’ (p. 16)

‘Precisamos de nos perguntar se há algumas coisas que o dinheiro não deve comprar.’ (p. 17)

‘Numa sociedade em que tudo está à venda, a vida é mais difícil para aqueles que têm escassos recursos. Quantas mais forem as coisas que o dinheiro pode comprar, maior importância adquire a riqueza (ou a falta dela). (p. 18)

‘Pagar a crianças para lerem livros pode incentivá-las a ler mais, mas também as ensina a encarar a leitura como uma tarefa e não uma fonte de satisfação intrínseca.’ (p. 19)

‘Os economistas partem muitas vezes do pressuposto de que os mercados são inertes, que não afetam os bens que são transacionados. Mas isso não é verdade. Os mercados deixam a sua marca. Às vezes, os valores de mercado excluem os valores não mercantis que merecem ser protegidos.’ (p. 19)

‘[…] quando decidimos que determinados bens podem ser comprados e vendidos, estamos a decidir, pelo menos de forma implícita, que é apropriado tratá-los como mercadorias, como instrumentos de lucro e uso. Mas nem todos os bens são devidamente valorizados desta forma. O exemplo mais óbvio são os seres humanos. A escravidão era chocante porque tratava os seres humanos como mercadorias que podiam ser compradas e vendidas em leilão. Um tal tratamento não valoriza devidamente os seres humanos – como pessoas merecedoras de dignidade e respeito e não como instrumentos de obtenção de lucro e objetos de uso.’ (p. 19)

‘[…] uma economia de mercado é uma ferramenta – uma ferramenta valiosa e eficaz – para organizar a atividade produtiva. Uma sociedade de mercado é uma forma de vida em que os valores de mercado se infiltram em todos os aspetos da atividade humana. É um lugar onde as relações sociais são moldadas à imagem do mercado. […] Queremos uma economia de mercado ou uma sociedade de mercado?’ (p. 20)

‘O problema da política não reside no excesso, mas sim na carência de argumentação moral. A nossa política é inflamada porque é essencialmente vaga, vazia de conteúdo moral e espiritual. Não abarca as grandes questões que preocupam as pessoas.’ (p. 23)

‘À sua própria maneira, a lógica racional do mercado também esvazia a vida pública de argumentação moral. Parte do apelo dos mercados reside no facto de não fazerem juízos de valor sobre as preferências que satisfazem. Não perguntam se algumas formas de valorizar os bens são mais nobres, ou mais dignas, do que outras. Se alguém está disposto a pagar por sexo ou por um rim, e uma pessoa maior e vacinada estiver disposta a vender esse bem ou serviço, a única pergunta que o economista faz é: «Quanto é?» Os mercados não apontam um dedo reprovador. Não discriminam entre preferências admiráveis e abjetas. Cada uma das partes envolvidas no acordo decide por si mesma o valor a atribuir à coisas que estão a ser transacionadas.’ (p. 23)

‘Se concordamos que comprar e vender certos bens os corrompe ou degrada, então acreditamos que algumas formas de valorizar esses bens são mais apropriadas do que outras. Dificilmente faz sentido falar sobre corromper uma atividade – a paternidade, por exemplo, ou a cidadania – a menos que pensemos que determinadas maneiras de se ser pai, ou cidadão, são melhores do que outras.
Juízos morais deste teor subjazem às poucas limitações impostas aos mercados que ainda podemos observar. Não permitimos que os pais vendam os filhos ou que os cidadãos vendam os seus votos. E uma das razões para não o permitirmos é, francamente, de ordem moral: acreditamos que vender essas coisas as valoriza da forma errada e promove más atitudes.’ (p. 24)

‘Muitas vezes associamos a corrupção a lucros obtidos de forma ilícita. Mas a corrupção refere-se a algo mais do que subornos e pagamentos ilícitos. Corromper um bem ou uma prática social é degradá-lo, trata-lo de acordo com uma modalidade de valorização menor do que aquela que seria apropriada.’ (p. 43)

‘[…] de modo a determinarmos se a capacidade reprodutiva de uma mulher deveria ser objeto de uma transação mercantil, temos de perguntar que tipo de bem é esse: deveríamos considerar o nosso corpo como bem que possuímos e podemos usar e disponibilizar como melhor entendermos ou será que alguns usos do nosso corpo equivalem a um ato de autodegradação? Trata-se de uma questão importante e controversa que também surge nos debates sobre a prostituição, as barrigas de aluguer e a compra e venda de óvulos e esperma. Antes de podermos decidir se as relações de mercado são apropriadas para tais domínios da vida, precisamos de compreender que normas deveriam reger as nossas vidas sexuais e reprodutivas.’ (p. 55)

‘Poderá toda a ação humana ser entendida à imagem de um mercado? Economistas, politólogos, juristas e outros profissionais continuam a debater esta questão. Mas o mais surpreendente é a forma como esta imagem se tornou poderosa – não só nos meios académicos, mas também na vida quotidiana. Nas últimas décadas, assistiu-se à transformação das relações sociais à imagem das relações de mercado, num grau verdadeiramente notável. Um dos traços desta transformação é o uso crescente de incentivos monetários para resolver problemas sociais.’ (p. 59)

‘Muitas vezes, os incentivos de mercado corroem ou excluem os incentivos não mercantis.
Um estudo centrado em alguns infantários em Israel demonstra como isto pode acontecer. Os infantários enfrentavam um problema muito comum: às vezes, os pais chegavam tarde para recolherem os filhos. Uma das educadoras tinha de ficar com as crianças até à chegada dos pais retardatários. Para resolver esse problema, os infantários começaram a aplicar uma multa aos pais atrasados. O que acha o leitor que aconteceu? Na verdade, os atrasos na recolha das crianças aumentaram.
Ora, caso se assuma que as pessoas respondem a incentivos, esse é um resultado desconcertante. Esperar-se-ia que as multas reduzissem, e não que aumentassem, a incidência de ressolhas com atraso. O que aconteceu então? A introdução de um pagamento em dinheiro mudou as normas. Antes dessa medida, os pais que chegavam atrasados sentiam-se culpados, pois estavam a sujeitar as educadoras a uma situação incómoda. Mas, após a introdução das multas, os pais passaram a considerar as recolhas atrasadas das crianças um serviço pelo qual estavam dispostos a pagar. Encaravam a multa como se fosse uma taxa. Em vez de abusarem da boa vontade das educadoras, estavam simplesmente a pagar-lhes para trabalharem por mais tempo.’ (pp. 72-73)

‘O que faz com que as multas por excesso de velocidade na Finlândia não possam ser tratadas como taxas não é apenas do facto de variarem de acordo com os rendimentos do infrator. É também o opróbrio moral que lhes subjaz: o juízo moral de que infringir o limite de velocidade é um comportamento errado.’ (p. 74)

‘À medida que os mercados invadem esferas da vida tradicionalmente regidas por normas não mercantis, a noção de que os mercados não tocam nem maculam os bens que transacionam torna-se cada vez mais implausível. Um crescente número de investigações confirma aquilo que o senso comum sugere: os incentivos financeiros e outros mecanismos de mercado podem ter consequências negativas ao excluírem normas não mercantis. Às vezes, oferecer um pagamento para se obter um determinado comportamento pode resultar numa manifestação menos, e não maior, desse comportamento.’ (pp. 119-120)

‘[…] encarar as normas morais e cívicas apenas como formas economicamente rentáveis de motivar as pessoas equivale a ignorar o valor intrínseco dessas normas.’ (p. 125)

‘O altruísmo, a generosidade, a solidariedade e o espírito cívico não são similares a mercadorias que se esgotam com o uso. São mais como músculos que se desenvolver e fortalecem com o exercício. Um dos defeitos de uma sociedade regida pelos mercados é que permite que estas virtudes definem. Para podermos renovar a nossa vida pública, precisamos de as exercer com uma tenacidade cada vez maior.’ (p. 135)

‘[…] para se poder decidir a que esferas da vida a publicidade pertence ou não, não basta debater os direitos de propriedade, por um lado, e a questão da justiça, por outro. Também precisamos de discutir o significado das práticas e dos bens sociais que encarnam. E precisamos de perguntar, em cada caso, se a comercialização dessa prática acabaria por a degradar.’ (p. 195)

‘A publicidade incentiva as pessoas a quererem coisas e a satisfazerem os seus desejos. A educação incentiva as pessoas a refletirem de forma crítica sobre os seus desejos, para os refrear ou sublimar. O propósito da publicidade consiste em recrutar consumidores; a finalidade das escolas públicas consiste em cultivar os cidadãos.’ (p. 207)

‘Queremos uma sociedade onde tudo está à venda? Ou existirão determinados bens morais e cívicos que os mercados não honram nem respeitam e que o dinheiro não pode comprar?’ (p. 210)

 

**(Título retirado de Daniel Faria, Dos líquidos, Porto, Edição Fundação Manuel Leão, 2000, p. 137)

*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Ensaios de liberdade', 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'

terça-feira, agosto 06, 2024

Do jogo e do jogar: alegoria de um futuro mais humano

 

A história da relação entre o cristianismo e o jogo não será das mais positivas entre as que dois mil anos de muitos encontros e desencontros poderão contar.

O risco de a homenagem aos vencedores poder resvalar para um qualquer indisfarçável culto do corpo e a marca veterotestamentária de uma vincada recusa do culto idolátrico poderão ter contribuído, de forma profunda, para essa desconfiança.

Por contraste, contudo, poderiam ter-se encontrado, de modo semelhante, iguais motivos de desconfiança para com a comensalidade, mas tal não impediu que o banquete tenha sido, ao longo da história da salvação, uma das mais frequentes metáforas da relação entre Deus e a humanidade; ou para com o lugar do tálamo, desvirtuado, tantas vezes, por infidelidades e violências, sem que tal tenha obstruído a que Cristo pensasse a sua relação com a Igreja como a de um Esposo com a sua Esposa.

Não mereceu igual ‘oportunidade’ o jogo, porém. Uma rápida procura pelos textos bíblicos permitir-nos-á verificar que é palavra ausente da terminologia sagrada. ‘Jogar’ parece não fazer parte da relação entre Deus e o homem. Talvez disso já se tivesse apercebido o judeu (de nascimento) Einstein, ao reconhecer que ‘Deus não joga aos dados’. (Não era a isto que se referia, bem certo, mas à natureza ‘determinística’ e não aleatória da realidade, mas não deixa de ser interessante recordá-lo, nesta circunstância!)

Mas não será de se dar ‘nova oportunidade’ ao jogo?

O fundador do escutismo, Baden-Powell, percebeu-o, no já distante 1907, ao conferir ao jogo uma condição central na pedagogia do movimento por si fundado nessa altura.

Diz a história da recuperação dos jogos olímpicos que o próprio Pierre de Coubertin, que estudou num colégio jesuíta, se inspirou num livro escrito pelo padre dominicano e pedagogo Thomas Arnold para a criação dos jogos olímpicos da era moderna. Percebera o papel do desporto no desenvolvimento da pessoa e na sua integração na vida em sociedade e na compreensão de si mesma. 1500 anos depois, seria pela via da influência cristã que se recuperaria uma longa omissão da história (é preciso, bem certo, compreender a conotação que os jogos olímpicos tinham quando Teodósio os extinguiu, no século IV, sendo associados ao paganismo e ao culto idolátrico e politeísta. As circunstâncias político-sociais ajudam a compreender a determinação em pôr fim ao que simbolizava um passado de que se pretendia partir…).

Constatada, então, a utilidade e nunca suficiente tarefa de recuperar-se dessa história de desconfiança, ousemos fazemos uma ‘ludologia’, uma abordagem do jogo a partir da natureza que dele pode colher-se para a compreensão do humano mais profundo.

A procura do que define o humano e do que o distingue dos demais seres, em particular, dos animais, está, hoje, envolvida em enormes ambiguidades.

Recordo, porém, sempre, quando esta é a matéria em discussão, a constatação de Chesterton: ‘Aquilo que tem de ser explicado não é a semelhança, é a monstruosa escala da dissemelhança. Que o homem é parecido com os animais é, em certo sentido, um truísmo; mas que, sendo tão parecidos, eles sejam tão inconcebivelmente diferentes, isso é que é um choque e um enigma’. (Ortodoxia, Alêtheia, 2008, p. 205)

E, na minha perspetiva, se tivermos de procurar o que, de facto, nos distingue, teremos de o encontrar no que há de comum à sua capacidade de criar linguagem, de partir em busca do eterno, de ousar perdoar, de chorar diante de uma foto ou, simplesmente, de um nome, de criar um ritual e de o repetir, sucessivamente, com significado e comoção.

Entre todas estas ações, há algo em comum: a capacidade de ‘representar’ o ausente. A essa capacidade, que consiste em unir duas partes – uma ausente que se torna presente em algo distinto -, damos o nome de ‘simbologia’ ou, melhor, ao ‘algo’ que torna presente uma realidade ausente chamamos ‘símbolo’. Devemos esta palavra ao grego que, com o verbo ‘simballein’ (sün+ballein), quer dizer ‘lançar junto, em conjunto’, expressando a ideia de unir duas partes que estavam separadas. Curiosamente, o oposto é o verbo ‘dia+ballein’ (que exprime a ideia contrária de ‘atirar em separado’, ‘cindir o que está unido’ (‘quebrar o que está junto’), que deu, em português, o termo ‘diabo’.

Ora, o jogo é, pela sua natureza, uma representação. Torna presente uma realidade ausente. Representa a violência, através de ‘rituais’ que não são violência em si mesmos.

Recordo bem as palavras de um nosso selecionador, Luís Felipe Scolari, quando, no emotivo ‘Euro 2004’, se referia às fases de eliminatórias como sendo de ‘mata-mata’.

No futebol, pode dizer-se que há ‘mata-mata’, pois a ‘morte’ do adversário é puramente simbólica, isto é, está presente mas ausente; ou, melhor, está ausente mas presente, simbolicamente, apenas. O golo que derrota o adversário é ‘como’ lança cravada no seu peito. Mas não lhe é letal. No final, podemos abraçar-nos e ‘beber um copo juntos’.

É esse o poder do símbolo.

É esse o poder do jogo, enquanto realidade criada, única e singularmente, pelos seres humanos.

E é por isso, também, que, quando a violência deixa de ser simbólica e passa a real, o jogo deixa de o ser. (Aliás, confesso que sou um defensor de que não têm natureza de jogo aquelas modalidades em que o objetivo é deixar KO o adversário. A realidade representada deixa de ser re-presentada para passar a ser real. O símbolo extingue-se pela confusão entre o representante e o representado…)

Entusiasmados com estes rudimentos de ludologia, poderíamos arriscar pedir aos homens do poder que sonhem o mundo como um grande jogo e procurem resolver, num real tabuleiro de xadrez, os problemas de território ou de domínio. Se, afinal, ganhar uma guerra é uma questão de estratégia, melhor será o político que mantiver protegido o seu rei do xeque-mate adversário! E com muito menos custos de vidas humanas. Os peões tombados, que ladeiam o tabuleiro, podem voltar a erguer-se para novo jogo, em sucessivas batalhas e xeques-mates.

Não poderá erguer-se, porém, do campo real de batalha, cada soldado tombado e chorado. Porque a guerra não é um jogo!

E ao pó hás-de voltar… Não às cinzas estéreis e anónimas.

  Há uma sabedoria profunda, verdadeiramente divina, no ato de inumar o ‘corpo’ morto, de o devolver ao regaço adâmico de que proveio. Mas u...