sábado, março 07, 2026

Sabes, leitor... | 27 | Marca de água do livro 'Woke fizemos?'

 

Rubrica ‘Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página’** | Marca de água de livros que deixam marcas profundas
Parceria: Federação Portuguesa pela Vida e Comissão Diocesana da Cultura

Luís Manuel Pereira da Silva*




O(s) autor(es) e a obra
Teresa Nogueira PINTO e Miguel CÔRTE-REAL (COORD.), Woke fizemos? Anatomia de um totalitarismo suave, Alfragide, Oficina do Livro, 2025.

‘Woke fizemos?’ é uma obra plural. Tal como a interrogação do título. Coordenada por Teresa Nogueira Pinto e Miguel Côrte-Real, reúne dezasseis ensaios de grande diversidade de estilos e de modos de leitura, correspondendo, aliás, à diversidade dos próprios autores: Professores de filosofia, historiador, de teoria política, arquitetos, cientistas políticos, criadores de fotografia e vídeo, jornalistas e críticos de cinema, sociólogos, advogados, analistas políticos, assegurando ao leitor um autêntico caleidoscópico da realidade do wokismo nas sociedades atuais.

Já em momento anterior desta rubrica analisei um livro sobre o ‘wokismo’, cuja leitura recomendo como complemento desta. Estou, aliás, convencido de que há um antes e um depois desse livro – ‘a religião woke’, de F. Braunstein –, por provir de um autor insuspeito (descrente e identificado como de esquerda). O seu aparecimento tornou mais tranquilo o reconhecimento de que estávamos, efetivamente, perante um problema que atravessa a sociedade, de um ao outro lado do espetro político. Dessa mesma consciência nos dão conta os próprios autores destoutro livro que, agora, apresento. Um deles afirma, mesmo: ‘desengane-se quem pensa que se trata de um combate ideológico restrito aos segmentos da direita: é um combate que pertence a toda a sociedade civil que renuncia a viver sob o jugo woke.’ (Gonçalo Nabeiro, p. 221)

Pela diversidade complementar de leituras, e superada a dúvida de esta fosse uma matéria merecedora da preocupação de apenas alguns, este livro torna-se, pela oportunidade e multiplicidade de abordagens, de visita recomendável, para que se perceba como nasceu e como chegou até nós essa tão implantada lente ocular com que, hoje, vemos, despertos (‘woke’ – estar acordado), o mundo.

Marcas de água 

(o que fica depois de se deixar o livro)

Este livro serve, precisamente pela multiplicidade de âmbitos de que provêm os autores dos ensaios, multiplicidade que se repercute nos terrenos em que analisam a presença da cultura woke, para se perceber, com assombro, como esse ‘modus cogitandi’ (modo de pensar) se entranhou, profundamente, na cultura atual, tornando difícil o distanciamento crítico. Do cinema às artes visuais, da literatura à filosofia, do humor à sexualidade, das relações políticas às relações mais individualmente consideradas, o wokismo chegou e entrou como suave ‘perfume’ que inebria. A ideia a que alude o subtítulo ‘anatomia de um totalitarismo suave’ permite-nos revisitar a história da rã que, colocada em recipiente de água, é cozinhada, progressivamente, sem de tal se dar conta. Desse mesmo modo, o wokismo, tantas vezes recusado pelos que dele recolhem dividendos, anestesia, sob a capa de uma genuína simpatia (Como não repudiar a injustiça? A discriminação? O racismo? A desigualdade?), criando, na sociedade, uma lógica que repercute a forma mentis (a estrutura da mente) marxista que tudo reduz a luta de classes, agora reconfigurada.

E fá-lo de um modo particularmente eficaz: não só critica e denuncia como, prontamente, criminaliza toda a oposição, transformando em pensamento único o modo de chegar à meta da injustiça, fazendo supor que um só é o caminho para chegar à justiça.

Soma-lhe, ainda, uma outra estratégia, genialmente recordada no celebérrimo 1984 de George Orwell: ‘quem controla o passado, controla o presente’, pelo que, para promover o seu caminho, manipula a história, revisitando-a como lugar de exploradores e explorados, sem lugar possível para um qualquer ‘encontro de culturas’ ou de ‘povos’.

O wokismo propõe-se despertar o mundo de um suposto adormecimento para a congénita injustiça do mundo, mesmo que de tal não se sinta participante aquele a quem se atribuem as funções de explorador e explorado. Mesmo que não seja explorador aquele sobre quem recai tal ‘preconceito’; ou ‘explorado’ aquele que se propõem libertar.

Por efeito da chamada teoria crítica, caldo em que germinou este modus cogitandi, a realidade deixa de ser tomada na sua objetividade por a ela sempre se estar impossibilitado de aceder, num registo pós-moderno que recusa a «verdade objetiva». O corpo, ele mesmo realidade objetivamente considerada pelos ‘não-wokes’, é, agora, dispensável da consideração da identidade, sendo platonicamente relegado para a condição de entrave à realização individual. O sexo é, assim, substituído pelo conceito de ‘género’, termo que visibiliza a ideia de que a identidade sexual individual depende do próprio sujeito e do seu reconhecimento, isolando num solipsismo máximo o indivíduo a que os restantes só podem aceder por autorização deste.

Tudo se torna diluído, líquido (para evocar o pensamento de Zigmunt Bauman), sem suporte real, reduzido que está à perceção individual. O indivíduo, no wokismo, é a medida de todas as coisas (coisas já sem substância nem consistência, pois totalmente dependentes do sujeito).

Perante o sufoco que uma tal abordagem gera em quem se detém a pensar nestas matérias, o livro deixa inúmeros sinais de que a procela possa estar a iniciar a dissipação. Mas muito há a fazer, em particular, no que respeita ao dever de se manter em estado de vigília e vigilância. É que, ironicamente, o wokismo nasceu de um torpor e adormecimento de que se aproveitou para se implantar, em nome de ser um despertador. Agora, começamos a esticar os braços e a espreguiçar-nos, mas ainda só estamos na aurora…

 

Na mesma página que o autor (citações)

‘O wokismo é […] um totalitarismo suave: pretende educar consciências, corrigir a linguagem, restringir o debate e condicionar comportamentos. Não promete amanhãs que cantam, mas dedica-se à reinvenção do passado com o mesmo zelo com que regula o presente. É sinal de um tempo de crise intelectual e moral, sintoma de uma época de angústias e, quiçá, prenúncio do fim de um ciclo.’ (Nogueira Pinto, Prefácio, p. 9)

‘A partir da influência da Teoria Crítica, a abordagem da questão colonial deixará de se nortear paulatinamente por uma abordagem histórica interessada em documentos e factos. Ela será conduzida doravante pela ideia arraigada de que o mundo se divide na confrontação entre opressor e vítima, havendo sempre dois discursos, duas narrativas, que expressam a relação conflitual. Por um lado, há o discurso do colonizador, falando de uma modernidade triunfante, de um pensamento universal, do progresso da ciência e das conquistas do conhecimento, do descobrimento da América, do «encontro de culturas e de uma humanidade reunida em torno de «valores universais». Por outro, o pressuposto discurso do colonizado: um discurso que, focado na vítima como conceito fundamental, denuncia a vontade de poder subjacente à modernidade como o seu lado obscuro. Este seria o discurso que, negando a perspetiva do colonizador europeu, compreenderia que a relação entre opressor e vítima não cessaria, na medida em que é o próprio colono que, pela sua simples presença e existência, subordinando-a, faz (ou inventa) a sua vítima.’ (Alexandre Franco de Sá, p. 54)

‘A pergunta de James H. Sweet [Is History History?] também se ajusta ao que se passa em Portugal, onde há uma torrente de gente woke, levas sucessivas de alunos e professores que as universidades, na área das ciências sociais e humanas, constantemente formam e deformam. É, tanto quanto posso avaliar, gente profundamente crente nos dogmas do pós-modernismo e motivada para a militância (e vigilância) woke contra aquilo a que chamam História feita à moda antiga, isto é, História positivista. Há, por isso, fortes razões para temer que, sem uma reacção da parte sã da sociedade, a acção deletéria destas pessoas e concepções provocará um abalo irremediável no cerne da investigação historiográfica, isto é, na busca da verdade e no respeito pelo rigor.’ (João Pedro Marques, p. 82)

‘[O] que é ensinado nas universidades, em particular no contexto anglo-americano [é] marcado pelo que Alexandre Franco de Sá chama «militantes intelectuais». Essa abordagem académica baseia-se nas ideias popularizadas no final da década de 1960, promovendo currículos desenhados a partir dos três argumentos seguintes:

- argumento identitário: a convicção de que a forma como vemos, interpretamos e conhecemos o mundo depende da nossa identidade (sexual, racial, etc.), pelo que não é possível falar de um mundo comum e objectivo que esteja para lá da nossa identidade;

- argumento das dinâmicas de poder: a convicção, inspirada no pensamento marxista, de que as dinâmicas sociais se traduzem sempre em dinâmicas de poder, pelo que aquelas identidades estão em permanente tensão e conflito para deverem e exercerem o poder;

- argumento activista: a convicção de que o privado é político, pelo que em todas as dimensões da nossa vida devemos estar conscientes da nossa identidade e do modo como ela resulta de uma situação de privilégio ou de opressão, para podermos agir sobre o mundo e transformar essas relações de poder.

A partir destes três pressupostos, generalizou-se no mundo académico anglo-americano um sentimento de desprezo perante os valores ocidentais tradicionais, entendidos como mero resultado de opressão da identidade branca (privilégio branco), em particular do homem branco (patriarcado branco), visando subordinar e oprimis as restantes identidades (negros, BIPOC, o Sul Global) para manter o seu poder e o seu privilégio. Este etno-masoquismo não é um sentimento generalizado na população: nasceu nas elites universitárias, mas tem vindo a aumentar a sua influência em resultado do crescente número de estudantes no ensino superior. É, por isso, um aspeto fundamental para compreender as divisões sociais actuais e os resultados políticos que surpreendem as elites políticas e intelectuais.’ (Patrícia Fernandes, pp. 90-91)

‘A partir do momento em que a busca da verdade passou a ser uma ideologia, não existem currículos ideologicamente neutros. Neste sentido, o embate educativo é ideológico.

Temos assistido a uma redução do assunto educativo artístico à visualidade que pretende expandir o olhar humano para aquilo que se pode ver e ser visto e que visa ampliar os temos da arte o restrito objecto de estudo que esta convoca, mas levanta questões que merecem uma tenta discussão sobretudo dentro de uma matriz cristã. Essa conformação à estrita visualidade das coisas deixa-nos susceptíveis à hiperimagem da abundância. É preciso ver menos para ver mais. […] Temos de nos recentrar na visualidade cristã do mundo. Uma visualidade intelectiva que vai muito para além daquilo que podemos ver e tocar. Voltar a ensinar a grande arte, o grande gosto e a grande cultura, que nos remeta para o significado original dessas criações artísticas. Mais do que destrezas e manualidades, a educação artística permite-nos a formulação de perguntas e mergulhar na profundidade do mistério humano.’ (Ricardo Roque Martins, pp. 123-124)

‘[…] a luta cultural preconizada pela Teoria Crítica é uma luta contra a biologia e que começa por atacar o próprio facto da sexualidade binária, sugerindo que a identidade sexual deve ser definida de forma mais diversa e fluída, desligada do corpo. É como se cada indivíduo tivesse simultaneamente potencialidades femininas e masculinas dentro de si, à espera de brotar, e a definição da sua identidade sexual fosse um processo de descoberta gradual, criativo e pretensamente livre de pressões normativas. Nessa linha, o corpo é entendido como uma prisão que pode ser um fardo por diferentes motivos. Especialmente para a mulher, no entendimento da maior parte das feministas, o maior fardo que o corpo lhes impõe é a potencialidade da gravidez, pois limita as suas possibilidades práticas durante, no mínimo, o longo período de gestação, e porque pode colidir com outros projectos pessoais, de ascensão profissional e com a plena possibilidades de gozo de cada momento.’ (Daniela Silva, p. 137)

‘Para Yoram Hazoni, o wokismo pegou nos conceitos marxistas de luta e exploração de classes e transferiu essa dialéctica, ou os polos dessa dialéctica – explorador-explorado, burguesia-proletariado -, para outras dicotomias. Assim, ali onde os marxistas-leninistas opunham as classes económico-sociais em guerra, os wokistas deixavam a imaginação dicotómica à solta, conforme as conveniências e a urgência da luta: «supremacias brancas versus povos racializados», «patriarcado versus mulheres», «heterossexuais cisgénero versus LGBTQ+» (Feser, 2023).’ (Jaime Nogueira Pinto, p. 151)

‘Questionar o movimento woke não é sinónimo de considerar que não existem oprimidos e opressores. Existem e sempre existirão. A forma de encarar tal equação é que será discutível e contestável. E neste caso, a condição de ressentimento que domina a cultura woke, como afilhada de um marxismo ressuscitado, alimenta uma visão bipolar e extrema, assente num malabarismo argumentativo que põe em causa a sabedoria popular, o que acaba por lhe retirar aprovação e adesão e, por consequência, angariar oposição e resistência. O pensamento woke é irrefutavelmente um pensamento que toma o niilismo no lugar da esperança, o relativismo no lugar do universalismo, e porventura é incompatível com a experiência humana.’ (João Pedro Marnoto, p. 188)

‘À falta de um contraponto à altura e na proporção ao nível da produção, só podemos contar, para inverter a tendência, com uma gradual reacção do público por cansaço ou overdose de doutrinação; com acções cívicas de protesto, oposição e boicote, como estão já a acontecer nos EUA por parte de grupos de cidadãos e de associações de pais e famílias, particularmente contra a wokíssima Disney; e com mudanças no mercado, ou seja, por quedas ou declínio das audiências e dos resultados comerciais, que se reflectirão no bolso de quem de direito e levarão eventualmente a um atenuar do conteúdo woke nas séries de televisão e streaming, ou mesmo a uma inversão radical do rumo. Se, como notou um analista do meio, «a indústria das imagens em movimento segue o som do dinheiro», talvez seja por aí que a maré do wokismo na ficção televisiva e em streaming possa começar a mudar.’ (Eurico de Barros, pp. 197-198)

‘A Ideia de que se pode combater injustiças e totalitarismos usando o humor é comprovadamente uma ideia da mais ternurenta inocência – e ignorância histórica e política. Os cabarés alemães nos anos de 1920 e 1930 eram bastante conhecidos pelas actuações de comediantes – e não evitaram o nazismo. As piadas soviéticas eram popularíssimas – e não evitaram o estalinismo. Henrique VIII tinha um bobo – que não evitou nenhuma decapitação. O humor pode servir para mostrar iniquidades, injustiças, desigualdades, vaidades e delírios. É habitual dizer-se que quando um sábio aponta para a Lua, o tolo olha-lhe para o dedo. É importante haver quem tenha essa vontade de olhar para o dedo do sábio, à procura de detalhes que outros não viam enquanto olhavam para a Lua. Mas daí a considerar que o papel do comediante é cortar o dedo do sábio, quando este discorda do tolo, ou tapar os olhos do tolo, quando se santifica o sábio, é um passo que muitos julgávamos não vir a presenciar neste século XXI.’ (Nuno Amaral Jerónimo, p. 206)

‘[…] desengane-se quem pensa que se trata de um combate ideológico restrito aos segmentos da direita: é um combate que pertence a toda a sociedade civil que renuncia a viver sob o jugo woke.

Após um período de descrença e de um certo declinismo – sentimentos, por sinal, compreensíveis e justificados -, há motivos para acreditar no reaparecimento do senso comum e na restauração da matriz cultural que nos define enquanto sociedade ocidental. Uma sociedade orientada para a liberdade, para o desenvolvimento e para as relações de respeito mútuo entre indivíduos, cientes dos seus direitos e deveres para que possam dar à comunidade aquilo que dela esperam.’ (Gonçalo Nabeiro, p. 221)

Para a difusão e enraizamento destas ideias perniciosas para a subsistência do Ocidente civilizado que conhecemos, foi condição necessária a substituição do primado do intelecto, próprio da filosofia clássica, pelo primado da vontade, que caracteriza a filosofia moderna. Mas isso não seria suficiente para que o wokismo vingasse como tem vindado: foi também preciso que houvesse fautores investidos em provocar o esmorecimento moral e civilizacional do Ocidente e idiotas úteis, disponíveis para colaborar no processo. Os últimos são conhecidos e estão aí: nas televisões e nos jornais, nos parlamentos e nos governos, nas ruas e nas redes sociais. Os primeiros são mais difíceis de descodificar, identificar ou mesmo revelar.’ (José Diogo Marques, p.226)

‘Não é para mim uma coincidência que os movimentos anti-woke estejam localizados, politicamente, junto da mesma direita que defende o fim da globalização globalista e o retorno da produção (que é o mesmo que dizer das empresas) às comunidades locais. Só o enraizamento do capitalismo nas comunidades locais permite verdadeiramente aproximar os gestores dos accionistas, reactivar o sentimento de pertença dos trabalhadores a um corpo, eliminando a relação distante que é inerente ao contrato de trabalho hiperliberal, e recuperar a noção de propriedade privada. Enquanto isso não acontecer, o líder-gestor-especialista continuará a impor à comunidade que serve […] aquilo que imagina como sendo o melhor para a comunidade, mesmo que a comunidade imagine o contrário. E, por isso, pelo menos no curto prazo, «DEI will not die».’ (José Bento da Silva, p. 272)

 

‘Para proteger a identidade de género, tudo é permitido. Inclusivamente, violar a consciência dos atletas, como no caso dos profissionais de futebol da Liga francesa, ou então, expor desportistas a formas de competição profundamente injustas, em que nunca conseguirão partir em pé de igualdade, como no caso da natação nos Estados Unidos. Pior do que isso, se necessário, expõe as mulheres a uma violência absolutamente inaceitável, como a de partilhar um balneário ou uma casa de banho com uma pessoa transgénero. […] A vitória woke é o triunfo dos derrotados que conseguem impor a sua derrota, perseguindo até às últimas consequências quem não quer ser derrotado como eles. Um acto de resistência à derrota tornou-se um passo para a conquista. A superação e a resiliência são características imprescindíveis para um desportista, e é tudo o que o wokismo pretende esmagar. Não podemos permitir.’ (José Maria Matias, p. 290.293)

‘Antes, não havia eleitores bons ou maus, esclarecidos ou equivocados. Havia eleitores, donos do seu voto, que os news media, por convicção ou comércio, respeitavam sem condições. Hoje, tal respeito, nas noites eleitorais e nos períodos intermédios, é uma memória remota e um anacronismo. Por convicção e por comércio.’ (Alberto Gonçalves, p. 303)

‘O caso Rocco Buttiglione ilustra como, numa primeira fase, as causas fracturantes se tornaram dominantes independentemente do apoio que essas mesmas causas colhiam na sociedade: as maiorias comportavam-se como derrotadas, os seus líderes optaram por centrar o seu discurso nas questões económicas e deixaram às minorias as questões de sociedade e culturais. […] Suprema ironia: enquanto destruía o centro-esquerda, o wokismo gerava o alargamento e a transformação da direita. Esta ganhou eleitores, mas olha-se ao espelho e não gosta do que vê. Não era assim que esperava ser. Mas vai ter de aprender a viver com isso porque na política nunca se volta ao que se foi.

Podia não ter sido assim? Precisamos de acreditar que sim, quanto mais não seja para continuarmos a acreditar que amanhã será diferente.’ (Helena Matos, pp. 320.327)

‘As ideias woke (como todas as ideias perversas) fizeram um caminho fácil de rastrear: pensadas na academia com base na interpretação enviesada dos fenómenos e realidades sociais, foram difundidas e até implementadas por ONG e movimentos que, ao nível local, promoviam, punham em prática e monitorização a implantação das mesmas. Massificadas pela comunicação social com base nos relatórios, casos e casinhos que as organizações de militância identificavam, chegam ao poder político depois de anos de sensibilização da opinião pública, que pressiona os políticos, dependentes/sedentos de votos, a adaptar o seu discurso e trabalho às novas reivindicações. […] É muito cedo para gritarmos que o wokismo morreu. Quem o faz, encara este tema com demasiada leviandade, sem perceber que este movimento foi até ao detalhe mais banal da nossa vida.’ (Rita Matias, pp. 332.346)

 


**(Título retirado de Daniel Faria, Dos líquidos, Porto, Edição Fundação Manuel Leão, 2000, p. 137)

*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Ensaios de liberdade', 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'

Foto recolhida da Leya online

Sabes, leitor... | 27 | Marca de água do livro 'Woke fizemos?'

  Rubrica ‘Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página’** | Marca de água de livros que deixam marcas profundas Parceria: Federação Po...