quarta-feira, fevereiro 07, 2024

Sabes, leitor... | 1 | Marca de água do livro de Johannes Hartl, 'La cultura del Edén'

 

Rubrica ‘Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página’** | Marca de água de livros que deixam marcas profundas
Parceria: Federação Portuguesa pela Vida e Comissão Diocesana da Cultura
O autor e a obra
Johannes Hartl, La cultura del Edén: ecologia del corazón para un nuevo mañana, Madrid, Ediciones Rialp, 2023.

Johannes Hartl [1979-…] é um filósofo e teólogo alemão, requisitado um pouco por todo o mundo para proferir conferências. Infelizmente, constata-se ser um ilustre desconhecido em Portugal. É autor de ‘Deus indomável’, ‘Fogo no meu coração’, etc., obras ainda não traduzidas em Portugal. Eu próprio só muito recentemente conheci este autor. Este livro foi-me apresentado pelos padres da Arquidiocese de Colónia que acolhemos, na comunidade de Santiago de Beduído, nos dias nas dioceses, tempo preparatório da JMJ|Lisboa 2023.

 

Marcas de água (o que fica, depois de se deixar o livro)

O livro A cultura do Éden deixa em quem o lê um sabor a esperança, diante dos enormes desafios de um mundo que anseia pelo Éden, mas que parece afastar-se constantemente de se encaminhar para ele. O autor enfrenta algumas das mais desafiantes questões da atualidade, com muita lógica, argumentação e sempre confirmada documentação. Os desafios colocados à família, à antropologia de pendor personalista, são encarados como interpelações diante das quais cabe perceber onde estão os equívocos e dar-lhes adequada resposta e proposta. O autor não teme, nunca, estar em contracorrente, certo da valia dos seus argumentos.

Um livro a ter por perto, não como manual de receitas, mas como guia para condução em situações de denso nevoeiro.

A ideia fundamental deste livro decorre do desenvolvimento do axioma central de que uma vida realizada está assente em três pilares: vínculo, sentido e beleza.

O autor não se basta em argumentar, de forma racional (ainda que tal já não fosse pouco e o autor não o dispense, quando necessário) e abstrata, a importância de cada uma destas condições (necessárias). Evidencia-o, repercutindo estudos devidamente identificados que confirmam a sua leitura.

Assim, no que concerne à condição ‘sentido’, entre outras confirmações, o autor recorda que Estudos realizados por Aliya Alimujian e Ashley Wiensch, publicados, em 2019, no Jama network open, concluem que 'as pessoas que consideram que a sua vida tem sentido têm duas vezes e meia menos probabilidades de sofrer derrames cerebrais e enfartes.' (p.195).

No que se refere à condição ‘vínculo’, Este autor recorda, nas páginas 90 e 91, dois estudos de 2019 que evidenciam que os adolescentes sem vínculo sólido ao pai custam ao Estado em média cerca de 15 mil euros, muito mais do que os 1450 que custa um adolescente com vínculo seguro ao pai. Autores desses estudos: Christian bachmann, jennifer beecham e thomas o'connor.

Por fim, ao refletir sobre a beleza, não deixa de recordar como esta serviu, na Albânia contemporânea, para diminuir a criminalidade, quando Edi Rama chegou a presidente da capital, Tirana, e decidiu empreender uma densa obra de requalificação e embelezamento que se repercutiu na diminuição da delinquência, pela via da arquitetura e da criação de parques verdes e com presença de arte. (p. 329)

 

Na mesma página que o autor (citações)

 

“Só os seres humanos se interessam com a morte, só os seres humanos são religiosos.” (p. 38)

“O amor é o mais importante da vida. A desvinculação faz com que se adoeça.” (p. 58)

“Uma análise de 2010 dos dados de mais de catorze mil estudantes universitários dos últimos trinta anos mostra que, desde o ano de 2000, os jovens evidenciaram uma drástica descida do seu interesse pelas outras pessoas. […]” (Nota 29, p. 68)

“O vínculo, e não a luta pela sobrevivência, é a força motriz.” (p. 73)

“Numerosos estudos demonstram o que sempre se soube intuitivamente: os homens criam as crianças de modo diferente das mulheres e uma criança necessita tanto de um pai como de uma mãe.” (p. 78)

“O vínculo com a mãe e o vínculo com o pai são diferentes: ambos têm efeitos extremamente duradouros e bem diferentes. […] A separação dos pais tem um efeito tão grande em 43% das crianças que o seu mundo interior se desmorona.” (p. 79)

“Uma sociedade não é mais do que uma grande rede de relações.” (p. 89)

“Os estudos demonstram que a exclusão social dói ao nível cerebral tanto como a dor física.” (p. 98)

“O cultor do corpo é uma tendência que infelizmente tem muito futuro. O melhoramento humano será a etapa seguinte. No futuro, as componentes manométricas, a estimulação seletiva de determinadas zonas do cérebro e a manipulação genética molecular farão com que as pessoas sejam mais rápidas, mais bem-sucedidas, mais sãs e perfeitas. No entanto, o coração humano nutre-se dos vínculos. Por isso, tratar a vergonha e o perfecionismo é uma questão chave para o futuro. As pessoas que puderem criar uma proximidade profunda e vulnerável consigo mesmas e com as demais terão um tesouro que será cada vez mais pretendido.” (p. 100)

“Os seres humanos podem viver uma vida emocionalmente sã sem sexo, mas não sem proximidade física. O tato sensível não sexual chama-se sensualidade.” (p. 121)

“O eu não só tem um corpo, o eu é um corpo.” (p. 121)

“Necessitamos de uma revolução da sensualidade. Porque a conexão com o nosso corpo e o contacto sensível com os demais é o que nenhuma inteligência artificial poderá proporcionar nunca.” (P. 122)

“Segundo [Viktor] Frankl, a busca de sentido é a principal motivação de uma pessoa na vida.” (p. 168)

“Sem sentido, a vida humana é inumana.” (P. 170)

“Fazer sempre o que é agradável é o caminho seguro para uma vida sem sentido.” (p. 173)

“Sempre que o homem se encarrega de definir o bem e o mal com a sua própria autoridade, torna-se perigoso. Sempre que o homem começa a tergiversar a verdade, torna-se mortal. Porque nada destrói mais o sentido do que a mentira.” (p. 182)

“O sentido não se constrói, mas sim encontra-se.” (p. 215)

“O sentido também tem que ver com o facto de que uma pessoa sinta o que é correto fazer. O sentido não só tem que ver com o próprio eu, mas também com a constatação de que algo representa um valor em si mesmo que me obriga a viver de acordo com isso.” (p. 216)

“[…] continua a ser verdade que são as coisas belas que resistem à passagem do tempo.” (p. 267)

“A beleza é um lugar do qual não queres sair.” (P. 275)

“O que só se cria para uma função, tarde ou cedo se torna obsoleto.” (p. 299)

“Só quando aprendermos a ver algo profundamente digno no pobre, em quem sofre, no incapacitado, no não nascido e no moribundo, sentiremos o nosso próprio e inquebrantável valor como seres humanos.” (p. 339)

“Amar uma pessoa significa amá-la pelo que é. Como uma unidade de corpo, mente e alma.” (p. 342)

“Quanto menos sabe uma pessoa quem é, de mais coisas necessita, segundo Fromm.” (p. 364)

“Enquanto a humanidade investiga a IA e os robôs, cresce paralelamente o anseio de um futuro que continue sendo humano.” (p. 375)


**Título retirado de Daniel Faria, Dos líquidos, Porto, Edição Fundação Manuel Leão, 2000, p. 137

*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de 'Ensaios de liberdade', 'Bem-nascido... Mal-nascido... Do 'filho perfeito" ao filho humano' e de 'Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg'

Jubileu da Catedral de Aveiro | De 1423 a 2023: 600 anos volvidos, de novo, o desafio da fidelidade a Roma


 (Artigo originalmente publicado na Agência Ecclesia)

Em carta de 23 de setembro de 2022, D. António Moiteiro pediu ao Papa Francisco que concedesse à diocese de Aveiro a ‘graça de um ano jubilar’, por motivos que a história recente evidencia terem adquirido densa atualidade, 600 anos volvidos. Entre 1423 e 2023 estendeu-se, com a celebração deste ano jubilar (de 12 de maio de 2023 a 13 de maio de 2024), uma ponte que os olhos atentos deverão ler. Veremos porquê…

A diocese de Aveiro, com os seus 1537 km2, 101 paróquias e 9 arciprestados (recente reorganização diocesana fundiu os arciprestados de Estarreja e Murtosa), situada entre Avanca (paróquia mais a norte) e Vila Nova de Monsarros (mais a sul), desde a Costa Nova do Prado (a ocidente) até Macieira de Alcoba (mais interior), é uma das mais pequenas dioceses do país (só Setúbal apresenta menor área, com os seus 1500 Km2).

A história desta diocese conta-se em dois tempos: entre 1774 e 1882 e depois de 1938.

Na sua primeira fase, após criação, por breve de Clemente XIV, de 12 de abril de 1774 (cumprem-se, neste ano, 250 anos), esta diocese foi governada por três bispos (D. António Gameiro de Sousa, D. António José Cordeiro e D. Manuel Pacheco de Resende, tendo vivido, após a morte do terceiro, em 1837, um período em que passou por uma ‘espécie’ de cisma, resolvido, definitivamente, em 1841, com decisão do Papa Gregório XVI de entrega da administração desta diocese ao Arcebispo de Braga, que passou a nomear vigários-gerais, até à extinção, em 1882, por decisão de Leão XIII. Entre estes vigários-gerais, alguns vieram a ser ordenados bispos, merecendo destaque os dois últimos, D. Manuel Baptista da Cunha, mais tarde arcebispo de Braga, e D. António Mendes Belo, último vigário geral, mais tarde Bispo de Faro e, finalmente, Patriarca de Lisboa, no difícil período da implantação da República. (Das gentes de Aveiro saíram pastores para muitas das dioceses de aquém e além mar: para Évora: D. Manuel Trindade Salgueiro; para Beja: D. Manuel dos Santos Rocha; para Coimbra: D. frei Francisco Fernandes Rendeiro; para Quelimane, Moçambique: D. Francisco Nunes Teixeira; para Braga: D. Francisco Maria da Silva; para o Porto e Viana do Castelo: D. Júlio Tavares Rebimbas; para a Guarda: D. António dos Santos, etc. Monsenhor João Gonçalves Gaspar, da Academia Portuguesa da História, identifica, no seu livro ‘Diocese de Aveiro: subsídios para a sua história’, um total de 26 diocesanos de Aveiro que chegaram ao episcopado.)

Na segunda fase, depois da restauração, em 1938, contou com seis destacados Bispos: D. João Evangelista de Lima Vidal – também primeiro de Vila Real -, D. Domingos da Apresentação Fernandes, D. Manuel de Almeida Trindade – que foi padre conciliar -, D. António Baltasar Marcelino, D. António Francisco dos Santos [depois, Bispo do Porto] e D. António Manuel Moiteiro Ramos [anteriormente, auxiliar de Braga].

Na primeira fase da história da diocese de Aveiro, a função de catedral fora assumida, sucessivamente, pela Igreja da Misericórdia, onde repousam os restos mortais dos dois primeiros bispos, e pela Igreja do ‘recolhimento de S. Bernardino’.

É com a restauração da Diocese, em 24 de agosto de 1938, pelo Papa Pio XI, e a decisão de atribuir a função de catedral a uma outra Igreja (que não as que tinham desempenhado essa função, na primeira fase), que a história adquire particular densidade.

A Catedral de Aveiro está, desde então, sediada na igreja que fora do convento de Nossa Senhora do Pranto ou da Piedade (mas que, para se distinguir do convento de Azeitão, com a mesma invocação, passou a designar-se da ‘Misericórdia’). No século XIX, após a extinção das ordens religiosas, foi-lhe dado o título, em 1835, de ‘Nossa Senhora da Glória’, em homenagem à rainha D. Maria II (de nome ‘Maria da Glória’).

Ora, relevante para a nossa reflexão é recuperar a origem das concessões do Papa a Portugal para a edificação de templos dominicanos, neste período do século XV. Como recorda António José Leandro Costa Ferreira, em ‘Poder, prestígio e imagem no antigo convento de São Domingos de Aveiro’, a criação da província portuguesa da Ordem Dominicana, por decisão do Papa Martinho V, deve-se à fidelidade de Portugal a Roma, no período do cisma do ocidente, que dividiu o mundo de então, durante o período de 1378 a 1417. Castela obedecera a Avinhão. Portugal, a Roma. Martinho V reconhece a fidelidade lusitana e favorece-a com concessões que fazem proliferar pelo território alguns dos mosteiros e conventos que, ainda hoje, evidenciam a importância da presença dominicana em Portugal. Aveiro virá a beneficiar da presença masculina e feminina, cuja relevância será perpetuada pela escolha da sua padroeira, a Princesa Joana, em vir enclausurar-se, em 1472, no Mosteiro de Jesus, mosteiro vizinho daquele sobre o qual se ergue, hoje, a Sé de Aveiro.

Em recordação desta fundação do mosteiro em que se sedia, hoje, a Sé de Aveiro, a diocese vive um ano jubilar. À luz da memória dos jubileus, de que fala o livro do Levítico, celebra ao som do ‘jobel’ a alegria do caminho em comum, num dinamismo que segue um percurso proposto por D. António Moiteiro: celebrar os motivos do jubileu (da alegria), mas conscientes das feridas que atingem a humanidade, tornando-se discípulos que sabem que ‘um discípulo faz outros discípulos’.

Estes tempos de jubileu fazem-se, em terras de Aveiro, percorrendo os nove arciprestados, com música (concertos), peregrinações, catequeses, conferências… Repercutindo o apelo de Francisco à sinodalidade, a diocese de Aveiro constitui-se como sinal de comunidade que faz caminho em conjunto, recordando que fora, ela mesma, pioneira, ao realizar, ainda em 1944, o seu primeiro sínodo, concretizando, entre 1990 e 1995, um segundo sínodo, e, em 2003-2004, uma caminhada sinodal dedicada à juventude. Os tempos interpelam a que ‘nos façamos ao largo’. As gentes de Aveiro sabem-no como poucos, porque à soleira das suas portas batem incessantes ondas de mares nem sempre ‘chãos’.

A celebração do Jubileu da Catedral de Aveiro poderia afigurar-se como uma simples e remota evocação de memória passada, mas a simbologia a ele associada evidencia que o edifício cujas raízes se evocam se constitui, ele mesmo, afinal, como símbolo eloquente da fidelidade que, continuamente, Portugal devotou ao sucessor de Pedro.

Nos tempos remotos se iluminam os desafios de hoje…

segunda-feira, janeiro 15, 2024

Regresso a Ítaca no sonho do Éden | Da fiel Penélope à Penélope pós-moderna

               Rubrica 'Regresso a Ítaca no sonho do Éden’

(Artigos publicados na revista Mundo Rural - Acção Católica Rural)


Pela mão de ‘regresso a Ítaca no sonho do Éden’, fizemos, ao longo de dezassete ensaios (este é o décimo oitavo), a ponte entre a cultura clássica e a cristã, estabelecendo laços entre uma e outra, ora para vislumbrar pontos de convergência, ora para identificar a singularidade do cristianismo perante a tragicidade da visão grega.

Fizemos a viagem pela mão de Ulisses, mas com o sonho do Éden, enquanto parábola da condição humana entendida como ‘elástico’ em tensão entre um passado perdido e um futuro desejado.

Entre a cultura clássica e a cultura cristã muito é o que as une, muito é o que as distingue, mas uma nota de convergência é irrefutável: a compreensão do mundo como lugar de manifestação do ‘logos’, da ‘Palavra’, da ‘Verdade’.

O homem da cultura grega e da cultura cristã não é, nunca, apenas um ser de afetos e emoções fúteis e efémeras. A sua busca, ora trágica, ora elpídica (marcada pela esperança), não é, apenas, agorista e pontilhista (feita do ‘agora’ e de ‘pontos’ sem ligação, para evocar pensamento de Stephen Bertman e Zigmunt Bauman). O homem do cristianismo e da cultura clássica não é redutível ao agora. Está numa tensão entre o passado e o futuro, ora pendendo para o primeiro, ora projetando-se para o segundo. Mas nunca fixando-se no presente.

Isso une as duas culturas e, por isso, a marca contemporânea, pós-moderna, traz algo de novo que coloca em crise não só a cultura cristã, mas também os fundamentos da cultura em que se fez a história ocidental. O homem contemporâneo poderá definir-se como ‘pós-moderno’ (Lyotard), hipermoderno (Lipovetsky), ‘líquido’ ou ‘pontilhista’ (Zigmunt Bauman), ‘agorista’ e ‘apressado’ (Stephen Bertman), e entregue à ‘tirania do momento’ (Thomas Hylland Eriksen).

Ilustra, de forma muito interessante, esta crise e esta ‘novidade’, uma canção de Mísia, editada em 1995, com letra de Carlos Tê. O título é ‘Penélope: o engenho da costela’.

Sugiro ao leitor a escuta atenta desta canção, após a qual proponho o regresso a esta apreciação e leitura.

(Deixo, aqui, uma proposta de link de acesso: https://www.youtube.com/watch?v=i5VlP9l8MrU)

O compositor da canção utiliza, em grande parte da música, um modo menor, criando um tom lúgubre e sentido, modo que acompanha a descrição da Penélope que conhecemos da Odisseia. Ela é a mulher de Ulisses que espera, anos a fio, pelo regresso do marido, distante, em Troia, a travar a célebre guerra entre gregos (que ele representa) e troianos (que haviam raptado a bela Helena). Sendo alvo de muitos pretendentes, Penélope assegura-lhes que aceitará entregar-se a um deles quando terminar a peça que tem em mãos no seu tear. Só que não é sua intenção entregar-se-lhes, pelo que, de noite, desfaz o que fizera de dia, tornando interminável a sua ‘obra’.

Penélope constitui-se, assim, como o paradigma da mulher fiel e determinada a permanecer vinculada a um amor eterno.

A versão de Mísia traz, porém, uma novidade tipicamente pós-moderna.

Na sua história, não só Ulisses não regressa a casa, ‘perdido entre as ilhas’ (fazendo uma revisão da história que nos chegou e em que Ulisses se prendera ao mastro do seu barco para poder chegar ao seu destino…), como a própria Penélope desistiu de esperar e parte, ‘sozinha e sem herói’.

O regresso de Ulisses a casa já não é esperado, e, se tal deveria ser motivo de inquietação e incómodo, o autor da canção encarrega-se de nos dizer como é que o ‘pós-moderno’ olha para tudo isto: a música muda de modo (passa a modo maior, fútil e ‘trauliteiro’) e a letra diz-nos que ‘Ulisses está perdido; não tem quem lhe cosa as meias’ (não é já a infidelidade que o incomoda; é a efemeridade das meias rotas…).

Este é o drama do nosso tempo: não ter já noção da dramaticidade da existência.

A tragicidade com que os gregos respondiam foi superada pela esperança cristã, mas em ambas as leituras havia a coragem de enfrentar a verdade da existência: respondia-se-lhe com tragicidade ou com esperança, mas olhava-se, frontalmente, para a condição humana. O pós-moderno, o hipermoderno, parece ter desistido da dramaticidade vital, iludindo-se em viagens sem rumo, alienado e distraído, até que a vida se encarrega de o acordar, talvez já demasiado tarde para ainda se assumir peregrino de um horizonte de realização…

Cabe, por isso, hoje, ao cristianismo o denso desafio de despertar do torpor que adormeceu, coletivamente, a humanidade num remendar de meias rotas, pois de que serve a esperança se não se ruma para lado nenhum e não se está na expectativa de coisa alguma?

segunda-feira, janeiro 08, 2024

Leis de autodeterminação de género | Porquê? Verdadeiramente, porquê? (E, afinal, para quê?)

 

As leis que visam suportar a autodeterminação de género vêm-se multiplicando, numa cadência vertiginosa. Esta vertigem legiferante do nosso parlamento suscita uma interrogação genuína: porquê?

Se é claro, desde logo, que se trata de um tipo de legislação que parte de um pressuposto erróneo – o de que o sexo seja uma realidade atribuída à nascença – como argutamente vêm denunciando os mais atentos analistas;

- se é notório que há um efeito nefasto da criação de legislação deste género no aumento do número de casos de adolescentes e jovens que dizem sentir-se de um género distinto do que a biologia evidencia;

- se é evidente que não pode atribuir-se esta vertigem a uma hipotética urgência (segundo o jornal Público, submeteram-se a mudança de sexo 150 jovens[1], num universo de cerca de 1 milhão e trezentos mil de estudantes[2], representando cerca de 0,01% dos jovens que estão no nosso sistema educativo), a não ser que se admitisse que o parlamento, de quem se esperam leis gerais e abstratas, fosse, agora, lugar de legislação ‘ad hominem’, feitas à medida de cada um, sempre que suficientemente forte para influenciar os legisladores;

- se não pode ficar a dever-se a um qualquer súbito assomo de compaixão do nosso parlamento, o que, a ser verdade, teria de ter sido acompanhado por igualmente vertiginosa legislação sobre, por exemplo, o combate ao aumento do número dos sem-abrigo, ou o aumento do número de abandonos em hospitais de pessoas idosas já com alta ou, ainda, o atalhar contra o facto de Portugal ser um dos países desenvolvidos onde mais se morre nos hospitais, em vez de em casa, etc., etc.,etc…

- Se, mais ainda, se trata de legislação que fecha o indivíduo sobre si mesmo, matando a importância da história de cada um e da memória dos outros sobre ele; [Levado ao extremo, o espírito desta lei matará um dos momentos mais belos da vida humana (e, talvez, mais específicos da nossa condição) que é o que acontece quando dois amigos se reencontram, depois das distâncias do tempo e dos lugares.

-'Pedro!'

- 'Francisco!'

- 'Como mudaste!'

Ou

-'Estás igual!'

- 'O que é feito de ti?'

E bem sabemos a densidade humana que sucede a estas primeiras palavras, bem 'regadas' com profundos e demorados abraços.]

 

- se é, ainda, evidente que é um tipo de legislação que promove, não a inclusão, mas a conflitualidade e o litígio…

Então, porquê esta obsessão, esta vertigem que parece imparável? Porquê?

 

Equívocos, mas muito mais do que equívocos…

Em 29 de setembro de 2022, defendi, no Parlamento[3], em audição realizada no contexto de uma outra discussão (no caso, a eutanásia), que, sendo os deputados pessoas de bem, que visam o bem, porque é que os vemos defender e aprovar leis más?

Defendi, então, que a maioria parlamentar, em muitas destas matérias, está sustentada em equívocos.

Assim será, eventualmente, no caso de muitos deputados, em relação a esta matéria. Mas, a razão do ‘equívoco’ pode não ser suficiente para explicar tamanha vertigem.

Na realidade, se o equívoco de que mudar é, sempre, virtuoso, pode ser altamente determinante para que muitos não queiram perder o comboio de ‘deixarem marca na História’;

- e se o equívoco de que a autodeterminação é absoluta (sem qualquer condicionamento, como se fosse possível haver sujeitos humanos não situados biológica, cultural, linguística, socialmente, etc.) e é um valor absoluto, anterior a tudo o resto, esquecendo que a própria Declaração Universal dos Direitos humanos, no seu primeiro parágrafo do preâmbulo, afirma que, antes da liberdade, está a dignidade humana, como condição de inviolabilidade, se este equívoco pode condicionar muitíssimo e obnubilar quem pensa estar, com leis deste género, a proteger esse ‘pressuposto absoluto’;

- se o equívoco de que seja necessário precipitar a transformação das crianças que se sentem desajustadas do seu corpo pode influenciar a decisão de quem quer o bem daquelas, esquecendo os já numerosos casos de crianças e jovens que se arrependeram, não podendo reverter os processos hormonais a que, entretanto, tinham sido submetidos e o insofismável facto de virem a aumentar os números dos que se sentirão ‘baralhados’ e perdidos (para os que duvidam deste facto confirmado pelos dados estatísticos dos países que já estão a retroceder, sugiro a leitura dos estudos de Stanley Milgram, de Solomon Asch, na década de 50, de Philip Zimbardo, na década de 70[4], de David Simons, na década de 90[5], acerca da atenção seletiva,  que evidenciam a nossa enorme disponibilidade para sermos manipulados e para nos reconfigurarmos por efeito do ambiente e da pressão social envolvente);

- se é certo que há estes e outros equívocos, permanece, porém, a dúvida sobre o alcance de cada um deles, pois pressente-se que algo mais profundo se pretende, passo a passo, de forma progressiva.

 

A intenção que se omite, para além dos equívocos: o fim da família!

Sente-se que as leis escondem mais do que o que dizem e explicitam.

Parecerá (e assim o pretendem vincar os promotores destas leis) excessivo opor-se à questão das casas de banho partilhadas (dirão alguns que é uma questão menor ou que nem sequer é esta) ou à facilidade com que se pretende retirar os filhos aos pais que se opuserem à determinação dos seus infantes em quererem mudar de sexo.

Não só, porém, não será excessivo opor-se ao que já é suficientemente grave na enunciação acima feita, mas também ao que, por esta via, se pretende consolidar.

Ora enfrentemos, então, a interrogação que nos acompanha, implicitamente, desde o início: porquê? Porque é que há toda esta obsessão em legitimar leis que promovem a ‘autodeterminação de género’?

Dêmos a voz aos que defendem esta causa.

Diz Amanda Palha, ativista LGBTQIAPN+, num Seminário Internacional em conferência gravada em vídeo (em algumas partilhas, esta conferência recebeu o título elucidativo de ‘o movimento LGBT e o fim da família’): “Quando dizem para a gente: Ah, o movimento LGBT quer acabar com a família […], a gente entrou numa onda, dos anos 90 para cá, de se colocar numa atitude defensiva de dizer «não», a gente não quer destruir a família nenhuma não. A gente só quer amar… […] Isso é de um retrocesso político violento. […] violenta a história do movimento lgbt. […] Ah, que vocês querem destruir a família. Sim! Queremos!”

O público que o ouve irrompe em aplausos e gritos de entusiasmo…[6]

Não precisaríamos de mais para perceber onde se pretende chegar, ao arrepio, porém, do que é preconizado na declaração universal dos direitos humanos que afirma, no seu artigo 16.º que ‘A família é o elemento natural e fundamental da sociedade e tem direito à proteção desta e do Estado.’[7]

O cruzamento destes dois dados (a afirmação indubitável do objetivo – acabar com a família – e a sua defesa pela Declaração Universal dos Direitos Humanos) terá de nos levar a concluir, no imediato, que há uma contradição entre a afirmação de que tudo isto seja promoção dos direitos humanos quando tal ocorre em absoluta oposição à integralidade dos direitos humanos. Esta contradição denuncia uma intenção não explicitada.

Para encontrarmos a raiz última desta contradição, teremos de recuperar o que defendiam os pais daquela que é a mãe de todas as revoluções contemporâneas (a revolução francesa), revolução que inspirou a revolução russa e as suas congéneres e que nos chega ao parlamento pela via dos partidos da extrema-esquerda. Conscientes desta ligação direta, vejamos, então como, dos revolucionários franceses, se chegou ao nosso parlamento.

Defendia Robespierre, no contexto da revolução francesa, que era preciso acabar com a família, pois «a pátria tem o direito de educar os seus filhos; ela não pode confiar este depósito ao orgulho das famílias, nem aos preconceitos dos particulares, alimentos permanentes da aristocracia e de um federalismo doméstico que retrai as almas ao isolá-las.»[8]

Este espírito chega à revolução russa, inspirada em Marx que defendia, no seu ‘manifesto comunista’, a ‘supressão da família!’, acrescentando que ‘até os mais radicais se indignam com este propósito infame dos comunistas.’[9]

No mesmo sentido se orientava o pensamento de Engels sobre a família monogâmica, que sustenta que ‘a libertação da mulher exige, como primeira condição, a reincorporação de todo o sexo feminino na indústria social, o que, por sua vez, requer a supressão da família individual enquanto unidade económica da sociedade.’[10].

A causa está enunciada… A estratégia está em curso!

 

Uma oposição firme, em nome de uma sociedade de confiança e solidariedade

Os dados diante de nós parecem, por isso, inequívocos: passo a passo, vai-se impondo uma sufocante ‘ditadura suave’[11] que, em nome de valores que todos partilhamos (quem não se compadece de quem sofre? Quem não quer acabar com a dor dos que se dizem incapazes de se reconhecerem no que são?), mas sustentada num clima de medo (quem ousa dizer o que pensa se logo o ameaçam de que não quer o progresso ou, até, com processo judicial por discurso de ódio ou algo semelhante?) se vai entranhando, defendendo o isolamento do indivíduo e relativizando o papel da família, numa lógica de facto consumado.

Se esta tese vingar, restará, no final, o indivíduo, sozinho, perante o Estado. Restarão o cidadão e o Estado.

Seremos mais fortes, assim? Ou mais vulneráveis à manipulação e à instrumentalização e suscetíveis de depender, exclusivamente, de um Estado que tudo parecerá saber e tudo nos oferecerá, de forma paternalista e totalitária?

É por tudo isto que a oposição a estas (só) aparentemente inofensivas mudanças legislativas se exige e impõe a cada um dos que continuam a acreditar numa sociedade livre, onde somos seres que se relacionam, não assentando a convivência no pressuposto da luta de classes e do conflito, mas no da confiança e da solidariedade, em que Estado e sociedade (e, nela, a família, como célula básica de um tecido com liames sempre frágeis e que importa resolutamente proteger) se respeitam, cooperam, pois o Estado não é fim em si mesmo, mas meio para a promoção da pessoa e da mesma sociedade. Opor-se a este tipo de legislação é defender uma verdadeira sociedade compassiva, capaz de sofrer, autenticamente, com o outro, não lançando sobre todos os motivos do sofrimento de alguém, mas procurando solucionar, autentica e comunitariamente, as causas do sofrimento. Impõe-se refletir, decidir em conjunto, com olhos no todo de cada pessoa e não só no seu presente; ela também é o seu futuro e o seu passado…

À família regressamos, quando tudo desaba. Onde regressaremos, se já nem a família restar?



[1] https://www.publico.pt/2023/08/08/p3/noticia/quase-150-menores-ja-mudaram-nome-genero-cartao-cidadao-2059565

[2] Segundo dados do Pordata, consultados em 6 de janeiro de 2023, frequentam o ensino básico e secundário 1.327.423 alunos, não estando aqui incluídos os do ensino pré-escolar, também afetados por este tipo de legislação, que representam 259.030 alunos, o que reduziria a dimensão desta percentagem de 0,01%. (https://www.pordata.pt/portugal/alunos+matriculados+total+e+por+nivel+de+ensino-1002-7954)

[3] https://canal.parlamento.pt/?cid=6179&title=audiencia-da-associacao-de-defesa-e-apoio-da-vida-aveiro

[4] Leia-se, a este propósito, o que resume Maria Luísa Pedroso Lima, Nós e os outros: o poder dos laços sociais, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos, pp. 42-48. Estes estudos evidenciam, entre outras coisas, que, ‘se três ou mais dos membros do grupo afirmarem decididamente uma posição, mesmo que ela seja obviamente falsa, é bastante provável que os restantes sejam influenciados por ela e a aceitem.’ (Op. Cit., p. 47)

[5] Veja-se, a este propósito, o vídeo https://youtu.be/vJG698U2Mvo, que permite compreender quão condicionados somos por uma excessiva concentração num determinado aspeto, preterindo os restantes. 

[6] Recomendo o visionamento atento do vídeo, particularmente a partir do minuto 25: (https://www.youtube.com/watch?v=A_HFxALrTS8).

[7] https://unric.org/pt/declaracao-universal-dos-direitos-humanos/

[8] Renaud Escande, O livro negro da revolução francesa, Lisboa, Editora Alêtheia, 2010, p.724.

[9] «Manifesto Comunista», in AA.VV. Contributo para a história do feminismo, Lisboa, Alêtheia, p. 18.

[10] F. Engels, «A origem da Família, da propriedade e do Estado» in AA.VV. Contributo para a história do feminismo, Lisboa, Alêtheia, p. 90.

[11] Expressão de ‘Braunstein’, no seu livro ‘a religião woke’, para se referir a toda a onda de promoção da autodeterminação de género. Um livro muito oportuno e útil para a leitura de fundo desta vertigem. Jean-François Braunstein, A religião woke, Lisboa, Guerra e Paz, 2023, p. 174.

sábado, dezembro 16, 2023

A autodeterminação que só pode ser de género…

Há uma estratégia de lógica que nos permite identificar a qualidade dos nossos pressupostos: o exercício de os levar até ao absurdo. Se resistirem a esse exercício, podemos dá-los como úteis, eficazes e legítimos. Se não resistirem, convém arrepiarmos caminho.

Ora, um qualquer básico exercício de lógica permitirá verificar se podemos contar com essa fiabilidade quando se trata de adotar para a vida em sociedade o que está definido como sendo ‘autodeterminação de género’.

O pressuposto desta ‘teoria’ ou ‘ideologia’, que por ser ‘totalizante’ (ousaria chamar-lhe ‘totalitária’) deixa sem resposta quem é confrontado com o soundbite de quem a quer defender e pergunta ‘mas és a favor do sofrimento de uma criança que diz que é de outro género que não o seu?’, é o de que o género que nos identifica só nós podemos saber qual é, pois não é observável, de forma objetiva e a partir de indicadores biologicamente constatáveis.

Só o sujeito, de dentro para fora, sabe qual o género que o identifica.

Se tomarmos este pressuposto e o submetermos ao crivo do exercício ‘ad absurdum’, chegaremos à conclusão de que, se a autodeterminação de género afirma que é o indivíduo que determina qual o seu género e não a biologia ou a natureza, teremos de concluir que assim ocorrerá, também, em termos de idade e de todas as outras matérias que concernem à vida do referido indivíduo a quem se conferiu a qualidade de critério primeiro e único de toda a identidade que lhe concerne.

Sendo assim, e aplicando à vida da escola, âmbito sobre o qual determinou (!) o parlamento que deveriam aplicar-se, no imediato, decisões que concernem à autodeterminação de género (curioso que não se tenha definido isso em relação, por exemplo, aos centros comerciais, às instituições públicas várias – hospitais, centros de saúde , serviços de toda a natureza, etc…), então, as conclusões a retirar sobre o impacto da aceitação de tal conceito de autodeterminação podem configurar-se em interrogações como estas: porque não pode, então, um aluno de primeiro ano que sofre por estar nesse ano quando se sente mais identificado com os colegas de quarto ano ou de quinto ano, exigir que o coloquem num ano posterior? Porque não pode um aluno que se sente pobre (afinal, não tem telemóvel como tantos outros colegas, ou computador ou roupa desta ou daquela qualidade…) exigir que lhe sejam atribuídos os benefícios próprios do sentimento profundo que tem? Porque não pode um aluno que tem dez anos, mas se sente com a responsabilidade de um de dezoito anos, votar ou receber um salário (pois, afinal, não é a sua profissão a de estudante?)? Porque não pode um aluno que sofre e foge da escola por causa desse sofrimento, exigir que lhe permitam abandonar de vez a escola, mas o forçam a frequentar uma imposição chamada ‘escolaridade obrigatória’? Porque não pode um aluno, que sofre por ter essa malfadada matemática, exigir deixar de a ter, assim como todas as disciplinas que detesta e lhe causam sofrimento?

E poderíamos continuar…

Para todas estas questões, sabemos que a resposta não é a legitimação do ‘sentir’ individual, mas o acompanhamento e o discernimento entre indivíduo e sociedade, numa articulação em que a prevalência nunca é absoluta de um só dos lados.

Na autodeterminação de género esse equilíbrio perdeu-se, prevalecendo, de forma absoluta, o indivíduo, fechado sobre si, sem história nem natureza, sem herança mas todo autogerado, tornado o centro exclusivo e cabendo a todo o mundo mudar-se para se conformar a ele.

Uma visão deste género mata a sociedade, mata as relações, obriga a esperar que o indivíduo diga quem é, havendo um absoluto silêncio prévio. Torna impossível saber quem é o outro, enquanto herança e acolhimento. Não há reciprocidade: há um movimento de único sentido: do indivíduo para os outros. Não pode, por isso, senão ser fonte de litígios, pois toda a ousadia de dizer que o outro é quem conhecemos, porque é portador de uma história, é tomada como um insulto e uma agressão.

Imagine-se o que seria a sociedade se a todas as relações se aplicasse este princípio: nada poderia pressupor-se, antes de que todos os dados fossem facultados por cada indivíduo.

É por tudo isto que a lei sobre a autodeterminação de género, nas escolas, é grave e trai a confiança em que assentam as relações: a confiança de que quem eu tenho diante de mim é alguém que eu conheço. Uma sociedade em que a autodeterminação que, agora, é de género, fosse de todas as condições, seria uma sociedade ‘alzheimer’, uma sociedade de amnésia total. Nada do que fomos estaria em cada presente, pelo que nada do que somos seria futuro.

É isto que queremos?


terça-feira, dezembro 05, 2023

O Tempo É advento...

 (Artigo originalmente publicado na Agência Ecclesia) 

Só um olhar crente pode reconhecer, no tempo, a sua condição de ‘advento’, entendido como ‘aproximação’, ‘chegada’, ‘vinda’[1], termo que traduz, para latim, o que se dizia, em grego (no Novo Testamento) com ‘parousía’, evocando a ideia de ‘presença’, ‘chegada’, ‘ocasião favorável’[2].

Qualquer que seja a opção de tradução que tomemos, permanece a ideia da novidade que emerge, na história, assomando ao espírito humano como expectativa e realidade maior (divina) que se antecipa.

O termo não é, originariamente, cristão, antes, é cristianizado, sendo utilizado [na] ‘linguagem cultual primitiva [para designar] a vinda anual da divindade ao seu templo para visitar os seus fiéis. Segundo a crença pagã, cada deus permanecia no meio dos seus devotos durante o tempo em que a sua estátua estava exposta ao culto por ocasião da festa anual em sua honra. Na linguagem cortesã o advento designava também a primeira visita oficial de uma personagem importante com atributos divinos.’ [3]

Com ‘advento’ evoca-se esta tensão entre o tempo e o eterno, o efémero e o definitivo, sendo que a história da cristianização deste termo nos evidencia que é a original surpresa pela realidade maior que gera, nos sujeitos humanos, a atitude de expectativa. A anterioridade é a da realidade esperada, não a da espera, em si.

Com efeito, a história da emergência, na liturgia cristã, confirma-o.

A história da consolidação, na liturgia cristã, da celebração do advento, cujas primeiras referências nos aparecem em S. Hilário de Poitiers, por volta de 360, que fala de ‘um período de três semanas de preparação do natal, a começar no dia 17 de dezembro até ao dia 6 de janeiro’[4] e, depois reforçadas, no concílio de Saragoça, em 380, que ‘determina que ninguém falte à igreja nas três semanas que precedem a Epifania’[5], fixando-se, definitivamente, com a reforma gregoriana (séc. VII), com as características que tem hoje, depois de ter chegado a ser de quarenta dias – que lhe valera o nome de ‘quaresma de inverno’ (indo desde a festa de S. Martinho até à Epifania)[6]-, evidencia que, primeiramente, o olhar se concentra na festa do Natal, só assente nas vivências cristãs muito após a centralidade consolidada da Páscoa, criando-se, só depois, o estado de expectativa e esperança.

Ora, retomemos, por isso, a ideia inicialmente exposta de que “só um olhar crente pode reconhecer, no tempo, a sua condição de ‘advento’”.

Caminhamos… Como diz Gabriel Marcel, somos ‘homo viator’. Mas que natureza tem este nosso caminhar?

Não o sabemos, previamente.

O caminhar humano pode não ser mais do que um ‘errare’, termo que significa, simultaneamente, ‘vaguear’, ‘deambular’, ‘andar ao acaso’, e, também, ‘afastar-se da verdade’, ‘estar em erro’, ‘errar’, ‘cometer um erro’.

A densidade semântica do termo, que se mantém na nossa língua, é particularmente significativa. Definir-se-á o caminhar humano como o de um ser que ‘erra’?

A visão crente antepõe a esta metáfora do errante uma outra, na qual se repercute a densidade da ideia do advento: a do peregrino…

O peregrino vive em advento. O seu tempo, o seu caminhar não é o do errante, mas o de quem se encaminha, expectante, para um horizonte. Não um horizonte que ele cria, mas que se abre, diante dos seus olhos, como realidade que o ‘invade’ e o projeta para a frente (precisamente o que afirma a ideia de ‘projeto’ – ‘lançar-se para diante’). Sendo o tempo um advento, tudo adquire um outro significado, tornando-se a própria realidade já não um ‘objeto’, uma realidade exposta, sem densidade, mas o lugar de uma tensão; a realidade torna-se toda ela, no dizer de W. Pannenberg, proléptica, antecipatória[7].

Caminha-se… mas não se caminha sem rumo. Caminha-se para algures… E, em cada expressão, mesmo que diminuta, de significado e de sentido, densifica-se a realidade como experiência simbólica, experiência que une o ‘já’ e o ‘ainda não’. Como dizia o então Professor Joseph Ratzinger, numa luminosa homilia na Catedral de Münster (em 1964), ‘estamos no Advento. Todas as nossas respostas continuam a ser peças soltas, fragmentos parciais. A primeira coisa que temos de aceitar é, sempre, esta realidade do Advento permanente.’[8]

Desta constatação aparentemente tão simples resultam duas consequências muito significativas: sendo tudo um advento, sendo o tempo lugar da espera e da esperança, resulta daqui que, por um lado, o absoluto não é, ainda, o agora (quantas consequências para a leitura sobre o fundamentalismo e a presunção da total posse da verdade! Na senda do que entende o mesmo professor Ratzinger, o advento é, aqui, um ‘ainda não’[9]), pois o absoluto encontra-se para além da História, como eterno para o qual se encaminha o tempo; e, em segundo lugar, o tempo também se densifica, pois, nele, prepara-se o eterno ou, como diz Leonardo Boff, no tempo ‘transparece’[10] o eterno (Ah, quantas consequências para os relativismos e todas as indevidas errâncias pós-modernas e hipermodernas! De acordo com esta segunda conclusão, a condição de ‘advento’ diz do tempo que ele é, também, um ‘já’.).

O tempo é advento… É um longo advento. Algo se aproxima, Alguém se revelará quando, definitivamente, o tempo der lugar ao eterno.

Mas, até lá, somos peregrinos. Não erramos!

 



[1] Cfr. Dicionário de Latim-Português, Porto, Porto Editora, 2001, 2.ª edição.

[2] Isidro Pereira, Dicionário grego-português e português-grego, Braga, Livraria A.I, s/d, 8.ª edição.

[3] Pedro Ferreira, OCD, ‘O tempo do advento’, in A celebração do mistério do Natal, Coimbra, Gráfica de Coimbra, p. 47.

[4] Art. Cit,, p. 48.

[5] Ibidem, p. 48.

[6] Cfr. Ibidem, pp. 48-49.

[7] Cfr. Luís Silva, Teologia, ciência e verdade: fundamentos para uma definição do estatuto científico da teologia segundo W. Pannenberg, Coimbra, Gráfica de Coimbra, 2004, p. 102.

[8] Joseph Ratzinger, Do sentido do ser cristão, Cascais, Principia, 2009, pp. 35-36.

[9] A citação mais completa da homilia do prof. Ratzinger (Papa Bento XVI) evoca esta ideia de que, por estarmos em Advento, estamos num tempo de incompletude, ‘antes de Cristo’: ‘A primeira coisa que temos de aceitar é, sempre, esta realidade do Advento permanente. Se o fizermos, vamos começar a reconhecer que a fronteira entre «antes de Cristo» e «depois de Cristo» não é exteriormente transversal ao tempo histórico e não pode ser registada no mapa, mas que atravessa o nosso próprio coração. Enquanto vivermos do egoísmo, da concentração em nós próprios, estaremos, ainda hoje, «antes de Cristo».’ - Joseph Ratzinger, op. Cit., p.36.

[10] Cfr. Leonardo Boff, Os sacramentos da vida e a vida dos sacramentos, Petrópolis, Vozes, 1993.

E ao pó hás-de voltar… Não às cinzas estéreis e anónimas.

  Há uma sabedoria profunda, verdadeiramente divina, no ato de inumar o ‘corpo’ morto, de o devolver ao regaço adâmico de que proveio. Mas u...